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Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
CAPÍTULO 12
UM EPISÓDIO DE 1814
MAS EU NÃO QUERO passar adiante, sem contar sumariamente
um galante episódio de 1814; tinha nove anos. Napoleão,
quando eu nasci, estava já em todo o esplendor da glória
e do poder; era imperador e granjeara inteiramente a
admiração dos homens. Meu pai, que a força de persuadir
os outros da nossa nobreza, acabara persuadindo-se a
si próprio, nutria contra ele um ódio puramente mental.
Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa,
porque meu tio João, não sei se por espírito de classe
e simpatia de ofício, perdoava no déspota o que admirava
no general, meu tio padre era inflexível contra o corso,
e outros parentes dividiam-se: daí as controvérsias
e as rusgas. Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da
primeira queda de Napoleão, houve naturalmente grande
abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque. Os
vencidos, testemunhas do regozijo público, julgaram
mais decoroso o silêncio; alguns foram além e bateram
palmas. A população, cordialmente alegre, não regateou
demonstrações de afeto à real família; houve iluminações
salvas, Te Deum, cortejo e aclamações. Figurei nesses
dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no
dia de Santo Antônio; e, francamente, interessava-me
mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Nunca me
esqueceu esse fenômeno. Nunca mais deixei de pensar
comigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada
de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando
era vivo, li muita página rumorosa de grandes idéias
e maiores palavras, mas não sei por que, no fundo dos
aplausos que me arrancavam da boca, lá escoava alguma
vez este conceito de experimentado: --Vai-te embora,
tu só cuidas do espadim. Não se contentou a minha família
em ter um quinhão anônimo no regozijo público; entendeu
oportuno e indispensável celebrar a destituição do imperador
com um jantar, e tal jantar que o ruído das aclamações
chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou quando menos
de seus ministros. Dito e feito. Veio abaixo toda a
velha prataria, herdada do meu avô Luís Cubas; vieram
as toalhas de Flandres, as grandes jarras da Índia;
matou-se um capado; encomendaram-se às madres da Ajuda
as compotas e as marmeladas; lavaram-se, arearam-se
poliram-se as salas, escadas, castiçais, arandelas,
as vastas mangas de vidro, todos os aparelhos do luso
clássico. Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade
seleta, o juiz-de-fora, três ou quatro oficiais militares,
alguns comerciantes e letrados, vários funcionários
da administração, uns com suas mulheres e filhas, outros
sem elas, mas todos comungando no desejo de atolar a
memória de Bonaparte no papo de um peru. Não era um
jantar mas um Te Deum; foi o que pouco mais ou menos
disse um dos letrados presentes, o Dr. Vilaça, glosador
insigne, que acrescentou aos pratos de casa o acepipe
das musas. Lembra-me, como se fosse ontem lembra-me
de o ver erguer-se, com a sua longa cabeleira de rabicho,
casaca de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu tio
padre que lhe repetisse o mote, e, repetido o mote,
cravar os olhos na testa de uma senhora. depois tossir,
alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo índice,
que apontava para o tecto e, assim posto e composto,
devolver o mote glosado. Não fez uma glosa, mas três;
depois jurou aos seus deuses não acabar mais. Pedia
um mote, davam-lho, ele glosava-o prontamente, e logo
pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras
presentes não pôde calar a sua grande admiração. --A
senhora diz isso, retorquia modestamente o Vilaça, porque
nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do século,
em Lisboa. Aquilo sim! que facilidade! e que versos!
