MEMORIAL DE AIRES
Machado de Assis
2 de março
Venho da casa
do Aguiar. Lá achei Fidélia, um primo desta, filho
do desembargador, aluno da Escola de Marinha (16 anos) e um empregado
do Banco do Brasil. Passei uma boa hora ou mais. A velha esteve
encantadora, a moça também, e a conversação
evitou tudo o que pudesse lembrar a ambas a respectiva perda, uma
do esposo, outra do filho postiço. Contavam-se histórias
de sociedade, que eu ouvi sorrindo, quando era preciso, ou consternado
nas ocasiões pertinentes. Também eu contei uma, de
sociedade alheia e remota mas o receio de lembrar à viúva
Noronha alguma terra por onde houvesse andado com o marido me fez
encurtar a narração e não começar segunda.
Entretanto, ela referiu duas ou três reminiscências
de viagem, impressões do que vira em museus da Itália
e da Alemanha. Da nossa terra dissemos cousas agradáveis
e sempre de acordo. A mesma torre da Matriz da Glória, que
alguns defenderam como necessária, deixou-nos a nós,
a ela e a mim, concordes no desacordo, sem que aliás eu combatesse
ninguém. O casal Aguiar ouviu-nos sorrindo; o moço
da Escola de Marinha tentou, em vão, suscitar a questão
militar.
Com isso e o
mais enchemos a noite. Ninguém pediu a Fidélia que
tocasse, embora me digam que é admirável ao piano.
Em compensação, ouvimos-lhe dizer alguma cousa de
mestres e de páginas célebres, mas isso mesmo foi
breve e interrompido, pode ser que lhe lembrasse o finado. Saí
antes dela. Ouvi ao Aguiar que daqui a dous meses começará
as suas reuniões semanais.
10 de março
Afinal houve
sempre mudança de gabinete. O conselheiro João Alfredo
organizou hoje outro. Daqui a três ou quatro dias irei apresentar
as minhas felicitações ao novo ministro dos negócios
estrangeiros.
20 de março
Ao desembargador
Campos parece que alguma cousa se fará no sentido da emancipação
dos escravos - um passo adiante, ao menos. Aguiar, que estava presente,
disse que nada ocorre na praça nem lhe chegou ao Banco do
Sul.
27 de março
Santa-Pia chegou
da fazenda, e não foi para a casa do irmão; foi para
o Hotel da América. É claro que não quer ver
a filha. Não há nada mais tenaz que um bom ódio.
Parece que ele veio por causa do boato que corre na Paraíba
do Sul acerca da emancipação dos escravos.
4 de abril
Ouvi que o barão
caiu doente, e que o irmão conseguiu trazê-lo para
casa. Eis aqui como. Não lhe pediu logo que viesse; achou
meio de lhe dizer que Fidélia estava em casa da amiga, donde
não viria tão cedo, e acabou propondo-lhe tratar-se
em casa dele. Santa-Pia recusou, depois aceitou. Tudo isso foi planeado
com ela. Fidélia está efetivamente no Flamengo com
a gente Aguiar. Deste modo a casa do Campos ficou livre ao pai irritado
e enfermo. A opinião do Campos e do Aguiar é que o
fazendeiro, mais tarde ou mais cedo, acabará perdoando a
filha. Em todo caso, não se encontram agora, com pesar dela.
Ora, pergunto
eu, valia a pena ter brigado com o pai, em troca de um marido que
mal começou a lição do amor, logo se aposentou
na morte? Certo que não. Se eu propusesse concluir-lhe o
curso, o pai faria as pazes com ela; ai! era preciso não
haver esquecido o que aprendi, mas esqueci - tudo ou quase tudo.
I can not, etc. (Shelley).
7 de abril
A distração
faz das suas. Hoje, vindo da cidade para casa, passei por esta,
e dei comigo no Largo do Machado, quando o bonde parou. Apeei-me,
e antes de arrepiar caminho, a pé, detive-me alguns instantes,
e enfiei pelo jardim, em direção à Matriz da
Glória, a olhar para a fachada do templo com a torre por
cima. Fiz isto porque me lembrou a conversação da
outra noite no Flamengo.
A poucos passos,
duas senhoras pareciam fazer a mesma cousa. Voltaram-se, eram nada
menos que Fidélia e D Carmo; estavam sem chapéu, tinham
vindo a pé de casa. Viram-me, fui ter com elas. Pouco dissemos:
notícias do barão, que está melhor, e do Aguiar,
que está bom, e despedimo-nos.
Vim para o
lado do Catete, elas continuaram para o da Matriz. À pequena
distância, lembrou-me olhar para trás. Poderia fazer
outra cousa? É aqui que eu quisera possuir tudo o que a filosofia
tem dito e redito do livre-arbítrio, a fim de o negar ainda
uma vez, antes de cair onde ele perde a mesma aparência de
realidade; acabaria esta página por outra maneira. Mas não
posso; digo só que não pude reter a cabeça
nem os olhos, e vi as duas damas, com os braços cingidos
à cintura uma da outra, vagarosas e visivelmente queridas.
8 de abril
Papel, amigo
papel, não recolhas tudo o que escrever esta pena vadia.
Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se acontecer
que eu me vá desta vida, sem tempo de te reduzir a cinzas,
os que me lerem depois da missa de sétimo dia, ou antes,
ou ainda antes do enterro, podem cuidar que te confio cuidados de
amor.
Não,
papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha
mesa, e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado,
entre a rua e o céu, e ali ou acolá acharás
descanso. Comigo, o mais que podes achar é esquecimento,
que é muito, mas não é tudo; primeiro que ele
chegue, virá a troça dos malévolos ou simplesmente
vadios.
