Luzia
Homem, de Domingos Olímpio
CAPÍTULO
XXIII
Nunca estivera
Luzia mais atenta, mais solícita na ocupação
de diretora das meninas costureiras. Fingindo indiferença
aos comentários e informações, resmungados
de grupo em grupo, sobre o extraordinário caso do dia, às
perguntas indiscretas, alheia aos gracejos inofensivos, levemente
maliciosos, das companheiras de trabalho, respondia com meias palavras,
com evasivas curtas de quem se não quer importunar de olhares
impertinentes, de mexericos, de insinuações. Mas,
as meninas mais taludes cochichavam a respeito da mestra; trocavam
gracejos contemplando-a, de soslaio, muito espantadas de que ela
não acompanhasse o contentamento dos amigos de Alexandre,
que eram, então, muitos, quando devera ser a mais interessada
no desfecho do aleive urdido pelo celerado Crapiúna.
Notava-se-lhe,
no entanto, certo cuidado excepcional no arrumo dos cabelos em grossas
tranças luminosas, dum brilho escuro de cobras negras, a
escolha uo vestido de chita cabocla, guarnecido de rendas, e as
posturas faceiras, a disfarçarem o alvoroço do ecoração.
Seus olhos, onde brilhavam lampejos fugaces, se fitavam, a curtos
intervalos, na foz da larga estrada da cidade, e seus ouvidos, com
avidez aguçado, colhiam frases soltas, palavras esparsas
dos trabalhadores que chegavam, e traziam notícias últimas
dos últimos acontecimentos.
- Estive na
Casa da Câmara - dizia um - Tem gente que faz medo. A sala
estava atopetada, e os soldados não deixavam mais entrar
o povo que se espalhava por fora, pela escada do rendenguel abaixo,
até à rua. Ouvi dizer que a Chica Seridó contou
tudo...
- Eu vi o Crapiúna
- afirmava outro - Estava como uma onça acuada. Os olhos
pareciam duas brasas.
- Não
viste a Gabrina? - inquiriu uma mulher - Pois eu tive pena dela.
Fazia apertos no coração. Tão moça,
tão bonitinha e faceira e implicada na história do
roubo. Eu, Deus me livre de tal, se me visse em semelhante vergonheira,
era capaz de morrer.
- Foi sempre
uma desmiolada - acentuava uma velha - Conheço-a desde menina.
Era um diabinho em figura de gente. Também a mãe,
Deus perdoe os seus pecados, não se importava com ela; fazia-lhe
todas as vontades... Sempre digo que essa criação
d'agora não presta. Filhos muito senhores de si, por qualquer
descuido, se desgarram. Os meus não punham pé em ramo
verde. Muito amor, mas muito respeito e cabresto curto.
- Nestes tempos
de miséria - ponderou um carpinteiro idoso - ninguém
tem folga para cuidar da criação dos filhos. Vão
se criando ao Deus-dará, como filhos de pobre.
- Os mais bem
criados não estão livres de uma desgraça. Não
valem cuidados, nem vigilâncias; a miséria entra pelas
gretas das fechaduras, empesta o ar e tira o juizo.
- Quando saí
- informou um recém-chegado - a Chica ainda estava falando.
Ela, que tem partes com o demônio, estava se, vendo para explicar
a embrulhada das sacas de feijão e de farinha recebidas de
Crapiúna, os cortes de vestido e os brincos de oiro. Imaginem
vocês que aquela inocente, passada pelos corrimboques, não
maldou. Se eu fosse delegado, ela ia, mas era pra cadeia, para não
se fazer de besta, pensando que os outros têm um tê
na testa.
- Ladina como
ela só... Quem a ouvir, não a leva presa.
Luzia não
perdia uma sílaba do que se dizia. Colhia, aqui e ali, fragmentos
de narrativas, observações, notícias incompletas,
que devorava na ânsia de saber tudo, principalmente o que
concernia a Gabrina e a Alexandre, de quem não haviam ainda
falado. E Teresinha? Onde se metera? Por onde andava que não
vinha para dar-lhe, como prometera, informações seguras,
anunciar-lhe a feliz nova da libertação do preso,
ou trazê-lo?
Correram horas
de ansiedade, da pungente tortura de esperar, suportada de rosto
sereno, onde não havia uma contração de impaciência.
As sombras informes
da penitenciária, das grandes paredes de andaimes complicados,
se alastravam pela encosta do morro; o anilado perfil das serranias
se esfumava em turva neblina de mormaço, e a viração,
caída como um hálito de febre, revolvia o pó
em torno das moitas mortas, rugia nas palhas dos alpendres e barracas,
anunciando o pendor do sol para o ocaso flamejante.
Do alto do morro
ela divisava a faixa de oiticicas seculares, marcando o contorno
do leito do rio estanque, e a cidade, como um enorme crustáceo
farto à sesta, as torres da matriz alvejando em plena luz,
o vermelho, o vasto telhado da casa da Câmara, no qual, tanta
vez, demorara o olhar saudoso e compadecido do homem querido, sofrendo,
ali, aviltante prisão, e donde ela, enternecida, esperava,
agora, ver alar-se o anjo da esperança triunfante. Mas, não
partia de lá, nem o eco de uma voz de alvíssaras,
nem um sinal auspicioso animava a paisagem, tocada de tons quentes
de brasa, numa imobilidade de coisa morta, num silêncio triste
de sítio desolado, quando ela desejava que a natureza, as
coisas vivas, as coisas mortas participassem da sua ansiedade, do
seu desejo quase raro, quase ignorado.
