MEMORIAL DE AIRES
Machado de Assis
1º de novembro
Este é
o dia de todos os santos; amanhã é o de todos os mortos.
A igreja andou bem marcando uma data para comemorar os que se foram.
No tumulto da vida e suas seduções, fique um dia para
eles... A reticência que aí deixo exprime o esforço
que fiz para acabar esta página em melancolia; não
posso, nunca pude. Tristezas não são comigo. Entretanto,
em rapaz - quando fiz versos, nunca os fiz senão tristíssimos.
As lágrimas que verti então - pretas, porque a tinta
era preta - podiam encher este mundo, vale delas.
2 de novembro
Mana Rita foi
hoje ao cemitério levar flores aos nossos.
- Você
não imagina; acordei às cinco e meia para me vestir
e estar cedo em S. João Batista. Cheguei às oito e
pouco; achei muita gente, não tanta, porém, como há
de ser logo, à tarde. Não vim buscar você, porque
sei que não iria.
- Pois eu fui
à missa da Glória.
- A igreja é
perto.
- Talvez fosse
ao cemitério. Muitas sepulturas bonitas?
- Bastantes;
entre elas a do marido de Fidélia. As coroas e flores que
ela encomendou há dias lá estavam bem dispostas e
faziam grande efeito; parece que o desembargador mandou também
o seu ramo; estava escrito numa fita.
- Vocês
falaram-se?
- Não;
ela já tinha saído.
- Como sabe você que ela é que foi levar as flores
e coroas?
- Adivinha-se
pela disposição.
- Sim?
- Decerto, mano.
A disposição, o arranjo, a combinação,
tudo era de mulher. Há dessas cousas que mão de homem
não faz; mão de homem é pesada ou trapalhona,
e mais se é de desembargador, como ele. Por exemplo, o nome
do marido, o nome próprio só, não todo, estava
cercado de perpétuas; isto é cousa que só uma
senhora inventa e faz. As outras flores, rosas e papoulas, distribuíam-se
com tal simetria que pediu tempo e gosto. Um homem chegava ali,
pegava das flores e espalhava-as à toa.
- Admira que
você a não visse.
- É que
foi muito cedo.
- Mas num dia
como o de hoje, tendo tanta cousa que arranjar. Daquela vez que
a encontramos era mais tarde.
- Era, mas o
dia era outro; hoje havia muita gente, não quis que a vissem,
é o que foi.
Mana Rita desenvolveu
esta idéia, que achei aceitável; depois falou dos
outros jazigos. Como dos jazigos passamos ao ministério e
a D. Cesária não me lembra, mas falamos dele e dela
com interesse, e a mana com graça. Tinham estado juntas as
duas, ontem à tarde; Rita desculpara-se de não ter
lá ido no dia 28. Contou-me parte do que lhe ouviu acerca
de duas pessoas que lá estiveram...
- Que lá
estiveram?
- Parece que
sim.
E entrou a repetir
uma série de anedotas e ditos, que ouvi durante uns dez minutos,
com atenção. A maledicência não é
tão mau costume como parece. Um espírito vadio ou
vazio, ou ambas estas cousas acha nela útil emprego. E depois
a intenção de mostrar que outros não prestam
para nada, se nem sempre é fundada, muita vez o é,
e basta que o seja alguma vez para justificar as outras. Disse isto
a Rita por palavras graciosas, que ela reprovou e deitou à
conta da minha perversidade.
9 de novembro
A marinha interrompeu
a paisagem, ou de todo a pôs de lado. Fidélia consentiu
em ir pintar um trecho da praia do Flamengo, não sei se com
Tristão ou sem ele. Aguiar, que me deu a notícia,
limitou-se a dizer que ela já começou a tela com muito
gosto.
- Vá
lá amanhã, conselheiro, entre uma e duas horas.
11 de novembro
Não fui
ontem, fui hoje ver a marinha. Achei Fidélia no jardim, junto
da casa, com o pincel e a palheta nas mãos, os olhos no mar
e na tela, em pé. Ao lado, sentada, estava D. Carmo, com
o seu riso bom e maternal. Viu-me à porta do jardim, e fez
um gesto convidando-me a entrar; entrei.
- Venha, disse
ela, ande ver a minha artista.
Fidélia
pareceu vexada com estas palavras, e estendeu-me a mão, já
livre do pincel, dizendo:
- Não
olhe, não olhe que não presta.
Olhei, prestava.