Tivemos lutas de uma e duas horas, no botequim do Nicola,
a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Imenso talento
o do Bocage! Era o que me dizia, há dias, a senhora
Duquesa de Cadaval... E estas três palavras últimas,
expressas com muita ênfase, produziram em toda a assembléia
um frêmito de admiração e pasmo. Pois esse homem tão
dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava
com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de
tal homem, as damas sentiam-se superfinas; os varões
olhavam-no com respeito, alguns com inveja, não raros
com incredulidade. Ele, entretanto, ia caminho, a acumular
adjetivo sobre adjetivo, advérbio sobre advérbio, a
desfiar todas as rimas de tirano e de usurpador. Era
à sobremesa; ninguém já pensava em comer. No intervalo
das glosas, corria um burburinho alegre, um palavrear
de estômagos satisfeitos; os olhos moles e úmidos, ou
vivos e cálidos, espreguiçavam-se ou saltitavam de uma
ponta à outra da mesa, atulhada de doces e frutas, aqui
o ananás em fatias, ali o melão em talhadas, as compoteiras
de cristal deixando ver o doce de coco, finamente ralado,
amarelo como uma gema, -- ou então o melado escuro e
grosso, não longe do queijo e do cará. De quando em
quando um riso jovial, amplo, desabotoado, um riso de
família, vinha quebrar a gravidade política do banquete.
No meio do interesse grande e comum, agitavam-se também
os pequenos e particulares. As moças falavam das modinhas
que haviam de cantar ao cravo, e do minuete e do solo
inglês; nem faltava matrona que prometesse bailar um
oitavado de compasso, só para mostrar como folgara nos
seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim,
dava a outro notícia recente dos negros novos que estavam
a vir, segundo cartas que recebera de Luanda, uma carta
em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de
quarenta cabeças, e outra carta em que... Trazia-as
justamente na algibeira mas não as podia ler naquela
ocasião. O que afiançava é que podíamos contar, só nessa
viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos -- Trás.
. . trás. . . trás.. . fazia o Vilaça batendo com as
mãos uma na outra. O rumor cessava de súbito, como um
estacado de orquestra, e todos os olhos se voltavam
para o glosador. Quem ficava longe aconcheava a mão
atrás da orelha para não perder palavra, a mor parte,
antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de aplauso,
trivial e cândido. Quanto a mim, lá estava, solitário
e deslembrado, a namorar certa ! compota da minha paixão.
No fim de cada glosa ficava muito contente, esperando
que fosse a última, mas não era, e a sobremesa continuava
intacta. Ninguém se lembrava de dar a primeira voz.
Meu pai, à cabeceira, saboreava a goles extensos a alegria
dos convivas; mirava-se todo nos carões alegres, nos
pratos, nas flores, deliciava-se com a familiaridade
travada entre os mais distantes espíritos, influxo de
um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos
da compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe
que ma servisse mas fazia-o em vão. Ele não via nada;
via-se a si mesmo. E as glosas sucediam-se, como bátegas
d'água, obrigando-me a recolher o desejo e o pedido.
Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz
baixa o doce; enfim, bradei, berrei, bati com os pés.
Meu pai, que seria capaz de para me servir capaz de
me dar o sol, se eu lho exigisse, chamou um escravo
para me servir o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana
arrancara-me da cadeira e entregara-me a uma escrava,
não obstante os meus gritos e repelões. Não foi outro
o delito do glosador: retardara a compota e dera causa
à minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse
uma vingança, qualquer que fosse, mas grande e exemplar,
cousa que de alguma maneira o tornasse ridículo. Que
ele era um homem grave o Dr. Vilaça, medido e lento,
quarenta e sete anos, casado e pai. Não me contentava
o rabo de papel nem o rabicho da cabeleira; havia de
ser cousa pior. Entrei a espreitá-lo, durante o resto
da tarde, a segui-lo, na chácara, aonde todos desceram
a passear. Vi-o conversar com D. Eusébia, irmã do sargento-mor
Domingues, uma robusta donzelona, que se não era bonita,
também não era feia. -- Estou muito zangada com o senhor,
dizia ela. --Por que? --Porque.. . não sei por que.
.. porque é a minha sina... creio às vezes que é melhor
morrer. Tinham penetrado numa pequena moita; era lusco-fusco;
eu segui-os. O Vilaça levava nos olhos umas chispas
de vinho e de volúpia. --Deixe-me! disse ela. --Ninguém
nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéias são essas! Você
sabe que eu morrerei também... que digo?... morro todos
os dias de paixão, de saudades. . . D. Eusébia levou
o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memória
algum pedaço literário e achou este, que mais tarde
verifiquei ser de uma das óperas do Judeu. -- Não chores,
meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.
