MEMORIAL DE AIRES
Machado de Assis
2 de setembro
Aniversário
da batalha de Sedan. Talvez vá à casa do desembargador
pedir a Fidélia que, em comemoração da vitória
prussiana, nos dê um pedaço de Wagner.
3 de setembro
Nem Wagner,
nem outro. Tristão estava lá e deu-nos um trecho de
Tannhauser, mas a viúva Noronha recusou o pedido. Supondo
que fosse luto pela lembrança da derrota francesa, pedi-lhe
um autor francês qualquer, antigo ou moderno, posto que a
arte - disse-lhe com alguma afetação -naturaliza a
todos na mesma pátria superior. Sorriu e não tocou;
tinha um pouco de dor de cabeça. Aguiar e Carmo, que lá
estavam também, não me acompanharam no pedido, como
"se lhes doesse a cabeça da amiga". Outra preciosidade
de estilo, esta renovada de Sévigné. Emenda essa língua,
velho diplomata!
A razão
verdadeira da recusa pode não ser dor de cabeça nem
de outra qualquer parte. Quer-me parecer que Fidélia vai
um tanto comigo, e tocaria para si, caso estivesse só. Naquela
outra noite, em casa do Aguiar, deixou-se arrastar e tocar para
as doze pessoas que lá estavam, levada do sobressalto, de
um acordar do gosto antigo; agora abana a cabeça, não
quer divertir os outros. Tocará para o tio, de manhã,
e para si durante as horas de desembargo. Quando muito satisfará
os dous pais postiços, alguma vez. Sinal de que não
tinha dor de cabeça é que ouviu a Tristão com
evidente prazer, e aplaudiu sorrindo. Não digo que a música
não tenha o dom de fazer esquecer um mal físico, mas
desconfio que não foi assim neste caso.
Os dous conversaram
de Wagner e de outros autores, com interesse, e provavelmente com
acerto. Eu falei também o meu pouco; depois atendi ao que
me disse Aguiar, acerca de Tristão.
- Parece que
vem liquidar também alguns negócios do pai; soube
hoje por ele mesmo. Deus queira que não acabe tão
cedo.
- Deus também
ama a chicana, quem sabe?
- Não
são negócios do foro; e se algum chegar lá,
provavelmente ele deixa procurador aqui. Sabe já que ele
vai entrar na Câmara?
- Sei; disse-me
que aceitou de alguns chefes de Lisboa elegê-lo deputado.
- Carmo, que
queria prendê-lo por um ano ou mais, ficou aborrecida e triste,
e eu com ela. Trocamos os nossos aborrecimentos, quero dizer que
os somamos, e ficamos com o dobro cada um...
Gostei desta
palavra de Aguiar, e decorei-a bem para me não esquecer e
escrevê-la aqui. Aquele gerente de banco não perdeu
o vício poético. É bom homem; creio que já
o escrevi alguma vez, mas lá vai ainda agora. Não
perco nada em repeti-lo.
Falávamos
a um canto da sala, onde Campos e Tristão foram ter conosco,
deixando as duas damas entregues uma à outra. E eu cá
de longe fiquei a mirá-las, encantadoras naquela expressão
de si mesmas. A harmonia dos cabelos brancos de uma e dos cabelos
pretos de outra, as vozes que trocavam baixo sorrindo, com os olhos
brandos e amigos, tudo isso me faria perguntar a mim mesmo, por
que não eram realmente mãe e filha, esta casada com
algum rapaz que a merecesse, e aquela casada ou viúva, não
importa; consolar-se-ia do marido perdido com a filha eterna. Toda
filha moça é eterna para as mães envelhecidas.
Mas ainda uma vez notei que pareciam antes irmãs, tal a arte
de D. Carmo em se fazer moça com as moças. A matéria
da conversação não sei qual fosse, nem vale
a pena cogitá-la; não daria mais interesse ao grupo.
De uma vez, demorando-se Fidélia em consertar a posição
do broche, D. Carmo substituiu-lhe os dedos pelos seus, e consertou-lha
de todo.
4 de setembro
Relendo o dia
de ontem fiz comigo uma reflexão que escrevo aqui para me
lembrar mais tarde. Quem sabe se aquela afeição de
D. Carmo, tão meticulosa e tão serviçal, não
acabará fazendo dano à bela Fidélia? A carreira
desta, apesar de viúva, é o casamento; está
na idade de casar, e pode aparecer alguém que realmente a
queira por esposa. Não falo de mim, Deus meu, que apenas
tive veleidades sexagenárias; digo alguém de verdade,
pessoa que possa e deva amar como a dona merece. Ela, entregue a
si mesma, poderia acabar de receber o noivo, e iriam ambos para
o altar; mas entregue a D. Carmo, amigas uma da outra, não
dará pelo pretendente, e lá se vai embora um destino.
