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LIVRO DE UMA SOGRA
Aluísio de Azevedo


CAPÍTULO I

...ce travail offre un autre découragement: que de choses hardies, et que je n'avance qu'en tremblant, seront de plats lieux communs dix ans après ma mort...

Stendhal, Souvenirs d'Égotisme.


De volta da minha última peregrinação à Europa, depois de cinco anos de saudades do Brasil, foi que, pela primeira vez, senti todo o peso e toda a tristeza do meu isolamento e pensei com menos repugnância na hipótese de casar. Foi a primeira vez e também a última que semelhante veleidade me passou pelo espírito; daí a vinte e quatro horas tinha resolvido ficar eternamente solteiro.
Estava então com trinta e cinco anos. Dessa vez, como sempre me sucedia ao pensar no casamento, veio-me logo à idéia o meu amigo Leandro, e vou dizer por quê:
Leandro de Oviedo era, entre os meus companheiros da primeira juventude, o único que se conservou fiel à nossa amizade. Os outros tinham todos desaparecido; alguns simplesmente do Rio de Janeiro ou do Brasil, mas, ai! a melhor parte havia já desertado deste mundo, para nunca mais voltar.
Leandro foi sempre um rapaz bem equilibrado: coração generoso, caráter sério, inteligência regular, sobriedade nos costumes e tino para arranjar a vida. Do nosso grupo era ele o mais moço e também o mais forte e bem apessoado. Tinha excelente educação física, adquirida num colégio da Inglaterra; conhecimento perfeito da esgrima e jogos de exercício; destreza na montaria e plena confiança nos seus músculos.
Ainda não contava ele vinte anos quando o conheci, e a nossa intimidade foi apenas interrompida pelas minhas viagens. Fui eu o confidente da grande paixão que o levou a casar, quatro anos depois, com uma encantadora rapariga, filha da velha mais fantástica, mais diabólica, mais sogra, que até hoje tenho visto.
A fúria, para consentir nesse casamento, aferrou-se às mais leoninas exigências; impôs condições as mais humilhantes para o futuro genro. Já me não lembro ao justo quais foram elas, posso afiançar porém que eram todas originais e ridículas. Havia uma, entre tais cláusulas, de que nunca me esqueci, a da assinatura de certo documento, em que o desgraçado pedia à polícia não responsabilizasse ninguém pela sua morte, caso ele aparecesse assassinado de um dia para outro.
Mas Leandro estava irremediavelmente perdido de amores; e a moça era muito rica, e ele o que se pode chamar pobre. Não havia para onde fugir; sujeitou-se a tudo e - casou.
Ainda porém não tinha desfrutado o primeiro mês da sua lua-de-mel, e já a sogra achava meios e modos de interrompê-la, separando-o violentamente da noiva. E daí em diante o casal nunca mais teve ocasião de absoluta felicidade. O demônio da velha parecia não poder ver o genro ao lado da filha, e o pobre rapaz, que amava cada vez mais apaixonadamente a esposa, não lograva um segundo de ventura junto desta, sem ver surgir logo entre eles o terrível espetro. Não os deixava um instante sossegados, não os perdia de vista um só momento, rondava-os, fariscava-lhes os passos, como se vigiasse a rapariga contra um estranho mal-intencionado; perseguia o genro só pelo gostinho de atormentá-lo; contrariava-o nas suas mais justas pretensões de marido, azedando-lhe a existência, intrometendo-se na sua vida íntima, desunindo-o da mulher, sobre quem conservava os mais despóticos direitos.
Causava-me ele verdadeira compaixão.
Um dia vi-o entrar por minha casa, desesperado, aflito, e atirar-se a uma cadeira, soluçando. Sem que lhe apanhasse uma só palavra das muitas que os seus soluços retalhavam, consegui, de dois dos seus monossílabos mais estrangulados, perfazer a de "Sogra", e exclamei-lhe desabridamente:
- Mas com um milhão de raios! por que não te livras por uma vez dessa víbora?!
- Livrar-me, como?! De que modo?! perguntou-me o infeliz entre dois arquejos.
- Ora, como?! De que modo?! Seja lá como for! Foge, ou torce-lhe o pescoço! Atira-a no meio da baía! Sacode-a do alto do Pão de Açúcar!
- Impossível! Amo loucamente minha mulher, e minha mulher adora a mãe! Não consentiria em separar-se dela, nem mo perdoaria, se o tentasse!
— Histórias!
- Além de que, sabes qual é hoje a minha posição na Praça do Rio de Janeiro; não é das piores! mas sabes também que só agora começo a colher o resultado de enormes sacrifícios feitos para obtê-la!... Pois bem, tudo o que sou, devo a minha sogra! O capital é dela! O crédito foi ela quem mo deu! Um rompimento seria a minha ruína completa!
— Oh, diabo!
— É o que te digo! Vê tu que posição a minha!
- Então, meu amigo, só te restam os extremos - resignação ou... suicídio!
Ele, ao que parece, resignou-se.
Um ano depois encontramo-nos em Paris.
— Olá! bradei-lhe. - Fugiste...
— Qual! Estou de passeio. Minha sogra mandou-me passear...
— Expulsou-te de casa?...
— Não. Mandou-me passear por algum tempo. Eu volto...
- Ah! compreendo! quer que a filha se distraia um pouco pela Europa. Dou-te os meus parabéns!
— Não! vim só.
— Hein?! E tua mulher?
— Ficou.
— E tua sogra acompanha-te?...
— Ah! não!
Fiz-lhe, intrigado, ainda algumas perguntas, a que ele respondeu com reserva, procurando evitá-las. Percebi que me não queria falar francamente, talvez por medo do ridículo, e não insisti.
