Luzia
Homem, de Domingos Olímpio
CAPÍTULO
I
O morro do Curral
do Açougue emergia em suave declive da campina ondulada.
Escorchado, indigente de arvoredo, o cômoro enegrecido pelo
sangue de reses sem conto, deixara de ser o sítio sinistro
do matadouro e a pousada predileta de bandos de urubus-tingas e
camirangas vorazes.
Bateram-se os
vastos currais, de grossos esteios de aroeira, fincados a pique,
rijos como barras de ferro, currais seculares, obra ciclópica,
da qual restava apenas, como lúgubre vestígio, o moirão
ligeiramente inclinado, adelgaçado no centro, polido pelo
contínuo atrito das cordas de laçar as vítimas,
que a ele eram arrastadas aos empuxões, bufando, resistindo,
ou entregando, resignadas e mansas, o pescoço à faca
do magarefe. Ali, no sítio de morte, fervilhavam, então,
em ruidosa diligência, legiões de operários
construindo a penitenciária de Sobral.
No cabeço
saturado de sangue, nu e árido, destacando-se do perfil verde-escuro
da serra Meruoca, e dominando o vale, onde repousava, reluzente
ao sol, a formosa cidade intelectual, a casaria branca alinhada
em ruas extensas e largas, os telhados vermelhos e as altas torres
dos templos, rebrilhando em esplendores abrasados, surgia em linhas
severas e fortes, o castelo da prisão, traçado pelo
engenho de João Braga, massa ainda informe, áspera
e escura, de muralhas sem reboco, enteadas em confusa floresta de
andaimes a esgalharem e crescerem, dia a dia, numa exuberância
fantástica de vegetação despida de folhas,
de flores e frutos. Pela encosta de cortante piçarra, desagregado
em finíssimo pó, subia e descia, em fileiras tortuosas,
o formigueiro de retirantes, velhos e moços, mulheres e meninos,
conduzindo materiais para a obra. Era um incessante vai e vem de
figuras pitorescas, esquálidas, pacientes, recordando os
heróicos povos cativos, erguendo monumentos imortais ao vencedor.
Acertara a Comissão
de Socorros em substituir a esmola depressora pelo salário
emulativo, pago em rações de farinha de mandioca,
arroz, carne de charque, feijão e bacalhau, verdadeiras gulodices
para infelizes criaturas, açoitadas pelo flagelo da seca,
a calamidade estupenda e horrível que devastava o sertão
combusto. Vinham de longe aqueles magotes heróicos, atravessando
montanhas e planícies, por estradas ásperas, quase
nus, nutridos de cardos, raízes intoxicantes e palmitos amargos,
devoradas as entranhas pela sede, a pele curtida pelo implacável
sol incandescente.
Na construção
da cadeia havia trabalho para todos. Os mais fracos, debilitados
pela idade ou pelo sofrimento, carregavam areia e água; aqueles
que não suportavam mais a fadiga de andar amoleciam cipós
para amarradio de andaimes; outros menos escarvados amassavam cal;
os moços ainda robustos, homens de rija têmpera, superiores
às inclemências, sóbrios e valentes, reluziam
de suor britando pedra, guindando material aos pedreiros, ou conduzindo
às costas, de longe, das matas do sobpé da serra,
grossos madeiros enfeitados de palmas virentes, de ramos de pereiro
de um verde fresco e brilhante, em festivo contraste com o sítio
ressequido e desolado. E davam conta da tarefa, suave ou rude, uns
gemendo, outros cantando álacres, numa expansão de
alívio, de esperança renascida, velhas canções,
piedosas trovas inolvidáveis, ou contemplando com tristeza
nostálgica, o céu impassível, sempre límpido
e azul, deslumbrante de luz.
