MEMORIAL DE AIRES
Machado de Assis
ADVERTÊNCIA
Quem me leu
Esaú e Jacó talvez reconheça estas palavras
do prefácio:
"Nos lazeres do ofício escrevia o Memorial, que, apesar
das páginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez dê)
para matar o tempo da barca de Petrópolis."
Referia-me ao Conselheiro Aires. Tratando-se agora de imprimir o
Memorial, achou-se que a parte relativa a uns dous anos (1888-1889),
se for decotada de algumas circunstâncias, anedotas, descrições
e reflexões, - pode dar uma narração seguida,
que talvez interesse, apesar da forma de diário que tem.
Não houve pachorra de a redigir à maneira daquela
outra, - nem pachorra, nem habilidade. Vai como estava, mas desbastada
e estreita, conservando só o que liga o mesmo assunto. O
resto aparecerá um dia, se aparecer algum dia.
M.de Assis
1888
9 de janeiro
Ora bem, faz
hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou
esta data foi, estando a beber café, o pregão de um
vendedor de vassouras e espanadores: "Vai vassouras! vai espanadores!"
Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à
memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à
minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o
mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma
boca.
Durante os meus
trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil,
com licença. O mais do tempo vivi fora, em várias
partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de
me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei.
Certamente ainda me lembram cousas e pessoas de longe, diversões,
paisagens, costumes, mas não morro de saudades por nada.
Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
Cinco horas
da tarde
Recebi agora
um bilhete de mana Rita, que aqui vai colado:
9 de janeiro
"Mano,
Só agora
me lembrou que faz hoje um ano que você voltou da Europa aposentado.
Já é tarde para ir ao cemitério de São
João Batista, em visita ao jazigo da família, dar
graças pelo seu regresso; irei amanhã de manhã,
e peço a você que me espere para ir comigo. Saudades
da
Velha mana,
Rita."
Não vejo
necessidade disso, mas respondi que sim.
10 de janeiro
Fomos ao cemitério.
Rita, apesar da alegria do motivo, não pôde reter algumas
velhas lágrimas de saudade pelo marido que lá está
no jazigo, com meu pai e minha mãe. Ela ainda agora o ama,
como no dia em que o perdeu, lá se vão tantos anos.
No caixão do defunto mandou guardar um molho dos seus cabelos,
então pretos, enquanto os mais deles ficaram a embranquecer
cá fora.
Não é
feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples, - a inscrição
e uma cruz, - mas o que está é bem feito. Achei-o
novo demais, isso sim. Rita fá-lo lavar todos os meses, e
isto impede que envelheça. Ora, eu creio que um velho túmulo
dá melhor impressão do ofício, se tem as negruras
do tempo, que tudo consome. O contrário parece sempre da
véspera.
Rita orou diante
dele alguns minutos, enquanto eu circulava os olhos pelas sepulturas
próximas. Em quase todas havia a mesma antiga súplica
da nossa: "Orai por ele! Orai por ela!" Rita me disse
depois, em caminho, que é seu costume atender ao pedido das
outras, rezando uma prece por todos os que ali estão. Talvez
seja a única. A mana é boa criatura, não menos
que alegre.
A impressão
que me dava o total do cemitério é a que me deram
sempre outros; tudo ali estava parado. Os gestos das figuras, anjos
e outras, eram diversos, mas imóveis. Só alguns pássaros
davam sinal de vida, buscando-se entre si e pousando nas ramagens,
pipilando ou gorjeando. Os arbustos viviam calados, na verdura e
nas flores.
Já perto
do portão, à saída, falei a mana Rita de uma
senhora que eu vira ao pé de outra sepultura, ao lado esquerdo
do cruzeiro, enquanto ela rezava. Era moça, vestia de preto,
e parecia rezar também, com as mãos cruzadas e pendentes.
A cara não me era estranha, sem atinar quem fosse. E bonita,
e gentilíssima, como ouvi dizer de outras em Roma.