Jantamos em companhia um do outro, e desde então pegamos de ver-nos todos os dias. Fizemos juntos uma viagem à Suíça, e a nossa amizade revigorou-se com essa jornada; ficamos inseparáveis até que ele, meses depois, deixou a Europa para tornar ao Brasil.
E eu, agora, aqui no Rio de Janeiro, ao acordar da primeira noite, passada no detestável Freitas-Hotel, senti cair-me em cima, com o peso de mil arrobas, todo o negrume da minha solidão. A idéia da solidão fez-me pensar em Leandro.
É verdade! Que fim teria ele levado?...
— Vou vê-lo! deliberei, saltando da cama.
Procurei o endereço da sua atual residência. "Tijuca. Alto da Serra". Era longe, mas o dia estava magnífico. Por que pois não ir? Enquanto lá estivesse disfarçaria ao menos o meu tédio de celibatário. Leandro era afinal o meu melhor amigo; além do que, apetecia-me à curiosidade saber notícias do seu casamento e da sua fenomenal sogra. Não nos víamos havia quatro anos. Como seria agora a sua existência? Que fim teria ele dado ao demônio da bruxa?...
Vesti-me, almocei, saí, dei um passeio pela rua do Ouvidor e tomei o tramway da Tijuca. Na raiz da serra procurei informações sobre a casa de Leandro; deram-nas na mesma cocheira que me alugou uma vitória para lá subir.
Às cinco e meia da tarde entrava na residência do meu amigo. Uma deliciosa chácara, com o seu cottage ao fundo, na fralda da montanha, escondido entre árvores floríferas e cercado por um jardim de rosas e camélias. Adivinhava-se logo, desde o portão da rua, haver ali todo o conforto e regalo que nos podem proporcionar os maravilhosos arrabaldes do Rio de Janeiro. Toquei o tímpano na varanda. Fizeram-me entrar para a sala de espera; não mandei o meu cartão intencionalmente, e, quando Leandro chegou e deu comigo, soltou uma sincera exclamação de prazer.
Atiramo-nos nos braços um do outro.
— Que bela surpresa! - bradou ele. - Não sabia que tinhas chegado!
- Cheguei ontem. E tu como vais por aqui? A senhora como está? E tua sogra, que fim levou?
- Minha mulher não está aí. Saiu na minha ausência com os filhos e com o velho César. Não sei para onde foram... Mas vai entrando! vai entrando!
- Estão espairecendo naturalmente por aí perto, aventei, passando para a sala de visitas.
- Talvez, mas talvez não. Não sei! Pode ser que voltem já e pode ser que se demorem. Desconfio que foram fazer uma viagem...
- Como? Pois tu não sabes se tua mulher foi fazer uma viagem, ou se está passeando pela vizinhança da casa?... Ora esta!
- Não, filho, não sei. Temos uma vida muito especial. Ela às vezes me foge, ou eu lhe fujo. Levamos três, quatro dias fora, uma semana, um mês até, longe um do outro, visitando parentes e amigos, ou simplesmente passeando, viajando...
Calei-me, por falta absoluta de palavras, e comecei a desconfiar que a sogra afinal acabara por derreter os miolos do meu pobre amigo. Era de esperar!
Depois de uma pausa, aproximei-me dele e perguntei-lhe, em voz soturna, olhando para os lados:
— E a serpente?...
— Que serpente?!
— Ora, qual há se ser? A fúria infernal, o diabo de saias, tua sogra!
— Coitada!
E Leandro soltou um grande suspiro.
Escancarei os olhos e a boca, sem compreender.
- Coitada!... repetiu ele, com um novo suspiro. - Já não existe...ah! infelizmente já não existe!...
Recuei aterrado; senti o sangue gelar-se-me nas veias. Que estava eu ouvindo, meu Deus? que estava dizendo o mísero rapaz? Oh! agora já não havia a menor dúvida - era um caso perdido!
- Regenerou-se afinal... interroguei-lhe, fingindo sangue-frio, e sem me aproximar muito desta vez.
- Não zombes, meu amigo! A memória de minha sogra é hoje para mim tão sagrada, ou mais, do que a memória de minha própria mãe!...
- Mas, espera! quantas sogras então tiveste tu?... perguntei-lhe receando também já um pouco pelo meu juízo.
— Uma só.
- E essa, a que te referes agora, é aquela mesma, a célebre? aquele terror, aquela moléstia, aquele mal que te roía a existência? aquele diabo, a quem devias o implacável inferno em que te vi espernear de desespero?...
— A mesma, Leão. Simplesmente eu, nesse tempo, era injusto...
- Aquela que, só pelo gostinho de contrariar, se metia entre ti e tua mulher, cortando-lhes no meio as carícias e perturbando-lhes o amor?...
— Não a compreendia nessa época. O imbecil era eu!
- Aquela, que te trazia suspensa sobre a cabeça uma ameaça de morte?...
— Fazia-o, porque era adoravelmente boa!
- Aquela, que te não permitiu fosses o dono do primeiro beijo de teu filho?...
— É verdade, a mesma!
— Aquela fúria?
— Era uma santa!
E ficou muito sério, com o rosto compungido e contrito.
Até hoje ainda não sei como não caí para trás, fulminado.
Meti as mãos nos bolsos das calças, abri as pernas à marinheira, ferrei o olhar no tapete do chão, apertei os lábios, arregacei as sobrancelhas, e embatuquei.
— Sim, senhor!...
Estava preparado para ver, sem me alterar, o meu estimável amigo Leandro de Oviedo atirar as mãos para o chão e pôr-se a percorrer a sala de pernas para o ar.
Que digo? Poderia ver sem pestanejar, o retrato da própria sogra de Leandro desprender-se do seu caixilho dourado, e vir dar-lhe um beijo, ou dançar um fandango entre nós dois.
Naquele instante nada me causaria abalo!