Em vez de mãe de família, ficará viúva
solitária, porque a amiga velha há de morrer, e a
amiga moça acabará de morrer um dia, depois de muitos
dias...
A reflexão
é verdadeira, por mais que se lhe possa dizer em contrário.
Não afirmo que as cousas se passem exatamente assim, e que
os três - os quatro, contando o velho Aguiar - os cinco e
seis, juntando o tio e o primo - não façam com o noivo
adventício uma só família de afeição
e de sangue; mas a reflexão é verdadeira. A afeição,
o costume, o feitiço crescente, e por fim o tempo, cúmplice
de atentados, negarão a bela viúva a qualquer namorado
trazido pela natureza e pela sociedade. Assim chegará ela
aos trinta anos, depois aos trinta e cinco e quarenta. Quando a
esposa Aguiar morrer não se contentará de a chorar,
lembrar-se-á dela, e as saudades irão crescendo com
o tempo. O pretendente terá desaparecido ou passado a outras
alegrias.
Reli também
este dia de hoje, e temo haver-lhe posto (principalmente no fim)
alguma nota poética ou romanesca, mas não há
disso; antes é tudo prosa, como a realidade possível.
Esqueceu-me trazer um elemento para a viuvez definitiva da moça,
a própria lembrança do marido. Daqui a cinco anos,
ela mandará transferir os ossos do pai para a cova do marido,
e os conciliará na terra uma vez que a eternidade os conciliou
já. Aqui e ali toda a política se resume em viverem
uns com outros, no mesmo que eram, e será para nunca mais.
8 de setembro
Os dous filhos
postiços do casal Aguiar não têm ciúmes
um do outro, não se sentem diminuídos pela afeição
que recebem dos velhos. Ao contrário, parecem achar que a
porção de cada um cresce com a que o outro recebe
também. Eis aí uma boa divisão de amigos; há
casos em que os filhos de verdade não se mostram tão
cordatos.
Mana Rita, a
quem comuniquei esta impressão, acha também que é
assim. Acrescenta, porém, uma reflexão mais fina que
essa, e não tenho dúvida em a escrever aqui ao pé
da minha, tanto mais que lhe repliquei com outra, não menos
fina que a sua. Vá este elogio a nós ambos. Sempre
há de haver quem nos desgabe um pouco, e aí fica já
a compensação. Nem custa muito elogiar-se a gente
a si mesma. Eis o que me disse a mana:
- Esse sentimento
há de custar pouco ao Tristão, estando aqui de passagem.
Ao que eu repliquei:
- Também
não lhe custará muito a Fidélia, sabendo que
ele se vai embora daqui a pouco.
Escritas as
palavras de ambos nós, entro a duvidar da finura dela e minha.
Por mais rápida que fosse a passagem do rapaz, ele gostaria
de se ver exclusivamente querido, e ela também a si. Penso
outra vez que a qualidade do afeto filial é que os faz assim
generosos e abertos. Repito o que lá disse acima: casos há
em que não vivem com tanto acordo filhos verdadeiros.
Rita deu-me
outras notícias da casa Aguiar, onde não piso há
mais de uma semana, creio. Todas confirmam a comunhão de
boa vontade da parte de moços e velhos. Os quatro passam
os dias em conversa, e ontem a viúva Noronha tocou piano,
um pouquinho, é verdade, mas tocou. Parece que já
uma vez jogaram cartas. Rita disse mais:
- Fidélia,
que desde que saiu do colégio nunca mais fez trabalhos de
agulha, começa agora a imitar a amiga, e já ontem
trabalharam juntas. Quando eu lá cheguei às duas horas
da tarde e dei com elas, defronte uma da outra, movendo agulhas,
você não imagina a alegria com que me receberam; D.
Carmo mostrava um pouco de orgulho também, ou cousa parecida.
Faziam um par de sapatinhos de criança. O trabalho de Fidélia
não tinha a perfeição do da outra, e não
estava tão adiantado, mas também o de D. Carmo podia
ir mais depressa; talvez fosse intenção dela não
deixar a moça muito atrás, e por isso iria demorando
os dedos. Quis rir, perguntando a qual delas destinavam tais sapatos,
mas não tive tempo; Fidélia disse-me que eram para
o filho de uma criada de D. Carmo que fora dar à luz em casa
do marido. D. Carmo ia começar o crochêt quando Fidélia
lhe apareceu, e quis acompanhá-la. Consentiu para não
sair trabalho de velha.
