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CAPÍTULO
137
A Barretina
E daí, não; ele resume as reflexões que fiz no dia seguinte
ao Quincas Borba, acrescentando que me sentia acabrunhado,
e mil outras coisas tristes. Mas esse filósofo, com
o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia
escorregando na ladeira fatal da melancolia. - Meu caro
Brás Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que
diacho! é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer!
brilhar! influir! dominar! Cinqüenta anos é a idade
da ciência e do governo. Ânimo, Brás Cubas; não me sejas
palerma. Que tens tu com essa sucessão de ruína ou de
flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo
que a pior filosofia é a do choramingas que se deita
à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante
das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te
com a lei, e trata de aproveitá-la. Vê-se nas menores
coisas o que vale a autoridade de um grande filósofo.
As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir
o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos
governo. Crê-lo-eis pósteros? Eu não havia intervindo
até então nos grandes debates. Cortejava a pasta por
meio de rapapés, chás, comissões de votos; e a pasta
não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna. Comecei devagar.
Três dias depois, discutindo-se o orçamento da Justiça,
aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro
se não julgava útil diminuir a barretina na guarda nacional.
Não tinha vasto alcance o objeto da pergunta; mas ainda
assim demonstrei que não era indigno das cogitações
de um homem de Estado; e citei Filopêmen, que ordenou
a substituição dos broquéis de suas tropas, que eram
pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças,
que eram demasiado leves; fato que a história não achou
que desmentisse a gravidade de suas páginas. O tamanho
das nossas barretinas estava pedindo um corte profundo,
não só por se- rem deselegantes, mas também por serem
anti-higiênicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor
produzido por elas podia ser fatal. Sendo certo que
um dos preceitos de Hipócrates era trazer a cabeça fresca,
parecia cruel obrigar um cidadão, por simples consideração
de uniforme, a arriscar a saúde e a vida, e conseqüentemente
o futuro da família. A Câmara e o Governo deviam lembrar-se
que a Guarda Nacional era o anteparo da liberdade e
da independência, e que o cidadão, chamado a um serviço
gratuito, freqüente e penoso, tinha direito a que se
lhe diminuísse o ônus, decretando um uniforme leve e
maneiro. Acrescia que a barretina, por seu peso, abatia
a cabeça dos cidadãos, e a pátria precisava de cidadãos
cuja fron- te pudesse levantar-se altiva e serena diante
do poder; e conclui com esta idéia; o chorão, que inclina
os seus galhos para a terra, é árvore de cemitério;
a palmeira, ereta e firme, é árvore do deserto, das
praças e dos jardins. Vária foi a impressão deste discurso.
Quanto à forma, ao rapto eloqüente, à parte literária
e filosófica, a opinião foi só uma; disseram-me todos
que era completo, e que de uma barretina ninguém ainda
conseguira tirar tantas idéias. Mas a parte política
foi considerada por muitos deplorável; alguns achavam
o meu discurso um desastre parlamentar; enfim, vie-
ram dizer-me que outros me davam já em oposição, entrando
nesse número os oposicionistas da câmara, que chegaram
a insinuar a convivência de uma moção de desconfiança.
Repeli energicamente tal interpretação, que não era
só errônea, mas caluniosa, à vista da notoriedade com
que eu sustentava o Gabinete; acrescentei que a necessidade
de diminuir a barretina não era tamanha que não pudesse
esperar alguns anos; e que, em todo caso, eu transigiria
na extensão do corte, contentando-me com três quartos
de polegada ou menos; enfim; dado mesmo que a minha
idéia não fosse adotada, bastava-me tê-la iniciado no
parlamento. O Quincas Borba, porém, não fez restrição
alguma. Não sou homem político, disse-me ele ao jantar;
não sei se andaste bem ou mal; sei que fizeste um excelente
discurso. E então notou as partes mais salientes, as
belas imagens, os argumen- tos fortes, com esse comedimento
de louvor que tão bem fica a um grande filósofo; depois,
tomou o assunto à sua conta, e impugnou a barretina
com tal força, com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me
efetivamente do seu perigo.
CAPÍTULO 138
A Um Crítico
Meu caro crítico, Algumas páginas atrás, dizendo eu
que tinha cinqüenta anos, acrescentei: "Já se vai sentindo
que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros
dias." Talvez aches esta frase incompreensível, sabendo-se
o meu atual estado; mas eu chamo a tua atenção para
a sutileza daquele pensamento. O que eu quero dizer
não é que esteja agora mais velho do que quando comecei
o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que
em cada fase da narração da minha vida experimento a
sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar
tudo.
CAPÍTULO 139 De Como Não Fui Ministro d'Estado ............................................................
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CAPÍTULO 140
Que Explica o Anterior
Há coisas que melhor se dizem calando; tal é a matéria
do capítulo anterior. Podem entendê-lo os ambiciosos
malogrados. Se a paixão do poder é a mais forte de todas,
como alguns inculcam, imaginem o desespero, a dor, o
abatimento do dia em que perdi a cadeira da Câmara dos
Deputados. Iam- se-me as esperanças todas; terminava
a carreira política. E notem que o Quincas Borba, por
induções filosóficas que fez, achou que a minha ambição
não era a paixão verdadeira do poder, mas um capricho,
um desejo de folgar. Na opinião dele, este sentimento,
não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais,
porque orça pelo amor que as mulheres têm às rendas
e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte, acres- centava
ele, por isso mesmo que os queima a paixão do poder,
lá chegam à fina força ou pela escada da direita, ou
pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este,
não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza
do resultado; e dai a maior aflição, o maior desencanto,
a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo...
- Vai para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o;
estou farto de filosofias que me não levam a coisa nenhuma.
A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho filósofo,
equivalia a um descaso; mas ele próprio desculpou a
irritação com que lhe falei. Trouxeram-nos café; era
uma hora da tarde, estávamos na minha sala de estudo,
uma bela sala, que dava para o fundo da chácara, bons
livros, objetos d'arte, um Voltaire entre eles, um Voltaire
de bronze, que nessa ocasião parecia acentuar o risinho
de sarcasmo, com que me olhava, o ladrão; cadeiras excelentes;
fora, o sol, um grande sol, que o Quincas Borba, não
sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos ministros
da natureza; corria um vento fresco, o céu estava nitidamente
azul. De cada janela, - eram três - pendia uma gaiola
com pássaros, que chilreavam as suas óperas rústicas.
Tudo tinha a aparência de uma conspiração das coisas
contra o homem; e, conquanto eu estivesse na minha sala,
olhando para a minha chácara, sentado na minha cadeira,
ouvindo meus pássaros ao pé dos meus livros, alumiado
pelo meu sol, não chegava a curar-me das saudades daquela
outra cadeira, que não era minha. |
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