As meninas cosiam,
diligentes, agrupadas em derredor da mestra, numa garrulice de passarada
inquieta. Ranchos de operárias davam a última demão
ao trabalho do dia; retirantes fatigados da derradeira caminhada
se aliviavam das cargas de material, e os feitores contavam e notavam
em cadernos apolegados, o pessoal que vinha chegando lentamente.
Apareceu por
último, Raulino, rúbida figura de bretão, muito
alto, muito magro, de músculos túmidos, os revoltos
cabelos ruivos empoeirados, erguidos em trunfa sobre a fronte tostada.
- Então?
- inquiriu Luzia, erguendo-se a encontrá-lo.
- Está
solto. Não o vi, porque havia gente como formiga defronte
do armazém. Teresinha saiu com ele. Estava desfigurado, dizem,
como quem se levanta da cama de moléstia maligna. Credo!
Parecia um defunto em pé.
- Não
falou com ele?
- Fiz o possível;
mas tinha pressa de chegar aqui antes do ponto.
- Está
mesmo livre. Não é, seu Raulino?
- Tão
livre como eu, que lhe estou falando. Também não foi
sem tempo, porque se o pobre ficasse mais alguns dias na cadeia,
talvez fosse desta para melhor. Saía dali para a cova.
- E agora?...
- Agora... é
cuidar da saúde, e trabalhar. Pobre não tem direito
de ficar doente. Barco parado não ganha frete...
- Acha que ficará
bom?
- Alexandre
é rijo e moço. Com alguns dias de ar livre, fica capaz
de outra, do que Deus o livre. Aquilo é madeira de lei; o
cupim da moléstia há de custar a roê-la.
- Ainda bem.
Luzia voltou-se
para as meninas, e ordenou-lhes que dobrassem as costuras, embora
não soasse ainda a hora de terminar a tarefa. Pensou, então,
em abandonar o trabalho, voar a casa, onde, talvez, a estivesse
Alexandre esperando, ansioso. Mas, primeiro a obrigação,
o cumprimento do dever remunerado pelo pão de cada dia. E
ficou, aparentemente, calma, resignada à lentidão
do tempo, porque o sol, que o governava, como que havia parado,
desceu escandescido, na calma imensidade de oiro alastrado.
Dona Inacinha
errava, rabujenta, entre as turmas de costureiras, resmoneando censuras
graves, cheias de desgosto.
- Tudo muito
mal feito, obra albardeira, mal-acabada e feita à pressa:
não paga o pirão que custa.
- Vocês
mesmo - continuava, com asperezas fanhosas de voz, traindo a irritarão
incoerente de celibatária - não se emendam. O que
lhes digo sobre o serviço entra por uma orelha, e sai pela
outra. Estas costuras encardidas bem mostram que foram feitas por
porcalhonas. Vejam as da Luzia. Dá gosto lidar com uma pessoa
assim cuidadosa e cumpridora dos seus deveres. Os pospontos parecem
feitos por máquina. Vocês me põem doida. Estou
vendo a hora de perder a paciência e o juizo. Se vivem grazinando
na conversa, em vez de olharem para o que estão fazendo.
E mais rubro
se acendia, riscado de veiazinhas tensas, o grande nariz da beata,
montado de grandes óculos cintilantes.
Quando chegou
a turma de Luzia, estranhou que as peças costuradas já
estivessem todas arrumadas em pilhas.
- Como? Tão
cedo, e já acabada a tarefa?
- É que
eu - observou Luzia, enleado - desejava sair hoje mais cedo...
Por que não
me disse há mais tempo? Pode ir. Você merece contemplações.
Dá conta do serviço, como uma moça de vergonha.
Acrescentou
depois, sorrindo, com ironia, e cravando nela os pequeninos olhos
maliciosos:
- Hoje é
dia grande para você, sua sonsa. Já me disseram: sei
tudo. Vá, ande, e seja bem sucedida. Como é para bom
fim, não me importa de dar-lhe um suetozinho...
Luzia corou;
agradeceu o favor, e partiu veloz, açoitada pela ventania
morna e violenta que lhe relevava as formas, colando-lhe, como uma
túnica de estátua, o vestido ao corpo, mal disfarçando
os graciosos contornos, modelados por inspirado escopro.
O coração
pulsou-lhe inquieto, ao avistar o tecto da casinha, vergando ao
peso das telhas enegrecidas pelas intempéries, deslocadas
pelos tufões. Naquele abrigo, onde gemia a mãe doente,
e que ela amava como lugar do sofrimento dos fortes resignados e
dos crentes; naquele sítio, onde Alexandre lhe propusera
viverem eternamente juntos, ligados pelo mesmo afeto espontâneo
e sincero, e lhe dera os cravos vermelhos que lhe haviam envolvido
o coração com raizes vigorosas, e o inebriaram com
o seu perfume suavissimo; sob aquele tecto velho, a vacilar sobre
as forquilhas de aroeira, passara dias de amargura, noites de vigília
torturantes, e os momentos mais venturosos de sua existência
humilde, ignorada; e ali, àquela hora melancólica,
contrastando ccm as pompas deslumbrantes do crepúsculo, encontraria
a satisfação dos seus supremos desejos.
Exausta da caminhada,
estacou para tomar fôlego e consertar as vestes, como quem
se aparelha para um lance de efeito. Prosseguiu, lívída
e trêmula, com precauções de menina criminosa
na iminência de castigo merecido.