* * *


Mas, ao fim do jantar, reanimado por um velho e generoso Barbera, pedi ao meu paradoxal amigo que me explicasse o milagre daquela sua tão absoluta inversão de pontos de vista. Sempre queria ouvir!
- Não te darei uma palavra e terás a mais satisfatória explicação do mistério, disse-me ele. - Dormes aqui, não é verdade? Dormes decerto!
— Mas...
- Podias até passar alguns dias comigo. Isto por cá é muito aprazível nesta época. Onde estás morando?
— No Freitas.
- Ora! Não te largo esta semana! Seria desumanidade deixar-te ir! Hospedado no Freitas!...
- Mas é que... não contava com isto... Vou sem dúvida incomodar tua família...
- Qual! Minha família não sei quando virá... Tu agora não tens ainda com certeza o que fazer... De resto não ficas totalmente preso: podes ir à cidade quando quiseres; trazer de lá ou mandar buscar o que precisares. Olha! aqui pelo menos estás livre de qualquer febre! e podemos dar magníficos passeios, a cavalo e de carro, pela Floresta, à Vista Chinesa, à Gávea. Amanhã mostro-te as minhas estrebarias; se ainda conservas gosto pelo gênero, encontrarás o que ver.
Confessei-me vencido, mesmo porque sentia já a curiosidade excitada.
Jogamos à noite uma partida de bilhar e, às onze horas, na ocasião de recolher à câmara que me destinaram, exigi de Leandro a prometida explanação do milagre.
— Entra para o teu quarto, que lá ta levarei, respondeu ele, afastando-se.
E pouco depois voltava, trazendo com todo o carinho um pequeno estojo de ébano. Abriu-o defronte de mim com uma chavezinha de prata, e tirou de dentro um livro preciosamente encadernado.
Mostrou-me o livro, em silêncio, cheio de gestos e desvelos religiosos. Na capa, entre guarnições de ouro e pedras finas, havia um delicadíssimo esmalte, retratando em miniatura o busto da sogra. Estava a primor, com o seu distinto e singelo penteado de cabelos brancos, com as suas lunetas de cristal, e com aquele sutil sorriso malicioso, que lhe conheci noutro tempo.
- Não poderia dar-te maior prova de amizade, do que te confiando este sagrado tesouro, disse-me Leandro. - É um manuscrito de minha sogra. Começa a lê-lo hoje antes de dormir, e depois, quando o tenhas concluído, conversaremos a respeito da mãe de minha mulher...
Tomei nas mãos, cuidadosamente, a sedutora relíquia, examinei-a deveras intrigado, depu-la de novo no seu estojo, agradeci a Leandro o obséquio, impaciente por vê-lo pelas costas.
Logo que me pilhei sozinho, fiz em três tempos a toilette, aninhei-me na cama, cheguei para perto da luz do velador, e, com uma volúpia repassada da mais legítima curiosidade, abri a primeira página e comecei a leitura.
Mal sabia eu que grande influência ia exercer esse manuscrito sobre minha vida... E como hoje posso publicá-lo, não ponho nisso a menor dúvida.
É o que se segue:


CAPÍTULO II

Manuscrito de Olímpia

La nature a des perfections pour montrer qu'elle est l'image de Dieu, et des défauts pour montrer qu'elle n'en est que l'image.

PASCAL, Pensées.