Esse concerto
esdrúxulo de vozes humanas em cânticos e queixumes,
de rugidos da matéria transformando-se aos dentes dos instrumentos,
aos golpes dos martelos, de brados de comando dos mestres e feitores,
essa melopéia do trabalho amargurado ou feliz, era, às
vezes, interrompido por estrídulos assobios, alarido de gritos,
gargalhadas rasgadas e as vaias de meninos que se esganiçavam:
era uma velha alquebrada que deixara cair a trouxa de areia; um
cabra alto de hirsuta cabeleira marrafenta, lambuzado de cal, que
escorregara ao galgar uma desconjuntada e vacilante escada, e lançava
olhares ferozes à turba que o chasqueava, era a carreira
constante das moças e meninas para as quais o trabalho era
um brinquedo; eram gritos de dor de um machucado, rodeado pela multidão
curiosa e compassiva, ou os gemidos de algum infeliz, tombando prostrado
de fadiga, pedindo pelo amor de Deus, no estertor da hora extrema,
não o deixassem morrer sem confissão, sem luz, como
um bicho.
Cercava o edifício
em construção, um exótico arraial de latadas,
de choupanas, de ranchos improvisados, onde trabalhavam carpinteiros
falqueando longas vigas de pau-d'arco, frechais de frei-jorge e
gonçalo-alves, ou serrando e aplainando cheirosas tábuas
de cedro. Marcando a subida do morro, se alinhavam em rua tortuosa,
pequenas barracas feitas de costaneiras, cascas e sarrafos, as quais
serviam de abrigo às costureiras, fazendo, dos sacos de víveres,
roupa para os esmolambados, envoltos em nojentos trapos que lhes
mal disfarçavam o pudor e a horrenda magreza esquálida.
De outras barracas subia ao ar, em novelos espessos ou tênues
espirais azuladas, o fumo de lareiras, onde, sobre toscas trempes
de pedra, ferviam, roncando aos borbotões, grandes panelas
de ferro, repletas de comida.
Ao cair da tarde,
quando cálida neblina irradiava da terra abrasada, esbatia
o recorte das montanhas ao longe, e adelgaçava o colorido
da paisagem em tons pardacentos e confusos, o sino da Matriz, como
um colossal lamento, troava a Ave-Maria. Cessava o rumor e o mestre
da obra batia com o pesado martelo o prego, em solene cadência,
anunciando o termo do trabalho.
A multidão
de operários, depois de silenciosa e contrita prece, se agrupava
em torno dos feitores; e, respondido o ponto, desfilava, depositando,
em determinado sítio, a ferramenta e vasilhame. Fatigada,
suarenta, dispersava-se, dividindo-se em grupos, seguindo várias
direções em busca de pousada, ou desdobrando-se na
curva dos caminhos, nas forquilhas das encruzilhadas, até
se sumir como sombras desgarradas, imersas na caligem da noite iminente.
Começava,
então, a vida nos acampamentos, desertos durante o dia. E
descantes à viola, ruídos de sambas saracoteados,
de vozes lâmures ou irritadas, de gargalhadas incontinentes
formavam incoerentes acordes com as rajadas ásperas de viração
a silvar nos galhos secos e contorcidos das moitas mortas de jurema
e mofumbo, ou nas palmas virentes das carnaubeiras imortais.
No céu
límpido, profundo e sereno, em quietitude de lago tranqüilo,
sem as manchas de nuvens errantes, tremeluziam em esplêndidas
constelações, miríades de estrelas. Na terra
escura, um colar de luzes tímidas, como círios melancólicos
velando enorme esquife, cercava a cidade adormecida em torpor de
monstro saciado. E no alto sinistro do curral do Açougue,
erguia-se, silenciosa e solitária, a molhe sombria da penitenciária,
como um lúgubre monumento consagrado à maldade humana.
CAPÍTULO
II
O francês
Paul - misantropo devoto e excelente fabricante de sinetes que,
na despreocupada viagem de aventura pelo mundo, encalhara em Sobral,
costumava vaguear pelos ranchos de retirantes, colhendo, com apurada
e firme observação, documentos da vida do povo, nos
seus aspectos mais exóticos, ou rabiscando notas curiosas,
ilustradas com esboços de tipos originais, cenas e paisagens
- trabalho paciente e douto, perdido no seu espólio de alfarrábios,
de coleções de botânica e geologia, quando morreu,
inanido pelos jejuns, como um santo.
Um dia, visitando
as obras da cadeia, escreveu ele, com assombro, no seu caderno de
notas:
"Passou
por mim uma mulher extraordinária, carregando uma parede
na cabeça."
Era Luzia, conduzindo
para a obra, arrumados sobre uma tábua, cinqüenta tijolos.