A latada do
alpendre estava deserta. Sobre a trempe fumegava uma grande panela
de barro. Os utensílios domésticos estavam arrumados
no jirau. O silêncio, um silêncio triste de abandono,
era interrompido pelo queixume triste dos ganchos de ferro, donde
pendia a rede, em que a mãe se baloiçava, defronte
da porta do quarto escancarada.
- Que é
isto? - perguntou-lhe a velha - Supus que viesses com Alexandre...
- Não
- respondeu ela. - Vim do morro.
- Não
foste à cadeia?
- Fui trabalhar.
- Que modos,
filha? Esperava ver-te alegre e ditosa...
- Quem sou eu
para merecer tanto?
- Tens alguma
coisa? Estás cansada, não é?... Sempre digo
que te matas sem proveito com os teus excessos de labutação.
- Teresinha
não apareceu?
- Não.
- Sabe que Alexandre
já está livre?
- Deus seja
louvado!
- Agora vamos
cuidar de nós - concluiu Luzia, atirando o manto branco sobre
a corda atravessada ao canto do quarto. E, voltando ao alpendre,
tratou do jantar da doente, que a seguia com os olhos carinhosos,
olhos de mãe.
- Bem mereço
este castigo. Sou eu a culpada. Abandonei-o por soberba, capricho...
Teve razão. Não devia perguntar por mim - murmurou,
enchendo de caldo a tígela. - Eu, no lugar dele, não
viria atrás de uma ingrata feroz... Ah! os homens nada desculpam;
não perdoam... São vingativos porque não são
capazes de querer bem como nós, que, por eles, esquecemos
tudo...
- Que tens,
filha? - repetiu a velha, recebendo o caldo fumegante. - Choraste?
- Não
- respondeu ela, a voz salteada, comovida. - É a fumaça
que me faz arder os olhos...
E sentou-se
à soleira da porta, desmanchando, lentamente, as bastas tranças,
do lustre fulvo da asa da caraúna, as tranças que
vendera por causa dele, dessa criatura ingrata, que os seus olhos,
flébeis de decepção e de saudade, procuram,
em vão, topar, de súbito, surgindo onde o caminho
torcia, encoberto de moitas mortas de mofumbas e juremas, a cujos
galhos, desordenadamente hirtos, contorcidos, a ventania vultarna
dava movimento, gestos de aflição, nuns silvos de
estertor.
CAPÍTULO
XXIV
Separando-se
de Alexandre, Teresinha, começou de sofrer a extenuante reação
do esforço empregado para salvá-lo. Essa generosa
empresa, que a seqüestrara à influência deletéria
dos hábitos de viciosa passiva, que lhe despertara afetos
adormecidos no coração, encrostado ao atrito do infortúnio
e lhe deparava a inefável satisfação de ser
útil, fora, muitos dias, o pólo da gravitação
do seu espírito. Nesse período de agitação
do cérebro ocioso e vazio, ela só pensava na iniqüidade
do constrangimento de um inocente, no martírio da enxovia
imunda, na arrogância petulante de Crapiúna e no cruel
insulto, que a chicoteara como um relho. Alcançado o anelo
de justiça e vindita, parecia faltar-lhe a razão de
viver. As pétalas de sua alma, sob um fino, um suave orvalho
do bem, se contraíam tristonhas, como folhas que, saciadas
de luz e oxigênio, se encolhem para adormecerem ao avizinhar
da treva, e se expandem viçosas ao raiar da seguinte aurora.
Ela, porém, se sentia sepultada em noite sem esperança
de alvorecer, sem o consolo delicioso do sonho a doirar a ignomínia
da realidade, onde imergira, como num tremedal de lama gulosa.
Restava, entretanto,
o remate da obra meritória, a felicidade de Alexandre e Luzia;
vê-los casados, muito amigos um do outro; e fruir o saboroso
quinhão de ventura do lar abençoado. Mas, os dois
pareciam separados pela teia de aranha de melindres fúteis
ou amarrados ao poste de caprichos injustificáveis. Seria
mais nobre, mais humano, se estreitarem em decisivo amplexo, como
faria ela, sem ponderar conveniências, escrúpulos,
circunstâncias, num arroubo de paixão vitoriosa.
As reservas
de Luzia irritavam-na como estulta resistência. E murmurava,
caminhando a esmo, injúrias contra ela, recriminações
a Alexandre, um mazanzal, que ficava no armazém embiocado
de fadiga, quando a liberdade e o amor deveriam restituir-lhe as
forças, dar-lhe asas para voar, como um passarinho evadido
para junto da criatura querida.
- Arre lá!
- exclamava indignada - Que se arranjem, que se separem, cada um
para o seu lado. Que me importa!... Bem-querer não é
obrigado, nem eu tenho nada com isso. Eu me intrometi demais em
negócios alheios... Chega a meter-me raiva tamanha cerimônia
entre pobres diabos, que não têm onde caírem
mortos, quanto mais vivos...
Considerava
depois, que não mudaria o seu destino se eles fossem felizes.
Ela seria esquecida, porque o dia do benefício é véspera
da ingratidão. Na embriaguez de gozos divinos, não
se lembrariam dela que havia sofrido por eles; não teriam
uma palavra de dó da pobre Teresinha, mulher à-toa,
desprezada como vil trapo humano, atirado ao monturo dos resíduos
sociais, vagabunda sem rumo, sem triste vintém para comprar
um bocado, carecendo de tudo e não sabendo onde buscar cinco
patacas do aluguel do quarto, abandonado, havia mais de mês.
