MEMORIAL DE AIRES
Machado de Assis
1º de
agosto
O desembargador
deu-me também notícia da sobrinha. Está boa
e virá brevemente da fazenda. Contou-lhe em carta um sonho
que teve ultimamente, a aparição do pai e do sogro,
ao fundo de uma enseada parecida com a do Rio de Janeiro. Vieram
as duas figuras sobre a água, de mãos dadas, até
que pararam diante dela, na praia. A morte os reconciliara para
nunca mais se desunirem; reconheciam agora que toda a hostilidade
deste mundo não vale nada, nem a política nem outra
qualquer.
Quis replicar
ao desembargador que talvez a sobrinha tivesse ouvido mal. A reconciliação
eterna, entre dous adversários eleitorais, devia ser exatamente
um castigo infinito. Não conheço igual na Divina Comédia.
Deus, quando quer ser Dante, é maior que Dante. Recuei a
tempo e calei a facecia; era rir da tristeza da moça. Pedi
mais notícias dela, e ele deu-mas; a principal é que
está cada vez mais firme na idéia de vender Santa-Pia.
2 de agosto
Aguiar mostrou-me
uma carta de Fidélia a D. Carmo. Letra rasgada e firme, estilo
correntio, linguagem terna; promete-lhes vir para a Corte logo que
possa e será breve. Estou cansado de ouvir que ela vem, mas
ainda me não cansei de o escrever nestas páginas de
vadiação. Chamo-lhes assim para divergir de mim mesmo.
Já chamei a este Memorial um bom costume. Ao cabo, ambas
as opiniões se podem defender, e, bem pensado, dão
a mesma cousa. Vadiação é bom costume.
A carta de Fidélia
começa por estas três palavras: "Minha querida
mãezinha", que deixaram D. Carmo morta de ternura e
de saudades; foi a própria expressão do marido. Nem
tudo se perde nos bancos; o mesmo dinheiro, quando alguma vez se
perde, muda apenas de dono.
3 de agosto
Hoje fazia anos
o ministério Ferraz, e quem já pensa nele nem nos
homens que o compunham e lá vão, uns na morte, outros
na velhice ou na inação? Foi ele que me promoveu a
secretário de legação, sem que eu lho pedisse
e até com espanto meu.
Dizendo isto
ao Aguiar, ouvi-lhe anedotas políticas daquele tempo (1859-1861),
contadas com animação, mas saudade. Aguiar não
tem costela de homem público; todo ele é família,
todo esposo, e agora também filhos, os dous filhos postiços
- Tristão mais que Fidélia, pela razão que
penso haver já dito. Confirmou-me as boas impressões
do desembargador, e concluiu:
- Conselheiro,
já falou ao nosso Tristão, já o ouviu, e creio
apreciá-lo, mas eu desejo que o conheça mais para
apreciá-lo melhor. Ele fala da sua pessoa com grande respeito
e admiração. Diz que um dia o viu em Bruxelas, e estava
longe de crer que viria achá-lo e falar-lhe aqui.
- Já
me disse isso mesmo. Acho que é um moço muito distinto.
- Não
é? Também nós achamos, e outras pessoas também.
Não lhe pedi que me contasse a vida dele lá, mas conversei
de maneira que ele me foi dizendo muita cousa, os estudos, as viagens,
as relações; pode ser que invente ou exagere, mas
creio que não; tudo o que nos disse é verossímil
e combina com o que vimos dele aqui, e também do compadre
e da comadre. Se pudéssemos ficar com ele de uma vez, ficávamos.
Não podemos; Tristão veio apenas por quatro meses;
a nosso pedido vai ficar mais dous. Mas eu ainda verei se posso
retê-lo oito ou dez.
- Veio só
para visitá-los?
- Diz que só.
Talvez o pai aproveitasse a vinda para encarregá-lo de algum
negócio; apesar de liquidado, ainda tem interesses aqui;
não lhe perguntei por isso.
