A MÃO E A LUVA
Machado de Assis
CAPÍTULO I
O fim da carta
- Mas que pretendes
fazer agora?
- Morrer.
- Morrer? Que idéia! Deixa-te disso, Estêvão. Não
se morre por tão pouco...
- Morre-se. Quem não padece estas dores não as pode avaliar.
O golpe foi profundo, e o meu coração é pusilânime;
por mais aborrecível que pareça a idéia da morte,
pior, muito pior do que ela, é a de viver. Ah! tu não sabes
o que isto é?
- Sei: um namoro gorado...
- Luís!
- ... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já
diminuído muito o gênero humano, e Malthus perderia o latim.
Anda, sobe.
Estêvão meteu a mão nos cabelos com um gesto de angústia;
Luís Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os dois
no corredor da casa de Luís Alves, à rua da Constituição,
- que então se chamava dos Ciganos; - então, isto é,
em 1853, uma bagatela de vinte anos que lá vão, levando
talvez consigo as ilusões do leitor, e deixando-lhe em troca (usurários!)
uma triste, crua e desconsolada experiência.
Eram nove horas da noite; Luís Alves recolhia-se para casa, justamente
na ocasião em que Estêvão o ia procurar; encontraram-se
à porta. Ali mesmo lhe confiou Estêvão tudo o que
havia, e que o leitor saberá daqui a pouco, caso não aborreça
estas histórias de amor, velhas como Adão, e eternas como
o céu. Os dois amigos demoraram-se ainda algum tempo no corredor,
um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar que queria
ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de os
vencer, se a Luís não ocorresse uma transação.
- Pois sim, disse ele, convenho em que deves morrer, mas há de
ser amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a noite comigo. Nestas
últimas horas que tens de viver na Terra dar-me-ás uma lição
de amor, que eu te pagarei com outra de filosofia.
Dizendo isto, Luís Alves travou do braço de Estêvão,
que não resistiu dessa vez, ou porque a idéia da morte não
se lhe houvesse entranhado deveras no cérebro, ou porque cedesse
ao doloroso gosto de falar da mulher amada, ou, o que é mais provável,
por esses dois motivos juntos. Vamos nós com eles, escada acima,
até a sala de visitas, onde Luís foi beijar a mão
de sua mãe.
- Mamãe, disse ele, há de fazer-me o favor de mandar o chá
ao meu quarto; o Estêvão passa a noite comigo.
Estêvão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar
de gracejo, mas que eram fúnebres como um cipreste. Luís
viu-lhe então, à luz das estearinas, alguma vermelhidão
nos olhos, e adivinhou, - não era difícil, - que houvesse
chorado. Pobre rapaz! suspirou ele mentalmente. Dali foram os dois para
o quarto, que era uma vasta sala, com três camas, cadeiras de todos
os feitios, duas estantes com livros e uma secretária, - vindo
a ser ao mesmo tempo, alcova e gabinete de estudo.
O chá subiu daí a pouco. Estêvão, a muito rogo
do hóspede, bebeu dois goles; acendeu um cigarro e entrou a passear
ao longo do aposento, enquanto Luís Alves, preferindo um charuto
e um sofá, acendeu o primeiro e estirou-se no segundo, cruzando
beatificamente as mãos sobre o ventre e contemplando o bico das
chinelas, com aquela placidez de um homem a quem se não gorou nenhum
namoro. O silêncio não era completo; ouvia-se o rodar de
carros que passavam fora; no aposento, porém, o único rumor
era dos botins de Estêvão na palhinha do chão.
Cursavam estes dois moços a academia de S. Paulo, estando Luís
Alves no quarto ano e Estêvão no terceiro. Conheceram-se
na academia, e ficaram amigos íntimos, tanto quanto podiam sê-lo
dois espíritos diferentes, ou talvez por isso mesmo que o eram.
Estêvão, dotado de extrema sensibilidade, e não menor
fraqueza de ânimo, afetuoso e bom, não daquela bondade varonil,
que é apanágio de uma alma forte, mas dessa outra bondade
mole e de cera, que vai à mercê de todas as circunstâncias,
tinha, além de tudo isso, o infortúnio de trazer ainda sobre
o nariz os óculos cor-de-rosa de suas virginais ilusões.
