À Margem da História
Euclides da Cunha
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Os Caucheiros
Aquém da margem direita do Ucaiáli e das terras onduladas,
onde se formam os manadeiros do Javari, do Juruá e do Purus,
apareceu há cêrca de cinqüenta anos uma sociedade
nova. Formara-se obscuramente. Perdida longo tempo no afogado das
selvas, apenas a conheciam raros comerciantes do Pará, onde,
desde 1862, começaram a chegar, provindas daqueles pontos
remotos, as pranchas pardo-escuras de uma outra goma elástica
concorrente com a seringa às exigências da indústria.
Era o caucho. E caucheiros apelidaram-se para logo os aventurosos
sertanistas que batiam atrevidamente aquêles rincões
ignorados.
Vinham do ocidente, transpondo os Andes e suportando todos os climas
da Terra, dos litorais adustos do Pacífico às punas
enregeladas das cordilheiras. Entre êles e o torrão
nativo ficavam duas muralhas altas de seis mil metros e um longo
valo escancelado em abismos. Adiante os plainos amazônicos:
um estiramento de centenares de milhas para NE, a perder-se, indefinido,
na prolongação atlântica, sem a ajuda de um
cêrro balizando a imensidade.
Nunca se armou tão imponente cenário a tão
pequeninos atôres.
É natural que os sertanistas pervagassem largos anos, esparsos,
diminutos, invisíveis, tateantes no perpétuo crepúsculo
daquelas matas longínquas, onde, mais sérias que o
desmedido das distâncias e os bravios da espessura, outras
dificuldades lhes renteavam ou perturbavam os passos vacilantes.
Realmente, tôda a zona em que se traça, ainda pontuada,
a linha limítrofe brasílio-peruana, e irradiam para
os quadrantes os formadores do Purus e do Juruá, as vertentes
mais setentrionais do Urubamba e os últimos esgalhos do Madre
de Diós, figurava entre as mais desconhecidas da América,
menos em virtude de suas condiçòes físicas
excepcionais, vencidas em 1844 por F. Castelnau, que pelo renome
temeroso das tribos que a povoam e se tornaram, sob o nome genérico
de chunchos, o máximo pavor dos mais destemerosos pioneiros.
Não há nomeá-las tôdas. Quem sobe o Purus,
contemplando de longe em longe, até às cercanias da
Cachoeira, os paumaris rarescentes, mal recordando os antigos donos
daquelas várzeas; e dali para montante os ipurinás
inofensivos; ou a partir do Iaco, os tucunas que já nascem
velhos, tanto se lhes reflete na compleição tolhiça
a decrepitude da raça - tem a maior das surprêsas ao
deparar nas cabeceiras do rio com os silvícolas singulares
que as animam. Discordes nos hábitos e na procedência,
lá se comprimem em ajuntamento forçado; os amauacas
mansos que se agregam aos puestos dos extratores do caucho; os coronauas
indomáveis, senhores das cabeceiras do Curanja; os piros
acobreados, de rebrilhantes dentes tintos de resina escura que lhes
dão aos rostos, quando sorriem, indefiníveis traços
de ameaças sombrias; os barbudos caxibos afeitos ao extermínio
em correrias de duzentos anos sôbre os destroços das
missões do Pachitéa; os conibos de crânios deformados
e bustos espantadamente listrados de vermelho e azul; os setebos,
sipibos e iurimauas; os mashcos corpulentos, do Mano, evocando no
desconforme da estatura os gigantes fabulados pelos primeiros cartógrafos
da Amazônia; e, sôbre todos, suplantando-os na fama
e no valor, os campas aguerridos do Urubamba...
A variedade das cabildas em área tão reduzida trai
a pressão estranha que as sonstringe. O ajuntamento é
forçado.
Elas estão, evidentemente, nos últimos redutos para
onde refluíram no desfecho de uma campanha secular, que vem
do apostolado das Maynas às expedições modernas
e cujos episódios culminantes se perderam para a História.
O narrados dêstes dias chega no final de um drama, e contempla
supreendido o seu último quadro prestes a cerrar-se.
A civilização, bàrbaramente armada de rifles
fulminantes, assedia completamente ali a barbaria encantoada: os
peruanos pelo ocidente e pelo sul; os brasileiros em todo o quadrante
de NE; no de SE, trancando o vale do Madre de Diós, os bolivianos.
E os caucheiros aparecem como os mais avantajados batedores da sinistra
catequese a ferro e fogo, que vai exterminando naqueles sertões
remotíssimos os mais interessantes aborígenes sul-americanos.
* * *
Esta missão histórica advém-lhes da fragilidade
de uma árvore. O caucheiro é forçadamente um
nômade votado ao combate, à destruição
e a uma vida errante ou tumulturária, porque a castilloa
elástica que lhe fornece a borracha apetecida, não
permite, como as heveas brasileiras, uma exploração
estável, pelo renovar periòdicamente o suco vital
que lhe retiram. É execepcionalmente sensível. Desde
que a golpeiem, morre, ou definha durante largo tempo, inútil.
Assim o extrator derruba-a de uma vez para aproveitá-la tôda.
Atora-a, depois, de metro em metro, desde as sapopembas aos últimos
galhos das frondes; e abrindo no chão, ao longo do madeiro
derrubado, rasas cavidades retangulares correspondentes às
secções dos toros, delas retira, ao fim de uma semana,
as pranchas valiosas, enquanto os restos aderidos à casca,
nos rebordos dos cortes, ou esparsos a êsmo pelo solo, constituem,
reunidos, o sernambi de qualidade inferior.
O processo, como se vê, é rudimentar e rápido.