- Pois veja
se o faz ficar mais tempo; ele acabará ficando de vez.
4 de agosto
Indo a entrar
na barca de Niterói, quem é que encontrei encostado
à amurada? Tristão, ninguém menos, Tristão
que olhava para o lado da barra, como se estivesse com desejo de
abrir por ela fora e sair para a Europa. Foi o que eu lhe disse,
gracejando, mas ele acudiu que não.
- Estou a admirar
estas nossas belezas, explicou.
- Deste outro
lado são maiores.
- São
iguais, emendou. Já as mirei todas, e do pouco que vi lá
fora é ainda o que acho mais magnífico no mundo.
O assunto era
velho e bom para atar conversa; aproveitamo-lo e chegamos ao desembarque,
depois de trocadas muitas idéias e impressões. Confesso
que as minhas não eram mais novas que o assunto inicial,
e eram curtas; as dele tinham sobre elas a vantagem de evocações
e narrativas. Não estou para escrever tudo o que lhe ouvi
acerca dos anos de infância e adolescência, nem dos
de mocidade passados na Europa. Foi interessante, decerto, e parece
que sincero e exato, mas foi longo, por mais curta que fosse a viagem
da barca. Enfim, chegamos à Praia Grande. Quando eu lhe disse
que preferia este nome popular ao nome oficial, administrativo e
político de Niterói, dissentiu de mim. Repliquei que
a razão do dissentimento vinha de ser eu velho e ele moço.
"Criei-me com a Praia Grande; quando o senhor nasceu a crisma
de Niterói pegara." Não havia nisto agudeza alguma;
ele, porém, sorriu como achando fina a resposta, e disse-me:
- Não
há velhice para um espírito como o seu.
- Acha? perguntei
incredulamente.
- Já
meus padrinhos mo haviam dito, e eu reconheço que diziam
a verdade.
Agradeci de
cabeça, e, estendendo-lhe a mão:
- Vou ao palácio
da presidência. Até à volta, se nos encontrarmos.
Uma hora depois,
quando eu chegava à ponte, lá o achei. Imaginei que
esperasse por mim, mas nem me cabia perguntar-lho, nem talvez a
ele dizê-lo. A barca vinha perto, chegou, atracou, entramos.
Na viagem de regresso tive uma notícia que não sabia;
Tristão, alcunhado brasileiro em Lisboa, como outros da própria
terra, que voltam daqui, é português naturalizado.
- Aguiar sabe?
- Sabe. O que
ele ainda não sabe, mas vai saber, é que nas vésperas
de partir aceitei a proposta de entrar na política, e vou
ser eleito deputado às cortes no ano que vem. Não
fosse isso, e eu cá ficava com ele; iria buscar meu pai e
minha mãe. Sei que ele me há de querer dissuadir do
plano; meu padrinho não gosta de política, menos ainda
de política militante, mas eu estou obrigado pelo gosto que
lhe tenho e pelo acordo a que cheguei com os chefes do partido.
Escrevi algum tempo num jornal de Lisboa, e dizem que não
inteiramente mal. Também falei em comícios.
- Eles querem-lhe
muito.
- Sei, muito,
como a um filho.
- Têm
também uma filha de afeição.
- Também
sei, uma viúva, filha de um fazendeiro que morreu há
pouco. Já me falaram dela. Vi-lhe o retrato encaixilhado
pelas mãos da madrinha. Se conhece bem a madrinha, há
de saber o coração terno que tem. Toda ela é
maternidade. Aos próprios animais estende a simpatia. Nunca
lhe falaram de um terceiro filho que tiveram, e ela amava muito?
- Creio que
não; não me lembra.
