LIVRO DE UMA SOGRA
Aluísio de Azevedo
CAPÍTULO I
...ce travail offre un autre découragement: que de choses hardies,
et que je n'avance qu'en tremblant, seront de plats lieux communs dix
ans après ma mort...
Stendhal, Souvenirs
d'Égotisme.
De volta da minha última peregrinação à Europa,
depois de cinco anos de saudades do Brasil, foi que, pela primeira vez,
senti todo o peso e toda a tristeza do meu isolamento e pensei com menos
repugnância na hipótese de casar. Foi a primeira vez e também
a última que semelhante veleidade me passou pelo espírito;
daí a vinte e quatro horas tinha resolvido ficar eternamente solteiro.
Estava então com trinta e cinco anos. Dessa vez, como sempre me
sucedia ao pensar no casamento, veio-me logo à idéia o meu
amigo Leandro, e vou dizer por quê:
Leandro de Oviedo era, entre os meus companheiros da primeira juventude,
o único que se conservou fiel à nossa amizade. Os outros
tinham todos desaparecido; alguns simplesmente do Rio de Janeiro ou do
Brasil, mas, ai! a melhor parte havia já desertado deste mundo,
para nunca mais voltar.
Leandro foi sempre um rapaz bem equilibrado: coração generoso,
caráter sério, inteligência regular, sobriedade nos
costumes e tino para arranjar a vida. Do nosso grupo era ele o mais moço
e também o mais forte e bem apessoado. Tinha excelente educação
física, adquirida num colégio da Inglaterra; conhecimento
perfeito da esgrima e jogos de exercício; destreza na montaria
e plena confiança nos seus músculos.
Ainda não contava ele vinte anos quando o conheci, e a nossa intimidade
foi apenas interrompida pelas minhas viagens. Fui eu o confidente da grande
paixão que o levou a casar, quatro anos depois, com uma encantadora
rapariga, filha da velha mais fantástica, mais diabólica,
mais sogra, que até hoje tenho visto.
A fúria, para consentir nesse casamento, aferrou-se às mais
leoninas exigências; impôs condições as mais
humilhantes para o futuro genro. Já me não lembro ao justo
quais foram elas, posso afiançar porém que eram todas originais
e ridículas. Havia uma, entre tais cláusulas, de que nunca
me esqueci, a da assinatura de certo documento, em que o desgraçado
pedia à polícia não responsabilizasse ninguém
pela sua morte, caso ele aparecesse assassinado de um dia para outro.
Mas Leandro estava irremediavelmente perdido de amores; e a moça
era muito rica, e ele o que se pode chamar pobre. Não havia para
onde fugir; sujeitou-se a tudo e - casou.
Ainda porém não tinha desfrutado o primeiro mês da
sua lua-de-mel, e já a sogra achava meios e modos de interrompê-la,
separando-o violentamente da noiva. E daí em diante o casal nunca
mais teve ocasião de absoluta felicidade. O demônio da velha
parecia não poder ver o genro ao lado da filha, e o pobre rapaz,
que amava cada vez mais apaixonadamente a esposa, não lograva um
segundo de ventura junto desta, sem ver surgir logo entre eles o terrível
espetro. Não os deixava um instante sossegados, não os perdia
de vista um só momento, rondava-os, fariscava-lhes os passos, como
se vigiasse a rapariga contra um estranho mal-intencionado; perseguia
o genro só pelo gostinho de atormentá-lo; contrariava-o
nas suas mais justas pretensões de marido, azedando-lhe a existência,
intrometendo-se na sua vida íntima, desunindo-o da mulher, sobre
quem conservava os mais despóticos direitos.
Causava-me ele verdadeira compaixão.
Um dia vi-o entrar por minha casa, desesperado, aflito, e atirar-se a
uma cadeira, soluçando. Sem que lhe apanhasse uma só palavra
das muitas que os seus soluços retalhavam, consegui, de dois dos
seus monossílabos mais estrangulados, perfazer a de "Sogra",
e exclamei-lhe desabridamente:
- Mas com um milhão de raios! por que não te livras por
uma vez dessa víbora?!
- Livrar-me, como?! De que modo?! perguntou-me o infeliz entre dois arquejos.
- Ora, como?! De que modo?! Seja lá como for! Foge, ou torce-lhe
o pescoço! Atira-a no meio da baía! Sacode-a do alto do
Pão de Açúcar!
- Impossível! Amo loucamente minha mulher, e minha mulher adora
a mãe! Não consentiria em separar-se dela, nem mo perdoaria,
se o tentasse!
Histórias!
- Além de que, sabes qual é hoje a minha posição
na Praça do Rio de Janeiro; não é das piores! mas
sabes também que só agora começo a colher o resultado
de enormes sacrifícios feitos para obtê-la!... Pois bem,
tudo o que sou, devo a minha sogra! O capital é dela! O crédito
foi ela quem mo deu! Um rompimento seria a minha ruína completa!
Oh, diabo!
É o que te digo! Vê tu que posição a
minha!
- Então, meu amigo, só te restam os extremos - resignação
ou... suicídio!
Ele, ao que parece, resignou-se.
Um ano depois encontramo-nos em Paris.
Olá! bradei-lhe. - Fugiste...
Qual! Estou de passeio. Minha sogra mandou-me passear...
Expulsou-te de casa?...
Não. Mandou-me passear por algum tempo. Eu volto...
- Ah! compreendo! quer que a filha se distraia um pouco pela Europa. Dou-te
os meus parabéns!
Não! vim só.
Hein?! E tua mulher?
Ficou.
E tua sogra acompanha-te?...
Ah! não!
Fiz-lhe, intrigado, ainda algumas perguntas, a que ele respondeu com reserva,
procurando evitá-las. Percebi que me não queria falar francamente,
talvez por medo do ridículo, e não insisti.
