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Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
CAPÍTULO 6
CHIMÈNE, QUI L'EÜT DIT? RODRIGUE, QUI L'EÜT CRU?
VEJO-A ASSOMAR à porta da alcova, pálida, comovida,
trajada de preto, e ali ficar durante um minuto, sem
animo de entrar, ou detida pela presença de um homem
que estava comigo. Da cama, onde jazia, contemplei-a
durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de
fazer nenhum gesto. Havia já dous anos que nos não víamos
e eu via-a agora não qual era, mas qual fora, quais
fôramos ambos porque um Ezequias misterioso fizera recuar
o sol até os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas
as misérias, e este punhado de pó, que a morte ia espalhar
na eternidade do nada, pôde mais do que o tempo, que
é o ministro da morte. Nenhuma água de Juventa igualaria
ali a simples saudade. Creiam-me, o menos mau é recordar;
ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota
da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo,
então sim, então talvez se pode gozar deveras. porque
entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que
se gosta sem doer. Não durou muito a evocação; a realidade
dominou logo; o presente expeliu o passado. Talvez eu
exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a mina
teoria das edições humanas. O que por agora importa
saber é que Virgília -- entrou na alcova, firme, com
a gravidade que lhe davam as roupas e os anos, e veio
até o meu leito. O estranho levantou-se e saiu. Era
um sujeito, que me visitava todos os dias para falar
do câmbio, da colonização e da necessidade de desenvolver
a viação férrea; nada mais interessante para um moribundo.
Saiu; Virgília deixou-se estar de pé; durante algum
tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular
palavra. Quem diria? De dous grandes namorados, de duas
paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois;
havia apenas dous corações murchos, devastados pela
vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas
enfim saciados. Virgília tinha agora a beleza da velhice,
um ar austero e maternal; estava menos magra do que
quando a vi, pela última vez, numa festa de S. João,
na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora
começavam os cabelos escuros a intercalar-se com alguns
fios de prata. -- Anda visitando os defuntos? Disse-lhe
eu. -- Ora, defuntos! Respondeu Virgília com um muxoxo.
E depois de me apertar as mãos: -- Ando a ver se ponho
os vadios para a rua. Não tinha a carícia lacrimosa
de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se.
Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; podíamos
falar um ao outro, sem perigo. Virgília deu-me longas
notícias de fora, narrando-as com graça, com um certo
travo de má língua, que era o sal da palestra; eu, prestes
a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar
dele, em persuadir-me que não deixava nada. -- Olhe
que não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer;
basta estarmos vivos. E vendo o relógio: -- Jesus! São
três horas. Vou-me embora. --Já? --Já; virei amanhã
ou depois. --Não sei se faz bem, retorqui; o doente
é um solteirão e a casa não tem senhoras... -- Sua mana?
-- Há de vir cá passar uns dias, mas não pode ser antes
de sábado. Virgília refletiu um instante, levantou os
ombros e disse com gravidade: --Estou velha! Ninguém
mais repara em mim. Mas, para cortar dúvidas, virei
com o Nhonhô. Nhonhô era um bacharel, único filho de
seu casamento, que, na idade de cinco anos, fora cúmplice
inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dous dias
depois, e confesso que, ao vê-los ali, na minha alcova,
fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder
logo às palavras afáveis do rapaz. Virgília adivinhou-me
e disse ao filho: -- Nhonhô, não repares nesse grande
manhoso que aí está; não quer falar para fazer crer
que está à morte. Sorriu o filho, eu creio que também
sorri, e tudo acabou em pura galhofa. Virgília estava
serena e risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas.
Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar
nada; uma igualdade de palavra e de espírito, uma dominação
sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras.
Como tocássemos, castalmente, nuns amores ilegítimos,
meio secretos, meio divulgados, vi-a falar com desdém
e um pouco de indignação da mulher de que se tratava,
aliás sua amiga. O filho sentia-se satisfeito, ouvindo
aquela palavra digna e forte, e eu perguntava a mim
mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse
nascido gavião... Era o meu delírio que começava.