Esgota-se em pouco tempo o cauchal mais exuberante; e como as castilloas
não se distribuem regularmente pelas matas, viçando
em grupos por vêzes bastante separados, os exploradores deslocam-se
a outros rumos, reeditando quase sem variantes tôdas as peripécias
daquela vida aleatória de caçadores de árvores.
Dêste modo o nomadismo impõe-se-lhes. É-lhes
condição inviolável de êxito. Afundam
temeràriamente no deserto; insulam-se em sucessivos sítios
e não revêem nunca os caminhos percorridos. Condenados
ao desconhecido, afeiçoam-se às paragens ínvias
e inteiramente novas. Alcançam-nas: abandonam-nas. Prosseguem
e não se restribam nas posições às vêzes
àrduamente conquistadas.
Atingindo qualquer trecho onde os pés de caucho se descubram,
levantam à beira de uma quebrada o primeiro tambo de paxiúba,
e atiram-se à tarefa agitadíssima. Os seus primeiros
instrumentos de trabalho são a carabina Winchestewr - o rifle
curto adrede disposto aos recontros no trançado das ramarias
-, o machete cortante que lhes destrana os cipoais, e a bússola
portátil, norteando-se no embaralhado das veredas. Tomam-nos
e lançam-se a uma revista cautelosa das cercanias. Vão
em busca do selvagem que devem combater e exterminar ou escravizar,
para que do mesmo lance tenham tôda a segurança no
nôvo pôsto de trabalhos e braços que lhos impulsionem.
São bem poucos às vêzes os que se abalançam
a esta preliminar obrigatória e temerária: meia dúzia
de homens, dispersando-se e mergulhando silenciosamente na espessura.
E lá se vão, perquirindo e sondando todos os recessos;
batendo palmo a palmo todos os recantos suspeitos; anotando de cor,
num exaustivo levantamento topográfico, de memória,
os mais variados acidentes; ao mesmo passo que com os olhos e ouvidos
armados aos mais fugitivos aspectos e aos mais vagos rumôres
dos ares murmurantes da floresta, vão premunindo-se dos resguardos
e ardilezas que se exigem naquele assombroso duelo sevilhano com
o deserto.
Alguns não tornam mais. Outros, volvem indenes aos pousos,
depois da perquirição inútil. Algum, porém,
ao cabo da pesquisa fatigante, lobriga ao longe, meio indistintas
nas folhagens, as primeiras cabanas do selvagem.
Mal refreia um grito de triunfo, e não volve logo a comunicar
aos companheiros o achado.
Refina a sua astúcia extraordinária. Cose-se com o
chão, e, de rastros, fareando el peligro, aproxima-se quando
pode do inimigo descuidado.
Há, realmente, neste lance, um traço comovente de
heroísmo. O homem perdido na solidão absoluta vai
procurar o bárbaro, levando a escolta única das dezoito
balas de seu rifle carregado.
É um rastejamento longo, tortuoso e lento, em que êle
aproveita todos os acidentes, encobrindo-se por detrás dos
troncos ou entaliscando-se nos ângulos das sapopembas, deslizando
sem ruído sôbre as camadas das ramas decompostas, ou
insinuando-se entre as hastes unidas das helicônias de largas
fôlhas protetoras, até que possa, no têrmo da
investida surda e angustiosa, contemplar e ouvir de perto, quase
à orla do terreiro claro, os adversários inexpertos,
e inscientes do civilizado sinistro que os espia e os conta e lhes
observa as maneiras e lhes avalia os recursos - e volta depois do
exame minucioso, levando aos companheiros, que o aguardam, todos
os informes necessários à "conquista".
Conquita é o têrmo predileto, usado por uma espécie
de reminiscência atávica das antiqüíssimas
algaras dos condutícios de Pizarro. Mas não a efetuam
pelas armas sem esgotarem os efeitos da diplomacia rudimentar dos
presentes mais apetecidos do selvagem. A um ouvimos certa vez o
processo seguido: "Se los atrae al tambo por medio de regalos:
ropa, rifles, machetes, etc.; y sin hacerlos trabajar, se les deja
que vayan al tolderio a decir a sus compañeros el como son
tratados por los caucheros, que nos los obligan a trabajar, sino
que les aconsejan que trabajen un poco y a voluntad, para pagar
aquello que les dieron..."
Êstes meios pacíficos, porém, são em
geral falíveis. A regra é a caçada impiedosa,
à bala. É o lado heróico da emprêsa:
um grupo inapreciável arrojando-se à montaria de uma
multidão.
Não se lhe pormenorizam os episódios.
Subordina-se a uma tática invariável: a máxima
rapidez do tiro e a máxima temeridade. São garantias
certas do triunfo. É incalculável o número
de minúsculas batalhas travadas naqueles sertões onde
reduzidos grupos bem armados suplantam tribos inteiras, sacrificadas
a um tempo pelas suas armas grosseiras e pela afoiteza no arremeterem
com as descargas rolantes das carabinas.
Citemos um exemplo único. Quando Carlos Fiscarrald chegou
em 1892 às cabeceiras do Madre de Diós, vindo do Ucaiáli
pelo varadouro aberto no istmo que lhe conserva o nome, procurou
captar do melhor modo os mashcos indomáveis que as senhoreavam.
Trazia entre os piros que conquistara um intérprete inteligente
e leal. Conseguiu sem dificuldades ver e conservar o curaca selvagem.
A conferência foi rápida e curiosíssima.
O notável explorador, depois de apresentar ao "infiel"
os recursos que trazia e o seu pequeno exército, onde se
misturavam as fisionomias díspares das tribos que subjugara,
tentou demonstrar-lhe as vantagens da aliança que lhe oferecia
contrapostas aos inconvenientes de uma luta desastrosa. Por única
resposta o mashco perguntou-lhe pelas flexas que trazia. E Fiscarrald
entregou-lhe, sorrindo, uma cápsula de Winchester.
