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Luzia Homem, de Domingos Olímpio

 


CAPÍTULO VI

Setembro de 1878 ia em meados, e não apareciam no céu límpido, de azul polido e luminoso, indícios de auspiciosa mudança de tempo. Não se encastelavam no horizonte, os colossais flocos a estufarem como iriada espuma; nem, pela madrugada, cirros, penachos inflamados, ou, em pleno dia, nuvens pardacentas, esmagadas em torrões. À noite, constelações de rutilante esplendor tauxiavam o firmamento, e a lua percorria, melancólica, a silenciosa senda.

Como que se percebia no abismo do espaço infindo, a eterna gestação do cosmos, operoso e fecundo, em flagrante criação de mundos novos. E, na gloriosa harmonia dos astros, na expansão soberba da vida universal, a terra cearense era a nota de contraste, um lamento de desespero, de esgotamento das derradeiras energias, porque o sol sedento lhe sorvera, em haustos de fogo, toda a seiva.

Olhares ansiosos procuravam, em vão, o fuzilar de relâmpagos longínquos a pestanejarem no rumo do Piauí, desvelando o perfil negro da Ibiapaba. Nada; nem o mais ligeiro prenúncio das chuvas de caju.

O sertão ressequido estava quase deserto: campos sem gados, povoações abandonadas. E a constante, a implacável ventania, varrendo o céu e a terra, entrava, silvando e rugindo, as casas vazias, como fera raivosa, faminta, buscando e rebuscando a presa, e fazendo, com pavoroso ruído, baterem as portas de encontro aos portais, num lamentoso tom de abandono.

As pastagens de reserva, nos pés de serras, protegidas por espessa facha de catingas impenetráveis, onde se criavam famosos barbatões bravios, haviam sido devoradas ou estruídas e pesteadas pela acumulação de rebanhos em retiradas numerosas. E, à grande distância, sentia-se o fedor dos campos inficionados por milhares de corpos de reses em decomposição.

Não havia mais esperança. Os horóscopos populares aceitos pela crendice, como infalíveis: a experiência de Santa Luzia, as indicações do Lunário Perpétuo e a tradição conservada pelos velhos mais atilados, eram negativas, e afirmavam uma seca pior que a de 1825, de sinistra impressão na memória dos sertanejos, pois olhos-d'água, mananciais que nunca haviam estancado, já não merejavam.

Os socorros, distribuídos pelo Governo, não pcdiam chegar aos centros afastados, por falta de condução, ou eram os comboios de víveres assaltados por bandos de famintos, malfeitores e bandidos, organizados em legiões de famosos cangaceiros.

Em tão aflitiva conjunção, era natural que os retirantes, por instinto de conservação, procurassem o litoral, e abandonassem o sertão querido, onde nada mais tinham que perder; onde já não podiam ganhar a vida, porque à miséria precedera o fatal cortejo de moléstias infecciosas, competindo com a fome e a sede na terrível faina de destruição.

Luzia encontrara em Sobral, abrigo e fáceis meios de subsistência; mas pressentia iminente perigo do capricho ou paixão brutal de Crapiúna. Era forçoso procurar outro refúgio, e por isso espreitava, ansiosa, os mais ligeiros sintomas da moléstia da mãe, sinais de melhora, para empreenderem a anelada viagem aonde a distância a preservasse dos contínuos sustos e vexames afrontosos. Não confiava no projeto de mudança para a ladeira da Mata-Fresca, dependente de condição, que não resolvera ainda aceitar, além de que ficaria a duas léguas, apenas, da cidade.

Já não ia, diariamente, ao trabalho. Ficava em casa, tratando com desvelado carinho, a pobre mãe, cada vez mais trôpega. Felizmente, o capitão João Braga lhe abonava as rações, e Alexandre não se descuidava de repartir com elas, quanto ganhava, apesar da relutante recusa, oposta à sua espontânea generosidade. Ele vivia folgadamente, porque passara de apontador a fiel do armazém, onde havia grande depósito de mantimentos e todos os valores do almoxarifado. Tinha de mais para si, e doía-lhe no coração não poder aliviar as necessidades dos pobres, seus companheiros de infortúnio.

Um dia, pela manhã, encontrou Luzia desanimada: a mãe passara mal a noite, inquieta, afrontada, como se lhe apertassem o peito ou não houvesse bastante ar respirável no estreito quarto.

- Deus não quer, filha - dizia a velha com o seio ofegante e mal articulando as palavras - Deus não quer... Seja feita a sua ... santa... vontade...

- Mãezinha tem tido isto tantas vezes - ponderava Luzia, afetando serenidade - Isto é puxado... Cheire este frasco...

- Parece que tenho ar encausado... aqui... Olha, sinto uma bola... qualquer coisa que me tapa o fôlego. Abre bem a porta... Abana-me... Se eu tomasse o vomitório de papaconha...

- Corno está, tia Zefinha? - inquiriu Alexandre, chegando à porta do quarto.

- Como quem está se acabando... Ai Jesus!... Que aflição!...

- Por que não toma aquela garrafa que o doutor receitou?...

- Tenho medo...Disse-me a Chica Seridó que tem veneno... doreto...

- Então ela sabe mais que o doutor?!... Tome, experimente...