Viram-na outros
levar, firme, sobre a cabeça, uma enorme jarra d'água,
que valia três potes, de peso calculado para a força
normal de um homem robusto. De outra feita, removera, e assentara
no lugar próprio, a soleira de granito da porta principal
da prisão, causando pasmo aos mais valentes operários,
que haviam tentado, em vão, a façanha e, com eles,
Raulino Uchoa, sertanejo hercúleo e afamado, prodigioso de
destreza, que chibanteava em pitorescas narrativas.
Em plena florescência
de mocidade e saúde, a extraordinária mulher, que
tanto impressionara o francês Paul, encobria os músculos
de aço sob as formas esbeltas e graciosas das morenas moças
do sertão. Trazia a cabeça sempre velada por um manto
de algodãozinho, cujas curelas prendia aos alvos dentes,
como se, por um requinte de casquilhice, cuidasse com meticuloso
interesse de preservar o rosto dos raios do sol e da poeira corrosiva,
a evolar em nuvens espessas do solo adusto, donde ao tênue
borrifo de chuvas fecundantes, surgiam, por encanto, alfombras de
relva virente e flores odorosas. Pouco expansiva, sempre em tímido
recato, vivia só, afastada dos grupos de consortes de infortúnio,
e quase não conversava com as companheiras de trabalho, cumprindo,
com inalterável calma, a sua tarefa diária, que excedia
à vulgar, para fazer jus a dobrada ração.
- É de
uma soberbia desmarcada - diziam as moças da mesma idade,
na grande maioria desenvoltas ou deprimidas e infamadas pela miséria.
- A modos que
despreza de falar com a gente, como se fosse uma senhora dona -
murmuravam os rapazes remordidos pelo despeito da invencível
recusa, impassível às suas insinuações
galantes. - Aquilo nem parece mulher fêmea - observava uma
velha. alcoveta e curandeira de profissão. Reparem que ela
tem cabelos nos braços e um buço que parece bigode
de homem...
- Qual, tia
Catirina! O Lixande que o diga! - mandou uma cabocla roliça
e bronzeada, de dentes de piranha, toda adornada de jóias
de pechisbeque e fios de miçanga, muito besuntada de óleos
cheirosos.
- Não
diga isso que é uma blasfémia - atalhou Teresinha
loura, delgada e grácil, de olhar petulante e irônico,
toda ela requebrada em movimentos suaves de gata amorosa.
- Por ela eu
puno; meto a mão no fogo...
- Havia de sair
torrada. Isso de mulher, hoje em dia, é mesmo uma desgraceira..
.
- Mas você
não pode negar que ela viva no seu canto sossegada sem se
importar com a vida dos outros e fazendo pela sua, como uma moira
de trabalho. Vocês, suas invejosas, não a poupam; não
tendo para dizer dela um tico assim, vivem a maldar, a inventar
intrigas e suspeitas. Nem que ela fosse uma despencada do mundo...
- Tu a defendes,
porque és pareceira dela...
- Antes fosse!
... Outros galos me cantariam. Não andaria aqui, sem eira
nem beira, metida nesta canalhada de retirantes. Quem me dera ser
como Luzia, moça de respeito e de vergonha,
- Quem perdeu
tudo isso para ela achar?.. obtemperou numa rasgada gargalhada de
sarcasmo brutal, a roliça cabocla de agudos dentes.
- Qual? ...
Vão atrás da sonsa! ...
- Deixem estar
que há de ser como as outras. Em boniteza, verdade, verdade,
mete vocês todas num chinelo. Aquilo é mulher para
dar e apanhar - disse chasqueando um soldado de linha, destacado
no Curral do Açougue para manter a ordem, pois não
raro rixavam e se engalfinhavam mulheres, ou se esboroavam homens
por fúteis pretextos: houvera mesmo sérios conflitos
e lutas sangrentas, tão abatido estava, naquela pobre gente
o senso moral.
- Vão
ver que você, seu Crapiúna, também está
fazendo roda a Luzia-Homem?!...