O selvagem examinou-a, longo tempo, absorto ante a pequenez do projétil.
Procurou, debalde, ferir-se, roçando rijamente a bala contra
o peito. Não o conseguindo, tomou uma de suas flexas; cravou-a,
de golpe, no outro braço, varando-o. Sorriu, por sua vez,
indiferente à dor, contemplando com orgulho o seu próprio
sangue que esguichava... e sem dizer palavra deu as costas ao sertanista
surpreendido, voltando para o seu tolderío com a ilusão
de uma superioridade que a breve trecho seria inteiramente desfeita.
De fatom meia hora depois, cêrca de cem mashcos, inclusive
o chefe recalcitrante e ingênuo, jaziam trucidados sôbre
a margem, cujo nome, Playa Mashcos, ainda hoje relembra êste
sanguinolento episódio...
Assim vai desbravando-se a região bravia. Varejadas as redondezas,
mortos ou escravizados num raio de poucas léguas os aborígenes,
os caucheiros agitam-se febrilmente na azáfama estonteadora.
Em alguns meses ao lado do primitivo tambo multiplicam-se outros;
a casucha solitária transmuda-se em amplo barracón
ou embarcadero ruidos; e adensam-se por vêzes as vivendas
em caseríos, a exemplo de Cocama e Curanja, à margem
do Purus, a espelharem, repentinamente, no deserto, a miragem de
um progresso que surge, se desenvolve e acaba num decênio.
Os caucheiros ali estacionam até que caia o último
pé de caucho. Chegam, destróem, vão-se embora.
Nada pedem, em geral, à terra, à parte exíguas
plantações de iúcas e bananas, a que se dedicam
os índios domesticados. A única agricultura regular,
embora diminuta, que se observa no Alto-Purus, para lá das
últimas barracas dos nossos seringueiros, e a do algodão,
dos campas aldeados, que até nisto delatam a independência
nativa: colhendo, cardando, fiando, tecendo e pintando as cushmas
de que se revestem, e descem-lhes dos ombros até aos pés,
com o feitio de longas togas grosseiras. Assim, entre os estranhos
civilizados que ali chegam de arrancada para ferir e matar o homem
e a árvore, estacionando apenas o tempo necessário
a que ambos se extingam, seguindo a outros rumos onde renovam as
mesmas tropelias, passando como uma vaga devastadora e deixando
ainda mais selvagem a própria selvageria - aquêles
bárbaros singulares patenteiam o único aspecto tranqüilo
das culturas. O contraste é empolgante. Seguindo do povoado
campa de Tingoleales para o sítio peruano de Shamboyaco,
perto da foz do Rio Manuel Urbano, o viajante não passa,
como a princípio acredita, dos estádios mais primitivos
aos mais elevados da evolução humana. Tem uma surprêsa
maior. Vai da barbaria franca a uma sorte de civilização
caduca em que todos os estigmas daquela ressaltam, mais incisivos,
dentre as próprias conquistas do progresso.
Aborda a estância peruana; e nas primeiras horas encanta-o
o quadro de uma existência movimentada e ruidosa. A vivenda
principal e as que se lhe subordinam, arruadas alguma vez à
maneira de pequenas vilas, erigem-se sempre num ponto bem escolhido
a cavaleiro do rio; e a despeito de se construírem exclusivamente
com as fôlhas e estípites da paxiúba - que é
a palmeira providencial da Amazônia - são em geral
de dois andares e têm na elegância das linhas e nas
varandas desafogadas, que as circuitam, uma aparência de todo
contraposta ao aspecto tristonho dos chatos barracões dos
nossos seringueiros.
No terreiro amplo, acabando na crista da baranca caindo em talude
vivo sôbre o rio, uma agitação animadora e álacre;
carregadores possantes passando em longas filas sucessivas arcados
sob as pranchas de caucho; administradores ativos rompendo das portas
do andar térreo e correndo para tôda a banda, para
os armazéns refertos de conservas ou para as tendas fulgurantes,
onde estridulam malhos e bigornas, reparando as achas e machetes.
Embaixo no embarcadero, coalhado das ubás velozes, onde as
tanganas fisgam vivamente os ares, vozeia a algazarra dos práticos
e proeiros, e espalmam-se nas águas as balsas feitas exclusivamente
de caucho, formando-se sôbre o "caminho que marcha"
a "mercadoria que conduz os condutores". E em todo o correr
da ladeira que dali serpeia até em cima, as saias vermelhas
e os corpinhos brancos das cholas graciosas de Iquitos, passando
e entrecruzando-se, num embandeiramento festivo...
O viajante atravessa os grupos agitados e as surprêsas não
cessam. Galga a escada que o leva à varanda da frente, para
onde dão os principais repartimentos da vivenda. No alto
o caucheiro - um triunfador jovial e desempenado sôbre os
rijos tacões das suas botas de mateiro - recebe-o ruidosamente,
abrindo-lhe de par em par as portas numa hospitalidade espetaculosa
e franca. E completa-se o encanto. Extinta a noção
do tempo, ou do longo espaço de milhares de quilômetros
gastos no sulcar os rios solitários para atingir aquela estância
longínqua, o forasteiro insensìvelmente se imagina
em algum entreposto comercial de qualquer cidade da costa. Nada
lhe falta ao engano: o longo balcão de pinho abarreirando
a sala principal e cerrando o recinto, onde se aprumam as prateleiras
atestadas de mercadorias; os empregados solícitos obedientes
às ordens do guarda-livros corretíssimo, que o cumprimentou
ao entrar e volveu logo à sua escrita, acurvado sôbre
a secretária inclinada; o copo de cerveja que lhe oferecem,
ao invés da chicha tradicional; a folhinha artística
a um lado, marcando o dia certo do ano; os jornais de Manaus e de
Lima; e até - o que é inverossímil - a tortura
requintada e culta de um fonógrafo, gaguejando, emperradamente,
naquele fundo de desertos, uma ária predileta de tenor famoso...