- Ah, Alexandre; já pedi, roguei, não sei mais que fazer para mãezinha tomar a receita - observou Luzia, quase em lágrimas.

- Há de ser o que Deus for servido...

- Mas tome sempre, tia Zefinha. Faça-me esta vontade. É para seu bem...

- Enfim - concluiu a velha condescendendo - vá lá... No meu estado, só um milagre... Não quero que voce diga que não o atendi antes de morrer...

E tomou uma colher da poção, administrada pela filha.

- Aqui está, na garrafa - disse Alexandre repetindo o que estava escrito no rótulo - uma colher das de sopa antes de cada refeição. Quando voltar do serviço, quero encontrar vosmecê aliviada. Adeus, Luzia! O sol já está alto. Vou andando... E eu que devia estar no armazém às seis em ponto...

Desde o dia em que foram alvo das chufas da malta de vadias, capitaneadas pela Romana, Alexandre apenas uma vez pedira a Luzia, com muitos rodeios e acanhamento, resposta à proposta de casamento. Ela, porém, nada lhe respondera, limitando-se a, com um gesto de desânimo, indicar-lhe a mãe, como se a doença dela fosse invencível obstáculo.

Ocultava ao moço, resignado, nutrido de esperanças, o haver recebido cartas de Crapiúna, qual mais apaixonada, qual mais recheada de expansões de amor, acrisolado pela resistência; todas salpicadas de alusões iradas ao outro mais afortunado, e ameaças de não poder sofrear os estos de ciúme que o devoravam, ou de acabar com a própria vida, porque para ele só havia Deus no céu e ela na terra.

Ao menino, que lhe levava as cartas, Luzia respondia invariavelmente: - Diga esse homem que me deixe sossegada, que não se meta com a minha vida! Mas, por um impulso de curiosidade, muito humano e sobretudo muito feminino, tivera a fraqueza de lê-las, o que ela considerava uma vergonha, senão crime injustificável. Também não ousara contar a Alexandre que o soldado havia aparecido várias vezes na residência. Uma noite passava ele com o Belota e tivera o atrevimento de fazer-lhe uma serenata cantando à viola, quase no terreiro da casa, modinhas e canções eróticas, que terminavam nesta saudosa endecha:

"Vou me embora, vou me embora,

Como fez a saracura;

Bateu asas, foi cantando:

Mal de amores não se cura!..."

Ouvindo-o, Luzia tremia de indignação e terror, suspirando de alívio, quando se sumiu ao longe, o pesqueiro batido, acompanhando a voz fanhosa de Belota, a cantar:

"Quem quiser ser bem-querido,

Não se mostre afeiçoado,

Que o afeto conhecido,

É sempre o mais desprezado."

- Não sei como essa gente ainda tem coragem de cantar - gemia a velha Zefa - É uma falta de coração...

Pouco depois da partida de Alexandre, prometendo voltar cedo com o doutor Helvécio Monte, surdiu o pequeno mensageiro com uma, carta, que deixou sobre o pilão, por ter Luzia recusado recebê-la. Entretanto não pôde ainda resistir à curiosidade, e reincidiu na culpa nefanda de abri-la. E leu:

"Minha Santa Luzia - Esta tem por fim unicamente, dizer-lhe que se há de arrepender da sua ingratidão e quem lhe diz isto é o seu amante fiel até a morte - Crapiúna."

- É preciso acabar com isto, custe o que custar, - murmurou a moça inflamada de cólera - Este malvado me há de desgraçar...

Passou o dia preocupada, e procurando espairecer com desvelos à mãe, mais acalmada com a poção de iodureto de potássio, o venenoso remédio, que, na opinião da Seridó, fazia apodrecerem os ossos, caírem os dentes e pôr o estômago em carne viva, quando seria mais eficaz a purga de mel de abelha e um emplastro de sabão da terra com um pinto pisado vivo; ou com o vomitório de cardo-santo, chá de erva-doce para desempachar o ventre, e raiz de pega-pinto por causa da retenção de ourinas.

- Com esses remédios sarara a defunta Desidéria - afirmava a feiticeira - que padecia de um puxado com apertos do coração e uma dor que lhe tomava o fôlego, respondia - lá nela - nas cruzes e alastrava pelo braço esquerdo, que às vezes ficava esquecido. Vivera a enferma muito tempo, trabalhando como uma negra, apanhando sol e chuva; e, se não fora um ataque violento que não deu tempo para nada ainda estaria vivendo, com a graça de Deus. Remédio de botica havia levado muita gente desta para melhor vida.

Luzia inquietava-se com a demora de Alexandre, que era pontual à hora do jantar, servido sobre uma tosca mesa improvisada com uma tampa de caixão de pinho, apoiada em quatro forquilhas.

O sol descambava, deixando as cumeadas áridas da serra do Rosário, quando apareceu Teresinha quase a correr e de semblante apavorado.

- Que foi? - perguntou Luzia sobressaltada - Que aconteceu? Que é do Alexandre?...

Teresinha tomou-lhe do braço, levou-a para fora do alpendre e disse-lhe, com voz sacudida de tristeza:

- Uma desgraça! ...

