Luzia
Homem, de Domingos Olímpio
CAPÍTULO
VI
Setembro de
1878 ia em meados, e não apareciam no céu límpido,
de azul polido e luminoso, indícios de auspiciosa mudança
de tempo. Não se encastelavam no horizonte, os colossais
flocos a estufarem como iriada espuma; nem, pela madrugada, cirros,
penachos inflamados, ou, em pleno dia, nuvens pardacentas, esmagadas
em torrões. À noite, constelações de
rutilante esplendor tauxiavam o firmamento, e a lua percorria, melancólica,
a silenciosa senda.
Como que se
percebia no abismo do espaço infindo, a eterna gestação
do cosmos, operoso e fecundo, em flagrante criação
de mundos novos. E, na gloriosa harmonia dos astros, na expansão
soberba da vida universal, a terra cearense era a nota de contraste,
um lamento de desespero, de esgotamento das derradeiras energias,
porque o sol sedento lhe sorvera, em haustos de fogo, toda a seiva.
Olhares ansiosos
procuravam, em vão, o fuzilar de relâmpagos longínquos
a pestanejarem no rumo do Piauí, desvelando o perfil negro
da Ibiapaba. Nada; nem o mais ligeiro prenúncio das chuvas
de caju.
O sertão
ressequido estava quase deserto: campos sem gados, povoações
abandonadas. E a constante, a implacável ventania, varrendo
o céu e a terra, entrava, silvando e rugindo, as casas vazias,
como fera raivosa, faminta, buscando e rebuscando a presa, e fazendo,
com pavoroso ruído, baterem as portas de encontro aos portais,
num lamentoso tom de abandono.
As pastagens
de reserva, nos pés de serras, protegidas por espessa facha
de catingas impenetráveis, onde se criavam famosos barbatões
bravios, haviam sido devoradas ou estruídas e pesteadas pela
acumulação de rebanhos em retiradas numerosas. E,
à grande distância, sentia-se o fedor dos campos inficionados
por milhares de corpos de reses em decomposição.
Não havia
mais esperança. Os horóscopos populares aceitos pela
crendice, como infalíveis: a experiência de Santa Luzia,
as indicações do Lunário Perpétuo e
a tradição conservada pelos velhos mais atilados,
eram negativas, e afirmavam uma seca pior que a de 1825, de sinistra
impressão na memória dos sertanejos, pois olhos-d'água,
mananciais que nunca haviam estancado, já não merejavam.
Os socorros,
distribuídos pelo Governo, não pcdiam chegar aos centros
afastados, por falta de condução, ou eram os comboios
de víveres assaltados por bandos de famintos, malfeitores
e bandidos, organizados em legiões de famosos cangaceiros.
Em tão
aflitiva conjunção, era natural que os retirantes,
por instinto de conservação, procurassem o litoral,
e abandonassem o sertão querido, onde nada mais tinham que
perder; onde já não podiam ganhar a vida, porque à
miséria precedera o fatal cortejo de moléstias infecciosas,
competindo com a fome e a sede na terrível faina de destruição.
Luzia encontrara
em Sobral, abrigo e fáceis meios de subsistência; mas
pressentia iminente perigo do capricho ou paixão brutal de
Crapiúna. Era forçoso procurar outro refúgio,
e por isso espreitava, ansiosa, os mais ligeiros sintomas da moléstia
da mãe, sinais de melhora, para empreenderem a anelada viagem
aonde a distância a preservasse dos contínuos sustos
e vexames afrontosos. Não confiava no projeto de mudança
para a ladeira da Mata-Fresca, dependente de condição,
que não resolvera ainda aceitar, além de que ficaria
a duas léguas, apenas, da cidade.
Já não
ia, diariamente, ao trabalho. Ficava em casa, tratando com desvelado
carinho, a pobre mãe, cada vez mais trôpega. Felizmente,
o capitão João Braga lhe abonava as rações,
e Alexandre não se descuidava de repartir com elas, quanto
ganhava, apesar da relutante recusa, oposta à sua espontânea
generosidade. Ele vivia folgadamente, porque passara de apontador
a fiel do armazém, onde havia grande depósito de mantimentos
e todos os valores do almoxarifado. Tinha de mais para si, e doía-lhe
no coração não poder aliviar as necessidades
dos pobres, seus companheiros de infortúnio.
Um dia, pela
manhã, encontrou Luzia desanimada: a mãe passara mal
a noite, inquieta, afrontada, como se lhe apertassem o peito ou
não houvesse bastante ar respirável no estreito quarto.
- Deus não
quer, filha - dizia a velha com o seio ofegante e mal articulando
as palavras - Deus não quer... Seja feita a sua ... santa...
vontade...
- Mãezinha
tem tido isto tantas vezes - ponderava Luzia, afetando serenidade
- Isto é puxado... Cheire este frasco...
- Parece que
tenho ar encausado... aqui... Olha, sinto uma bola... qualquer coisa
que me tapa o fôlego. Abre bem a porta... Abana-me... Se eu
tomasse o vomitório de papaconha...
- Corno está,
tia Zefinha? - inquiriu Alexandre, chegando à porta do quarto.
- Como quem
está se acabando... Ai Jesus!... Que aflição!...
- Por que não
toma aquela garrafa que o doutor receitou?...
- Tenho medo...Disse-me
a Chica Seridó que tem veneno... doreto...
- Então
ela sabe mais que o doutor?!... Tome, experimente...
