LIVRO DE UMA
SOGRA
Aluísio de Azevedo
CAPÍTULO XXIII
Ele afinal
fez-me tomar uma cadeira e assentou-se perto de mim. Nunca lhe tinha
visto a fisionomia que lhe vi nesse momento: Ela dizia ao mesmo
tempo todos os velhos, intemináveis desgostos do seu passado
ao roto e sem fundo, e todo o desespero do seu presente restrito
e sem saída. Num relance veio-me ao espírito a síntese
da sua longa existência de sessenta e tantos anos - um rosário
de lutos: Mulher, filhos e genros foram todos pouco a pouco caindo
em torno da sua velha dor sobrevivente, até que a última
da família, aquela retardatária irmã que o
estremecia, lhe fugia também agora, depois de uma tossegosa
e gemebunda existência de hética!
- Acabou-se tudo!... murmurou o infeliz, como se seguisse o rápido
vôo do meu pensamento.
Tomei-lhe as mãos.
- Não... disse em segredo, que minhas lágrimas tornavam
mais abafado e íntimo, ainda lhe resta uma amiga, uma irmã,
uma companheira...
Ele levou à boca as minhas mãos que se orvalharam
nas suas barbas úmidas de pranto.
- Mas como hei de viver agora?... prosseguiu. Como hei de viver
sozinho aqui, neste frio hospital abandonado, donde vi saírem,
um a um, para o cemitério, todos os entes que me pertenciam?...
Diga, minha amiga, diga-me como hei de suportar esta miséria?
- E cobriu o rosto com o lenço, soluçando mais forte.
- Ah destino injusto e perverso!... levar-me a morte os outros todos
e deixar-me a mim, o mais velho e o mais necessitado de morrer!
O que fico eu fazendo aqui?... O que fico fazendo?...
A sua agonia retalhava-me o coração. Chamei-lhe a
encanecida cabeça para o meu colo de amiga, e assim ficamos
longo tempo, calados ambos.
As moscas, acordadas essa noite com a presença de um cadáver
na casa, zumbiam alegres no silêncio do quarto.
César desviou-se do meu colo e deixou-se ficar cabisbaixo,
com as suas mãos nas minhas. Compreendi que nesse instante
o meu pensamento ia caminhando ao lado do dele, em silêncio,
como dois velhos e tristes companheiros inseparáveis; e por
fim o nosso pensamento foi se derretendo em palavras, apenas balbuciadas.
César começou a falar em voz muito baixa, soturnamente,
como se temesse acordar a irmã, que dormia lá na sala,
no seu leito frio. Falava em segredo, com o rosto quase unido ao
meu, numa surda conspiração contra a vida. Era o resíduo
do seu pobre coração, já de muito tempo despedaçado,
que vinha agora assim diluído pelas lágrimas.
E ele murmurou, como num sonho:
- Ultimamente, minha Olímpia, uma estranha amargura me persegue...
a nosso respeito... uma dor secreta, penosa como um arrependimento
tardio... alguma coisa da mágoa de não ter colhido
a felicidade, no bom momento em que ela nos passou cantando diante
dos olhos... um irremissível desgosto de não ter sido
em tempo o teu marido ou me ter feito o teu amante...
Abaixei os olhos. Era a primeira vez que falávamos abertamente
do nosso velho amor.
César prosseguiu no mesmo tom: - Sim, sim, minha amiga...
nós nascemos um para o outro!... Foi uma tremenda infelicidade
não nos termos encontrado antes dos nossos loucos casamentos...
ou não termos então rompido com todas as conveniências
e com todas as convenções - para nos unirmos para
sempre; para nos pertencermos, exclusivamente, sem o menor desvio
da nossa ternura; e para que enfim pudéssemos ser agora,
minha amada, inseparáveis companheiros neste fim de vida!...
- Não... respondi, não meu querido amigo, não
seria a mesma coisa: não seríamos ainda hoje moralmente
e virtualmente consorciados como somos. O casamento ou a concubinagem
desvirtuariam o espírito do nosso amor, tão puro e
tão elevado... O matrimônio carnal é incompatível
com a sagrada amizade, com a verdadeira dedicação,
porque vive dos sentidos e não do sentimento... Se tivéramos
algum dia unido os nossos corpos, as nossas almas estariam hoje
separadas! Se algum dia tivéramos tido em nosso consórcio,
que foi tão claro e tão casto, outros laços
que não o desta profunda e delicada afeição
que nos irmana; hoje, que somos velhos ambos e pois inúteis
para a sensualidade, não teríamos - tu em mim a tua
consoladora amiga; eu em ti o meu derradeiro amor...
César encarou-me surpreso:
Como assim? Pois eu negava o amor dos sentidos ligados ao sentimento
do amor?...