Órfã de pai e mãe, tinha eu dezoito anos de idade, quando passei das mãos de meu tutor para as mãos do estimado e simpático Dr. Virgílio Xavier da Câmara, que me recebeu por esposa na igreja de São João Batista em Botafogo.
Meu noivo contava vinte e sete anos.
Éramos ambos de boa família, ambos muito bem relacionados, ambos sadios, ambos até bonitos. Ele - médico, inteligente e trabalhador, conservando intacto um patrimônio de quarenta contos, que herdara ainda criança; gênio feliz, costumes irrepreensíveis, nada de vícios perigosos e nada de paixões de qualquer gênero, nem mesmo desses perturbadores sonhos de glória ou dessas ambições descomedidas, que nos fazem sacrificar às vezes a doce tranqüilidade do presente garantido, pela hipotética e fascinadora conquista de um nome no futuro incerto. Eu, pelo meu lado - inocente e pura, educada sob os mais austeros exemplos de moral e virtude, tendo feito a minha aprendizagem doméstica sem prejuízo dos meus pequenos dotes sociais; sabendo coser, como sabendo bordar; dirigir o serviço dos criados, governar uma casa, como sabendo tocar piano, receber visitas e dançar uma valsa; e mais: tinha boa ortografia, alguma leitura, que não era composta só de maus romances, um pouco de francês, um pouco de inglês, um pouco de desenho, sessenta contos de dote, princípios religiosos bem regulados, caráter sereno, temperamento garantido por hereditariedade natural, seguros hábitos de asseio, alinho e gosto no vestir, que nada deixavam a desejar, quanto à elegância, mas que jamais roçavam, nem de leve, pelos arrebiques do janotismo equívoco.
Eis como nós éramos os dois. E eu - meiga e delicada; e meu marido - extremoso e forte.
Casamo-nos por inclinação de parte a parte, com o aplauso de ambas as famílias, depois de um calmo namoro de seis meses, regular e honesto, abençoado por todos os nossos parentes e amigos.
Não se poderia, pois desejar casamento mais equilibrado, nem se poderia conceber um par mais harmonioso, e até mais simétrico.
Não obstante, apesar de que nunca transigi dos meus deveres conjugais; apesar de que meu marido prosperou sempre de fortuna na sua carreira médica e, depois, na sua carreira política; apesar de que ele era bom, e apesar de que sempre nos estimamos; apesar de tudo isso, tanto ele como eu fomos igualmente muito desgraçados, enquanto nos não separamos; fomos os dois um casal de infelizes amarrados um ao outro pelo duro e violento laço do matrimônio; fomos dois calcetas, seguros na mesma corrente de ferro, condenados a suportar a existência eternamente juntos.
Não foi possível! Quebramos a cadeia, arrancamo-nos da grilheta. O governo nomeou-o para uma honrosa comissão fora do Brasil; aproveitamos o ensejo e separamo-nos. Tínhamos dois filhos, um de cada sexo; a menina ficou comigo e o menino seguiu com ele.
Ao contrário do alvitre jurídico, entendi sempre que, na separação de cônjuges, mormente abastados, o filho ou filhos varões devem acompanhar o pai, e a filha ou filhas devem ficar ao lado da mãe, porque esta é sem dúvida mais apta, que um homem, para zelar pela boa educação e pureza de uma menina; ao passo que aquele outro pode, melhor que a mulher, dirigir e encaminhar a vida de um rapaz.
O contrato moral e íntimo do nosso apartamento foi ainda mais digno e mais sincero do que o contrato público e material da nossa união. Não nos preocupou a questão de dinheiro, porque éramos já bastante ricos, e podíamos ficar ambos pecuniariamente independentes. Obriguei-me a não macular jamais o nome que ele me dera, e esse preceito foi por mim cumprido à risca; ele, pelo seu lado, comprometeu-se a se não descuidar nunca de nosso filho, e assim o fez, durante os curtos anos que viveu ainda o meu pobre Gastãozinho.
Separamo-nos bons amigos, mas, ai de nós! depois de grandes desavenças domésticas e brigas de cada instante, que fizeram até aí da nossa vida um triste inferno, e que para sempre nos tornaram incompatível a existência em comum. O que nos valeu foi o nosso espírito. Num momento lúcido compreendemos tudo, encaramos a sangue-frio a situação; e abraçamos com coragem o único partido digno de nós. Se continuássemos a viver juntos, teríamos chegado às últimas degradações da falta de respeito um pelo outro e talvez ao crime. É possível que Virgílio me batesse, ou me matasse, num dos nossos muitos ímpetos de irreprimível cólera nervosa. Só os casados, só estes, poderão calcular e compreender quanto nos injuriamos os dois, quanto nos aviltamos, por palavras e gestos, nessas secretas e constantes lutas. O arrependimento chegava sempre, porém tarde, e nunca aproveitava para impedir novas crises; o arrependimento só servia para mais nos rebaixarmos aos nossos próprios olhos, com a consciência da nossa degradação. Mais do que as rixas, os seqüentes amores na confirmação das pazes, deixavam-nos humilhados e corridos de vergonha; e este fato, só por si, a deprimente certeza da nossa ignomínia, era já um novo rastilho pronto e aceso para uma nova explosão de cólera.