- Um cão,
um pequeno cão de nada. Foi ainda no meu tempo. Um amigo
do padrinho levou-lho um dia, com poucos meses de existência,
e ambos entraram a gostar dele. Não lhe conto o que a madrinha
fazia por ele, desde as sopinhas de leite até aos capotinhos
de lã, e o resto; ainda que me sobrasse tempo, não
acharia crédito em seus ouvidos. Não é que
fosse extravagante nem excessivo; era natural, mas tão igual
sempre, tão verdadeiro e cuidadoso que era como se o bicho
fosse gente. O bicho viveu os seus dez ou onze anos da raça;
a doença achou enfermeira, e a morte teve lágrimas.
Quando entrar no jardim, à esquerda, ao pé do muro,
olhe, foi aí que o enterraram; e já me não
lembrava, a madrinha é que mo apontou ontem.
Não me
soube grandemente essa aliança de gerente de banco e pai
de cachorro. É verdade que o próprio Tristão
dá a maior parte à madrinha, que é mulher.
Com a prática dos dias anteriores e estas duas viagens de
barca, sinto-me meio habilitado a possuir bem aquele moço.
Só lhe ouvi meia dúzia de palavras algo parecidas
com louvor próprio, e ainda assim moderado. "Dizem que
não escrevo inteiramente mal" encobrirá a convicção
de que escreve bem, mas não o disse, e pode ser verdade.
7 de agosto
D. Carmo foi
a Nova Friburgo com o afilhado para lhe mostrar novamente a cidade
em que nasceu, creio que também a rua, e parece que a própria
casa. Tudo está velho e quieto, dizem-me. Isto vai com os
hábitos dela, que sabe e gosta de guardar os velhos retalhos
e lembranças antigas, como que lhe dando um ar perpétuo
de mocidade.Tristão, não tendo aliás o mesmo
interesse, mostrou prazer em a acompanhar. Toda a gente continua
a gostar dele, Campos mais que outros, pois o conheceu menino. Mana
Rita é que apenas o viu; tem estado adoentada, levantou-se
anteontem; só ontem soube disso, e fui visitá-la.
Contei-lhe o que havia daquela casa e da casa do desembargador;
dei-lhe vontade de vir também à gente Aguiar, quando
os dous voltarem de Nova Friburgo.
10 de agosto
Meu velho Aires,
trapalhão da minha alma, como é que tu comemoraste
no dia 3 o ministério Ferraz, que é de 10? Hoje é
que ele faria anos, meu velho Aires. Vês que é bom
ir apontando o que se passa; sem isso não te lembraria nada
ou trocarias tudo.
Fidélia
chega da Paraíba do Sul no dia 15 ou 16. Parece que os libertos
vão ficar tristes; sabendo que ela transfere a fazenda pediram-lhe
que não, que a não vendesse, ou que os trouxesse a
todos consigo. Eis aí o que é ser formosa e ter o
dom de cativar. Desse outro cativeiro não há cartas
nem leis que libertem; são vínculos perpétuos
e divinos. Tinha graça vê-la chegar à Corte
com os libertos atrás de si, e para quê, e como sustentá-los?
Custou-lhe muito fazer entender aos pobres sujeitos que eles precisam
trabalhar, e aqui não teria onde os empregar logo. Prometeu-lhes,
sim, não os esquecer, e, caso não torne à roça,
recomendá-los ao novo dono da propriedade.
11 de agosto
Recebi hoje
um bilhete de Tristão, escrito de Nova Friburgo, no qual
me diz que está muito satisfeito com o que vê e o que
ouve; reconheceu a cidade, que é encantadora com a sua gente.
A companheira de viagem ainda o é mais que a gente e a cidade.
Copio estas palavras do bilhete:
"A madrinha
ou mãezinha - não sei bem qual dos nomes lhe dê,
ambos são exatos - é aqui muito querida e festejada,
não só por duas amigas velhas que lhe restam dos tempos
de criança, mas ainda por outras que conheceu depois de casada,
parentas daquelas ou somente amigas também. Gosto do lugar
e do clima; a temperatura é excelente; ficaremos uns três
dias mais".