Luís Alves via bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz,
mas tinha o seu grão de egoísmo, e se não era incapaz
de afeições, sabia regê-las, moderá-las, e
sobretudo guiá-las ao seu próprio interesse. Entre estes
dois homens travara-se amizade íntima, nascida para um na simpatia,
para outro no costume. Eram eles os naturais confidentes um do outro,
com a diferença que Luís Alves dava menos do que recebia,
e, ainda assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.
Estêvão referira ao amigo, desde tempos, toda a história
do amor, agora malogrado, suas esperanças, desalentos e glórias,
e, enfim, o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capítulo
mais delicioso do romance - no sentir dele - caiu de toda a altura das
ilusões na mais dura, prosaica e miserável realidade.
A namorada de Estêvão, - é tempo de dizer alguma coisa
dela, -era uma moça de 17 anos, e, por ora, simples aluna-professora
no colégio de uma tia do nosso estudante, à rua dos Inválidos.
Estêvão tinha-a visto, pela primeira vez, seis meses antes,
e desde logo sentiu-se preso por ela, "até à morte",
disse ele ao amigo, referindo-lhe o encontro, o que o fez sorrir de tão
estirado prazo. Qualquer que ele fosse, porém, o prazo fatal daquele
cativeiro, a verdade é que Estêvão no mesmo ponto
em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na vida - amor
um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ela? Estêvão
dizia que sim, e devia crê-lo; alguns olhares ternos, meia dúzia
de apertos de mão significativos, embora a largos intervalos, davam
a entender que o coração de Guiomar - chamava-se Guiomar
- não era surdo à paixão do acadêmico. Mas,
fora disso, nada mais, ou pouco mais.
O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original
frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão
pedida.
- Faz-me um favor? disse um dia Estêvão apontando para a
flor que ela trazia nos cabelos; esta flor está murcha, e, naturalmente,
vai deitá-la fora ao despentear-se; eu desejava que ma desse.
Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabelo, e deu-lha; Estêvão
recebeu-a com igual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o seu
quinhão do céu. Além da flor, e para suprir as cartas,
que não havia, nada mais obtivera Estêvão durante
aqueles seis compridos meses, a não serem os tais olhares, que
afinal são olhares, e vão-se com os olhos donde vieram.
Era aquilo amor, capricho, passatempo ou que outra coisa era?
Naquela tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro
e difícil, disse-lhe ele que em breve ia voltar para S. Paulo,
levando consigo a imagem dela, e pedindo-lhe em câmbio, que uma
vez ao menos lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nele o seu
magnífico par de olhos castanhos, com tanta irritação
e dignidade, que o pobre rapaz ficou atônito e perplexo. Imagina-se
a angústia dele diante do silêncio que reinou entre ambos
por alguns segundos; o que se não imagina é a dor que o
prostrou, - a dor e o espanto, - quando ela, erguendo-se da cadeira em
que estava, lhe respondeu, saindo:
- Esqueça-se disso.
- Pois quanto a mim, - disse Luís Alves ouvindo pela terceira vez
a esquecia-me disso e ia curar-me em cima dos compêndios; Direito
Romano e Filosofia, não conheço remédio melhor para
tais achaques.
Estêvão não ouvia as palavras do amigo; estava então
assentado na cama, com os cotovelos fincados nas pernas, e a cabeça
metida nas mãos, parecendo que chorava. A princípio chorou
em silêncio; mas não tardou que Luís Alves o visse
deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente, a soluçar, a abafar
quanto podia os gritos que lhe saíam do peito, a puxar os cabelos,
a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de Guiomar, tão d'alma
tudo aquilo, tão lastimosamente natural, que enfim o comoveu, e
não houve remédio senão dizer-lhe algumas palavras
de conforto. A consolação veio a tempo; a dor, chegada ao
paroxismo, declinou pouco apouco, e as lágrimas estancaram, ao
menos por algum tempo.
- Sei que tudo isto há de parecer-te ridículo, disse Estêvão
sentando-se na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuasão de
que era amado, e era-o talvez. Por isso mesmo não entendo o que
se passou hoje. Ou o que eu supunha ser amor, não passava talvez
de passatempo ou zombaria...
- Talvez, talvez, interrompeu Luís Alves, compreendendo que o melhor
meio de o curar do amor era meter-lhe em brios o amor-próprio.
Estêvão ficou alguns instantes pensativo.
- Não, não é possível, contestou ele. Tu não
a conheces. É uma grave e nobre criatura, incapaz de conceber um
sentimento desses, que seria vulgar ou cruel.
