LIVRO DE UMA
SOGRA
Aluísio de Azevedo
CAPÍTULO VIII
O casamento um ato imoral! Ó meu Deus, a que triste conclusão
me arrastaram os meus raciocínios!
Imoral o casamento! - logo, todo o homem ou toda a mulher que persiste
ao lado um do outro, depois da amamentação do primeiro filho,
é um ente imoral? E minha filha, minha pobre Palmira, teria de
ficar eternamente solteira, privada dos seus direitos naturais de mulher,
ou teria de ser uma criatura imoral, quer tomando para companheiro de
vida um amante, quer aceitando um marido?...
Que horror!
Seria preferível conservá-la virgem, ou seria isto ainda
maior atentado? Se o casamento é imoral porque é contra
as leias da natureza, o celibato casto também o é pela mesma
razão.
Conservá-la virgem! Mas conservá-la virgem seria matá-la
por dentro, secando-lhe com a abstinência forçada a vida
dos seus mais importantes órgãos, os órgãos
direta e indiretamente empenhados na procriação! Mas uma
mulher é toda ela, dos seus pequenos pés brancos e fracos,
aos longos, cetinosos e tépidos cabelos, um simples aparelho de
amor! Tirem-lhe o que foi formado para o conjunto do mister propagador,
e o que fica?
Sim! por que tem ela os quadris mais amplos e volumosos que o homem? por
que tem as coxas grossas, as mãos mimosas, e pele fina? por que
tem peitos tão doces e tão macios? por que tem os lábios
vermelhos e a boca livre e desembaraçada de barba, senão
para dar beijos? e por que tem o rosto liso e rosado, senão para
provocá-los e recebê-los? por que tem os olhos súplices,
lamentosos, banhados em ternura e desejo? por que tem os cabelos tão
compridos e tão perturbadores? e por que uma longa existência,
de menina a octogenária, desde a primeira boneca ao último
netinho, ela só viveu para a carícia e para o amor? e só
teve uma função real e constante - amar, abraçar,
beijar?
Não! minha filha não ficaria assim perdida para o seu verdadeiro
destino de mulher!
* * *
Mas, se o casamento
como a mancebia eram ambos imorais e não podiam proporcionar a
felicidade que eu sonhava para ela, Palmira precisava de um novo cooperante
genésico todas as vezes que tivesse de ser mãe. E isso,
valha-me Deus! seria a mais completa e feia prostituição;
seria perdê-la irremediavelmente para a moral e para a sociedade!
Oh! só agora, depois de pensar em tudo isto, é que vejo
quanto fui casta e quanto fui boa; quanto fui sacrificada e quanto fui
generosa! Que me não ouçam as mulheres fracas e vulgares;
perder-se-iam com a minha dolorosa filosofia. Mas as fortes, as espartanas
do lar doméstico, se algum dia souberem do segredo destas confissões,
que se consolem com a minha heróica desgraça, porque só
essas compreenderão as orgulhosas lágrimas que chorei.
Triste de mim, pobre mãe, cujo único ideal na vida era agora
a inteira felicidade de minha filha, e acabava de compreender que semelhante
felicidade era impossível, tanto no celibato casto, como no matrimônio,
como na concubinagem, como na prostituição. E fora disso,
nada havia a explorar.
Que desespero!
* * *
Cheguei a lembrar-me
do Mormonismo, a amaldiçoada seita polígama de José
Smith. Mas, no dogma dos mórmons, o caso essencial era precisamente
contrário ao que me parecia indispensável à felicidade
fisiológica da mulher e às conveniências individuais
do filho. Lá o homem tem o direito de tomar quantas esposas lhe
apeteçam, desde que as possa manter; a mulher, porém, essa
há de contentar-se com um só marido, se é que se
pode chamar um marido a um homem partilhado por vinte esposas. Um vigésimo
de marido!
Ora, se um achava eu insuficiente para bem gerar todos os filhos de uma
mulher, quanto mais a vigésima parte de um! Entretanto, lendo de
boa-fé a exposição dos princípios filosóficos
e religiosos dos mórmons, abalei-me com certos preceitos da moralidade
conjugal por eles estabelecida e observada. Afirmam com orgulho que, no
mundo civilizado, são os únicos bons e honestos cumpridores
do sagrado mandamento de Deus: "Crescei e multiplicai-vos",
porque um varão pode procriar duzentos filhos, e uma mulher nunca
mais de vinte.
Como, pois, exigir que seja uma só mulher a mãe de todos
os filhos que produza um homem, quando precisa ela de dois anos para a
gestação, parto e criação de cada um? Não
será isso constranger o marido a uma destas três coisas:
- ou condenar-se à esterilidade forçada, para não
faltar a fé conjugal; ou transigir das regras da boa higiene, aproximando-se
da consorte nos períodos em que não deve; ou procriar fora
do casal o que lhe fará ser pai de alguns filhos legítimos
e, ao mesmo tempo, de muitos e muitos filhos inconfessáveis? Não
seria melhor, mais digno e mais generoso, argumentam eles, que o homem,
em vez de ter uma só mulher legítima e várias concubinas
de ocasião, e que, em vez de ter filhos reconhecidos e filhos abandonados,
aceitasse corajosamente as imposições do seu organismo e
vivesse claramente, à luz da legalidade, com todas as suas consorciadas,
sem subterfúgios desleais e dissimulações ridículas?