Não há
nessa carta nada que não pudesse ser dito na volta, uma vez
que ele desce daqui a três dias. Creio que ele cedeu ao desejo
de ser lido por mim e de me ler também. Questão de
simpatia, questão de arrastamento. Vou responder-lhe com
duas linhas...
...Lá
vai a carta; respondi-lhe com trinta e tantas linhas, dizendo-lhe
cousas que busquei fazer alegres, e com certeza saíram quase
amigas. Concordei que Nova Friburgo era delicioso, e concluí
por estas palavras: "Quando descer venha almoçar comigo;
falaremos de lá e de cá".
17 de agosto
Fidélia
chegou, Tristão e a madrinha chegaram, tudo chegou; eu mesmo
cheguei a mim mesmo - por outras palavras, estou reconciliado com
as minhas cãs. Os olhos que pus na viúva Noronha foram
de admiração pura, sem a mínima intenção
de outra espécie, como nos primeiros dias deste ano. Verdade
é que já então citava eu o verso de Shelley,
mas uma cousa é citar versos, outra é crer neles.
Eu li há pouco um soneto verdadeiramente pio de um rapaz
sem religião, mas necessitado de agradar a um tio religioso
e abastado. Pois ainda que eu não desse então toda
a fé ao poeta inglês, dou-lhe agora, e aqui a dou de
novo para mim. A admiração basta.
19 de agosto
Tristão
veio almoçar comigo. A primeira parte do almoço foi
a glosa da carta que ele me escreveu. Contou-me que já em
criança tinha ido com a madrinha a Nova Friburgo algumas
vezes, parece-lhe que três; reconheceu a cidade agora e gostou
muito dela. De D. Carmo fala entusiasmado; diz que a afeição,
o carinho, a bondade, tudo faz dela uma criatura particular e rara,
por ser tudo de espécie também rara e particular.
Referiu-me anedotas antigas, dedicações grandes. Depois
confessou que as impressões da nossa terra fazem reviver
os seus primeiros tempos, a infância e a adolescência.
O fim do almoço foi com o naturalizado e o político.
A política parece ser grande necessidade para este moço.
Estendeu-se bastante sobre a marcha das cousas públicas em
Portugal e na Espanha; confiou-me as suas idéias e ambições
de homem de Estado. Não disse formalmente estas três
palavras últimas, mas todas as que empregou vinham a dar
nelas. Enfim, ainda que pareça algo excessivo, não
perde o interesse e fala com graça.
Antes de sair,
tornou a dizer do Rio de Janeiro, e também falou do Recife
e da Bahia: mas o Rio foi o principal assunto.
- A gente não
esquece nunca a terra em que nasceu, concluiu ele com um suspiro.
Talvez o intuito
fosse compensar a naturalização que adotou - um modo
de se dizer ainda brasileiro. Eu fui ao diante dele, afirmando que
a adoção de uma nacionalidade é ato político,
e muita vez pode ser dever humano, que não faz perder o sentimento
de origem nem a memória do berço. Usei tais palavras
que o encantaram, se não foi talvez o tom que lhes dei, e
um sorriso meu particular. Ou foi tudo. A verdade é que o
vi aprovar de cabeça repetidas vezes, e o aperto de mão,
à despedida, foi longo e fortíssimo.
Até aqui
um pouco de fel. Agora um pouco de justiça.
A idade, a companhia
dos pais, que lá vivem, a prática dos rapazes do curso
médico, a mesma língua, os mesmos costumes, tudo explica
bem a adoção da nova pátria. Acrescento-lhe
a carreira política, a visão do poder, o clamor da
fama, as primeiras provas de uma página da história,
lidas já de longe por ele, e acho natural e fácil
que Tristão trocasse uma terra por outra. Ponho-lhe, enfim,
um coração bom, e compreendo as saudades que a terra
de cá lhe desperta, sem quebra dos novos vínculos
travados.