* * *
Mas tôda esta exterioridade surpreendente desaparece ante
uma observação permitindo ao visitante ver o que lhe
não mostra o seu garboso hospedeiro. A desilusão assalta-o
então de chôfre; e é impressionadora. Aquêle
reflexo de vida superior não vai além da escassa nesga
de chão, de menos de um hectare, constrita entre a mata ameaçadora
e próxima, ao fundo, e a barranca despenhada rio adiante.
Fora dêste falso cenário, o drama real que se desenrola
é quase inconcebível para o nosso tempo.
Abaixo do caucheiro opulento, numa escala deplorável, do
mestiço loretqno que ali vai em busca de fortuna ao quíchua
deprimido trazido das cordilheiras, há uma série indefinida
de espoliados. Para vê-los tem-se que varar os obscuros recessos
da mata sem caminhos e buscá-los nas urmanas solitárias,
onde assistem completamente sós, acompanhados apenas do rifle
inseparável, que lhes garante a existência com os recursos
aleatórios das caçadas. Ali mourejam improfàicuamente
longos anos; enfermam, devorados das moléstias; e extinguem-se
no absoluto abandono. Quatrocentos homens às vêzes,
que ninguém vê, dispersos por aquelas quebradas, e
mal aparecendo de longe em longe no castelo de palha do acalcanhado
barão que os escraviza. O "conquistador" não
os vigia. Sabe que lhe não fogem. Em roda, num raio de seis
léguas, que é todo o seu domínio, a região,
inçada de outros infieles, é intransponível.
O deserto é um feitor perpètuamente vigilante. Guarda-lhe
a escravatura numerosa. Os mesmos campas altanados, que êle
captou esgrimindo uma perfídia magistral contra a bravura
ingênua do bárbaro, não o deixam mais, temendo
os próprios irmãos bravios, que nunca lhes perdoam
a submissão transitória.
Desta sorte o aventureiro feliz que dois anos antes, em Lima ou
Arequipa, exercitava o trato mais gentil - sente-se inteiramente
livre da pressão e dos infinitos corretivos da vida social,
e adquirindo a consciência do mando ilimitado, ao mesmo tempo
que o invade o sentimento da impunidade para todos os caprichos
e delitos, cai, de um salto, numa selvageria originalíssima,
em que entra sem ter tempo de perder os atributos superiores do
meio onde nasceu.
Realmente, o caucheiro não é apenas um tipo inédito
na História. É, sobretudo, antinômico e paradoxal.
No mais pormenorizado quadro etnográfico não há
um lugar para êle. A princípio figura-se-nos um caso
vulgar de civilizado que se barbariza, num recuo espantoso em que
se lhe apagam os caracteres superiores nas formas primitivas da
atividade.
E é um engano. Êstes estádios contrapostos êle
não os combina criando uma atividade híbrida embora,
mas definida e estável. Junta-os apenas sem os caldear. É
um caso de mimetismo psíquico de homem que se finge bárbaro
para vencer o bárbaro. É caballero e selvagem, consoante
as circunstâncias. O dualismo curioso de quem procura manter
intactos os melhores ensinamentos morais ao lado de uma moral fundada
especialmente para o deserto - reponta em todos os atos da sua existência
revôlta. O mesmo homem que com invejável retitude esforça-se
por satisfazer os seus compromissos, que às vêzes sobem
a milhares de contos, com os exportadores de Iquitos ou Manaus,
não vacila em iludir o peón miserável que o
serve, em alguns quilos de sernambi ordinário; ou passa por
vêzes da mais refinada galanteria à máxima brutalidade,
deixando em meio um sorriso cativante e uma mesura impecável,
para saltar com um rugido, de cuchillo rebrilhante em punho, sôbre
o cholo desobediente que o afronta.
A selvageria é uma máscara que êle põe
e retira à vontade.
Não há ajustá-la ao molde incomparável
dos nossos bandeirantes. Antônio Rapôso, por exemplo,
tem um destaque admirável entre todos os conquistadores sul-americanos.
O seu heroísmo é brutal, maciço, sem frinchas,
sem dobras, sem disfarces. Avança ininteligentemente, mecânicamente,
inflexìvelmente, como uma fôrça natural desencadeada.
A diagonal de mil e quinhentas léguas que traçou de
São Paulo até ao Pacífico, cortando tôda
a América do Sul, por cima de rios, de chapadões,
de pantanais, de corixas estagnadas, de desertos, de cordilheiras,
de páramos nevados e de litorais aspérrimos, entre
o espanto e as ruínas de cem trilhos suplantadas, é
um lance apavorante, de epopéia. Mas sente-se bem naquela
ousadia individual a concentraçào maravilhosa de tôdas
as ousadias de uma época.
O bandeirante foi brutal, inexorável, mas lógico.
Foi o super-homem do deserto.
O caucheiro é irritantemente absurdo na sua brutalidade elegante,
na sua galanteria sanguinolenta e no seu heroísmo à
gandaia. É o homúnculo da civilização.