Escuta, papel.
O que naquela dama Fidélia me atrai é principalmente
certa feição de espírito, algo parecida com
o sorriso fugitivo, que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la
se tiver ocasião. Tempo sobra-me, mas tu sabes que é
ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado José, e para
ti, se tenho vagar e quê - e pouco mais.
10 de abril
Grande novidade!
O motivo da vinda do barão é consultar o desembargador
sobre a alforria coletiva e imediata dos escravos de Santa-Pia.
Acabo de sabê-lo, e mais isto, que a principal razão
da consulta é apenas a redação do ato. Não
parecendo ao irmão que este seja acertado, perguntou-lhe
o que é que o impelia a isso, uma vez que condenava a idéia
atribuída ao governo de decretar a abolição,
e obteve esta resposta, não sei se sutil, se profunda, se
ambas as cousas ou nada:
- Quero deixar
provado que julgo o ato do governo uma expoliação,
por intervir no exercício de um direito que só pertence
ao proprietário, e do qual uso com perda minha, porque assim
o quero e posso.
Será
a certeza da abolição que impele Santa-Pia a praticar
esse ato, anterior de algumas semanas ou meses ao outro? A alguém
que lhe fez tal pergunta respondeu Campos que não. "Não,
disse ele, meu irmão crê na tentativa do governo, mas
não no resultado, a não ser o desmantelo que vai lançar
às fazendas. O ato que ele resolveu fazer exprime apenas
a sinceridade das suas convicções e o seu gênio
violento. Ele é capaz de propor a todos os senhores a alforria
dos escravos já, e no dia seguinte propor a queda do governo
que tentar fazê-lo por lei."
Campos teve
uma idéia. Lembrou ao irmão que, com a alforria imediata,
ele prejudica a filha, herdeira sua. Santa-Pia franziu o sobrolho.
Não era a idéia de negar o direito eventual da filha
aos escravos; podia ser o desgosto de ver que, ainda em tal situação,
e com todo o poder que tinha de dispor dos seus bens, vinha Fidélia
perturbar-lhe a ação. Depois de alguns instantes respirou
largo, e respondeu que, antes de morto, o que era seu era somente
seu. Não podendo dissuadi-lo, o desembargador cedeu ao pedido
do irmão, e redigiram ambos a carta de alforria.
Retendo o papel,
Santa-Pia disse:
- Estou certo
que poucos deles deixarão a fazenda; a maior parte ficará
comigo, ganhando o salário que lhes vou marcar, e alguns
até sem nada -, pelo gosto de morrer onde nasceram.
11 de abril
Fidélia,
quando soube do ato do pai, teve vontade de ir ter com ele, não
para invectivá-lo, mas para abraçá-lo; não
lhe importam perdas futuras. O tio é que a dissuadiu dizendo-lhe
que o barão ainda está muito zangado com ela.
12 de abril
Santa-Pia não
é feio velho, nem muito velho; terá menos idade que
eu. Arqueja um pouco, às vezes, mas pode ser da bronquite.
É meio calvo, largo de espáduas, as mãos ásperas,
cheio de corpo.
Conhecemo-nos
um ao outro, eu primeiro que ele, talvez porque a Europa me haja
mudado mais. Ele lembra-se do tempo em que eu, colega do irmão,
jantei com ele aqui na Corte. Já o irmão lhe havia
falado de mim, recordando as relações antigas. Disse-me
que daqui a três dias volta para a fazenda, onde me dará
hospedagem, se quiser honrá-lo com a minha pessoa. Agradeci
e prometi, sem prazo nem idéia de lá ir. Custa muito
sair do Catete. Já é demais Petrópolis.
Está
claro que lhe não falei da filha, mas confesso que se pudesse
diria mal dela, com o fim secreto de acender mais o ódio
- e tornar impossível a reconciliação. Deste
modo ela não iria daqui para a fazenda, e eu não perderia
o meu objeto de estudo. Isto, sim, papel amigo, isto podes aceitar,
porque é a verdade íntima e pura e ninguém
nos lê. Se alguém lesse achar-me-ia mau, e não
se perde nada em parecer mau; ganha-se quase tanto como em sê-lo.
13 de abril
Ontem com o
pai, hoje com a filha. Com esta tive vontade de dizer mal do pai,
tanto foi o bem que ela disse dele, a propósito da alforria
dos escravos. Vontade sem ação, veleidade pura; antes
me vi obrigado a louvá-lo também, o que lhe deu azo
a estender o panegírico. Disse-me que ele é bom senhor,
eles bons escravos, contou-me anedotas de seu tempo de menina e
moça, com tal desinteresse e calor que me deu vontade de
lhe pegar a mão, e, em sinal de aplauso, beijar-lha. Vontade
sem ação. Tudo sem ação esta tarde.
19 de abril
Lá se
foi o barão com a alforria dos escravos na mala. Talvez tenha
ouvido alguma cousa da resolução do governo; dizem
que, abertas as câmaras, aparecerá um projeto de lei.
Venha, que é tempo. Ainda me lembra do que lia lá
fora, a nosso respeito, por ocasião da famosa proclamação
de Lincoln: "Eu, Abraão Lincoln, Presidente dos Estados
Unidos da América..."Mais de um jornal fez alusão
nominal ao Brasil, dizendo que restava agora que um povo cristão
e último imitasse aquele e acabasse também com os
seus escravos. Espero que hoje nos louvem. Ainda que tardiamente,
é a liberdade, como queriam a sua os conjurados de Tiradentes.
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