21 de agosto
Anteontem fui
deixar um bilhete de visita a Fidélia; ontem, a convite do
tio, que me encontrou na rua, fui tomar chá com ambos.
Naturalmente
conversamos do defunto. Fidélia narrou tudo o que viu e sentiu
nos últimos dias do pai, e foi muito. Não falou da
separação trazida pelo casamento, era assunto velho
e acabado. A culpa, se houve então culpa, foi de ambos, ela
por amar a outro, ele por querer mal ao escolhido. Eu é que
digo isto, não ela, que em sua tristeza de filha conserva
a de viúva, e se houvesse de escolher outra vez entre o pai
e o marido, iria para o marido. Também falou da fazenda e
dos libertos, mas vendo que o assunto era já demasiado pessoal,
mudou de conversa, e cuidamos da cidade e das ocorrências
do dia.
Pouco depois
chegaram D. Cesária e o marido, o doutor Faria, que vinham
também visitá-la. A expansão com que D. Cesária
falou a Fidélia e lhe deu o beijo da entrada compensou, a
meu ver, o dente que lhe meteu há dias em casa do corretor
Miranda. Daquela vez, apesar da graça com que falou, não
gostei de a ver morder a viúva; agora tudo está pago.
Repito o que lá digo atrás: esta senhora é
muito mais graciosa que o marido. Nem precisa muito; ele o mal que
diz dos outros di-lo mal, ela é sempre interessante.
D. Cesária
pagou tudo. Não é que as palavras que empregou ontem
dêem muito de si, como louvor e amizade, mas a expressão
dos olhos, o ar admirativo e aprovador, um sorriso teimoso, quase
constante, tudo isso valia por um capital de afeto. Papel-moeda
também é dinheiro. Com ele comprei esta tinta e esta
pena, o charuto que estou fumando e o almoço que começo
a digerir. As duas senhoras não sofrem comparação
entre si, e para conversar, D. Cesária basta e sobra. Eu
conheci na vida algumas dessas pessoas capazes de dar interesse
a um tédio e movimento a um defunto; enchem tudo consigo.
Fidélia parece ter-lhe simpatia e ouvi-la com prazer. A noite
foi boa.
Ia-me esquecendo
uma cousa. Fidélia mandou encaixilhar juntas as fotografias
do pai e do marido, e pô-las na sala. Não o fez nunca
em vida do barão para respeitar os sentimentos deste; agora
que a morte os reconciliou, quer reconciliá-los em efígie.
Foi ela mesma que me deu esta explicação, quando eu
olhava para eles. Não me admira a delicadeza de outrora,
nem a resolução de agora; tudo responde à mesma
harmonia moral da pessoa.
Quando eu disse
isto cá fora ao casal Faria (saímos juntos), o marido
torceu o nariz. Não lhe vi o gesto, mas ele proferiu uma
palavra que implica o gesto; foi esta: "Afetação!"
Quis replicar-lhe que não podia havê-la em ato tão
íntimo e particular, mas a tempo encolhi a língua.
D. Cesária não aprovou nem reprovou o dito; ponderou
apenas que o gás estava muito escuro. Notei para mim que
estava claríssimo, e que provavelmente ela não achara
mais pronto desvio à conversação. Faria aproveitou
o reparo da esposa para dizer o mal que pensa da companhia do gás
e do governo, e chamou ladrão ao fiscal. Eram onze horas.
5 horas da tarde
Não quero
acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos cansados, acaso
doentes, e não sei se continuarei este diário de fatos,
impressões e idéias. Talvez seja melhor parar. Velhice
quer descanso. Bastam já as cartas que escrevo em resposta
e outras mais, e ainda há poucos dias um trabalho que me
encomendaram da Secretaria de Estrangeiros - felizmente acabado.
24 de agosto
Qual! não
posso interromper o Memorial; aqui me tenho outra vez com a pena
na mão. Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel
cousas que querem sair da cabeça, por via da memória
ou da reflexão. Venhamos novamente à notação
dos dias.