A recordação
dessa dívida, surgia a horrível idéia de ser
forçada a volver ao poste da infâmia, onde passara
noites acocorada à soleira da porta, fumando cigarros, mutuando
gracejos torpes com as vizinhas; ou, solitária, bocejando,
a lutar com o sono, aguardando o inesperado amante, que a provasse
de alimento para o dia seguinte deixando-lhe o imundo bafio hircico
de homem luxurioso, impregnado na sua pele. Vinha-lhe, então,
invencível nojo à passividade abjeta de coisa que
se vende, tábua de lavar roupa, como dissera Crapiúna;
assaltava-a o terror de volver àquele lamaçal infecto,
como se o contágio da pureza, o exemplo da honestidade impoluta
e forte, em combate com a miséria, lhe houvessem infundido
no coração, fechado aos afetos sãos e benfazejos,
um nobre impulso de amor-próprio. Faltava-lhe, porém,
coragem para resistir ao pendor criminoso, volver a trabalhar como
as outras desgraçadas, nas obras da Comissão, carregar
água, tijolos, areia. Que poderia fazer para ganhar, além
da ração, algum dinheiro, uma criatura franzina, desacostumada
a esforços musculares, e, por cúmulo de males, aberta
dos peitos?...
- Como há
de ser, Deus do céu? - exclamava, aflita - Como hei de viver
agora, sozinha, sem parentes e aderentes nessa desgraceira!...
E seguia, lentamente,
na direção da casa de Luzia, contornando os quintais
e as casas extremas da cidade, para evitar o trajeto nas ruas cheias
de gente, mendigos, enfermos e a praga de meninos esfomeados.
Na várzea,
varada de trilhos claros que riscavam o chão negro, ela encontrou,
àquela triste hora da tarde, magotes de retirantes, cobertos
de pó, marchando em filas tortuosas, das quais, como de um
rastilho de suplício marcado pelas vítimas, se destacavam
individuos ou famílias, que paravam emaciados, rendidos de
cansaço e se sentavam para repoisarem, recobrarem alento
e comporem os andrajos, antes de penetrarem na cidade.
Esse espetáculo
de todos os dias, na sua monotonia sinistra, não a impressionava
mais, porque se habituara à vizinhança da miséria
nas formas mais lúgubres e vis. Vira crianças, a sugarem
os seios murchos das mães mortas; cadáveres desses
entezinhos abandonados sobre a estrada, devorados por urubus e cães
vorazes: criaturas, ainda vivas e exangues, torturadas pelas bicadas
de carcarás a lhes arrancarem, aos pedaços, as carnes
ulceradas e podres. Vira mães desnaturadas ocultarem em crateras
de formigueiros, o fruto de amores criminosos, ou traficarem com
filhas impúberes; pais desalmados, incestuosos e delinqüentes
dos mais torpes crimes, como se o concurso de todas as dores e de
todas as baixezas, condensando-se em enorme e fantástico
suplício, os houvera transformado em monstros hediondos,
rebalçando-se em lances trágicos de ferocidade inconsciente.
Diante dela haviam tombado, fulminados pela fome, indivíduos
de aparência sadia e robusta, estrebuchando no chão
como epilépticos a tragarem terra aderente aos dedos aangrentos
e blasfamarem contra o Deus impassível que os desamparava,
os renegava filhos pecadores, condenados, em vida, às torturas
daquele inominável inferno da miséria.
Milhares de
criaturas haviam sido provadas nesses transes inenarráveis;
no entanto, ela havia apenas sofrido o ferrete da ignomínia.
Era, pois, incomparavelmente, mais feliz que aqueles pobres alquebrados,
que passavam lentamente, restos de uma raça de trabalhadores
heróicos e fortes, desbaratada sob o látego do castigo
do céu. Se devia cair mais, descer mais fundo no sorvedoiro
da infâmia, padecer como aqueles mártires, desejaria
ser levada por uma moléstia para a vida onde ninguém
sofre.
A sua imaginação
desvairada volviam, com esses pensamentos tristes, as figuras de
Alexandre e Luzia: ela caminhando para a praia, confundida no êxodo,
conduzindo a mãe estropiada; ele, feliz, bem colocado no
emprego e apoiado na confiança dos Comissários. E
não se conformava com o romance passional sem desenlace,
empatado pelo egoísmo de ambos.
Desviando-se,
insensivelmente, Teresinha foi ter ao sobpé da encosta íngreme
cerrada pelos rochedos, chamados Fortaleza, nos quais terminava
o renque de casas da Leonor, onde morava Rosa Veado. Aí o
caminho, que era uma breve ladeira cavada entre pedroiços,
estava obstruído por um grupo de três indivíduos,
uma família que subia a passo tardo, tangendo um velho burro,
pelado e esquelético, carregando duas malas e, no meio da
carga, os utensílios domésticos e o oratório
de cedro envernizado, cheio de santos. Um velho, de longas barbas
brancas, puxava o animal pelo cabresto; ao lado, ia a mulher, também
idosa, de formas cheias; atrás, marchava uma rapariga loira,
de corpo franzino e flexível, acusando o despontar da adolescência.