Disse isto; puxou-a para si; ela resistiu um pouco,
mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar,
muito ao de leve, um beijo, o mais medroso dos beijos.
--O Dr. Vilaça deu um beijo em D. Eusébia! bradei eu
correndo pela chácara. Foi um estouro esta minha palavra;
a estupefação imobilizou a todos; os olhos espraiavam-se
a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, segredos,
à socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando
o sereno. Meu pai puxou-me as orelhas, disfarçadamente,
irritado deveras com a indiscrição; mas no dia. seguinte,
ao almoço, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz a rir:
Ah! brejeiro! ah! brejeiro!
CAPÍTULO 13
UM SALTO
UNAMOS AGORA os pés e demos um salto por cima da escola,
a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar,
dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora
nos morros, ora nas praias onde quer que fosse propício
a ociosos. Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos,
os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais,
mui pouco e mui leve. Só era pesada, a palmatória, e
ainda assim. . . Ó palmatória, terror dos meus dias
pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho
mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto,
a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta
palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera
ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe,
as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim
de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias
tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição
de cor e com postura na aula; nada mais, nada menos
do que quer a vida, que e das últimas letras; com a
diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste
zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas
chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva
à mostras barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir,
absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição.
E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro,
pontual, metido numa casinha da Rua do Piolho, sem enfadar
o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste
o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo
um preto velho, ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos
da escrita. Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe
o nome todo nesta página: Ludgero Barata,--um nome funesto,
que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de
nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre
homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar
na algibeira das calças, umas largas calças de enfiar
--, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma
barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da
aula, dava um pio, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos
os últimos nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados,
moleques.--Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba,
porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados
no ar. Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância,
nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso,
inventivo e travesso. Era a flor, e não já da escola,
senão de toda a cidade. A mãe, viúva, com alguma cousa
de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, asseado,
enfeitado, com um vistoso pajem atrás, um pajem que
nos deixava gazear a escola, ir caçar ninhos de pássaros,
ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da
Conceição, ou simplesmente arruar, à toa, como dous
peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver
o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espírito
Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia
sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia,
qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade,
certa magnificência nas atitudes, nos meneios. Quem
diria que... Suspendamos a pena; não adiantemos os sucessos.
Vamos de um salto a 1822, data da nossa independência
política, e do meu primeiro cativeiro pessoal.
CAPÍTULO 14
O PRIMEIRO BEIJO
TINHA DEZESSETE anos; pungia-me um buçozinho que eu
forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos,
eram a minha feição verdadeiramente máscula. Como ostentasse
certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança,
com fumos de homem, se um homem com ares de menino.
Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava
na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue
nas veias, o corcel das antigas baladas, que o romantismo
foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas
ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal
ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo
o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão,
o transportou para os seus livros. Sim, eu era esse
garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina
que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte
pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos.
De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma...
não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção
na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer
tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola,
Marcela, a "linda Marcela", como lhe chamavam os rapazes
do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um
hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de
sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de
um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido,
encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas
doze anos. Cosas de Espanã. Quem quer que fosse, porém,
o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela
não possuía a inocência rústica, e mal chegava a entender
a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos,
um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe
não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos
e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro
e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo
Xavier, sujeito abastado e tísico, uma pérola. Vi-a
pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminárias,
logo que constou a declaração da independência, uma
festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos
dous rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com
todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma
cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante,
um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres
puras.--Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a,
tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada,
deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras
auroras. A meio caminho, chamaram-lhe "linda Marcela",
lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei,
confesso que fiquei tonto. Três dias depois perguntou-me
meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças,
nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela. O Xavier,
com todos os seus tubérculos, presidia ao banquete noturno
que eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para
a dona da casa. Que gentil que estava a espanhola! Havia
mais uma meia dúzia de mulheres, todas de partido, e
bonitas, cheias de graça, mas a espanhola... O entusiasmo,
alguns goles de vinho, o gênio imperioso, estouvado,
tudo isso me levou a fazer uma coisa única; à saída,
à porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante,
e tornei a subir as escadas. -- Esqueceu alguma cousa?