- Brigaram? - inquiriu Luzia ansiosa, encarando no semblante da moça ruiva para lhe aprender a misteriosa notícia.

- Imagina que eu voltava da obra e, quando dei por mim, foi com a gralhada de Romana, aplaudindo com as parceiras. Aquelas não-sei-que-diga riam como doidas varridas. Uma dizia: Foi bem feito! A outra resmungava: Bulir com o de-comer dos pobres!... Que miséria!... Se fosse só feijão - grazinava a deslambida da Romana - meu Deus, perdoai-me... Passou as unhas no dinheiro. Quem havera de dizer - rosnava a Joana Cangati, aquela sirigaita, que tem o bucho caído - que aquele sonso...

- Mas... que aconteceu, mulher de Deus?

- Cheguei-me a elas e sube então... Imagina como fiquei estatelada, e caí das nuvens quando me disseram que Alexandre estava preso...

- Preso!... - exclamou Luzia aterrada - Preso?! ... Preso por quê?...

- Foi o que perguntei. Então a avoada da começou a caçoar: Ora o moço precisava preparar-se para o casório; não teve dúvidas; passou a mão...

- Mas... é mentira!...

- Eu também tenho Alexandre em conta de pessoa incapaz de se sujar com o alheio; mas a verdade é que foi preso e lá está, na casa da Comissão, com o Delegado...

- É impossível, Teresinha. Você não acha que Alexandre é incapaz de tamanha miséria?...

- É o que lhe estou dizendo, minha camarada. Está preso e não tem quem puna por ele: todos o acusam, porque tinha a chave do armazém; apareceu hoje fora de horas...

- Oh! Meu Deus! Era só o que faltava! Juro que é falso! Caia eu morta, se não tenho certeza do que digo.

E, dirigindo-se, firme e resoluta, ao quarto, abrigou-se no amplo lençol branco, dizendo à mãe, surpreendida pelos modos agitados.

- Volto já, mãezinha... É um instantinho ... Teresinha fica ...

Sem atender às observações da velha, passou rápida ao alpendre, e suplicou:

- Você faz companhia àquela pobre... minha amiga. Faça-me esta esmola pelo amor de Deus...

- Que vai fazer?

- Não sei ... Deixe-me ...

Com um movimento violento desvencilhou-se de Teresinha, que tentara detê-la, e partiu em desvairada corrida.

CAPÍTULO VII

Além da habitual aglomeração de retirantes na rua do Menino Deus, à porta do armazém da distribuição de, socorros, algo havia de extraordinário, a julgar pelos modos assustadiços, os olhares de maligna curiosidade do mulherio, que se acotovelava aos empuxões para observar o que se passava no interior, onde estavam reunidos os membros da Comissão, o delegado de polícia e o promotor público. Dois soldados, Belota e Cabecinha, guardavam a porta, com ordem de vetar a entrada a quem quer que fosse. Crapiúna girava entre o povilhéu, contendo, com maus modos, os exaltados, que protestavam contra a demora da distribuição das rações, principalmente as mulheres que haviam deixado em casa filhos pequenos, sem um grão de farinha para fazer um mingau.

- Cessa rumor! Cambada - intimava Crapiúna, com a costumeira impostoria - Vocês ou ficam quietos e calados ou arribam daqui. Em fariscando comida, ficam logo assanhadas...

E continuava a ronda, sob um chuveiro de imprecações e motejos, que a sua excessiva grosseria provocava.

Os cidadãos incumbidos pelo Governo da penosa tarefa de distribuir socorros, desempenhavam com excepcional e caridosa dedicação, os seus deveres, mantendo o mais escrupuloso zelo e probidade na administração do serviço. Não houvera ainda um caso de muamba, coisa muito vulgar em outros centros de afluência de retirantes, nos quais se explorava escandalosamente a miséria, e se desviavam, para serem vendidos por excessivo preço, os víveres destinados aos infelizes famintos. Era, pois, natural que, ciosos de tão honrosos precedentes, ficassem muito impressionados com o roubo de gêneros e de duzentos mil réis em dinheiro, denunciado, naquela manhã, pelo almoxarife.

A porta do armazém fora encontrada aberta, sem o menor vestígio de violência, caixas com fazenda abertas e a gaveta que continha o dinheiro arrombada. Estavam bem patentes os indícios do crime, pegadas, do ladrão impressas na poeira, pingos de velas de carnaúba sobre as caixas e o instrumento, empregado para forçar a gaveta, um grande formão de carpinteiro.

Quem seria o audacioso criminoso? O nome de Alexandre, pronunciado por lábios anônimos, no meio da turba, foi logo envolvido pela sinistra atmosfera da suspeita. Ele guardava as chaves do armazém; era empregado de inteira confiança, conquistada pelo mais irrepreensível procedimento, e os mais abonados precedentes; mas não se podia eximir da responsabilidade do fato, senão por desídia, por falta de vigilância. Demais, naquele dia, ele sempre pontual, chegara tarde, notando-se-lhe no semblante profunda perturbação ao encontrar a porta aberta, e o almoxarife, que o interrogava com o olhar severo. Não pudera, no primeiro momento, se justificar ou explicar as circunstâncias que o denunciavam. Indicações vagas, circulando na massa de retirantes, aludiam a fatos que davam corpo às suspeitas. Ele estava para casar; pretendia deixar a cidade; era bem possível que a paixão por Luzia-Homem o alucinasse ao ponto de arrastá-lo a tamanha desgraça. Por outro lado, alguns amigos que o não abandonaram na hora do infortúnio, alegavam que, tendo as chaves, não necessitaria de deixar a porta aberta, apenas encostada, recorriam aos precedentes de porte ilibado, a doçura de caráter, maneiras de pessoa bem-ensinada e de boa procedência.