E os mórmons justificam-se com os exemplos da Bíblia: Lamech,
filho de Methusael, teve duas mulheres - Ada e Zilia; Jacob quatro; Abrahão
muitas mais; David todas as que herdou de Saul, e Salomão nunca
menos de mil.
E entendem que só a poligamia pode realizar o grandioso fim do
matrimônio - multiplicar e apurar a espécie; e que ela é
a regra instintiva e natural em toda a extensa ordem dos mamíferos
que povoam a terra, e que ela é ainda a garantia da felicidade
conjugal e dos direitos fisiológicos e sociais da descendência.
Não há dúvida! Tudo isso pode ser muito justo e muito
razoável, apenas acho que os senhores mórmons legislaram
conforme os seus interesses de homem e conforme os interesses da sua descendência,
mas sem pensar absolutamente nas delicadas conveniências morais
e físicas da mulher. E como a minha única preocupação
era o interesse de minha filha e não o do marido que ela viesse
a ter, vi e apreciei o revolucionário dogma social pelo lado contrário
ao ponto de vista dos autores, o que fez com que a minha impressão
fosse diametralmente oposta à deles. De resto, quando fosse com
efeito o casamento polígamo o melhor e mais aceitável de
todos, iria eu carregar com Palmira para Salt Lake City, abandonando a
minha pátria, os meus amigos e os meus interesses no Rio de Janeiro?
E para quê? para a levar a um sultão? para a deixar cair
no serralho de Utah, como se deixasse cair uma franga dentro de um galinheiro?
Não! De tudo que li sobre os mórmons, só uma coisa
me aproveitou, foi o desejo de consultar a Bíblia a respeito do
que era possível fazer pela felicidade de minha filha. E aí,
sim, encontrei afinal a chave do problema que me atormentava.
* * *
Foi na Bíblia,
foi nessa inesgotável fonte de consolações para os
que sofrem, foi nesse eterno poema de amor, que me orientei sobre o único
caminho que tinha a tomar.
Depois da lição dos capítulos XII e XV do Levítico,
convenci-me de que o mal do nosso casamento não estava precisamente
na monogamia, mas só no meio de exercê-la; convenci-me de
que um marido, para não perder a ilusão do seu amor conjugal,
precisa afastar-se da mulher em certas ocasiões. Eis tudo!
Como afinal é sempre intuitiva e simples a base dos maiores problemas
da nossa vida! Mas prossigamos:
A eterna permanência de um homem ao lado da esposa obriga-os a prosaicas
intimidades inimigas do amor, (amor sexual) e acaba fatalmente por azedar-lhe
o gênio e trazer a ambos o fastio, o tédio, a completa relaxação
do desejo, e afinal a explosão dos caracteres em perene atrito,
e as brigas, a troca violenta de injúrias, e, muita vez, se os
desgraçados por falta de educação não souberem
conter os seus ímpetos nervosos, o pugilato e até o homicídio.
"L´amour finit par s'aigrir, comme le vin qui reste trop longtemps
en bouteille", reza a velha filosofia dos provérbios.
O primeiro ponto da minha questão era, pois, fazer desaparecer
a imoralidade de dentro do casamento monógamo. Ora, este casamento
era imoral e trazia o tédio e o cansaço por parte de cada
um dos cônjuges, só porque depois do desempenho do primeiro
filho, o pai e a mãe incompatibilizavam-se entre si para a concepção
perfeita de um novo descendente. Tratei pois de descobrir em que consistia
a causa dessa incompatibilidade. Não foi preciso grande esforço
de inteligência para dar logo com ela: É que o entusiasmo
sensual, o amor, de um pelo outro consorte, era um puro produto da imaginação
e do desejo de ambos, e desde que os dois se não separavam nunca,
nem só se podiam desejar de novo, como igualmente não podiam
manter, de parte a parte, a mútua e cativante impressão
que os havia ligado.
O instinto da conservação da espécie, que é
o amor, deve ser de qualquer modo tratado como o instinto da conservação
pessoal, que é a fome. Não há estômago que
resista a faisão-dourado todos os dias; o melhor acepipe, se não
for discretamente servido, enfastiará no fim de algum tempo. O
mesmo acontece no matrimônio: os cônjuges acabam invariavelmente
por se enfararem um do outro, não pelo uso que fazem do seu amor,
mas pelo abuso mútuo da convivência e da ternura.
Se tens um prato predileto, que se dá bem com o teu paladar e com
o teu estômago, e o qual não podes ver sem sentires a boca
lubrificada pelo apetite, não abuses desse estimável prato,
para que ele se não inutilize para o teu desejo, e para que possas
continuar a saboreá-lo com o mesmo gosto; e principalmente não
comas dele sem boa vontade.