O mais que a
mana me disse não vai aqui para não encher papel nem
tempo, mas era interessante. Vai só isto, que jantou lá
e Fidélia também, a convite de D. Carmo. O velho Aguiar
e Tristão tinham saído a passeio, depois do almoço,
mas voltaram cedo, às quatro horas. Não viram a parada
do dia de ontem (sete), apenas viram passar um batalhão,
que não deixou impressão no moço. Todos os
batalhões se parecem, disse ele. O hino nacional, sim, é
que acordou nele algumas saudades do tempo de criança e de
rapaz; assim o confessou, e daí nasceu a conversação
musical que levou Fidélia ao piano. A viúva não
tocou mais de quatro ou cinco minutos, e fê-lo a pedido de
Tristão, que lhe citou um autor; Rita não se lembra
que autor foi, mas achou bonita a música. Também se
falou em cousas da Europa, e os dous ajustaram bem os modos de ver.
Ouvi tudo isso
em Andaraí, onde fui jantar hoje com Rita. Propus-lhe vir
comigo e irmos ao Flamengo, a mana recusou; estava com o sono atrasado,
e queria dormir. Voltei só e fui à casa Aguiar, onde
os quatro e o desembargador conversaram de festas religiosas, a
propósito do dia santo de hoje. Ainda uma vez os dous deram
impressões européias, e realmente ajustaram as reminiscências.
As minhas, quando as pediram, ficaram naquele acordo de cabeça,
que é útil, quando um assunto cansa ou aborrece, como
este a mim.
Quando o tio
e a sobrinha se foram, eu fiquei ainda um quarto de hora com a gente
Aguiar. O resto amanhã; também eu estou com sono.
9 de setembro
O resto é
a notícia de ter chegado Osório, o advogado do Banco
do Sul, que foi há tempos ao Recife, onde o pai estava doente
e morreu.
- Voltou triste,
e o luto ainda o faz mais triste, disse Aguiar.
- Será
só a morte do pai? perguntei.
- Que mais pode
ser?
- Não
me disseram, ou eu adivinhei que ele andava meio apaixonado por
D. Fidélia...?
- Andava, sim,
e talvez mais que meio, explicou Aguiar, mas já lá
vai naturalmente.
- Em todo caso
não se lhe declarou?
- Com o gesto,
é possível; ela tacitamente recusou, e foi pena; ambos
se merecem.
Aguiar louvou
as qualidades profissionais do moço, a educação
e as virtudes. Acreditei tudo, como era do meu dever, e aliás
não tinha razão para duvidar de nada. D. Carmo confirmou
as palavras do marido, sem afirmar que era pena não se terem
casado. Calou esse ponto, e foi mais discreta que ele. Pode ser
que nele falasse também o gerente do banco. Tristão
durante esse tempo folheava um livro de gravuras.
Digo que eram
gravuras, porque me fui despedir dele, que se levantou logo, com
grande cortesia; mas de longe pensei que fosse o álbum de
retratos. Não era; o álbum estava ao pé, aberto
justamente na página em que figuram as duas fotografias de
Carmo e do marido. Tristão deixou também aberto o
livro das gravuras e veio comigo à porta, acompanhando Aguiar,
e ali me despedi de ambos.
à tarde
Parece que a
gente Aguiar me vai pegando o gosto de filhos, ou a saudade deles,
que é expressão mais engraçada. Vindo agora
pela Rua da Glória, dei com sete crianças, meninos
e meninas, de vário tamanho, que iam em linha, presas pelas
mãos. A idade, o riso e a viveza chamaram-me a atenção,
e eu parei na calçada, a fitá-las. Eram tão
graciosas todas, e pareciam tão amigas que entrei a rir de
gosto. Nisto ficaria a narração, caso chegasse a escrevê-la,
se não fosse o dito de uma delas, uma menina, que me viu
rir parado, e disse às suas companheiras:
- Olha aquele
moço que está rindo para nós.
Esta palavra
me mostrou o que são olhos de crianças. A mim, com
estes bigodes brancos e cabelos grisalhos, chamaram-me moço!
Provavelmente dão este nome à estatura da pessoa,
sem lhe pedir certidão de idade.
Deixei andar
as crianças e vim fazendo comigo aquela reflexão.