Crapiúna,
o tal soldado, era mal afamado entre os homens e muito acatado pelas
mulheres, graças à correção do fardamento
irrepreensível, os botões doirados, o cinturão
e a baioneta polidos e reluzentes: todo ele tresandando ao patchouli
da pomada, que lhe embastia a marrafa e o bigode, teso e fino como
um espeto. Possuía, apesar das duras feições,
o encanto militar, a que é tão caroável o animal
caprichoso, e fútil, a mulher de todas as categorias e condições
sociais, talvez porque, sendo fraca, naturalmente, se deixa atrair
pelas manifestações da força.
Contavam dele
histórias emotivas, aventuras galantes, feitos de bravura,
façanhas na perseguição de criminosos célebres;
ele estivera nas escoltas que prenderam o facínora José
Gabriel e o cangaceiro Zé Antônio do Fechado, cavaleiro
e bravo à antiga, de raça de heróis, os Brilhantes,
Ataídes, e Vicente Lopes do Caminhadeira, representantes
dispersos, atávicos, espécimens ferozes de banditismo
que foi a glória de Portugal, e lhe conquistou mundos, descobrindo-os,
roubando-os com a indômita coragem de piratas, consagrados
pela imperecível gratidão da pátria à
póstera veneração.
Não faltavam
ao soldado feitos que lhe aumentassem o prestígio de pessoa
bem conformada, sem vícios que lhe dessem o realce de um
afortunado. Dizia-se, à puridade, nos colóquios da
protérvia popular, que, antes de ser recrutado por audácias
sensuais, e envergar a farda, fora guarda-costas de um famigerado
fazendeiro da Barbalha, onde executara proezas cruéis, de
pasmar, em verdes anos, pois mal lhe despontava, então, o
buço. Tinha o ativo de três mortes e outros crimes
menores, valendo-lhe isto por título ao temeroso respeito
do povo.
A insinuação
de Romana ferira certo o alvo, e assanhara a secreta cupidez de
Crapiúna, que não se conformava com os modos retraídos
e a impassível frieza da mulher-homem, resistência
passiva e calma, ante a qual se amesquinhava a sua fama e sentia
arranhado o amor-próprio de vitorioso em fáceis conquistas.
Sempre que a encontrava, dirigia-lhe, com saudações
reverentes, palavras de ternura e erotismos incontinentes, olhares
e gestos de desejos mal sofreados. E, tão frequentes se tornaram
esses meios de obsessão, que um dia a moça os rebateu
secamente, com firmeza inelutável:
- Deixe-me sossegada.
Não se meta com a minha vida. Eu não sou o que o senhor
supõe...
- Deixa-te de
luxos, rapariga - respondeu Crapiúna, mostrando-lhe um grosso
anel de ouro. - Olha a memória de ouro que tenho para ti...
Não te zangues com o teu mulato...
Desde então
entrou a acompanhá-la, a perseguí-la por toda a parte,
nas horas de trabalho na penitenciária, nas caminhadas ao
rio e a rondar durante a noite pela vizinhança da casinha
velha, lá para as bandas da Lagoa do Junco, onde ela morava
com a mãe, velha e enferma, a boa, a santa tia Zefa.
Exasperada por
essa obsessão afrontosa, cada vez mais ardente e descomedida,
Luzia queixou-se ao administrador que obteve do tenente, comandante
do destacamento, a remoção do temerário galante
para outros serviços, guarda e faxina da prisão e,
nos dias de folga, a polícia da feira.
O tão
severo, merecido castigo penetrou fundo no duro coração
do soldado, remexendo a vasa de instintos, ali sedimentada em demorado
repouso. Mais ainda lhe moeram os melindres, os comentários
irreverentes, os aplausos, as insinuações ferinas
e o chasco de ser punido por queixa da mulher apetecida, a quem
ele, com fingido desdém, chamara uma retirante à-toa,
sem eira nem beira, toda arrebitada de luxos e medeixes. E ainda
mais o estomagava o ser a opinião, em esmagadora maioria,
favorável ao castigo.
Acharam todos
fora acertada providência tirar aquela onça do pasto
para tranqüilidade e segurança das moças e das
mulheres casadas, pois já era demasiada a falta de respeito
escandalizadora. Aquele homem de maus bofes, era um perigo. E surdiam
histórias de crimes, anedotas grotescas, revelação
de casos repugnantes, verdadeiros ou inventados pela fantasia do
populacho nos excessos de saborear a vingança, denegrindo-lhe
a reputação e deturpando-o para transformá-lo
de pelintra quente e apaixonado, em reles monstro horripilante.