Desta vez o
que me põe a pena na mão é a sombra da sombra
de uma lágrima...
Creio tê-la
visto anteontem (22) na pálpebra de Fidélia, referindo-me
eu à dissidência do pai e do marido. Não quisera
agora lembrar-me dela, nem tê-la visto ou sequer suspeitado.
Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres,
sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza,
e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são
menos fracas que os homens - ou mais pacientes, mais capazes de
sofrer a dor e a adversidade... Aí está; tinha resolvido
não escrever mais, e lá vai uma página com
a sombra da sombra de um assunto.
Também,
se foi verdadeiramente lágrima, foi tão passageira
que, quando dei por ela, já não existia. Tudo é
fugaz neste mundo. Se eu não tivesse os olhos adoentados
dava-me a compor outro Ecclesiastes, à moderna, posto nada
deva haver moderno depois daquele livro. Já dizia ele que
nada era novo debaixo do sol, e se o não era então,
não o foi nem será nunca mais. Tudo é assim
contraditório e vago também.
27 de agosto
A alegria do
casal Aguiar é cousa manifesta. Marido e mulher andam a inventar
ocasiões e maneiras de viver com os dous e com alguns amigos,
entre os quais parece que me contam. Jantam, passeiam, e se não
projetam bailes é porque os não amam de si mesmos,
mas se Fidélia e Tristão os quisessem, estou que eles
os dariam. A verdade, porém, é que os dous hóspedes
não chegaram a tal ponto, mormente Fidélia que se
contenta de conversar e sorrir; não vai a teatros, nem a
festas públicas.
Os passeios
são recatados pela hora e pelos lugares. Ou vão as
duas sós, ou se eles vão também, trocam-se
às vezes, dando Aguiar o braço a Fidélia, e
D. Carmo aceitando o de Tristão. Assim os encontrei há
dias na Rua de Ipiranga, eram cinco horas da tarde. Os dous velhos
pareciam ter certo orgulho na felicidade. Ela dizia com os olhos
e um riso bom que lhe fazia luzir a pontinha dos dentes toda a glória
daquele filho que o não era, aquele filho morto e redivivo,
e o rapaz era atenção e gosto também. Quanto
ao velho não ostentava menos a sua delícia. Fidélia
é que não publicava nada; sorria, é certo,
mas pouco e cabisbaixa. E lá foram andando, sem darem por
mim, que vinha pela calçada oposta.
31 de agosto
Como eu ainda
gosto de música! A noite passada, em casa do Aguiar, éramos
algumas pessoas... Treze! Só agora, ao contar de memória
os presentes, vejo que éramos treze; ninguém deu então
por este número, nem na sala, nem à mesa do chá
de família. Conversamos de cousas várias, até
que Tristão tocou um pouco de Mozart, ao piano, a pedido
da madrinha.
A execução
veio porque falamos também de música, assunto em que
a viúva acompanhou o recém-chegado com tal gosto e
discrição, que ele acabou pedindo-lhe que tocasse
também. Fidélia recusou modestamente, ele insistiu,
D. Carmo reforçou o pedido do afilhado, e assim o marido;
Fidélia acabou cedendo, e tocou um pequeno trecho, uma reminiscência
de Schumann. Todos gostamos muito. Tristão voltou ainda uma
vez ao piano, e pareceram apreciar os talentos um do outro. Eu saí
encantado de ambos. A música veio comigo, não querendo
que eu dormisse. Cheguei cedo a casa, onze horas, e só perto
de uma comecei a conciliar o sono; todo o tempo da rua, da casa
e da cama foi consumido em repetir trechos e trechos que ouvira
na minha vida.