Mas compreende-se esta antilogia. O aventureiro ali vai com a preocupação
exclusiva de enriquecer e voltar; voltar quanto antes, fugindo àquela
terra melancólica e empantanada que parece não ter
solidez para agüentar o próprio pêso material
de uma sociedade. Acompanha-o, em tôdas as conjunturas da
sua atividade nervosa e precipitada, o espetáculo das cidades
vastas, onde brilhará um dia, transformado em esterlinos
o oro negro do caucho. Dominado de todo pela nostalgia incurável
da paragem nativa, que êle deixou precisamente para a rever
apercebido de recursos que lhe facultem maiores somas de felicidades
- atira-se às florestas: enterreira e subjuga os selvagens;
resiste ao impaludismo e às fadigas; agita-se, adoidadamente,
durante quatro, cinco, seis anos; acumula algumas centenas de milhares
de soles e desaparece, de repente...
Surge em Paris. Atravessa em pleno esplendor dos teatros ruidosos
e dos salões, seis meses de vida delirante, sem que lhe descubram,
destoando da correção impecável das vestes
e das maneiras, o mais leve resquício do nomadismo profissional.
Arruína-se galhardamente; e volta... Reata a faina antiga:
novos quatro ou seis anos de trabalhos forçados; nova fortuna
prestes adquirida; nôvo volver ansioso em busca da fortuna
perdidiça, numa oscilação estupenda das avenidas
fulgurantes para as florestas solitárias.
A êste propósito correm as mais curiosas versões,
em que se destacam famosos caucheiros conhecidíssimos em
Manaus.
Neste viver oscilante êle dá a tudo quanto pratica,
na terra que devasta e desama, um caráter provisório
- desde a casa que constrói em dez dias para durar cinco
anos, às mais afetuosas ligações que às
vêzes duram anos e êle destrói num dia. Neste
ponto, sobretudo, desenha-se-lhe a inconstância irrivalizável.
Um dêles, como lhe perguntássemos, em Curanja, onde
desposara a amauaca gentilíssima que lhe assistia há
dez anos com os desvelos de uma espôsa exemplar, retorquiu-nos,
levemente irônico:
- Me han hecho regalo em Pachitéa.
Um regalo, um presente, um traste que êle abandonaria à
primeira eventualidade, sem cuidados.
Reportado negociante daquele vilarejo decaído, que em Lima
ou Iquitos seria um belo molde de burguês pacífico
e abstêmio, ali hambriento de mujeres, apresenta aos amigos
e ao forasteiro adventício, o seu harém escandaloso,
onde se estremam a interessante Mercedes, de ojillos de venado,
que custou uma batalha contra os coronauas, e a encantadora Facunda
de grandes olhos selvagens e cismadores, que lhe custou cem soles.
E narra o tráfico criminoso, a rir, absolutamente impune,
e sem temores.
Não há leis. Cada um traz o código penal no
rifle que sobraça, e exercita a justiça a seu alvedrio,
sem que o chamem a contas. Num dia, de julho de 1905, quando chegava
ao último puesto caucheiro do Purus uma comissão mi9sta
de reconhecimento, todos os que a compunham, brasileiros e peruanos,
viram um corpo desnudo e atrozmente mutilado, lançado à
margem esquerda do rio, num claro entre as frecheiras. Era o cadáver
de uma amauaca. Fôra morta por vingança, explicou-se
vagamente depois. E nào se tratou mais do incidente - coisa
de nonada e trivialíssima na paragem revolvida pelas gentes
que a atravessam e não povoam, e passam deixando-a ainda
mais triste com os escombros das estâncias abandonadas...
* * *
Estas lá estão em tôdas as voltas do Alto-Purus,
aparecendo, entristecedoras, sob os vários aspectos que vão
das urmanas humildes dos peões às vivendas outrora
senhoris dos caucheiros.
Pouco acima do Shamboyaco, uma, sôbre tôdas, nos impressionou,
quando descíamos.
Fôra um pôsto de primeira ordem. Saltamos para o examinar;
e vingando a custo a barranca malgradada, descobrindo em cima o
velho caminho invadido de vassouras bravas, chegamos ao terreiro
onde o matagal inextricável ia peneirando e cobrindo os acervos
de vasilhas velhas, farragens repugnantes, restos de ferramentas,
e ciscalhos em montes deixados pelos prófugos habitantes.
A casa principal, defronte, meio estruída, tetos abatidos,
paredes encombentes e a tombarem despegando-se dos esteios desaprumados,
figurava-se sustida apenas pelas lianas que lhe irrompiam de todos
os pontos, furando-lhe a cobertura, enleando-se-lhe nas vigas vacilantes,
amarrando-lhas, e estirando-se à feição de
cabos até as árvores mais próximas, onde se
enlaçavam impedindo-lhe o desabamento completo; e as vivendas
menores, anexas, cobertas de trepadeiras exuberando floração
ridente, apagavam-se, desaparecendo a pouco e pouco na constrição
irresistível da mata que reconquistava o seu terreno primitivo.
Mal atentamos, porém, no magnífico lance regenerador,
da flora, juncando de corolas e festões garridos aquela ruinaria
deplorável. Não estava inteiramente desabitada a tapera.
Num dos casebres mais conservados aguardava-nos o último
habitante. Piro, amauaca ou campa, nào se lhe distinguia
a origem. Os próprios traços da espécie humana,
transmudava-lhos a aparência repulsiva: um tronco desconforme,
inchado pelo impaludismo, tomando-lhe a figura tôda, em pleno
contraste com os braços finos e as pernas esmirradas e tolhiças
como as de um feto monstruoso.
Acocorado a um canto, contemplava-nos impassível. Tinha a
um lado todos os seus haveres: um cacho de bananas verdes.