Crapiúna
sabia dessas más ausências, das calúnias e falsos
testemunhos que lhe levantavam, cobardemente, pelas costas; das
pragas e esconjuros, arrogados pelas suas vítimas e desafetos.
Safados uns, ingratos outros. Corja de mal-agradecidos, que já
se não lembravam dos benefícios de ontem. A muitos
deles, desses que agora o malsinam por intrigas de mulheres, havia
morto a fome. Não se tinha em conta de santo, confessava;
fizera certas vadiações de homem solteiro, que não
tinha contas que dar; mas ninguém lhe podia lançar
em rosto o haver aforciado mulheres honestas. Quanto à remoção,
até dava graças a Deus por se ver livre daquela cambada
de retirantes nojentos e leprosos, cujo aspecto, em jejum, causava
engulhos; seria, entretanto, melhor sair da obra por sua livre vontade
e não por queixa... E logo de quem? De Luzia-Homem... Oh?
o diabo daquela sonsa era capaz de virar pelo avesso o juízo
de uma criatura, e provocar muita desgraça por causa daquele
imposão de querer ser melhor que as outras... Tirando-lhe
a força bruta, não passava de uma pobre tatu, que
só tem por si o dia e a noite.
- Você
está... - mas é fisgado pela macho e fêmea -
arriscou o camarada Belota que lhe ouvia a confidência - Aquilo
tem mandinga... Quem sabe se não te enfeitiçou! ...
Olha que ela tem uns olhos que furam a gente.. . E então
- aquela cabeleira... Acho melhor pedir à Chica Seridó
uma oração forte para desmanchar quebrantos e fechar
o corpo contra mau olhado.
- Qual, o quê!...
- retorquiu Crapiúna, com afetado desdém - Eu até
nem gosto dela... Não lhe acho graça... Depois...
com semelhante força... nem parece mulher...
- Tira o cavalo
da chuva e conta a história direito, Crapiúna. Todas
as mulheres são iguais e merecem tudo; a demora é
grelar no coração o capricho, principalmente, quando
resistem. Fora ela um monstro da natureza; paixão não
enxerga nem repara e, quando nos ataca, é como o sarampo:
até jasmim de cachorro é remédio. E deixa falar
quem quiser, que é soberba, sonsa, mal-ensinada... Ela não
é nenhum peixe podre. Não reparaste naqueles quartos
redondos, no caculo do queixo. Na boca encarnada como um cravo?!
E o buço?! ... Sou caidinho por um buço ... Ela quase
que tem passa-piolho, o demônio da cabrocha...
- O que mais
me admira é que não se diz dela tanto assim - afirmou
Crapiúna pensativo, riscando com a unha do polegar a ponta
do indicador.
- É por
ser mais velhaca que as outras... Pergunta ao Alexandre...
- Que Alexandre?
Aquele alvarinto que servia de apontador na obra: e passou depois
para o armazém da Comissão? ... Aquilo é defunto
em pé. Não é qualidade de homem para um como
eu.
- O caso é
que ele gosta dela. Estão sempre perto um do outro, ao passo
que o Crapiúna velho foi posto fora, como um cachorro tinhoso,
e está aqui gemendo no serviço...
E como o soldado,
em cujo coração se derramara fel, ficasse a cismar,
Belota afastou-se com um gracejo ferino:
- Ali é
ver com os olhos e comer com a testa ou lamber vidro de veneno por
fora, como rato de botica. Toma o meu conselho. Não te metas
com a bruxa que cheiras vara!
Crapiúna
não o ouviu. Contorcendo-se no martírio de onça
acuada, com o coração caldeado no peito, estremecia
à suspeita de um rival venturoso na disputa da cobiçada
presa.
CAPÍTULO
III
A população
da cidade triplicava com a extraordinária afluência
de retirantes. Casas de taipa, palhoças, latadas, ranchos
e abarracamentos do subúrbio, estavam repletos a transbordarem.