O burro, de grandes orelhas bambas, vacilava a cada passo, e era
animado pelos seus condutores com palmadas carinhosas nas ancas,
estalidos de lábios soando como largos beijos, e vozes de
estímulo. Mas o mísero bufava, arquejava, e mal se
podia equilibrar sobre as patas corridas de suor, trêmulas,
hesitantes.
- Que maçada!
- resmungava Teresinha, obrigada a seguir o moroso grupo, parar
quando ele parava, a marchar com ele, bem chegada à mocinha
loira - Esta só a mim acontece...
Entretanto,
o animal, vergado de fadiga, tirava-lhe funda piedade. O oratório,
encimado pela pequena cruz singela, a balançar surgindo dentre
o amarradio de cordas de crina, evocava meiga saudade, fantasmas
de anjos esvoaçando através de sua memória
obscurecida, recordações vagas, místicas comoções,
talvez provocados pela parte dos santos no infortúnio dos
adoradores, aquela família de crentes, que não os
abandonava, como tutelares do lar vazio.
- Vamos, vamos!
- dizia a mocinha ao animal - Caminha mais um bocadinho; estamos
quase em riba.
Essa voz tinha
sonoridade consoante às recordações de Teresinha;
era a de uma pessoa querida, morta, ou, havia muito, ausente, depois
de feliz encontro na sua carreira aventurosa pelo mundo. Quem seria?
Onde ouvira falar aquela criatura, que lhe alvoroçava o coração?
E à revolta contra o obstáculo, sobreveio intensa
curiosidade de ver a mocinha, de saber quem era.
O burro, com
supremo esforço, deu mais alguns passos e chegou ao cimo
da pequena ladeira, junto dos grandes molhes de granito retangulares
e erguidos a prumo, como ameias de uma fortaleza. Aí, como
se houvesse esgotado o alento, vacilou, respirou com força;
soltou um surdo gemido doloroso e caiu aniquilado, contemplando
com os grandes olhos súplices, o velho que puxava o cabresto
para lhe suspender a cabeça, ao passo que a moça tentava
erguê-lo pela cauda.
- Aliviemo-lo
da carga - ordenou o velho - Está afrontado, pobre Macaco...
Também há três dias que nem retraços
tem comido.
O caminho estava
desobstruído e franco; mas Teresinha apiedada do pobre animal,
estacara trêmula e lívida, cosida aos rochedos, numa
postura de horror, pregando o olhar esgazeado no grupo sugestivo,
a poucos passos de distância.
- Macaco! Será
possível! - gaguejou ela, espavorida.
Vendo-a ali
parada, a mocinha se dirigiu a ela:
- Minha senhora,
faça a esmola de nos dar uma mãozinha para tirarmos
a carga daquele pobre.
- Maria da Graça!
- bradou Teresinha.
- Sa dona conhece-me?
Minha Nossa Senhora!... É... é...
Maria recuou,
transida de susto, mal confiando nos seus olhos.
- Que é?...
- perguntaram, a um tempo, os dois velhos, muito empenhados em tirar
o oratório de cima do burro, imóvel, estirado no chão.
- É...
é a Teresa - respondeu a mocinha, com um grande gesto de
espanto.
- Teresa! minha
filhinha!... - exclamou a velha, num grito de surpresa alegre, no
qual retumbava a ternura toda do coração de mãe.
- Tu!... tu aqui?
E, atirando-se
à filha, enlaçou-a nos braços, beijando-a com
apaixonado frenesi na face, na fronte, nos cabelos, como quem sacia
longa e cruel sede de amor.
Hirta e gelada,
desfigurado o rosto por violentas contrações de estupor,
e lívida como um morto, Teresinha não pôde fazer
um gesto; mas, a carícia maternal lhe agitava todas as febras
do coração, e todo o seu corpo tremia convulsionado.
Só os olhos espantados, viviam, cintilando com uma lucidez
ingênita.
- Teresa, filha
da minha alma, - continuou a mãe - Deus te abençoe!
Minha Virgem Santíssima, é ela mesma!... Seu Marcos,
veja, é a nossa filha!...
O velho erguera-se.
As grandes barbas, alvejando à luz do sol poente, davam venerando
relevo ao esquálido rosto, macerado, tostado pelo mormaço
do sertão. Os pequenos olhos azuis, de um azul de céu
empoeirado de neblinas, brilhavam no fundo das órbitas sombrias,
com um bruxuleio de lâmpada de santuário. Na postura,
nos andrajos e na voz soturna e firme, corporizava a nobreza da
miséria da miséria superior.
- Teresa de
Jesus! - murmurou ele, com um suspiro, que lhe assomou aos lábios,
como um silvo de tormenta - Já pedi a Deus que perdoasse
os seus pecados. Estes santos, que nos acompanham, sabem que rezei
por ela, como um pai reza por uma filha ingrata, perdida e morta.
Ao choque destas
palavras de condenação implacável, Teresinha
cambaleou, e caiu prostrada de dor, nos braços da mãe
angustiada.
Maria da Graça
contemplava, muito aflita, o pai e a mãe, e, no transe incompreensível,
considerava a intensidade da cena, dolorosa, inconsiderável.
- É nossa
filha, seu Marcos - continuou a velha, acariciando a filha e conchegando-a
ao seio. - Tenha dó dela, meu marido do coração!
Veja como está acabada a nossa filhinha!...
- Você
sabe, mulher - gemeu Marcos - que já padeci por ela todas
as dores deste mundo...
- Também
ela tem sofrido... É uma infeliz...
