O
Livro Derradeiro, Cruz e Sousa
CASTELÃ
Bela e mais
encantadora
Do que todas as belezas,
Graça leve de pastora
Que canta pelas devesas.
Enleios de passarinho
E brilhos de primavera,
Com magnetismos de vinho
No olhar azul de quimera.
Feita de um
jorro sadio
De auroras purpureadas
Carne mais fresca que um rio
De frescas águas prateadas.
Tudo é
frio e tudo é raso
Para dizer-te a capricho
Que és magnólia para um vaso,
Que és arcanjo para um nicho.
És um
mito da Alemanha
Vivendo em montanha alpestre,
No castelo da montanha,
Como ardente flor silvestre.
E tens as pomas
à farta
Polposas, cheias de aromas.
És assim a loura Marta
Com abundância de pomas.
Esse príncipe
que te ama,
Cismando, trágico e grave,
quando o luar se derrama
Cuida ouvir-te os vôos de ave.
Ele vive, airoso
e belo,
Como se vive num sonho,
No seu nevoento castelo
Junto de um lago tristonho.
E através
do pó flutuante
Do luar saudoso e vago
Julga que és a garça errante
Das águas verdes do lago.
ARTE
Como eu vibro
este verso, esgrimo e torço,
Tu, Artista sereno, esgrime e torce;
Emprega apenas um pequeno esforço
Mas sem que a Estrofe a pura idéia force.
Para que surja
claramente o verso,
Livre organismo que palpita e vibra,
É mister um sistema altivo e terso
De nervos, sangue e músculos, e fibra.
Que o verso
parta e gire -- como a flecha
Que d'alto do ar, aves, além, derruba;
E como os leões, ruja feroz na brecha
Da Estrofe, alvoroçando a cauda e a juba.
Para que tenhas
toda a envergadura
De asa e o teu verso, de ampla cimitarra
Turca, apresente a lâmina segura,
Poeta, é mister, como os leões, ter garra.
Essa bravura
atlética e leonina
Só podem ter artistas deslumbrado:
Que souberam sorver pela retina
A luz eterna dos glorificados.
Busca palavras
límpidas e castas,
Novas e raras, de clarões radiosos,
Dentre as ondas mais pródigas, mais vastas
Dos sentimentos mais maravilhosos.
Busca também
palavras velhas, busca,
Limpa-as, dá-lhes o brilho necessário
E então verás que cada qual corusca
Com dobrado fulgor extraordinário.nódoa
Que as frases
velhas são como as espadas
Cheias de nódoa, de ferrugem, velhas
Mas que assim mesmo estando enferrujadas
Tu, grande Artista, as brunes e as espelhas.
Faz dos teus
pensamentos argonautas
Rasgando as largas amplidões marinhas,
Soprando, à lua, peregrinas flautas,
Louros pagãos sob o dossel das vinhas.
Assim, pois,
saberás tudo o que sabe
Quem anda por alturas mais serenas
E aprenderás então como é que cabe
A Natureza numa estrofe apenas.
Assim terás
o culto pela Forma,
Culto que prende os belos gregos da Arte
E levará no teu ginete, a norma
Dessa transformação, por toda a parse.
Enche de estranhas
vibrações sonoras
A tua Estrofe, majestosamente...
Põe nela todo o incêndio das auroras
Para torná-la emocional e ardente.
Derrama luz
e cânticos e poemas
No verso e torna-o musical e doce
Como se o coração, nessas supremas
Estrofes, puro e diluído fosse.
Que as águias
nobres do teu verve esvoacem
Alto, no Azul, por entre os sóis e as galas,
Cantem sonoras e cantando passem
Dos Anjos brancos através das alas...
E canta o amor,
o sol, o mar e as rosas,
E da mulher a graça diamantina
E das altas colheitas luminosas
A lua, Juno branca e peregrine.
Vibra toda essa
luz que do ar transborda
Toda essa luz nos versos vai vibrando
E na harpa do teu Sonho, corda a corda,
Deixa que as Ilusões passem cantando.
Na alma do artista,
alma que trina e arrulha
Que adora e anseia, que deseja e que ama
Gera-se muita vez uma fagulha
Que se transforma numa grande chama.
Faz estrofes
assim! E após na chama
Do amor, de fecundá-las e acendê-las,
Derrama em cima lágrimas, derrama,
Como as eflorescências das Estrelas...