Está ainda em começo, e não será obra-prima;
a polidez obrigava-me a achá-la excelente, e disse-lho, com
um gesto de admiração; mas, em verdade, presta. O
fundo, serra e céu, faz bom efeito; a água creio que
terá movimento e boa cor. Faltava Tristão; não
vi nem sombra do "filho pintado pela filha". Posto não
estranhasse a ausência, lembrou-me insinuá-la. Disse-lhe
que podia pôr na praia a figura da boa amiga, que ali estava
a acompanhá-la com os seus dous olhos amigos. Esta ia a dizer
alguma cousa, mas Fidélia replicou:
- Não
me atrevi, por não conhecer bem a arte de figura; no colégio
pintava flores e paisagens, algum pedaço de mar ou de céu.
Se não fosse isso, tirava o retrato de D. Carmo.
D. Carmo confirmou:
- Eu pedi-lhe
que pintasse Tristão neste quadro, e ela respondeu-me a mesma
cousa.
Aceitei a razão,
aceitei uma cadeira vaga que ali estava, e pedi à viúva
que continuasse a obra. Queria vê-la pintar. Na Europa tinha
assistido ao trabalho de alguns artistas homens; era a primeira
vez que uma senhora pintava diante de mim. Fidélia dispôs-se
e continuou. Após alguns minutos os três falávamos
de várias cousas. A viúva estava em toda a graça
do costume, sem nenhum ar petulante que porventura pudesse tirar
do exercício; pintava modestamente. Alguma vez interrompia
o trabalho, ou para ouvir melhor, ou para dizer mais longo - e logo
tornava ao pincel e à tela.
Ao cabo de alguns
minutos cuidava eu de sair, quando vi aparecer à porta da
casa nada menos que Tristão. A porta é larga, dá
para um saguão, donde se comunica para cima por dous pequenos
lanços de degraus, teto baixo. Tristão vinha de concluir
a correspondência que vai mandar para o correio, segundo soube
logo depois, e tornava ao lugar em que estivera, ao pé das
duas. Mandou vir cadeira; a que eu ocupava era a que ele ocupava
antes, e não havia outra. Talvez estes pormenores não
tenham valor, mas cabem aqui para o fim de acentuar bem que Tristão
estava com elas antes da minha chegada, e para lembrar que antes
de vir a cadeira me consultou acerca da pintura; respondi o que
cumpria.
- Não
é? disse ele contente do meu apoio.
E acrescentou
algumas palavras de louvor, cálidas, sinceras decerto, que
a viúva apreciou consigo naturalmente; não as contestou,
também não sorriu como sucede quando a gente aprova
interiormente uma cousa que lhe vai bem com a alma. Ouviu pintando,
recuando ou chegando, e deitando os olhos para longe. Quando os
encaminhou para ele (já então sentado) não
esperou que Tristão afastasse os seus; encontrou-os e deixou-os
ficar onde estavam, indo continuar a marinha com tanta atenção
que era como se nós outros não falássemos de
nada, e nós falávamos de muita cousa, ele acaso menos,
para ver melhor a pintura.
Aquele silêncio
de Fidélia, em contraste com a palestra de pouco antes, pareceu-me
indicar que ela considerava a obra em atraso. Também podia
ser que o amor da arte a retivesse agora mais que a princípio,
e a convidasse a pintar exclusivamente. A causa secreta de um ato
escapa muita vez a olhos agudos, e muito mais aos meus que perderam
com a idade a natural agudeza; mas creio que seria uma daquelas,
e não há razão para descrer que fossem ambas
sucessivamente.
Quem parecia
contente de tudo, palavras e silêncios, era a dona da casa.
Posto me desse a principal atenção, não o fazia
em maneira que esquecesse a tela e os filhos. Mirava a tela e falava
aos filhos com a ternura velha que já estou cansado de notar,
e talvez a ternura fosse agora maior que de outras vezes; pelo menos,
trazia certo alvoroço como de alma que soletra uma felicidade
nova ou inesperada; não digo tudo para me não arriscar
a engano.
A verdade é
que eu, que pensara em sair, fui ficando, ficando, até que
a viúva Noronha suspendeu o trabalho; tinha passado quase
uma hora. Confessou que estava cansada, e cuidou de recolher os
pincéis e cobrir a pintura, ajudada nisso pelo moço
Tristão, que o fazia com a mesma graça que ela, e
um desejo de bem servir, que é a alma da polidez. Eu, além
de velho, não podia deixar a boa Carmo, que só os
ajudou com os olhos, e ajudou-os bem; iam de um para outro, não
só alegres, mas ainda interrogativos. Eles acabaram tudo
e vieram sentar-se diante de nós, um cheio de riso, outra
não cheia, mas tocada apenas do seu, que era igualmente agradecido
e bom.