perguntou Marcela de pé, no patamar. --O lenço. Ela
ia abrir-me caminho para tornar à sala; eu segurei-lhe
nas mãos, puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não
sei se ela disse alguma cousa, se gritou, se chamou
alguém; não sei nada; sei que desci outra vez as escadas,
veloz como um tufão, e incerto como um ébrio.
CAPÍTULO 15
MARCELA
GASTEI TRINTA DIAS para ir do Rocio Grande ao coração
de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo,
mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso.
Que, em verdade, ha dous meios de granjear a vontade
das mulheres: o violento, como o touro de Europa, e
o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro
de Dânae, três inventos do padre Zeus; que, por estarem
fora da moda, aí ficam trocados no cavalo e no asno.
Não direi as traças que urdi, nem as peitas, nem as
alternativas de confiança e temor, nem as esperas baldadas,
nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Afirmo-lhes
que o asno foi digno do corcel, -- um asno de Sancho,
deveras filósofo, que me levou à casa dela, no fim do
citado período; apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o
pastar. Primeira comoção da minha juventude, que doce
que me foste! Tal devia ser. na criação bíblica, o efeito
do primeiro sol. Imagina tu esse efeito do primeiro
sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor. Pois
foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste
dezoito anos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.
Teve duas fases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer
outro nome, que eu de nomes não curo; teve a fase consular
e a fase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos
o Xavier e eu, sem que ele jamais acreditasse dividir
comigo o governo de Roma; mas, quando a credulidade
não pôde resistir à evidência, o Xavier depôs as insígnias,
e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a
fase cesariana. Era meu o universo mas, ai triste! não
o era de graça. Foi-me preciso coligir dinheiro, multiplicá-lo,
inventá-lo. Primeiro explorei as larguezas de meu pai;
ele dava-me tudo o que eu lhe pedia sem repreensão sem
demora, sem frieza; dizia a todos que e era rapaz e
que ele o fora também. Mas a tal extremo chegou o abuso,
que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais,
depois mais. Então recorri a minha mãe, e induzi-a a
desviar alguma cousa, que me dava às escondidas. Era
pouco; lancei mão de um recurso último: entrei a sacar
sobre a herança de meu pai, a assinar obrigações, que
devia resgatar um dia com usura. --Em verdade, dizia-me
Marcela, quando eu lhe levava alguma seda, alguma jóia:
em verdade, você quer brigar comigo. . . Pois isto é
cousa que se faça... um presente tão caro... E, se era
jóia, dizia isto a contemplá-la entre os dedos, a procurar
melhor luz, a ensaiá-la em si, e a rir, e a beijar-me
com uma reincidência impetuosa e sincera; mas, protestando,
derramava-se-lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me
feliz com vê-la assim. Gostava muito das nossas antigas
dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter;
Marcela juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro,
cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava; escondia-a
por medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros,
era própria. Eram sólidos e bons os móveis, de jacarandá
lavrado, e todas as demais alfaias, espelhos, jarras,
baixela, -- uma linda baixela da Índia, que lhe doara
um desembargador. Baixela do diabo, deste-me grandes
repelões aos nervos. Disse-o muita vez à própria dona;
não lhe dissimulava o tédio que me faziam esses e outros
despojos dos seus amores de antanho. Ela ouvia-me e
ria, com uma expressão cândida,--cândida e outra cousa,
que eu nesse tempo não entendia bem; mas agora, relembrando
o caso, penso que era um riso misto, como devia ter
a criatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de
Shakespeare com um serafim de Klopstock. Não sei se
me explico. E porque tinha notícia dos meus zelos tardios,
parece que gostava de os açular mais. Assim foi que
um dia como eu lhe não pudesse dar certo colar, que
ela vira num joalheiro, retorquiu-me que era um simples
gracejo, que o nosso amor não precisava de tão vulgar
estímulo. --Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa
triste idéia, concluiu ameaçando-me com o dedo. E logo,