Mesmo sob os tamarineiros das praças se aboletavam famílias
no extremo passo da miséria - resíduos da torrente
humana que dia e noite atravessava a rua da Vitória, onde
entroncavam os caminhos e a estrada real, traçado ao lado
esquerdo do rio Acaracul, até ao mar, Eram pedaços
da multidão, varrida dos lares pelo flagelo, encalhando no
lento percurso da tétrica viagem através do sertão
tostado, como terra de maldição ferida pela ira de
Deus; esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos
automáticos dentro de fantásticos trajes, rendilhados
de trapos sórdidos, de uma sujidade nauseante, empapados
de sangue purulento das úlceras, que lhes carcomiam a pele,
até descobrirem os ossos, nas articulações
deformadas. E o céu límpido, sereno, de um azul doce
de líquida safira, sem uma nuvem mensageira de esperança,
vasculhado pela viração aquecida, ou intermitentes
rodomoinhos a sublevarem bulcões de pó amarelo, envolvendo
como um nimbo, a trágica procissão do êxodo.
Luzia viera
na enxurrada, marchando, lentamente, a curtas jornadas, e fora forçada
a esbarrar na cidade, por já não poder conduzir a
mãe doente. Do capitão Francisco Marçal, o
homem mais popular da terra, tão procurado padrinho, que
contratara com o vigário pagar-lhe uma quantia certa, todos
os anos, por espórtulas dos batizados, obtivera, por felicidade,
uma casinha velha e desaprumada, onde se aboletou com relativo conforto.
A vida lhe correu bem durante seis meses. Havia trabalho e ela ganhava
o suficiente para se prover quase com fartura, Mas o coração
pressentia, então, com vago terror, o perigo das pretensões
de Crapiúna e ela procurava, por todos os meios, evitá-lo.
Seu primeiro impulso, depois que lhe ele ousara falar em termos
desabridos, foi anoitecer e não amanhecer; emigrar, confundir-se
nas levas de famintos em busca das praias ubertosas, com os lagos
povoados de curimãs, em cardumes assombrosos, os tabuleiros
irrigados por orvalho abundante, cheios de plantações,
e confinando, em contraste consolador, com a planície seca
e estorricada.
Além
se desdobrava o grande, o soberbo mar infindo e glauco, a rugir
lamentoso, despejando, envolta em rendas de espuma, a generosa esmola
de peixes, moluscos e crustáceos saborosos. Com a proteção
de Maria Santíssima venceria a travessia. Vinte léguas
galgam-se depressa. Talvez tombasse, como os míseros, cujas
ossadas alvejantes, descarnadas pelos urubus e marcarás,
iam marcando o caminho das vítimas da calamidade.
E a mãe,
a querida mãezinha, que era o seu tudo neste mundo? Não
era possível abandoná-la a cuidados estranhos, doente,
quase entrevada, como estava, a deitar a alma pela boca, quando
a acometia o implacável puxado. Os brincos e o cordão
de ouro, que lhe dera a madrinha, vendidos aos mascates da miséria,
não dariam com que pagar o transporte da pobre velha em carroças
puxadas por homens atrelados dois a dois, como animais de tiro.
Era esse, naquela quadra de infortúnio, o veículo
das famílias abastadas, que já não possuíam
cavalos e muares de carga e montaria.
Nessa triste
conjunção, venceu o dever. Luzia ficou resoluta a
enfrentar, de ânimo sereno, o destino, e aparelhada para suportar
os mais dolorosos lances da adversidade. Continuaria a trabalhar
sem desfalecimento, retraindo-se quanto pudesse para evitar encontros
com o importuno soldado. Por fortuna sua, Alexandre, o amigo dedicado
e afetuoso, que se lhe deparara entre a multidão de desconhecidos
e indiferentes, moço de maneiras brandas, muito paciente,
muito carinhoso, com a tia Zefa, passando serões, noites
em claro junto dela e da filha, num recato de adoração
muda e casta, lhe poupava o vexame de ir à cidade: era ele
que ia ao mercado comprar a quarta de carne fresca para o caldo
da enferma, os remédios e consultar o médico, mister
em que era auxiliado pelo Raulino, outro amigo da família.
Uma tarde, ao
voltarem juntos da obra, Alexandre, impressionado pelo tom de penosa
preocupação bem acentuado no semblante de Luzia, disse-lhe
a medo:
- Se a senhora
não se zangasse, eu acabava com essa reinação,
dando um ensino ao Crapiúna ...