- As mulheres...
- Já pensei se aquilo de hoje não seria uma maneira de experimentar-me,
de ver até que ponto eu lhe queria... Escusas de rir-te, Luís;
eu nada afirmo; digo que pode ser. Não admira que ela fizesse esse
cálculo, - um bom cálculo, nesse caso, todo filho do coração...
A imaginação de Estêvão desceu por este declívio
de floridas conjecturas, e Luís Alves entendeu que era de bom aviso
não espantar-lhe os cavalos. Ela foi, foi, foi por ali abaixo,
rédea frouxa e riso nos lábios. Boa viagem! exclamou mentalmente
o colega voltando a estirar-se no sofá. A viagem não foi
longa, mas produziu efeito salutar no ânimo do namorado, adoçando-lhe
as penas, circunstância que Luís Alves aproveitou para lhe
falar de cem coisas alheias ao coração e diverti-lo do pensamento
que o absorvia. Conseguiu o seu intento durante meia hora, e conseguiu
mais, porque fez com que o colega risse, a princípio de um riso
amargo e dúbio, depois de um riso jovial e franco, incompatível
com intuitos trágicos. Mas, ai triste! a dor dele era uma espécie
de tosse moral, que aplacava e reaparecia, intensa às vezes, às
vezes mais fraca, mas sempre infalível. O rapaz acertara de abrir
uma página de Werther; leu meia dúzia de linhas, e o acesso
voltou mais forte que nunca.
Luís Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação;
o acesso passou; nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se
foram escoando as horas da noite, que o relógio da sala de jantar
batia seca e regularmente, como a lembrar aos dois amigos que as nossas
paixões não aceleram nem moderam o passo do tempo.
A aurora para os dois acadêmicos coincidiu com as badaladas do meio-dia,
o que não admira, pois só adormeceram quando ela começava
a apagar as estrelas. Estêvão passou a noite, - a manhã,
quero dizer, - muito sossegada e livre de sonhos maus. Quando abriu os
olhos estranhou o aposento e os objetos que o rodeavam. Logo que os reconheceu,
despertou-se-lhe, com a memória, o coração, onde
já não havia aquela dor aguda da véspera. Os sucessos,
embora recentes, começavam a envolver-se na sombra crepuscular
do passado.
A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não
só do que ama, mas também (força é dizê-lo)
do que come. Sirva isto de escusa ao nosso estudante, que almoçou
nesse dia, como nos anteriores, bastando dizer em seu abono que, se o
não fez com lágrimas, também o não fez alegre.
Mas o certo é que a tempestade serenara; o que havia era uma ressaca,
ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luís Alves evitou
falar-lhe de Guiomar; Estêvão foi o primeiro a recordar-se
dela.
- Dá tempo ao tempo, respondeu Luís Alves, e ainda te hás
de rir dos teus planos de ontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres
escapado tão depressa. E queres um conselho?
- Dize.
- O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino,
corte dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando
se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Tu que chegaste
ao fim, põe a epístola no fundo da gaveta, e não
te lembres de ir ver se ela tem um "post-scriptum"...
Estêvão aplaudiu a metáfora com um sorriso de bom
agouro.
Duas vezes viu ele a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo. Da
primeira sentiu-se ainda abalado, porque a ferida não cicatrizara
de todo; da segunda, pôde encará-la sem perturbação.
Era melhor, - mais romântico pelo menos, que eu o pusesse a caminho
da academia, com o desespero no coração, lavado em lágrimas,
ou a bebê-las em silêncio, como lhe pedia a sua dignidade
de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? Ele foi daqui com os olhos enxutos,
distraindo-se dos tédios da viagem com alguma pilhéria de
rapaz, - rapaz outra vez, como dantes.
CAPÍTULO II
Um roupão
Um mês depois de chegar Estêvão a S. Paulo, achava-se
a sua paixão definitivamente morta e enterrada, cantando ele mesmo
um responso, a vozes alternadas, com duas ou três moças da
capital, - todas elas, por passatempo. Claro é que dois anos depois,
quando tomou o grau de bacharel, nenhuma idéia lhe restava do namoro
da rua dos Inválidos. Demais, a bela Guiomar desde muito tempo
deixara o colégio e fora morar com a madrinha. Já ele a
não vira da primeira vez que veio à Corte. Agora voltava
graduado em ciências jurídicas e sociais, como fica dito,
mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.
A Corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os
que transpuseram a linha dos cinqüenta divertia-se mais do que hoje,
eterno reparo dos que já não dão à vida toda
a flor dos seus primeiros anos. Para os varões maduros, nunca a
mocidade folga como no tempo deles, o que é natural dizer, porque
cada homem vê as coisas com os olhos da sua idade. Os recreios da
juventude não são decerto igualmente nobres, nem igualmente
frívolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o merecimento não
é dela, - a pobre juventude, - é sim do tempo que lhe cai
em sorte.
A Corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cólera -;
bailava-se, cantava-se, ia-se ao teatro. O Cassino abria os seus salões,
como os abria o Clube, como os abria o Congresso, todos três fluminenses
no nome e na alma. Eram os tempos homéricos do teatro lírico,
a quadra memorável daquelas lutas e rivalidades renovadas em cada
semestre, talvez por um excesso de ardor e entusiasmo, que o tempo diminuiu,
ou transferiu, - Deus lhe perdoe, - a coisas de menor tomo. Quem se não
lembra, - ou quem não ouviu falar das batalhas feridas naquela
clássica platéia do Campo da Aclamação, entre
a legião casalônica e a falange chartônica, mas sobretudo
entre esta e o regimento lagruísta? Eram batalhas campais, com
tropas frescas, - e maduras também, - apercebidas de flores, de
versos, de coroas, e até de estalinhos. Uma noite a ação
travou-se entre o campo lagruísta e o campo chartonista, com tal
violência, que parecia uma página da Ilíada. Desta
vez, a Vênus da situação saiu ferida do combate; um
estalo rebentara no rosto da Charton. O furor, o delírio, a confusão
foram indescritíveis; o aplauso e a pateada deram-se as mãos,
- e os pés. A peleja passou aos jornais. "Vergonha terna (dizia
um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!" - "Se
for mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarcos que no saguão
do teatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua." - "Patuléia
desenfreada!" - "Fidalguice balofa!
Os que escaparam daquelas guerras de alecrim e manjerona hão de
sentir hoje, após dezoito anos, que despenderam excessivo entusiasmo
em coisas que pediam repouso de espírito e lição
de gosto.
Estêvão é uma das relíquias daquela Tróia,
e foi um dos mais fervorosos lagruístas, antes e depois do grau.
A causa principal das suas preferências, era decerto o talento da
cantora; mas a que ele costumava dar, nas horas de bom humor, que eram
todas as vinte e quatro do dia, tirantes as do sono, essa causa que mais
que tudo o ligava aos "arraiais do bom gosto" dizia ele era,
- imaginem lá - era o buço de Mlle. Lagrua. Talvez não
fosse ele o único amador do buço; mas outro mais férvido
duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista maquiavélico,
aliás escritor elegante, elevava o tal buço à categoria
de bigode, compreendendo sagazmente que, se o buço era graça,
o bigode era excrescência; e ele nem ao lábio da Lagrua queria
perdoar.
- Oh! aquele buço! exclamava Estêvão nos intervalos
de uma ópera, aquele delicioso buço há de ser a perdição
da gente de bem! Quem me dera ir encaracolado por ali acima, até
ficar mais próximo do céu, quero dizer dos seus olhos, e
ser visto por ela, que me não descobre na turba inumerável
dos seus adoradores! Querem saber uma coisa? Ali é que ela há
de ter a alma, e eu quisera entreter-me com a alma dela, e dizer-lhe muita
coisinha que tenho cá dentro à espera de um buço
que as queira ouvir.
Estêvão era mais ou menos o mesmo homem de dois anos antes.
Vinha cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor,
aliando em si, como em idade de transição, o estouvamento
de um com a dignidade do outro. As mesmas quimeras tinha, e a mesma simpleza
de coração; só não as mostrara nos versos
que imprimiu em jornais acadêmicos, os quais eram todos repassados
do mais puro byronismo, moda muito do tempo. Neles confessava o rapaz
à cidade e ao mundo a profunda incredulidade do seu espírito,
e o seu fastio puramente literário. A colação de
grau interrompeu, ou talvez acabou, aquela vocação poética;
o último suspiro desse gênero que lhe saiu do peito foram
umas sextilhas à sua juventude perdida. Felizmente, que só
a perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.
