A MÃO E A LUVA
Machado de Assis
CAPÍTULO VII
Um rival
Não era a primeira vez que Mrs. Oswald aludia a alguma coisa que
desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a sequidão
que o leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa inglesa ficou séria
e calada alguns dois ou três minutos, a olhar para Guiomar, aparentemente
buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade sem saber como
sair da situação. A moça rompeu o silêncio:
* Está bom, disse ela sorrindo, não vejo razão para
que se zangue comigo.
- Não estou zangada, acudiu prontamente Mrs. Oswald. Zangada por
quê? Pesa-me, decerto, que a natureza me não dê razão,
e que uma aliança tão conveniente, para ambos, seja repelida
pela senhora; mas se isto é motivo de desgosto, não pode
sê-lo de zanga...
- Desgosto?
- Para mim... e naturalmente para ele.
Guiomar respondeu com um simples sacudir de ombros, seco e rápido,
como quem se lhe não dava do mal ou não acreditava nele.
Mrs. Oswald não atinou qual destas impressões seria, e concluiu
que fossem ambas. A moça, entretanto, pareceu arrepender-se daquele
movimento; travou das mãos da inglesa, e com uma voz ainda mais
doce e macia que de costume, lhe disse:
- Veja o que é ser criança! Não parece que ainda
em cima me zango com a senhora?
- Parece.
- Pois não é exato. Isto são caprichos de menina
mal-educada. Dei para não gostar que me adorem... Minto; disso
gosto eu; mas quisera que me adorassem somente, não lhe parece?
E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns gestos
de criança travessa, que destoavam inteiramente da sua gravidade
habitual.
- Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estêvão,
silenciosa e resignada, uma adoração...
E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escritura na
ponta dos dedos, continuou por este modo, acentuando as palavras:
- Uma adoração como a que devia inspirar José, filho
de Jacó, que era belo como a senhora: "por ele as moças
andavam por cima da cerca"...
- Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se séria.
- Do muro, diz a Escritura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei
por quê. Não core! Olhe que se denuncia.
Guiomar corara deveras; mas era a altivez e o pundonor ofendido que lhe
falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a inglesa, com um desses
olhares, que são, por assim dizer, um gesto da alma indignada.
O que a irritava não era a alusão, que não valia
muito, era a pessoa que a fazia, - inferior e mercenária. Mrs.
Oswald percebeu isto mesmo; mordeu a ponta do lábio, mas transigiu
com a moça.
- Meu Deus! disse ela. Parece que se zangou por uma brincadeira à-toa.
Bem sabe que eu não podia querer agravá-la; supô-lo
é ofender-me a mim, - a mim, que também lhe tenho afeto
de mãe...
A última palavra aquietou o ânimo de Guiomar; ela tinha cedido
ao impulso do seu caráter altivo, mas a razão veio depois,
e o coração também, que não era mau. A inglesa,
que possuía longa prática da vida e sabia ceder a tempo,
uniu o gesto à palavra e chamou-a com os braços para si.
Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa teria
acabado ali, se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz
que daquela garganta podia sair:
- Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por afeição,
e que a felicidade desta família é toda a ambição
da minha alma. Não pode haver intenção melhor do
que esta. Um conselho último, - último se me não
consentir mais falar-lhe nisto; - eu creio que a senhora sonha talvez
demais. Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis?
Digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com
a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem
pelo menos a vantagem de existir.
Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão
vaga e morta de quem os apagou para as coisas externas. As palavras de
Mrs.Oswald responder-lhe-iam acaso a alguma voz íntima? A inglesa
prosseguiu na mesma ordem de idéias, sem que ela a interrompesse
ou desse sinal de si. Quando ela acabou, Guiomar estremeceu, como se acordasse;
levantou a cabeça, e lenta, e comovida, proferiu esta única
resposta:
- Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos
são tão bons!
Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os
olhos, a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo
que mal a ouvia o seu próprio coração:
- Sonhos, não, realidade pura.
Suponho que o leitor estará curioso de saber quem era o feliz ou
infeliz mortal, de quem as duas trataram no diálogo que precede,
se é que já não suspeitou que esse era nem mais nem
menos o sobrinho da baronesa, - aquele moço que apenas de passagem
lhe apontei nas escadas do Ginásio.
Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis anos. Jorge chamava-se ele;
não era feio mas a arte estragava um pouco a obra da natureza.
O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta máxima não
é só aplicável à poesia, mas também
ao homem. Jorge tinha um lindo bigode castanho, untado e retesado com
excessivo esmero. Os olhos, claros e vivos, seriam mais belos, se ele
não os movesse com afetação, às vezes feminina.
O mesmo direi dos modos, que seriam fáceis e naturais, se os não
tornasse tão alinhados e medidos. As palavras saíam-lhe
lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munificência do autor.
Não as proferia como as demais pessoas; cada sílaba era
por assim dizer espremida, sendo fácil ver ao cabo de alguns minutos,
que ele fazia consistir toda a beleza de elocução nesse
alongar do vocábulo. As idéias orçavam pelo modo
de as exprimir; eram chochas por dentro, mas traziam uma côdea de
gravidade pesadona, que dava vontade de ir espairecer o ouvido em coisas
leves e folgazãs.
Tais eram os defeitos aparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o maior
era um pecado mortal, o sétimo. O nome que lhe deixara o pai, e
a influência da tia podiam servir-lhe nas mãos para fazer
carreira em alguma coisa pública; ele, porém, preferia vegetar
à toa, vivendo do pecúlio que dos pais herdara e das esperanças
que tinha na afeição da baronesa. Não se lhe conhecia
outra ocupação.