ARTE [variação]
Como eu vibro
este verso, esgrimo e torço,
Tu, o poeta moderno, esgrime e torce;
Emprega apenas um pequeno esforço,
Mas sem que nada a pura idéia force.
Para que saia
vigoroso o verso,
Como organismo que palpita e vibra,
É mister um sistema altivo e terso
De nervos, sangue e músculos e fibra.
Que o verso
parta e gire como a flecha
Que do alto do ar, aves, além, derruba
E como um leão ruja feroz na brecha
Da estrofe, alvoroçando a cauda e a juba.
Para que tenhas
toda a envergadura
De asa, o teu verso, como a cimitarra
Turca apresente a lâmina segura,
Poeta, é mister como um leão, ter garra.
Essa bravura
atlética e leonina
Só podem ter artistas deslumbrados
Que sorveram com lábios e retina
A luz do amor que os fez iluminados.
Nem é
preciso, poeta, que te esbofes
Para ferir um verso que fuzile;
Põe a alma e muitas almas nas estrofes
E deixa, enfim, que o verve tamborile.
Busca palavras
límpidas e novas,
Resplandecentes como sóis radiosos
E sentirás como te surgem trovas
Belas de madrigais deliciosos.
Busca também
palavras velhas, busca,
Limpa-as, dá-lhes o brilho necessário
E então verás que cada qual corusca,
Com dobrado fulgor extraordinário nódoas
Que as frases
velhas são como as espadas
Cheias de nódoas de ferrugem, velhas,
Mas que assim mesmo estando enferrujadas
Tu, grande artista, as brunes e as espelhas.
Que toda a vida
e sensação de estilo
Está na frase, quando se coloca,
Antiga ou nova, mas trazendo aquilo
Que soa como um tímpano que toca.
Como o escultor
que apenas fez de um bloco
A estátua -- com supremo e nobre afinco
Estuda a natureza num só foco:
A prata, o bronze, o cobre, o ferro, o zinco.
Estuda dos rubins,
estuda do ouro
E dos corais, da pérola e safira,
Todo esse íris febril radiante e louro
Que e a centelha de sol em toda a lira.
Estuda todos
os metais, estuda,
Desce a matéria prodigiosa e vasta,
Estuda nela a natureza muda,
Os veios de cristal da origem casta.
Estuda toda
a intensa natureza
Feita de aromas, de canções e de asas
E sente a luz da cor e da beleza
Rir, flamejar e arder, iriar em brasas.
Faz dos teus
pensamentos argonautas
Rasgando as largas amplidões marinhas
Soprando, a lua, peregrinas flautas,
Como os pagãos sob o dossel das vinhas.
Assim, pois,
saberás tudo o que sabe
Quem anda por alturas mais serenas
E aprenderás então como é que cabe
A natureza numa estrofe apenas.
Assim terás
o culto pela forma,
Culto que prende os belos gregos da arte
E levarás no teu ginete, a norma
Dessa transformação por toda a parte.
Enche de alegres
vibrações sonoras
A tua idéia pródiga e valente,
Põe nela todo o incêndio das auroras
Para torná-la emocional e ardente.
Derrama luz
e cânticos e poemas
No verso e fá-lo musical e doce
Como se o coração, nessas supremas
Estrofes, puro e diluído fosse.
Que a abelha
de ouro do teu verso esvoace,
Fulja como um fuzil numa borrasca.
Que o verso quando é bom por qualquer face
Lembra um fruto saudável desde a casca.
Com arte, forma,
cor, tudo isso em jogo,
Engrinaldado e rútilo de crenças
O sonho cresce -- o pássaro de fogo
Que habita as altas regiões imensas.
E canta o amor,
o sol, o mar e o vinho,
As esperanças e o luar e os beijos
E o corpo da mulher -- esse carinho --
Canta melhor, vibra com mais desejo.
Canta-lhe a
sinfonia dos olhares
A cálida magnólia austral das pomas,
E quando então tudo isso enfim cantares
Em tudo põe a fluidez de aromas.
Vibra toda essa
luz que do ar transborda
Como todo o ar nos seres vai vibrando
E da harpa do teu sonho, corda a corda,
Deixa que as ilusões passem cantando.
Na alma do artista,
alma que trina e arrulha,
Que adora e anseia, que deseja e ama,
Gera-se muita vez uma fagulha
Que explose e se abre numa grande chama.
Pois essa chama
que a fagulha gera,
Que enche e que acende o espírito de força,
Sobe pela alma como primavera
De rosas sobe por coluna torsa.