- Não
quero - retorquiu Luzia vivamente - Não tenho medo daquele
miserável, mas não desejo dar nas vistas dessa gente
desabusada. Depois que hão de dizer? ... Você não
é nada meu para tomar dores por mim ... Aquilo não
tem entranhas de cristão: é um malfazejo ...
Alexandre sentiu-se
humilhado, supondo que a moça desconfiasse do seu valor,
e, continuou com brandura tímida:
- Não
seria a primeira vez ... Não sou nada seu, mas sou um homem
capaz de jogar a vida em defesa de uma mulher de bem. Pensei que
não se agravaria comigo ...
- Agravar-me?!
... Não pensei nisso. Não quero que se sacrifique
por mim, que já muito lhe devo - favores que só Deus
pagará. Imagine a briga de dois homens, pancadas, ferimentos,
um crime e o meu nome detestado passando de boca em boca., Luzia-Homem
causadora de tudo... Não quero, não. Faça de
conta que aquele mal-encarado homem não existe ... Não
tenha receio, Alexandre, eu sei defender-me. De mais a mais. ..
tudo passa ...
Luzia confiava
na ausência, mãe do esquecimento, para conjurar o perigo;
entretanto, um mês depois, recebeu uma carta de Crapiúna,
transbordante de frases de amor, em prosa e verso - protestos lânguidos
e trovas populares, escritas em péssima letra sobre papel
de cercadura rendilhada, tendo, no ângulo superior, à
esquerda, um coração em relevo, crivado de setas,
desfechadas por travessos Cupidinhos alados. E leu-a com assombro
e cólera, como se as letras disformes, enfileiradas em tortuosas
linhas, e o pensamento sensual nelas expressado, lhe vergastassem
cruelmente o rosto.
- Este homem
será o causador da minha desgraça - murmurou ela com
um soluce de pranto sufocado.
- Que tens,
filha? - inquiriu a mãe... - Estás tão alterada?
... Que houve?
- Nada, mãezinha
- respondeu Luzia, disfarçando a emoção que
a conturbava - É este labutar constante, sem esperança
de melhoria, e a sua doença que me apertam o coração
...
- Tu me encobres
alguma coisa. Estás afrontada?
O peito de Luzia
arfava descompassado, e seus rijos seios espetavam, em sacudidos
golpes trêmulos, a delgada camisa.
- Tenho ouvido
dizer - continuou ela - que banhos salgados são bons para
reumatismo. Se pudesse levá-la para as praias... Bastava
chegarmos com vida à Barra. Daí para os Patos é
um pulo. Ficaríamos acostados à gente do meu padrinho
José Frederico, que é rico e bom para os pobres.
- Tenho medo...
Nunca vi o mar. Dizem que é bonito, perigo e traiçoeiro.
Inda que fosse essa viagem a salvação. Como queres
que me mexa? Não vês? Estou impossibilitada de andar
neste quarto, quanto mais para fazer a travessia deste sertão
inclemente! ... Ai! ... Deus não quer, filha. São
os meus pecados, que me encaranguejam as pernas. Já fiz uma
promessa a São Francisco das Chagas de Canindé para
que ele me pusesse em estado de caminhar com os meus pés;
e... nada ... Cada vez mais me incham as juntas e se me entortam
os ossos. . .
Subjugada pelo
impossível evidente, inelutável, a moça estraçalhou
com as unhas pontudas a carta fatal. A mãe tinha razão.
Deus não queria. Era forçoso ficar, amarrada àquele
poste de amor e sacrifício, onde morria, em lento martírio,
a mãe adorada, arrostar o perigo pressentido, o acinte da
paixão do lúbrico soldado. Era formoso ficar exposta
ao insulto daquela atrevida e grosseira insistência repugnante;
e sucumbir, talvez, assoberbada de vilipêndio e ultrajada
como as outras desditosas, arrastadas pela miséria à
crápula abjeta.
Sob os músculos
poderosos de Luzia-Homem estava a mulher tímida e frágil,
afogada no sofrimento que não transbordava em pranto, e só
irradiava, em chispas fulvas, nos grandes olhos de luminosa trevas
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