súbita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me
com elas o rosto, puxou-me a si e fez um trejeito gracioso,
um momo de criança. Depois, reclinada na marquesa, continuou
a falar daquilo, com simplicidade e franqueza. Jamais
consentiria que lhe comprassem os afetos. Vendera muita
vez as aparências, mas a realidade, guardava-a para
poucos. Duarte, por exemplo, o alferes Duarte que ela
amara deveras, dous anos antes, só a custo conseguia
dar-lhe alguma cousa de valor, como me acontecia a mim
ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso
preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de
festas. --Esta cruz... Dizia isto, metendo a mão no
seio e tirando uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita
azul e pendurada ao colo. --Mas essa cruz, observei
eu, não me disseste que era teu pai que... Marcela abanou
a cabeça com um ar de lástima: --Não percebeste que
era mentira, que eu dizia isso para te não molestar?
Vem cá, chiquito, não sejas assim desconfiado comigo..
. Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando-
nos separarmos. . . --Não digas isso! bradei eu. --Tudo
cessa! Um dia. . . Não pode acabar; um soluço estrangulou-lhe
a voz; estendeu as mãos, tomou das minhas, conchegou-me
ao seio, e sussurrou-me baixo ao ouvido: Nunca, nunca,
meu amor! Eu agradeci-lho com os olhos úmidos. No dia
seguinte levei-lhe o colar que havia recusado. --Para
te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.
Marcela teve primeiro um silêncio indignado; depois
fez um gesto magnífico: tentou atirar o colar à rua.
Eu retive-lhe o braço; pedi-lhe muito que não me fizesse
tal desfeita, que ficasse com a jóia. Sorriu e ficou.
Entretanto, pagava-me à farta os sacrifícios; espreitava
os meus mais recônditos pensamentos; não havia desejo
a que não acudisse com alma, sem esforço, por uma espécie
de lei da consciência e necessidade do coração. Nunca
o desejo era razoável, mas um capricho puro, uma criancice,
vê-la trajar de certo modo, com tais e tais enfeites,
este vestido e não aquele, ir a passeio ou outra cousa
assim, e ela cedia a tudo, risonha e palreira. --Você
é das Arábias -- dizia-me. E ia a pôr o vestido, a renda,
os brincos, com uma obediência de encantar.
CAPITULO 16
UMA REFLEXÃO IMORAL
OCORRE ME uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo
uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo
14, que Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria,
vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer; assim o
afirmam todos os joalheiros deste mundo, gente muito
vista na gramática. Bons joalheiros, que seria do amor
se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou
um quinto do universal comércio dos corações. Esta é
a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda
mais obscura do que imoral, porque não se entende bem
o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais
bela testa do mundo não fica menos bela, se a cingir
um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos
amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela
amou-me ..
CAPÍTULO 17
DO TRAPÉZIO E OUTRAS COUSAS
. . .MARCELA amou-me durante quinze meses e onze contos
de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos
onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso
excedia as raias de um capricho juvenil. -- Desta vez,
disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma Universidade,
provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e não
para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de
espanto:-- Gatuno, sim senhor; não é outra cousa um
filho que me faz isto... Sacou da algibeira os meus
títulos de dívida, já resgatados por ele, e sacudiu-mos
na cara.--Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar
o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhamos
o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas?
Pelintra! Desta vez ou tomas juízo, ou ficas sem cousa
nenhuma. Estava furioso, mas de um furor temperado e
curto. Eu ouvi-o calado, e nada! opus à ordem da viagem,
como de outras vezes fizera; ruminava a idéia de levar
Marcela comigo. Fui ter com ela; expus-lhe a crise e
fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no
ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que
ficava, que não podia ir para a Europa. --Porque não?