Faz estrofes
assim, de asas de rima,
Depois de fecundá-las e acendê-las
De amor, de luz -- põe lágrimas em cima,
Como as eflorescências das estrelas.
O DUQUE
Quando o duque
voltava da caçada
Alegre num clarim d'aço vibrante
De alacridade moça e evigorada
Dum ruidoso e trêfego estudante.
Quando ele vinha
com seu ar bizarro
De atravessar os vales e as colinas,
Sadio aspecto fresco como um jarro
Cheio de leite às horas matutinas.
Em toda a aristocrática
varanda
Alta e vistosa, ampla, aberta em janelas,
Ele vibrava, de uma e outra banda,
Cancões de amor, nostálgicas e belas.
Do salão
nobre entre tapeçarias
De Gobelins, riquíssimas e raras,
Iam vibrando aladas harmonias
Da sua voz, esplêndidas e claras.
Todas as fluidas,
leves, calmas, frescas
Manhãs azuis, serenas e formosas,
Loura mulher das regiões tudescas
O seu bom dia era mandar-lhe roses.
Floria, é
certo, em grande amor, floria
Gerado pelo eflúvio dessas flores,
Pois quando o duque não as recebia
Era o mais infeliz dos caçadores.
Tão doce
amor lembrava aquelas lendas
Dos medievais castelos esquecidos,
Quando visões de nuvens e de rendas
Apareciam nos balcões floridos.
A caça,
a caça, eternamente a caça!
Quanto melhor, mais fácil não lhe fora
A conquista das aves do que a graça
De conquistar essa beleza loura!
Para possuí-la
como noiva amada,
Aceso há muito nas paixões insanas,
Arrostaria a caça mais ousada
Dos javalis nas selvas africanas.
E sempre as
lindas rosas matutinas
Vinham-no perfumar todos os dias,
Quando saltava aos vales e as colinas,
Bizarro e são, dentre as tapeçarias.
Tempos passaram
sobre tais amores!
Mas depois de casado fez surpresa
Saber que o duque, o rei dos caçadores,
Não tinha o mesmo amor pela duquesa.
A ESPADA
I
Cavalheiros, os tempos já passados,
De pajens, de canzéis, de fidalguia,
De castelos, de reinos brasonados.
Ar cortesão
de graça e fantasia
Através dos olhares e dos beijos
-- No silêncio de cada galeria...
Foi nesse bravo
tempo dos lampejos
De espadas, de punhais e de couraças
Por combater frementes de desejos.
No tempo dos
floreios e das caças
Dos assaltos alegres e bizarros
Como as sonoras vibrações das taças.
Em que as almas
airosas como jarros,
Cheios de vinho espumejante e ardente
Eram de glória vencedores carros!
Foi no tempo
fidalgo e refulgente,
Quando o heroísmo fantasioso amava
A linha e a chama de luzida gente,
Que esta cena
galharda se passava,
Quando um donzel partia para guerra
Como a nobreza do solar mandava.
O pai, um tronco
transudando a terra,
Forte e viril, presença de profeta
Que no seu flanco a valentia encerra.
Barbas serenas
de bondoso asceta
Em cuja alvura doce e veneranda
Vê-se a vontade e a intrepidez completa.
Fronte banhada
de meiguice branda
A que o dever e os ríspidos conselhos
Dão sempre a austeridade que age e manda.
Lembra um ocaso
de clarões vermelhos,
Musgoso, triste, desolado muro,
Por onde o luar abre fulgor d'espelhos.
E esse semblante
que parece duro,
Áspero e torvo, trouxe-o dos combates,
Do torvelinho do nevoeiro escuro.
Dos pelouros
sanguíneos escarlates,
De fogo aberto em turbilhões, vorazes,
Dos impulsivos, bélicos rebates.
Mas, bem olhadas,
as feições audazes
Desse velho patriarca destemido
Tinha a suavidade dos lilazes.
Nos olhos, um
passado consumido
Entre aventuras e colóquios belos
Como que faz um verdadeiro ruído...
Sente-se neles
noites de castelos
Gozadas em amores dadivosos,
Em madrigais, em íntimos desvelos.
Cavalgadas,
torneios donairosos,
Sonho feliz de rica mocidade,
Requintes ideais, cavalheirosos.
Tudo se sente
na tranqüilidade
Desse deus varonil da força antiga
Feito com o rijo bloco da Verdade.