- Infeliz! assim
foi de sua vontade...
- Seu Marcos...
- Sabe que mais,
mulher? Vamos cuidar deste pobre animal, nosso amigo velho, que
não nos abandonou e está aqui morrendo por nossa causa
... Ah! os bichos têm, às vezes, mais coração
que as criaturas.
- Meu pai! -
soluçou Teresinha, como se as duras palavras lhe estrangulassem
as entranhas.
Ele, porém,
parecia intangível. A súplica da filha, queixumes
de alma penitenciada a estorcer-se no silício da vergonha
não ecoou no coração, donde ele arrancara,
num paroxismo de opróbio, a poluída imagem da pecadora,
que não podia volver a profanar o tabernáculo do culto
incondicional à honra e à integridade da família.
No peito lhe ficara um buraco lúgubre, o ninho vazio transformado
em cova, encerrando, para sempre, um sublime afeto estiolado.
A um gesto imperativo
do pai, Maria da Graça, despertada da estupefação
que lhe gelava o sangue nas veias, o ajudou a desatar a troixa de
redes, as azelhas dos dois baús, cobertos de coiro cru e
tauxiados de pregos doirados e, por último, as cilhas da
cangalha que, retirada do suarento dorso do burro, lhe expôs
as mataduras da espinha, as chagas rubras dos omoplatas, sobre as
quais vieram adejar, zumbindo, grandes varejeiras, de asas nacaradas
e revestidos de cintilantes coiraças, oxidadas de verde metálico.
No espaço voavam, em largas espirais, urubus famintos, dos
quais alguns mais ousados se despenhavam, de asas quase fechadas,
até perto dos rochedos, onde poisavam, aguardando o abundante
repasto da carniça ainda viva.
Macaco, aliviado
da carga, tentava erguer-se sobre as pernas dianteiras, rolando
um olhar de terror para os lúgubres pássaros, que
pontuavam de negro as arestas das rochas, mas, faltavam-lhe as forças
e recaia ofegante.
- Se ao menos
- dizia Marcos - houvesse por aqui uma pouca d'água e alguns
retraços...
Clara, indiferente
à sorte do animal, acariciava e consolava a filha desditosa:
- Tem paciência,
meu coração. Teu pai tem ímpetos de crueldade,
mas passam, porque a alma é de oiro. Coitado! Sofreu tanto
por ti...
- Tem razão...
tem razão, mamãe - gemia Teresinha. - Sou uma ingrata,
uma doida, mas... assim mesmo... não sou tão ruim
que mereça menos compaixão que este animal...
E entrou a chorar
em convulsão, murmurando frases inteligíveis, que
o pranto e os soluços entrecortavam.
- Seu Marcos,
meu marido da minha alma - suplicava a mãe. - Tenha pena
desta pobre.
- Ah! papai
- balbuciou, trêmula, Maria da Graça - tenha compaixão
dela... Coitadinha de Teresa...
- Era melhor
- resmoneou o velho, abalado pelas lágrimas da mulher e da
filha caçula, que era o seu ídolo. - Melhor seria
que essa mulher, em vez de estar ai a chorar, ela que conhece a
cidade, nos ajudasse, mostrasse que ainda tem préstimo...
Teresinha ergueu-se
de repente; enxugou o rosto na saia e partiu. Sabia que Rosa Veado
morava perto, no renque de casas da Leonor, e foi procurá-la,
seguida pelos olhares da mãe e irmã, tomadas de surpresa,
ao passo que o velho teimava em reanimar o burro com palavras afetuosas.
Pouco depois
ela voltou, trazendo uma grande cuia cheia d'água... Pressentindo
o precioso líquido, Macaco nitriu surdamente, como se sorrisse
de satisfação; ergueu a cabeça e, agitando
os grandes lábios negros e ávidos, a sorveu, a longos,
a ruidosos tragos.
- Deus lhe pague
- disse o velho, restituindo a Teresinha, cuia vazia. - Disseram-me
que era possível encontrar aqui uma, pousada, um tecto caridoso,
onde pudéssemos descansar da viagem através desse
sertão ingrato.
- Deram-me -
balbuciou Teresinha, hesitante de medo - chave daquela casa, a casa
da fortaleza, onde ninguém mora há muitos anos, porque
é mal-assombrada...
- Virgem Maria!...
Credo! - exclamaram Maria da Graça e Clara, numas projeções
espavoridas de olhos sobre a velha prumada, cujas paredes, esburacadas
e marcadas de grande reboco, pareciam apoiadas nos rochedos. Ervas
morta das goteiras desdentadas, donde esguichavam piando, em desordenado
vôo, grandes morcegos, estonteados pela tênue luz crepuscular.
Pouco depois,
o grupo estava cercado de moradores da vizinhança, cada qual
mais curioso e empenhado em socorrê-lo. Vieram em seguida,
e quase sobre os passos de Teresinha, Rosa Veado e o Chico, um guapo
tipo de homem; a Marciana que mantinha, nas proximidades, uma bodega
bem sortida e possuía já algumas libras de oiro em
obra, comprado aos retirantes a troco de gêneros alimentícios;
e, esgueirando-se por entre os circunstantes, o bando infalível,
barulhento de meninos, os mais pequenos nus, os outros enrolados
em trapos, em molambos.
- Anda, Francisco
- ordenou Rosa ao filho - dá um adjutório a estas
criaturas... Abre a casa; leva as malas...