Entre os pró e contra, prevaleceu o depoimento de Crapiúna, afirmando haver visto, à meia--noite, mais ou menos, um vulto com uma trouxa volumosa subir apressadamente a rua na direção da igreja. Não jurava que fosse Alexandre, por não ter, em consciência, absoluta certeza, e para que não dissessem que o acusava por andar enticado com ele; mas a verdade é que tinha o mesmo andar e a mesma estatura. Não o perseguira por não lhe passar, então, pela cabeça, a idéia de um crime tão vil. Belota confirmava, em todas as minúcias, a história do camarada, protestando todavia, que, até à véspera, seria capaz de meter a mão no fogo por tão bom moço; mas... a ocasião fazia o ladrão...

Alexandre foi interrogado. Estava tão abatido pela comoção, que fez declarações incongruentes, contraditórias e inverossímeis, nem pôde explicar, de modo plausível, a demora. Acossado pelas questões da autoridade, limitava-se a protestar com voz angustiada:

- Juro que sou inocente, seu Delegado. Eu nunca me sujei com o alheio. Antes me secassem as mãos e me faltasse a luz na hora da morte!

Continuava o interrogatório, aliás conduzido com imparcialidade complacente, quando a audiência foí interrompida por estranho rumor, gritos e imprecações ameaçadoras, estrugindo na rua. Aquecidas as faces pela fadiga da caminhada, os grandes olhos lampejantes de chispas fugitivas e o traje em desalinho, Luzia penetrou nos densos magotes humanos, que lhe embaraçavam a passagem, com ímpeto irresistível; e foi abrindo larga brecha, afastando aos empurrões homens e mulheres, sob uma saraivada de remoques, queixumes e impropérios.

- Arreda, que lá vem Luzia-Homem, como uma danada! ...

- Mulher do demônio, você não enxerga a gente, sua bruta?! ...

- Esta excomungada está com o diabo no coiro!...

- Vote! malvada! ...

- Ficou como lacraia assanhada, por causa do macho...

Luzia era insensível às queixas e insultos, foi avançando sem desfalecimento, sem hesitação. Ao enfrentar a porta, Belota pretendeu tolher-lhe o passo, mas foi repelido com possante e rápido movimento. Igual sorte tiveram Cabecinha e Crapiúna. Este lhe não ousou tocar, inanido por estranho terror. Surdiu, enfim, na sala, e parou indecisa, espantada por se achar entre pessoas notáveis, aturdidas pela surpreendente invasão. Depois se dirigiu a Alexandre, que a contemplava estupefato, num misto de assombro e alvoroço.

- Que foi isto, seu Alexandre? ...

- Nada - respondeu ele, baixando os olhos - Um impute, que me fizeram ...

- Mas é falso!... Não é?...

- Juro por alma da defunta minha mãe...

E grossas lágrimas lhe deslizaram pelas faces tostadas, embebendo-se na barba crespa e aloirada.

- Seja homem, Alexandre - disse-lhe então a moça, com voz vibrante e enérgica - Deus é grande!... Quem não deve, não teme! ...

- Choro de vergonha, porque nunca me vi em semelhante desgraça...

Ela, animando Alexandre com a protetora carícia de um olhar inefável, voltou-se resoluta e calma para os circunstantes. Do desalinho das roupas, o lençol pendido do braço a arrastar pelo chão, o cabeção de renda emoldurando o seio nu e palpitante, as desgrenhadas madeixas a lhe caírem em ondulações fulvas de serpentes negras; dos olhos, do gesto e da voz, um concerto de convicção e firmeza, irradiava sobrenatural encanto, empolgando o auditório, subjugado pela esplêndida e fascinante exibição da força e da beleza, harmonizadas naquela admirável criatura.

- Saberão vossas senhorias - exclamou, em vibrações fortes e sonoras - que este homem não é nada meu!... Nem parentes somos, senão por Adão e Eva. Posso morrer sem confissão. Meu corpo não tem pechas, nem pecados a minh'alma...

E estendeu os braços, num gesto largo e franco de inocência que se exibe:

- Entre essa gente maligna que faz pouco de mim, essa gente desalmada que me persegue, como se eu fora uma excomungada ou um bicho brabo, encontrei nele um amigo, um irmão; e hoje, abaixo de Deus, é ele quem me ajuda a sustentar os dias de minha mãe, entrevada dentro de uma rede. Estas noites temos passado juntos fazendo quarto à pobre velha que gemia com dores de fazer cortar coração. Hoje, de manhãzinha, esteve lá em casa e pedi-lhe que fosse procurar o doutor... Ah! meus senhores, até os bichos são agradecidos, quanto mais criaturas cristãs. E aqui está, em pura verdade, porque eu puno por ele e juro que está inocente...