A minha presença
era já longa, e apesar das relações que há
entre nós, começaria a parecer indiscreta. Era tempo
de sair; quis sair e ficar a um tempo, cousa impossível;
vivi assim alguns instantes de impulsos contrários. Tristão
podia resolver esta minha luta interior cantando alguma cousa que
me obrigasse a ouvi-lo, mas estava então ocupado em dizer
finezas à artista, à viúva, à irmã,
a todas aquelas três pessoas consubstanciadas na mesma dama
encantadora. Fidélia sorria com recato e atenção,
e respondia também. Despedi-me, e achei (se não foi
engano) que D. Carmo estimou a minha saída para se dar inteiramente
aos dous filhos. Certo é, porém, que os três
me falaram com apreço e cortesia. Vim por aí fora
pensando neles.
12 de novembro
Fiz mal em não
pôr aqui ontem o que trouxe de lá comigo. Creio que
Tristão anda namorado de Fidélia. No meu tempo de
rapaz dizia-se mordido; era mais enérgico, mas menos gracioso,
e não tinha a espiritualidade da outra expressão,
que é clássica. Namoro é banal, dá idéia
de uma ocupação de vadios ou sensuais, mas namorado
é bonito. "Ala de namorados" era a daqueles cavaleiros
antigos que se bateram por amor das damas... Ó tempos!
A minha impressão
é que ele anda ou começa a andar namorado da viúva.
Outra impressão que também não escrevi é
que a madrinha parece perceber o mesmo, e tira daí certo
alvoroço. Quando lá for agora hei de abrir todas as
velas à minha sagacidade, a ver se confirmo ou desminto estas
duas impressões. Pode ser engano, mas pode ser verdade.
Hoje, que não
saio, vou glosar este mote. Acudo assim à necessidade de
falar comigo, já que o não posso fazer com outros;
é o meu mal. A índole e a vida me deram o gosto e
o costume de conversar. A diplomacia me ensinou a aturar com paciência
uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre
para os seus propósitos secretos. A aposentação
me restituiu a mim mesmo; mas lá vem dia em que, não
saindo de casa e cansado de ler, sou obrigado a falar, e, não
podendo falar só, escrevo.
13 de novembro
Aguiar veio
a mim, e disse:
- Já
sei que gostou da marinha.
- Gostei muito.
Está adiantada?
- Está.
- A artista
não tem parado?
- Não;
vai lá todos os dias e pinta com amor.
- Com amor?
Essa é a corda principal dela. Não sei se já
lhe disse que o que me encanta na afeição que ela
tem aos senhores, e particularmente a D. Carmo, é o toque
de subordinação graciosa, que lhe dá totalmente
um ar de filha. É isso, é a obediência discreta
e pontual com que ela acode aos desejos dos seus pais de coração.
- Diz bem, conselheiro.
Estávamos
no Tesouro, aonde fomos por negócios, e saímos dali
a pé, caminho do Rocio, a pegar um bonde, mas não
pegamos nada. A conversação foi o melhor veículo;
é desses que têm as rodas surdas e rápidas,
e fazem andar sem solavancos. Viemos descendo, a continuar o assunto,
e a dizer cousas interessantes; eu, pelo menos, porque ele vivia
mais nos olhos e nos ouvidos que na boca. Ouvia com atenção,
e alguma vez com desatenção; no segundo caso, era
todo olhos, mas tão alongados, que esqueciam a rua e o companheiro.
Uma das confidências
que me faz merece ser posta aqui. Para me dar razão no que
lhe disse da subordinação graciosa da viúva,
referiu-me que as duas costumavam ir à missa, ao domingo,
na matriz da Glória; a viúva vinha sempre acompanhar
D. Carmo ao Flamengo, donde tornava logo para Botafogo, se não
almoçava com eles.
Carmo, para
a não obrigar a vir tão longe, ia algum domingo ouvir
missa a Botafogo, mas Fidélia vinha quase sempre à
Glória.
- E agora já
não vem?