- Amanhã
- exclamaram os meninos, tripudiando em volta do burro - urubus
têm festas! Este mesmo está aqui e está no céu
das formigas!...
Rosa Veado tomou
o oratório; beijou-o, com reverência, que outras mulheres,
outras devotas, imitaram, silenciosamente.
- O senhor -
observou ela ao velho Marcos - tem coragem. Eu não passava
a noite naquela casa amaldiçoada, nem que me matassem.
- Eu só
tenho medo dos vivos - ponderou o velho.
- É que
vossa mercê não sabe o que nela se tem dado, coisas
de arrepiar coiro e cabelo...
- Que me importa
visagens e almas do outro mundo, ou artes do demônio? Por
ora, eu careço, que me arranjem alguma coisa para matar a
fome deste animal...
- Não
é difícil - atalhou Marciana. Mas, o senhor deve saber
que o milho está pela hora da morte...
- Ainda tenho
meios, graças a Deus, e, além da paga, ficaria agradecido.
Marcos desatou
da cintura uma faixa elástica, tecida de algodão,
e tirou dela alguns patacões de prata. A vista das moedas,
desapareceram as hesitações de Marciana, que se desmanchou
logo em cumprimentos e palavras de pesar pela sorte da família
e prometeu prove-la, sem demora, do necessário, preparando
a casa mal-assombrada para aboletá-la com a possível
comodidade naquela noite.
Não era
raro aparecerem, entre os retirantes, famílias abastadas
que haviam abandonado os lares, levando dinheiro e jóias
sem valor por não terem o que comprar, mesmo a preços
exorbitantes. Marcos, depois de inútil resistência,
viu-se nessa triste situação. De esperança
em esperança de mudança de tempo, vira os gados morrerem
nos campos devastados; consumira, com parcimônia cautelosa,
as provisões acumuladas, os surrões de farinha de
mandioca, os paiós de milho, arroz em casca e feijão;
as matalotagens em salmoira ou empilhadas se esgotaram por encanto,
porque não tivera coragem de recusar esmola aos famintos
que passavam pela sua fazenda. Os vaqueiros, agregados e pessoal
de fábrica, empregados na labutação de criadores
e agricultores, na maioria escravos velhos e crias de casa, não
tinham que fazer; eram bocas inúteis. Alforriou-os deu-lhes
liberdade para ganharem a vida.
Cansado de resistir
e lutar, aguardando, em vão, sinais de inverno, viu-se, afinal,
só, sem um amigo, um companheiro, um vizinho, numa redondeza
de dez léguas, exposto aos assaltos de bandidos, que enchiam
a região, e resolveu emigrar. Arrumou em algumas malas o
indispensável, a roupa da família e algum dinheiro,
enterrando o resto com a prataria, velha baixela e jóias
numa brenha de serrotes ásperos e pedregosos. Organizou o
comboio com três burros e outros tantos cavalos de sela, e
partiu na direção de Sobral, a cidade intelectual,
rica e populosa, empório do comércio do norte da província,
na qual o Governo estabelecera opulentos celeiros.
Na longa e penosa
travessia, à falta d'água e pasto, morreram os cavalos,
depois dois burros. Foi forçado a abandonar malas, reduzir
as cargas a uma só para que Macaco, o animal sobrevivente,
a pudesse agüentar. Pela primeira vez na vida, tiveram de viajar
a pé, a curtas jornadas, para não fatigarem o animal
e poderem suportar, sem se estropiarem, a penosa marcha de exílio.
Muita vez, arranchados
à sombra de oiticicas frondosas, oferecera um patacão
por uma cuia d'água. Os raros bebedoiros subsistentes ficavam
longe da estrada real: era preciso fazer enormes desvios para os
alcançar. Cortava-lhe o coração ver a filha,
a meiga Maria da Graça, descorado o rosto de criança
na moldura dos cabelos de oiro, rendido o frágil corpo, os
pezinhos dilacerados pelas agruras dos caminhos e veredas, os rubros
lábios ressequidos e rachados, as entranhas devoradas pela
sede, adormecer no regaço da mãe, também mortificada,
mas resistindo resignada, com esse valor divino que torna invencíveis
as mães aflitas.
Ele sofria a
tortura inigualável de não a poder socorrer, mesmo
com o sangue de suas veias; de pedir, em vão, ao céu
luminoso, impassível, sorridente, a gota de orvalho que alentasse
aquele lírio, nascido nas ruínas de sua alma, a vergar
emurchecido, tostado pelo sol inexorável, quando, no delírio
da febre, a pobrezinha, com ânsia, balbuciava: "Água...
água, papai!"; e ele via dos olhos da mãe, resignada
e heróica, a implorar misericórdia ao Deus de amor
e justiça, por intercessão daqueles santos companheiros
de infortúnio, rolarem grossas lágrimas silenciosas.
Quando algum
comboieiro lhe cedia, de graça, a metade da sua borracha
d'água salobra, recusando a pródiga paga por não
ter ânimo de vendê-la a cristãos, Marcos, superior
às dores físicas, sorria de alegria de ver saciadas
e salvas da morte horrível as criaturas idolatradas e o fiel
animal, e apenas umedecia os lábios e sentia alentarem-se-lhe
as indômitas energias para chegar ao termo da dolorosa viagem
pelo sertão combusto.
- Deus é
grande! - exclamava, em arroubos de fé inquebrantável.
- Coragem, mulher, ânimo filhinha!... Vamos para adiante,
parar aqui é morrer!... Mais alguns dias, estaremos salvos!...
