MEMORIAL DE AIRES
Machado de Assis
1º de
julho
Também
há ventanias de felicidade, que levam tudo adiante de si.
A gente Aguiar recebeu ontem a carta de Fidélia, e hoje outra
de Tristão, em que este lhe anuncia que embarca no paquete
inglês para cá; deve chegar a 23 ou 24. A alegria com
que eles leram esta notícia foi naturalmente grande; porquanto
Fidélia cá está e diz-se filha da boa velha;
Tristão aí vem e anuncia que esta carta é a
última; a seguinte é ele próprio. Tudo isso
a um tempo.
Preparam-lhe
alojamento em casa. Aguiar anda tão satisfeito que, contra
os seus hábitos de discrição, já me
disse ter em vista a mobília do quarto que lhe destinam;
é simples e elegante. Provavelmente a mulher começará
já a obra dos seus ornamentos de lã e de linho para
as cadeiras e a mesa. Isto não foi ele que me disse nem ninguém;
eu é que o adivinho e escrevo aqui para mostrar a mim mesmo
o que é fácil de ver. Para a boa Carmo, bordar, coser,
trabalhar, enfim, é um modo de amar que ela tem. Tece com
o coração.
É regra
velha, creio eu, ou fica sendo nova, que só se faz bem o
que se faz com amor. Tem ar de velha, tão justa e vulgar
parece. Daí a perfeição daquelas suas obras
domésticas. Será como dormir ou transpirar. Não
lhe tiro com isto o mérito; por maior que seja a necessidade,
não é menor a virtude. Também eu fiz a minha
diplomacia com amor, e ouvi a ministros que bem, mas no meu caso
(distingamo-nos da velha Aguiar) não bastou amor nem necessidade;
se não fosse carreira é provável que eu acabasse
juiz, banqueiro ou outra cousa.
2 de julho
O que ouvi dizer
ontem a Aguiar foi no Banco do Sul, aonde tinha ido depositar umas
apólices. Esqueceu-me escrever que, à saída,
perto da igreja da Candelária, encontrei o desembargador
Campos; tinha chegado de Santa-Pia anteontem, à noite, e
ia ao Banco levar recados da sobrinha para o Aguiar e para a mulher.
Perguntei-lhe se Fidélia ficava lá de vez; respondeu-me
que não.
- Ficar de vez,
não fica; demora-se algumas semanas, depois virá e
provavelmente transfere a fazenda; acho que não faz mal.
Ficaria, segundo me disse, se fosse útil, mas parece-lhe
que a lavoura decai, e não se sente com forças para
sustê-la. Daí a idéia de vender tudo, e vir
morar comigo. Se ficasse tinha jeito. Ela mesma tomou contas a todos,
e ordenou o serviço. Tem ação, tem vontade,
tem espírito de ordem. Os libertos estão bem no trabalho.
Conversamos
um pouco dos efeitos da abolição, e despedimo-nos.
5 de julho
Obrigado pela
palavra a ir passar a noite com o corretor Miranda, lá fui
hoje. Veio mais gordo da Europa, onde só esteve alguns meses;
é o mesmo impetuoso de sempre, mas bom sujeito e excelente
marido. Nada novo, a não ser um jogo, parece que inventado
nos Estados Unidos e que ele aprendeu a bordo. No meu tempo não
se conhecia. Chama-se poker; eu trouxe o whist, que ainda jogo,
e peguei no meu velho voltarete. Parece que o poker vai derribar
tudo. Na casa do Miranda até a senhora deste jogou.
As filhas não
jogaram, nem a cunhada, D. Cesária, que não acha recreação
nas cartas; confessou (rindo) que é muito melhor dizer mal
da vida alheia, e não o faz sem graça. Justamente
o que falta ao marido, a quem sobra o resto. Cuidei que os dous
estivessem brigados com o corretor, não formalmente, porque
D. Cesária não briga nunca, arrufa-se apenas; cuidei
que estivessem arrufados com o corretor, quando este e a família
embarcaram. Estivessem ou não, a volta os reconciliou. É
uma das prendas desta senhora. Talvez tivesse dito mal da própria
irmã ou do cunhado, mas tão habilmente se arranjou
que os achei unidíssimos. Não sei o que ela dirá
de mim, eu acho-lhe interesse, e preferi-lhe a língua ao
poker; com a língua não se perde dinheiro.