A pessoa amada ganha sempre valor e novo prestígio aos olhos do
amante, quando dele se afasta por algum tempo. É nessa reforçadora
ausência que ela é mais desejada e querida. Dois amantes,
inopinadamente arrancados dos braços um do outro e desunidos por
um pequeno espaço de tempo, continuarão a amar-se e a cobiçar-se
com a mesma primitiva intensidade de antes da posse; enquanto, deixados
tranqüilamente juntos, na mesma casa, na mesma mesa, na mesma cama,
no fim de alguns meses já nenhum dos dois enxergará no companheiro
os elementos de sedução que os inodou sacramentalmente,
e cada um há de perguntar de si para si, com a mais sincera estranheza,
por que diabo se apaixonou por aquela criatura que ali está a seu
lado, a ponto de unir-se com ela para sempre, por um voto eterno?
E tanto assim é, que, no caso, infelizmente tão comum, de
homens casados que mantêm uma concubina fora da casa em que moram,
e com a qual não convivem todos os dias, nem todas as noites, mas
que freqüentam a furto, uma vez por outra, amam sempre e sempre,
dado mesmo a hipótese de igual valimento físico entre as
duas, muito mais a amante do que a mulher legítima, e são
por ela capazes de sacrifícios e esforços que já
lhes não merece a esposa.
Dir-me-ão alguns que é porque mesmo ele nunca amou deveras
a consorte; que se enganara quando supunha amá-la, e que só
depois do casamento, já irremediavelmente tarde, reconheceu o seu
erro; e que na outra mulher fora encontrar afinal a "afinidade eletiva",
ensinada por Goethe, e pois sentira-se irresistivelmente arrastado para
ela.
"O amor que pôde extinguir-se não era amor!" dir-me-ão
outros com o poeta.
Pois sim! era bastante que aquelas duas mulheres trocassem as posições
entre si, para que o decantado amor também trocasse de objetivo.
Fosse a concubina morar com o amante, conviver com ele noite e dia; e
começasse a esposa a ser visitada pelo marido somente de longe
em longe, em furtivas escapulas, e veríamos qual delas seria, no
fim de algum tempo, a mais amada e desejada - a amante de cama e mesa
ou a esposa proibida?
Há muito exemplo de marido, que só vejo a amar deveras à
mulher, depois que esta lhe fugiu para os braços de outro, ou de
outros.
Quando um homem e uma mulher são condenados por lei a viver eternamente
inseparáveis, o corpo pode ceder a tal violência, mas a imaginação,
que é a mãe do amor, essa reage e foge, põe-se ao
largo, onde as suas asas encontrem livre o espaço e o vôo
franco. O espírito do homem é por natureza independente
e só se poderá escravizar a uma mulher, o que não
é tão comum, quando o faça, não por lei de
qualquer espécie, mas por livre e espontânea vontade.
A legítima esposa, que vive inalteravelmente ao lado do marido,
pode, a força de virtude e de bondade, conservar e até desenvolver
a estima, a consideração e o respeito, que ele lhe tributa;
pode ser amada moralmente. Mas o outro amor, o sensual, esse belo instinto
tão necessário ao bom resultado da progênie, esse
vai para a mulher ilegal, para a inconfessável amante, cujos beijos
são mais apreciáveis, porque são mais raros, cujas
horas de convivência são preciosas, porque são contadas,
minuto a minuto, e cujo ligeiro contacto de corpo é sempre, para
ele, um gozo conquistado, seja pela ternura, seja pelo dinheiro, e nunca
um dever imposto por lei ou um direito exercido com sacrifício.
Estava afinal achado o X do meu grande problema. Consistia em nada mais
do que uma pequena inversão de princípios. O meu raciocínio
concludente era tudo o que há de mais simples; era o simples:
Um casal vulgar só pode ser feliz enquanto dura de parte a parte
a ilusão do amor sensual que o determinou; uma vez esgotada a provisão
de amor ou de ilusão, o casal deixa de ter razão de ser
e deve ser dissolvido. Logo, a mulher, para ser fisiologicamente feliz,
precisa substituir o seu amante por um novo, desde que ele não
continue a exercer sobre ela o fascinante prestígio que a cativou.
Ora, sendo de todo impossível substituir assim um esposo, o que
restava a fazer? - Substituir a ilusão. O ator seria sempre o mesmo,
os papéis, representados por ele aos olhos da consorte, é
que teriam de variar e seriam sempre novos.
Minha filha, pois, conhecendo um só homem, teria nesse homem uma
bela e sedutora variedade de amantes.
Mas, como chegar a semelhante resultado? Como obter na vida prática
a execução de tão revolucionário sistema?
Como vencer a exigência dos velhos costumes e arraigados hábitos
domésticos e sociais? Como poderia eu dispor assim de meu genro
e governá-lo na sua íntima vida conjugal? Como conseguiria
reformar-lhe ou reforçar-lhe, de quando em quando, as suas qualidades
insinuativas e os seus dotes de sedução e encanto, para
desse modo manter o amor de minha filha sempre no mesmo grau de entusiasmo?
Eis o que principiei a inquirir com alma e coração, até
chegar a um resultado satisfatório, como exporei neste manuscrito,
se Deus para tanto me conservar vida e saúde. Posso afiançar
desde já é que ao amor de mãe nada é impossível
por mais transcendente que pareça, quando se trata da felicidade
do filho; e que eu, longe de desanimar com o peso da tarefa que me impunha,
sentia a minha confiança cada vez mais segura e forte nas energias
do meu coração materno.