- Certamente. Na língua não há palavras para
exprimir essas duas coisas tão diversas e até tão
opostas: - o amor produzido pelo instinto sensual e o amor produzido
pela simpatia e atração moral de dois espíritos
que se procuram e se casam. O grande erro do casamento vulgar o
que o torna insuportável, é pretender aliar o instinto
da procriação com o sentimento do amor ou da amizade,
que nada tem a ver com ele e até o repele. O irracional também
é como o homem suscetível de apego de amizade, nunca
porém se preocupa com isso, quando trata de cumprir o seu
mister procriador. O homem não deve ter comunicação
carnal com a mulher que ama!
César mostrava-se cada vez mais surpreso.
E tua filha!... interpelou ele; tua filha não ama
e não é amada pelo marido?...
- Ama sensualmente, respondi; mas, para o outro amor, para este
que nos ligou até hoje, ela está perfeitamente incompatibilizada
com ele. O marido não pode ser nunca o amigo. O esposo do
corpo não pode ser ao mesmo tempo o esposo da alma; e nisto
estava a razão de ser e a grande força dos confessores
primitivos. Mas o padre não era amigo sincero e nem foi leal
e foi casto; daí a causa única por que ele não
persistiu e não ficou para sempre nos casais junto à
mulher e ao lado do marido.
César meditou um instante, e disse depois:
- Tens razão talvez... O que não impede que, apesar
de nos amarmos sempre e apesar de termos nascido um para o outro,
e apesar dos meus sessenta e cinco anos, e apesar de que sejas agora
uma avó de cabelos brancos, não possamos viver juntos,
como eu vivi até hoje com minha irmã, porque não
somos casados... E, se aqui te detenho comigo, assim neste gabinete,
se te cingi ao meu peito e te guardei um instante nos meus braços
já trêmulos, é porque há aí a
pequena distância de nós um cadáver que tudo
justifica; ao contrário nem isso mesmo seria razoável!...
Vê tu que escravidão a nossa!]
É a convenção social, meu amigo...
- Oh! o código social! Sofram-se tudo; suportem-se todas
as misérias, mas não se falte nunca aos seus preceitos!
Mas, antes de aparecer esse mesquinho código arranjado pelo
homem, já um outro existia, imposto pela natureza, muito
mais sábio, mais justo e mais generoso; e esse mesmo homem
que reclama sob pena dos maiores castigos, o bom cumprimento do
seu código, calça aos pés, a cada momento,
as leis do outro, sem receber por isso, dos seus semelhantes, a
menor punição! De sorte que eu, tendo uma amiga a
quem estremeço, com quem poderia arrastar menos tristemente
o sudário da minha velhice, não hei de valer-me da
companhia dela, nem usar livremente da sua casta amizade, porque
o tal código social não me permite! É caso
para lamentar não seres tu homem, ou não ser eu mulher!
- Não, César, nada aproveitaríamos com ser
do mesmo sexo... Nunca houve equilíbrio perfeito de qualquer
amor senão entre pessoas de sexo diferente. O amor que te
tenho, apesar de ideal, nunca poderia eu senti-lo por outra mulher,
fosse esta minha mãe, minha irmã ou minha filha...
Mas, meu Deus, isso é a negação das
tuas teorias sobre o casamento...
Não... Por quê?...
- Segundo o que acabas de dizer, duas pessoas de sexo diferente
podem então, sem incompatibilidade, viver eternamente juntas...
- Decerto, desde que se amem castamente como nós dois nos
amamos, e não tenham entre si a menor aproximação
carnal. O que incompatibiliza moralmente os cônjuges é
o amor físico. Se dois amigos do sexo diferente pudessem,
na plenitude da mocidade, realizar um consórcio naquelas
condições, e vivessem juntos sem a menor preocupação
dos sentidos, seriam eternamente felizes e cada vez mais se amariam,
porque para eles a convivência constante, ao contrário
do que sucede aos que se unem pelo sexo, longe de enfraquecer-lhes
o amor, havia de ir cristalizando-o lentamente, até fazê-lo
atingir o supremo estado de pureza, inquebrantável e límpido
como um diamante. Seria esse o único casamento eterno!
E os filhos?
- Que filhos? Acaso figuraste semelhante hipótese, quando
há vinte anos te uniste eternamente a essa tua pobre irmã,
que acaba de morrer, deixando-te a alma viúva do seu amor?...
- Eu a amava, justamente porque nos amos. E assim deve ser entre
todos os homens e todas as mulheres que se amam.
- Oh! seria isso a extinção da espécie... a
não ser que, em tal casamento, a cada um dos consortes assistisse
o direito de ir buscar fora do casal, onde melhor o levassem os
seus apetites carnais, a satisfação do instinto procriador!...
- E por que não? O instinto materialíssimo da procriação
nada tem que ver com o amor, isto é, com o verdadeiro sentimento
de humanidade elevado ao seu mais alto grau de comoção.
A fêmea é para o macho - produzem; a mulher é
para o homem - amam-se. Entre os que se ajuntam instintivamente,
não pode existir o amor, só há sensualidade!
É o caso de minha filha e meu genro; é o contrário
do nosso caso!
Então, para que fazer questão de sexo?...