Como se falasse
da morte do barão de Santa-Pia e da situação
da filha, D. Cesária perguntou se ela realmente não
casava. Parece que duvida da viuvez de Fidélia. Eu não
lhe disse que já pensara o mesmo, nem lhe disse nada; não
quis trazer a outra à conversação e fiz bem.
D. Cesária aceitou daí a pouco a hipótese da
viuvez perpétua, por não achar graça à
viúva, nem vida, nem maneiras, nada, cousa nenhuma; parece-lhe
uma defunta. Eu sorri como devia, e fui ouvir a explicação
que me davam de um bluff. No poker, bluff é uma espécie
de conto-do-vígário.
13 de julho
Sete dias sem
uma nota, um fato, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque
também hoje não tenho que apontar aqui. Escrevo isto
só para não perder longamente o costume. Não
é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se
vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem pensa
nada.
18 de julho
Tristão
chegou a Pernambuco; esperam por ele a 23.
20 de julho
Chegou à
Bahia o afilhado dos Aguiares. Creio que eles lhe darão festa
de recepção, ainda que modesta. A última fotografia
foi mandada encaixilhar e pendurar. É um belo rapaz, e a
atitude do retrato tem certo ar de petulância que lhe não
fica mal, ao contrário.
25 de julho
Já aqui
chegou o Tristão. Não o vi ainda; também não
tenho saído de casa estes três dias. Entre outras cousas,
estive a rasgar cartas velhas. As cartas velhas são boas,
mas estando eu velho também, e não tendo a quem deixar
as que me restam, o melhor é rasgá-las. Fiquei só
com oito ou dez para reler algum dia e dar-lhes o mesmo fim. Nenhuma
delas vale uma só das de Plínio, mas a todas posso
aplicar o que ele escrevia a Apolinário: "teremos ambos
o mesmo gosto, tu em ler o que digo, e eu em dizê-lo".
Os meus Apolinários estão mortos ou velhos; as Apolinárias
também.
27 de julho
Vi hoje o Tristão
descendo a Rua do Ouvidor com o Aguiar; adivinhei-o por este e pelo
retrato. Trazia no vestuário alguma cousa que, apesar de
não diferir da moda, cá e lá, lhe põe
certo jeito particular e próprio. Aguiar apresentou-nos.
Tristão falou-me polidamente, e com tal ou qual curiosidade,
não ouso dizer interesse. Naturalmente já ouviu falar
de mim em casa deles. Cinco minutos de conversação
apenas - o bastante para me dizer que está encantado com
o que tem visto. Creio que seja assim, porque eu amo a minha terra,
apesar das ruas estreitas e velhas; mas também eu desembarquei
em terras alheias, e usei igual estilo. Entretanto, esta cidade
é a dele, e, como eu lhe dissesse que não devera ter
esquecido o Rio de Janeiro, donde saíra adolescente, respondeu
que era assim mesmo, não esquecera nada. O encanto vinha
justamente da sensação de cousas vistas, uma ressurreição
que era continuidade, se assim resumo o que ele me disse em vocábulos
mais simples que estes. Cinco minutos e despedimo-nos.
É uma
bonita figura. A palavra forte, sem ser áspera. Os olhos
vivos e lépidos, mas talvez a brevidade do encontro e da
apresentação os obrigasse a essa expressão
única; possivelmente os terá de outra maneira alguma
vez. É antes alto que baixo, e não magro. A certa
distância, ia eu a voltar a cabeça para vê-lo
ainda, mas recuei a tempo; seria indiscreto e apressado, e talvez
não valesse a pena. Irei uma destas noites ao Flamengo. Há
já três semanas que não apareço lá.
28 de julho
Não duvido
que o Tristão visse com prazer o Rio de Janeiro. Quaisquer
que sejam os costumes novos e ligações de família
e por maior que tenha sido a ausência, o lugar onde alguém
passou os primeiros anos há de dizer à memória
e ao coração uma linguagem particular. Creio que ele
esteja realmente encantado, como me disse ontem. Demais, lá
fora ouvia a mesma língua daqui; a mãe é a
mesma paulista que o gerou e levou consigo, e está agora
em Lisboa, com o pai, ambos velhos.