Tudo se sente
nessa paz amiga
Que as crenças do passado às outras crenças
Vagas, futuras, para sempre liga.
Tudo se sente
vir das névoas densas
E da ridente e cândida meiguice
Das suas barbas límpidas e imensas.
Sim! tudo da
quase criancice
Que dão aos homens esses tons nevoentos
Da enregelada e trêmula velhice.
Porém,
reatando aéreos pensamentos...
Comecemos na cena detalhada
Que já das eras se espalhou nos ventos.
É nada
mais que a história duma espada,
História curta, mas interessante
Duma espelhante lâmina timbrada.
Não é
pelo aço ou lâmina espelhante
Que irei contar, pois são comuns os aços,
Mas pelo nobre e original rompante.
Pelo ardimento
que os primeiros braços
Que a manejaram com pujança e brio
Nela gravaram, com profundos traços.
II
O velho, em pé, atlético e sombrio
Diante do filho armado cavaleiro,
No aspecto dum leão ruivo e bravio.
Fala-lhe claro,
d'alto e sobranceiro,
Numa solene e enérgica atitude
De quem nos prélios sempre foi primeiro.
O filho, grave
o escuta e atende a rude
Lhanez estóica de palavra augusta
Que dos lábios lhe sai, com tal saúde.
Calmo, sem se
mover, firme a robusta
Figura solarenga do estoicismo,
O velho disse esta nobreza justa:
"Aqui tens
esta espada que o heroísmo
Dos teus avós honrou nessas campanhas,
Com o mais ousado, intrépido civismo.
Freme ainda
hoje em convulsões estranhas,
Palpita e anseia dentro da bainha
Sonhando a luta, as implacáveis sanhas.
Tu, para a teres,
como eu sempre a tinha,
Num triunfo imortal, quase divino,
De gládio que o valor maior continha;
É necessário
um grande ardor leonino,
Que sejas bem idólatra do nome
Que fez de mim o extremo paladino.
A ferrugem,
tu vês, o aço consome...
Porém, neste aço que ainda aqui fulgura,
Se houver ferrugem, tira-a com o renome.
Aqui tens, pois,
a lâmina segura,
Alma e brasão da nossa velha casa
Coberta de ovações, famosa e pura".
Calou-se um
instante, como a ave que a asa
Fechou no voar, já quase que abatida,
Caindo exausta junto a moita rasa.
O filho, mudo
e respeitoso, erguida
A valente cabeça leal de moço,
Formoso estava, porejando vida.
E enquanto o
velho, impávido colosso,
Calara-se num momento, emocionado
Ficara o filho em íntimo alvoroço.
Mas de repente,
como iluminado
Por um clarão de glórias já extintas,
Tornou o velho, aos poucos transformado:
"Podes
partir! Porém nunca desmintas
Nas pelejas o dom da nossa fama,
Por menos força que no peito sintas.
Como um clarim,
por toda a parte aclama
O vigor deste ferro e do teu pulso
No combate que ruja, ulule e brama,'.
E cada vez mais
pálido e convulso,
Mais nervoso e febril e mais altivo
Bradou ainda, num tremendo impulso:
"Se tu,
que és da minh'alma o exemplo vivo,
Meu filho, tens de ser como um cobarde,
Como um vilão abjeto e repulsivo;
Não faças
mais de fidalguia alarde,
Pega esta espada, meu Afonso, pega
E quebra-a de uma vez, que não é tarde.
Pois em lugar
de fazer dela entrega
Aos sequiosos, feros inimigos
Antes a quebre a cólera mais cega.
Ei-la, aqui
tens, a leoa dos perigos,
Que como outrora em minha mão lampeja
Da bravura e da fama nos abrigos.
Se não
a tens de honrar nessa peleja
Escuta bem, ó meu amado filho,
Quebra-a, e o teu nome nem manchado seja.
Como eu faria
noutra idade e brilho,
Com outras energias musculares,
Segue-me tu no denodado trilho,,.
E assim falando,
em gestos singulares,
E agigantado corpo retesando
E um tom sinistro esparso nos olhares;
A cabeça
nos ares agitando
Numa alucinação, -- enorme ereto,
Como heróica visão, deblaterando...
Fitando bem
o filho predileto,
Como se de repente lhe brotasse
A força hercúlea dum poder secreto.
O velho, qual
um templo que abalasse,
A mão crispada, lívida e nervosa,
Com todo o esforço a lhe afluir na face,
Partiu no joelho a espada vitoriosa.