- Porque, repito, entre duas pessoas do mesmo sexo, a não
ser no caso particular do amor materno, que é um desdobramento
do amor-próprio, só pode haver ligeiras relações
de estima e simpatia. Amor, verdadeiramente amor, só pode
existir entre o homem e a mulher; só entre estes se fará
inteira confiança de parte a parte, inteiro equilíbrio
de espíritos e de corações. A sexualidade física
refletindo-se no moral é tão poderosa que se estende
até aos pais com relação aos próprios
filhos, ou vice-versa. A filha ama sempre mais o pai do que a mãe,
e o filho mais a mãe do que o pai. Pode-se afirmar que não
é só o corpo que tem sexo, a alma também o
tem, e só a alma de uma mulher pode compreender a alma de
um homem e só por esta pode ser compreendida. Há muita
coisa que um homem não confia ao espírito de outro
homem, nem uma mulher ao de outra mulher. Eu, por exemplo, em caso
nenhum teria jamais revelado a outra pessoa do meu sexo tudo o que
até hoje te relatei da minha vida íntima e dos meus
íntimos pensamentos; e tu, meu velho amigo, juro que também
não serias capaz nunca de pôr a alma nua defronte de
nenhum homem, como tantas e tantas vezes a exibiste defronte dos
meus olhos. Por quê? porque sempre nos amamos sinceramente,
e muito, tanto quanto é possível, sem nunca todavia
depravarmos o nosso amor humano com a rasteira preocupação
de nossos instintos bestiais! Se o tivéramos feito, não
te poderia eu falar agora deste modo, nem tu me ouvirias a sério
e de boa-fé, como me estás ouvindo: Rir-nos-íamos
um do outro; achar-nos-íamos ridículos!... Os indivíduos,
sujeitados e unidos pela sensualidade, quando se acham a sós
os dois, só podem falar com empenho dos interesses do próprio
instinto que os uniu, seja dos interesses do gozo sexual, ou seja
dos interesses dos filhos; no mais, as poucas e frias palavras que
trocam entre si são concernentes a coisas chatas, caseiras
e materiais como o mesmo amor que os liga. E nós, desde o
primeiro dia em que nos conhecemos até hoje, conservamos
um para o outro a mesma poesia do amor?
Calei-me, e só então notamos que o dia acabava de
invadir o gabinete por uma larga janela envidraçada.
César ergueu-se, e eu também. Ele, lívido com
aquela noite de insônia e de lágrimas, parecia um espetro.
Adiantou-se lentamente para mim, estendendo-me as mãos trêmulas.
- Se assim é... disse-me comovido e suplicante; não
nos separemos mais!... Vivamos juntos este resto de vida, unidos
por este elevado amor de que me falas!... Posto nossas almas há
muito se esposaram, casemo-nos, já que assim o quer a sociedade;
e que eu te possa ter a meu lado, e que eu te fale e te veja todos
os dias, a qualquer instante; e que eu possa contar contigo, minha
amiga, perto do meu leito, quando este pobre corpo morrer de todo!
Abaixei a cabeça.
Depois de longa pausa, tartamudeei muito triste:
- Ninguém nos compreenderia... Seríamos cobertos de
ridículo, por todos, por minha família, até
por minha filha!
- Não! insistiu ele. Não acontecerá assim:
Já todos se habituaram a ver em ti um espírito superior,
emancipado de preconceitos mesquinhos. Casar-nos-emos para poder
viver perto um do outro, mas separados de corpo, como dois irmãos.
Lembras-te de que hoje tua família é o meu único
herdeiro e eu preciso justificar publicamente esse fato. Não
me abandones aqui com as minhas saudades, sem ter eu um coração
onde aqueça esta velha alma tua amiga! Casando-me contigo,
minha querida irmã, não é só uma companhia
que trarei para meu lado; Palmira será também minha
filha e Leandro será meu filho... E eu terei o direito de
amá-los e de importuná-los um pouco com as minhas
rabugices de velho... E terei, para se rir de mim, para puxar-me
as barbas e trepar-me pelas pernas, o teu netinho, Olímpia!
Ele, o diabrete, vendo-me todos os dias a teu lado e habituando-se
a brincar comigo, acabará por amar-me, como se com efeito
fosse neto de nós dois... E só a idéia de que
lhe ouvirei ainda chamar-me "Vovô"! só com
esta idéia... vês tu, minha filha?... correm-me já
as lágrimas pelo rosto!
Aproximei-me dele, para cingi-lo nos meus braços.
- Descansa, respondi-lhe. Não ficarás abandonado,
meu bom amigo! Mesmo nestes pesados dias de nojo serei desde já
a tua companheira. Logo mais voltarei com Palmira, para passarmos
três dias contigo. Leandro ficará lá em casa
durante esse tempo.
César amparou-se em mim, soluçando. Entre as suas
lágrimas só uma palavra compreendi das que me disse:
"Obrigado! Obrigado!" Depois tomou-me a cabeça
entre as mãos e beijou-me na testa. Eu lhe respondi com um
beijo igual.