Posto fizesse boa figura na Academia, mais prezava do que amava a ciência
do Direito. Suas preferências intelectuais dividiam-se, ou antes
abrangiam a Política e a Literatura, e ainda assim, a Política
só lhe acenava com o que podia haver literário nela. Tinha
leitura de uma e outra coisa, mas leitura veloz e à flor das páginas.
Estêvão não compreenderia nunca este axioma de lorde
Macaulay - que mais aproveita digerir uma lauda que devorar um volume.
Não digeria nada; e daí vinha o seu nenhum apego às
ciências que estudara. Venceu a repugnância por amor-próprio;
mas, uma vez dobrado o Cabo das Tormentas disciplinares, deixou a outros
o cuidado de aproar à Índia.
Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer
em gérmen, não só porque lhe minguava o apoio necessário
para as arvorecer e frutificar, mas ainda porque ele não tinha
em si a força indispensável a todo o homem que põe
a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspirações vagas,
intermitentes, vaporosas, umas visões legislativas e ministeriais,
que tão depressa lhe namoravam a imaginação, como
logo se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses,
sim, amava-os ele deveras. Opiniões não as tinha; alguns
escritos que publicara durante a quadra acadêmica eram um complexo
de doutrinas de toda casta, que lhe flutuavam no espírito, sem
se fixarem nunca, indo e vindo, alçando-se ou descendo, conforme
a recente leitura ou a atual disposição de espírito.
Por agora militava nas fileiras do lagruísmo, com ardor, dedicação
e fidelidade de bom apóstolo. Não era abastado para pagar
o luxo de uma opinião lírica; nascera pobre e não
tinha parente em boa posição. Alguns poucos recursos possuía,
provenientes do seu ofício de advogado, que exercia com o amigo
Luís Alves.
Uma noite assistira à representação de 0telo, palmeando
até romper as luvas, aclamando até cansar-lhe a voz, mas
acabando a noite satisfeito dos seus e de si. Terminado o espetáculo,
foi ele, segundo costumava, assistir à saída das senhoras,
uma procissão de rendas, e sedas, e leques, e véus, e diamantes,
e olhos de todas as cores e linguagens. Estêvão era pontual
nessas ocasiões de espera, e raro deixava de ser o último
que saía. Tinha agora os olhos pregados em outros olhos, não
pardos como os dele, mas azuis, de um azul-ferrete, infelizmente uns olhos
casados, quando sentiu alguém bater-lhe no ombro, e dizer-lhe baixinho
estas palavras:
- Larga o pinto, que é das almas.
Estêvão voltou-se.
- Ah! és tu! disse ele vendo Luís Alves. Quando chegaste?
- Hoje mesmo, respondeu o colega; venho sequioso de música.
Vassouras não tem Lagrua nem Otelo...
- Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estêvão
que, ainda falando em prosa, cultivava as suas metáforas poéticas.
Fizeste bem; não te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgóia,
que aqui nos querem impingir por grande coisa, e que não chega
aos calcanhares do buço...
Interrompeu-se. Luís Alves acabava de cumprimentar cerimoniosamente
alguém que passava; Estêvão volveu a cabeça
para ver quem era. Era uma moça, que ele não chegou a ver,
porque já descia as escadas; mas tão elegante e gentil que
os olhos lhe fuzilaram de admiração.
- Algum namoro? perguntou ao amigo.
- Não; uma vizinha.
A desfilada acabou; saíram os dois e foram dali cear a um hotel,
seguindo depois para Botafogo, onde morava Luís Alves, desde que
perdera a mãe, alguns meses antes.
A casa de Luís Alves ficava quase no fim da Praia de Botafogo,
tendo ao lado direito outra casa, muito maior e de aparência rica.
A noite estava bela, como as mais belas noites daquele arrabalde. Havia
luar, céu límpido, infinidade de estrelas e a vaga a bater
molemente na praia, todo o material, em suma, de uma boa composição
poética, em vinte estrofes pelo menos, obrigada a rima rica, com
alguns esdrúxulos rebuscados nos dicionários. Estêvão
poetou, mas poetou em prosa, com um entusiasmo legítimo e sincero.
Luís Alves, menos propenso às coisas belas, preferia a mais
útil de todas naquela ocasião, que era ir dormir. Não
o conseguiu sem ouvir ao hóspede tudo quanto ele pensava acerca
daquele "pinto, que era das almas", aqueles olhos azuis, "profundos
como o céu", exclamava Estêvão.
Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os tais olhos o perseguissem,
ainda em sonhos, ou porque estranhasse a cama, ou porque o destino assim
o resolvera, a verdade é que Estêvão dormiu pouco,
e, coisa rara, acordou logo depois de aparecer a arraiada.
A manhã estava fresca e serena; era tudo silêncio, mal quebrado
pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chácaras
da vizinhança. Estêvão, amuado por não poder
conciliar o sono, resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto.
Ergueu-se de manso, lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café
ao jardim, para onde foi sobraçando um livro que acaso topou ao
pé da cama.
O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chácara vizinha
por uma cerca. Relanceando os olhos pela chácara, viu Estêvão
que era plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas
ruas curvas e duas grandes ruas retas. Uma destas começava das
escadas de pedra da casa e ia até o fim da chácara; a outra
ia da cerca de Luís Alves até à extremidade oposta,
cortando a primeira no centro. Do lugar em que ficava Estêvão
só a segunda rua podia ser vista de ponta a ponta.
Sentou-se o bacharel em um banco que ali achou, recebeu a xícara
de café, que o escravo lhe trouxe daí a pouco, acendeu um
charuto e abriu o livro. O livro era uma Prática Forense. Demos-lhe
razão ao despeito como que o fechou e atirou ao chão, contentando-se
com o canto dos pássaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação
também, que valia as flores e os pássaros.
Deus sabe até onde iria ela, com as asas fáceis que tinha,
se um incidente lhas não colhera e fizera descer à terra.
Da casa vizinha saíra um roupão, - ele não viu mais
que um roupão, - e seguira pela rua que enfrentava com a casa,
a passo lento e meditativo. Estêvão, que adorava todos os
roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças
à Providência, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou
os olhos para contemplar aquela graciosa madrugadora. Graciosa, ainda
ele não sabia se o era; mas assentou que devia de ser, justamente
porque desejava que o fosse.
A deliciosa paisagem ia ter enfim uma alma; o elemento humano vinha coroar
a natureza.
Ergueu-se Estêvão, de toda a sua estatura elevada e gentil,
para ver melhor, - e ser visto, digamos a verdade toda, - aquela desconhecida
vizinha, que devia ser por força a que Luís Alves cumprimentara
no teatro. Acteon cristão e modesto, não surpreendia Diana
no banho, mas ao sair dele; todavia, não palpitava menos de comoção
e curiosidade.
O roupão ia andando.
CAPÍTULO III
Ao pé da cerca
A primeira coisa que Estêvão pôde descobrir é
que a vizinha era moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam
as árvores, um perfil correto e puro, como de escultura antiga.
Via-lhe a face cor de leite, sobre a qual se destacava a cor escura dos
cabelos, não penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da
cabeça, com aquele desleixo matinal que faz mais belas as mulheres
belas. O roupão, - de musselina branca, - finamente bordado, não
deixava ver toda a graça do talhe, que devia ser e era elegante,
dessa elegância que nasce com a criatura ou se apura com a educação,
sem nada pedir, ou pedindo pouco à tesoura da costureira. Todo
o colo ia coberto até o pescoço, onde o roupão era
preso por um pequeno broche de safira. Um botão, do mesmo mineral,
fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que rematavam em folhos
de renda.
Estêvão, da distância e na posição em
que se achava, não podia ver todas estas minúcias que aqui
lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de histórias.
O que ele viu, além do perfil, dos cabelos, e da tez branca, foi
a estatura da moça, que era alta, talvez um pouco menos do que
parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde ver-lhe
também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava
os olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era
mister voltar a folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na
leitura.
Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguém, tão serena
e grave, como se atravessara um salão. Estêvão, que
não tirava os olhos dela, mentalmente pedia ao céu a fortuna
de a ter mais próxima, e ansiava por vê-la chegar à
rua que lhe ficava diante. Contudo, era difícil que lhe parecesse
mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar por entre as
árvores. O jovem bacharel, por não perder o sestro dos primeiros
tempos, avocava todas as suas reminiscências literárias;
a desconhecida foi sucessivamente comparada a um serafim de Klopstock,
a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memória dele havia
mais aéreo, transparente, ideal.