Jantamos em companhia um do outro, e desde então pegamos de ver-nos
todos os dias. Fizemos juntos uma viagem à Suíça,
e a nossa amizade revigorou-se com essa jornada; ficamos inseparáveis
até que ele, meses depois, deixou a Europa para tornar ao Brasil.
E eu, agora, aqui no Rio de Janeiro, ao acordar da primeira noite, passada
no detestável Freitas-Hotel, senti cair-me em cima, com o peso
de mil arrobas, todo o negrume da minha solidão. A idéia
da solidão fez-me pensar em Leandro.
É verdade! Que fim teria ele levado?...
Vou vê-lo! deliberei, saltando da cama.
Procurei o endereço da sua atual residência. "Tijuca.
Alto da Serra". Era longe, mas o dia estava magnífico. Por
que pois não ir? Enquanto lá estivesse disfarçaria
ao menos o meu tédio de celibatário. Leandro era afinal
o meu melhor amigo; além do que, apetecia-me à curiosidade
saber notícias do seu casamento e da sua fenomenal sogra. Não
nos víamos havia quatro anos. Como seria agora a sua existência?
Que fim teria ele dado ao demônio da bruxa?...
Vesti-me, almocei, saí, dei um passeio pela rua do Ouvidor e tomei
o tramway da Tijuca. Na raiz da serra procurei informações
sobre a casa de Leandro; deram-nas na mesma cocheira que me alugou uma
vitória para lá subir.
Às cinco e meia da tarde entrava na residência do meu amigo.
Uma deliciosa chácara, com o seu cottage ao fundo, na fralda da
montanha, escondido entre árvores floríferas e cercado por
um jardim de rosas e camélias. Adivinhava-se logo, desde o portão
da rua, haver ali todo o conforto e regalo que nos podem proporcionar
os maravilhosos arrabaldes do Rio de Janeiro. Toquei o tímpano
na varanda. Fizeram-me entrar para a sala de espera; não mandei
o meu cartão intencionalmente, e, quando Leandro chegou e deu comigo,
soltou uma sincera exclamação de prazer.
Atiramo-nos nos braços um do outro.
Que bela surpresa! - bradou ele. - Não sabia que tinhas
chegado!
- Cheguei ontem. E tu como vais por aqui? A senhora como está?
E tua sogra, que fim levou?
- Minha mulher não está aí. Saiu na minha ausência
com os filhos e com o velho César. Não sei para onde foram...
Mas vai entrando! vai entrando!
- Estão espairecendo naturalmente por aí perto, aventei,
passando para a sala de visitas.
- Talvez, mas talvez não. Não sei! Pode ser que voltem já
e pode ser que se demorem. Desconfio que foram fazer uma viagem...
- Como? Pois tu não sabes se tua mulher foi fazer uma viagem, ou
se está passeando pela vizinhança da casa?... Ora esta!
- Não, filho, não sei. Temos uma vida muito especial. Ela
às vezes me foge, ou eu lhe fujo. Levamos três, quatro dias
fora, uma semana, um mês até, longe um do outro, visitando
parentes e amigos, ou simplesmente passeando, viajando...
Calei-me, por falta absoluta de palavras, e comecei a desconfiar que a
sogra afinal acabara por derreter os miolos do meu pobre amigo. Era de
esperar!
Depois de uma pausa, aproximei-me dele e perguntei-lhe, em voz soturna,
olhando para os lados:
E a serpente?...
Que serpente?!
Ora, qual há se ser? A fúria infernal, o diabo de
saias, tua sogra!
Coitada!
E Leandro soltou um grande suspiro.
Escancarei os olhos e a boca, sem compreender.
- Coitada!... repetiu ele, com um novo suspiro. - Já não
existe...ah! infelizmente já não existe!...
Recuei aterrado; senti o sangue gelar-se-me nas veias. Que estava eu ouvindo,
meu Deus? que estava dizendo o mísero rapaz? Oh! agora já
não havia a menor dúvida - era um caso perdido!
- Regenerou-se afinal... interroguei-lhe, fingindo sangue-frio, e sem
me aproximar muito desta vez.
- Não zombes, meu amigo! A memória de minha sogra é
hoje para mim tão sagrada, ou mais, do que a memória de
minha própria mãe!...
- Mas, espera! quantas sogras então tiveste tu?... perguntei-lhe
receando também já um pouco pelo meu juízo.
Uma só.
- E essa, a que te referes agora, é aquela mesma, a célebre?
aquele terror, aquela moléstia, aquele mal que te roía a
existência? aquele diabo, a quem devias o implacável inferno
em que te vi espernear de desespero?...
A mesma, Leão. Simplesmente eu, nesse tempo, era injusto...
- Aquela que, só pelo gostinho de contrariar, se metia entre ti
e tua mulher, cortando-lhes no meio as carícias e perturbando-lhes
o amor?...
Não a compreendia nessa época. O imbecil era eu!
- Aquela, que te trazia suspensa sobre a cabeça uma ameaça
de morte?...
Fazia-o, porque era adoravelmente boa!
- Aquela, que te não permitiu fosses o dono do primeiro beijo de
teu filho?...
É verdade, a mesma!
Aquela fúria?
Era uma santa!
E ficou muito sério, com o rosto compungido e contrito.
Até hoje ainda não sei como não caí para trás,
fulminado.
Meti as mãos nos bolsos das calças, abri as pernas à
marinheira, ferrei o olhar no tapete do chão, apertei os lábios,
arregacei as sobrancelhas, e embatuquei.
Sim, senhor!...
Estava preparado para ver, sem me alterar, o meu estimável amigo
Leandro de Oviedo atirar as mãos para o chão e pôr-se
a percorrer a sala de pernas para o ar.