- Ah, Alexandre;
já pedi, roguei, não sei mais que fazer para mãezinha
tomar a receita - observou Luzia, quase em lágrimas.
- Há
de ser o que Deus for servido...
- Mas tome sempre,
tia Zefinha. Faça-me esta vontade. É para seu bem...
- Enfim - concluiu
a velha condescendendo - vá lá... No meu estado, só
um milagre... Não quero que voce diga que não o atendi
antes de morrer...
E tomou uma
colher da poção, administrada pela filha.
- Aqui está,
na garrafa - disse Alexandre repetindo o que estava escrito no rótulo
- uma colher das de sopa antes de cada refeição. Quando
voltar do serviço, quero encontrar vosmecê aliviada.
Adeus, Luzia! O sol já está alto. Vou andando... E
eu que devia estar no armazém às seis em ponto...
Desde o dia
em que foram alvo das chufas da malta de vadias, capitaneadas pela
Romana, Alexandre apenas uma vez pedira a Luzia, com muitos rodeios
e acanhamento, resposta à proposta de casamento. Ela, porém,
nada lhe respondera, limitando-se a, com um gesto de desânimo,
indicar-lhe a mãe, como se a doença dela fosse invencível
obstáculo.
Ocultava ao
moço, resignado, nutrido de esperanças, o haver recebido
cartas de Crapiúna, qual mais apaixonada, qual mais recheada
de expansões de amor, acrisolado pela resistência;
todas salpicadas de alusões iradas ao outro mais afortunado,
e ameaças de não poder sofrear os estos de ciúme
que o devoravam, ou de acabar com a própria vida, porque
para ele só havia Deus no céu e ela na terra.
Ao menino, que
lhe levava as cartas, Luzia respondia invariavelmente: - Diga esse
homem que me deixe sossegada, que não se meta com a minha
vida! Mas, por um impulso de curiosidade, muito humano e sobretudo
muito feminino, tivera a fraqueza de lê-las, o que ela considerava
uma vergonha, senão crime injustificável. Também
não ousara contar a Alexandre que o soldado havia aparecido
várias vezes na residência. Uma noite passava ele com
o Belota e tivera o atrevimento de fazer-lhe uma serenata cantando
à viola, quase no terreiro da casa, modinhas e canções
eróticas, que terminavam nesta saudosa endecha:
"Vou me
embora, vou me embora,
Como fez a saracura;
Bateu asas,
foi cantando:
Mal de amores
não se cura!..."
Ouvindo-o, Luzia
tremia de indignação e terror, suspirando de alívio,
quando se sumiu ao longe, o pesqueiro batido, acompanhando a voz
fanhosa de Belota, a cantar:
"Quem quiser
ser bem-querido,
Não se
mostre afeiçoado,
Que o afeto
conhecido,
É sempre
o mais desprezado."
- Não
sei como essa gente ainda tem coragem de cantar - gemia a velha
Zefa - É uma falta de coração...
Pouco depois
da partida de Alexandre, prometendo voltar cedo com o doutor Helvécio
Monte, surdiu o pequeno mensageiro com uma, carta, que deixou sobre
o pilão, por ter Luzia recusado recebê-la. Entretanto
não pôde ainda resistir à curiosidade, e reincidiu
na culpa nefanda de abri-la. E leu:
"Minha
Santa Luzia - Esta tem por fim unicamente, dizer-lhe que se há
de arrepender da sua ingratidão e quem lhe diz isto é
o seu amante fiel até a morte - Crapiúna."
- É preciso
acabar com isto, custe o que custar, - murmurou a moça inflamada
de cólera - Este malvado me há de desgraçar...
Passou o dia
preocupada, e procurando espairecer com desvelos à mãe,
mais acalmada com a poção de iodureto de potássio,
o venenoso remédio, que, na opinião da Seridó,
fazia apodrecerem os ossos, caírem os dentes e pôr
o estômago em carne viva, quando seria mais eficaz a purga
de mel de abelha e um emplastro de sabão da terra com um
pinto pisado vivo; ou com o vomitório de cardo-santo, chá
de erva-doce para desempachar o ventre, e raiz de pega-pinto por
causa da retenção de ourinas.
- Com esses
remédios sarara a defunta Desidéria - afirmava a feiticeira
- que padecia de um puxado com apertos do coração
e uma dor que lhe tomava o fôlego, respondia - lá nela
- nas cruzes e alastrava pelo braço esquerdo, que às
vezes ficava esquecido. Vivera a enferma muito tempo, trabalhando
como uma negra, apanhando sol e chuva; e, se não fora um
ataque violento que não deu tempo para nada ainda estaria
vivendo, com a graça de Deus. Remédio de botica havia
levado muita gente desta para melhor vida.
Luzia inquietava-se
com a demora de Alexandre, que era pontual à hora do jantar,
servido sobre uma tosca mesa improvisada com uma tampa de caixão
de pinho, apoiada em quatro forquilhas.
O sol descambava,
deixando as cumeadas áridas da serra do Rosário, quando
apareceu Teresinha quase a correr e de semblante apavorado.
- Que foi? -
perguntou Luzia sobressaltada - Que aconteceu? Que é do Alexandre?...
Teresinha tomou-lhe
do braço, levou-a para fora do alpendre e disse-lhe, com
voz sacudida de tristeza:
- Uma desgraça!
...
- Brigaram?
