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CAPÍTULO
141
Os Cães
- Mas, enfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me
o Quincas Borba, indo pôr a xícara vazia no parapeito
de uma das janelas. - Não sei; vou meter-me na Tijuca;
fugir aos homens. Estou envergonhado, aborrecido. Tantos
sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada.
- Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto
de indignação. Para distrair-me, convidou-me a sair;
saimos para os lados do Engenho Velho. Íamos a pé, filosofando
as coisas. Nunca me há de esquecer o benefício desse
passeio, que me restituiu o sossego e a força. A palavra
daquele grande ho- mem era o cordial da sabedoria. Disse-me
ele que eu não podia fugir ao combate; se me fechavam
a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar
uma expressão menos elevada, mostrando assim que a língua
filosófica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no
calão do povo. Funda um jornal, disse- me ele, e "desmancha
toda esta igrejinha". - Magnífica idéia! Vou fundar
um jornal, vou escachá- los, vou... - Lutar. Podes escachá-los
ou não; o essencial é que lutes. Vida é luta. Vida sem
luta é um mar morto no centro do organismo universal.
Daí a pouco demos com uma briga de cães; fato que aos
olhos de um homem vulgar não teria valor. Quincas Borba
fez- me parar e observar os cães. Eram dois. Notou que
ao pé deles estava um osso, motivo da guerra, e não
deixou de chamar a minha atenção para a circunstância
de que o osso não tinha carne. Um simples osso nu. Os
cães mordiam-se, rosnavam, com furor nos olhos... Quincas
Borba meteu a bengala debaixo do braço, encostou o queixo
no costão e parecia em êxtase. - Que belo que isto é!
dizia ele de quando em quando. Quis arrancar-me dali,
mas não pude; ele estava arraigado ao chão, e só continuou
a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um dos
cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra
parte. Notei que ficara sinceramente alegre, posto contivesse
a alegria, segundo convinha a um grande filósofo. Fez-me
observar a beleza do espetáculo, relembrou o objeto
da luta, concluiu que os cães tinham fome; mas a privação
do alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia.
Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo
o espetáculo é mais grandioso; as criaturas humanas
é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos
apetecíveis; luta que se complica muito, porque entra
em ação a inteli- gência do homem, com todo o acúmulo
de sagacidade que lhe deram os séculos, etc.
CAPÍTULO 142
O Pedido Secreto
Quanta coisa num minuete! como dizia o outro. Quanta
coisa numa briga de cães! Mas eu não era um discípulo
servil ou medroso, que deixasse de fazer uma ou outra
objeção adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma dúvida;
não estava bem certo da vantagem de disputar a comida
aos cães. Ele respondeu-me com excepcional brandura:
- Disputá-la aos outros homens é mais lógico, porque
a condição dos contendores é a mesma, e leva o osso
o que for mais forte. Mas por que não será um espetáculo
grandioso disputá-lo aos cães? Voluntariamente, comem-se
gafanhotos, como o Precursor, ou coisa pior, como Ezequiel;
logo, o ruim é comível; resta saber se é mais digno
do homem disputá-lo, por virtude de uma necessidade
natural, ou preferi-lo, para obedecer a uma exaltação
religiosa, isto é, modificável, ao passo que a fome
é eterna, como a vida e como a morte. Estávamos à porta
de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma
senhora. Entramos, e o Quincas Borba, com a discrição
própria de um filósofo, foi ler a lombada dos livros
de uma estante, enquanto eu lia a carta, que era de
Virgília: "Meu bom amigo, Dona Plácida está muito mal.
Peço-lhe o favor de fazer alguma coisa por ela; mora
no Beco das Escadinhas; veja se alcança metê-la na Misericórdia.
Sua amiga sincera, " Não era a letra fina e correta
de Virgília, mas grossa e desigual; o V da assinatura
não passava de um rabisco sem intenção alfabética; de
maneira que, se a carta aparecesse, era mui difícil
atribuir-lhe a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre
Dona Plácida! Mas eu tinha-lhe deixado os cinco contos
da praia da Gamboa, e não podia compreender que... -
Vais compreender, disse Quincas Borba, tirando um livro
da estante. - O quê? perguntei espantado. - Vais compreender
que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus avós
espirituais; e, conquanto a minha filosofia valha mais
que a dele, não posso negar que era um grande homem.
Ora, que diz ele nesta página? - E, chapéu na cabeça,
bengala sobraçada, apontava o lugar com o dedo. - Que
diz ele? Diz que o homem tem "uma grande vantagem sobre
o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o
universo ignora-o absolutamente". Vês? Logo, o homem
que disputa o osso a um cão tem sobre este a grande
vantagem de saber que tem fome; e é isto que torna grandiosa
a luta, como eu dizia. "Sabe que morre" é uma expressão
profunda; creio todavia que é mais profunda a minha
expressão: sabe que tem fome. Porquanto, o fato da morte
limita, por assim dizer, o entendimento humano; a consciência
da extinção dura um breve instante e acaba para nunca
mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar,
de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não
vai nisso alguma imodéstia), que a fórmula de Pascal
é inferior à minha, sem todavia deixar de ser um grande
pensamento, e Pascal um grande homem.
CAPÍTULO 143
Não Vou
Enquanto ele restituia o livro à estante, relia eu o
bilhete. Ao jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava
sem acabar de engolir, fitava o canto da sala, a ponta
da mesa, um prato, uma cadeira, uma mosca invisível,
disse-me ele: -Tens alguma coisa; aposto que foi aquela
carta? - Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incomodado,
com o pedido de Virgília. Tinha dado a Dona Plácida
cinco contos de réis; duvido muito que ninguém fosse
mais generoso do que eu, nem tanto. Cinco contos! E
que fizera deles? Naturalmente botou-os fora, comeu-os
em grandes festas, e agora roca para a Misericórdia,
e eu que a leve! Morre-se em qualquer parte. Acresce
que eu não sabia ou não me lembrava do tal Beco das
Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum recanto
estreito e escuro da cidade. Tinha de lá ir, chamar
a atenção dos vizinhos, bater à porta, etc. Que maçada!
Não vou.
CAPÍTULO 144
Utilidade Relativa
Mas a noite, que é boa conselheira, ponderou que a cortesia
mandava obedecer aos desejos da minha antiga dama. -
Letras vencidas, urge pagá-las, disse eu ao levantar-me.
Depois do almoço fui à casa de Dona Plácida; achei um
molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre
um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro.
No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia;
onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu
morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara.
Outra vez perguntei, a mim mesmo, como no capítulo 75,
se era para isto que o sa- cristão da Sé e a doceira
trouxeram Dona Plácida à luz, num momento de simpatia
específica. Mas adverti logo que, se não fosse Dona
Plácida, talvez os meus amores com Virgília tivessem
sido interrompidos, ou imediatamente quebrados, em plena
efervescência; tal foi, portanto, a utilidade da vida
de Dona Plácida. Utilidade relativa, convenho; mas que
diacho há absoluto nesse mundo?
CAPÍTULO 145
Simples Repetição
Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um
canteiro da vizinhança fingiu-se enamorado de Dona Plácida,
logrou espertar-lhe os sentidos, ou a vaidade, e casou
com ela; no fim de alguns meses inventou um negócio,
vendeu as apólices e fugiu com o dinheiro. Não vale
a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples
repetição de um capítulo. |
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