Que digo? Poderia ver sem pestanejar, o retrato da própria sogra
de Leandro desprender-se do seu caixilho dourado, e vir dar-lhe um beijo,
ou dançar um fandango entre nós dois.
Naquele instante nada me causaria abalo!
* * *
Mas, ao fim do jantar, reanimado por um velho e generoso Barbera, pedi
ao meu paradoxal amigo que me explicasse o milagre daquela sua tão
absoluta inversão de pontos de vista. Sempre queria ouvir!
- Não te darei uma palavra e terás a mais satisfatória
explicação do mistério, disse-me ele. - Dormes aqui,
não é verdade? Dormes decerto!
Mas...
- Podias até passar alguns dias comigo. Isto por cá é
muito aprazível nesta época. Onde estás morando?
No Freitas.
- Ora! Não te largo esta semana! Seria desumanidade deixar-te ir!
Hospedado no Freitas!...
- Mas é que... não contava com isto... Vou sem dúvida
incomodar tua família...
- Qual! Minha família não sei quando virá... Tu agora
não tens ainda com certeza o que fazer... De resto não ficas
totalmente preso: podes ir à cidade quando quiseres; trazer de
lá ou mandar buscar o que precisares. Olha! aqui pelo menos estás
livre de qualquer febre! e podemos dar magníficos passeios, a cavalo
e de carro, pela Floresta, à Vista Chinesa, à Gávea.
Amanhã mostro-te as minhas estrebarias; se ainda conservas gosto
pelo gênero, encontrarás o que ver.
Confessei-me vencido, mesmo porque sentia já a curiosidade excitada.
Jogamos à noite uma partida de bilhar e, às onze horas,
na ocasião de recolher à câmara que me destinaram,
exigi de Leandro a prometida explanação do milagre.
Entra para o teu quarto, que lá ta levarei, respondeu ele,
afastando-se.
E pouco depois voltava, trazendo com todo o carinho um pequeno estojo
de ébano. Abriu-o defronte de mim com uma chavezinha de prata,
e tirou de dentro um livro preciosamente encadernado.
Mostrou-me o livro, em silêncio, cheio de gestos e desvelos religiosos.
Na capa, entre guarnições de ouro e pedras finas, havia
um delicadíssimo esmalte, retratando em miniatura o busto da sogra.
Estava a primor, com o seu distinto e singelo penteado de cabelos brancos,
com as suas lunetas de cristal, e com aquele sutil sorriso malicioso,
que lhe conheci noutro tempo.
- Não poderia dar-te maior prova de amizade, do que te confiando
este sagrado tesouro, disse-me Leandro. - É um manuscrito de minha
sogra. Começa a lê-lo hoje antes de dormir, e depois, quando
o tenhas concluído, conversaremos a respeito da mãe de minha
mulher...
Tomei nas mãos, cuidadosamente, a sedutora relíquia, examinei-a
deveras intrigado, depu-la de novo no seu estojo, agradeci a Leandro o
obséquio, impaciente por vê-lo pelas costas.
Logo que me pilhei sozinho, fiz em três tempos a toilette, aninhei-me
na cama, cheguei para perto da luz do velador, e, com uma volúpia
repassada da mais legítima curiosidade, abri a primeira página
e comecei a leitura.
Mal sabia eu que grande influência ia exercer esse manuscrito sobre
minha vida... E como hoje posso publicá-lo, não ponho nisso
a menor dúvida.
É o que se segue:
CAPÍTULO II
Manuscrito de Olímpia
La nature a des perfections
pour montrer qu'elle est l'image de Dieu, et des défauts pour montrer
qu'elle n'en est que l'image.
PASCAL, Pensées.
Órfã
de pai e mãe, tinha eu dezoito anos de idade, quando passei das
mãos de meu tutor para as mãos do estimado e simpático
Dr. Virgílio Xavier da Câmara, que me recebeu por esposa
na igreja de São João Batista em Botafogo.
Meu noivo contava vinte e sete anos.
Éramos ambos de boa família, ambos muito bem relacionados,
ambos sadios, ambos até bonitos. Ele - médico, inteligente
e trabalhador, conservando intacto um patrimônio de quarenta contos,
que herdara ainda criança; gênio feliz, costumes irrepreensíveis,
nada de vícios perigosos e nada de paixões de qualquer gênero,
nem mesmo desses perturbadores sonhos de glória ou dessas ambições
descomedidas, que nos fazem sacrificar às vezes a doce tranqüilidade
do presente garantido, pela hipotética e fascinadora conquista
de um nome no futuro incerto. Eu, pelo meu lado - inocente e pura, educada
sob os mais austeros exemplos de moral e virtude, tendo feito a minha
aprendizagem doméstica sem prejuízo dos meus pequenos dotes
sociais; sabendo coser, como sabendo bordar; dirigir o serviço
dos criados, governar uma casa, como sabendo tocar piano, receber visitas
e dançar uma valsa; e mais: tinha boa ortografia, alguma leitura,
que não era composta só de maus romances, um pouco de francês,
um pouco de inglês, um pouco de desenho, sessenta contos de dote,
princípios religiosos bem regulados, caráter sereno, temperamento
garantido por hereditariedade natural, seguros hábitos de asseio,
alinho e gosto no vestir, que nada deixavam a desejar, quanto à
elegância, mas que jamais roçavam, nem de leve, pelos arrebiques
do janotismo equívoco.
Eis como nós éramos os dois. E eu - meiga e delicada; e
meu marido - extremoso e forte.
Casamo-nos por inclinação de parte a parte, com o aplauso
de ambas as famílias, depois de um calmo namoro de seis meses,
regular e honesto, abençoado por todos os nossos parentes e amigos.