Elas foram saltando, parando, puxando-se à direita e à
esquerda, rompendo alguma vez a linha e recosendo-a logo. Não
sei onde se dispersaram; sei que daí a dez minutos não
vi nenhuma delas, mas outras, sós ou em grupos de duas. Algumas
destas carregavam trouxas ou cestas, que lhes pesavam à cabeça
ou às costas, começando a trabalhar, ao tempo em que
as outras não acabavam ainda de rir. Dar-se-á que
a não ter carregado nada na meninice devo eu o aspecto de
"moço" que as primeiras me acharam agora? Não,
não foi isso. A idade dá o mesmo aspecto às
cousas; a infância vê naturalmente verde. Também
estas, se eu risse, achariam que "aquele moço ria para
elas", mas eu ia sério, pensando, acaso doendo-me de
as sentir cansadas; elas, não vendo que os meus cabelos brancos
deviam ter-lhes o aspecto de pretos, não diziam cousa nenhuma,
foram andando e eu também.
Ao chegar à
porta de casa dei com o meu criado José, que disse estar
ali à minha espera.
- Para quê?
- Para nada;
vim esperar V. Exª cá embaixo.
Era mentira;
veio distrair as pernas à rua, ou ver passar criadas vizinhas,
também necessitadas de distração; mas, como
ele é hábil, engenhoso, cortês, grave, amigo
de seu dever - todos os talentos e virtudes - preferiu mentir nobremente
a confessar a verdade. Eu nobremente lho perdoei e fui dormir antes
de jantar.
Dormi pouco,
uns vinte minutos, apenas o bastante para sonhar que todas as crianças
deste mundo, com carga ou sem ela, faziam um grande círculo
em volta de mim, e dançavam uma dança tão alegre
que quase estourei de riso. Todas falavam "deste moço
que ria tanto". Acordei com fome, lavei-me, vesti-me e vim
primeiro escrever isto. Agora vou jantar. Depois, irei provavelmente
ao Flamengo.
à noite
Fui ao Flamengo.
A viúva não estava lá; estava o Osório,
e não o achei triste, como Aguiar havia dito, também
não estava alegre; falava pouco. Tristão, que lhe
fora apresentado hoje, falava mais que ele, sem falar muito. Noite
sem interesse. Voltei cedo e vou dormir.
12 de setembro
Quando cheguei
hoje à cidade, eram duas horas, e ia a sair do bonde, chegou-se
a ele a bela Fidélia, com o seu gracioso e austero meio-luto
de viúva. Vinha de compras, naturalmente. Cumprimentamo-nos,
dei-lhe a mão para subir. Perguntou-me pela mana, eu pelo
tio, ambos por nós, e ainda houve tempo de trocar esta meia
dúzia de palavras. Ela:
- Ainda agora?
- A minha preguiça
de aposentado não me permitiu sair mais cedo, disse eu rindo,
e afastei-me.
O bonde partiu.
Na esquina estava não menos que o Dr. Osório sem olhos,
porque ela os levava arrastados no bonde em que ia; foi o que concluí
da cegueira com que não me viu passar por ele... Ai, requinte
de estilo!
Entrei nesta
dúvida - se teriam estado juntos na rua ou na loja a que
ela veio, ou no banco, ou no inferno, que também é
lugar de namorados, é certo que de namorados viciosos, del
mal perverso. Achei que não, e compreendi que ele, se acaso
a cumprimentou na rua, não ousou falar-lhe, apenas a acompanhou
de longe, até que a viu meter-se no bonde e partir.
Também
achei outra cousa; é que a paixão antiga e recusada
não estava morta nele, ou revivia com a vista nova da pessoa.
Não era por ser agora a dona rica, já antes era ela
herdeira única, e vivia de si mesma. Não, ele é
bom, e o próprio Aguiar afirma que os dous se merecem.
Ia nessas conjeturas,
em direção à Escola Politécnica, e vi-o
passar por mim, cabisbaixo, não sei se triste ou alegre;
não pude ver-lhe a cara. Mas parece que a tristeza é
que é cabisbaixa, a alegria distribui os olhos felizes à
direita e à esquerda; alguma vez ao céu também.
É suposição minha, e pode não ser verdade.
A verdade certa é que, às duas horas da tarde, aquele
advogado andava atrás das moças, em vez de estar no
foro; ou mau advogado, ou feliz namorado.
14 de setembro
Nem uma cousa
nem outra. Refiro-me ao que escrevi anteontem do Osório,
que não é namorado feliz, pelo que me disse Aguiar
hoje, nem mau advogado, pelo que li nos jornais. Li que venceu uma
demanda do Banco do Sul, e Aguiar não lhe regateou louvores
ao zelo com que a pleiteou antes do embarque e depois do desembarque.