- inquiriu Luzia ansiosa, encarando no semblante da moça
ruiva para lhe aprender a misteriosa notícia.
- Imagina que
eu voltava da obra e, quando dei por mim, foi com a gralhada de
Romana, aplaudindo com as parceiras. Aquelas não-sei-que-diga
riam como doidas varridas. Uma dizia: Foi bem feito! A outra resmungava:
Bulir com o de-comer dos pobres!... Que miséria!... Se fosse
só feijão - grazinava a deslambida da Romana - meu
Deus, perdoai-me... Passou as unhas no dinheiro. Quem havera de
dizer - rosnava a Joana Cangati, aquela sirigaita, que tem o bucho
caído - que aquele sonso...
- Mas... que
aconteceu, mulher de Deus?
- Cheguei-me
a elas e sube então... Imagina como fiquei estatelada, e
caí das nuvens quando me disseram que Alexandre estava preso...
- Preso!...
- exclamou Luzia aterrada - Preso?! ... Preso por quê?...
- Foi o que
perguntei. Então a avoada da começou a caçoar:
Ora o moço precisava preparar-se para o casório; não
teve dúvidas; passou a mão...
- Mas... é
mentira!...
- Eu também
tenho Alexandre em conta de pessoa incapaz de se sujar com o alheio;
mas a verdade é que foi preso e lá está, na
casa da Comissão, com o Delegado...
- É impossível,
Teresinha. Você não acha que Alexandre é incapaz
de tamanha miséria?...
- É o
que lhe estou dizendo, minha camarada. Está preso e não
tem quem puna por ele: todos o acusam, porque tinha a chave do armazém;
apareceu hoje fora de horas...
- Oh! Meu Deus!
Era só o que faltava! Juro que é falso! Caia eu morta,
se não tenho certeza do que digo.
E, dirigindo-se,
firme e resoluta, ao quarto, abrigou-se no amplo lençol branco,
dizendo à mãe, surpreendida pelos modos agitados.
- Volto já,
mãezinha... É um instantinho ... Teresinha fica ...
Sem atender
às observações da velha, passou rápida
ao alpendre, e suplicou:
- Você
faz companhia àquela pobre... minha amiga. Faça-me
esta esmola pelo amor de Deus...
- Que vai fazer?
- Não
sei ... Deixe-me ...
Com um movimento
violento desvencilhou-se de Teresinha, que tentara detê-la,
e partiu em desvairada corrida.
CAPÍTULO
VII
Além
da habitual aglomeração de retirantes na rua do Menino
Deus, à porta do armazém da distribuição
de, socorros, algo havia de extraordinário, a julgar pelos
modos assustadiços, os olhares de maligna curiosidade do
mulherio, que se acotovelava aos empuxões para observar o
que se passava no interior, onde estavam reunidos os membros da
Comissão, o delegado de polícia e o promotor público.
Dois soldados, Belota e Cabecinha, guardavam a porta, com ordem
de vetar a entrada a quem quer que fosse. Crapiúna girava
entre o povilhéu, contendo, com maus modos, os exaltados,
que protestavam contra a demora da distribuição das
rações, principalmente as mulheres que haviam deixado
em casa filhos pequenos, sem um grão de farinha para fazer
um mingau.
- Cessa rumor!
Cambada - intimava Crapiúna, com a costumeira impostoria
- Vocês ou ficam quietos e calados ou arribam daqui. Em fariscando
comida, ficam logo assanhadas...
E continuava
a ronda, sob um chuveiro de imprecações e motejos,
que a sua excessiva grosseria provocava.
Os cidadãos
incumbidos pelo Governo da penosa tarefa de distribuir socorros,
desempenhavam com excepcional e caridosa dedicação,
os seus deveres, mantendo o mais escrupuloso zelo e probidade na
administração do serviço. Não houvera
ainda um caso de muamba, coisa muito vulgar em outros centros de
afluência de retirantes, nos quais se explorava escandalosamente
a miséria, e se desviavam, para serem vendidos por excessivo
preço, os víveres destinados aos infelizes famintos.
Era, pois, natural que, ciosos de tão honrosos precedentes,
ficassem muito impressionados com o roubo de gêneros e de
duzentos mil réis em dinheiro, denunciado, naquela manhã,
pelo almoxarife.
A porta do armazém
fora encontrada aberta, sem o menor vestígio de violência,
caixas com fazenda abertas e a gaveta que continha o dinheiro arrombada.
Estavam bem patentes os indícios do crime, pegadas, do ladrão
impressas na poeira, pingos de velas de carnaúba sobre as
caixas e o instrumento, empregado para forçar a gaveta, um
grande formão de carpinteiro.
Quem seria o
audacioso criminoso? O nome de Alexandre, pronunciado por lábios
anônimos, no meio da turba, foi logo envolvido pela sinistra
atmosfera da suspeita. Ele guardava as chaves do armazém;
era empregado de inteira confiança, conquistada pelo mais
irrepreensível procedimento, e os mais abonados precedentes;
mas não se podia eximir da responsabilidade do fato, senão
por desídia, por falta de vigilância. Demais, naquele
dia, ele sempre pontual, chegara tarde, notando-se-lhe no semblante
profunda perturbação ao encontrar a porta aberta,
e o almoxarife, que o interrogava com o olhar severo. Não
pudera, no primeiro momento, se justificar ou explicar as circunstâncias
que o denunciavam. Indicações vagas, circulando na
massa de retirantes, aludiam a fatos que davam corpo às suspeitas.