- Agora Carmo
é que não vai a uma nem a outra parte, ou só
raro. A minha pobre mulher anda cansada; lá tem o seu livro,
com as suas rezas marcadas. Ao domingo, à mesma hora, antes
de catar notícias nas gazetas, pega em si e no livro, e acompanha
a missa toda. Eu, que já sei a hora, não a perturbo
nunca; se me acontece por acaso entrar no gabinete onde ela tem
o seu altarzinho e o seu Cristo, recuo a tempo, mas não lhe
arranco os olhos da página; é como se não entrasse
ninguém. Acaba, beija a imagem e torna ao mundo. Não
sai de casa sem a beijar primeiro, como um pedido de proteção,
nem volta sem fazer o mesmo, ainda vestida e de chapéu, como
a dar graças. O mesmo ao deitar e ao levantar.
Como esses,
referiu Aguiar outros hábitos caseiros da consorte, que ouvi
com agrado. Não seriam grandemente interessantes, mas eu
tenho a alma feita em maneira que dou apreço ao mínimo,
uma vez que seja sincero. Não diria isto a ninguém
cara a cara, mas a ti, papel, a ti que me recebes com paciência,
e alguma vez com satisfação, a ti, amigo velho, a
ti digo e direi, ainda que me custe, e não me custa nada.
Creio que outras damas leiam também a missa em casa, ou por
fadiga, ou por doença, ou por estar chovendo, e há
sempre que louvar em pessoa que respeita os seus elos espirituais.
Só me aborrece a que os enfia ao modo de colar para dar melhor
vista ao pescoço. Tal não é aquela boa senhora
do Flamengo. A piedade dessa estende-se à memória
da mãe e do pai, à saudade das amigas, e (ainda que
me canse repeti-lo) à amizade dos seus dous filhos de empréstimo.
20 de novembro
Já lá
voltei três vezes. Achei sempre D. Carmo, Fidélia e
Tristão. Da terceira vez Aguiar chegou mais cedo, e assistiu
às últimas pinceladas.
Creio que sim;
creio que o moço admira menos a tela que a pintora, ou mais
a pintora que a tela, à escolha. Uma ou outra hipótese,
é já certo que está namorado. Chegou ao ponto
de esquecer-nos e ficar preso dela, embebido nela, levado por ela.
Eu, com a arte que o Diabo me deu, divido a atenção
entre a mãe e os dous filhos para concertar a cortesia e
a curiosidade, e ambas saem satisfeitas do meu gesto.
Quando escrevi
há dias (duas ou três vezes) que "a moça
Fidélia foge a alguma cousa, se não foge a si mesma",
tinha em mira o afastamento em que ela vinha estando da casa da
amiga. Ei-la que continua a lá ir, e se deixar ver do irmão
que a amiga lhe deu. Ou não lhe quer fugir - ou (cousa mais
grave) não quer fugir a si mesma. Mas ainda não vi
nada claro; parece antes perdoar.
30 de novembro
Tristão
convidou-me a subir às Paineiras, amanhã; aceitei
e vou.
Há dez
dias não escrevo nada. Não é doença
ou achaque de qualquer espécie, nem preguiça. Também
não é falta de matéria, ao contrário.
Nestes dez dias soube que novas cartas chamam Tristão à
Europa, agora formalmente, ainda que sem instância; há
eleições próximas. Tristão resolveu
não ir já, antes do princípio do ano, mas não
pode deixar de ir. Tais foram as novidades que me deram no Flamengo
e fora dali. Fora ouvi-as de boca da graciosa Cesária, que
me disse com melancolia:
- Ele gosta
da Fidélia, mas é claro que lhe prefere a política.
Era a melancolia
do prazer recôndito, ou como se deva dizer para explicar um
achado gostoso que a gente precisa disfarçar em tristeza.
Havia naquela palavra tal ou qual condenação do moço,
mas só aparente; o sentido verdadeiro era o gosto de ver
a dama preterida. Para encobri-lo bem, D. Cesária disse todo
o mal que pensa do rapaz, e não é pouco. A graça
foi a mesma de seu uso, as lembranças agudas, as maneiras
elegantes. Ri-me naturalmente, negando ou calando. Dentro de mim
achei que a opinião era injusta, mas talvez este meu conceito
seja filho da afeição que vou tendo ao moço.
Ela cresce-me, com a vista e a prática dos seus dotes, e
naturalmente com a afeição e a confiança que
me tem, ou parece ter. Seja o que for, a verdade é que não
o defendi de todo, mas só em parte, e a graciosa dama apelou
para o meu gosto, o equilíbrio do meu espírito, o
longo conhecimento que tenho dos homens... Todas as grandes qualidades
deste mundo.
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