Afinal, o contacto, ou a só presença de qualquer dos dois, tinham se tornado absolutamente insuportáveis para o outro. Às vezes, sem razão, não podia demorar a vista sobre meu marido: irritavam-me nervosamente os seus gestos mais simples e naturais. Uma ocasião, em que o contemplei pelas costas, assentado à sua mesa de trabalho, todo embebido no que estava fazendo, com a cabeça baixa, um gorro de seda preta, os ombros envolvidos num xale que lhe escondia o pescoço, desejei-lhe a morte, e tive de fugir dali para não disparatar com ele.
Mas por quê? por que razão eu, que sem dúvida estimava e compreendia meu marido, não podia às vezes suportá-lo?... por que razão ele, que me amava, não pôde continuar a viver junto de mim?
Por quê?
Eis o difícil de explicar, e eis do que, tendo estudado minuciosamente o meu próprio coração e o coração de meu marido, e depois de uma longa e paciente observação de todos os instantes da vida de casados que nós dois tivemos, tirei a base e a substância da minha filosofia sobre o amor conjugal e os meios práticos de obter-lhe a duração.
Não o fiz por mim, mas só por minha filha, a minha Palmira, a flor mimosa dos verdadeiros encantos da minha vida de moça, o ser único a quem neste mundo dei, até certo momento da velhice, todo inteiro o meu coração, a quem dei todo o meu amor, sem a mais ligeira reserva de ternura e se a menor hipocrisia nos sorrisos e nos beijos. Amei-a mesmo antes que ela nascesse, amei-a cada vez mais durante a existência, e creio que ainda a amaria sempre depois da sua morte. Nunca neste amor descobri as falhas de tédio, de cansaço, e até de absoluto enjôo, que infelizmente, logo desde o começo da minha vida conjugal, descobri no amor que eu votava ao meu bom e querido esposo. No meio do maior aborrecimento, no mais ingrato instante das horas de desânimo, a presença de minha filha era sempre uma consolação e um repouso; nunca beijo nenhum que ela me deu foi inoportuno; nunca as suas carícias chegaram fora de propósito, e nunca deixaram de produzir em minha alma o mesmo delicioso efeito de suave refrigério. Entretanto, quantas vezes, ainda na lua-de-mel, não me revoltei contra mim mesma e não amaldiçoei as rebeldias do meu coração, por não poder evitar que, a despeito da minha traiçoeira afabilidade externa, o enojo repelisse no meu íntimo as carícias que nessa ocasião me dava meu marido?!
Ah! ele não percebia a verdade, porque eu com uma hipocrisia, que nesse tempo acreditava honesta e generosa; uma hipocrisia, que eu supunha fazer parte dos meus deveres de boa esposa, obrigava meus olhos, meus lábios, meus braços, meu corpo inteiro, a mentirem, representando sem vontade essa coisa inconfessável, ignóbil, que me tinham feito acreditar, secretamente, que era "o amor". Que blasfêmia! e mais - que era "o matrimônio". Que desilusão!
Oh! quantos sorriso, quantos suspiros de volúpia e quantos beijos dados por mentira, meu Deus! Oh! quanto me prostituí nos braços de meu marido!
E que vergonha, que repugnância, dele e de mim própria, não me assaltaram quando descobri que com Virgílio se dava a mesma coisa a meu respeito; e que ambos nós, procurando iludir um ao outro, representávamos cada qual no seu transporte a mesma degradante comédia de amor? Quantas vezes percebi que seu espírito bocejava de tédio, enquanto seus lábios me cobriam de beijos fervorosos?
Mentirá todo aquele e mentirá toda aquela que disser que a presença de sua esposa, ou que a presença de seu marido, lhe foi sempre agradável; e mentirá, se não confessar que muita vez se prestou a satisfazer os desejos do cônjuge com sacrifício de todo o seu ser.
Éramos já dois desgraçados, e dali em diante começamos a ser duas vítimas e dois verdugos recíprocos, chumbados à mesma dor e à mesma crueldade, a torturarem-se, a devorarem-se num estreito abraço de extermínio.
Oh! definitivamente não podíamos continuar a viver juntos! E no entanto, eu amava meu marido, e sei que era amada por ele. Nenhum casal até hoje se estimou e respeitou mais do que nós no foro íntimo da sua alma. Juro que tínhamos em segredo um pelo outro a maior e mais sincera consideração, e que ambos, de parte a parte, apesar dos constantes atritos, fazíamos de cada qual o mais alto e digno conceito. Mas juro também que muita vez me senti verdadeiramente desgraçada nos seus braços, e ele nos meus; e que por último, muitas e muitas vezes nos injuriamos, com as mais duras palavras de desprezo, quando, no fundo da consciência, julgávamos mutualmente o contrário do que blasfemávamos.
Que singular monstruosidade!
E não me venham dizer que nos amávamos só com a razão e não com os sentidos. Vou copiar fielmente um fragmento das notas póstumas de meu esposo, onde o contrário se acha bem demonstrado. O que adiante se segue escreveu ele já depois da nossa disjunção, longe de mim, na Itália, poucos anos antes de morrer.
Descobri essas notas entre os papéis do seu espólio. Sem as transcendentes revelações que elas me depararam, é natural que nunca chegassem minhas pesquisas filosóficas a qualquer resultado, e nunca me animasse eu a empreender este doloroso manuscrito.
Atenção! É Virgílio quem agora fala:

CAPÍTULO III

"....................................................................................................................................................

Sim! minha mulher foi a única mulher que amei. Em meio do maior enjôo da vida doméstica, sentia eu perfeitamente, no âmago da minha consciência, que nenhuma outra valia tanto como Olímpia, quer no físico, quer no moral e até no intelectual; sentia que, se ela não fosse minha esposa, minha companheira obrigada de cama e mesa, de todo o instante, havia de desejá-la apaixonadamente; sentia, adivinhava que, se eu viesse um dia a deixar de possuí-la, como fatalmente sucedeu, havia de sofrer muito, como efetivamente sofri, sem nunca mais encontrar mulher que a substituísse ou que lograsse fazer-me-la esquecer.
Não! Não podia amá-la mais do que a amei no meu noivado, do que a amei depois nos intervalos da cólera, do que a amo hoje principalmente, nesta irremediável viuvez da nossa fatal desunião. Todavia, antes de nos separarmos, só a desejei deveras como mulher, além daquela época, uma vez em que tivemos de afastar-nos um do outro por oito meses seguidos; de resto foi sempre o mesmo tédio e os mesmos enfastiamentos na comunhão da cama. Muita vez o perfume dos seus belos cabelos, o cheiro do seu corpo, aliás sempre limpo e bem tratado, o contacto macio da sua pele e a frescura de seus lábios relentados no delíquio amoroso, me fizeram repugnância.
Por quê? Não achei nunca a explicação. Mas a verdade é que, antes mesmo da nossa primeira contenda doméstica, quando éramos ainda um para o outro, só afagos e sorrisos, eu, apesar de amá-la muito, mas, se por condescendência ficava um dia inteiro ao seu lado, depois de passarmos a noite juntos, como de costume, sentia certo prazer estranho, sentia um inconfessável gozo de alívio, se me vinham anunciar que algum amigo, mesmo dos mais insignificantes, estava à minha espera na sala de visitas.
Quantas vezes não detive perto de mim pessoas que o não mereciam, só porque, enquanto estivesse eu com elas conversando, não estaria conversando ou procurando o que conversar, com a minha querida esposa?... só porque, enquanto eu estivesse abrigado naquela visita, não sentiria no meu corpo o calor do corpo de minha mulher, e não lhe sentiria o cheiro penetrante das carnes e dos cabelos!...
E como todo esse contraditório martírio cresceu depois do nascimento do nosso primeiro filho? Como fiquei eu amando moralmente muito mais minha esposa e desejando muito menos possuí-la como mulher?
Depois do nascimento de Palmira, nunca mais o meu espírito amou minha mulher associado com o meu corpo. Meu espírito continuava a amá-la, como sempre, meu corpo continuava, também como sempre, a unir-se ao dela para o matrimônio; mas espírito e corpo completamente alheios e separados durante o ato conjugal. O amor do meu espírito nada tinha de comum com o amor do meu corpo, como aliás sucedia dantes, na primeira fase do casamento; e ai! só nesse irrecuperável período o nosso amor foi completo, e foi amor, porque nos unia de corpo e alma! O amor de meu espírito era um sentimento insexual, respeitoso, nobre, feito de uma ternura de amigo, de irmão mais velho, um sentimento baseado na proteção do mais forte que se dedica pelo mais fraco. Havia nele um quê de mística doçura, de sagrado voto cumprido lealmente, um quê da consoladora satisfação do desempenho de um dever honroso, um quê de religião e de ideal. Ao passo que o amor de meu corpo era quase inconsciente, irresponsável até, nem merecia o nome de amor, porque, no fim de algum tempo era, por bem dizer, preenchido sem o menor concurso do coração.
E pensar que o abuso deste segundo falso amor prejudicou o primeiro, o verdadeiro, a ponto de privar-nos da sua doçura e do seu enlevo!
Com minha mulher devia suceder a mesma coisa que sucedia comigo, porque certas vezes, despertei-a à noite para o fim genésico, e mais dormindo que acordada deixava indiferentemente, com os olhos fechados, que eu saciasse nela o meu desejo material. Tanto o nosso espírito já por fim não tomava parte no desempenho da função matrimonial, que em muitas ocasiões, enquanto nos dispúnhamos para cumpri-la, conversávamos de vários interesses domésticos, alheios ambos ao supremo destino que naquele instante nos aproximava um do outro.
Não! isso não era amor; isso era instinto somente; isso era brutalidade! Entretanto, hoje, que já não possuo minha mulher; hoje, que me acho para sempre incompatibilizado com ela, e me vejo na mesquinha contingência de recorrer, para satisfação das minhas necessidades fisiológicas, a essas pobres máquinas vaginais que se alugam por instantes, quanto não daria em tais momentos para poder tê-la ao alcance de meus braços? Quanto não daria para dispor então daquela valiosa criatura, ao lado de quem não consegui viver, e ao lado de quem, ainda hoje, me seria impossível suportar a existência, apesar de desejá-la tanto?
Sim! ainda aplaudo e compreendo a nossa separação, e ainda a amo. E se agora, neste instante, por um efeito maravilhoso, me dessem a escolha de uma mulher, entre todas as mais sedutoras e formosas que tenho visto, reclamaria, sem hesitação, a minha própria esposa, e juro que a amaria com o mesmo arrebatamento do primeiro desejo que ela me inspirou.
Todavia, ridículos monstros que somos nós! no tempo em que vivíamos juntos, quantas vezes, deitados no mesmo leito, me senti apesar da sinceridade do meu empenho em respeitar o voto nupcial, perturbado pela lembrança de outras mulheres, que sem dúvida não valiam a sombra daquela que eu tinha ao lado? Quantas vezes, com a consciência ressentida, não conjecturava eu a hipótese traiçoeira de ter nos braços, naquele momento, certa provocadora mulher com quem estivera conversando essa noite, durante o baile? E isto dava-se estando eu deitado junto de minha esposa! Revoltava-me contra tão hipócrita deslealdade; repelia indignado semelhantes pensamentos inconfessáveis; mas a mulher, que não era a minha e que não valia tanto quanto ela, mas que eu só avaliava por conjecturas, e cujo perfume de cabelo ou cheiro de corpo nunca me tinham sido revelados na intimidade da posse, impunha-se despoticamente aos meus culposos sentidos, acordando-me amores fogosos e enérgicos, como os já não acordava a minha bonita companheira.
Oh! que me perdoes, Olímpia, as vezes que em ti matei desejos que vinham de outras mulheres!
E, em consciência, não será isto já o adultério? A idéia do toque amoroso com outra que não seja a própria esposa, não será uma traição conjugal? Castus est Qui amorem amore, ignemque igne excludit, diz Santo Agostinho. Se assim é, há de ser difícil descobrir um casal que se não adultere de parte a parte, pois estou bem convencido de que com minha mulher, por excelência virtuosa, devia suceder outro tanto; assim como estou amplamente convencido de que tudo, tudo que em mim observei, se verificou também com ela."

* * *

Aí termina o trecho das notas de meu marido. Ele tinha razão: Amei-o e desejei-o também na sua ausência e, justamente quando pensava em tentar uma reconciliação, o que hoje compreendo que seria loucura, recebi a triste notícia de sua morte. Então a saudade e o amor que ele de longe me inspirava transformaram-se em verdadeiro culto. Idolatrei a sua memória; mas, só depois dos estudos que determinaram este manuscrito, pude compreender de todo quanto esse pobre homem era bom, digno e reto, e quão nos cabia, a ele e a mim, da responsabilidade de nossa desgraça.
Demais, o seu lugar no meu coração, quando por mais nada, estava garantido como pai que era da minha Palmira, da minha filha idolatrada, laço único que me ligava à vida e ao mundo. E se fui boa mãe; se consegui, à força de desvelos e de extremos de amor, aplanar-lhe a existência das misérias que a minha corromperam, di-lo-ão estas páginas, para ela escritas.