Ele estava para casar; pretendia deixar a cidade; era bem possível
que a paixão por Luzia-Homem o alucinasse ao ponto de arrastá-lo
a tamanha desgraça. Por outro lado, alguns amigos que o não
abandonaram na hora do infortúnio, alegavam que, tendo as
chaves, não necessitaria de deixar a porta aberta, apenas
encostada, recorriam aos precedentes de porte ilibado, a doçura
de caráter, maneiras de pessoa bem-ensinada e de boa procedência.
Entre os pró
e contra, prevaleceu o depoimento de Crapiúna, afirmando
haver visto, à meia--noite, mais ou menos, um vulto com uma
trouxa volumosa subir apressadamente a rua na direção
da igreja. Não jurava que fosse Alexandre, por não
ter, em consciência, absoluta certeza, e para que não
dissessem que o acusava por andar enticado com ele; mas a verdade
é que tinha o mesmo andar e a mesma estatura. Não
o perseguira por não lhe passar, então, pela cabeça,
a idéia de um crime tão vil. Belota confirmava, em
todas as minúcias, a história do camarada, protestando
todavia, que, até à véspera, seria capaz de
meter a mão no fogo por tão bom moço; mas...
a ocasião fazia o ladrão...
Alexandre foi
interrogado. Estava tão abatido pela comoção,
que fez declarações incongruentes, contraditórias
e inverossímeis, nem pôde explicar, de modo plausível,
a demora. Acossado pelas questões da autoridade, limitava-se
a protestar com voz angustiada:
- Juro que sou
inocente, seu Delegado. Eu nunca me sujei com o alheio. Antes me
secassem as mãos e me faltasse a luz na hora da morte!
Continuava o
interrogatório, aliás conduzido com imparcialidade
complacente, quando a audiência foí interrompida por
estranho rumor, gritos e imprecações ameaçadoras,
estrugindo na rua. Aquecidas as faces pela fadiga da caminhada,
os grandes olhos lampejantes de chispas fugitivas e o traje em desalinho,
Luzia penetrou nos densos magotes humanos, que lhe embaraçavam
a passagem, com ímpeto irresistível; e foi abrindo
larga brecha, afastando aos empurrões homens e mulheres,
sob uma saraivada de remoques, queixumes e impropérios.
- Arreda, que
lá vem Luzia-Homem, como uma danada! ...
- Mulher do
demônio, você não enxerga a gente, sua bruta?!
...
- Esta excomungada
está com o diabo no coiro!...
- Vote! malvada!
...
- Ficou como
lacraia assanhada, por causa do macho...
Luzia era insensível
às queixas e insultos, foi avançando sem desfalecimento,
sem hesitação. Ao enfrentar a porta, Belota pretendeu
tolher-lhe o passo, mas foi repelido com possante e rápido
movimento. Igual sorte tiveram Cabecinha e Crapiúna. Este
lhe não ousou tocar, inanido por estranho terror. Surdiu,
enfim, na sala, e parou indecisa, espantada por se achar entre pessoas
notáveis, aturdidas pela surpreendente invasão. Depois
se dirigiu a Alexandre, que a contemplava estupefato, num misto
de assombro e alvoroço.
- Que foi isto,
seu Alexandre? ...
- Nada - respondeu
ele, baixando os olhos - Um impute, que me fizeram ...
- Mas é
falso!... Não é?...
- Juro por alma
da defunta minha mãe...
E grossas lágrimas
lhe deslizaram pelas faces tostadas, embebendo-se na barba crespa
e aloirada.
- Seja homem,
Alexandre - disse-lhe então a moça, com voz vibrante
e enérgica - Deus é grande!... Quem não deve,
não teme! ...
- Choro de vergonha,
porque nunca me vi em semelhante desgraça...
Ela, animando
Alexandre com a protetora carícia de um olhar inefável,
voltou-se resoluta e calma para os circunstantes. Do desalinho das
roupas, o lençol pendido do braço a arrastar pelo
chão, o cabeção de renda emoldurando o seio
nu e palpitante, as desgrenhadas madeixas a lhe caírem em
ondulações fulvas de serpentes negras; dos olhos,
do gesto e da voz, um concerto de convicção e firmeza,
irradiava sobrenatural encanto, empolgando o auditório, subjugado
pela esplêndida e fascinante exibição da força
e da beleza, harmonizadas naquela admirável criatura.
- Saberão
vossas senhorias - exclamou, em vibrações fortes e
sonoras - que este homem não é nada meu!... Nem parentes
somos, senão por Adão e Eva. Posso morrer sem confissão.
Meu corpo não tem pechas, nem pecados a minh'alma...
E estendeu os
braços, num gesto largo e franco de inocência que se
exibe:
- Entre essa
gente maligna que faz pouco de mim, essa gente desalmada que me
persegue, como se eu fora uma excomungada ou um bicho brabo, encontrei
nele um amigo, um irmão; e hoje, abaixo de Deus, é
ele quem me ajuda a sustentar os dias de minha mãe, entrevada
dentro de uma rede. Estas noites temos passado juntos fazendo quarto
à pobre velha que gemia com dores de fazer cortar coração.
Hoje, de manhãzinha, esteve lá em casa e pedi-lhe
que fosse procurar o doutor... Ah! meus senhores, até os
bichos são agradecidos, quanto mais criaturas cristãs.