Foi o primeiro beijo que trocamos em toda a nossa longa vida de
amor.
* * *
Ao sair do gabinete,
dirigi-me logo para a sala em que estava o cadáver. Em volta
dele pareceu-me tudo ainda mais triste com aquela deslavada luz
do amanhecer. As raras pessoas que ficaram a guardar a morta dormiam
nas suas cadeiras, com a cabeça pendida sobre o peito. As
velas choravam sempre, e mais sinistras achei agora as suas lágrimas.
O corpo, já completamente rijo, fazia mais frio o ambiente,
e um ligeiro fedor úmido evolava-se dele.
CAPÍTULO XXIV
Quando, pela
manhã, cheguei à casa, sentia-me muito mal disposta.
Era sem dúvida a reação de todas aquelas canseiras
acumuladas ultimamente. - Mas tudo isso passaria com algumas horas
de absoluto repouso. - Recolhi-me ao quarto, quase sem forças
para despir-me. Despedi a criada, recomendando-lhe que não
me chamasse enquanto eu estivesse na cama.
Deitei-me, e comecei a pensar, à espera do sono; teria eu
ânimo de realizar a boa ação que vinha de prometer
ao meu amigo?... Teria a coragem de afrontar com o ridículo,
que porventura iria despertar aquele casamento feito entre dois
velhos?... Compreenderiam essa ligação moral; esse
esposório de duas almas amigas, que se estremecem e se buscam,
através de uma existência inteira; e afinal se abraçam,
não para a satisfação do amor, mas para afugentar
o medo que, separadas e sozinhas, sentiria cada uma no frio resto
do seu caminho já ensombrado pela morte?...
Não, com certeza, ninguém compreenderia! Não
obstante, esse casamento, singular embora, era perfeitamente lógico
e era essencialmente humano! Em que e por que o amor e os reclamos
da alma valem e merecem menos que as sensuais necessidades do corpo?...
Acaso a solidariedade da carne, instinto de todo animal, é
mais digna que a solidariedade do espírito, privilégio
exclusivo do homem?... Pois tão facilmente aceitavam todos
e compreendiam a conveniência de um companheiro para os nosso
sentidos inconscientes, e não compreenderiam a razão
de um companheiro para o nosso espírito, que é a parte
racional do ser humano, o que o sobreleva dos brutos e o que o aproxima
de Deus?...
Não, ninguém compreenderia!... Entretanto, aquele
casamento seria de grande utilidade, nem só para o meu velho
amigo, como para mim própria. Cansada já, precisava
ter mais perto o meu auxiliar na obra da felicidade matrimonial
de Palmira; precisava de um substituto imediato para as faltas,
que eu seguro iria fazer agora no meu posto de vigia. De resto,
e talvez principalmente, a expectativa de ter César a meu
lado neste último quartel da vida, enchia-me o coração
de uma inefável esperança de completa felicidade moral.
Mas, que diria meu genro?... que pensaria minha filha?...
Oh! para esses ficaria tudo, mais tarde, explicado neste manuscrito,
que em tempo lhes chegaria às mãos! E, quanto ao mais
- já muito fazia eu em dar-lhe a pública satisfação
do casamento!
Sim! estava resolvido - César viria acabar seus dias a meu
lado!
E comecei a pensar na disposição da casa para acomodá-lo
convenientemente, e até em nosso futuro modo de viver.
Havia um aposento magnífico para ele, e o meu quarto de trabalho,
que era vasto, passaria a ser comum entre nós dois. Seria
o nosso ponto principal de convivência: Enquanto César
aí estivesse ocupado lá com os seus trabalhos, estaria
eu costurando, lendo ou escrevendo; e isso não impediria
que minha filha continuasse a passar nessa mesma sala, as horas
que costumava passar comigo.
E via já o meu velho camarada, ao almoço e ao jantar,
assentado ao lado de meu neto, a rirem-se os dois um com o outro,
a brincarem, como duas crianças. E via-o depois passeando
conosco, nas belas manhãs de Petrópolis, levando-me
pelo braço, feliz com aquela família toda inteira
e completa, que eu lhe dava, como um presente de bodas, para consolação
do resto da sua existência. E via-o à noite, na sala,
de cabeça coberta e lenço ao pescoço, jogando
comigo antes do chá, enquanto Palmira ao piano acompanhava
o enamorado e choroso bandolim do marido. E via-o afinal estendido
no seu leito extremo, já prestes a deixar a vida, guardando
as minhas mãos nas suas, e entregando-me o último
suspiro da sua alma irmã da minha, tão generosa, tão
adorável e tão pura.
Mas o sono não vinha e a minha indisposição
crescia vivamente. Dolorosos calefrios obrigavam-me a encolher-me
toda debaixo dos cobertores. Sentia doer-me o lado da cintura, a
boca seca, o estômago ansiado. Compreendi que não podia
dormir. Tateei o tímpano, vibrei e pedi à criada uma
chávena de chá bem quente. Ao tomar os primeiros goles,
vomitei logo, e senti dores no estômago.