- Onde está?
Disse-lhe onde
estava. Quis ver quem era. Rita, além de boa pessoa, é
curiosa, sem todavia chegar ao superlativo romano. Respondi-lhe
que esperássemos ali mesmo, ao portão.
- Não!
pode não vir tão cedo, vamos espiá-la de longe.
É assim bonita?
- Pareceu-me.
Entramos e enfiamos
por um caminho entre campas, naturalmente. A alguma distância,
Rita deteve-se.
- Você
conhece, sim. Já a viu lá em casa, há dias.
- Quem é?
- É a
viúva Noronha. Vamos embora, antes que nos veja.
Já agora
me lembrava, ainda que vagamente, de uma senhora que lá apareceu
em Andaraí, a quem Rita me apresentou e com quem falei alguns
minutos.
- Viúva
de um médico, não é?
- Isso; filha
de um fazendeiro da Paraíba do Sul, o barão de Santa-Pia.
Nesse momento,
a viúva descruzava as mãos, e fazia gesto de ir embora.
Primeiramente espraiou os olhos, como a ver se estava só.
Talvez quisesse beijar a sepultura, o próprio nome do marido,
mas havia gente perto, sem contar dous coveiros que levavam um regador
e uma enxada, e iam falando de um enterro daquela manhã.
Falavam alto, e um escarnecia do outro, em voz grossa: "Eras
capaz de levar um daqueles ao morro? Só se fossem quatro
como tu". Tratavam de caixão pesado, naturalmente, mas
eu voltei depressa a atenção para a viúva,
que se afastava e caminhava lentamente, sem mais olhar para trás.
Encoberto por um mausoléu, não a pude ver mais nem
melhor que a princípio. Ela foi descendo até o portão,
onde passava um bonde em que entrou e partiu. Nós descemos
depois e viemos no outro.
Rita contou-me
então alguma cousa da vida da moça e da felicidade
grande que tivera com o marido, ali sepultado há mais de
dous anos. Pouco tempo viveram juntos. Eu, não sei por que
inspiração maligna, arrisquei esta reflexão:
- Não
quer dizer que não venha a casar outra vez.
- Aquela não
casa.
- Quem lhe diz
que não?
- Não
casa; basta saber as circunstâncias do casamento, a vida que
tiveram e a dor que ela sentiu quando enviuvou.
- Não
quer dizer nada, pode casar; para casar basta estar viúva.
- Mas eu não
casei.
-Você
é outra cousa, você é única.
Rita sorriu,
deitando-me uns olhos de censura, e abanando a cabeça, como
se me chamasse "peralta". Logo ficou séria, porque
a lembrança do marido fazia-a realmente triste. Meti o caso
à bulha; ela, depois de aceitar uma ordem de idéias
mais alegre, convidou-me a ver se a viúva Noronha casava
comigo; apostava que não.
- Com os meus
sessenta e dous anos?
- Oh! não
os parece; tem a verdura dos trinta.
Pouco depois
chegamos a casa e Rita almoçou comigo. Antes do almoço,
tornamos a falar da viúva e do casamento, e ela repetiu a
aposta. Eu, lembrando-me de Goethe, disse-lhe:
- Mana, você
está a querer fazer comigo a aposta de Deus e de Mefistófeles;
não conhece?
- Não
conheço.
Fui à
minha pequena estante e tirei o volume do Fausto, abri a página
do prólogo no céu, e li-lha, resumindo como pude.
Rita escutou atenta o desafio de Deus e do Diabo, a propósito
do velho Fausto, o servo do Senhor, e da perda infalível
que faria dele o astuto. Rita não tem cultura, mas tem finura,
e naquela ocasião tinha principalmente fome. Replicou rindo:
- Vamos almoçar.
Não quero saber desses prólogos nem de outros; repito
o que disse, e veja você se refaz o que lá vai desfeito.
Vamos almoçar.