Não obstante os defeitos apontados, havia nele qualidades boas;
sabia dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor
à velha parenta. A baronesa, pela sua parte, queria-lhe muito.
Guiomar e ele eram as suas duas afeições principais, quase
exclusivas.
Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da baronesa,
e não menos de si própria. A baronesa também tinha
os seus sonhos, como ela mesma disse, e esses eram deixar felizes aquelas
duas crianças. Jorge pela sua parte estava disposto a estender
o colo ao sacrifício; e, bem examinadas as coisas, talvez amasse
sinceramente a moça. A diferença entre ele e Estêvão
é que o seu amor era tão medido como os seus gestos, e tão
superficial como as suas outras impressões.
Do que aí fica dito, facilmente compreenderá o leitor que,
dos dois namorados, só um percebeu logo o sentimento do outro.
A alma de Estêvão andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira
que ele não podia ver nada mais além de Guiomar.
Ao cabo de duas semanas, a situação de Estêvão
podia dizer-se menos má; na opinião dele era excelente.
A baronesa soube quem ele era; Guiomar contara-lhe tudo; mas a inglesa,
não menos que a observação própria, lhe mostrou
que nenhum perigo corria Guiomar, e excluído o perigo, restavam
as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu em graça.
Mrs. Oswald navegou nas mesmas águas mansas. O próprio Jorge,
naturalmente porque confiava em si, não temeu do rival, e pouco
tardou que lhe abrisse os cancelos da sua gravidade. Que admira, pois,
que a mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez?
Aquele bom rapaz tinha a salutar crendice da esperança, em que
muita vez se resumem todas as bênçãos da vida. Pedia
muito, como alma sequiosa que era, mas bem pouco bastava a contentá-lo.
A imaginação multiplicava os zeros; com um grão de
areia construiria um mundo. A afabilidade de uns e a cortesia de outros,
tanto bastou para que ele se julgasse quase no termo de suas aspirações;
e posto não lhe desse Guiomar uma só das animações
de outro tempo - que aliás tão frágeis eram, ainda
assim acreditou ele piamente que o amor nascia, ou renascia, naquele rebelde
coração.
Guiomar, no meio das afeições que a cercavam, sabia manter-se
superior às esperanças de uns e às suspeitas de outros.
Igualmente cortês, mas igualmente impassível para todos,
movia os olhos com a serenidade da isenção, não namorados,
nem sequer namoradores. Ela teria, se quisesse, a arte de Armida; saberia
refrear ou aguilhoar os corações, conforme eles fossem impacientes
ou tíbios; faltava-lhe porém o gosto - ou melhor, sobrava-lhe
o sentimento do que ela achava que era a sua dignidade pessoal.
CAPÍTULO VIII
Golpe
Um dia de manhã acordou Estêvão com a resolução
feita de dar o golpe decisivo. Os corações frouxos têm
destas energias súbitas, e é próprio da pusilanimidade
iludir-se a si mesma. Ele confessava que nada havia feito, e que a situação
exigia alguma coisa mais.
- "Nunca as circunstâncias foram mais propícias do que
hoje", pensava o rapaz; Guiomar trata-me com afabilidade de bom agouro.
Demais, há nela espírito elevado; há de reconhecer
que um sentimento discreto e respeitoso, como este meu, vale um pouco
mais do que lisonjarias de sala.
A resolução estava assentada; restava o meio de a tornar
efetiva. Estêvão hesitou largo tempo entre dizer de viva
voz o que sentia ou transmiti-lo por via do papel. Qualquer dos modos
tinha para ele mais perigos que vantagens. Ele receava ser frio na declaração
escrita ou incompleto na confusão oral. Irresoluto e vacilante,
ambos os meios adotou e repeliu, a curtos intervalos; enfim, diferiu a
escolha para outra ocasião.
O acaso supriu a resolução, e o premeditado cedeu o passo
ao fortuito.
Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baronesa, foram
passear à chácara. Estêvão que, como Luís
Alves, era dos convivas, afastou-se gradualmente dos outros grupos, e
aproximou-se daquela cerca histórica onde, após dois anos
de ausência e esquecimento, vira, já transformada, a formosa
Guiomar. Era a primeira vez que ele punha os olhos nesse sítio,
depois da conversa, que aí tivera com ela. A comoção
que sentiu foi naturalmente grande; ressurgia-lhe o quadro ante os olhos,
a hora, o céu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim
a figura da moça, que ali apareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe
recordações, que ele julgava mortas, esperanças que
supunha impossíveis.
Estêvão curvou a cabeça ao doce peso daquelas memórias,
a alma bebeu, a largos haustos, a vida toda que a imaginação
lhe criava e talvez a noite o tomasse na mesma atitude, se a voz maviosa
de Guiomar, lhe não dissesse a poucos passos de distância:
- Senhor doutor, perdeu alguma coisa?
O rapaz volveu rapidamente a cabeça, e viu a moça, que atravessava
uma das calhes próximas, a olhar e a sorrir para ele. Estêvão
sorriu também, e com uma presença de espírito assaz
rara em namorados, sobretudo em namorados como ele era, prontamente respondeu:
- Não perdi nada, mas achei uma coisa.
- Vejamos o que foi.
E Guiomar aproximou-se, a passo firme e seguro, e Estêvão,
sem muito vacilar, ali mesmo forjou uma reflexão filosófica
a respeito de um inseto que casualmente passava por cima de uma folha
seca. A reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir
um pouco forçada e de acarreto; a moça sorriu, entretanto,
e ia continuar o seu caminho, quando ele, colhendo as forças todas,
a fez deter com estas palavras:
- E se eu tivesse achado outra coisa?
- Ainda mais! exclamou ela voltando-se risonha.