Não se poderia, pois desejar casamento mais equilibrado, nem se
poderia conceber um par mais harmonioso, e até mais simétrico.
Não obstante, apesar de que nunca transigi dos meus deveres conjugais;
apesar de que meu marido prosperou sempre de fortuna na sua carreira médica
e, depois, na sua carreira política; apesar de que ele era bom,
e apesar de que sempre nos estimamos; apesar de tudo isso, tanto ele como
eu fomos igualmente muito desgraçados, enquanto nos não
separamos; fomos os dois um casal de infelizes amarrados um ao outro pelo
duro e violento laço do matrimônio; fomos dois calcetas,
seguros na mesma corrente de ferro, condenados a suportar a existência
eternamente juntos.
Não foi possível! Quebramos a cadeia, arrancamo-nos da grilheta.
O governo nomeou-o para uma honrosa comissão fora do Brasil; aproveitamos
o ensejo e separamo-nos. Tínhamos dois filhos, um de cada sexo;
a menina ficou comigo e o menino seguiu com ele.
Ao contrário do alvitre jurídico, entendi sempre que, na
separação de cônjuges, mormente abastados, o filho
ou filhos varões devem acompanhar o pai, e a filha ou filhas devem
ficar ao lado da mãe, porque esta é sem dúvida mais
apta, que um homem, para zelar pela boa educação e pureza
de uma menina; ao passo que aquele outro pode, melhor que a mulher, dirigir
e encaminhar a vida de um rapaz.
O contrato moral e íntimo do nosso apartamento foi ainda mais digno
e mais sincero do que o contrato público e material da nossa união.
Não nos preocupou a questão de dinheiro, porque éramos
já bastante ricos, e podíamos ficar ambos pecuniariamente
independentes. Obriguei-me a não macular jamais o nome que ele
me dera, e esse preceito foi por mim cumprido à risca; ele, pelo
seu lado, comprometeu-se a se não descuidar nunca de nosso filho,
e assim o fez, durante os curtos anos que viveu ainda o meu pobre Gastãozinho.
Separamo-nos bons amigos, mas, ai de nós! depois de grandes desavenças
domésticas e brigas de cada instante, que fizeram até aí
da nossa vida um triste inferno, e que para sempre nos tornaram incompatível
a existência em comum. O que nos valeu foi o nosso espírito.
Num momento lúcido compreendemos tudo, encaramos a sangue-frio
a situação; e abraçamos com coragem o único
partido digno de nós. Se continuássemos a viver juntos,
teríamos chegado às últimas degradações
da falta de respeito um pelo outro e talvez ao crime. É possível
que Virgílio me batesse, ou me matasse, num dos nossos muitos ímpetos
de irreprimível cólera nervosa. Só os casados, só
estes, poderão calcular e compreender quanto nos injuriamos os
dois, quanto nos aviltamos, por palavras e gestos, nessas secretas e constantes
lutas. O arrependimento chegava sempre, porém tarde, e nunca aproveitava
para impedir novas crises; o arrependimento só servia para mais
nos rebaixarmos aos nossos próprios olhos, com a consciência
da nossa degradação. Mais do que as rixas, os seqüentes
amores na confirmação das pazes, deixavam-nos humilhados
e corridos de vergonha; e este fato, só por si, a deprimente certeza
da nossa ignomínia, era já um novo rastilho pronto e aceso
para uma nova explosão de cólera.
Afinal, o contacto, ou a só presença de qualquer dos dois,
tinham se tornado absolutamente insuportáveis para o outro. Às
vezes, sem razão, não podia demorar a vista sobre meu marido:
irritavam-me nervosamente os seus gestos mais simples e naturais. Uma
ocasião, em que o contemplei pelas costas, assentado à sua
mesa de trabalho, todo embebido no que estava fazendo, com a cabeça
baixa, um gorro de seda preta, os ombros envolvidos num xale que lhe escondia
o pescoço, desejei-lhe a morte, e tive de fugir dali para não
disparatar com ele.
Mas por quê? por que razão eu, que sem dúvida estimava
e compreendia meu marido, não podia às vezes suportá-lo?...
por que razão ele, que me amava, não pôde continuar
a viver junto de mim?
Por quê?
Eis o difícil de explicar, e eis do que, tendo estudado minuciosamente
o meu próprio coração e o coração de
meu marido, e depois de uma longa e paciente observação
de todos os instantes da vida de casados que nós dois tivemos,
tirei a base e a substância da minha filosofia sobre o amor conjugal
e os meios práticos de obter-lhe a duração.
Não o fiz por mim, mas só por minha filha, a minha Palmira,
a flor mimosa dos verdadeiros encantos da minha vida de moça, o
ser único a quem neste mundo dei, até certo momento da velhice,
todo inteiro o meu coração, a quem dei todo o meu amor,
sem a mais ligeira reserva de ternura e se a menor hipocrisia nos sorrisos
e nos beijos. Amei-a mesmo antes que ela nascesse, amei-a cada vez mais
durante a existência, e creio que ainda a amaria sempre depois da
sua morte. Nunca neste amor descobri as falhas de tédio, de cansaço,
e até de absoluto enjôo, que infelizmente, logo desde o começo
da minha vida conjugal, descobri no amor que eu votava ao meu bom e querido
esposo. No meio do maior aborrecimento, no mais ingrato instante das horas
de desânimo, a presença de minha filha era sempre uma consolação
e um repouso; nunca beijo nenhum que ela me deu foi inoportuno; nunca
as suas carícias chegaram fora de propósito, e nunca deixaram
de produzir em minha alma o mesmo delicioso efeito de suave refrigério.