Fomos almoçar;
às duas horas Rita voltou para Andaraí, eu vim escrever
isto e vou dar um giro pela cidade.
12 de janeiro
Na conversa
de anteontem com Rita esqueceu-me dizer a parte relativa a minha
mulher, que lá está enterrada em Viena. Pela segunda
vez falou-me em transportá-la para o nosso jazigo. Novamente
lhe disse que estimaria muito estar perto dela, mas que, em minha
opinião, os mortos ficam bem onde caem; redargüiu-me
que estão muito melhor com os seus.
- Quando eu
morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela virá
ao meu encontro, disse eu.
Sorriu, e citou
o exemplo da viúva Noronha que fez transportar o marido de
Lisboa, onde faleceu, para o Rio de Janeiro, onde ela conta acabar.
Não disse mais sobre este assunto, mas provavelmente tornará
a ele, até alcançar o que lhe parece. Já meu
cunhado dizia que era seu costume dela, quando queria alguma cousa.
Outra cousa
que não escrevi foi a alusão que ela fez à
gente Aguiar, um casal que conheci a última vez que vim,
com licença, ao Rio de Janeiro, e agora encontrei. São
amigos dela e da viúva, e celebram daqui a dez ou quinze
dias as suas bodas de prata. Já os visitei duas vezes e o
marido a mim. Rita falou-me deles com simpatia e aconselhou-me a
ir cumprimentá-los por ocasião das festas aniversárias.
- Lá
encontrará Fidélia.
- Que Fidélia?
- A viúva
Noronha.
- Chama-se Fidélia?
- Chama-se.
- O nome não
basta para não casar.
- Tanto melhor
para você, que vencerá a pessoa e o nome, e acabará
casando com a viúva. Mas eu repito que não casa.
14 de janeiro
A única
particularidade da biografia de Fidélia é que o pai
e o sogro eram inimigos políticos, chefes de partido na Paraíba
do Sul. Inimizade de familías não tem impedido que
moços se amem, mas é preciso ir a Verona ou alhures.
E ainda os de Verona dizem comentadores que as famílias de
Romeu e Julieta eram antes amigas e do mesmo partido; também
dizem que nunca existiram, salvo na tradição ou somente
na cabeça de Shakespeare.
Nos nossos municípios,
ao norte, ao sul e ao centro, creio que não há caso
algum. Aqui a oposição dos rebentos continua a das
raízes, e cada árvore brota de si mesma, sem lançar
galhos a outra, e esterilizando-lhe o terreno, se pode. Eu, se fosse
capaz de ódio, era assim que odiava; mas eu não odeio
nada nem ninguém, - perdono a tutti , como na ópera.
Agora, como
foi que eles se amaram - os namorados da Paraíba do Sul -
é o que Rita me não referiu, e seria curioso saber.
Romeu e Julieta aqui no Rio, entre a lavoura e a advocacia - porque
o pai do nosso Romeu era advogado na cidade da Paraíba -,
é um desses encontros que importaria conhecer para explicar.
Rita não entrou nesses pormenores; eu, se me lembrar, hei
de pedir-lhos. Talvez ela os recuse imaginando que começo
deveras a morrer pela dama.
16 de janeiro
Tão depressa
vinha saindo do Banco do Sul encontrei Aguiar, gerente dele, que
para lá ia. Cumprimentou-me muito afetuosamente, pediu-me
notícias de Rita, e falamos durante alguns minutos sobre
cousas gerais.
Isso foi ontem.
Hoje pela manhã recebi um bilhete de Aguiar, convidando-me,
em nome da mulher e dele, a ir lá jantar no dia 24. São
as bodas de prata. "Jantar simples e de poucos amigos",
escreveu ele. Soube depois que é festa recolhida. Rita vai
também. Resolvi aceitar, e vou.