- Não temos provas - observou o Delegado - Por ora só há contra ele suspeitas, indícios...

- Então por que o prenderam? Pois se envergonha um homem sem quê nem para quê, por um impute?...

Em benefício dele; para apurar a verdade...

E se não conseguirem isso? - perguntou Luzia impaciente - Ficará preso toda a vida?!...

- Não se aflija - ponderou o promotor, intervindo, e no intuito de amenizar a pungente cena - Sente-se, repouse. A senhora está muito exaltada, acalme ... Que estupendo tipo! Que formoso cabelo - observou à puridade, voltando-se para um dos comissários.

Luzia reparou, então, em seu desalinho, e sentiu um calefrio de pejo, como se a lambessem aqueles olhos que a fitavam com insistência, olhos mortos de volúpia. Colheu os cabelos, toda aflita e ruborizada; enrolou-os rapidamente, e os prendeu com um gesto gracioso no alto da cabeça, e abrigou-se no lençol branco de babados de cambraia de salpicos.

- Donde é natural? - inquiriu o Promotor.

- Eu me chamo Luzia Maria da Conceição. Sou filha do Ipu. Meu pai, que Deus haja, era vaqueiro das Ipueiras do Major Pedro Ribeiro... Está ouvindo, seu doutor?

Ela aludia a gritos e gargalhadas do povilhéu, bradando na rua: Luzia-Homem!... Metam ela na cadeia que se descobre tudo!.. Aviem os pobres que estão aqui esperando com fome!..

- Por que lhe deram essa alcunha?

- Eu lhe digo, seu doutor. Desde menina fui acostumada a andar vestida de homem para poder ajudar meu pai no serviço. Pastorava o gado; cavava bebedores e cacimbas; vaquejava a cavalo com o defunto; fazia todo o serviço da fazenda, até o de foice e machado na derrubada dos roçados. Só deixei de usar camisa e ceroula e andar encoirada, quando já era moça demais, ali por obra dos dezoito anos. Muita gente me tomava por homem de verdade. Depois meu pai, coitadinho, que era forte como um touro, e matava um bode taludo com um murro no cabeloiro, morreu de moléstias, que apanhou na influência da ambição de melhorar de sorte, na cavação de ouro no riacho do Juré. Daí em diante, começamos a desandar. Minha mãe, sempre muito doente, e nós duas muito pobres de tudo, menos da graça de Deus, vendemos as miúças e cabeças de gado, que tiramos à sorte da produção da fazenda, os animais de campo e até o meu cavalo castanho-escuro, calçado dos quatro pés e com uma estrela na testa ... o meu querido Temporal... Tudo isso para não morrermos de fome quando veio esta seca...

Soluços lhe embarcaram a voz, e desatou em copioso pranto.

- Sossegue moça - disse-lhe o Delegado compassivo - A sua sorte nos interessa. Está entre amigos de quem só deve esperar benefício; mas ... é preciso ter paciência. Alexandre tem por defesa os melhores precedentes e todos o abonam; entretanto é indispensável que fique detido enquanto duram as diligências do inquérito ...

- Preso?! ... Não é possível! - exclamou Luzia - Vossa senhoria não fará tamanha injustiça. Eu lhe peço por vida de seus filhinhos... Alexandre é inocente! ...

E rojou-se de joelhos, aos pés do Delegado.

- Tenha paciência! - murmurou este comovido, e tentando erguê-la.

Luzia não se conformava com a horrível idéia da prisão; e continuou a suplicar, muito condolente.

Alexandre já não podia suportar aquele espetáculo, que lhe macerava a alma. Suspirou de alívio quando o Delegado mandou conduzi-lo; e, ao passar por ela, disse-lhe com firmeza:

- Tenha coragem. Cadeia não se fez para animais. Espero em Deus sair limpo desse impute que me levantaram ... Vá para junto da tia Zefa que eu me arranjo...

Tanto que o preso partiu escoltado pelos soldados Belota e Cabecinha, Crapiúna assomou na sala, mesmo em frente de Luzia, cujo olhar dolente acompanhava o moço e se fixava na porta por onde o levaram. A figura do soldado, detestável de arrogância triunfante, substituindo o preso, no campo da visão desvairada, interrompeu imediatamente a aniquiladora impressão de mágoa; e a moça, transformada por encanto, estremeceu num esto de ódio, que lhe faiscou no olhar, como um corisco.

- Aqui está, seu doutor - exclamou ela, indicando o soldado, com um soberbo gesto de indignação - Aqui está o asa-negra que me persegue, pensando que eu sou da laia dele... Este homem me atormenta com malcriações, com cartas... Espere... Tenho uma comigo...

E retirou do seio, de envolta com o cacho de cravos murchos, a última, carta de Crapiúna.

- Eis - continuou trêmula de cólera - a carta que este... não-sei-que-diga... me mandou hoje...

O Promotor tomou a carta; leu-a, sorriu-se e passou-a ao delegado, segredando-lhe:

- Há, talvez, em tudo isso um drama de amor.,

- De pouca vergonha, seu doutor, atalhou Luzia - Ele devia saber que sou uma rapariga direita...