CAPÍTULO IX
A invariável convivência matrimonial é coisa muito
séria, é a grande razão da corrente infelicidade
doméstica, é a causa imediata da fatal desilusão
dos cônjuges, mesmo daqueles que se casam por amor legítimo
e verdadeiro, como eu me casei; é fonte de inevitável desgraça
para a vida inteira, desgraça que os noivos ainda mais agravam,
imprudentemente, com os recursos artificiais e hipócritas do namoro,
quando aliás a mocidade, a graça natural e o amor, deviam
ser os únicos agentes da atração que os ajunta e
abrocha.
Quando um moço, ou uma moça, quer casar, qual é o
seu primeiro cuidado? - Enfeitar-se; ou melhor - disfarçar-se.
Ela recorre às torturas do espartilho para fazer a cinta inverossimilmente
fina, às torturas dos sapatinhos apertados para fazer o pé
microscópico; recorre aos arrebiques, ao pó de arroz, às
opiatas, ao dentista, ao cabelereiro, à modista. De feia pode fazer
de si uma dessas elegantes bonecas de salão, por quem às
vezes os homens se enfeitiçam. Ele, por outro lado, trata logo
de dar brilhantina e cosmético ao bigode, calça-se com esmero,
e estuda os meios, não de conseguir a própria felicidade
e a daquela que pretende para esposa, mas de tornar-se irresistível
dançando a valsa; e põe monóculo, e faz versos, ou
arranja quem lhos faça. E ambos, depois de bem enfrascados em perfume,
depois de bem adornados e convertidos no que não são, esforçam-se,
cada qual com mais empenho, em esconder aos olhos do outro os seus defeitozinhos
e as suas pequenas misérias de entes civilizados.
Ela, coitada! para de si dar cópia de um ser poético e vaporoso,
recita poesias sentimentais ao piano, fala de coisas românticas
que pescou de relha, levando a comédia ao ponto de não querer
à mesa, se houver rapazes presentes, quase que tocar nos pratos;
e suspira, e requebra os olhos, e sibila os ss, e remexe-se toda, e toma
langorosas posturas estudadas; e quando anda, e quando fala, e quando
dança, e quando pousa na cadeira, é sempre com a mesma simulação
e fazendo mil esgares de faceirice, mil trejeitos de ingenuidade e ao
mesmo tempo de provocação amorosa.
Ele, bem barbeado, cheiroso, limpo e janota, afeta grande pureza de costumes
e de maneiras, escolhe para a conversa assuntos finos e termos convenientes;
faz-se terno, cordato, circunspecto, com um gênio de anjo; e fala
do seu amor e do seu futuro conjugal, com tal doçura e tão
voluptuosa virtude, que uma donzela ao ouvi-lo imagina logo que a vida,
em companhia de semelhante puritano, há de ser uma nova edição,
correta e aumentada, do paraíso, antes da gulodice da maçã.
E assim, mutuamente enganados, mutuamente iludidos e engodados - casam-se.
Essa ilusão servirá para a garantia do primeiro filho. Está
muito bem! Mas ainda os dois falam entre si e com os amigos em "lua-de-mel",
e já cada um por sua conta começa a descobrir no companheiro
imprevistas particularidades, reais e prosaicas, que vão surdamente
desdourando o insubstituível prestígio poético que
exerciam um sobre o outro.
Hoje um flato mal disfarçado, amanhã um ligeiro transbordamento
de humor bilioso, em seguida uma cólica desmoralizadora, e em breve
o marido já se não esforça por esconder os seus calos
e a sua dispepsia, nem a esposa tem o cuidado de caracterizar-se de mulher
bonita: já não mete os cabelos em papelotes para os trazer
crespos sobre a testa, já não aperta com sacrifício
a cintura e os pés, já não arma aqueles divinos sorrisos
provocadores que parecia fazerem parte integrante da sua fisionomia, e
já não arranja aqueles fascinantes olhares voluptuosos,
que foram talvez o que mais decisivamente determinou a conquista do homem
que agora é seu marido.
E as pequenas e apoquentadoras misérias do gênio e do caráter,
que se vão revelando dia a dia? E os egoísmos feminis? E
os desleixos do corpo, que não chegam a ser desasseio, mas que
já não são, decerto, o sedutor perfume que ambos
sentiam um do outro, durante o período do namoro, e sob cuja influência
se amaram, e se desejaram, e se tiveram?
O cheiro! Que importante papel representa ele no amor conjugal e nos destinos
da família!...
As secreções da pele são às vezes um terrível
inimigo das ilusões do nosso amor de hoje, mesmo aquelas que a
natureza em nós criou ingenuamente para lubrificante estímulo
dos sentidos. É que a natureza não contava com a degeneração
do olfato, produzida pelo abuso, pelo vício, dos perfumes, das
essências, dos desinfetantes e vinagres aromáticos, e mais
das balsâmicas pastilhas de serralho e do odorante fumo do tabaco.