Entretanto, quantas vezes, ainda na lua-de-mel, não me revoltei
contra mim mesma e não amaldiçoei as rebeldias do meu coração,
por não poder evitar que, a despeito da minha traiçoeira
afabilidade externa, o enojo repelisse no meu íntimo as carícias
que nessa ocasião me dava meu marido?!
Ah! ele não percebia a verdade, porque eu com uma hipocrisia, que
nesse tempo acreditava honesta e generosa; uma hipocrisia, que eu supunha
fazer parte dos meus deveres de boa esposa, obrigava meus olhos, meus
lábios, meus braços, meu corpo inteiro, a mentirem, representando
sem vontade essa coisa inconfessável, ignóbil, que me tinham
feito acreditar, secretamente, que era "o amor". Que blasfêmia!
e mais - que era "o matrimônio". Que desilusão!
Oh! quantos sorriso, quantos suspiros de volúpia e quantos beijos
dados por mentira, meu Deus! Oh! quanto me prostituí nos braços
de meu marido!
E que vergonha, que repugnância, dele e de mim própria, não
me assaltaram quando descobri que com Virgílio se dava a mesma
coisa a meu respeito; e que ambos nós, procurando iludir um ao
outro, representávamos cada qual no seu transporte a mesma degradante
comédia de amor? Quantas vezes percebi que seu espírito
bocejava de tédio, enquanto seus lábios me cobriam de beijos
fervorosos?
Mentirá todo aquele e mentirá toda aquela que disser que
a presença de sua esposa, ou que a presença de seu marido,
lhe foi sempre agradável; e mentirá, se não confessar
que muita vez se prestou a satisfazer os desejos do cônjuge com
sacrifício de todo o seu ser.
Éramos já dois desgraçados, e dali em diante começamos
a ser duas vítimas e dois verdugos recíprocos, chumbados
à mesma dor e à mesma crueldade, a torturarem-se, a devorarem-se
num estreito abraço de extermínio.
Oh! definitivamente não podíamos continuar a viver juntos!
E no entanto, eu amava meu marido, e sei que era amada por ele. Nenhum
casal até hoje se estimou e respeitou mais do que nós no
foro íntimo da sua alma. Juro que tínhamos em segredo um
pelo outro a maior e mais sincera consideração, e que ambos,
de parte a parte, apesar dos constantes atritos, fazíamos de cada
qual o mais alto e digno conceito. Mas juro também que muita vez
me senti verdadeiramente desgraçada nos seus braços, e ele
nos meus; e que por último, muitas e muitas vezes nos injuriamos,
com as mais duras palavras de desprezo, quando, no fundo da consciência,
julgávamos mutualmente o contrário do que blasfemávamos.
Que singular monstruosidade!
E não me venham dizer que nos amávamos só com a razão
e não com os sentidos. Vou copiar fielmente um fragmento das notas
póstumas de meu esposo, onde o contrário se acha bem demonstrado.
O que adiante se segue escreveu ele já depois da nossa disjunção,
longe de mim, na Itália, poucos anos antes de morrer.
Descobri essas notas entre os papéis do seu espólio. Sem
as transcendentes revelações que elas me depararam, é
natural que nunca chegassem minhas pesquisas filosóficas a qualquer
resultado, e nunca me animasse eu a empreender este doloroso manuscrito.
Atenção! É Virgílio quem agora fala:
CAPÍTULO III
"....................................................................................................................................................
Sim! minha mulher
foi a única mulher que amei. Em meio do maior enjôo da vida
doméstica, sentia eu perfeitamente, no âmago da minha consciência,
que nenhuma outra valia tanto como Olímpia, quer no físico,
quer no moral e até no intelectual; sentia que, se ela não
fosse minha esposa, minha companheira obrigada de cama e mesa, de todo
o instante, havia de desejá-la apaixonadamente; sentia, adivinhava
que, se eu viesse um dia a deixar de possuí-la, como fatalmente
sucedeu, havia de sofrer muito, como efetivamente sofri, sem nunca mais
encontrar mulher que a substituísse ou que lograsse fazer-me-la
esquecer.
Não! Não podia amá-la mais do que a amei no meu noivado,
do que a amei depois nos intervalos da cólera, do que a amo hoje
principalmente, nesta irremediável viuvez da nossa fatal desunião.
Todavia, antes de nos separarmos, só a desejei deveras como mulher,
além daquela época, uma vez em que tivemos de afastar-nos
um do outro por oito meses seguidos; de resto foi sempre o mesmo tédio
e os mesmos enfastiamentos na comunhão da cama. Muita vez o perfume
dos seus belos cabelos, o cheiro do seu corpo, aliás sempre limpo
e bem tratado, o contacto macio da sua pele e a frescura de seus lábios
relentados no delíquio amoroso, me fizeram repugnância.
Por quê? Não achei nunca a explicação. Mas
a verdade é que, antes mesmo da nossa primeira contenda doméstica,
quando éramos ainda um para o outro, só afagos e sorrisos,
eu, apesar de amá-la muito, mas, se por condescendência ficava
um dia inteiro ao seu lado, depois de passarmos a noite juntos, como de
costume, sentia certo prazer estranho, sentia um inconfessável
gozo de alívio, se me vinham anunciar que algum amigo, mesmo dos
mais insignificantes, estava à minha espera na sala de visitas.
Quantas vezes não detive perto de mim pessoas que o não
mereciam, só porque, enquanto estivesse eu com elas conversando,
não estaria conversando ou procurando o que conversar, com a minha
querida esposa?... só porque, enquanto eu estivesse abrigado naquela
visita, não sentiria no meu corpo o calor do corpo de minha mulher,
e não lhe sentiria o cheiro penetrante das carnes e dos cabelos!...