Enquanto ele trabalhava o espírito nestas comparações
poéticas, não descabidas, se quiserem, em tal lugar, e ao
pé de tão graciosa criatura, ela seguia lentamente e chegara
à encruzilhada das duas grandes ruas da chácara. Estêvão
esperava que voltasse à direita, isto é, que viesse para
o lado dele, mas sobretudo receava que seguisse pela mesma rua adiante
e se perdesse no fundo da chácara. A moça escolheu um meio-termo,
voltou à esquerda, dando as costas ao seu curioso admirador e continuando
no mesmo passo vagaroso e regular.
A chácara não era em demasia grande; e por mais lento que
fosse o passo da madrugadora, não gastaria ela imenso tempo em
percorrer até o fim aquela porção da rua em que entrara.
Mas ali, ao pé daquele coração juvenil e impaciente,
cada minuto parecia, não direi um século, - seria abusar
dos direitos do estilo, - mas uma hora, uma hora lhe parecia, com certeza.
A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou
a mão nas costas de um banco rústico que ali havia e enfrentava
com outro, colocado na extremidade oposta. A outra mão descaíra-lhe,
e os olhos também, o que magoou o seu curioso observador. Seriam
saudades de alguém? Estêvão sentiu uma coisa, a que
chamarei ciúme antecipado, mas que na realidade eram invejas da
alheia fortuna. A inveja é um sentimento mau; mas nele, que nascera
para amar, e que, além disso, tinha em si o contraste do nascimento
com o instinto, um berço obscuro e umas aspirações
à vida elegante, - nele a inveja era quase um sentimento desculpável.
A moça voltou e veio pela rua adiante. Enfim, disse consigo Estêvão,
vou contemplá-la de mais perto. Ao mesmo tempo, receoso de que,
descobrindo ali um estranho, guiasse os passos para casa, Estêvão
afastou-se do lugar em que ficara, resoluto a aparecer, quando ela estivesse
próxima à cerca do jardim. A moça vinha andando com
o livro fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camaxilras
que esvoaçavam na chácara. Se trazia saudades, não
se lhe podiam ler no rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a
menor sombra de pena ou de tristeza.
Estêvão do lugar onde estava podia examinar-lhe as feições,
sem ser visto por ela; mas foi justamente do que não cuidou, desde
que lhas pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aqueles
grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas pestanas,
não maviosos nem quebrados, como ele os cuidara ver, mas de uma
beleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como eles comunicavam
a todo o rosto e a toda afigura um ar de majestade tranqüila e senhora
de si. Não era ela uma dessas belezas que, ao mesmo tempo que subjugam
o coração, acendem os sentidos; falava à inteligência
primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver colaborado
com a natureza naquela criatura, meia estátua e meia mulher.
Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém,
é que a nenhuma destas coisas atendeu. Desde que distinguira as
feições da moça, ficou como tomado de assombro, com
os olhos parados, a boca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo
para o coração.
A moça chegara à cerca; esteve de pé algum tempo,
olhou em derredor e por fim sentou-se no banco que ali havia, dando as
costas para o jardim de Luís Alves. Abriu novamente o livro, e
continuou a leitura do ponto em que a deixara tão só consigo,
tão embebida no livro que tinha diante, que não a despertou
o rumor, aliás sumido, dos passos de Estêvão nas folhas
secas do chão. Teria percorrido meia página, quando Estêvão,
reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para que só
chegasse aos ouvidos dela, proferiu este simples nome:
- Guiomar!
A moça soltou um grito de surpresa e de susto, e voltou-se sobressaltada
para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantara-se. A impressão
que lhe produzira, e não sei se também algum ar de cólera
que lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não
haver sufocado aquele grito de seu coração, fez com que
Estêvão, quase no mesmo instante, murmurasse em tom de súplica:
- Perdoe-me; foi uma centelha do passado que estava debaixo da cinza:
apagou-se de todo.
Guiomar, - sabemos agora que era este o seu nome, - olhou séria
e quieta para o seu mal-aventurado interruptor, dois longos e mortais
minutos. Estêvão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra;
o coração palpitava-lhe com força, como a despedir-se
da vida. A situação era em demasia aflitiva e embaraçosa
para que se pudesse prolongar mais. Estêvão ia cortejá-la
e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais piedade que afeto,
murmurou:
- Está perdoado.
Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que ele apertou, -
apertou não é bem dito, - em que ele tocou apenas, o mais
cerimoniosamente que podia e devia naquela situação.