CAPÍTULO IV


Sim, minha filha era a minha vida, porque era o meu verdadeiro amor. Se eu não tivesse outras razões para conservar-me honesta e digna, depois da ausência e da morte de meu marido, tê-lo-ia feito só pelo muito que a amava.
À proporção que Palmira se desenvolvia, fortificava-se o meu caráter, apurava-se a minha inteligência, e o meu coração fazia-se melhor. Meu pensamento pertencia-lhe quase que exclusivamente, mesmo já nos melhores tempos de minha vida de casada. Se então meu marido ganhava terreno na minha estima e eu na dele, era só porque ele era seu pai e eu sua mãe; e o desenvolvimento dessa afetuosa solidariedade estava na razão inversa do nosso amor físico.
Ah! eram inevitáveis as tristes conseqüências desse deslocamento de amor. Foi talvez dessa época que se decidiu a nossa incompatibilidade, e que se originou a nossa separação; entretanto ainda então sabíamos conter-nos um defronte do outro. Em uma nota, muito anterior àquela que ficou atrás, meu marido revela-se claramente a esse respeito. Vou transcrevê-la e será esta a última; insisto em fazê-lo, porque todo o estudo que forma cabedal deste meu querido livro foi inspirado nessas notas de Virgílio, e também porque elas dizem o que eu talvez nunca tivesse a coragem de confessar a meu respeito.
Eis o que ele escreveu. Nesse tempo, note-se, ainda se não tinha quebrado a aparente harmonia da nossa vida íntima; ainda não tinha estalado a caldeira, onde ferviam já os humores da reação:
"Noto que os sutis efeitos desse fato (refere-se ao exclusivismo do seu amor paterno) começam a patentear-se tristemente na intimidade egoísta da minha vida conjugal. Começo a perceber que o arrefecimento do meu ardor amoroso para com minha mulher vai lentamente toldando, de vaporosas mágoas, a sua calma existência de esposa infeliz e honesta. Ela se não queixa nunca, mas a progressiva expressão de desgosto que vão adquirindo seus formosos olhos; o indefinível sorriso de resignação que lhe entreabre os lábios quando eu, ao seu lado na cama, lhe falo com entusiasmo de nossos filhos, e só deles, esquecido do resto do mundo, esquecido de tudo mais, tomado, possuído inteiramente pelo amor de pai; tudo isso me faz cair em mim e enche-me de revolta conta o exclusivismo do meu coração. Estudo-me e descubro com horror que já não há em mim a menor sombra de entusiasmo amoroso por minha mulher. - Fico indignado! Quero convencer os meus rebelados sentidos de que isto é uma indigna injustiça, e chamo em socorro dos meus deveres de bom marido a idéia dos encantos de Olímpia, evocando o ardor com que a desejei durante o noivado e durante a lua-de-mel.
É tudo inútil!
Minha mulher tem agora vinte e seis anos. Está em pleno desenvolvimento de suas graças físicas; nunca foi tão bela, tão sedutora e tão mulher. E eu, com trinta e cinco anos, na força da idade e da saúde, reconheço tudo isso, admiro-lhe os dotes físicos, tenho orgulho da sua beleza e, em consciência, não compreendo mulher mais perfeita e mais digna de amor que a minha. E contudo, o amor entra no comércio da nossa vida íntima apenas como ligeiro e fugitivo incidente. Apesar de reconhecer o seu inapreciável valimento feminil, a riqueza daquele palpitante tesouro de formas brancas e formosas, o preço daquele corpo carinhoso e casto, só vejo, só enxergo nela, a mãe dos meus filhos, só vejo o ventre sagrado, donde nasceu em ondas de sangue a minha felicidade de ser pai.
Beijo-a, acarinho-a sinceramente, ao sair de casa, ao entrar da rua; às vezes interrompo o meu trabalho para tomar-lhe as mãos, assentá-la um instante sobre os meus joelhos, passar-lhe o braço na cintura. Mas estes afagos, alheios ao transporte amoroso, são feitos de fria ternura de amigo, são meigo reconhecimento da minha paternidade feliz.
Donde vem, pois, esta estranha coisa, esta incompreensível anomalia, de que eu ame cada vez mais minha mulher e menos a deseje amorosamente? Por quê?
Não sei, não atino com a verdadeira causa; e a convicção do fato, que no meu espírito de marido leal e virtuoso atinge as proporções de feia monstruosidade, começa a torturar-me seriamente.
Sim, sim, a certeza de que a felicidade moral de Olímpia subsiste em prejuízo da sua felicidade de mulher, atormenta-me de modo atroz. E percebo ainda, com o coração envergonhado e a consciência em revolta, que a grande dor saída dessa convicção não é determinada pelo mal que ela porventura cause à minha pobre esposa, mas pela ameaça do mesmo mal prometendo cair mais tarde sobre a cabeça de minha filha. Sim, porque minha filha há de também um dia ser esposa e ser mãe, e terá nesse caso de sofrer as mesmas injustiças que eu faço hoje à minha mulher, e que agora lhe entristecem a vida e lhe dão ao bondoso semblante aquele doloroso ar de resignação.
Pois se eu, cônscio da minha íntima probidade conjugal, amando minha mulher como a amei sempre, não pude furtar-me à cruel e misteriosa lei que me obriga, contra a própria razão, a sentir-me farto e cansado da sua ternura, quanto mais se eu fosse um esposo vulgar, sem escrúpulos, e sem domínio sobre si para chamar a consciência, o coração, e até sentidos, ao bom e leal desempenho dos seus deveres?... O que seria então?... Que horrorosa vida não teria dado à minha mulher se não fora eu tão honestamente rigoroso no desempenho do meu papel de esposo?... Que mundo de dores e desgostos lhe teria eu proporcionado, se ela descobrisse o sacrifício com que às vezes suporto as suas carícias e a hipocrisia com que as retribuo ou provoco?...