--Não posso, disse ela com ar dolonte; não posso ir
respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de meu pobre
pai, morto por Napoleão . . . --Qual deles: o hortelão
ou o advogado? Marcela franziu a testa, cantarolou uma
seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor,
e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lho a mucama, numa
salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos.
Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta
foi dar com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe
o líquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe
que se fosse embora. Ficando a sós, derramei todo o
desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um monstro,
que jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo,
sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe
muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos.
Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas
nos dentes, fria como um pedaço de mármore. Tive ímpetos
de a estrangular, de a humilhar ao menos, subjugando-a
a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas a ação trocou-se
noutra; fui eu que me atirei aos pés dela, contrito
e súplice; beijei-lhos recordei aqueles meses da nossa
felicidade solitária, repeti-lhe os nomes queridos de
outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os
joelhos dela, apertando-lhe muito as mãos; ofegante,
desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse...
Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim, calados,
ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:
--Não me aborreça, disse. Levantou-se, sacudiu o vestido,
ainda molhado, e caminhou para a alcova.--Não! bradei
eu; não hás de entrar... não quero. . . Ia a lançar-lhe
as mãos: era tarde; ela entrara e fechara-se. Saí desatinado;
gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais
excêntricos e desertos, onde fosse difícil dar comigo.
Ia mastigando o meu desespero, com uma espécie de gula
mórbida; evocava os dias, as horas, os instantes de
delírio, e ora me comprazia em crer que eles eram eternos,
que tudo aquilo era um pesadelo, ora, enganando-me a
mim mesmo? tentava rejeitá-los de mim, como um fardo
inútil. Então resolvia embarcar imediatamente para cortar
a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéia
de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de
saudades e remorsos. Que ela amara-me a tonta, devia
de sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como
do alferes Duarte... Nisto, o dente do ciúme enterrava-se-me
no coração; toda a natureza bradava que era preciso
levar Marcela comigo. --Por força. . . por força. .
. dizia eu ferindo o ar com uma punhada. Enfim, tive
uma idéia salvadora... Ah! trapézio dos meus pecados,
trapézio das concepções abstrusas! A idéia salvadora
trabalhou neles como a do emplasto (capítulo II). Era
nada menos que fasciná-la, fasciná-la muito, deslumbrá-la,
arrastá-la; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto
do que a súplica. Não medi as conseqüências; recorri
a um derradeiro empréstimo; fui à Rua dos Ourives, comprei
a melhor jóia da cidade, três diamantes grandes encastoados
num pente de marfim; corri à casa de Marcela. Marcela
estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado,
uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pezinho calçado
de meia de seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar
quieto e sonolento. --Vem comigo, disse eu, arranjei
recursos... temos muito dinheiro, terás tudo o que quiseres...
Olha, toma. E mostrei-lhe o pente com os diamantes.
. . Marcela teve um leve sobressalto, ergueu metade
do corpo, e, apoiada num cotovelo, olhou para o pente
durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos;
tinha-se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos
cabelos, coligi-os, enlacei-os à pressa, improvisei
um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente
de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe
as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma simetria
naquela desordem, tudo com uma minuciosidade e um carinho
de mãe. --Pronto, disse eu. --Doudo! foi a sua primeira
resposta. A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me
o sacrifício com um beijo, o mais ardente de todos.
Depois tirou o pente, admirou muito a matéria e o lavor,
olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça com
um ar de repreensão: --Ora você! dizia. --Vens comigo?
Marcela refletiu um instante. Não gostei da expressão
com que passeava os olhos de mim para a parede, e da
parede para a jóia; mas toda a má impressão se desvaneceu,
quando ela me respondeu resolutamente: --Vou. Quando
embarcas? --Daqui a dous ou três dias. --Vou. Agradeci-lho
de joelhos. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros
dias, e disse-lho; ela sorriu, e foi guardar a jóia,
enquanto eu descia a escada.
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