E aqui está, em pura verdade, porque eu puno por ele e juro
que está inocente...
- Não
temos provas - observou o Delegado - Por ora só há
contra ele suspeitas, indícios...
- Então
por que o prenderam? Pois se envergonha um homem sem quê nem
para quê, por um impute?...
Em benefício
dele; para apurar a verdade...
E se não
conseguirem isso? - perguntou Luzia impaciente - Ficará preso
toda a vida?!...
- Não
se aflija - ponderou o promotor, intervindo, e no intuito de amenizar
a pungente cena - Sente-se, repouse. A senhora está muito
exaltada, acalme ... Que estupendo tipo! Que formoso cabelo - observou
à puridade, voltando-se para um dos comissários.
Luzia reparou,
então, em seu desalinho, e sentiu um calefrio de pejo, como
se a lambessem aqueles olhos que a fitavam com insistência,
olhos mortos de volúpia. Colheu os cabelos, toda aflita e
ruborizada; enrolou-os rapidamente, e os prendeu com um gesto gracioso
no alto da cabeça, e abrigou-se no lençol branco de
babados de cambraia de salpicos.
- Donde é
natural? - inquiriu o Promotor.
- Eu me chamo
Luzia Maria da Conceição. Sou filha do Ipu. Meu pai,
que Deus haja, era vaqueiro das Ipueiras do Major Pedro Ribeiro...
Está ouvindo, seu doutor?
Ela aludia a
gritos e gargalhadas do povilhéu, bradando na rua: Luzia-Homem!...
Metam ela na cadeia que se descobre tudo!.. Aviem os pobres que
estão aqui esperando com fome!..
- Por que lhe
deram essa alcunha?
- Eu lhe digo,
seu doutor. Desde menina fui acostumada a andar vestida de homem
para poder ajudar meu pai no serviço. Pastorava o gado; cavava
bebedores e cacimbas; vaquejava a cavalo com o defunto; fazia todo
o serviço da fazenda, até o de foice e machado na
derrubada dos roçados. Só deixei de usar camisa e
ceroula e andar encoirada, quando já era moça demais,
ali por obra dos dezoito anos. Muita gente me tomava por homem de
verdade. Depois meu pai, coitadinho, que era forte como um touro,
e matava um bode taludo com um murro no cabeloiro, morreu de moléstias,
que apanhou na influência da ambição de melhorar
de sorte, na cavação de ouro no riacho do Juré.
Daí em diante, começamos a desandar. Minha mãe,
sempre muito doente, e nós duas muito pobres de tudo, menos
da graça de Deus, vendemos as miúças e cabeças
de gado, que tiramos à sorte da produção da
fazenda, os animais de campo e até o meu cavalo castanho-escuro,
calçado dos quatro pés e com uma estrela na testa
... o meu querido Temporal... Tudo isso para não morrermos
de fome quando veio esta seca...
Soluços
lhe embarcaram a voz, e desatou em copioso pranto.
- Sossegue moça
- disse-lhe o Delegado compassivo - A sua sorte nos interessa. Está
entre amigos de quem só deve esperar benefício; mas
... é preciso ter paciência. Alexandre tem por defesa
os melhores precedentes e todos o abonam; entretanto é indispensável
que fique detido enquanto duram as diligências do inquérito
...
- Preso?! ...
Não é possível! - exclamou Luzia - Vossa senhoria
não fará tamanha injustiça. Eu lhe peço
por vida de seus filhinhos... Alexandre é inocente! ...
E rojou-se de
joelhos, aos pés do Delegado.
- Tenha paciência!
- murmurou este comovido, e tentando erguê-la.
Luzia não
se conformava com a horrível idéia da prisão;
e continuou a suplicar, muito condolente.
Alexandre já
não podia suportar aquele espetáculo, que lhe macerava
a alma. Suspirou de alívio quando o Delegado mandou conduzi-lo;
e, ao passar por ela, disse-lhe com firmeza:
- Tenha coragem.
Cadeia não se fez para animais. Espero em Deus sair limpo
desse impute que me levantaram ... Vá para junto da tia Zefa
que eu me arranjo...
Tanto que o
preso partiu escoltado pelos soldados Belota e Cabecinha, Crapiúna
assomou na sala, mesmo em frente de Luzia, cujo olhar dolente acompanhava
o moço e se fixava na porta por onde o levaram. A figura
do soldado, detestável de arrogância triunfante, substituindo
o preso, no campo da visão desvairada, interrompeu imediatamente
a aniquiladora impressão de mágoa; e a moça,
transformada por encanto, estremeceu num esto de ódio, que
lhe faiscou no olhar, como um corisco.
- Aqui está,
seu doutor - exclamou ela, indicando o soldado, com um soberbo gesto
de indignação - Aqui está o asa-negra que me
persegue, pensando que eu sou da laia dele... Este homem me atormenta
com malcriações, com cartas... Espere... Tenho uma
comigo...
E retirou do
seio, de envolta com o cacho de cravos murchos, a última,
carta de Crapiúna.
- Eis - continuou
trêmula de cólera - a carta que este... não-sei-que-diga...
me mandou hoje...
O Promotor tomou
a carta; leu-a, sorriu-se e passou-a ao delegado, segredando-lhe:
- Há,
talvez, em tudo isso um drama de amor.,
- De pouca vergonha,
seu doutor, atalhou Luzia - Ele devia saber que sou uma rapariga
direita...