O homem e a mulher, que se casam, só vêm a conhecer um do
outro o verdadeiro cheiro, depois de rigorosamente unidos pelos inabrocháveis
fechos do matrimônio, quando está mais que provado que, no
amor, o cheiro particular do indivíduo tem ação tão
poderosa como a cor da sua tez e dos seus cabelos, como o timbre da sua
voz, a expressão do seu olhar e da sua boca, o feitio do seu corpo
e o caráter geral do seu modo de ser. O olfato tem as suas idiossincrasias,
tem as suas antipatias e as suas inclinações, como as têm
o ouvido, o paladar, os olhos e o tato. Nos esponsais, os direitos desse
sentido, tão respeitáveis como os dos outros seus congêneres,
são perfeitamente ludibriados pela perfumaria de toucador, sem
calcularem os noivos o perigo que com isso corre a sua futura felicidade
doméstica.
O cheiro natural do corpo é por vezes o bastante para desfazer
o laço amoroso de um par, mormente quando um bom perfume artificial,
usado com insistência e regularidade, tenha, de parte a parte, como
que servido de medianeiro durante o tempo de namoro. Os perfumistas são,
sem dar por isso, grandes promovedores e grandes dissolvedores de casais.
O gosto e o desgosto do olfato têm máxima importância
na questão do amor genesíaco. A mulher, durante certos períodos
fisiológicos, deve ser para o marido um ente inacessível,
deve ser sagrada; já não digo só com respeito à
comunhão sexual, mas ainda para a simples coabitação
do leito ou do quarto. Ele, durante esse tempo, nem só não
lhe deve tocar no corpo, como até nem dela se deve aproximar.
Eu digo - sagrada: a Bíblia lhe chama - imunda.
E já explicou um filósofo humorista que o casamento era
sempre uma permuta, mas não de almas e corações,
e sim: durante o dia - de maus humores; durante a noite - de maus odores.
Não convenho nesta jocosidade de mau gosto, mas a mulher, com efeito,
naquelas ocasiões, torna-se repulsiva pelo cheiro. A mesma natureza
como que assim está insinuando que o homem deve então afastar-se
da esposa. O homem, porém, é teimoso e deixa-se ficar; fica
por falsa compreensão dos seus deveres de ternura, ou fica por
negligência e preguiçosa sujeição aos hábitos.
E a mulher afinal torna-se grávida, e o imprudente continua a dormir
ao lado dela. Vêm as enojosas manifestações da crise
gestante, as dores matrizes, os enjôos, as desagregações
pituitárias, os vômitos, o mau hálito, as aberrações
histéricas do gosto - e o teimoso não se despega.
E começa então para os dois uma existência de indecoroso
promiscuidade; já não escondem absolutamente um para o outro
os seus bocejos e as suas mais repulsivas expansões do corpo. É
como se não estivessem juntos; cada qual, sem poder fugir à
indefectível necessidade do isolamento - pois que todo o homem
precisa de horas de solidão, como precisa de horas de sono, de
horas de trabalho e de horas de convivência e prazer - e, não
podendo evitar nos seus lazeres a presença do companheiro, abstrai-o
do espírito, e acaba por ficar só, inteiramente só,
ao lado dele.
E se um dos dois adoece gravemente, fica o outro a servir-lhe de enfermeiro,
a mudar-lhe as roupas enxovalhadas, a aplicar-lhe vesicatórios,
a dar-lhe purgantes e a ajudá-lo em todos os mais íntimos
misteres.
Mas onde está, que fim levou, aquele airoso dançador de
valsas, aquele gentil mancebo, que não seria capaz de exibir-se
a ninguém, e muito menos à noiva, senão depois de
caprichosamente apurado na roupa, no cabelo, nos dentes e nas unhas? aquele
irresistível galanteador, que dizia coisas tão finas e que
fazia versos tão lindos, e trescalava a sândalo ou cananga-do-japão?
E onde está aquela mocinha vaporosa, que era toda graça,
delicadeza e perfumes, e que mostrava uma cintura e uns pezinhos tão
provocadores, e uma cabeça tão primorosamente penteada,
e um colo, e uns olhos, e uma boca, tão misteriosos e divinos?...
- Oh! Isso foi durante o tempo do namoro! dizem eles. - Hoje somos "papel
queimado!" Hoje somos "feijão com carne-seca!"
- Muito bem! replico eu; mas os dois que se amaram eram aqueles dois que
desapareceram e não vós, que agora aí estais defronte
um do outro, sem saber por que e para quê!
- Oh! mas agora nós nos estimamos muito mais. Se desapareceu a
ilusão do amor, ganhamos em compensação um pelo outro
uma bela amizade que dantes nos não ligava.
- Mas, adorável casal, tu te não constituíste para
formar dois bons amigos íntimos, que nenhuma reserva têm
entre si e que só desejam conservar a sua boa amizade! Tu, mancebo
desiludido, e tu, querida dama despenteada, não vos unistes pelos
laços da amizade, mas sim pelos laços do amor, o que é
muito diferente; e, uma vez que já não existe amor entre
vós, continuai amigos, mas separai-vos de corpo; que vá
cada um procurar além novo consórcio para o seu amor, porque
ainda podeis ser aproveitados para a única verdadeira missão
que a natureza exige de vós, procriar, e procriar bem.