Quando minha filha, alvoroçada com a notícia do meu
incômodo, me procurou aflita, eu ardia em febre e não
podia conter os gemidos. Meu genro veio também pouco depois,
todo de luto, já preparado para o enterro de D. Etelvina,
que seria à tarde. Apesar do sofrimento, falei-lhes no abandono
em que ia ficar o nosso Dr. César e no estado de desconsolo
em que eu o deixara ao lado do cadáver da irmã, último
parente que lhe fugia para debaixo da terra.
Leandro prometeu-me que lhe faria uma visita logo em seguida ao
almoço e ficaria com ele até as horas do saimento.
Pedi-lhe mais que depois do enterro, o não deixasse sozinho
naquele casarão triste e solitário; que, em meu nome,
o persuadisse de vir para junto de nós, ao menos por esses
primeiros dias; e lhe dissesse que eu não podia ir lá
com Palmira, como prometera e tencionava, mas que viesse ele; entregasse
a casa aos serventes e trouxesse de companhia o seu velho criado
Antônio. Era isso o bastante.
* * *
Recebidas estas
disposições, Leandro saiu do quarto, e minha filha
começou a tratar de mim, convencida, como eu, de que era
passageiro o mal. Não valia a pena chamar médico;
César viria à tarde ou à noite e daria as providências
necessárias. A despeito da minha crescente indisposição,
perguntei a Palmira que tal lhe parecia a idéia de convidarmos
o meu velho amigo para ficar morando indefinidamente conosco. Ela
não se abalou com o alvitre, como esperava eu.
- Ali, disse, todos queriam e estimavam tanto o Dr. César,
que este era para a família menos um estranho que um parente.
Recomendei-lhe então falasse a esse respeito com Leandro
e desse-me depois sincera conta da impressão que semelhante
idéia produzisse no ânimo dele.
- Ora! respondeu minha filha. Leandro é deveras amigo do
velho César. Mamãe bem sabe que ele o estima e respeita
como a um pai! Há de sem dúvida ficar satisfeito com
a notícia...
Sim, mas fala-lhe, porque talvez não fiquem as coisas
neste ponto.
O pior é que o meu padecimento aumentava, e do meio para
o fim do dia, tão mal me achei e tão pouco acordo
dei de mim, que não posso agora render cópia exata
do que se passou. Caí em modorra de febre; creio que delirei.
Sei apenas que César veio logo ao fechar da noite; que me
receitou; deu-me a tomar os remédios e não me abandonou
até o momento em que, já tarde, Palmira o constrangeu
a recolher-se ao quarto que lhe destinávamos.
E eu, que o tinha chamado para aliviá-lo das suas penas,
recebia agora dele os desvelos de amigo e os cuidados de médico,
e de enfermeiro. O que supúnhamos febre passageira era nada
menos que uma inflamação de fígado. A moléstia
caracterizou-se nessa mesma noite com a alteração
na glândula, e o Dr. César fez logo o seu diagnóstico:
"Hepatite intersticial, proveniente de impaludismo."
E tive de guardar o leito no dia seguinte e nos outros imediatos,
mostrando-se César ao meu lado de uma solicitude sem igual.
* * *
Mas, ao fim
da primeira semana, reconhecíamos já que a nossa posição
era falsa. Desde que constou a minha enfermidade, começaram
as visitas, algumas de mera cerimônia, outras de verdadeira
estima; e o meu pobre amigo confessava-se constrangido ali, à
vista dos estranhos. Além disso, era natural que ele, sem
estar de todo transferido lá para casa, sentisse falta dos
seus velhos hábitos; homem, como sempre foi, dado metodicamente
a longos estudos e a trabalhos científicos. Não me
animava contudo a propor-lhe a mudança absoluta, sem a justificativa
do casamento. E a situação, dentro em pouco, complicou-se
ainda mais, pela contingência em que me vi de ter, para segurança
da cura, de aproveitar, ainda no primeiro período da moléstia,
a estação das águas de Caxambu.
Foi assim que se resolveu em família, e logo se apressou,
o nosso singular casamento.
Como ainda não podia eu sair à rua, tivemos de solicitar
uma licença da Igreja para realizá-lo em casa. Não
foi difícil, e a formalidade religiosa durou pouco tempo,
sem grande escândalo na vizinhança.
As pessoas de nossa amizade receberam a comunicação
do fato nos seguintes termos:
"Olímpia
da Câmara e o Dr. César Veloso participam a V. Ex.a
que contraíram o direito de passar junto a sua velhice, aparentando-se
legalmente pelos vínculos conjugais."
Não sei
se a novidade foi muito comentada lá fora, nos vários
grupos das nossas relações; não mo disseram,
nem eu tampouco a ninguém o perguntei. Quanto a lá
por casa - Ah! isso foi diferente: O senhor meu genro não
procurou sequer disfarçar o riso que o fato lhe provocava!