A salvação
estava em Sobral, na cidade formosa e opulenta, o oásis hospitaleiro
anelado pelas caravanas de pegureiros esquálidos.
E chegaram,
padecendo todas as inclemências da jornada, caminhando à
noite para evitarem a torreira do sol. Por inculcas, souberam que
no subúrbio da cidade, poderiam encontrar um rancho, modesto
abrigo, onde pudessem esperar dias menos aflitivos.
A casa mal-assombrada
era quase uma, tapera. O repuxo das paredes; os esteios esconsos,
cobertos de colmeias abandonadas; o tecto, velado sob empoeiradas
colgaduras de teia de aranha; o telhado desfalcado, invadido de
ervas mortas; as portas emperradas e o chão, aluído
por túneis de formigueiros, sinalavam longo abandono. Essa
vivenda maldita, preservada pela superstição, estivera
sempre fechada. Ninguém lhe conhecia já o proprietário,
cujo procurador, morto havia muitos anos, deixara a chave à
custódia de Marciana.
Ao penetrar
no asilo de duendes, onde se ouviam, à noite, gemidos lancinantes,
rumores de correntes arrastadas assobios diabólicos, Rosa
Veado, que se encarregara de prepará-la para aboletar os
hóspedes, persignou-se, balbuciou uma Ave-Maria e acostou-se
às outras mulheres, apiedadas da família de Marcos.
Mal acenderam a vela, uma coruja espantada esvoaçou, gaguejando
pavorosa gargalhada de louco, e enormes vampiros agitaram a luz,
o ar deslocado pelo remígio das grandes asas desvairadas.
- Credo! - gritaram
as mulheres, recuando de medo. - Te desconjuro, pé-de-pato!
Passado o susto,
entraram e vasculharam, num instante, a sala, impregnada de forte
cheiro de estrume de morcego.
Uma levou as
redes e as atou aos cantos nos armadores enferrujados; outra sobraçou,
reverente, o oratória que foi colocado sobre uma das malas
conduzidas pelo Chico, que foi depois à venda da Marciana
buscar um pote d'água e um caneco de folha-de-Flandres novo.
Apareceu, por sua vez, a bodegueira, trazendo um bule com café,
três casais de xícaras de ruim louça, esmaltada
de flores vermelhas, um pires com açúcar escuro mascavado,
e algumas roscas e bolachas, duras como pedra.
- Aí
está, seu capitão - disse ela a Marcos - Já
tem onde encostar o corpo e o que foi possível arranjar para
entreter a barriga. Até amanhã. Vossa senhoria deve
ter o corpo pedindo rede... Com Deus amanheça. Se percisar
de alguma coisa, é só bater na derradeira porta da
esquina.
Marcos contemplava,
penalizado, o burro, que Teresinha alimentava com punhados de milho
amolecido; tomou Maria da Graca pela mão, e recolheu-se.
- Vai dormir,
filhinha...
- E mamãe?
- Está
com a outra, tratando o Macaco. Virá mais tarde.
Clara ficara
ao lado da filha infeliz, amimando-lhe os cabelos, dirigindo-lhe
palavras de amor e conforto, e recomendando-lhe que suportasse,
com paciência, as explosões da cólera paterna,
até conseguir ser abençoada.
- Ele tem razão,
mamãe - balbuciava a moça, com voz embargada pelo
hercúleo esforço para conter o pranto. - É
o castigo, castigo merecido pelos meus pecados, que são muitos.
Não peço que me perdoe, mas tenho padecido tanto com
o abandono, que não poderei mais viver sozinha no mundo.
Rogue a papai que não me bote para fora de casa. Embora não
me tenha mais como filha, porque morri para ele, deixe que eu fique,
como negra cativa. Tratarei o Macaco, carregarei água, tomando
conta da cozinha, da roupa, pois não me desprezo de fazer
todo o serviço.
- Sei que não
és má, filha do coração. Foi aquele
malvado, meu Deus perdoai-me, que te botou a perder... Eras uma
criança... - Não o culpe, mamãe. Cazuza era
bom e me quis bem até morrer. Só depois de ficar sem
ele foi que me senti na desgraça, por não ter vivalma
caridosa que me amparasse.
- Por que não
voltaste?
- Tive medo
e... vergonha. Faltou-me coragem para afrontar a ira do papai...
Passaram as
duas horas conversando, e alimentando, aos poucos, o precioso muar
desfalecido. Por fim, teve Clara de obedecer aos repetidos chamados
do marido para não o exasperar.
- Anda - disse
ela. - Teu pai já está impaciente. Vem comigo.
- Não
preciso de descanso. Vá, mamãe, que ficarei vigiando
este pobre.
Clara imprimiu-lhe
na fronte um longo beijo, e partiu, murmurando: Pobre filha! Deus
te abençoe. Parece que lhe quero ainda mais por ser infeliz.
O rígido
velho, curtido de preconceitos e fechado o coração
nas resoluções inabaláveis, como num túmulo,
não podia conciliar o sono. A espaços, erguia-se da
rede, ia à porta, sempre aberta; contemplava a filha culpada,
acocorada ao lado do burro enfermo; e, no misterioso silêncio
da noite estrelada, ouvia um murmúrio dolente, um estertor
de fonte, que se estanca, o pranto de Teresinha velando o animal
para que os urubus, postados nas arestas dos rochedos, como vedetas
sinistras, não o devorassem vivo.
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