20 de janeiro
Três dias
metido em casa, por um resfriamento com pontinha de febre. Hoje
estou bom, e segundo o médico, posso já sair amanhã;
mas poderei ir às bodas de prata dos velhos Aguiares? Profissional
cauteloso, o Dr. Silva me aconselhou que não vá; mana
Rita, que tratou de mim dous dias, é da mesma opinião.
Eu não a tenho contrária, mas se me achar lépido
e robusto, como é possível, custar-me-á não
ir. Veremos; três dias passam depressa.
Seis horas da
tarde
Gastei o dia
a folhear livros, e reli especialmente alguma cousa de Shelley e
também de Thackeray. Um consolou-me de outro, este desenganou-me
daquele; é assim que o engenho completa o engenho, e o espírito
aprende as línguas do espírito.
Nove horas da
noite
Rita jantou
comigo; disse-lhe que estou são como um pero, e com forças
para ir às bodas de prata. Ela, depois de me aconselhar prudência,
concordou que, se não tiver mais nada, e for comedido ao
jantar, posso ir; tanto mais que os meus olhos terão lá
dieta absoluta.
- Creio que
Fidélia não vai, explicou.
- Não
vai?
- Estive hoje
com o desembargador Campos, que me disse haver deixado a sobrinha
com a nevralgia do costume. Padece de nevralgias. Quando elas lhe
aparecem é por dias, e não vão sem muito remédio
e muita paciência. Talvez vá visitá-la amanhã
ou depois.
Rita acrescentou
que para o casal Aguiar é meio desastre; contavam com ela,
como um dos encantos da festa. Querem-se muito, eles a ela, e ela
a eles, e todos se merecem, é o parecer de Rita e pode vir
a ser o meu.
- Creio. Já
agora, se me não sentir impedido, irei sempre. Também
a mim parece boa gente a gente Aguiar. Nunca tiveram filhos?
- Nunca. São
muito afetuosos, D. Carmo ainda mais que o marido. Você não
imagina como são amigos um do outro. Eu não os freqüento
muito, porque vivo metida comigo, mas o pouco que os visito basta
para saber o que valem, ela principalmente. O desembargador Campos,
que os conhece desde muitos anos, pode dizer-lhe o que eles são.
- Haverá
muita gente ao jantar?
- Não,
creio que pouca. A maior parte dos amigos irá de noite. Eles
são modestos, o jantar é só dos mais íntimos,
e por isso o convite que fizeram a você mostra grande simpatia
pessoal.
- Já
senti isso, quando me apresentaram a eles, há sete anos,
mas então supus que era mais por causa do ministro que do
homem.
Agora, quando
me receberam, foi com muito gosto. Pois lá vou no dia 24,
haja ou não haja Fidélia.
25 de janeiro
Lá fui
ontem às bodas de prata. Vejamos se posso resumir agora as
minhas impressões da noite.
Não podiam
ser melhores. A primeira delas foi a união do casal. Sei
que não é seguro julgar por uma festa de algumas horas
a situação moral de duas pessoas. Naturalmente a ocasião
aviva a memória dos tempos passados, e a afeição
dos outros como que ajuda a duplicar a própria. Mas não
é isso. Há neles alguma cousa superior à oportunidade
e diversa da alegria alheia. Senti que os anos tinham ali reforçado
e aparado a natureza, e que as duas pessoas eram, ao cabo, uma só
e única. Não senti, não podia sentir isto logo
que entrei, mas foi o total da noite.
Aguiar veio
receber-me à porta da sala - eu diria que com uma intenção
de abraço, se pudesse havê-la entre nós e em
tal lugar; mas a mão fez esse ofício, apertando a
minha efusivamente. É homem de sessenta anos feitos (ela
tem cinqüenta), o corpo antes cheio que magro, ágil,
ameno e risonho. Levou-me à mulher, a um lado da sala, onde
ela conversava com duas amigas. Não era nova para mim a graça
da boa velha, mas desta vez o motivo da visita e o teor do meu cumprimento
davam-lhe à expressão do rosto algo que tolera bem
a qualificação de radiante. Estendeu-me a mão,
ouviu-me e inclinou a cabeça, olhando de relance para o marido.