O leviano, sem atingir o alcance do meu proceder, só nele
via o ridículo casamento de dois velhos. Perdoei-lhe, não
obstante, ainda essa descortesia, porque ela não era obra
da maldade do seu coração, mas só da sua inferioridade
moral.
Palmira, essa não riu logo, pelo menos em minha presença;
ficou a cismar, sem ânimo de interpelar-me, e daí por
diante evitava até de entrar em conversa comigo sobre este
assunto. Mas, com César, já não foi tão
generosa, porque um dia a surpreendi a faceciar contra o padrasto
a respeito do caso. Ele, não sei o que tinha dito, que ela
com aqueles seus modos de rapariga travessa, pois nunca os perdeu
de todo, tomou-lhe as lunetas, armou-as no nariz e começou
a arremedar os meus gestos e a minha voz, exclamando comicamente,
com o dedo no ar e a cabecinha empertigada:
- Casaram-se?... Está muito bem! mas não consinto
que fiquem juntos muitos dias seguidos... Não! não!
a felicidade conjugal, meu caro Dr. César, é nisto
que se baseia! E se duvida, vou já buscar-lhe a Bíblia!...
César pôs-se a rir, e eu não pude deixar de
fazer o mesmo. Ela, ao dar comigo, que a espreitava, ficou desapontada
e corrida; desprendeu as lunetas do nariz, entregou-as ao dono;
e o diabrete veio correndo atirar-me ao pescoço e pedir-me
com seus beijos o beijo do meu perdão.
* * *
Todavia, eu
continuava doente. Realizou-se a mudança definitiva de César
lá para casa, e daí a dois dias arribamos todos para
Caxambu. Fui bem prostrada.
No fim de um mês de águas estava de pé, mas
compreendi que me havia empolgado a moléstia que terá
de matar-me. Alguma coisa se modificou no meu ser físico,
alguma coisa em mim se quebrou para sempre. Reconheci que um novo
marco divisório se firmara na minha existência, separando
o último período vivido de um novo período
que começava. Este deve ser naturalmente o último,
porque em minha família nunca vamos além dos sessenta
anos.
Agora, porém, que me importava a idéia de morrer,
se estava tudo bem disposto para garantir a felicidade dos entres
queridos que eu deixava no mundo?
Depois de três meses de Caxambu voltamos à casa de
Laranjeiras, e de novo entrou definitivamente nos seus eixos a nossa
vida doméstica, mais completa agora com a presença
de César. Pouco a pouco, à vista da atitude que guardávamos,
eu e meu esposo, Leandro foi compreendendo a nossa verdadeira situação.
Deixou de rir; e, tanto ele como Palmira, começaram a envolver
o meu venerável companheiro na mesma atmosfera de carinhoso
respeito em que ela sempre me teve e em que aquele ultimamente me
firmava.
A minha aliança com César era a de dois velhos irmãos
amoráveis; e o exemplo do nosso mútuo respeito, da
inalterável delicadeza de palavras e maneiras que mantínhamos
um pelo outro, e principalmente a ação constante daquela
nossa profunda amizade, casta, sagrada e puramente espiritual, não
tardaram a dar de si os frutos que eu pressupunha, refletindo-se
diretamente no ânimo de minha filha e de meu genro. Foi para
eles tão eficaz e poderoso o efeito desse exemplo de amor
impoluto, que no fim de alguns meses se tornava de todo desnecessária
a minha intervenção para obrigá-los a cumprir
o regime de vida que eu lhes impusera, sem haver, não obstante,
desfalecimento de amor sensual por parte de nenhum dos dois. Ou
porque tivessem afinal se habituado às periódicas
separações de leito, ou porque compreendessem já
o seu valor e eficácia; ou fosse enfim que o alto exemplo
da nossa calma ternura lhes apurasse o espírito e lhes aperfeiçoasse
o coração, o certo é que eles iam agora, sem
esforço, naturalmente, vivendo como lhes ensinara eu a viver,
e confessavam-se felizes; e, pela primeira vez, mostravam-se gratos
ao meu maternal desvelo.
Com a convivência Leandro foi cada vez mais se fazendo filho
de César; afinal, muitas vezes, nos seus regulares afastamentos
do tálamo, meu genro dormia no mesmo quarto com o padrastro,
e Palmira e meu neto dormiam comigo. E iam-se assim os dias passando,
sem a mais ligeira nuvem de desarmonia, sem o menor atrito de caracteres,
nem sombras de descontentamento, porque, ao contrário do
que em geral sucede nas famílias ainda mesmo pouco numerosas,
não formávamos pequenos grupos conspiradores; não
havia segredos entre todos nós, nem por conseguinte podia
haver ressentimento.
A liberdade moral e física de cada um era completa, sem despertar
nos outros o vislumbre de uma ofensiva suspeita. Leandro entrava
e saía de nossa casa livremente; ora dormia, ora não
dormia perto da mulher, e deixava de aparecer-lhe nos dias que lhe
convinha, sem que isso nela despertasse ciúmes ou enfados
de despeito.