Estêvão deu dois passos para Guiomar, desta vez comovido
e resoluto. A moça fez-se séria e dispôs-se a ouvi-lo.
- Se eu tivesse achado neste lugar, continuou ele, longos dias de esperança
e de saudade, um passado que eu julgara não reviver mais, uma dor
oculta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de minhas
próprias lágrimas? Se eu tivesse achado aqui a página
rota de uma história começada e interrompida, não
por culpa de ninguém na Terra, mas da estrela sinistra da minha
vida, que um anjo mau acendeu no céu, e que, talvez, talvez ninguém
nunca apagará?
Estêvão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.
Aquela declaração repentina e rosto a rosto estava tão
longe do temperamento do rapaz, que ela gastou alguns segundos longos
primeiro que voltasse a si do assombro. Ele próprio admirava-se
do atrevimento que tivera; e enquanto pendia dos lábios da moça,
repassava na memória, aliás confusamente, o que tão
a frouxo lhe saíra do peito naquela hora de abençoada temeridade.
- Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, é natural
que preferisse achar outra coisa menos melancólica. Entretanto,
parece que nada mais achou do que esta ocasião de falar, com a
viva imaginação que Deus lhe deu; num ou noutro caso, porém,
posso decerto lastimá-lo ou admirá-lo, mas não me
é dado ouvi-lo.
E Guiomar ia de novo afastar-se, quando Estêvão, receando
perder a ocasião que a fortuna lhe oferecia, disse de longe com
voz triste e súplice:
- Atenda-me um só minuto!
- Não um, mas dez - respondeu a moça estacando o passo e
voltando o rosto para ele - e serão provavelmente os últimos
em que falaremos a sós. Cedo à comiseração
que me inspira o seu estado; e pois que rompeu o longo e expressivo silêncio
em que se tem conservado até hoje, concedo-lhe que diga tudo, para
me ouvir uma só palavra.
A moça falara num tom seco e imperioso, em que mais dominava a
impaciência do que a comiseração a que vinha de aludir.
O coração de Estêvão batia-lhe como nunca,
- como o coração costuma bater nas crises de uma angústia
suprema. Todo aquele castelo de vento, laboriosamente construído
nos seus dias de ilusão, todo ele se esboroava e desfazia, como
vento que era. Estêvão arrependera-se do impulso que o levara
a violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos íntimos,
a abrir mão de tantas esperanças, alimentadas com o melhor
do seu sangue juvenil.
Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos pareciam
medir-se, ela serena e quieta, ele trêmulo e gelado.
- Uma só palavra, repetiu Estêvão, e essa adivinho
que será de desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma
coisa, força é que lhe diga tudo - feliz, se me restar,
ao menos, a maior fortuna a que já agora posso aspirar - o seu
remorso.
Guiomar ouvira-o tranqüilamente; a última palavra fê-la
estremecer. Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntário
e esperou.
A narração foi longa, tanto quanto o permitiam a ocasião,
o lugar e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estêvão nada
lhe escondeu, nem o amor que lhe tivera outrora, nem o que agora lhe renascia,
mais violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanças
que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto empreendera para ter a ventura
de a contemplar de perto, de gozar naquele escasso ponto da Terra a maior
de todas as bem-aventuranças.
Tal é a transcrição, não literal, mas fiel,
do que disse Estêvão durante esses
dez minutos. As palavras caíam-lhe trêmulas e a voz saía-lhe
sumida, em parte porque ele forcejava em a abafar, a fim de que o não
ouvissem, em parte porque a comoção lhe comprimia a garganta.
A dor era visivelmente sincera; a eloqüência vinha do coração.
Guiomar não ouvira tudo com a mesma expressão; a princípio
um meio riso parecia desabrochar-lhe os lábios, mas não
tardou que pelo rosto abaixo lhe caísse um véu mais compassivo
e humano. Havia nela impaciência e ansiedade de acabar, de sair
dali; era, sem dúvida, o receio de que a ausência se prolongasse
de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia também comiseração
e piedade.
- Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estêvão
concluindo; sobretudo agora, só eu, só a minha cabeça
é a causa única de tudo. Parecia-me ver o contrário
do que existia; cheguei a supor que havia em seu coração
alguma coisa que não era a total indiferença; vejo que foi
tudo ilusão.
O tom em que ele falara era o mesmo das palavras que aí ficam,
todas humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche.
Uma submissão assim devia por força comover a uma mulher
amada. Guiomar falou-lhe sem azedume:
- Era ilusão, disse ela. O sentimento que me acaba de revelar inteiro,
ninguém o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou nega.
Posso eu ter culpa disso?
- Nenhuma.
- Nem o senhor também, e espero que esta mútua justiça
avigore o sentimento de estima que devemos ter um para com o outro. Mas
estima apenas, não pode haver outra coisa - da minha parte ao menos.
É pouco, decerto...
- Não é pouco, é coisa diferente, interrompeu Estêvão.
- Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção.
Estêvão abriu a boca para falar, mas não achou palavra
que lhe dissesse o
que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente,
e ficou a olhar para ela com os olhos secos e parados, a voz extinta,
como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquele desengano, que
lhe cumpria não voltar ali mais, pelo menos com a assiduidade da
esperança; e assim era que a única e amarga satisfação
de a ver, nem essa já agora se lhe consentia.
- Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de pausa,
seja homem, vença-se a si próprio; seu grande defeito é
ter ficado com a alma criança.
- Talvez, respondeu o moço suspirando.
- E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei
se outra consentiria nisto. Mas eu não só reconheço
os seus sentimentos de respeito, como desejo que estas poucas palavras
trocadas agora ponham termo a aspirações impossíveis.