Senti-me objeto
dos cuidados de ambos. Rita chegou pouco depois de mim; vieram vindo
outros homens e senhoras, todos de mim conhecidos, e vi que eram
familiares da casa. Em meio da conversação, ouvi esta
palavra inesperada a uma senhora, que dizia à outra:
- Não
vá Fidélia ter ficado pior.
- Ela vem? perguntou
a outra.
- Mandou dizer
que vinha; está melhor; mas talvez lhe faça mal.
O mais que as
duas disseram, relativamente à viúva, foi bem. O que
me dizia um dos convidados apenas foi ouvido por mim, sem lhe prestar
atenção maior que o assunto nem perder as aparências
dela. Pela hora próxima do jantar supus que Fidélia
não viesse. Supus errado. Fidélia e o tio foram os
últimos chegados, mas chegaram. O alvoroço com que
D. Carmo a recebeu mostrava bem a alegria de a ver ali, apenas convalescida,
e apesar do risco de voltar à noite. O prazer de ambas foi
grande.
Fidélia
não deixou inteiramente o luto; trazia às orelhas
dous corais, e o medalhão com o retrato do marido, ao peito,
era de ouro. O mais do vestido e adorno escuro. As jóias
e um raminho de miosótis à cinta vinham talvez em
homenagem à amiga. Já de manhã lhe enviara
um bilhete de cumprimentos acompanhando o pequeno vaso de porcelana,
que estava em cima de um móvel com outros presentinhos aniversários.
Ao vê-la
agora, não a achei menos saborosa que no cemitério,
e há tempos em casa de mana Rita, nem menos vistosa também.
Parece feita ao torno, sem que este vocábulo dê nenhuma
idéia de rigidez; ao contrário, é flexível.
Quero aludir somente à correção das linhas
- falo das linhas vistas; as restantes adivinham-se e juram-se.
Tem a pele macia e clara, com uns tons rubros nas faces, que lhe
não ficam mal à viuvez. Foi o que vi logo à
chegada, e mais os olhos e os cabelos pretos; o resto veio vindo
pela noite adiante, até que ela se foi embora. Não
era preciso mais para completar uma figura interessante no gesto
e na conversação. Eu, depois de alguns instantes de
exame, eis o que pensei da pessoa. Não pensei logo em prosa,
mas em verso, e um verso justamente de Shelley, que relera dias
antes em casa, como lá ficou dito atrás, e tirado
de uma das suas estâncias de 1821:
I can give
not what men call love.
Assim disse
comigo em inglês, mas logo depois repeti em prosa nossa a
confissão do poeta, com um fecho da minha composição:
"Eu não posso dar o que os homens chamam amor... e é
pena!"
Esta confissão
não me fez menos alegre. Assim, quando D. Carmo veio tomar-me
o braço, segui como se fosse para um jantar de núpcias.
Aguiar deu o braço a Fidélia, e sentou-se entre ela
e a mulher. Escrevo estas indicações sem outra necessidade
mais que a de dizer que os dous cônjuges, ao pé um
do outro, ficaram ladeados pela amiga Fidélia e por mim.
Desta maneira pudemos ouvir palpitar o coração aos
dous - hipérbole permitida para dizer que em ambos nós,
em mim ao menos, repercutia a felicidade daqueles vinte e cinco
anos de paz e consolação.
A dona da casa,
afável, meiga, deliciosa com todos, parecia realmente feliz
naquela data; não menos o marido. Talvez ele fosse ainda
mais feliz que ela, mas não saberia mostrá-lo tanto.
D. Carmo possui o dom de falar e viver por todas as feições,
e um poder de atrair as pessoas, como terei visto em poucas mulheres,
ou raras. Os seus cabelos brancos, colhidos com arte e gosto dão
à velhice um relevo particular, e fazem casar nela todas
as idades. Não sei se me explico bem, nem é preciso
dizer melhor para o fogo a que lançarei um dia estas folhas
de solitário.