Ora, respondem eles. Mas nós somos felizes assim!...
- Não sois tal! Ah! eu conheço já de longa data essa
confissão de felicidade a vosso modo! Vós, maridos, sois
todos muito felizes; mas quem tomar a sério os vossos próprios
conselhos, não se casará nunca, porque cada um de vós,
enquanto pela prática justifica o casamento, vai segredando pela
boca pequena, ao ouvido de cada um dos amigos: "Eu, cá por
mim, não me posso queixar; fui feliz! Não tenho que dizer;
mas, aceita o meu conselho - não te cases! Não te cases
nunca! É um conselho de amigo, podes crer!"
E repetem quase todos eles a mesma cantiga. É difícil encontrar
um marido que não tenha na ponta da língua esta frase: "Eu
não me posso queixar, mas não te cases!" sem se lembrarem
os ratões de que semelhante conselho já é uma queixa.
Que diabo de felicidade é então essa, que os casados aconselham
a todos os seus amigos solteiros que a evitem? Será isso egoísmo
na ventura, ou falso vexame de confessar a própria desgraça?
Não, a razão é outra. Quereis saber, contraditórios
casados, por que assim falais do casamento? É porque nele sois
ao mesmo tempo felizes e infelizes - felizes na vossa amizade; infelizes
no vosso amor.
E sois infelizes no vosso amor, simplesmente porque sois desiludidos.
Olhai o casamento entre a gente do campo. Por que razão o camponês
é mais feliz no casamento do que a gente civilizada da cidade?
É que lá na roça quando o João da Horta vai
casar com a Joana dos Porcos já lhe conhece a medida justa da cintura,
e já lhe viu os pés descalços, as unhas sujas e a
cabeça despenteada; e ela vai sabendo já qual o verdadeiro
cheiro que ele tem, e quais são os defeitos e as boas qualidades
que o acompanham.
São antes do matrimônio o que são depois - não
sofrem decepções! E, como a vida exercitada e simples do
campo lhes tem naturalmente conservado melhor a integridade do corpo,
e lhes tem poupado calos, enxaquecas, hemorróidas e dispepsias,
a infinidade de misérias e inconfessáveis aborrecimentos
que sobrevêm fatalmente na coabitação dos casais civilizados,
quase que não existe entre eles.
Assim, só entre os simples, ainda se encontram casados que se amam
e se desejam fisicamente depois de ter tido vários filhos; por
conseguinte só entre eles as crianças, concebidas depois
do primeiro parto, seriam sãs, fortes e inteligentes, se nas relações
matrimoniais dos camponeses concorresse o indispensável elemento
poético da imaginação, do enlevo espiritual, donde
tira o filho a última daquelas três qualidades. Só
esse elemento lhes falta no amor, e é por isso que o filho do homem
do campo é que sempre bem constituído de corpo, mas em geral
estúpido, ainda mesmo passando logo a conviver entre gente mais
cultivada.
Em toda a ocorrência sexual, a ilusão fascinadora do espírito
é indispensável para o perfeito equilíbrio do filho
conseqüente.
Concluí pois dos meus raciocínios, não que Palmira
precisasse conhecer bem o noivo antes do casamento, ou vice-versa, porque
seria isso perigoso debaixo do ponto de vista da ilusão amorosa
- ela não era uma camponesa; mas que deviam ambos conservar, eternamente
intactas e perfeitas, as boas impressões, que um do outro tivessem
porventura recebido no período em que se desejaram pela primeira
vez.
A tarefa, como se vê, era mais que penosa, delicada, e de muito
difícil execução; eu, porém, estava disposta
a todos os sacrifícios por amor de minha filha, e haveria de triunfar!
De resto, com que melhor poderia eu encher a vida? A idéia de escrever
estas memórias só mais tarde começou a preocupar-me
o espírito.
* * *
Mas prossigamos. Vamos
ver agora como cheguei à realização dos meus ideais.
CAPÍTULO X
Na escolha mental que fiz de um noivo para minha filha, pareceu-me fosse
preferível um oficial de marinha em serviço ativo, porquanto
o marinheiro leva no casamento duas vantagens sobre os homens de outras
profissões. A primeira porque o serviço de bordo ou em alguma
fortaleza o obriga a afastar-se periodicamente da esposa, cumprindo ele
assim, por dever de ofício, com o higiênico preceito da Bíblia;
a segunda porque os perigos da sua vida aventurosa, a honra militar e
a estética da farda, lhe dão certo brilho especial de antiburguesismo
e um fascinante prestígio de altivez e denodo que muito pesam nos
interesses do amor.
Nós mulheres gostamos de ver no homem amado tudo aquilo que não
possuímos nem podemos aspirar. Quanto mais varonil e másculo
for ele, tanto mais nos impressiona e atrai. A força física,
a bravura, a energia de ação, e a singela bondade do homem
forte, são os dotes masculinos que mais diretamente seduzem uma
mulher bem equilibrada. Eu, que amei tanto meu marido, nunca lhe perdoei
todavia, no íntimo do meu julgamento feminil, que ele fosse de
compleição pouco mais desenvolvido em músculos do
que eu. E não era fraco.