Guiomar estendeu-lhe a mão, em que ele tocou levemente.
A baronesa apareceu, entretanto, a algumas braças de distância;
vinha encostada ao braço do sobrinho, que lhe falava, mas a quem
ela já não ouvia. Tinha os olhos cravados nos dois interlocutores
de há pouco. A moça, apenas vira de longe a madrinha, deu
afoitamente o braço a Estêvão, e seguiram ambos a
encontrar-se com ela; o rosto de Guiomar não revelava nada; o de
Estêvão vinha perturbado e abatido. A baronesa franziu a
testa:
* Jorge, disse ela em voz baixa, precisamos conversar.
CAPÍTULO IX
Conspiração
A baronesa, quando se lhe aproximaram os dois interlocutores da cerca,
mais receosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e até
gracejadora; mas o abatimento de Estêvão era tão mal
disfarçado, que de duas uma - ou ela acabava de lhe dar o último
desengano - ou aquilo era apenas um arrufo sério, que o moço
não podia ou não queria esconder de olhos estranhos. Isto
é o que a baronesa pensou. O que ela concluiu foi que, em todo
caso, urgia tentar alguma coisa em favor do maior - do único sonho
da sua velhice.
Jorge não percebeu a verdadeira razão por que a tia lhe
dissera ser necessário conversar com ela; imaginou que se trataria
de Guiomar e Estevão, - mas estava longe de supor todo o alcance
da entrevista.
A entrevista não pôde ser logo nesse dia; as visitas ficaram
ali até tarde, e a noite foi a mais agradável e distraída
de todas as noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante.
A serenidade parecia morar-lhe na alma e refletir-se-lhe no rosto - tantas
vezes pensativo, mas agora tão frio e tão nu.
Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade...
Oh! sobretudo de boa vontade, porque é mister havê-la, e
muita, para vir até aqui, e seguir até o fim, uma história,
como esta, em que o autor mais se ocupa de desenhar um ou dois caracteres,
e de expor alguns sentimentos humanos, que de outra qualquer coisa, porque
outra coisa não se animaria a fazer; - não será preciso
declarar ao leitor, dizia eu, que toda aquela jovialidade de Guiomar eram
punhais que se lhe cravavam no peito ao nosso Estêvão. Ele
não podia supô-la abatida; mas penalizada, ao menos, um pouco
respeitosa para com a dor que havia nele, isto, sim, imaginava que seria.
Mas nada disso foi, e o pobre rapaz saiu dali mais cedo do que pensara
e quisera sair.
Na alcova, se ele pudesse vê-la mais tarde na alcova, solitária
e toda consigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os cabelos
desfeitos, os pezinhos metidos nas chinelas de cetim preto, as mãos
no regaço e os olhos vagando de objeto em objeto, como se reproduzissem
fora as atitudes interiores do pensamento, ali não só ele
a adoraria de joelhos, mas até poderia supor que alguma preocupação
lhe tirava o sono e que essa era nem mais nem menos ele próprio.
Talvez fosse; em parte ao menos seria ele. Guiomar não tinha um
coração tão mau, que lhe não doessem as mágoas
de um homem que acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem
muitas as causas daquela preocupação, a verdade é
que ela durou muito tempo. Guiomar passou da poltrona à janela,
que abriu toda, para contemplar a noite - o luar que batia nas águas,
o céu sereno e eterno. Eterno, sim, eterno, leitora minha, que
é a mais desconsoladora lição que nos poderia dar
Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ânsias,
paixões insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante,
que se acabam e passam conosco, debaixo daquela azul eternidade, impassível
e muda como a morte.
Pensaria nisto Guiomar? Não, não pensou nisto um minuto
sequer; ela era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o coração,
vivia em plena aurora. Que lhe importava - ou quem lhe chegara a fazer
compreender esta filosofia seca e árida? Ela vivia do presente
e do futuro e - tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambições
que lho enchiam - tamanho, que bastava a ocupar-lhe o pensamento, ainda
que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber; provavelmente
havia-o esquecido.
A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram acordá-la,
na forma do costume, para o matinal passeio com a madrinha. Guiomar sacrificava
tudo à dedicação filial de que já dera tantas
provas. A baronesa, entretanto, estava preocupada; o passeio foi diferente
do dos outros dias.
Ao meio-dia meteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e saíram
a uma visita. A baronesa ficou só; Jorge não a deixou ficar
só por muito tempo, porque chegou daí a pouco.
A baronesa não perdeu tempo em circunlóquios. Apenas viu
o sobrinho interpelou-o diretamente.
- Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse, que tu gostas de Guiomar.
Jorge não contava muito com semelhante interrogação;
todavia, não era tão ingênuo que corasse, nem tão
apaixonado que lhe tremesse a voz. Puxou gravemente os punhos da camisa,
concertou a gravata, e respondeu singularmente:
- Não me atrevia a falar-lhe destas coisas...
- Por que não? - interrompeu a baronesa; são assuntos que
se podem tratar entre mim e ti, sem desar para nenhum de nós. É
então verdade o que me disse Mrs. Oswald?
- É.
- Amas deveras, ou...
- Deveras. Recuaria, se visse que uma aliança entre nós
ficava mal ao lustre de nossa família; mas, posto que ela seja...
- Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baronesa.
- Justamente; não pode haver melhor título.
- Tem ainda outro, continuou a baronesa; é uma alma angélica
e pura. Henriqueta não teve melhor coração nem mais
amor aos seus. Além disso, a natureza deu-lhe um espírito
superior, de maneira que a fortuna não fez mais do que emendar
o equívoco do nascimento. Finalmente é de uma beleza pouco
comum...