Eis aí um homem que sabe casar o zelo e a tristeza, e bem
pode ser isto um símbolo, se ele é o zelo, e Fidélia
a tristeza. Talvez acabem casando. Mas ainda depois da recusa? Tudo
é possível debaixo do sol - e a mesma cousa sucederá
acima dele -, Deus sabe.
18 de setembro
Venho da gente
Aguiar, e não me quero ir deitar sem escrever primeiro o
que lá se passou. Cheguei cedo, estavam sós os dous
velhos e receberam-me familiarmente.
- Venha o terceiro
velho, disse Aguiar, venha fazer companhia aos dous que aqui ficaram
abandonados.
Esta palavra,
que podia ser de queixa, foi dita rindo, e percebi pelo tom que
era alegre. Foi-me dita quase à porta da sala, onde ele foi
ter comigo, ficando ela em uma das duas cadeiras de balanço,
unidas e trocadas, em forma de conversadeira, onde costumavam passar
as horas solitárias. Respondi que trazia a minha velhice
para somar às duas e formar com elas uma só e verde
mocidade, das que já não há na terra. Sobre
este tema gasto e vulgar disseram também algo de riso, e
tais foram os primeiros minutos.
- Talvez não
nos encontrasse, se eu não estivesse doente de um joelho,
disse D. Carmo.
- Doente?
- Dói-me
um pouco este joelho, e o lugar é melindroso para andar.
Tristão foi sozinho à casa do desembargador, aonde
vão hoje alguns amigos do foro. Aguiar também queria
ir, mas Tristão disse-lhe que era melhor ficar; ele se incumbiria
de dar lá todas as desculpas, e foi sozinho.
- Quis que eu
ficasse fazendo companhia à madrinha, explicou Aguiar. Se
eu teimo em ir ele era capaz de ficar para a não deixar sozinha.
- Pode ser,
disse D. Carmo com os olhos.
Só com
os olhos. De boca disse logo depois que talvez ele fosse também,
à espera de ver lá moças. É provável
que os velhos amigos levem as filhas.
- Mas então
é alguma festa? perguntei.
- Não,
conselheiro, acudiu Aguiar; os amigos são uns três
ou quatro que ontem ajustaram entre si lá ir hoje, e avisaram
disso o desembargador. Foi o que Fidélia nos contou ontem
mesmo, aqui em casa.
E D. Carmo continuou
o que ia dizendo antes:
- Alguns levarão
as filhas, e é natural a um rapaz o desejo de ver moças.
Tristão acha que as suas patrícias são muito
graciosas; mais de uma vez o tem dito. Também se não
houver lá nenhuma é provável que acabe a visita
cedo e torne para casa. Tristão é cada vez mais amigo
nosso.
Conhecia este
outro tema, e acenei de cabeça que sim. Aguiar disse a mesma
cousa. O que ele não disse, nem eu esperei, foi a nota melancólica
que a mulher trouxe à conversação, e que eu
cuidei de atenuar, como pude.
- Os dias vão
correndo, disse ela, e os últimos correrão mais depressa;
brevemente o nosso Tristão volta para Lisboa e nunca mais
virá cá, ou só virá para ver as nossas
covas.
- Ora, D. Carmo!
deixe-se de idéias tristes.
- Carmo tem
razão, interveio o marido; o tempo acabará depressa
para que ele se vá, e não ficará às
nossas ordens para que fiquemos eternamente na vida.
- Todos nós
lá vamos, disse eu. A morte é outro desembargador,
conta muitos amigos que lá passam as noites, e os que têm
filhas levam as filhas. Isto é certo, mas o melhor é
não pensar nela.
- Não
é nela, é nele, emendou D. Carmo; falo do nosso Tristão,
que se irá brevemente.
Sorri e disse:
- Ele se irá,
creio, mas ficará ela.
Acentuei bem
os pronomes, e não seria preciso; Carmo entendeu-me logo
e bem. O ar de riso que se lhe espraiou do rosto mostrou que entendera
a alusão à bela Fidélia. Era uma consolação
grande. Não obstante, a consolação só
cabe ao que dói, e a dor da perda de um já não
seria menor que o prazer da conservação da outra.
Logo vi essas duas expressões no rosto da boa senhora, combinadas
em uma só e única, espécie de meio-luto. Aguiar
também sentiria como a mulher, mas o ofício de banqueiro
obriga e acostuma a dissimular. E talvez ainda não falassem
entre si do próximo regresso do Tristão; felicidade
rima com eternidade, e estes eram felizes.