Esta coisa indefinível que por analogia cruel sugerida pelas
circunstâncias se nos figurou menos um homem que uma bola
de caucho ali jogada a êsmo, esquecida pelos extratores -
respondeu-nos às perguntas num regougo quase extinto e numa
língua de todo incompreensível. Por fim, com enorme
esforço levantou um braço; estirou-o, lento, para
a frente, como a indicar alguma coisa que houvesse seguido para
muito longe, para além de todos aquêles matos e rios;
e balbuciou, deixando-o cair pesadamente, como se tivesse erguido
um grande pêso:
- "Amigos".
Compreendia-se: amigos, companheiros, sócios dos dias agitados
das safras, que tinham partido para aquelas bandas, abandonando-o
ali, na solidão absoluta.
Das palavras castelhanas que aprendera restava-lhe aquela única;
e o desventurado murmurando-a como um tocante gesto de saudade,
fulminava sem o saber - com um sarcasmo pungentíssimo - os
desmandados aventureiros que àquela hora prosseguiam na faina
devastadora: abrindo a tiros de carabinas e a golpes de machetes
novas veredas a seus itinerários revoltos, e desvendando
outras paragens ignoradas, onde deixariam, como ali haviam deixado,
no desabamento dos casebres ou na figura lastimável do aborígene
sacrificado, os únicos frutos de suas lides tumultuárias,
de construtores de ruínas...
Judas-Ahsverus
No sábado da Aleluia os seringueiros do Alto-Purus desforram-se
de seus dias tristes. É um desafôgo. Ante a concepção
rudimentar da vida santificam-se-lhes, nesse dia, tôdas as
maldades. Acreditam numa sanção litúrgica aos
máximos deslizes.
Nas alturas, o Homem-Deus, sob o encanto da vinda do filho ressurreto
e despeado das insídias humanas, sorri, complacentemente,
à alegria feroz que arrebenta cá embaixo. E os seringueiros
vingam-se, ruidosamente, dos seus dias tristes.
Não tiveram missas solenes, nem procisões luxuosas,
nem lavapés tocantes, nem prédicas comovidas. Tôda
a Semana Santa correu-lhes na mesmice torturante daquela existência
imóvel, feita de idênticos dias de penúrias,
os meios jejuns permanentes, de tristezas e de pesares, que lhes
parecem uma interminável Sexta-feira da Paixão, a
estirar-se, angustiosamente, indefinida, pelo ano todo afora.
Alguns recordam que nas paragens nativas, durante aquela quadra
fúnebre, se retraem tôdas as atividades - despovoando-se
as ruas, paralisando-se os negócios, ermando-se os caminhos
- e que as luzes agonizam nos círios bruxuleantes, e as vozes
se amortecem nas rezas e nos retiros, caindo um grande silêncio
misterioso sôbre as cidades, as vilas e os sertões
profundos onde as gentes entristecidas se associal à mágoa
prodigiosa de Deus. E consideram, absortos, que êsses sete
sias excepcionais, passageiros em tôda a parte e em tôda
a parte adrede estabelecidos a maior realce de outros dias mais
numerosos, de felicidade - lhes são, ali, a existência
inteira, monótona, obscura, dolorisíssima e anônima,
a girar acabrunhadoramente na via dolorosa inalterável, sem
princípio e sem fim, do círculo fechado das "estradas".
Então pelas almas simples entra-lhes, obscurecendo as miragens
mais deslumbrantes da fé, a sombra espêssa de um conceito
singularmente pessimista da vida: certo, o Redentor universal não
os redimiu; esqueceu-os para sempre, ou não os viu talvez,
tão relegados se acham à borda do rio solitário,
que no próprio volver das suas águas é o primeiro
a fugir, eternamente, àqueles tristes e desfreqüentados
rincões.
Mas não se rebelam, ou blasfemam. O seringueiro rude, ao
revés do italiano artista, não abusa da bondade de
seu deus desmandando-se em convícios. É mais forte;
é mais digno. Resignou-se à desdita. Não murmura.
Não reza. As preces ansiosas sobem por vêzes ao céu,
levando disfarçadamente o travo de um ressentimento contra
a divindade; e êle não se queixa. Tem a noção
prática, tangível, sem raciocínios, sem diluições
metafísicas, maciça e inexorável - um grande
pêso a esmagar-lhe inteiramente a vida - da fatalidade; e
submete-se a ela sem subterfugir na covardia de um pedido, com os
joelhos dobrados. Seria um esforço inútil. Domina-lhe
o critério rudimentar uma convicção talvez
demasiado objetiva, ou ingênua, mas irredutível, a
entrar-lhe a todo o instante pelos olhos a distância que o
afasta dos homens; e os grandes olhos de Deus não podem descer
até àqueles brejais, manchando-se. Não lhe
vale a pena penitenciar-se, o que é um meio cauteloso de
rebelar-se, reclamando uma promoção na escala indefinida
da bem-aventurança. Há concorrentes mais felizes,
mais bem protegidos, mais vistos, nas capelas, nas igrejas, nas
catedrais, e nas cidades ricas onde se estadeia o fausto do sofrimento
uniformizado de prêto, ou fulgindo na irradiação
das lágrimas, e galhardeando tristezas...
Ali - é seguir, impassível e mudo, estóicamente,
no grande isolamento da sua desventura.
Além disto, só lhe é lícito punir-se
da ambição maldita que o conduziu àqueles lugares
para entregá-lo, maniatado e escravo, aos traficantes impunes
que o iludem - e êste pecado é o seu próprio
castigo, transmudando-lhe a vida numa interminável penitência.
O que lhe resta a fazer é desvendá-la e arrancá-la
da penumbra das matas, mostrando-a, nuamente, na sua forma apavorante,
à humanidade longínqua...