- Rara, titia, pode dizer que é de uma beleza rara, acudiu Jorge,
e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma coisa, que não era
a gravidade de costume.
- Já vês, prosseguiu a baronesa, que ela possui todos os
direitos ao amor e à mão de um homem como tu.
A baronesa tinha um coração ingênuo e liso, sem desvios
nem astúcias; contudo, há ocasiões em que o mais
reto espírito emprega, como por instinto, finuras diplomáticas.
A boa senhora tinha tanto a peito aquela união do sobrinho com
a afilhada, que não confiava só do amor; procurava interessar-lhe
também o amor-próprio.
Jorge curvou-se com afetada modéstia.
- Um homem, como eu - disse ele - vale pouco por si mesmo; o valor que
tenho, e esse é muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia,
e das santas qualidades que a adornam...
- Só uma, Jorge, só uma qualidade santíssima: é
a de amá-los, a ti e a ela. Por isso foi imenso o gosto que senti
quando Mrs. Oswald me disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu
tivesse a fortuna de ver a vocês unidos e felizes, morreria contente.
- Oh! isso! disse Jorge com ar de dúvida.
- Julgas impossível o casamento?
- Impossível, não; impossível, nada há. Mas...
não suponho que a vontade dela é indispensável, tão
indispensável como duvidosa.
- Duvidosa! Estás certo disso?
Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, não agitado de todo,
mas um pouco fora da impassibilidade usual. A idéia do casamento
aparecia-lhe agora um pouco mais possível e exeqüível,
desde que a tia francamente lhe propusesse aliança.
- Estás certo disso? repetiu a baronesa.
- Certo não; mas há toda a razão para a dúvida.
Guiomar sabe que eu gosto dela; e contudo não me dá o menor
sinal de corresponder aos meus sentimentos.
Jorge expôs longamente todas as razões que tinha para crer
que a vontade de Guiomar não correspondia à dele; referiu-lhe,
com a maior exação e fidelidade, uns três ou quatro
episódios que lhe pareciam boa prova daquilo que dizia. A baronesa
não ouvia tudo com igual atenção. Quando ele acabou:
- Guiomar será muito vexada - disse ela - e às vezes, e
por isso mesmo, tem essas aparências frias. Nada impede, porém,
a que venha a amar-te, se é que já te não ama. Há
nela certa altivez natural, que pode explicar também essa frieza;
parece-me que lhe seria penoso receber o amor de alguém que julgasse
levantá-la até si.
- Isso, talvez...
- Mas esse sentimento, que pode ser e é honroso, não é
de certo invencível.
Todas estas palavras da baronesa lisonjeavam o sobrinho, em cujos lábios
pairava agora um sorriso de íntima satisfação. De
quando em quando não ouvia ele nada do que lhe dizia a tia; seus
ouvidos voltavam-se para dentro; ele escutava-se a si próprio.
O amor de Guiomar começava a parecer-lhe possível; tudo
quanto a baronesa lhe dizia era razoável, com a vantagem de lhe
esclarecer as faces obscuras da situação. Demais, até
que ponto a baronesa conjecturava ou revelava ? Bem podia ser que ela
tivesse lido mais fundo no coração da moça.
Estas reflexões fê-las Jorge, enquanto a baronesa continuava
a falar e a desenvolver a idéia que ultimamente indicara. Até
aquele dia havia ele limitado toda a sua ação a alguns olhares,
e raras palavras de cumprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animação;
pareceu-lhe chegado o ensejo de sair daquela paz armada.
Guiomar chegou daí a pouco e achou-os na "saleta de trabalho",
eufemismo elegante, que queria dizer literalmente - saleta de conversação
entremeada de crochet. Mrs. Oswald vinha com ela; ambas riam alegremente
de não sei que episódio visto no caminho. Jorge erguera-se,
pausado mas risonho, apertou a mão de Guiomar - apertou-a deveras,
mais do que era usual e cortês. Guiomar não pareceu afligir-se;
perguntou-lhe pela saúde, transmitiu à madrinha as lembranças
que lhe mandavam e dispôs-se a sair.
Durante esse tempo, Jorge olhava para ela, enlevado deveras na contemplação
de toda aquela nobre figura, agora mais bela que dantes, desde que se
lhe tornara possível a aliança há muito sonhada.
Havia nos olhos de Jorge uns tais ou quais vestígios lúbricos,
donde se podia colher que, se ele fosse poeta, e poeta arcádico,
editaria pela milionésima vez a comparação da Vênus
e dos seus infalíveis amorinhos; comparação detestável,
sobretudo, porque a casta beleza de moça, se alguma coisa pagã
lhe podia ser chamada, seria antes Diana convertida ao Evangelho.
Jorge saiu dali singularmente agitado; a conversa da baronesa dera-lhe
nervo e resolução, e o quadro do casamento começou
a desenhar-se-lhe no espírito, como o relógio que o menino
tem de usar pela primeira vez. Até ali deixara-se ele ir à
feição das águas; agora via a necessidade e a possibilidade
de abicar à riba feliz do matrimônio.
As dúvidas de Jorge não lhe saltearam o espírito;
apenas chegou a casa, travou da pena, e lançou na folha branca
e lustrosa de seu papel, uma confissão elegante e polida, que todavia
refundiu duas ou três vezes, primeiro que a desse por pronta. Acabada
a redação final, transcreveu aquela prosa do coração
na mais nítida folha que havia em casa - dobrou e meteu-a na algibeira.
De noite foi à casa da tia. Achou as senhoras à volta de
uma mesa; Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francês,
recentemente publicado em Paris e trazido pelo último paquete.