De quando em
quando, ela e o marido trocavam as suas impressões com os
olhos, e pode ser que também com a fala. Uma só vez
a impressão visual foi melancólica. Mais tarde ouvi
a explicação a mana Rita. Um dos convivas - sempre
há indiscretos -, no brinde que lhes fez aludiu à
falta de filhos, dizendo "que Deus lhos negara para que eles
se amassem melhor entre si". Não falou em verso, mas
a idéia suportaria o metro e a rima, que o autor talvez houvesse
cultivado em rapaz; orçava agora pelos cinqüenta anos,
e tinha um filho. Ouvindo aquela referência, os dous fitaram-se
tristes, mas logo buscaram rir, e sorriram. Mana Rita me disse depois
que essa era a única ferida do casal. Creio que Fidélia
percebeu também a expressão de tristeza dos dous,
porque eu a vi inclinar-se para ela com um gesto do cálix
e brindar a D. Carmo cheia de graça e ternura:
- À sua
felicidade.
A esposa Aguiar,
comovida, apenas pôde responder logo com o gesto; só
instantes depois de levar o cálix à boca, acrescentou,
em voz meia surda, como se lhe custasse sair do coração
apertado esta palavra de agradecimento:
- Obrigada.
Tudo foi assim
segredado, quase calado. O marido aceitou a sua parte do brinde,
um pouco mais expansivo, e o jantar acabou sem outro rasto de melancolia.
De noite vieram
mais visitas; tocou-se, três ou quatro pessoas jogaram cartas.
Eu deixei-me estar na sala, a mirar aquela porção
de homens alegres e de mulheres verdes e maduras, dominando a todas
pelo aspecto particular da velhice de D. Carmo, e pela graça
apetitosa da mocidade de Fidélia; mas a graça desta
trazia ainda a nota da viuvez recente, aliás de dous anos.
Shelley continuava a murmurar ao meu ouvido para que eu repetisse
a mim mesmo: I can give not what men call love.
Quando transmiti
esta impressão a Rita, disse ela que eram desculpas de mau
pagador, isto é, que eu, temendo não vencer a resistência
da moça, dava-me por incapaz de amar. E pegou daqui para
novamente fazer a apologia da paixão conjugal de Fidélia.
- Todas as pessoas
daqui e de fora que os viram - continuou - podem dizer a você
o que foi aquele casal. Basta saber que se uniram, como já
lhe disse, contra a vontade dos dous pais, e amaldiçoados
por ambos. D. Carmo tem sido confidente da amiga, e não repete
o que lhe ouve por discreta, resume só o que pode, com palavras
de afirmação e de admiração. Tenho-as
ouvido muita vez. A mim mesma Fidélia conta alguma cousa.
Converse com o tio... Olhe, ele que lhe diga também da gente
Aguiar...
Neste ponto
interrompi:
- Pelo que ouço,
enquanto eu andava lá fora, a representar o Brasil, o Brasil
fazia-se o seio de Abraão. Você, o casal Aguiar, o
casal Noronha, todos os casais, em suma, faziam-se modelos de felicidade
perpétua.
- Pois peça
ao desembargador que lhe diga tudo.
- Outra impressão
que levo desta casa e desta noite é que as duas damas, a
casada e a viúva, parecem amar-se como mãe e filha,
não é verdade?
- Creio que
sim.
- A viúva
também não tem filhos?
- Também
não. É um ponto de contacto.
- Há
um ponto de desvio; é a viuvez de Fidélia.
- Isso não;
a viuvez de Fidélia está com a velhice de D. Carmo;
mas se você acha que é desvio tem nas suas mãos
consertá-lo, é arrancar a viúva à viuvez,
se puder; mas não pode, repito.
A mana não
costuma dizer pilhérias, mas quando lhe sai alguma tem pico.