Ora, para isso, a Igreja dá-lhe um emissário sinistro:
Judas; e um único dia feliz: o sábado prefixo aos
mais santos atentados, às balbúrdias confessáveis,
à turbulência mística dos eleitos e à
divinizaçào da vingança.
Mas o mostrengo de palha, trivialíssimo, de todos os lugares
e de todos os tempos, não lhe basta à missão
complexa e grave. Vem batido demais pelos séculos em fora,
tão pisoado, tão decaído e tão apedrejado
que se tornou vulgar na sua infinita miséria, monopolizando
o ódio universal e apequenando-se, mais e mais, diante de
tantos que o malquerem.
Faz-se-lhe mister, ao menos, acentuar-lhe as linhas mais vivas e
cruéis; e mascarar-lhe no rosto de pano, a laivos de carvão,
uma tortura tão trágica, e em tanta maneira próxima
da realidade, que o eterno condenado pareça ressuscitar ao
mesmo tempo que a sua divina vítima, de modo a desafiar uma
repulsa mais espontânea e um mais compreensível revide,
satisfazendo à saciedade as almas ressentidas dos crentes,
com a imagem tanto possível perfeita da sua miséria
e das suas agonias terríveis.
E o seringueiro abalança-se a êsse prodígio
de estatuária, auxiliado pelos filhos pequeninos, que deliram,
ruidosos, sem risadas, a correrem por tôda a banda, em busca
das palhas esparsas e da farragem repulsiva de velhas roupas imprestáveis,
encantados com a tarefa funambulesca, que lhes quebra tão
de golpe a monotonia tristonha de uma existência invariável
e quieta.
O judas faz-se como se fêz sempre: um par de calças
e uma camisa velha, grosseiramente cosidos, cheios de palhiças
e mulambos; braços horizontais, abertos, e pernas em ângulo,
sem juntas, sem relevos, sem dobras, aprumando-se, espantadamente,
empalado, no centro do terreiro. Por cima uma bola desgraciosa representando
a cabeça. É o manequim vulgar, que surge em tôda
a parte e satisfaz à maioria das gentes. Não basta
ao seringueiro. É-lhe apenas o bloco de onde vai tirar a
estátua, que é a sua obra-prima, a criação
espantosa do seu gênio rude longamente trabalhado de reveses;
onde outros talvez distingam traços admiráveis de
uma ironia sutilíssima, mas que é para êle apenas
a expressão concreta de uma realidade dolorosa.
E principia, às voltas com a figura disforme: salienta-lhe
e afeiçoa-lhe o nariz; reprofunda-lhe as órbitas;
esbate-lhe a fronte; acentua-lhe os zigomas; e aguça-lhe
o queixo, numa massagem cuidadosa e lenta; pinta-lhe as sobrancelhas,
e abre-lhe com dois riscos demorados, pacientemente, os olhos, em
geral tristes e cheios de um olhar misterioso; desenha-lhe a bôca,
sombreada de um bigode ralo, de guias decaídas aos cantos.
Veste-lhe, depois, umas calças e uma camisa de algodão,
ainda servíveis; calça-lhe umas botas velhas, cambadas...
Recua meia dúzia de passos. Contempla-a durante alguns minutos.
Estuda-a.
Em tôrno a filharada, silenciosa agora, queda-se expectante,
assistindo ao desdobrar da concepção, que a maravilha.
Volve ao seu homúnculo: retoca-lhe uma pálpebra; aviva
um ricto expressivo na arqueadura do lábio; sombreia-lhe
um pouco mais o rosto, cavando-o; ajeita-lhe melhor a cabeça;
arqueia-lhe os braços; repuxa e reifica-lhe as vestes...
Nôvo recuo, compassado, lento, remirando-o, para apanhar de
um lance, numa vista de conjunto, a impressão exata, a s;intese
de tôdas aquelas linhas; e renovar a faina com uma pertinácia
e uma tortura de artista incontentável. Novos retoques, mais
delicados, mais cuidadosos, mais sérios: um tenuíssimo
esbatido de sombra, um traço quase imperceptível na
bôca refegada, uma torção insignificante no
pescoço engravatado de trapos...
E o monstro, lento e lento, num transfigurar-se insensível,
vai-se tornando em homem. Pelo menos a ilusão é empolgante...
Repentinamente o bronco estatuário tem um gesto mais comovedor
do que o parla! ansiosíssimo, de Miguel-Ângelo: arranca
o seu próprio sombreiro; atira-o à cabeça do
Judas; e os filhinhos todos recuam, num grito, vendo retratar-se
na figura desengonçada e sinistra o vulto do seu próprio
pai.
É um doloroso triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito à
sua imagem. Vinga-se de si mesmo: pune-se, afinal, da ambiçào
maldita que o levou àquela terra; e desafronta-se da fraqueza
moral que lhe parte os ímpetos da rebeldia recalcando-o cada
vez mais ao plano inferior da vida decaída onde a credulidade
infantil o jungiu, escravo, à gleba empantanada dos traficantes,
que o iludiram.
Isto, porém, não lhe satisfaz. A imagem material da
sua desdita não deve permanecer inútil num exíguo
terreiro de barraca, afogada na espessura impenetrável, que
furta o quadro de suas mágoas, perpètuamente anônimas,
aos próprios olhos de Deus. O rio que lhe passa à
porta é uma estrada para tôda a Terra. Que a Terra
tôda contemple o seu infortúnio, o seu exaspêro
cruciante, a sua desvalia, o seu aniquilamento iníquo, exteriorizados,
golpeantemente, e propalados por um estranho e mudo pregoeiro...