Depois de ler
a carta, voltou-se o Delegado para o soldado, que até então
mantinha ares de basófia:
- Que quer dizer
isto?...
- Saberá
vossa senhoria que não é nada... - balbuciou ele,
sorrindo irônico.
- Nada!... Que
significam as suas palavras de ameaça?...
- É um
modo de falar para fazer medo e caçoar com ela... Negócio
de namoro...
- Namoro, seu
atrevido... Pois o senhor fica responsabilizado por qualquer falta
de respeito, ou tudo quanto suceder a esta moça... - Por
causa disso - observou o escrivão Antônio Rufino -
é que ele foi removido da polícia do Curral do Açougue...
- Eu não
quero fazer mal a ela, seu Delegado. De mais a mais não é
crime a gente querer bem e pretender uma moça dessas...
- Não
admito observações. Retire-se... Veja como se porta!...
Crapiúna
fez continência e deu meia volta, com inexcedível garbo
militar, lançando a Luzia sarcástico olhar de desafio.
- Vá
descansada, moça - disse-lhe o Promotor, com meiguice - Sua
mãe reclama os seus cuidados. Quanto a Alexandre, a justiça
empregará todos os meios e esforços possíveis
para descobrir o verdadeiro autor do delito. Estou persuadido que
é inocente.
- Deus lhe pague,
meu senhor... Deus lhe dê saúde e felicidade... Queira
perdoar a minha ousadia... Fiquei fora de mim... - Suspirou ela,
com lágrimas na voz.
E compondo as
dobras do amplo lençol de mandapolão, saiu lentamente,
desconsoladamente, acabrunhada de dor e vergonha.
O Promotor voltando-se,
então, para o Delegado e os Comissários, ponderou:
- Não
será esta carta um indício precioso?... Na minha opinião,
deve ser vigiado aquele soldado.
CAPÍTULO
VIII
Teresinha informara
a tia Zefa do caso de Alexandre, procurando, com tortuosas e vagas
digressões, amortecer o choque demasiado rude, e substituir
a filha ausente, preparando o caldo, ,ajudando a velha a mudar de
posição, e convencendo-a de tomar o remédio,
que tinha um sabor mau de azinhavre.
- Deus te pague
- repetia a velha, fazendo uma careta de repugnância e escarrando
com ruído - e perdoe os teus pecados. Bem sabia que o teu
coração é bom... Ai... o que te falta é
cabeça...
- A minha sina
é que não foi boa... - observou a moça com
requintes de ternura e meiguice - Se a gente pudesse adivinhar;
se soubera o que me havia reservado quando saí de casa...
- E Luza que
não volta!...
- Se não
fossem os cuidados estaria melhor, porque o puxado vai passando...
- É o
remédio... Tome outra vez...
- Já
estou encharcada de mezinha... Coitada da minha filha!...
- Descanse que
ela não tarda aí...
- Pobrezinha!
... O dia inteiro, com uma triste xícara de café escoteiro.
Ao escurecer
regressou Luzia. Vinha taciturna e triste, rendida de fadiga. Tomou
a bêncão à mãe; apertou Teresinha contra
o seio, numa demorada e silenciosa expansão de reconhecimento,
e deixou-se cair acocorada à soleira da porta do quarto,
em postura de desânimo, os cotovelos fincados sobre os joelhos
e a cabeça apoiada nas mãos.
- Seu de-comer
- disse-lhe Teresinha - está guardado...
- Não
tenho fome...
- Ao menos uma
xícara de café...
- Deixa-me descansar.
- E Alexandre,
filha? - inquiriu a velha plangente.
- Está
preso!... Levaram-no para a cadeia como um mal-feitor...
- Diz-me o coração
- atalhou Teresinha - que ele está penando injustamente...
Mas... deixem estar que vou farejar o ladrão... Conheço
uma velha que faz a adivinhação da urupema e sabe
rezar o respônsio de Santo Antônio. Não há
furto que não descubra. Uma coisa é ver, outra é
dizer. Parece que tem parte com o cão...Meu Deus perdoai-me...
- São
abusões - murmurou a velha.
- Pois amanhã
cedo vou atrás dela, da Rosa Veado, que mora na Fortaleza,
nos quartos da Lianor, e vosmecê há de ver...
- Pode ir embora,
Teresinha - disse-lhe Luzia, quebrando o longo silêncio -
Você já fez muito por nós...
- Eu?!... Ai,
gentes! Que grande incômodo!... Agora é que fico mesmo
aqui ajudando. Durmo ali, na esteira, junto do jiral, ou em qualquer
parte. Basta ter onde encostar a cabeça...
E, acendendo
fogo num cigarro de papel amarelo, continuou contando casos maravilhosos
da feitiçaria de Rosa Veado que, além dessa habilidade,
era insigne parteira, muito cuidadosa, muito feliz.
Teresinha ficou.
Passou a. fazer parte da família pois não tinha ânimo
de abandonar as duas criaturas, repassadas de amargos sofrimentos,
sozinhas naquela casa, sem uma alma condoída que as consolasse.
Sabia quanto custava a privação súbita da companhia
afetuosa de um ente querido; tinha a dolorosa experiência
do abandono e das fatais conseqüências da orfandade do
coração. Era quem cuidava da doente nas ausências
de Luzia, muito preocupada no andamento do inquérito sobre
o roubo. Às provisões que, escassamente, chegariam
para mantê-las, ajuntava o pouco que podia conseguir: algumas
gulodices, ovos, manteiga e açúcar, adquiridas por
preços absurdos. Tomara a seu cargo os serviços da
casa, menos os braçais, como rachar lenha e pilar café,
porque era aberta dos peitos cuspia sangue sempre que abusava dos
seus delicados músculos.