Depois de ler a carta, voltou-se o Delegado para o soldado, que até então mantinha ares de basófia:

- Que quer dizer isto?...

- Saberá vossa senhoria que não é nada... - balbuciou ele, sorrindo irônico.

- Nada!... Que significam as suas palavras de ameaça?...

- É um modo de falar para fazer medo e caçoar com ela... Negócio de namoro...

- Namoro, seu atrevido... Pois o senhor fica responsabilizado por qualquer falta de respeito, ou tudo quanto suceder a esta moça... - Por causa disso - observou o escrivão Antônio Rufino - é que ele foi removido da polícia do Curral do Açougue...

- Eu não quero fazer mal a ela, seu Delegado. De mais a mais não é crime a gente querer bem e pretender uma moça dessas...

- Não admito observações. Retire-se... Veja como se porta!...

Crapiúna fez continência e deu meia volta, com inexcedível garbo militar, lançando a Luzia sarcástico olhar de desafio.

- Vá descansada, moça - disse-lhe o Promotor, com meiguice - Sua mãe reclama os seus cuidados. Quanto a Alexandre, a justiça empregará todos os meios e esforços possíveis para descobrir o verdadeiro autor do delito. Estou persuadido que é inocente.

- Deus lhe pague, meu senhor... Deus lhe dê saúde e felicidade... Queira perdoar a minha ousadia... Fiquei fora de mim... - Suspirou ela, com lágrimas na voz.

E compondo as dobras do amplo lençol de mandapolão, saiu lentamente, desconsoladamente, acabrunhada de dor e vergonha.

O Promotor voltando-se, então, para o Delegado e os Comissários, ponderou:

- Não será esta carta um indício precioso?... Na minha opinião, deve ser vigiado aquele soldado.

CAPÍTULO VIII

Teresinha informara a tia Zefa do caso de Alexandre, procurando, com tortuosas e vagas digressões, amortecer o choque demasiado rude, e substituir a filha ausente, preparando o caldo, ,ajudando a velha a mudar de posição, e convencendo-a de tomar o remédio, que tinha um sabor mau de azinhavre.

- Deus te pague - repetia a velha, fazendo uma careta de repugnância e escarrando com ruído - e perdoe os teus pecados. Bem sabia que o teu coração é bom... Ai... o que te falta é cabeça...

- A minha sina é que não foi boa... - observou a moça com requintes de ternura e meiguice - Se a gente pudesse adivinhar; se soubera o que me havia reservado quando saí de casa...

- E Luza que não volta!...

- Se não fossem os cuidados estaria melhor, porque o puxado vai passando...

- É o remédio... Tome outra vez...

- Já estou encharcada de mezinha... Coitada da minha filha!...

- Descanse que ela não tarda aí...

- Pobrezinha! ... O dia inteiro, com uma triste xícara de café escoteiro.

Ao escurecer regressou Luzia. Vinha taciturna e triste, rendida de fadiga. Tomou a bêncão à mãe; apertou Teresinha contra o seio, numa demorada e silenciosa expansão de reconhecimento, e deixou-se cair acocorada à soleira da porta do quarto, em postura de desânimo, os cotovelos fincados sobre os joelhos e a cabeça apoiada nas mãos.

- Seu de-comer - disse-lhe Teresinha - está guardado...

- Não tenho fome...

- Ao menos uma xícara de café...

- Deixa-me descansar.

- E Alexandre, filha? - inquiriu a velha plangente.

- Está preso!... Levaram-no para a cadeia como um mal-feitor...

- Diz-me o coração - atalhou Teresinha - que ele está penando injustamente... Mas... deixem estar que vou farejar o ladrão... Conheço uma velha que faz a adivinhação da urupema e sabe rezar o respônsio de Santo Antônio. Não há furto que não descubra. Uma coisa é ver, outra é dizer. Parece que tem parte com o cão...Meu Deus perdoai-me...

- São abusões - murmurou a velha.

- Pois amanhã cedo vou atrás dela, da Rosa Veado, que mora na Fortaleza, nos quartos da Lianor, e vosmecê há de ver...

- Pode ir embora, Teresinha - disse-lhe Luzia, quebrando o longo silêncio - Você já fez muito por nós...

- Eu?!... Ai, gentes! Que grande incômodo!... Agora é que fico mesmo aqui ajudando. Durmo ali, na esteira, junto do jiral, ou em qualquer parte. Basta ter onde encostar a cabeça...

E, acendendo fogo num cigarro de papel amarelo, continuou contando casos maravilhosos da feitiçaria de Rosa Veado que, além dessa habilidade, era insigne parteira, muito cuidadosa, muito feliz.

Teresinha ficou. Passou a. fazer parte da família pois não tinha ânimo de abandonar as duas criaturas, repassadas de amargos sofrimentos, sozinhas naquela casa, sem uma alma condoída que as consolasse. Sabia quanto custava a privação súbita da companhia afetuosa de um ente querido; tinha a dolorosa experiência do abandono e das fatais conseqüências da orfandade do coração. Era quem cuidava da doente nas ausências de Luzia, muito preocupada no andamento do inquérito sobre o roubo. Às provisões que, escassamente, chegariam para mantê-las, ajuntava o pouco que podia conseguir: algumas gulodices, ovos, manteiga e açúcar, adquiridas por preços absurdos. Tomara a seu cargo os serviços da casa, menos os braçais, como rachar lenha e pilar café, porque era aberta dos peitos cuspia sangue sempre que abusava dos seus delicados músculos.