Mrs. Oswald lia também, mas para si, um grosso volume de Sir Walter
Scott, edição Constable, de Edimburgo.
Jorge veio interrompê-las um pouco, mas só interromper, porque
a leitura continuou logo depois, ajudando ele próprio a Guiomar
naquela filial tarefa. Veio o chá, veio depois a hora de recolher,
e a baronesa deu por findo o serão, ainda que o livro estava quase
findo.
- Um capítulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos.
A baronesa sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou
aquela dedicação do sobrinho; recusou contudo, por estar
a cair de sono.
- Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar;
levo o livro comigo.
- Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação.
E enquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha até à
porta do quarto, e Mrs. Oswald marcava a página e fechava o seu
livro, Jorge igualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado,
que deu muito que entender à inglesa. Se ela chegou a entender,
vê-lo-emos depois; o certo é que o livro foi enfim entregue
a Guiomar, tendo a página marcada, não com a fita que lá
estava pendente, mas com um pedacinho de papel.
O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centímetros
de altura; mas por mais exíguas que tivesse as dimensões,
bem podia ser que levasse ali dentro nada menos que uma tempestade próxima.
CAPÍTULO
X
A revelação
Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu Guiomar
a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples papelinho
dobrado, recendendo a amores. O espírito de Guiomar estava tão
longe daquilo que não suspeitou nada e distraidamente o abriu.
A primeira palavra escrita era o seu nome; a última era o de Jorge.
O primeiro gesto de Guiomar foi de cólera. Se ele pudesse espreitá-la
pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, e mui
provável que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que
até agora nutria. Mas ele não estava ali, a moça
podia traduzir fielmente no rosto os movimentos do coração.
- "Mais um", pensou ela; "este porém"...
E desta vez o gesto não foi de cólera, foi de alguma coisa
mais, metade fastio, metade lástima, mescla difícil e rara.
A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer
ler, como a hesitar entre queimá-lo ou restituí-lo intacto
a seu autor. Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e
leu estas linhas:
"GUIOMAR! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções
sociais condenam-me decerto, mas o coração aprova, que digo?
ele mesmo escreve estas letras. Não é a minha pena, não
são os meus lábios que lhe falam deste modo, são
todas as forças vivas da minha existência, que em alta voz
proclamam o imenso e profundo amor que lhe tenho.
Antes de o ler neste papel, já a senhora o há de ter visto,
pelo menos adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz
a presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço
em recalcar este afeto é vão; por mais que eu sinceramente
deseje esquecê-la, não o alcançarei nunca; não
alcançarei mais que uma aflição nova. O remorso de
o tentar virá coroar os demais infortúnios.
"Por que razão rompo hoje o silêncio em que me tenho
conservado, medroso e respeitoso silêncio que, se me não
abre o caminho da glória, ao menos conserva-me a palma da esperança
? Nem eu mesmo saberia responder-lhe; falo, porque uma força interior
me manda falar, como transborda o rio, como se derrama a luz; falo porque
morreria talvez se me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero,
se além do perdão que lhe peço, me não der
uma esperança mais segura do que esta que me faz viver e consumir.
JORGE."
Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra de
análise e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão
fria como antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente
para o homem que o havia escrito; enfim, pôs a carta de lado, abriu
o livro e continuou o romance.
Mas o espírito, que não ficara tão indiferente como
o coração, entrou a fugir-lhe do romance para a vida, com
tal tenacidade que não houve remédio senão irem os
olhos atrás dele, e a moça de novo mergulhou nas reflexões
que lhe sugeria o caso da paixão de Jorge.
Paixão não era - não o seria ao menos no sentido
inteiro do vocábulo; mas alguma coisa menos, ou parecida com ela,
e ainda assim verdadeira, via bem Guiomar que o poderia ser. Até
que ponto chegaria, entretanto, o seu adorador, se ela o desatendesse
logo; e, dado o amor que a baronesa tinha ao sobrinho, até que
ponto a recusa iria magoá-la? Guiomar varreu do espírito
os receios que lhe nasciam de tais interrogações; mas sentiu-os
primeiro, pesou-os antes de os arredar de si, o que revelará ao
leitor em que proporção estavam nela combinados o sentimento
e a razão, as tendências da alma e os cálculos da
vida.
Excluído o receio, voltou-lhe o riso, aquele riso interior, que
é o mais involuntário e cruel, e também o menos arriscado
que a gente pode dar às fatuidades humanas. Não podia ser
tão desprezível assim o amor de um homem, cuja ridiculez
compensavam algumas qualidades boas, e que enfim era também distinto,
ainda que a sua distinção primasse antes por um estilo rendilhado
e complicado, que não é o melhor. Guiomar via tudo isso,
e por outro lado, não podia obstar que ele a amasse; nem por isso
achava menos temerária aquela confissão.
A moça refletia também na posição especial
que tinha naquela casa o sobrinho da baronesa; via-se obrigada à
presença dele, e talvez à luta, porque o pretendente não
recuaria do primeiro golpe. Não havia tais receios da parte de
Estêvão; ela reconhecia que a paixão deste era ardente
e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas comparava as índoles
dos dois homens, e se ambos lhe pareciam de fraca compleição
moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava certa presunção
que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de pelejar.
Quando ela fez esta comparação entre os dois homens, ficaram-lhe
os olhos um pouco mais moles e quebrados, obra de três minutos apenas,
mas três minutos que, se Estêvão soubera deles, trocaria
por eles o resto de toda a vida. E contudo, não era amor nem saudade;
alguma simpatia, sim, ainda que leve e sem conseqüência; mas,
sobretudo, era pena de o não poder amar - ou ainda melhor - era
lástima de que tal coração não fora casado
a outro espírito.