E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer nada,
nem a sair dali, a verem ambos o espectro do passado, aquele tão
amargo passado para um deles. Guiomar foi a primeira que rompeu o silêncio,
fazendo a Estêvão uma pergunta natural, como não podia
deixar de ser naquelas circunstâncias mas ainda assim, ou por isso
mesmo, a mais acerba que ele podia ouvir:
- Há dois anos que não nos vemos, creio eu?
- Há dois anos, murmurou Estêvão abafando um suspiro.
- Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu
nome...
- Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tia...
- Não a vejo há muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí
do colégio, logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí
a convite da baronesa, minha madrinha, que lá foi buscar-me um
dia, alegando que eu já não tinha que aprender, e que me
não convinha ensinar.
* Decerto, assentiu Estêvão. - Minha tia é que não
deixou nem podia deixar de ensinar; acabou no ofício.
- Acabou?
- Morreu.
- Ah!
- Morreu há cerca de um ano.
* Era uma boa criatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes
de silêncio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que aprendi...
Está admirando esta flor?
Estêvão, apanhado em flagrante delito de admiração,
não da flor mas da mão que a sustinha, - uma deliciosa mão,
que devia ser por força a que se perdeu da Vênus de Milo,
Estêvão balbuciou:
- Com efeito, é linda!
- Há muita flor bonita aqui na chácara. A baronesa tem imenso
gosto a estas coisas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do
seu ofício.
Aquele natural acanhamento da primeira ocasião foi desaparecendo
aos poucos, e a conversa veio a ser, não tão familiar, como
outrora, mas em todo o caso menos fria do que a princípio estivera.
Havia, contudo, uma diferença entre os dois: ele, sem embargo do
desembaraço, sentia-se abalado e comovido; ela, porém, vencido
o sobressalto do princípio, mostrava-se tranqüila e fria,
sempre polida e grave, risonha às vezes, mas de um risonho à
flor do rosto, que não lhe alterava a serenidade e compostura.
O sítio e a hora eram mais próprios de um idílio,
que de uma fria e descolorida prática. Um céu claro e límpido,
um ar puro, o sol a coar por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tépida,
a vegetação em derredor, todo aquele reviver das coisas
parecia estar pedindo uma igual aurora nas almas. Estas é que deviam
falar ali a sua língua delas, amorosa e cândida, em vez da
outra, cortês, elegante e rígida, que a nenhum deles desprazia,
decerto, mas que era muito menos voluntária nos lábios de
Estêvão.
Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza,
nem calor.
Estêvão, que a maior parte do tempo ficara a ouvi-la, observava
entre si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturais,
ainda que podiam ser calculadas naquela situação. A Guiomar
que ele conhecera e amara era o embrião da Guiomar de hoje, o esboço
do painel agora perfeito; faltava-lhe outrora o colorido, mas já
se lhe viam as linhas do desenho.
A conversa durou cerca de três quartos de hora, uma migalha de tempo
para ele, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ela foi a primeira
a dizer-lho.
- O senhor fez-me perder muito tempo. Há talvez uma hora que estamos
aqui a conversar. Era natural, depois de dois anos. Dois anos! Mas o que
não era natural, continuou ela mudando de tom, era atrever-me a
falar com um estranho neste déshabillé tão pouco
elegante...
- Elegantíssimo, pelo contrário.
- O senhor tem sempre um cumprimento de reserva: vejo que não perdeu
o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baronesa dar o
seu passeio pela chácara.
- Será aquela senhora que ali está no alto da escada? perguntou
Estêvão - É ela mesma, respondeu Guiomar. Está
à espera que lhe vá dar o braço.
E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estêvão,
dizendo:
- Passe bem, senhor doutor, estimei vê-lo.
Estêvão tocou-lhe levemente a mão, fina e macia, e
inclinou-se respeitoso.
A moça caminhou para casa. Ele acompanhou-a com os olhos, admirando
a gentileza com que ela, desta vez a passo acelerado, resvalava por entre
as árvores até subir as escadas da casa. Viu-a dar o braço
à madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo caminho
por onde Guiomar seguira da primeira vez.
Estêvão ainda ficou algum tempo encostado à cerca,
na esperança de que ela olhasse ou dirigisse os passos para aquele
lado; ela porém, passou indiferente, como se nem da existência
dele soubera. Estêvão retirou-se dali cabisbaixo e triste,
batido de contrários sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma
alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o eco vago e surdo
desta interrogação:
- Entro num drama ou saio de uma comédia?
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