Procurara, conto dissera, Rosa Veado para rezar o respônsio; esta, porém, exigira dinheiro para comprar duas velas para o santo, luz sagrada, indispensável para o êxito do sortilégio, circunstância que ela não revelou a Luzia, por querer que o descobrimento do criminoso fosse devido, exclusivamente, à sua iniciativa.

Arguta rapariga, afeita ao contacto do vício e do crime, a percebê-los por intuição, estava convencida da inocência de Alexandre, e julgava obra de malvados, a infamante imputação.

- Ele não tem cara de ladrão - dizia - Conheço pela pinta quem pega no alheio; e nunca me enganei... Não se me dava de apostar... Enfim, não quero condenar a minha alma, levantando falso a ninguém; mas... deixem estar que hei de desmascarar os safados, que não têm consciência para fazerem sofrer um pobre...

As reticências irritavam Luzia que, por sua vez, só pensava em deslindar o mistério.

- Ah! Se eu tivesse dois mil réis!... - suspirou Teresinha.

- Para que queres dois mil réis?...

- Para uma coisa que só eu sei...

E passaram-se dias.

Da frugal comida Luzia separava, todos os dias, uma porção que levava a Alexandre. Apesar dos remoques de Belota e dos encontros com Crapiúna, ela cumpria, pontualmente, o dever de visitar o preso e conversava com ele alguns momentos, por entre as grades da cadeia, uma grande sala, no andar térreo da casa da Câmara, onde estavam empocilgados mais de cem homens.

Alexandre não se conformara com a promiscuidade entre criminosos dos mais abjetos. Havia ali assassinos, condenados a penas máximas, envelhecidos naquele recinto miasmático; ladrões que narravam, com repugnante bravata, façanhas deprimentes; moços impulsivos, culpados de crimes passionais, cometidos sob a influência nefasta de paixões incoercíveis, e alguns idiotas, maníacos que apodreciam caquéticos, roídos de moléstias, vegetando, como plantas daninhas, conservados naquela sórdida estufa de podridão e de vício. No ambiente escuro da prisão cruzavam-se redes em todas as direções, umas sobre outras, paralelas ou atravessadas, todas sujas e nauseabundas. A um canto estava o barril d'água; noutro, a cuba do despejo; e, defronte do amplo portão, das quatro janelas largas, abertas para a praça, protegidas por dupla grade de grossos vergalhões de ferro, trabalhavam os sentenciados em sapatos, chapéus de palha e obras de funileiro. Essas janelas eram o parlatório e o balção dos negócios. Diante delas estavam, continuamente aglomerados, agentes de comércio, ou pessoas da família, mulheres, mães, irmãs ou amantes dos reclusos no ergástulo fedorento e imundo, que a piedade dos Comissários ia extinguir, construindo a penitenciária no morro do Curral do Açougue.

Dentro de dez dias de prisão, Alexandre foi acometido de fortes dores de cabeça e imensa fadiga física e moral. Privado de sol, a tez do rosto perdera o vivo colorido, fez-se pálida e baça; a barba e os cabelos castanhos pareciam pardacentos como erva crestada, e os olhos amortecidos ,e encovaram nas órbitas rouxeadas. Toda a sua pele estava seca e fria, coberta de descamação esbranquiçada, que lhe zebrava o corpo quando se coçava. Queixou-se ao carcereiro, ao Juiz da prisão, que era o Galucho, antigo cangaceiro, portador de um rosário de crimes.

- É assim mesmo - respondeu-lhe o facínora - Nos primeiros tempos, a gente estranha; fica banzeira. Depois se acostuma. Estou aqui há dez anos; ainda me faltam quatro e pretendo, se Deus não mandar o contrário, sair com forças para liquidar contas velhas. Olhe, moço, para essas dores de cabeça só há um remédio: sair, pela manhã, com a faxina...

Mas, a Alexandre repugnava o carregar a infecta cuba de resíduos e secreções, ligado a um criminoso por comprida corrente de ferro, atada ao pescoço pela gargalheira, fechada a cadeado. Mil vezes a morte, intoxicado no ambiente mefítico, à vida maculada pela infâmia, que lhe custaria alguns momentos ao ar livre.

As noites infinitas, cruciantes, ele as passava encolhido perto de uma das janelas, o sono cortado pelos brados de alerta das sentinelas e contando as horas pelo sino do relógio da Matriz fronteira, até ao toque de alvorada, que lhe repercutia no coração, evocando a ânsia de tornar a ver Luzia com informações do processo, e talvez mensageira da liberdade.

Quase todos os dias ela passava pela casa do Promotor, sinceramente interessado na sorte de Alexandre, para se consolar com promessas. A última fora que, terminado o balanço dos gêneros armazenados, o inquérito seria rapidamente concluído.