As mulheres ordinárias, que não desgostam de ser batidas
pelo seu homem, têm a sua absolvição na mesma natureza
inferior da mulher. Dar-lhes pancada é prova de falta de respeito
e é brutalidade, mas não é prova de falta de amor;
antes pelo contrário é essa uma das mais naturais expansões
do domínio e do ciúme; e quer sempre dizer superioridade
física. Ora, o que a mulher vulgar exige do seu homem não
é respeito, mas só amor; logo prefere a pancada a qualquer
outra manifestação menos grosseira, porém mais deprimente
dos seus interesses sexuais.
Devia, por conseguinte, o noivo de minha filha ser um oficial de marinha
em serviço ativo, e homem forte. Mas, como a força física
não basta para conquistar um amor complexo, e para manter no mesmo
grau de entusiasmo o enlevo poético de uma mulher de certa ordem,
era preciso que o meu oficial de marinha, além de são e
possante, fosse inteligente, honesto, simpático e carinhoso.
E encontraria eu um sujeito nestas circunstâncias, capaz de amar
minha filha?...
Por que não? Palmira tinha dezoito anos, era bonita e perfeita,
bem educada, inteligentezinha, e com um dote animador. Seria possível
que não houvesse por aí um rapaz pobre, naquelas condições,
que se apaixonasse por ela, encaminhando eu as coisas com certo jeito?
Pus mãos à obra: comecei a procurar o meu homem. Em breve,
porém, convenci-me de que sozinha não daria conta do recado,
e lembrei-me de pedir auxílio ao meu amigo, o Dr. César
Veloso, de quem já prometi falar.
Cumpra-se esta promessa antes de mais nada; César Veloso era então
um belo velho de cinqüenta a sessenta anos, médico, abastado,
viúvo, já sem nenhum de seus filhos, e vivendo em companhia
de uma irmã, D. Etelvina, único parente que lhe restava
e a quem ele estremecia profundamente. Foi o melhor coração
e o melhor caráter que encontrei até hoje no meu caminho.
Conheci-o, como disse, pouco depois do nascimento de Palmira, e já
desde esse tempo o estimava mais do que a meu próprio esposo, de
quem ele, só por minha causa, foi bom, leal e verdadeiro amigo.
Deu-se na minha vida e no meu coração uma coisa muito singular
a respeito desse homem: Sem nunca formular sobre ele a mais ligeira hipótese
de amor sensual, achava-me todavia tão sua amiga, amava-o tanto,
que era um verdadeiro prazer, para minha alma, senti-lo perto de mim.
Quando as desilusões do meu casamento me prostraram os sentidos
e me enegreceram a existência, foi ele o único com quem abri
o coração. Falei-lhe com toda a franqueza, queixei-me do
meu destino; disse-lhe tudo quanto eu sofria, e até, ainda hoje
me parece extraordinário! chorei em sua presença, o que,
juro pela felicidade de Palmira, seria impossível suceder com outro,
mesmo com meu marido.
Desde esse momento capital da minha vida, compreendi que era também
amada por ele como a irmã eleita por sua alma e por sua inteligência.
E fizemo-nos amigos para sempre, unificamo-nos em espírito, tornamo-nos
moralmente inseparáveis por um tácito consórcio de
absoluta confiança um pelo outro; consórcio de imperturbável
harmonia de ideais, de alta poesia e de amor imaculado e superior a todas
as misérias da carne. E esse amor essencial e puro, que nunca fora
nem de leve perturbado pelo sobressalto dos sentidos, era um canto tranqüilo
e doce, em que meu pobre espírito repousava da infernal campanha
doméstica e dos enojos do outro amor.
Mas como se poderá explicar essa minha estranha predileção
por um homem, que não era meu parente, nem meu companheiro de infância,
e quando não havia entre nós de parte a parte o menor impulso
de sexo?...
É preciso notar que eu fora sempre considerada, pelas pessoas que
me conheciam, como um caráter seco e orgulhoso. E, com efeito,
não gostei nunca de revelar, a quem quer que fosse, meus pensamentos
e meus íntimos conceitos, nem mesmo a meu marido, com o qual guardei
em todos os tempos uma reserva, que ele aliás, coitado! jamais
tivera para comigo. Posso até dizer que com Virgílio fui,
no último quartel de nossa vida de casados, mais fechada e retraída
do que com qualquer outro. No entanto, era bastante demorar-me alguns
momentos sozinha perto de César, fitá-lo e descansar por
algum tempo o olhar no seu olhar sereno, franco e bondoso, para logo me
acudir à boca tudo o que meu coração, tão
avaramente, trazia escondido e fechado para os demais homens.
Às vezes, espantava-me eu própria com semelhante fato e,
depois de lhe revelar os meus mais íntimos segredos, perguntava
a mim mesma - como e por que exercia aquele homem tão grande e
decisiva influência sobre meu espírito? Fazia então
vivos protestos de mudar de norma de conduta daí em diante. Afinal
não havia justificativa para uma distinção tão
acentuada! Chegava a parecer-me desonestidade! Mas, na primeira ocasião,
em que de novo a sós nos encontrávamos, quando dava por
mim, já o meu coração se tinha aberto por si mesmo,
e despejava-se até ao fundo em palavras de amor.