E como todo esse contraditório martírio cresceu depois do
nascimento do nosso primeiro filho? Como fiquei eu amando moralmente muito
mais minha esposa e desejando muito menos possuí-la como mulher?
Depois do nascimento de Palmira, nunca mais o meu espírito amou
minha mulher associado com o meu corpo. Meu espírito continuava
a amá-la, como sempre, meu corpo continuava, também como
sempre, a unir-se ao dela para o matrimônio; mas espírito
e corpo completamente alheios e separados durante o ato conjugal. O amor
do meu espírito nada tinha de comum com o amor do meu corpo, como
aliás sucedia dantes, na primeira fase do casamento; e ai! só
nesse irrecuperável período o nosso amor foi completo, e
foi amor, porque nos unia de corpo e alma! O amor de meu espírito
era um sentimento insexual, respeitoso, nobre, feito de uma ternura de
amigo, de irmão mais velho, um sentimento baseado na proteção
do mais forte que se dedica pelo mais fraco. Havia nele um quê de
mística doçura, de sagrado voto cumprido lealmente, um quê
da consoladora satisfação do desempenho de um dever honroso,
um quê de religião e de ideal. Ao passo que o amor de meu
corpo era quase inconsciente, irresponsável até, nem merecia
o nome de amor, porque, no fim de algum tempo era, por bem dizer, preenchido
sem o menor concurso do coração.
E pensar que o abuso deste segundo falso amor prejudicou o primeiro, o
verdadeiro, a ponto de privar-nos da sua doçura e do seu enlevo!
Com minha mulher devia suceder a mesma coisa que sucedia comigo, porque
certas vezes, despertei-a à noite para o fim genésico, e
mais dormindo que acordada deixava indiferentemente, com os olhos fechados,
que eu saciasse nela o meu desejo material. Tanto o nosso espírito
já por fim não tomava parte no desempenho da função
matrimonial, que em muitas ocasiões, enquanto nos dispúnhamos
para cumpri-la, conversávamos de vários interesses domésticos,
alheios ambos ao supremo destino que naquele instante nos aproximava um
do outro.
Não! isso não era amor; isso era instinto somente; isso
era brutalidade! Entretanto, hoje, que já não possuo minha
mulher; hoje, que me acho para sempre incompatibilizado com ela, e me
vejo na mesquinha contingência de recorrer, para satisfação
das minhas necessidades fisiológicas, a essas pobres máquinas
vaginais que se alugam por instantes, quanto não daria em tais
momentos para poder tê-la ao alcance de meus braços? Quanto
não daria para dispor então daquela valiosa criatura, ao
lado de quem não consegui viver, e ao lado de quem, ainda hoje,
me seria impossível suportar a existência, apesar de desejá-la
tanto?
Sim! ainda aplaudo e compreendo a nossa separação, e ainda
a amo. E se agora, neste instante, por um efeito maravilhoso, me dessem
a escolha de uma mulher, entre todas as mais sedutoras e formosas que
tenho visto, reclamaria, sem hesitação, a minha própria
esposa, e juro que a amaria com o mesmo arrebatamento do primeiro desejo
que ela me inspirou.
Todavia, ridículos monstros que somos nós! no tempo em que
vivíamos juntos, quantas vezes, deitados no mesmo leito, me senti
apesar da sinceridade do meu empenho em respeitar o voto nupcial, perturbado
pela lembrança de outras mulheres, que sem dúvida não
valiam a sombra daquela que eu tinha ao lado? Quantas vezes, com a consciência
ressentida, não conjecturava eu a hipótese traiçoeira
de ter nos braços, naquele momento, certa provocadora mulher com
quem estivera conversando essa noite, durante o baile? E isto dava-se
estando eu deitado junto de minha esposa! Revoltava-me contra tão
hipócrita deslealdade; repelia indignado semelhantes pensamentos
inconfessáveis; mas a mulher, que não era a minha e que
não valia tanto quanto ela, mas que eu só avaliava por conjecturas,
e cujo perfume de cabelo ou cheiro de corpo nunca me tinham sido revelados
na intimidade da posse, impunha-se despoticamente aos meus culposos sentidos,
acordando-me amores fogosos e enérgicos, como os já não
acordava a minha bonita companheira.
Oh! que me perdoes, Olímpia, as vezes que em ti matei desejos que
vinham de outras mulheres!
E, em consciência, não será isto já o adultério?
A idéia do toque amoroso com outra que não seja a própria
esposa, não será uma traição conjugal? Castus
est Qui amorem amore, ignemque igne excludit, diz Santo Agostinho. Se
assim é, há de ser difícil descobrir um casal que
se não adultere de parte a parte, pois estou bem convencido de
que com minha mulher, por excelência virtuosa, devia suceder outro
tanto; assim como estou amplamente convencido de que tudo, tudo que em
mim observei, se verificou também com ela."
* * *
Aí termina
o trecho das notas de meu marido. Ele tinha razão: Amei-o e desejei-o
também na sua ausência e, justamente quando pensava em tentar
uma reconciliação, o que hoje compreendo que seria loucura,
recebi a triste notícia de sua morte. Então a saudade e
o amor que ele de longe me inspirava transformaram-se em verdadeiro culto.
Idolatrei a sua memória; mas, só depois dos estudos que
determinaram este manuscrito, pude compreender de todo quanto esse pobre
homem era bom, digno e reto, e quão nos cabia, a ele e a mim, da
responsabilidade de nossa desgraça.
Demais, o seu lugar no meu coração, quando por mais nada,
estava garantido como pai que era da minha Palmira, da minha filha idolatrada,
laço único que me ligava à vida e ao mundo. E se
fui boa mãe; se consegui, à força de desvelos e de
extremos de amor, aplanar-lhe a existência das misérias que
a minha corromperam, di-lo-ão estas páginas, para ela escritas.