CAPÍTULO 7
O DELÍRIO
QUE ME CONSTE, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio;
faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não
é dado à contemplação destes fenômenos mentais pode
saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos
curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante
saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte
a trinta minutos. Primeiramente, tomei a figura de um
barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim,
que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos:
caprichos de mandarim. Logo depois, senti-me transformado
na Suma Teológica de S. Tomás, impressa num volume,
e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas;
idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade;
e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os
fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém
as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe
dava a imagem de um defunto. Ultimamente, restituído
à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou.
Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança;
mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou
vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma
arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.
-- Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem
dos séculos. Insinuei que deveria ser muitíssimo longe;
mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu, se
é que não fingiu uma dessas cousas; e, perguntando-lhe,
visto que ele falava, se era descendente do cavalo de
Aquiles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto
peculiar a estes dous quadrúpedes: abanou as orelhas.
Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura.
Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais
ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava
a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem
do Nilo, e sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos
do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de
cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via
o caminho lembra-me só que a sensação de frio aumentava
com a jornada, e que chegou uma ocasião em que me pareceu
entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri
os olhos e vi que o meu animal galopava numa planícia
branca de neve, e vários animais grandes e de neve.
Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei
falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta: --Onde
estamos? --Já passamos o Éden. -- Bem; paremos na tenda
de Abraão. --Mas se nós caminhamos para trás! Redargüiu
motejando a minha cavalgadura. Fiquei vexado e aturdido.
A jornada entrou e parecer-me enfadonha e extravagante,
o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado
impalpável. E depois -- cogitações do enfermo -- que
chegássemos ao fim indicado, não era possível que os
séculos, irritados com lhes devassem a origem, me esmagassem
entre as unhas, que deviam ser tão seculares como eles.
Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a
planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal
estacou, e pude olhar mais tranqüilamente em torno de
mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura
da neve, que desta vez invadira o próprio céu, até ali
azul. Talvez, a espaços, me parecia uma ou outra planta,
enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas.
O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro:
dissera-se que a vida das cousas ficara estúpida diante
do homem. Caiu do ar? Destacou-se da terra? não sei;
sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu
então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo
nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas,
e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque
os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia
espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse
nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao
cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era
e como se chamava: curiosidade de delírio. --Chama-me
Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga. Ao ouvir
esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto.
A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno
de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se
e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.
--Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata;
é sobretudo pela vida que se afirma. Vives; não quero
outro flagelo. --Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas
nas mãos, como para certificar-me da existência. --Sim,
verme, tu vives. Não receies perder andrajo que é teu
orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da
dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste,
vives; e se a tua consciência reouver um instante de
sagacidade, tu dirás que queres viver. Dizendo isto,
a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e
levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então
pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada
mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão
de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa,
era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez,
a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas
no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão
glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e
viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito
dos seres. Entendeste-me ? disse ela, no fim de algum
tempo de mútua contemplação. --Não, respondi; nem quero
entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou
sonhando, decerto, ou, se é verdade, que enlouqueci,
tu não passas de uma concepção de alienado, isto é,
uma cousa vã, que a razão ausente não pode reger nem
palpar. Natureza tu? a Natureza que eu conheço é só
mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem,
como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro.
E por que Pandora? --Porque levo na minha bolsa os bens
e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação
dos homens. Tremes? -- Sim; o teu olhar fascina-me.
-- Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte,
e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei.
Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.
Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso
vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava
a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita
de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e
pedi mais alguns anos. --Pobre minuto! exclamou. Para
que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar
e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo
e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei
menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia. a melancolia
da tarde, a quietação da noite, os aspectos da Terra,
o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que
mais queres tu, sublime idiota? --Viver somente, não
te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor
da vida, senão tu? e, se eu amo a vida, por que te hás
de golpear a ti mesma, matando-me? -- Porque já não
preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa,
mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo
supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece
como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu?
Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação.
A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é
que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor:
eis o estatuto universal. Sobe e olha. Isto dizendo,
arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos
a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo
largo, ao longe através de um nevoeiro, uma cousa única.
Imagina tu leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar
de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto
dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição
recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espetáculo,
acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da
Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam
dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência
é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que
o que eu ali via era a condensação viva de todos os
tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago.
Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante,
porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o
que passava diante de mim,--flagelos e delícias, desde
essa cousa que se chama glória até essa outra que se
chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria,
e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a
cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que
baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição,
a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor,
e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo,
como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que
ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava
eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor
da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia
a indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer,
que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e
rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás
de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos,
um retalho de impalpável, outro de improvável, outro
de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a
agulha da imaginação; e essa figura, -- nada menos que
a quimera da felicidade, -- ou lhe fugia perpetuamente,
ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem e cingia
ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se,
como uma ilusão. Ao contemplar tanta calamidade, não
pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora
escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei
de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, --
de um riso descompassado e idiota. --Tens razão, disse
eu, a cousa é divertida e vale a pena, -- talvez monótona
mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que
fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de
cima O espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre,
e digere-me; a cousa é divertida? mas digere-me. A resposta
foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver
os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos,
as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes,
como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os
devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura.
Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés;
então disse comigo: "Bem, os séculos vão passando, chegará
o meu, e passará também, até o último, que me dará a
decifração da eternidade." E fixei os olhos, e continuei
a ver as idades que vinham chegando e passando, já então
tranqüilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez
alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e
de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro
e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas
ilusões; cada um deles rebentavam as verduras de uma
primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde.
Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de
calendário, fazia-se a história e a civilização, e o
homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía
o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem
portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que
enleva, fazia orador, mecânico, filósofo, corria a face
do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera
das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com
que entretinha a necessidade da vida e a melancolia
do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim
chegar o século presente, e atrás deles os futuros.
Aquele vinha ágil, destro, vibrante! cheio de si, um
pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável
como os primeiros, e assim passou e assim passaram os
outros com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei
de atenção; fitei a vistas ia enfim ver o último, --
último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que
escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago
seria um século. Talvez por isso entraram os objetos
a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros
perderam-se no ambiente, um nevoeiro cobriu tudo,--
menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás
começou a diminuir, a diminuir a diminuir, até ficar
do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o
bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da
alcova, com uma bola de papel...
CAPÍTULO 8
RAZÃO CONTRA SANDICE
JÁ O LEITOR compreendeu que era a Razão que voltava
à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com
melhor jus, as palavras de Tartufo: La maison est à
moi, c'est à vous d'en sortir. Mas é sestro antigo da
Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas
senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro;
não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha.
Agora, se advertimos no imenso número de casas que ocupa,
umas de vez. Outras durante as suas estações calmosas,
concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos
proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio
à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria
entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar
o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com
um cantinho no sótão. -- Não, senhora replicou a Razão,
estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada,
o que você quer é passar mansamente do sótão à sala
de jantar, daí à de visitas e ao lesto. --Está bem,
deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um
mistério... Que mistério? -- De dous, emendou a Sandice;
o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.
A razão pôs-se a rir. -- Hás de ser sempre a mesma cousa...
sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... E dizendo
isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora;
depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas
súplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se
depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada,
e foi andando...
CAPÍTULO 9
TRANSIÇÃO
E VEJAM AGORA com que destreza; com que arte faço eu
a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio
começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu
grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice;
meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos
nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 18 05, em
que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que
divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que
o livro fica assim com todas as vantagens do método,
sem a rigidez do método. Na verdade, era tempo. Que
isto de método, sendo, como é, uma cousa indispensável,
todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios,
mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe
dá da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteirão.
É como a eloquência, que há uma genuína e vibrante,
de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada
e choca. Vamos ao dia 20 de outubro.