Guiomar refletiu ainda muito e muito, e não refletiu só,
devaneou também, soltando o pano todo a essa veleira escuna da
imaginação, em que todos navegamos alguma vez na vida, quando
nos cansa a terra firme e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias.
A imaginação dela porém não era doentia, nem
romântica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher flores em regiões
selváticas ou adormecer à beira de lagos azuis. Nada disso
era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas na alma
as lembranças da terra.
Volveu enfim e os olhos caíram-lhe na carta. A realidade presente
não se lhe podia mostrar de pior modo. Guiomar ergueu-se irritada,
lançou mão do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez
rasgá-lo, quando ouviu bater de manso à porta.
-Quem é? perguntou.
-Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.
A moça foi abrir a porta; a inglesa entrou, trajada de dormir,
e um vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns
segundos. Guiomar assustada perguntou:
- Que é? aconteceu alguma coisa a minha madrinha?
- Longe vá o agouro! exclamou a inglesa. Não lhe aconteceu
nada; a senhora baronesa dorme naturalmente a sono solto. Venho porque
do meu quarto pareceu-me ouvir rumores de passos aqui, e depois vi luz.
Pensei que tivesse algum incômodo. Mas, pelo que vejo, continuou
a inglesa deitando os olhos para a mesinha em que pousava o livro aberto
- pelo que vejo ainda não acabou de ler o seu romance...
- Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar
cravando os olhos no rosto da inglesa, como tomada de um pensamento súbito.
- Deveras!
- Li outra coisa, continuou a moça; li este papel.
Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás
adivinhou qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.
- Não precisa, disse ela; é uma declaração
amorosa.
- De quem? perguntou a inglesa abrindo uns olhos espantados e obedientes.
- Leia o nome.
Mrs. Oswald leu a assinatura da carta, que a moça de novo lhe apresentava.
- Naturalmente, continuou Guiomar, há nisto obra sua...
- Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que costumava
falar.
Guiomar tinha ido sentar-se; o pezinho impaciente batia no tapete, com
um movimento rápido e regular; cruzara os braços sobre o
peito, fitando a inglesa com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação
do espírito. Seguiu-se curto silêncio; Mrs. Oswald puxou
outra cadeira e sentou-se perto da moça.
- Por que há de ser injusta comigo? disse ela dando à voz
um tom melífluo e suplicante; por que não há de ver
as coisas, como elas naturalmente são? O que há nisto é
uma coincidência curiosa, mas nada mais. Se lhe falei em semelhante
coisa algumas vezes, foi porque eu mesma percebi o amor que lhe tem o
Sr. Jorge; é coisa que todos vêem. Imaginei que o casamento,
neste caso, seria agradável à senhora baronesa a quem sou
grata. Posso ter feito mal...
- Muito mal, interrompeu Guiomar; são coisas de família
em que a senhora nada tem que ver.
Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns passos, e voltou a sentar-se.
Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabelos e caíram-lhe sobre
os ombros. Mrs. Oswald aproximou-se dela para os colher, e atar, mas a
moça secamente a repeliu:
- Deixe, deixe...
E ela mesma os recompôs com as suas mãozinhas finas, e ficou
depois a olhar para o chão, a morder o lábio, a respirar
fortemente, como se contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa
e colérica. Mrs. Oswald não disse nada durante alguns minutos;
esperou que passasse o período agudo da irritação.
Quando lhe pareceu que ela afrouxava, rompeu enfim o silêncio.
- Fiz mal, fiz não há dúvida, mas a intenção
não podia ser melhor. Talvez não me creia; paciência!
O que lhe peço, - nem lhe peço, - o que eu acredito piamente
é que não me há de atribuir algum interesse de ordem...
Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar, mas
Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva
voz; fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres
da inglesa. A moça foi sincera; não atribuía realmente
a nenhum interesse vil - pecuniário - a ação de Mrs.
Oswald. Nem por isso a absolvia - não só porque ela viria
concorrer talvez para uma crise penosa, mas também - bom é
notá-lo outra vez - porque a condição da inglesa
naquela casa era relativamente inferior.
A inglesa continuou a falar em defesa própria, a justificar miudamente
os bons sentimentos do coração, e a prometer que deixava
por mão todo aquele negócio, a seu juízo, o melhor
que a moça podia fazer.
- A experiência da vida, concluiu ela, devia ter-me convencido de
que o melhor de todos os sentimentos é um egoísmo quieto
e calado.
Enquanto ela falava assim, Guiomar parecia volver à tranqüilidade
habitual. A mudança foi - não súbita - mas um pouco
mais rápida do que devera ser, tratando-se de um espírito,
como o dela, em que as impressões não eram superficiais
nem momentâneas.
Havia até uns toques de afabilidade no rosto e na voz, quando ela
começou a falar, o que revelaria talvez ser aquela mudança
muito voluntária e meditada.
- Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as coisas
chegassem a este ponto, e que ele se lembrasse de escrever semelhante
carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o
meu coração não pode corresponder. Amores não
se encomendam como vestidos; sobretudo não se fingem, ou não
se devem fingir nunca.
- Oh! decerto!
- Eu gosto dele, como parente que é de minha madrinha, e também
porque ela lhe tem afeição de mãe, como a mim; somos
uma espécie de irmãos, nada mais.
- Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala
como um doutor. Que se lhe há de fazer? Quem não ama não
ama. Dele é que eu tenho pena!
- Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na
inglesa.
- Oh! parece que sim! A senhora deve sabê-lo tanto como eu; eu sei
o que
tenho visto, e creio que é muito.
- Eu nunca vi nada, respondeu secamente Guiomar.