Eu nunca esqueci
cousas que só vi em menino. Ainda agora vejo dous sujeitos
barbados que jogavam o entrudo, teria eu cinco anos; era com bacias
de madeira ou de metal, ficaram inteiramente molhados e foram pingando
para as suas casas. Só não me acode onde elas eram.
Outra cousa que igualmente me lembra, apesar de tantos anos passados,
é o namoro de uma vizinha e de um rapaz. Ela morava defronte,
era magrinha e chamava-se Flor. Ele também era magro e não
tinha nome conhecido; só lhe sabia a cara e a figura. Vinha
às tardes e passava três, quatro, cinco e mais vezes
de uma ponta à outra da rua. Uma noite ouvimos gritos. Na
manhã seguinte ouvi dizer que o pai da moça mandara
dar por escravos uma sova de pau no namorado. Dias depois foi este
recrutado para o exército, dizem que por empenho do pai da
moça; alguns creram que a sova fora um simples desforço
eleitoral. Tudo é um; amor ou eleições, não
falta matéria às discórdias humanas.
Que valem tais
ocorrências agora, neste ano de 1888? Que pode valer a loja
de um barbeiro que eu via por esse tempo, com sanguessugas à
porta, dentro de um grosso frasco de vidro com água e não
sei que massa? Há muito que se não deitam bichas a
doentes; elas, porém, cá estão no meu cérebro,
abaixo e acima, como nos vidros. Era negócio dos barbeiros
e dos farmacêuticos, creio; a sangria é que era só
dos barbeiros. Também já se não sangra pessoa
nenhuma. Costumes e instituições, tudo perece.
31 de julho
Tem agradado
muito o Tristão, e para crer que o merece basta dizer que
a mim não me desagrada, ao contrário. É ameno,
conversado, atento, sem afetação nem presunção;
fala ponderado e modesto, e explica-se bem. Ainda lhe não
ouvi grandes cousas, nem estas são precisas a quem chega
de fora e vive em família; as que lhe ouvi são interessantes.
No vestido e
nas maneiras usa o tom da conversa, a mesma correção
e simplicidade. O encanto que outro dia me disse achar na cidade
continua a achar nela e na gente; reconhece ruas, casas, costumes
e pessoas; pergunta por muitas destas e interessa-se em ouvir as
notícias que lhe dão. Algumas reconhece logo, outras
com pouca explicação. Enfim, não é mau
rapaz.
Para a gente
Aguiar é mais que excelente. Essa está tanto ou mais
encantada que ele; nestes poucos dias já o levou a diferentes
partes. O desembargador Campos, que lá jantou ontem, disse-me
que D. Carmo estava que era uma criança; quase que não
tirava os olhos de cima do afilhado. Tristão conhece música,
e à noite, a pedido dela, executou ao piano um pedaço
de Wagner, que ele achou muito bem. Além do Campos, jantou
lá um padre Bessa, o que batizou Tristão.
Não era
habituado do Flamengo este padre; foi o próprio Tristão
que o descobriu, de maneira que merece notar. Perguntou por ele,
e, ao cabo de dous dias, sabendo que residia na Praia Formosa, dispôs-se
a lá ir, depois de recusar ao padrinho a companhia que este
lhe ofereceu.
- Quero ir eu
só, replicou, para lhe mostrar que não desaprendi
a minha cidade.
E lá
foi, e lá andou, e lá descobriu o padre, dentro de
uma casinha - baixa. Bessa, que fora comensal dos pais dele, não
o conheceu logo, mas às primeiras notícias recompôs
o passado e adivinhou o menino a quem dera batismo. Aguiar fê-lo
convidar e vir à casa dele, a ver o moço e visitá-lo,
sempre que quisesse. É uma boa figura de velho e de sacerdote,
disse-me o desembargador, calvo bastante, cara magra, e expressão
plácida, apesar das misérias que terá curtido;
chega a ser alegre.
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