CAPÍTULO 10
NAQUELE DIA
NAQUELE DIA , a árvore dos Cubas brotou uma graciosa
flor. Nasci; recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne
parteira minhota, que se gabava de ter aberto a porta
do mundo a uma geração inteira de fidalgos. Não é impossível
que meu pai lhe ouvisse tal declaração; creio, todavia,
que o sentimento paterno é que o induziu a gratificá-la
com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde
logo o herói da nossa casa. Cada qual prognosticava
a meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor. Meu
tio João, o antigo oficial de infantaria? achava-me
um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pai não pode
ouvir sem náuseas; meu tio Ildefonso, então simples
padre, farejava-me cônego. --Cônego é o que ele há de
ser, e não digo mais por não parecer orgulho; mas não
me admiraria nada se Deus o destinasse a um bispado...
é verdade, um bispado; não é cousa impossível. Que diz
você mano Bento? Meu pai respondia a todos que eu seria
o que Deus quisesse; e alçava-me ao ar, como se intentasse
mostrar-me à cidade e ao mundo; perguntava a todos se
eu me parecia com ele, se era inteligente, bonito. .
. Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar
anos depois; ignoro a mor parte dos pormenores daquele
famoso dia. Sei que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar
o recém-nascido, e que durante as primeiras semanas
muitas foram as visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha
que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito
calção. Se não conto os mimos, os beijos, as admiração
as bênçãos, é porque, se os contasse, não acabaria mais
o capítulo e preciso acabá-lo. Item, não posso dizer
nada do meu batizado, porque nada me referiram a tal
respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas
do ano seguinte, 1806; batizei-me na igreja de S. Domingos,
uma terça-feira de março, dia claro, luminoso e puro,
sendo padrinhos o Coronel Rodrigues de Matos e sua senhora.
Um e outro descendiam de velhas famílias do Norte e
honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias,
outrora derramado na guerra contra Holanda. Cuido que
os nomes de ambos foram das primeiras cousas que aprendi;
e certamente os dizia com muita graça, ou revelava algum
talento precoce, porque não havia pessoa estranha diante
de quem me não obrigassem a recitá-los. --Nhonhô, diga
a estes senhores como é que se chama seu padrinho. --
Meu padrinho? é o Excelentíssimo Senhor Coronel Paulo
Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos;
minha madrinha é a Excelentíssima Senhora D. Maria Luísa
de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos. -- É muito
esperto o seu menino! exclamavam os ouvintes. --Muito
esperto, concordava meu pai, e os olhos babavam-se-lhe
de orgulho, e ele espalmava a mão sobre a minha cabeça,
fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si. Item,
comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo.
Talvez por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a
agarrar às cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me
carrinhos de pau.--Só só, nhonhô, só só, dizia-me a
mucama. E eu, atraído pelo chocalho de lata, que minha
mãe agitava diante de mim, lá ia para a frente, cai
aqui, cai acolá; e andava, provavelmente mal, mas andava,
e fiquei andando.
CAPÍTULO 11
O MENINO É PAI DO HOMEM
CRESCI; e nisso é que a família não interveio; cresci
naturalmente como crescem as magnólias e os gatos. Talvez
os gatos são menos matreiros, e com certeza, as magnólias
são menos inquietas de que eu era na minha infância.
Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto
é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino. Desde
os cinco anos merecera eu a alcunha de "menino diabo";
e verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais
malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas
e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça
de uma escrava, porque me negara uma colher do doce
de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício,
deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito
da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é
que estragara o doce "por pirraça"; e eu tinha apenas
seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu
cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia
um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe
ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava
mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, -- algumas
vezes gemendo, -- mas obedecia sem dizer palavra, ou,
quando muito, um --"ai, nhonhô!" -- ao que eu retorquia:
--"Cala a boca, besta!" --Esconder os chapéus das visitas,
deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho
das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas,
e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de
um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões
de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande
admiração; e se às vezes me repreendia à vista de gente,
fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me
beijos. Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto
da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes
os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor
dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes
os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.