A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra
não viu ou não quis ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou
nestes termos:
- Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que ele
não me fará a injúria de querer casar comigo, sem
que eu o ame...
Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma coisa.
Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz
nem com o gesto. A moça inclinou o corpo, pôs os braços
sobre os joelhos, com os dedos cruzados, e entre um riso amável
e um olhar afetuoso, continuou:
- A senhora podia, se acaso ele alguma vez lhe falou nisso ou vier a falar-lhe,
podia dissuadi-lo de tais idéias, dizendo-lhe simplesmente a verdade
e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora há de saber dar,
e que ele aceitará decerto, porque é um bom coração,
um caráter estimável...
- Oh! excelente! um moço excelente!
E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um
sorriso, que era uma contração voluntária dos músculos,
e a inglesa a fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena,
e muita coisa junta, que a moça só começou a compreender,
quando ela rompeu o silêncio deste modo:
- Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.
- O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que há mais?
A inglesa aproximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou ansiosa
a revelação - se revelação era - que lhe ia
fazer Mrs. Oswald. Esta não falou logo; era razoável hesitar
um pouco, lutar consigo mesma, antes de dizer alguma coisa. Enfim, com
um movimento de quem ajunta as forças todas e as emprega em coisa
superior à coragem usual:
- D. Guiomar, disse ela, pegando-lhe nas mãos, ninguém pode
exigir que se case sem amar o noivo; seria na verdade uma afronta. Mas
o que lhe digo é que o amor que não existe por ora, pode
vir mais tarde, e se vier, e se viesse, seria uma grande fortuna...
- Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciência.
- Seria uma grande fortuna para a senhora, para ele, ouso dizer que para
mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a senhora baronesa.
- Como assim? disse Guiomar.
- Oh! para ela seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu
mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A
senhora...
- Está certa disso?
- Certíssima.
- Não creio, não vejo nada que...
- Creia, deve crer. Se me promete nada dizer desta nossa conversa, nem
fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...
-Fale.
- Pois bem, - continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguém
pudesse ouvi-la na solidão daquela alcova, e no silêncio
profundo daquela casa, que toda dormia - pois bem, eu lhe direi que por
ela mesma tive notícia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão
do Sr. Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que
ela me permite, e a senhora baronesa em vez de sorrir, como eu esperava
que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que
rompeu nestas palavras: "Oh! se Guiomar gostasse dele e viessem a
casar-se, eu seria completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição
na Terra. Há de ser a minha campanha."
- Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.
- Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era
impossível, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas
pessoas a princípio indiferentes. O amor nasce muita vez do costume.
Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a inglesa; se ainda
olhava para ela, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vai toda
absorvida em pensamentos íntimos.
- Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu coveniente
falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver
se ele favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa...
Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitável
e santa deste mundo.
- Decerto, murmurou Guiomar.
Mrs. Oswald pegou-lhe numa das mãos e beijou-a afetuosamente. Guiomar
não a repeliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da inglesa.
As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a lerem na
alma uma da outra.
Guiomar não tinha a experiência nem a idade da inglesa, que
podia ser sua mãe; mas a experiência e a idade eram substituídas,
como sabe o leitor, por um grande tino e sagacidade naturais. Há
criaturas que chegam aos cinqüenta anos sem nunca passar dos quinze,
tão símplices, tão cegas, tão verdes as compõe
a natureza; para essas o crepúsculo é o prolongamento da
aurora. Outras não; amadurecem na sazão das flores; vêm
ao mundo com a ruga da reflexão no espírito, - embora, sem
prejuízo do sentimento, que nelas vive e influi, mas não
domina. Nestas o coração nasce enfreado; trota largo, vai
a passo ou galopa, como coração que é, mas não
dispara nunca, não se perde nem perde o cavaleiro.
O que a afilhada da baronesa buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se
efetivamente a madrinha nutria aquele desejo, ou se tal revelação
não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira;
mas admitirá, sem dúvida, que a moça só depois
de muito interrogar e examinar lhe desse fé. Creu enfim; creu,
porque era verossímil, creu porque a inglesa não se arriscaria
a qualquer indiscrição da parte dela, que de todo a desmascararia.
- Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo
o que sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor deles não
vale a voz do próprio coração. O seu é puro
e reto; consulte-o de boa vontade, e verá se há nele indiferença,
ou se alguma faísca...
-Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultá-lo
nunca.
-Faz mal, ele é o relógio da vida. Quem o não consulta,
anda naturalmente
fora do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald deitando os olhos para
o reloginho de Guiomar. Naquele outro relógio faltam dez minutos
para uma hora! Uma hora! Que diria a senhora baronesa se soubesse que
ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe dê um sono sossegado,
e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe recomendo
juízo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.
E Mrs. Oswald saiu pé ante pé em direção ao
seu quarto.
Guiomar ficou só, ali sentada ao pé da cama, a ouvir o passo
surdo, e cauteloso da inglesa. Quando o som morreu de todo, e o silêncio
da noite volveu ao que era, profundo e sepulcral, a moça deixou
cair os braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um
suspiro desentranhou-se-lhe do peito, longo, ruidoso, magoado - o primeiro
que o leitor lhe ouve desde que a conhece - e enfim estas palavras arrancadas
da alma, tão doloridas - ia dizer tão lacrimosas - vinham
elas:
-Oh meus sonhos! meus sonhos!
Não chorou; a alma dela era das que não têm lágrimas,
enquanto lhe
restam forças. Os olhos estavam secos e firmes quando ela os ergueu
das mãos; o rosto tinha vestígios do abalo, mas não
havia nele desânimo, menos ainda desespero.
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