Embaixo, adrede construída desde a véspera, vê-se
uma jangada de quatro paus boiantes, rijamente travejados. Aguarda
o viajante macabro. Condu-lo, prestes, para lá, arrastando-o
em descida, pelo viés dos barrancos avergoados de enxurros.
A breve trecho a figura demoníaca apruma-se, especada, à
pôpa da embarcaçào ligeira.
Faz-lhe os últimos reparos: arranja-lhe ainda uma vez as
vestes; arruma-lhe às costas um saco cheio de ciscalho e
pedras; mete-lhe à cintura alguma inútil pistola enferrujada,
sem fechos, ou um caxerenguengue gasto; e fazendo-lhe curiosas recomendaçòes,
ou dando-lhe os mais singulares conselhos, impele, ao cabo, a jangada
fantástica para o fio da corrente.
* * *
E Judas feito Ahsverus vai avançando vagarosamente para o
meio do rio. Então os vizinhos mais próximos, que
se adensam, curiosos, no alto das barrancas, intervêem ruidosamente,
saudando com repetidas descargas de rifles aquêle botafora.
As balas chofram a superfície líqüida, erriçando-a;
cravam-se na embarcação, lascando-a; atingem o tripulante
espantoso; trespassam-no. Êle vacila um momento no seu pedestal
flutuante, fustigado a tiros, indeciso, como a esmar um rumo, durante
alguns minutos, até se reaviar no sentido geral da correnteza.
E a figura desgraciosa, trágica, arrepiadoramente burlesca,
com os seus gestos desmanchados, de demônio e truão,
desafiando maldições e risadas, lá se vai na
lúgubre viagem sem destino e sem fim, a descer, a descer
sempre, desequilibradamente, aos rodopios, tonteando em tôdas
as voltas, à mercê das correntezas, "de bubuia"
sôbre as grandes águas.
Não pára mais. À medida que avança,
o espantalho errante vai espalhando em roda a desolação
e o terror: as aves, retransidas de mêdo, acolhem-se, mudas,
ao recesso das frondes; os pesados anfíbios mergulham, cautos,
nas profunduras, espavoridos por aquela sombra que ao cair das tardes
e ao subir das manhãs se desata estirando-se, lutuosamente,
pela superfície do rio; os homens correm às armas
e numa fúria recortada de espantos, fazendo o "pelo
sinal" e aperrando os gatilhos, alvejam-no desapiedadamente.
Não defronta a mais pobre barraca sem receber uma descarga
rolante e um apedrejamento.
As balas esfuziam-lhe em tôrno; varam-no; as águas,
zimbradas pelas pedras, encrespam-se em círculos ondeantes;
a jangada balança; e, acompanhando-lhe os movimentos, agitam-se-lhe
os braços e êle parece agradecer em canhestras mesuras
as manifestações rancorosas em que tempesteiam tiros,
e gritos, sarcasmos pungentes e esconjuros e sobretudo maldições
que revivem, na palavra descansada dos matutos, êste eco de
um anátema vibrando há vinte séculos:
- Caminha, desgraçado!
Caminha. Não pára. Afasta-se no volver das águas.
Livra-se dos perseguidores. Desliza, em silêncio, por um estirão
retilíneo e longo; contorneia a arqueadura suavíssima
de uma praia deserta. De súbito, no vencer uma volta, outra
habitação: mulheres e crianças, que êle
surpreende à beira do rio, a subirem, desabaladamente, pela
barranca acima, desandando em prantos e clamores. E logo depois,
do alto, o espingardeamento, as pedradas, os convícios, os
remoques.
Dois ou três minutos de alaridos e tumulto, até que
o judeu errante se forre ao alcance máximo da trajetória
dos rifles, descendo...
E vai descendo, descendo... Por fim não segue mais isolado.
Aliam-se-lhe na estrada dolorosa outros sócios de infortúnio;
outros aleijões apavorantes sôbre as mesmas jangadas
diminuta entregues ao acaso das correntes, surgindo de todos os
lados, vários no aspecto e nos gestos: ora muito rijos, amarrados
aos postes que os sustentam; ora em desengonços, desequilibrando-se
aos menores balanços, atrapalhadamente, como ébrios;
ou fatídicos, braços alçados, ameaçadores,
amaldiçoando; outros humílimos, acurvados num acabrunhamento
profundo; e por vêzes, mais deploráveis, os que se
divisam à ponta de uma corda amarrada no extremo do mastro
esguio e recurvo, a balouçarem, enforcados...
Passam todos aos pares, ou em filas, descendo, descendo vagarosamente...
Às vêzes o rio alarga-se num imenso círculo;
remansa-se; a sua corrente torce-se e vai em giros muito lentos
perlongando as margens, traçando a espiral amplíssima
de um redemoinho imperceptível e traiçoeiro. Os fantasmas
vagabundos penetram nestes amplos recintos de águas mortas,
rebalsadas; e estacam por momentos. Ajuntam-se. Rodeiam-se em lentas
e silenciosas revistas. Misturam-se. Cruzam então pela primera
vez os olhares imóveis e falsos de seus olhos fingidos; e
baralham-se-lhes numa agitação revôlta os gestos
paralisados e as estaturas rígidas. Há a ilusão
de um estupendo tumulto sem ruídos e de um estranho conciliábulo,
agitadíssimo, travando-se em segredos, num abafamento de
vozes inaudíveis.
Depois, a pouco e pouco, debandam. Afastam-se; dispersam-se. E acompanhando
a correnteza, que se retifica na última espira dos remansos
- lá se vão, em filas, um a um, vagarosamente, processionalmente,
rio abaixo, descendo...
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