O marido de minha filha terá, como eu, a delicadeza, a bondade, de se não revoltar, de submeter-se passivamente à convenção matrimonial, calcando no íntimo as revoltas do tédio, e resistindo heroicamente às solicitações externas, como eu resisti sempre até aqui?
A pertinaz sedução de mais de uma formosa mulher que encontrei na sociedade, quebrou-se contra os meus princípios de moral; e Olímpia, que é inteligente, bem o percebeu e bem mo agradeceu, não com palavras, mas por delicados meios, que ainda mais me fizeram seu amigo. O marido que milha filha viesse a ter seria capaz de tanto...
Eis o que me tortura principalmente!
E minha filha será, como é minha mulher, uma virtude inquebrantável, um espírito orgulhoso e forte, que resista às tentações de procurar fora de casa a felicidade que o casamento lhe terá prometido e não lhe terá dado; ou, impelida pelo fastio da vida conjugal, irá refugiar-se nas criminosas ilusões de novas crises de amor; nessa espécie de falsificadas luas-de-mel, que a mulher adúltera inventa fora do lar doméstico, porque vê que neste não poderá nunca, nunca mais, obter a reprodução da lua-de-mel verdadeira e legítima?
E, admitindo mesmo a melhor hipótese, admitindo que Palmira herde da mãe a energia e a honestidade do caráter e o rigoroso equilíbrio do temperamento, será justo deixar que ela passe pelas mesmas provações e sofra as mesmas dúbias e lentas infelicidades que eu observo e estudo em Olímpia, e que me enchem de compaixão por ela e de revolta contra mim mesmo e contra estes meus ingratos e miseráveis sentidos? Pois será esse o belo futuro que eu preparo para minha querida filha? Destiná-la a servir de instrumento de tédio a um marido, que não será talvez tão resignado como eu e que não consiga amá-la como eu amo minha mulher? Condená-la a ser, por toda a melhor parte de sua vida, nada mais do que um ludibriado receptáculo de fingidas carícias? condená-la, coitadinha! a apagar com os seus beijos castos o fogo de inconfessáveis desejos, criados por outras mulheres, cuja única superioridade sobre ela será a de não serem casadas com o homem que for seu marido? E, se este não tiver o meu gênio e não conseguir arrancar de si os artifícios de delicadeza, que eu mantenho para com minha mulher, terei eu o direito de acusar minha filha, no caso que se desvie da linha inflexível dos seus deveres, e procure fora do tedioso matrimônio os regalos exigidos pela sua mocidade e pelos reclamos que, no seu sangue, pôs a natureza para garantia da espécie e segurança da intérmina cadeia da vida? Se assim acontecer, terei o direito de amaldiçoá-la; terei o direito de castigá-la com o meu desprezo e com o meu abandono?
E não será mais odioso crime punir semelhante desgraça, com outra desgraça ainda maior para ela? Para ela e para mim, e para minha esposa; pois que - deserdar qualquer filha do amor de seus pais - é sem dúvida para essa infeliz um tremendo martírio, porém nunca tão grande e tão doloroso como para os desgraçados que o infligem!"
Eis aí fica uma sincera página, escrita por meu marido, antes da nossa crise das contendas e disputas que nos desuniram para sempre. Calculo quanto não teria ele sofrido mais tarde, pensando no destino de nossa filha e reconhecendo que nem ele próprio, que se considerava tão seguro na sua resignação conjugal e tão firme na sua energia para conter as revoltas do tédio, pudera evitar a explosão nervosa e o fatal rompimento, que nos arredaram, a ele de Palmira, a mim do meu pobre filho! Como meu marido devia ter sofrido longe dela, coitado!
Mas a semente do seu amor paternal foi recolhida pelo meu coração de mãe, e já vingou, e há de crescer, florir e dar bons frutos!
Sim, meu infeliz irmão, se lá no duvidoso mundo, para onde voou teu nobre espírito, acompanha-te a mágoa do destino que terá nossa filha, e se guardas nessa outra vida memória dos que nesta te amaram, põe a larga o coração, porque estarei ao lado dela para evitar-lhe os escolhos, em que comigo naufragaste; estarei a seu lado, vigiadora e fiel, para preservá-la do mal que nos separou, e para dar-me toda inteira, de corpo e alma, para sempre à conquista de um meio de a fazer feliz! Juro-te que nossa filha não passará pelas mesmas angústias por que passei, nem resvalará em nenhum dos muitos modos de ser da prostituição!
Não! Palmira não terá a desgraça de ser uma esposa adúltera e desprezível, nem será também uma vítima ridícula da sua própria virtude, privada, na idade do amor sexual, dos direitos e dos gozos que a natureza conferiu a cada uma das suas criaturas; nem será tampouco, como eu fui, a esposa mãe, cujos beijos do marido nada mais eram que os restos frios do seu amor paterno! Não! minha filha há de amar e ser dignamente amada, com todo o ardor, com todo o entusiasmo, com toda a grande e próspera volúpia de que é capaz o verdadeiro amor! E não somente durante o noivado, mas sempre, por toda a vida, todos os dias e todos os instantes.
Minha filha há de ser feliz!

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