Donde vinha toda essa confiança de minha parte? donde procedia
esse poderoso e casto sentimento que a César me ligava tanto, e
que em nada me parecia com o amor que eu mantive por meu marido, nem com
o que eu sentia por meus filhos? Não atinava então com a
verdadeira causa do fenômeno e moralmente supunha-me deveras culpada.
Só muito mais tarde, continuando a estudar, no meu próprio
coração, o coração humano, pude compreender,
quando afinal o conheci de todo, que não se tratava com aquele
fato de um caso meu particular, mas de uma lei comum para a minha espécie.
Essa conclusão assustou-me profundamente e veio abalar todas as
minhas idéias aparelhadas a respeito da felicidade conjugal, e,
se ela já não chegasse muito e muito tarde, ter-me-ia feito
sem dúvida reformar o programa de vida, que eu com tanto empenho
e tanto cuidado traçara para minha filha.
Do resultado dessas minhas observações, vim a perceber que,
sendo a procriação um instinto, e sendo o amor um sentimento,
o grande mal, ou o grande erro, do matrimônio vulgar, consistia
no disparate de querer harmonizar e unir, para os mesmos fins, essas duas
coisas distintas - sensualidade e amizade - tão contrárias
entre si, e tão antipáticas e até perfeitamente incompatíveis.
Compreendi que a mulher - para procriar, precisa de um homem, de um varão,
escolhido pelos seus sentidos; e - para amar, precisa de um amigo, de
um irmão, eleito pela sua alma e pela sua inteligência. O
associado do seu corpo, em caso nenhum, pode ser o associado do seu espírito,
ou vice-versa.
Os irracionais também são, como nós, suscetíveis
de simpatia e apego de amizade, mas nunca põem esse sentimento,
que neles aliás não é tão elevado e tão
perfeito como no homem, ao serviço da sua sensualidade e do seu
destino procriador.
Compreendi que...
Mas não precipitemos os fatos da minha exposição.
Vamos por ordem.
* * *
Como ia dizendo: Logo
que me senti fraca para realizar sozinha o programa da felicidade de minha
filha, recorri naturalmente à única pessoa com quem eu podia
contar, o Dr. César. Escrevi-lhe, pedindo-lhe uma conferência
em minha casa. Ele veio no mesmo dia.
Foi uma longa prática. Referi-lhe detalhadamente as minhas apreensões
a respeito do futuro de Palmira; expus o que nesse tempo constituía
o meu cabedal de observações concernentes ao casamento,
e disse-lhe afinal qual era o meu plano resolvido. César ouviu-me,
durante todo o tempo, em silêncio, com os olhos baixos, sem desviar
um só instante a sua tenção do que eu expunha. Compreendi,
pela concentração do seu rosto, que as minhas idéias
e o meu projeto o interessavam e surpreendiam extremamente.
Quando acabei, ele tomou-me as mãos entre as suas, com um gesto
carinhoso que lhe era habitual a sós comigo; meneou a cabeça
e disse-me sorrindo que - em primeiro lugar, me fazia os seus cumprimentos
pela lucidez de coração e de inteligência que eu acabava
de patentear; depois, já em ar sério, falou da minha ilimitada
dedicação materna, e declarou, ao terminar, sorrindo de
novo, que, posto não acreditasse na eficácia do meu plano,
pois que em absoluto não acreditava na felicidade, punha-se desde
logo à minha disposição e pronto a entrar em campanha,
na qualidade de meu ajudante-de-ordens.
Rejubilei de contente. Agradeci-lhe com um abraço sincero. Dispondo
de semelhante ajudante-de-ordens, tinha certeza da vitória! César,
amoroso e dedicado como sempre fora para comigo, havia de tomar a peito
a minha causa e destruiria, com o seu valor de homem, os obstáculos
que eu não pudesse quebrar com as minhas mãos de mulher.
- Os seus serviços, meu amigo, disse-lhe eu, vão ser desde
logo necessários para uma prévia inspeção.
Inspeção rigorosa, na pessoa de quem se propuser para meu
genro. Só consentirei que se case com Palmira um rapaz perfeito,
em plena normalidade de saúde.
Está claro!
- A menor lesão, o menor vício de organismo ou de sangue,
a menor deformação física, é o bastante para
pô-lo fora de combate. Não lhe parece?
- Decerto; e desde já respondo por mim, como médico consciencioso...
disse o meu bom amigo. Mal apareça o homem, arranje, Olímpia,
um meio de pô-lo em contacto comigo, e eu me encarregarei do resto.
Desde que eu declare: "Este serve! - Este é perfeito - Este
está conforme!" pode você aceitá-lo de olhos
fechados, porque não deixarei passar gato por lebre!
Ele ficou para jantar conosco, e toda essa tarde meu coração
cantou vitorioso, como se efetivamente já tivesse segura a felicidade
de Palmira.
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