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CAPÍTULO 80
De Secretário
Na noite seguinte fui efetivamente à casa do Lobo Ne-
ves; estavam ambos, Virgília muito triste, ele muito
jovial. juro que ela sentiu certo alívio quando os nossos
olhos se encontraram, cheios de curiosidade e ternura;
e não direi o que senti, porque isso já ficou expresso
no capítulo anterior, in fine. O Lobo Neves contou-me
os planos que levava para a presidência, as dificuldades
locais, as esperanças, as resoluções; estava tão contente!
tão esperançado! Virgília, ao pé da mesa, fingia ler
um livro, mas por cima da página olhava-me de quando
em quando, interrogativa e ansiosa. - O pior, disse-me
de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei secretário.
- Não? - Não, e tenho uma idéia. -Ah! - Uma idéia...
Quer você dar um passeio ao Norte? Não sei o que lhe
disse. - Você é rico, continuou ele, não precisa de
um ma- gro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia
de secretário comigo. Meu espírito deu um salto para
trás, como se descobrisse uma serpente diante de si.
Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver
se lhe apanhava algum pensamento oculto... Nem sombra
disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do
rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada
de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para
Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que
me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que
iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um
secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo.
CAPÍTULO 81
A Reconciliação
E contudo, ao sair de lá, tive umas sombras de dúvida;
cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgília,
se não haveria outro meio razoável de combinar o Estado
e a Gamboa. Não achei nada. No dia seguinte, ao levantar-me
da cama, trazia o espírito feito e resoluto a aceitar
a nomeação. Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que
estava na sala uma senhora, coberta com um véu. Corro;
era minha irmã Sabina. - Isto não pode continuar assim,
disse ela; é preciso que, de uma vez por todas, façamos
as pazes. Nossa família está acabando; não havemos de
ficar como dois inimigos. - Mas se eu não te peço outra
coisa, mana! bradei eu estendendo-lhe os braços. Sentei-a
ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negócios,
de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores.
O marido viria mostrar-ma, se eu consentisse. - Ora
essa! irei eu mesmo vê-la. - Sim? - Palavra. - Tanto
melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.
Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter
vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, afável,
nenhum acanhamento, nenhum ressentimento. Olhávamos
um para o outro, com as mãos seguras, falando de tudo
e de nada, como dois namorados. Era a minha infância
que ressurgia, fresca, travessa e loura; os anos iam
caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas,
com que eu brincava em pequeno, e deixavam- me ver a
nossa casa, a nossa família, as nossas festas. Suportei
a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da vizinhança
lembrou-se de zangarrear na clássica rabeca, e essa
voz - porque até então a recordação era muda, - essa
voz do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me comoveu,
que... Os olhos dela estavam secos. Sabina não herdara
a flor amarela e mórbida. Que importa? Era minha irmã,
meu san- gue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lho
com ternura, com sinceridade... Súbito, ouço bater à
porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos.
- Entra, Sara, disse Sabina. Era minha sobrinha. Apanhei-a
do chão, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada,
empurrava-me o ombro com a mãozinha, quebrando o corpo
para descer... Nisto, aparece-me porta um chapéu, e
logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu
estava tão comovido, que deixei a filha e lancei-me
aos braços do pai. Talvez essa efusão o desconcertou
um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples prólogo.
Daí a pouco falávamos como bons amigos velhos. Nenhuma
alusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa
de jantarmos em casa um do outro. E não deixei de dizer
que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma
curta interrupção, porque eu andava com idéias de uma
viagem ao Norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim
para Sabina; ambos concordaram que essas idéias não
tinham senso comum. Que diacho podia eu achar no Norte?
Pois não era na corte, em plena corte, que devia continuar
a luzir, a meter num chinelo os rapazes do tempo? Que,
na verdade, nenhum havia que se me comparasse; ele,
Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma
briga ridícula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade
nos meus triunfos. Ouvia o que se dizia a meu respeito,
nas ruas e nas salas; era um concerto de louvores e
admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns meses
na província, sem necessidade, sem motivo sério? A menos
que não fosse política... - Justamente política, disse
eu. - Nem assim, replicou ele dai a um instante. - E
depois de outro silêncio: - Seja como for, venha jantar
hoje conosco. - Certamente que vou; mas, amanhã ou depois,
hão de vir jantar comigo. - Não sei, não sei, objetou
Sabina; em casa de homem solteiro... Você precisa casar,
mano. Também eu quero uma sobrinha, ouviu? Cotrim reprimiu-a
com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a reconciliação
de uma família vale bem um gesto enigmático.
CAPÍTULO 82
Questão de Botânica
Digam o que quiserem dizer os hipocondríacos: a vida
é uma coisa doce. Foi o que eu pensei comigo, ao ver
Sabina, o marido e a filha descerem de tropel as escadas,
dizendo muitas palavras afetuosas para cima, onde eu
ficava - no patamar, - a dizer-lhes outras tantas para
baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz.
Amava-me uma mulher, tinha a confiança do marido, ia
por secretário de ambos, e reconciliava-me com os meus.
Que podia desejar mais, em vinte e quatro horas? Nesse
mesmo dia, tratando de aparelhar os ânimos, comecei
a espalhar que talvez fosse para o Norte como secretá-
rio de província, a fim de realizar certos desígnios
políticos, que me eram pessoais. Disse-o na rua do Ouvidor,
repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no teatro. Alguns,
ligando a minha nomeação à do Lobo Neves, que já andava
em boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me
no ombro. No teatro disse-me uma senhora que era levar
muito longe o amor da escultura. Referia-se às belas
formas de Virgília. Mas a alusão mais rasgada que me
fizeram foi em casa de Sabina, três dias depois. Fê-la
um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial
e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta,
aos noventa anos, sem adquirir jamais aquela compostura
austera, que é a gentileza do ancião. A velhice ridícula
é, porventura, a mais triste e derradeira surpresa da
natureza humana. - Já sei, desta vez vai ler Cícero,
disse-me ele, ao saber da viagem. - Cicero! exclamou
Sabina. - Pois então? Seu mano é um grande latinista.
Traduz Virgílio de relance. Olhe que é Virgílio e não
Virgília... não confunda... E ria, de um riso grosso,
rasteiro e frívolo. Sabina empalideceu e olhou para
mim, receosa de alguma réplica; mas sorriu, quando me
viu sorrir, e voltou o rosto para disfarçá-lo. As outras
pessoas olhavam-me com um ar de curiosidade, indulgência
e simpatia; era transparente que não acabavam de ouvir
nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava mais
público do que eu podia supor. E entretanto sorri, um
sorriso curto, fugitivo e guloso, - palreiro como as
pegas de Sintra. Virgília era um belo erro, e é tão
fácil confessar um belo erro! Costumava ficar carrancudo,
a principio, quando ouvia alguma alusão aos nossos amores;
mas palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão
suave e lisonjeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir,
e continuei a fazê-lo das outras vezes. Não sei se há
aí algum Hobbes ou Spinosa que explique o fenômeno.
Eu explico-o assim: a princípio, o contentamento, sendo
interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado;
andando o tempo, desabotoou-se em flor, e apareceu aos
olhos do próximo. Simples questão de botânica. |
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