CAPÍTULO IV
Sim, minha filha era a minha vida, porque era o meu verdadeiro amor. Se
eu não tivesse outras razões para conservar-me honesta e
digna, depois da ausência e da morte de meu marido, tê-lo-ia
feito só pelo muito que a amava.
À proporção que Palmira se desenvolvia, fortificava-se
o meu caráter, apurava-se a minha inteligência, e o meu coração
fazia-se melhor. Meu pensamento pertencia-lhe quase que exclusivamente,
mesmo já nos melhores tempos de minha vida de casada. Se então
meu marido ganhava terreno na minha estima e eu na dele, era só
porque ele era seu pai e eu sua mãe; e o desenvolvimento dessa
afetuosa solidariedade estava na razão inversa do nosso amor físico.
Ah! eram inevitáveis as tristes conseqüências desse
deslocamento de amor. Foi talvez dessa época que se decidiu a nossa
incompatibilidade, e que se originou a nossa separação;
entretanto ainda então sabíamos conter-nos um defronte do
outro. Em uma nota, muito anterior àquela que ficou atrás,
meu marido revela-se claramente a esse respeito. Vou transcrevê-la
e será esta a última; insisto em fazê-lo, porque todo
o estudo que forma cabedal deste meu querido livro foi inspirado nessas
notas de Virgílio, e também porque elas dizem o que eu talvez
nunca tivesse a coragem de confessar a meu respeito.
Eis o que ele escreveu. Nesse tempo, note-se, ainda se não tinha
quebrado a aparente harmonia da nossa vida íntima; ainda não
tinha estalado a caldeira, onde ferviam já os humores da reação:
"Noto que os sutis efeitos desse fato (refere-se ao exclusivismo
do seu amor paterno) começam a patentear-se tristemente na intimidade
egoísta da minha vida conjugal. Começo a perceber que o
arrefecimento do meu ardor amoroso para com minha mulher vai lentamente
toldando, de vaporosas mágoas, a sua calma existência de
esposa infeliz e honesta. Ela se não queixa nunca, mas a progressiva
expressão de desgosto que vão adquirindo seus formosos olhos;
o indefinível sorriso de resignação que lhe entreabre
os lábios quando eu, ao seu lado na cama, lhe falo com entusiasmo
de nossos filhos, e só deles, esquecido do resto do mundo, esquecido
de tudo mais, tomado, possuído inteiramente pelo amor de pai; tudo
isso me faz cair em mim e enche-me de revolta conta o exclusivismo do
meu coração. Estudo-me e descubro com horror que já
não há em mim a menor sombra de entusiasmo amoroso por minha
mulher. - Fico indignado! Quero convencer os meus rebelados sentidos de
que isto é uma indigna injustiça, e chamo em socorro dos
meus deveres de bom marido a idéia dos encantos de Olímpia,
evocando o ardor com que a desejei durante o noivado e durante a lua-de-mel.
É tudo inútil!
Minha mulher tem agora vinte e seis anos. Está em pleno desenvolvimento
de suas graças físicas; nunca foi tão bela, tão
sedutora e tão mulher. E eu, com trinta e cinco anos, na força
da idade e da saúde, reconheço tudo isso, admiro-lhe os
dotes físicos, tenho orgulho da sua beleza e, em consciência,
não compreendo mulher mais perfeita e mais digna de amor que a
minha. E contudo, o amor entra no comércio da nossa vida íntima
apenas como ligeiro e fugitivo incidente. Apesar de reconhecer o seu inapreciável
valimento feminil, a riqueza daquele palpitante tesouro de formas brancas
e formosas, o preço daquele corpo carinhoso e casto, só
vejo, só enxergo nela, a mãe dos meus filhos, só
vejo o ventre sagrado, donde nasceu em ondas de sangue a minha felicidade
de ser pai.
Beijo-a, acarinho-a sinceramente, ao sair de casa, ao entrar da rua; às
vezes interrompo o meu trabalho para tomar-lhe as mãos, assentá-la
um instante sobre os meus joelhos, passar-lhe o braço na cintura.
Mas estes afagos, alheios ao transporte amoroso, são feitos de
fria ternura de amigo, são meigo reconhecimento da minha paternidade
feliz.
Donde vem, pois, esta estranha coisa, esta incompreensível anomalia,
de que eu ame cada vez mais minha mulher e menos a deseje amorosamente?
Por quê?
Não sei, não atino com a verdadeira causa; e a convicção
do fato, que no meu espírito de marido leal e virtuoso atinge as
proporções de feia monstruosidade, começa a torturar-me
seriamente.
Sim, sim, a certeza de que a felicidade moral de Olímpia subsiste
em prejuízo da sua felicidade de mulher, atormenta-me de modo atroz.
E percebo ainda, com o coração envergonhado e a consciência
em revolta, que a grande dor saída dessa convicção
não é determinada pelo mal que ela porventura cause à
minha pobre esposa, mas pela ameaça do mesmo mal prometendo cair
mais tarde sobre a cabeça de minha filha. Sim, porque minha filha
há de também um dia ser esposa e ser mãe, e terá
nesse caso de sofrer as mesmas injustiças que eu faço hoje
à minha mulher, e que agora lhe entristecem a vida e lhe dão
ao bondoso semblante aquele doloroso ar de resignação.
Pois se eu, cônscio da minha íntima probidade conjugal, amando
minha mulher como a amei sempre, não pude furtar-me à cruel
e misteriosa lei que me obriga, contra a própria razão,
a sentir-me farto e cansado da sua ternura, quanto mais se eu fosse um
esposo vulgar, sem escrúpulos, e sem domínio sobre si para
chamar a consciência, o coração, e até sentidos,
ao bom e leal desempenho dos seus deveres?... O que seria então?...