O SOL E O
CORAÇÃO
Sol, coração
do Espaço que flamejas,
O coração é qual tu, sol de utopias...
Mas, coração, dize-me: -- Que desejas?...
Foram-se já
todas as alegrias,
Ó Sol! E tu, coração, que ainda adejas,
Que fazes sobre as mortas fantasias?!...
Podes brilhar,
ó Sol, vivo e fulgente!
E tu, coração, que me iludiste,
Também podes bater, inutilmente.
Crença,
Ilusão, Amor, já nada existe,
Não mais levarás sobre a corrente
Da tenebrosa dúvida mais triste.
Longe, mui longe,
em regiões caladas,
Emudecidos pelo Esquecimento,
Estão hoje esses sonhos de alvoradas.
Foram-se, há
muito, soltos pelo vento
Entre as grandes ruínas derrocadas
Do meu amargo e pobre pensamento,
Entre as profundas,
tétricas ruínas
Em que o doce fantasma desses sonhos
Atravessou em lágrimas divinas.
Fantasma ideal,
de cânticos risonhos
Que da vida encontrei pelas colinas
E hoje vaga entre bulcões medonhos!
Fantasma que
eu amei, visão errante
Que sempre junto a mim vivia perto,
Por mais longe que eu fosse e mais distante.
Visão
que era como a água do deserto
Para o meu coração sempre anelante,
Sequioso de amor e sempre aberto...
Ó pobre
coração, em vão te agitas,
Em vão tu bates, coração estreito,
Tal qual tu, Sol, nos páramos crepitas.
Nada mais, para
mim, de satisfeito
Brilha com o Sol nas plagas infinitas,
Como não canta o coração no peito...
Podes, enfim,
sumir-te nos Espaços
Sol! E tu, coração, sempre batendo,
Quebrar da terra os "Transitórios Laços,,
Eternamente desaparecendo!...
SAPO HUMANO
A Emiliano Perneta
Oh sapo! eu
vou cantar tuas misérias, sapo,
Vou tirar, nesse lodo onde habitas de rastros,
Umas vivas canções do teu nojento papo,
Da crosta esverdeada umas centelhas de astros.
E canções
de tal forma e tais e tais centelhas,
Que todas possam ir, miraculosamente,
Transformadas, pelo ar, em rútilas abelhas
Com o íris voador de cada asa fulgente.
Que tu, tredo
animal, tu, triste sapo hediondo,
Não és o vil, o torpe, o irracional, que a lama
Em camadas envolve o atro ventre redondo,
Dos tempos imortais nessa fecunda chama.
Não és
o sapo histrião de imundas esterqueiras,
O sombrio Caim nos lamaçais errantes,
O clown gargalhador das charnecas rasteiras,
Que ri-se para o sol com riso ironizante.
Não és
o sapo atroz, coaxador, visguento,
Que rouco ruge e raiva a noite os seus horrores,
E para o constelado e mudo firmamento
Faz ecoar os mais surdos e ásperos tambores.
Mas és
o sapo humano, esse asqueroso e feio,
Nascido de roldão na lúgubre miséria
E que do mundo vão no pavoroso seio
Lembra o negro sarcasmo enorme da Matéria.
Mas és
o sapo humano, o sapo mais abjeto
Do crime aterrador, do tenebroso vício
Mas que ainda possuis o brilho de um afeto
Que te livra, talvez, do eterno precipício.
Por ora na tua
alma a noite cruel, cerrada,
Não caiu de uma vez, como terrível fora.
Nela ainda há clarões de límpida alvorada,
Um prenúncio feliz de aurora redentora.
Ainda tens coração
que pulsa no teu peito
Por uns filhos gentis, ingênuos, pequeninos,
Que são o grande amor, o sentimento eleito
Vencendo esses fatais instintos assassinos.
Tu semelhas
de um charco a superfície nua
E vítrea, que no campo, aos ares, adormece,
Que se em cheio lhe bate a luz do sol, da lua,
Para a vasta amplidão cintila e resplandece.
Pois no teu
organismo, assim sinistro e torvo,
Repleto de vibriões do vício -- essas crianças,
Sorriem virginais, oh! solitário corvo,
Com sorrisos de luzes e barcarolas mansas.
O amor que regenera
os ínfimos bandidos,
Não reduziu, enfim, tu'alma a ignóbil trapo.
E eis por que, num viver de pântano e gemidos,
Cantam dentro de ti aves e estrelas, sapo!
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