Error processing SSI file
|
 |
|
|
CAPÍTULO 110
31
Uma semana depois, Lobo Neves foi nomeado presidente
de província. Agarrei-me à esperança da recusa, se o
decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém,
a data de 31, e esta simples transposição de algarismos
eliminou deles a substância diabólica. Que profundas
que são as molas da vida!
CAPÍTULO 111
O Muro
Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei
nesta página o caso do muro. Eles estavam prestes a
embarcar. Entrando em casa de Dona Plácida, vi um papelinho
dobrado sobre a mesa; era um bilhete de Virgília; dizia
que me esperava à noite, na chácara, sem falta. E concluía:
"O muro é baixo do lado do beco." Fiz um gesto de desagrado.
A carta pareceu-me descomunalmente audaciosa, mal pensada
e até ridícula. Não era só convidar o escândalo, era
convidá-lo de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar
o muro, embora baixo e do lado do beco; e, quando ia
a galgá-lo, via-me agarrado por um pedestre de polícia,
que me levava ao corpo da guarda. O muro é baixo! E
que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgília não
soube o que fez; era possível que já estivesse arrependida.
Olhei para o papel, um pedaço de papel amarrotado, mas
inflexível. Tive comichões de o rasgar, em trinta mil
pedaços, e atirá-los ao vento, como o último despojo
da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-próprio,
o vexame da fuga, a idéia do medo... Não havia remédio
senão ir. - Diga-lhe que vou. - Aonde? perguntou Dona
Plácida. - Onde ela disse que me espera. - Não me disse
nada. - Neste papel. Dona Plácida arregalou os olhos:
- Mas esse papel, achei- o hoje de manhã, nesta sua
gaveta, e pensei que... Tive uma sensação esquisita.
Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, em verdade, um
antigo bilhete de Virgília, recebido no começo dos nossos
amores, uma certa entrevista na chácara, que me levou
efetivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto.
Guardei o papel e... Tive uma sensação esquisita.
CAPÍTULO 112
A Opinião
Mas estava escrito que esse dia devia ser o dos lances
dúbios. Poucas horas depois, encontrava-me eu com o
Lobo Neves, na rua do Ouvidor; e falamos da presidência
e da política. Ele aproveitou o primeiro conhecido que
nos passou à ilharga, e deixou-me, depois de muitos
cumprimentos. Lembra-me que estava retraído, mas de
um retraimento que forcejava por dissimular. Pareceu-me
então (e peço perdão à critica, se este meu juízo for
temerário!) pareceu-me que ele tinha medo - não medo
de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência;
tinha medo da opinião. Supus que esse tribunal anônimo
e invisível, em que cada membro acusa e julga, era o
limite posto à vontade do Lobo Neves. Talvez que ele
já não amasse a mulher; e, assim, pode ser que o coração
fosse estranho à indulgência dos seus últimos atos.
Cuido (e de novo insto pela boa vontade da crítica!)
cuido que ele es- taria pronto a separar-se da mulher,
como o leitor se terá se- parado de muitas relações
pessoais; mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria
a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquérito
acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunstâncias,
antecedências, induções, provas, que as relataria na
palestra das chácaras desocupadas, essa terrível opinião,
tão curiosa das alcovas, obstou à dispersão da fa- mília.
Ao mesmo tempo tornou impossível o desforço que seria
a divulgação. Ele não podia mostrar-se ressentido comigo,
sem igualmente buscar a separação conjugal; e teve então
de simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução,
iguais sentimentos. Que lhe custasse creio; naqueles
dias, principalmente, vi- o de modo que devia custar-lhe
muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu espero
a indulgência dos homens pensadores!), o tempo caleja
a sensibilidade, e oblitera a memória das coisas; era
de supor que os anos lhe despontassem os espinhos, que
a distância dos fatos apagasse os respectivos contornos,
que uma sombra de dúvida retrospectiva cobrisse a nudez
da realidade; enfim, que a opinião se ocupasse um pouco
com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer
as ambições do pai; seria o herdeiro de todos os seus
afetos. Isso, e a atividade externa, e o prestígio público,
e a velhice depois, a doença, o declínio, a morte, um
responso, uma notícia biográfica, e estava fechado o
livro da vida, sem nenhuma página de sangue.
CAPÍTULO 113
A Solda
A conclusão, se há alguma no capitulo anterior, é que
a opinião é uma boa solda das instituições domésticas.
Não é impossível que eu desenvolva este pensamento,
antes de acabar o livro; mas também não é impossível
que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma
boa solda a opinião, e tanto na ordem doméstica, como
na política. Alguns metafísicos biliosos têm chegado
ao extremo de a darem como simples produto da gente
chocha ou medíocre; mas é evidente que, ainda quando
um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo
a resposta, bastava considerar os efeitos salutares
da opinião, para concluir que ela é a obra superfina
da flor dos homens, a saber, do maior número.
CAPÍTULO 114
Fim de um Diálogo
- Sim, é amanhã. Você vai a bordo? - Está doida? É impossível.
- Então, adeus! - Adeus! - Não se esqueça de Dona Plácida.
Vá vê-la algumas vezes. Coitada! Foi ontem despedir-se
de nós; chorou muito, disse que eu não a veria mais...
É uma boa criatura, não é? - Certamente. - Se tivermos
de escrever, ela receberá as cartas. Agora até daqui
a... - Talvez dois anos? - Qual! ele diz que só até
fazer as eleições. - Sim? então até breve. Olhe que
estão olhando para nós. - Quem? - Ali do sofá. Separemo-nos.
- Custa-me muito. - Mas é preciso; adeus, Virgília!
- Até breve. Adeus! |
|
 |
 |
|
|
|