Eram felizes,
e foi o marido que primeiro arrolou as qualidades novas de Tristão.
A mulher deixou-se ir no mesmo serviço, e eu tive de os ouvir
com aquela complacência, que é uma qualidade minha,
e não das novas. Quase que a trouxe da escola, se não
foi do berço. Contava minha mãe que eu raro chorava
por mama; apenas fazia uma cara feia e implorativa. Na escola não
briguei com ninguém, ouvia o mestre, ouvia os companheiros,
e se alguma vez estes eram extremados e discutiam, eu fazia da minha
alma um compasso, que abria as pontas aos dous extremos. Eles acabavam
esmurrando-se e amando-me.
Não quero
elogiar-me... Onde estava eu? Ah! no ponto em que os dous velhos
diziam das qualidades do moço. Não mentiam; quando
muito, podiam exagerar alguma, mas as que citavam deviam ser verdadeiras,
bom, carinhoso, atento, justo, puro de sentimentos, índole
pacífica, maneiras educadas, capaz de sacrifícios,
se fosse necessário. Não o tinham achado mau nem falho,
quando ele chegou; agora porém, as qualidades antigas estavam
apuradas, e algumas novas apareciam. Ainda que eu discordasse deles
não diria nada para os não aborrecer, mas que sabia
eu que pudesse contrariar essa opinião de amigos? Nada; concordei
com ambos.
D. Carmo entendeu
acaso que o assunto podia ser enfadonho a estranhos, e trocou as
mãos à conversa. Não totalmente, é verdade;
falou da casa do desembargador Campos e do que iria por lá.
Eu (habilmente, confesso) querendo saber o estado de coração
de Osório, perguntei se ele não estaria lá
também, ele, que também é do foro. Aguiar disse
logo que podia ser que sim; conforme. Sobre isto falamos um pouco,
e as qualidades do advogado foram ainda honradas, mas não
eram tantas, nem tamanhas como as de Tristão. Falavam com
simpatia, Aguiar mais que D. Carmo; eram relações
propriamente do banco e do foro.
- Mas não
haverá ainda nele alguma faísca antiga? perguntei.
- Pode ser,
e será mais uma razão para fugir, concluiu ele.
Não quis
dizer o que vira na rua, e aliás a conclusão dele
não era errada. D. Carmo escutava agora sem falar, embora
com interesse. A discrição daquela senhora é
das mais completas que tenho achado na vida. Não quis ela
entrar em tal assunto, e o marido não tardou muito que o
deixasse. Eu não retive a um nem a outro.
Assim é
o destino dos namorados sem ventura; os próprios amigos,
como Aguiar parece que é de Osório, tratam logo de
outra cousa. Eles que se fiquem consigo. Nós passamos a tratar
de algumas notícias de sociedade e das últimas notícias
novelescas de Paris. Neste capítulo D. Carmo sabe mais que
eu, e muito mais que o marido, que não sabe nada; mas Aguiar
acompanhou a conversação como se soubesse alguma cousa.
Ele compra-lhe os livros, que ela lê e resume para ele ouvir.
Como a memória dele é grande, cita também as
narrações escritas, com a diferença que ela,
tendo impressão direta, a análise que faz é
mais viva e interessante. Ouvi-lhe dizer de alguns nomes contemporâneos
muita cousa fina e própria. É claro que, se o marido
escrevesse também, achá-lo-ia melhor que ninguém,
porque ela o ama deveras, tanto ou mais que no primeiro dia; é
a impressão que ainda hoje me deixou.
Eu, para lhes
ser agradável - e um pouco a mim mesmo, porque os queria
gozar também - voltei ao assunto principal para ambos, que
não seria Fidélia só, nem só Tristão,
mas os dous juntos.
- Digam-me,
se eles fossem irmãos e seus filhos, não seria melhor
que apenas amigos e estranhos um ao outro?
Era a primeira
vez que lhes dizia uma cousa destas, e o interesse foi tamanho que
eles pegaram do assunto para dizer cousas interessantíssimas.
Não as escrevo por ser tarde, mas cá me ficam de memória.
Digo só que, quando saí, D. Carmo, apesar do joelho
doente, e por mais que eu quisesse detê-la, veio comigo à
porta da sala. Aguiar acompanhou-me até à porta do
jardim, enquanto ela veio à janela, donde se despedia ainda
uma vez.
- Olhe o sereno,
boa-noite, disse-lhe eu cá de baixo.