A música
foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não
fosse temer o poético e acaso o patético, diria que
é hoje uma das saudades. Se a tivesse aprendido, tocaria
agora ou comporia, quem sabe? Não me quis dar a ela, por
causa do ofício diplomático, e foi um erro. A diplomacia
que exerci em minha vida era antes função decorativa
que outra cousa; não fiz tratados de comércio nem
de limites, não celebrei alianças de guerra; podia
acomodar-me às melodias de sala ou de gabinete. Agora vivo
do que ouço aos outros.
Há dous
ou três meses ouvi dizer a Fidélia que nunca mais tocaria,
tendo desde muito suspendido o exercício da música.
Repliquei-lhe então que um dia, a sós consigo, tocaria
para recordar, e a recordação traria o exercício
outra vez.. Ontem bastaram as instâncias da gente Aguiar para
mover uma vontade já disposta, ao que parece. O exemplo de
Tristão ajudou-a a sair do silêncio. Repito que saí
de lá encantado de ambos.
Quem sabe se
a esta hora (dez e meia da manhã) não estará
ela em casa, com espanto da família e da vizinhança,
diante do piano aberto, a começar alguma cousa que não
toca há muito?
- Não
é possível!
- Nhanhã
Fidélia!
- A viúva
Noronha!
- Há
de ser alguma amiga.
E as mãos
dela irão falando, pensando, vivendo aquelas notas que a
memória humana guarda impressas. Provavelmente tocará
como ontem, sem música, de cor, na ponta dos dedos...
Seis horas da
tarde
Antes de ir
para a mesa, escrevo a confirmação do que conjeturei
de manhã; Fidélia efetivamente acordou os ecos da
casa e da rua. Contou-mo há pouco o próprio desembargador
Campos. A diferença é que não foi às
dez horas e meia, mas às sete. Campos estava ainda na cama,
quando ouviu os primeiros acordes de uma composição
conhecida, parece que italiana. Não chegou a crer que fosse
ela, mas não podia ser outra pessoa. Um criado, chamado por
ele, veio dizer-lhe que sim, que era ela mesma. Tocou algum tempo.
Quando ele entrou na sala, tinha acabado, mas estava ainda ao piano,
ante um folheto de músicas aberto, a soletrar para si.
- Que é
isto? perguntou-lhe.
- Ouviu tocar?
disse ela fazendo rodar o banco.
- Ouvi.
- Creio que
desaprendi alguma cousa; sinto os dedos um pouco tolhidos, já
os senti assim ontem; a composição é que me
não esqueceu.
- Mas que ressurreição
é esta?
- Cousas de
defunta, respondeu ela querendo sorrir.
Posto não
seja grande apreciador de música, o desembargador parece
satisfeito daquela ressurreição, como lhe chama. Tudo
é viver com mais ou menos barulho, disse ele. Confessou-me
que a tristeza da sobrinha o aflige muita vez, e a não levá-la
a bailes ou teatros, contentava-se de a ver tocar em casa, e até
cantar se quisesse; Fidélia também sabe cantar, tem
muita arte e linda voz. Mas até agora não queria uma
cousa nem outra.
Não é
que não encha a casa consigo mesma, sem música; a
música, porém, era uma das suas ocupações
de outrora, e a abstenção data da viuvez.
Quis ponderar
ao desembargador que o exercício da música podia conciliar-se
muito bem com o estado, uma vez que a arte é também
língua, mas tudo isso me passou rápido pela cabeça.
Era acaso poético para um magistrado, sem contar que podia
ser indiscreto também. Contentei-me de aceitar o convite
que ele me fez de ir ouvi-la, em casa dele, hoje, amanhã,
depois, quando queira.
- Uma destas
noites, concordei.
Por enquanto,
vou jantar. Creio que não saio mais hoje; mas que hei de
fazer com estes pobres olhos? Ler é piorá-los; ah!
se eu soubesse música! Pegava do violino, trancava bem as
portas para não ser ouvido da vizinhança, e deixava-me
ir atrás do arco. Talvez saia a passeio...
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