Sem o preclaro exemplo da minha comovida e amorosa castidade, não
sei se poderia, apesar do empenho que pus em dirigir a felicidade
de Palmira, ter evitado entre ela e o marido as ridículas
contendas e as enervantes misérias do matrimônio. E
com efeito - que bela lição de amor e que virtuoso
exemplo de ventura não era esse casal de velhos, assim vivendo
unidos só pelo coração e pelo espírito,
sem jamais se fatigarem da presença um do outro, sem nunca
precisar nenhum dos dois fingir nos seus sorrisos e nas suas palavras
de ternura!... Ah! tínhamos sempre o que conversar, porque
bem pouco falávamos de nós mesmos, o que equivale
a falar dos nossos instintos ou dos nossos interesses materiais.
Podíamos penetrar desassombradamente em todos os assuntos,
discutir os pontos mais elevados da moral e da razão porque
não nos tínhamos jamais incompatibilizado intelectualmente
pelas grosseiras animalidades do corpo. Podíamos olhar-nos
bem de face um para o outro, sem corar ou sem rir, porque éramos
igualmente puros aos nossos olhos, porque nunca entre nós
esvoaçou a asa do mais fugitivo menoscabo, e porque tínhamos
sido sempre, na mocidade, e éramos e continuávamos
a sê-lo na velhice, os mesmos amigos castos, os mesmos irmãos
amorosos, cujas idéias e cujas revelações de
gestos e palavras jamais foram postas entre nós ao serviço
da luxúria e das vergonhosas e inconfessáveis imundícias
da carne!
Oh! juro que eu era, como esposa, ainda mais feliz que minha filha,
para cuja felicidade trabalhei eficazmente durante toda a minha
vida de mulher.
Sim, fui e sou feliz, apesar da moléstia que me vai minando
a existência. Sou agora, neste momento em que escrevo estas
palavras, a mais venturosa das mães, a mais enternecida das
avós e a mais bem-aventurada das esposas. Enquanto escrevo
isto, sinto perto, bem perto de mim, o meu amigo amado, que aí
está a dois passos, descansando numa poltrona, a fumar o
seu charuto, enquanto lê um jornal. Ouço-lhe com volúpia
o fraco e curto resfolegar de velho, afinado pela minha respiração
de enferma e pela débil respiração do meu netinho.
Sinto, pensando nisto, invadirem minha alma a paz e o amor que cercam
os meus gemidos e os meus cabelos brancos... Sei que Palmira é
feliz e sei que ela me ama; sei que meu genro me fará justiça
e me amará um dia tanto quanto minha filha; sei que morrerei
abençoada por eles e...
* * *
Mas não
posso continuar a escrever: César acaba de levantar-se e
vir ter comigo. Tomou-me a mão esquerda e disse-me com autoridade
de médico:
- Bem! por hoje basta! Qualquer abuso de trabalho, minha amiga,
pode prostrar-te de cama... Vamos antes dar um passeio pela chácara...
A tarde está magnífica!
CAPÍTULO XXV
São passados
nada menos de um ano e dois meses depois que escrevi as últimas
palavras que aí ficam para trás; só agora pude
voltar ao meu manuscrito e talvez, quem sabe? para me despedir dele,
porque é já com bastante custo que ainda lanço
no papel estas linhas, trêmulas e pálidas como a própria
mão que as traça.
Como estou desfeita e abatida!
Depois das enganadoras melhoras granjeadas com os ares e águas
de Caxambu, o mal acordou de novo, para seguir vitoriosamente o
seu negro curso. O meu terrível fígado, apesar dos
cuidados médicos, aumentou sempre durante o segundo período
da moléstia; e agora, já no terceiro, sinto que me
matará este depauperamento geral de forças e esta
cruel ascite, que me dá o absurdo aspecto de uma tísica
em último grau e grávida.
Todavia, durante esse tempo fizemos uma excursão pela Europa;
já de volta ao Rio de Janeiro, operei a minha hidropsia abdominal,
e só hoje consigo, ainda sem deixar a cama, tentar sobre
a mesa de cabeceira esta página difícil... Ai! dói-me
todo o lado direito; doem-me os pulmões e sinto falta de
ar!
Mas é preciso arrastar-me até ao fim das minhas revelações.
Vamos: Palmira está pejada de novo; o marido, sem que ninguém
lhe falasse nisso, declarou já que iria aos Estados Unidos
durante o resguardo puerperal. Recomendei-lhe que não deixasse
de visitar Salt Lake City, capital do território de Utah
e procurasse, como o Afonso Celso, conversar com os prosélitos
e sectários de José Smith, patriarca dos mórmons.
A convicção filosófica dessa tribo de homens
fortes pode preparar-lhe o espírito para a metade da existência
que lhe falta viver ainda com a mulher.