Que horrorosa vida não teria dado à minha mulher se não
fora eu tão honestamente rigoroso no desempenho do meu papel de
esposo?... Que mundo de dores e desgostos lhe teria eu proporcionado,
se ela descobrisse o sacrifício com que às vezes suporto
as suas carícias e a hipocrisia com que as retribuo ou provoco?...
O marido de minha filha terá, como eu, a delicadeza, a bondade,
de se não revoltar, de submeter-se passivamente à convenção
matrimonial, calcando no íntimo as revoltas do tédio, e
resistindo heroicamente às solicitações externas,
como eu resisti sempre até aqui?
A pertinaz sedução de mais de uma formosa mulher que encontrei
na sociedade, quebrou-se contra os meus princípios de moral; e
Olímpia, que é inteligente, bem o percebeu e bem mo agradeceu,
não com palavras, mas por delicados meios, que ainda mais me fizeram
seu amigo. O marido que milha filha viesse a ter seria capaz de tanto...
Eis o que me tortura principalmente!
E minha filha será, como é minha mulher, uma virtude inquebrantável,
um espírito orgulhoso e forte, que resista às tentações
de procurar fora de casa a felicidade que o casamento lhe terá
prometido e não lhe terá dado; ou, impelida pelo fastio
da vida conjugal, irá refugiar-se nas criminosas ilusões
de novas crises de amor; nessa espécie de falsificadas luas-de-mel,
que a mulher adúltera inventa fora do lar doméstico, porque
vê que neste não poderá nunca, nunca mais, obter a
reprodução da lua-de-mel verdadeira e legítima?
E, admitindo mesmo a melhor hipótese, admitindo que Palmira herde
da mãe a energia e a honestidade do caráter e o rigoroso
equilíbrio do temperamento, será justo deixar que ela passe
pelas mesmas provações e sofra as mesmas dúbias e
lentas infelicidades que eu observo e estudo em Olímpia, e que
me enchem de compaixão por ela e de revolta contra mim mesmo e
contra estes meus ingratos e miseráveis sentidos? Pois será
esse o belo futuro que eu preparo para minha querida filha? Destiná-la
a servir de instrumento de tédio a um marido, que não será
talvez tão resignado como eu e que não consiga amá-la
como eu amo minha mulher? Condená-la a ser, por toda a melhor parte
de sua vida, nada mais do que um ludibriado receptáculo de fingidas
carícias? condená-la, coitadinha! a apagar com os seus beijos
castos o fogo de inconfessáveis desejos, criados por outras mulheres,
cuja única superioridade sobre ela será a de não
serem casadas com o homem que for seu marido? E, se este não tiver
o meu gênio e não conseguir arrancar de si os artifícios
de delicadeza, que eu mantenho para com minha mulher, terei eu o direito
de acusar minha filha, no caso que se desvie da linha inflexível
dos seus deveres, e procure fora do tedioso matrimônio os regalos
exigidos pela sua mocidade e pelos reclamos que, no seu sangue, pôs
a natureza para garantia da espécie e segurança da intérmina
cadeia da vida? Se assim acontecer, terei o direito de amaldiçoá-la;
terei o direito de castigá-la com o meu desprezo e com o meu abandono?
E não será mais odioso crime punir semelhante desgraça,
com outra desgraça ainda maior para ela? Para ela e para mim, e
para minha esposa; pois que - deserdar qualquer filha do amor de seus
pais - é sem dúvida para essa infeliz um tremendo martírio,
porém nunca tão grande e tão doloroso como para os
desgraçados que o infligem!"
Eis aí fica uma sincera página, escrita por meu marido,
antes da nossa crise das contendas e disputas que nos desuniram para sempre.
Calculo quanto não teria ele sofrido mais tarde, pensando no destino
de nossa filha e reconhecendo que nem ele próprio, que se considerava
tão seguro na sua resignação conjugal e tão
firme na sua energia para conter as revoltas do tédio, pudera evitar
a explosão nervosa e o fatal rompimento, que nos arredaram, a ele
de Palmira, a mim do meu pobre filho! Como meu marido devia ter sofrido
longe dela, coitado!
Mas a semente do seu amor paternal foi recolhida pelo meu coração
de mãe, e já vingou, e há de crescer, florir e dar
bons frutos!
Sim, meu infeliz irmão, se lá no duvidoso mundo, para onde
voou teu nobre espírito, acompanha-te a mágoa do destino
que terá nossa filha, e se guardas nessa outra vida memória
dos que nesta te amaram, põe a larga o coração, porque
estarei ao lado dela para evitar-lhe os escolhos, em que comigo naufragaste;
estarei a seu lado, vigiadora e fiel, para preservá-la do mal que
nos separou, e para dar-me toda inteira, de corpo e alma, para sempre
à conquista de um meio de a fazer feliz! Juro-te que nossa filha
não passará pelas mesmas angústias por que passei,
nem resvalará em nenhum dos muitos modos de ser da prostituição!
Não! Palmira não terá a desgraça de ser uma
esposa adúltera e desprezível, nem será também
uma vítima ridícula da sua própria virtude, privada,
na idade do amor sexual, dos direitos e dos gozos que a natureza conferiu
a cada uma das suas criaturas; nem será tampouco, como eu fui,
a esposa mãe, cujos beijos do marido nada mais eram que os restos
frios do seu amor paterno! Não! minha filha há de amar e
ser dignamente amada, com todo o ardor, com todo o entusiasmo, com toda
a grande e próspera volúpia de que é capaz o verdadeiro
amor! E não somente durante o noivado, mas sempre, por toda a vida,
todos os dias e todos os instantes.
Minha filha há de ser feliz!
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