Procurara, conto
dissera, Rosa Veado para rezar o respônsio; esta, porém,
exigira dinheiro para comprar duas velas para o santo, luz sagrada,
indispensável para o êxito do sortilégio, circunstância
que ela não revelou a Luzia, por querer que o descobrimento
do criminoso fosse devido, exclusivamente, à sua iniciativa.
Arguta rapariga,
afeita ao contacto do vício e do crime, a percebê-los
por intuição, estava convencida da inocência
de Alexandre, e julgava obra de malvados, a infamante imputação.
- Ele não
tem cara de ladrão - dizia - Conheço pela pinta quem
pega no alheio; e nunca me enganei... Não se me dava de apostar...
Enfim, não quero condenar a minha alma, levantando falso
a ninguém; mas... deixem estar que hei de desmascarar os
safados, que não têm consciência para fazerem
sofrer um pobre...
As reticências
irritavam Luzia que, por sua vez, só pensava em deslindar
o mistério.
- Ah! Se eu
tivesse dois mil réis!... - suspirou Teresinha.
- Para que queres
dois mil réis?...
- Para uma coisa
que só eu sei...
E passaram-se
dias.
Da frugal comida
Luzia separava, todos os dias, uma porção que levava
a Alexandre. Apesar dos remoques de Belota e dos encontros com Crapiúna,
ela cumpria, pontualmente, o dever de visitar o preso e conversava
com ele alguns momentos, por entre as grades da cadeia, uma grande
sala, no andar térreo da casa da Câmara, onde estavam
empocilgados mais de cem homens.
Alexandre não
se conformara com a promiscuidade entre criminosos dos mais abjetos.
Havia ali assassinos, condenados a penas máximas, envelhecidos
naquele recinto miasmático; ladrões que narravam,
com repugnante bravata, façanhas deprimentes; moços
impulsivos, culpados de crimes passionais, cometidos sob a influência
nefasta de paixões incoercíveis, e alguns idiotas,
maníacos que apodreciam caquéticos, roídos
de moléstias, vegetando, como plantas daninhas, conservados
naquela sórdida estufa de podridão e de vício.
No ambiente escuro da prisão cruzavam-se redes em todas as
direções, umas sobre outras, paralelas ou atravessadas,
todas sujas e nauseabundas. A um canto estava o barril d'água;
noutro, a cuba do despejo; e, defronte do amplo portão, das
quatro janelas largas, abertas para a praça, protegidas por
dupla grade de grossos vergalhões de ferro, trabalhavam os
sentenciados em sapatos, chapéus de palha e obras de funileiro.
Essas janelas eram o parlatório e o balção
dos negócios. Diante delas estavam, continuamente aglomerados,
agentes de comércio, ou pessoas da família, mulheres,
mães, irmãs ou amantes dos reclusos no ergástulo
fedorento e imundo, que a piedade dos Comissários ia extinguir,
construindo a penitenciária no morro do Curral do Açougue.
Dentro de dez
dias de prisão, Alexandre foi acometido de fortes dores de
cabeça e imensa fadiga física e moral. Privado de
sol, a tez do rosto perdera o vivo colorido, fez-se pálida
e baça; a barba e os cabelos castanhos pareciam pardacentos
como erva crestada, e os olhos amortecidos ,e encovaram nas órbitas
rouxeadas. Toda a sua pele estava seca e fria, coberta de descamação
esbranquiçada, que lhe zebrava o corpo quando se coçava.
Queixou-se ao carcereiro, ao Juiz da prisão, que era o Galucho,
antigo cangaceiro, portador de um rosário de crimes.
- É assim
mesmo - respondeu-lhe o facínora - Nos primeiros tempos,
a gente estranha; fica banzeira. Depois se acostuma. Estou aqui
há dez anos; ainda me faltam quatro e pretendo, se Deus não
mandar o contrário, sair com forças para liquidar
contas velhas. Olhe, moço, para essas dores de cabeça
só há um remédio: sair, pela manhã,
com a faxina...
Mas, a Alexandre
repugnava o carregar a infecta cuba de resíduos e secreções,
ligado a um criminoso por comprida corrente de ferro, atada ao pescoço
pela gargalheira, fechada a cadeado. Mil vezes a morte, intoxicado
no ambiente mefítico, à vida maculada pela infâmia,
que lhe custaria alguns momentos ao ar livre.
As noites infinitas,
cruciantes, ele as passava encolhido perto de uma das janelas, o
sono cortado pelos brados de alerta das sentinelas e contando as
horas pelo sino do relógio da Matriz fronteira, até
ao toque de alvorada, que lhe repercutia no coração,
evocando a ânsia de tornar a ver Luzia com informações
do processo, e talvez mensageira da liberdade.
Quase todos
os dias ela passava pela casa do Promotor, sinceramente interessado
na sorte de Alexandre, para se consolar com promessas. A última
fora que, terminado o balanço dos gêneros armazenados,
o inquérito seria rapidamente concluído.