Meu esposo goza da melhor saúde que é dado gozar a
um velho, e seria completamente feliz se não foram os meus
padecimentos. Creio que só aos seus desvelos de amigo e de
médico, tenho ainda conseguido viver; pelo menos...
Ai! senti agora mesmo nos pulmões uma dor aguda! Não
posso continuar a escrever... Bem me dizia César que seria
imprudência dar-me a este trabalho...
* * *
E terminava
aqui o curioso manuscrito que Leandro me deu para ler na sua pitoresca
vivenda da Tijuca. As últimas páginas não pareciam
escritas pelo mesmo punho que traçara as primeiras com letra
tão firme e corrente. As frases finais eram quase ininteligíveis.
Devorei-o em duas secções: uma à noite, antes
de dormir, até às duas horas da madrugada seguinte,
e a outra entre o almoço e o jantar desse mesmo dia. Mal
o terminei, corri ao meu amigo para pedir-lhe os pormenores da morte
dessa inteligente e singular senhora, a quem tão mal julgara
eu até aí e por quem, depois daquela leitura, sentia
a mais profunda admiração e o mais enternecido respeito;
e eis em substância o que me narrou Leandro:
D. Olímpia, depois que interrompeu com um gemido aquela sua
página interminada, nunca mais levantou a cabeça dos
travesseiros, vindo a falecer da moléstia que a prostrava.
Durou muitos dias a sua agonia mortal. Durante esse tempo, César
fez todos os milagres da dedicação e do amor para
salvá-la. Jamais amante nenhum foi tão extremoso e
digno desse nome; nem jamais noivo de vinte anos chorou com tamanha
paixão o desviver da noiva virginal e formosa.
A casta companheira da sua velhice morreu-lhe nos braços
e recebeu o seu beijo derradeiro entre as lágrimas dos filhos.
Poucos momentos antes de expirar, chamou estes dois para bem junto
dela e, tomando uma das mãos de Leandro, e tomando uma das
mãos de Palmira, falou-lhes com a flébil sombra de
voz que ainda lhe restava:
- Logo que eu feche os olhos, disse-lhes compassadamente, abram
aquela gaveta da minha secretária, cuja chave está
debaixo deste travesseiro, e tirem de lá o manuscrito que
fui escrevendo depois que Palmira se casou. Encontrarão aí
a justificação plena de todos os meus atos e de todas
as minhas palavras. Foi por amor de ti, minha filha, que concebi
aquelas idéias, e foi para ti, meu genro, que as escrevi.
Leiam-no ambos com atenção e procurem seguir à
risca os preceitos que lá se acham estabelecidos, porque
essa é a minha derradeira e única vontade, ao deixar
este mundo. Se o fizerem, hão de ser eternamente felizes
como animais humanos: terão a felicidade material em que
se funda a vida orgânica da nossa espécie; mas, se
quiserem desfrutar a outra felicidade, a melhor, a mais alta e mais
perfeita; essa, que nenhum dos dois conhece ainda; essa, que gozei
longe e ao lado deste meu atual esposo; essa, em que se baseia e
garante a vida moral - tenha cada um de vocês dois o seu amigo,
o amado do seu espírito, o eleito da sua inteligência,
porque todo o homem, como toda a mulher, precisa tanto de um companheiro
para a sua carne, como de um companheiro para a sua alma! A vida
é o amor, e o amor não é só a procriação.
Cristo não deixou filhos, mas a semente de seu amor vive
e frutifica até hoje no coração dos homens...
É possível que a ideal melancolia do seu beijo maculado,
chorando eternamente através dos séculos, secasse
muitos ventres, esterilizasse muitos homens, mas fecundou de imorredoura
ternura muitos e muitos corações!... A carne é
egoísta - temam o despotismo da carne! A carne é irmã
degenerada - é o Caim da alma! Afastem um do outro esses
dois irmãos irreconciliáveis, para que o ideal não
caia assassinado pela besta! Vá cada um de vocês dois,
meus filhos, buscar o esposo da sua alma, fora e bem longe do leito
matrimonial, com os olhos bem limpos de luxúria, com a boca
despreocupada de beijos terrenos, com o sangue tranqüilo e
o corpo deslodado das lubrificações carnais! Minha
filha - toma um amante - para teu espírito! Meu filho - elege
uma amiga - para o teu coração de homem!
E calou-se.
Foram estas as suas últimas palavras. Depois de balbuciá-las,
deixou pender a cabeça sobre o colo do esposo, e morreu sem
um gemido.
*
* *
Livro de uma Sogra, de Aluísio de Azevedo
Fonte:
AZEVEDO, Aluísio de. Livro de uma Sogra. Rio de Janeiro :
Ediouro. (Coleção Prestígio)
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado
por:
Voluntário (preferiu manter-se incógnito)
Este material
pode ser redistribuído livremente, desde que não seja
alterado, e que as informações acima sejam mantidas.
Para maiores informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.
Estamos em busca
de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter
este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um
e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso é
possível.
|