- Boa-noite.
D. Carmo entrou.
Aguiar e eu apertamos a mão um do outro. Indo a sair, lembrou-me
falar do cão ali sepultado. Não lhe falei logo, dei
três ou quatro investidas, mas tão rápidas que,
se gastei um minuto, foi o mais; nem tanto. Aguiar ouviu-me espantado
e constrangido.
- Quem lhe contou
isso?
- O Dr. Tristão.
Não lhe
quis citar o Campos, que também me falou do animal. Aguiar
confessou calando, depois falando, mas não falou muito. Confirmou
que tiveram muita amizade ao bicho e referiu-me os padecimentos
que a doença e a morte deste produziram na mulher. Não
disse os seus, mas também os tivera; olhou uma vez para o
lado da parede, e depois de uma pausa:
- Tristão
riu-se naturalmente do nosso carinho?
- Ao contrário,
falou-me com muito louvor; tem bom coração aquele
rapaz.
- Muito bom.
Apesar de não
ser dado a melancolias, nem achar que o ofício de banqueiro
vá com tais lástimas, separei-me dele com simpatia.
Vim pela Rua da Princesa, pensando nele e nela, sem me dar de um
cão que, ouvindo os meus passos na rua, latia de dentro de
uma chácara. Não faltam cães atrás da
gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto da
Rua do Catete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me
que me mandava este recado: "Meu amigo, não lhe importe
saber o motivo que me inspira este discurso; late-se como se morre,
tudo é ofício de cães, e o cão do casal
Aguiar latia também outrora; agora esquece, que é
ofício de defunto".
Pareceu-me este
dizer tão sutil e tão espevitado que preferi atribuí-lo
a algum cão que latisse dentro do meu próprio cérebro.
Quando eu era moço e andava pela Europa ouvi dizer de certa
cantora que era um elefante que engolira um rouxinol. Creio que
falavam da Alboni, grande e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois
eu terei engolido um cão filósofo, e o mérito
do discurso será todo dele. Quem sabe lá o que me
haverá dado algum dia o meu cozinheiro? Nem era novo para
mim este comparar de vozes vivas com vozes defuntas.
20 de setembro
Aquele dia 18
de setembro (anteontem) há de ficar-me na memória,
mais fixo e mais claro que outros, por causa da noite que passamos
os três velhos. Talvez não escrevesse tudo nem tão
bem; mas bastou-me relê-lo ontem e hoje para sentir que o
escrito me acordou lembranças vivas e interessantes, a boa
velha, o bom velho, a lembrança dos dous filhos postiços...
Continuo a dar-lhes este nome, por não achar melhor... Principalmente
aquela felicidade média ou turva de pessoas que vão
perder um de dous bens do céu, essa expressão que
vi em D. Carmo mais forte ainda que no Aguiar...
21 de setembro
Ao sair hoje
de casa, vi passar na rua, do lado oposto, a irmã do corretor
Miranda, D. Cesária, tão risonha que parecia falar
mal de mim, mas não falava, ia só - ou falava de mim
consigo; mas só consigo não teria tanto prazer. Cumprimentamo-nos
e seguimos.
22 de setembro
...encantadora
Fidélia! Não escrevo isto porque a deseje, mas porque
é assim mesmo: encantadora! Pois não é que
esta criatura de Deus, encontrando-se comigo de manhã, veio
agradecer-me a companhia que fiz aos seus amigos do Flamengo, na
noite de 18?
- Não
tive merecimento nisso; fui lá, achei-os sós, passei
a noite.
- Isso mesmo.
D. Carmo disse-me que, se não foi uma noite cheia, foi só
por lhe faltarmos o Dr. Tristão e eu, mas que, ainda assim,
o senhor teve o dom de nos fazer esquecer.
Sorri incredulamente,
depois expliquei o caso, dizendo que, se os fiz esquecer, foi por
serem eles o próprio assunto da conversação.
. .
- Isso é
que ela não me disse, interrompeu Fidélia espantada.
- Nem dirá;
nem lho pergunte. O melhor é crer que eu, com os meus cabelos
brancos, ajudei a encher o tempo. A senhora não sabe o que
podem dizer três velhos juntos, se alguma vez sentiram e pensaram
alguma cousa.
- Sei, sei,
já tenho visto e ouvido os três.
- Mas nessas
ocasiões a senhora dá outra nota recente e viva à
conversação.
Era verdade
e era cumprimento; Fidélia sorriu agradecida e despediu-se.