Foi o que eu lhe disse então, ao metê-la no carro que
a levou a Andaraí, enquanto eu vim a pé para o Catete.
Esqueceu-me dizer que a casa Aguiar é na Praia do Flamengo,
ao fundo de um pequeno jardim, casa velha mas sólida.
Sábado
Ontem encontrei
um velho conhecido do corpo diplomático e prometi ir jantar
com ele amanhã em Petrópolis. Subo hoje e volto segunda-feira.
O pior é que acordei de mau humor, e antes quisera ficar
que subir. E daí pode ser que a mudança de ar e de
espetáculo altere a disposição do meu espírito.
A vida, mormente nos velhos, é um ofício cansativo.
Segunda -feira
Desci hoje de
Petrópolis. Sábado, ao sair a barca da Prainha, dei
com o desembargador Campos a bordo, e foi um bom encontro, porque
daí a pouco o meu mau humor cedia, e cheguei a Mauá
já meio curado. Na estação de Petrópolis
estava restabelecido inteiramente.
Não me
lembra se já escrevi neste Memorial que o Campos foi meu
colega de ano em S. Paulo. Com o tempo e a ausência perdemos
a intimidade, e quando nos vimos outra vez, o ano passado, apesar
das recordações escolásticas que surgiram entre
nós, éramos estranhos. Vimo-nos algumas vezes, e passamos
uma noite no Flamengo; mas a diferença da vida tinha ajudado
o tempo e a ausência.
Agora na barca
fomos reatando melhor os laços antigos. A viagem por mar
e por terra eram de sobra para avivar alguma cousa da vida escolar.
Bastante foi; acabamos lavados da velhice.
Ao subir a serra
as nossas impressões divergiram um tanto. Campos achava grande
prazer na viagem que íamos fazendo em trem de ferro. Eu confessava-lhe
que tivera maior gosto quando ali ia em caleças tiradas a
burros, umas atrás das outras, não pelo veículo
em si, mas porque ia vendo, ao longe, cá embaixo, aparecer
a pouco e pouco o mar e a cidade com tantos aspectos pinturescos.
O trem leva a gente de corrida, de afogadilho, desesperado, até
a própria estação de Petrópolis. E mais
lembrava as paradas, aqui para beber café, ali para beber
água na fonte célebre, e finalmente a vista do alto
da serra, onde os elegantes de Petrópolis aguardavam a gente
e a acompanhavam nos seus carros e cavalos até à cidade;
alguns dos passageiros de baixo passavam ali mesmo para os carros
onde as famílias esperavam por eles.
Campos continuou
a dizer todo o bem que achava no trem de ferro, como prazer e como
vantagem. Só o tempo que a gente poupa! Eu, se retorquisse
dizendo-lhe bem do tempo que se perde, iniciaria uma espécie
de debate que faria a viagem ainda mais sufocada e curta. Preferi
trocar de assunto e agarrei-me aos derradeiros minutos, falei do
progresso, ele também, e chegamos satisfeitos à cidade
da serra.
Os dous fomos
para o mesmo hotel (Bragança). Depois de jantar saímos
em passeio de digestão, ao longo do rio. Então, a
propósito dos tempos passados, falei do casal Aguiar e do
conhecimento que Rita me disse que ele tinha da vida e da mocidade
dos dous cônjuges. Confessei achar nestes um bom exemplo de
aconchego e união. Talvez a minha intenção
secreta fosse passar dali ao casamento da própria sobrinha
dele, suas condições e circunstâncias, cousa
difícil pela curiosidade que podia exprimir, e aliás
não está nos meus hábitos, mas ele não
me deu azo nem tempo. Todo este foi pouco para dizer da gente Aguiar.
Ouvi com paciência, porque o assunto entrou a interessar-me
depois das primeiras palavras, e também porque o desembargador
fala mui agradavelmente. Mas agora é tarde para transcrever
o que ele disse; fica para depois, um dia, quando houver passado
a impressão, e só me ficar de memória o que
vale a pena guardar.
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