Até então
nada se havia adiantado para esclarecer a justiça. Permanecia
a situação indecisa de presunções, meras
suspeitas, indícios pouco veementes; e nenhuma prova de alcance
jurídico fora colhida, além dos depoimentos dos soldados
e de duas mulheres de má vida, a Romana e a Cangati. O fato
de ser Alexandre depositário das chaves deixava de ter importância
por se haver verificado que a fechadura da porta do armazém,
antes tão corrente, estava perra, denotando a introdução
de outra chave ou de qualquer instrumento de violência. Nada
ocorrera, entretanto, para encaminhar a ação da polícia
em direção a outro responsável, tendo sido
infrutífera a vigilância, secretamente feita, em volta
de Crapiúna.
E, nessa incerteza,
dias de penar, noites mal dormidas sucederam-se: Alexandre estiolado
na prisão, como planta silvestre, privado de ar e luz; Luzia
nutrida de esperanças, que se adelgaçavam em quimera
fugitiva.
Num dia desses,
regressando a casa, ela respondeu com um gesto de desânimo
aos olhares interrogativos da mãe e de Teresinha:
- Por ora...
nada... amanhã... amanhã...
- Ah! - suspirou
Teresinha - Se eu tivesse dois mil-réis!...
- Para quê?
- inquiriu Luzia impacientada pelo estribilho, repetido toda a vez
que se queixava da ineficácia das diligências para
libertar Alexandre.
- Mortifica-me
com essa cantiga... Já vendi os meus brincos de ouro; a vara
de cordão, que havíamos reservado para um aperto,
também passara a outras mãos... Nada mais temos, nem
com que comprar um par de chinelas... Veja?... As minhas já
estão com boca de sapo...
- A você,
tornou Teresinha à puridade - nada devo ocultar - Eu queria
os dois mil-réis para o respônsio...
- O respônsio?!...
- Sim, para
comprar duas velas de libra... A Rosa não reza sem isso...
- Como há
de ser? Onde irei achar tanto dinheiro!...
- Fosse eu você,
Luzia, era só pedir por boca...
- Que fazia?
E cravou na
companheira, um prescrutador e sereno olhar, desses que traspassam
o corpo e devassam a alma.
- Eu - balbuciou
a moça confusa e dominada - Eu?... Não fazia nada...
Foi uma asneira que me veio à cabeça... Não
pode ser... não se faz a reza... E eu que tinha uma fé...
É melhor tirar daí o juízo...
- E acredita
que Rosa Veado é capaz de descobrir?...
- Ora... ora...
ora!... É dito e feito... Tenho fé cega em Santo Antônio.
Em casa de meu pai havia um deste tamaninho e milagroso como ele
só. Quando se perdia alguma coisa, bastava prometer-lhe dois
vinténs; a gente achava logo sem saber como. E, não
se cumprindo a promessa, era castigo certo. De uma feita, desapareceu
urna vaca leiteira. Meu pai, desconfiando que a houvessem furtado,
chamou o pai Pedro, negro velho ladino e rastejador, e disse-lhe:
"Não quero saber de histórias; vosmecê
dá-me conta da vaca, ou come relho." Quando o velho
falava assim, era aquela certeza. O negro coçou a cabeça,
lastimou-se e saiu resmungando. Bateu capões de mato; esgravatou
grotas e já estava desesperado, pensando no que lhe aconteceria,
por voltar com as mãos abanando, quando se lembrou de prometer
dois vinténs a Santo Antônio. Mal tinha feito a promessa,
olhou para uma banda e o que havia de ver? A vaca pastando muito
de seu, no lugar onde escondera o bezerro. Pedro pulou de contente,
laçou a vaca, e partiu. Em caminho, entrou a pensar que o
santo nada havia feito; ele é que estava banzando sem prestar
atenção. Por que, então, lhe havia de dar o
dinheiro?... Nisto , o animal deu um safanão; arrancou e
deitou a boca no mundo: Que santo desconfiado!... Eu estava caçoando...
Pago os dois vinténs e até mais!... A vaca voltou
ao curral com os pés dela e foi o que valeu ao pai Pedro.
Olhe, Luzia, tenho visto verdadeiros milagres...
- Amanhã
- afirmou Luzia jubilosa como se lhe houvesse ocorrido o meio de
resolver a dificuldade - amanhã arranjarei os dois mil-réis...
- Como? Que
vai fazer?... Ah! Luzia, não se guie pela minha ruim cabeça
...
- Não
se arreceie...
- Que é
que vocês tanto conversam? - perguntou a velha.
- Nada, tia
Zefinha - respondeu Teresinha - Bobages de moças. Eu dizia
que se pudéssemos pagar um doutô para soltar Alexandre...
- Não
há, então, uma criatura que faça de graça
essa caridade?...
- Qual!... Neste
mundo tudo se move a peso de dinheiro... Doutô é como
padre que não diz missa sem dinheiro... O saber é
a foice e o machado deles...
- Não
são todos - observou Luzia - O Promotor é um doutô
muito bom... Tem feito o que pode pelo pobre que está penando
naquele inferno... Amanhã... Amanhã...
Teresinha preparou
a candeia de azeite de carrapato; espevitou o pavio de algodão
torcido; acendeu-o, soprando com força num tição,
e colocou-a no caritó, donde, bruxuleando, vacilante e fumarenta,
iluminou em tons melancólicos, em firmes e vagarosos contrastes
de claro e escuro, como nas telas imortais de Rembrandt e Espanholeto,
um quadro admirável e emotivo, cena íntima da pobreza
sofredora e resignad
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