Eu - aqui o digo ante Deus e o Diabo, se também este senhor
me vê a encher o meu caderno de lembranças - eu deixei-me
ir atrás dela. Não era curiosidade, menos ainda outra
cousa, era puro gosto estético. Tinha graça andando;
era o que lá disse acima: encantadora. Não fazia crer
que o sabia, mas devia sabê-lo. Ainda não encontrei
encantadora que o não soubesse. A simples suposição
de o ser tenta persuadir que o é.
No Largo de
S. Francisco estava um carro dela, perto da igreja. Íamos
da Rua do Ouvidor, a dez passos de distância ou pouco mais.
Parei na esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar
no carro, que partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados
de Botafogo. Quando ia a voltar dei com o moço Tristão,
que ainda olhava para o carro, no meio do largo, como se a tivesse
visto entrar. Ele vinha agora para a Rua do Ouvidor, e também
me viu; detive-me à espera. Tristão trazia os olhos
deslumbrados, e esta palavra na boca:
- Grande talento!
Percebi que
se referia ao talento musical, e nem por isso fiquei menos espantado;
quase me esqueceu concordar com ele. Concordei de gesto e de palavra,
sem entender nada. Também eu gosto de música, e sinto
não tocar alguma cousa para me aliviar da solidão;
entretanto, se fosse ele, e apesar de todos os Schumanns e seus
êmulos, ao vê-la parar no Largo de S. Francisco e entrar
no carro, não soltaria a mesma exclamação,
antes outra, igualmente estética, é verdade, mas de
uma estética visual, não auditiva. Não entendi
logo.
Depois, quando
nos separamos na esquina da Rua da Quitanda, entrei a cogitar se
ele, ao dar comigo, compôs aquela palavra para o fim de mostrar
que, mais que tudo, admira nela a arte musical. Pode ser isto; há
nele muita compostura e alguma dissimulação. Não
quis parecer admirador de pés bonitos; referiu-se aos dedos
hábeis. Tudo vinha a dar na mesma pessoa.
30 de setembro
Se eu estivesse
a escrever uma novela, riscaria as páginas do dia 12 e do
dia 22 deste mês. Uma novela não permitiria aquela
paridade de sucessos. Em ambos esses dias - que então chamaria
capítulos - encontrei na rua a viúva Noronha, trocamos
algumas palavras, vi-a entrar no bonde ou no carro, e partir; logo
dei com dous sujeitos que pareciam admirá-la. Riscaria os
dous capítulos, ou os faria mui diversos um de outro; em
todo caso diminuiria a verdade exata, que aqui me parece mais útil
que na obra de imaginação.
Já lá
vão muitas páginas falei das simetrias que há
na vida, citando os casos de Osório e de Fidélia,
ambos com os pais doentes fora daqui, e daqui saindo para eles,
cada um por sua parte. Tudo isso repugna às composições
imaginadas, que pedem variedade e até contradição
nos termos. A vida, entretanto, é assim mesmo, uma repetição
de atos e meneios, como nas recepções, comidas, visitas
e outros folgares; nos trabalhos é a mesma cousa. Os sucessos,
por mais que o acaso os taeça e devolva, saem muita vez iguais
no tempo e nas circunstâncias; assim a história, assim
o resto.
Dou estas satisfações
a mim mesmo, a fim de mencionar o meu joelho doente, tal qual o
de D. Carmo. Outra paridade de situações... Há
duas diferenças. A primeira é que nela o mal é
puro e confessado reumatismo. Em mim também, mas o meu criado
José chama-lhe nevralgia, ou por mais elegante ou por menos
doloroso; é um dos seus modos de amar o patrão. A
segunda diferença...
A segunda diferença,
- ai, Deus! a segunda diferença é que, ainda que lhe
doa muito o joelho, D Carmo lá tem o marido e os dous filhos
postiços. Eu tenho a mulher embaixo do chão de Viena
e nenhum dos meus filhos saiu do berço do Nada. Estou só,
totalmente só. Os rumores de fora, carros, bestas, gentes,
campainhas e assobios, nada disto vive para mim. Quando muito o
meu relógio de parede, batendo as horas, parece falar alguma
cousa - mas fala tardo, pouco e fúnebre. Eu mesmo, relendo
estas últimas linhas, pareço-me um coveiro.
Mana Rita não
me veio visitar, porque não sabe nada, e provavelmente não
tem saído; sei que está boa. O meu mal começou
há sete dias. Durmo bem às noites, mas não
me faz bem andar, dói-me. Amanhã, se não acordar
pior, saio.
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