Até então nada se havia adiantado para esclarecer a justiça. Permanecia a situação indecisa de presunções, meras suspeitas, indícios pouco veementes; e nenhuma prova de alcance jurídico fora colhida, além dos depoimentos dos soldados e de duas mulheres de má vida, a Romana e a Cangati. O fato de ser Alexandre depositário das chaves deixava de ter importância por se haver verificado que a fechadura da porta do armazém, antes tão corrente, estava perra, denotando a introdução de outra chave ou de qualquer instrumento de violência. Nada ocorrera, entretanto, para encaminhar a ação da polícia em direção a outro responsável, tendo sido infrutífera a vigilância, secretamente feita, em volta de Crapiúna.

E, nessa incerteza, dias de penar, noites mal dormidas sucederam-se: Alexandre estiolado na prisão, como planta silvestre, privado de ar e luz; Luzia nutrida de esperanças, que se adelgaçavam em quimera fugitiva.

Num dia desses, regressando a casa, ela respondeu com um gesto de desânimo aos olhares interrogativos da mãe e de Teresinha:

- Por ora... nada... amanhã... amanhã...

- Ah! - suspirou Teresinha - Se eu tivesse dois mil-réis!...

- Para quê? - inquiriu Luzia impacientada pelo estribilho, repetido toda a vez que se queixava da ineficácia das diligências para libertar Alexandre.

- Mortifica-me com essa cantiga... Já vendi os meus brincos de ouro; a vara de cordão, que havíamos reservado para um aperto, também passara a outras mãos... Nada mais temos, nem com que comprar um par de chinelas... Veja?... As minhas já estão com boca de sapo...

- A você, tornou Teresinha à puridade - nada devo ocultar - Eu queria os dois mil-réis para o respônsio...

- O respônsio?!...

- Sim, para comprar duas velas de libra... A Rosa não reza sem isso...

- Como há de ser? Onde irei achar tanto dinheiro!...

- Fosse eu você, Luzia, era só pedir por boca...

- Que fazia?

E cravou na companheira, um prescrutador e sereno olhar, desses que traspassam o corpo e devassam a alma.

- Eu - balbuciou a moça confusa e dominada - Eu?... Não fazia nada... Foi uma asneira que me veio à cabeça... Não pode ser... não se faz a reza... E eu que tinha uma fé... É melhor tirar daí o juízo...

- E acredita que Rosa Veado é capaz de descobrir?...

- Ora... ora... ora!... É dito e feito... Tenho fé cega em Santo Antônio. Em casa de meu pai havia um deste tamaninho e milagroso como ele só. Quando se perdia alguma coisa, bastava prometer-lhe dois vinténs; a gente achava logo sem saber como. E, não se cumprindo a promessa, era castigo certo. De uma feita, desapareceu urna vaca leiteira. Meu pai, desconfiando que a houvessem furtado, chamou o pai Pedro, negro velho ladino e rastejador, e disse-lhe: "Não quero saber de histórias; vosmecê dá-me conta da vaca, ou come relho." Quando o velho falava assim, era aquela certeza. O negro coçou a cabeça, lastimou-se e saiu resmungando. Bateu capões de mato; esgravatou grotas e já estava desesperado, pensando no que lhe aconteceria, por voltar com as mãos abanando, quando se lembrou de prometer dois vinténs a Santo Antônio. Mal tinha feito a promessa, olhou para uma banda e o que havia de ver? A vaca pastando muito de seu, no lugar onde escondera o bezerro. Pedro pulou de contente, laçou a vaca, e partiu. Em caminho, entrou a pensar que o santo nada havia feito; ele é que estava banzando sem prestar atenção. Por que, então, lhe havia de dar o dinheiro?... Nisto , o animal deu um safanão; arrancou e deitou a boca no mundo: Que santo desconfiado!... Eu estava caçoando... Pago os dois vinténs e até mais!... A vaca voltou ao curral com os pés dela e foi o que valeu ao pai Pedro. Olhe, Luzia, tenho visto verdadeiros milagres...

- Amanhã - afirmou Luzia jubilosa como se lhe houvesse ocorrido o meio de resolver a dificuldade - amanhã arranjarei os dois mil-réis...

- Como? Que vai fazer?... Ah! Luzia, não se guie pela minha ruim cabeça ...

- Não se arreceie...

- Que é que vocês tanto conversam? - perguntou a velha.

- Nada, tia Zefinha - respondeu Teresinha - Bobages de moças. Eu dizia que se pudéssemos pagar um doutô para soltar Alexandre...

- Não há, então, uma criatura que faça de graça essa caridade?...

- Qual!... Neste mundo tudo se move a peso de dinheiro... Doutô é como padre que não diz missa sem dinheiro... O saber é a foice e o machado deles...

- Não são todos - observou Luzia - O Promotor é um doutô muito bom... Tem feito o que pode pelo pobre que está penando naquele inferno... Amanhã... Amanhã...

Teresinha preparou a candeia de azeite de carrapato; espevitou o pavio de algodão torcido; acendeu-o, soprando com força num tição, e colocou-a no caritó, donde, bruxuleando, vacilante e fumarenta, iluminou em tons melancólicos, em firmes e vagarosos contrastes de claro e escuro, como nas telas imortais de Rembrandt e Espanholeto, um quadro admirável e emotivo, cena íntima da pobreza sofredora e resignad

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