Outrossim, afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana,
inclinei-me a atenuá-la, a explicá-la a classifiquei-a
por partes, a entendê-la não segundo um padrão rígido,
mas ao sabor das circunstâncias e lugares. Minha mãe
doutrinava-me a seu modo fazia-me decorar alguns preceitos
e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações,
me governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia
o espírito, que a faz viver, para se tornar uma vã fórmula.
De manhã, antes do mingau, e de noite, antes da cama,
pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava
aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia
uma grande maldade, e meu pais passado o alvoroço, dava-me
pancadinhas na cara, e exclamava a rir: Ah! brejeiro!
ah! brejeiro! Sim, meu pai adorava-me. Alinha mãe era
uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração,
assaz crédula, sinceramente piedosa, --caseira, apesar
de bonita, e modesta, apesar de abastada; temente às
trovoadas e ao marido. O marido era na Terra o seu deus.
Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha
educação, que, se tinha alguma cousa boa, era no geral
viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio
cônego fazia às vezes alguns reparos ao irmão dizia-lhe
que ele me dava mais liberdade do que ensino, e mais
afeição do que emenda; mas meu pai respondia que aplicava
na minha educação um sistema inteiramente superior ao
sistema usado; e por este modo, sem confundir o irmão,
iludia-se a si próprio. De envolta com a transmissão
e a educação, houve ainda o exemplo estranho, o meio
doméstico. Vimos os pais; vejamos os tios. Um deles,
o João, era um homem de língua solta, vida galante,
conversa picaresca. Desde os onze anos entrou a admitir-me
às anedotas reais ou não, eivadas todas de obscenidade
ou imundície. Não me respeitava a adolescência, como
não respeitava a batina do irmão; com a diferença que
este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso.
Eu não; deixava-me estar, sem entender nada, a princípio,
depois entendendo, e enfim achando-lhe graça. No fim
de certo tempo, quem o procurava era eu; e ele gostava
muito de mim? Dava-me doces, levava-me a passeio. Em
casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes
me aconteceu achá-lo, no fundo da chácara, no lavadouro,
a palestrar com as escravas que batiam roupa; aí é que
era um desfiar de anedotas, de ditos, de perguntas,
e um estalar de risadas, que ninguém podia ouvir, porque
o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com
uma tanga no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos,
umas dentro do tanque, outras fora, inclinadas sobre
as peças de roupa, a batê-las a ensaboá-las, a torcê-las,
iam ouvindo e redargüindo às pilhérias do tio João,
e a comentá-las de quando em quando com esta palavra:
--Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo! Bem diferente
era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza;
tais dotes, contudo, não realçavam um espírito superior,
apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem
que visse a parte substancial da Igreja; via o lado
externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes,
as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar.
Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração
dos mandamentos. Agora, a tantos anos de distancia,
não estou certo se ele poderia atinar facilmente com
um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a história
do símbolo de Nicéia; mas ninguém, nas festas cantadas,
sabia melhor o número e casos das cortesias que se deviam
ao oficiante. Cônego foi a única ambição de sua vida;
e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia
aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na
observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno,
possuía algumas virtudes, em que era exemplar,- mas
carecia absolutamente da força de as incutir, de as
impor aos outros; Não digo nada de minha tia materna,
D. Emerenciana, e aliás era a pessoa que mais autoridade
tinha sobre mim; essa diferençava-se grandemente dos
outros; mas viveu pouco tempo em nossa companha, uns
dous anos. Outros parentes e alguns- íntimos não merecem
a pena de ser citados; não tivemos uma vida comum, mas
intermitente, com grandes claros de separação. O que
importa é a expressão geral do meio doméstico, e essa
aí fica indicada,--vulgaridade de caracteres, amor das
aparências rutilantes, do arruído, frouxidão da vontade,
domínio do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume
é que nasceu esta flor. |
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