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LIVRO DE UMA SOGRA
Aluísio de Azevedo
 


CAPÍTULO XXIII

Ele afinal fez-me tomar uma cadeira e assentou-se perto de mim. Nunca lhe tinha visto a fisionomia que lhe vi nesse momento: Ela dizia ao mesmo tempo todos os velhos, intemináveis desgostos do seu passado ao roto e sem fundo, e todo o desespero do seu presente restrito e sem saída. Num relance veio-me ao espírito a síntese da sua longa existência de sessenta e tantos anos - um rosário de lutos: Mulher, filhos e genros foram todos pouco a pouco caindo em torno da sua velha dor sobrevivente, até que a última da família, aquela retardatária irmã que o estremecia, lhe fugia também agora, depois de uma tossegosa e gemebunda existência de hética!
- Acabou-se tudo!... murmurou o infeliz, como se seguisse o rápido vôo do meu pensamento.
Tomei-lhe as mãos.
- Não... disse em segredo, que minhas lágrimas tornavam mais abafado e íntimo, ainda lhe resta uma amiga, uma irmã, uma companheira...
Ele levou à boca as minhas mãos que se orvalharam nas suas barbas úmidas de pranto.
- Mas como hei de viver agora?... prosseguiu. Como hei de viver sozinho aqui, neste frio hospital abandonado, donde vi saírem, um a um, para o cemitério, todos os entes que me pertenciam?... Diga, minha amiga, diga-me como hei de suportar esta miséria? - E cobriu o rosto com o lenço, soluçando mais forte. - Ah destino injusto e perverso!... levar-me a morte os outros todos e deixar-me a mim, o mais velho e o mais necessitado de morrer! O que fico eu fazendo aqui?... O que fico fazendo?...
A sua agonia retalhava-me o coração. Chamei-lhe a encanecida cabeça para o meu colo de amiga, e assim ficamos longo tempo, calados ambos.
As moscas, acordadas essa noite com a presença de um cadáver na casa, zumbiam alegres no silêncio do quarto.
César desviou-se do meu colo e deixou-se ficar cabisbaixo, com as suas mãos nas minhas. Compreendi que nesse instante o meu pensamento ia caminhando ao lado do dele, em silêncio, como dois velhos e tristes companheiros inseparáveis; e por fim o nosso pensamento foi se derretendo em palavras, apenas balbuciadas. César começou a falar em voz muito baixa, soturnamente, como se temesse acordar a irmã, que dormia lá na sala, no seu leito frio. Falava em segredo, com o rosto quase unido ao meu, numa surda conspiração contra a vida. Era o resíduo do seu pobre coração, já de muito tempo despedaçado, que vinha agora assim diluído pelas lágrimas.
E ele murmurou, como num sonho:
- Ultimamente, minha Olímpia, uma estranha amargura me persegue... a nosso respeito... uma dor secreta, penosa como um arrependimento tardio... alguma coisa da mágoa de não ter colhido a felicidade, no bom momento em que ela nos passou cantando diante dos olhos... um irremissível desgosto de não ter sido em tempo o teu marido ou me ter feito o teu amante...
Abaixei os olhos. Era a primeira vez que falávamos abertamente do nosso velho amor.
César prosseguiu no mesmo tom: - Sim, sim, minha amiga... nós nascemos um para o outro!... Foi uma tremenda infelicidade não nos termos encontrado antes dos nossos loucos casamentos... ou não termos então rompido com todas as conveniências e com todas as convenções - para nos unirmos para sempre; para nos pertencermos, exclusivamente, sem o menor desvio da nossa ternura; e para que enfim pudéssemos ser agora, minha amada, inseparáveis companheiros neste fim de vida!...
- Não... respondi, não meu querido amigo, não seria a mesma coisa: não seríamos ainda hoje moralmente e virtualmente consorciados como somos. O casamento ou a concubinagem desvirtuariam o espírito do nosso amor, tão puro e tão elevado... O matrimônio carnal é incompatível com a sagrada amizade, com a verdadeira dedicação, porque vive dos sentidos e não do sentimento... Se tivéramos algum dia unido os nossos corpos, as nossas almas estariam hoje separadas! Se algum dia tivéramos tido em nosso consórcio, que foi tão claro e tão casto, outros laços que não o desta profunda e delicada afeição que nos irmana; hoje, que somos velhos ambos e pois inúteis para a sensualidade, não teríamos - tu em mim a tua consoladora amiga; eu em ti o meu derradeiro amor...
César encarou-me surpreso:
Como assim? Pois eu negava o amor dos sentidos ligados ao sentimento do amor?...
- Certamente. Na língua não há palavras para exprimir essas duas coisas tão diversas e até tão opostas: - o amor produzido pelo instinto sensual e o amor produzido pela simpatia e atração moral de dois espíritos que se procuram e se casam. O grande erro do casamento vulgar o que o torna insuportável, é pretender aliar o instinto da procriação com o sentimento do amor ou da amizade, que nada tem a ver com ele e até o repele. O irracional também é como o homem suscetível de apego de amizade, nunca porém se preocupa com isso, quando trata de cumprir o seu mister procriador. O homem não deve ter comunicação carnal com a mulher que ama!
César mostrava-se cada vez mais surpreso.
— E tua filha!... interpelou ele; tua filha não ama e não é amada pelo marido?...
- Ama sensualmente, respondi; mas, para o outro amor, para este que nos ligou até hoje, ela está perfeitamente incompatibilizada com ele. O marido não pode ser nunca o amigo. O esposo do corpo não pode ser ao mesmo tempo o esposo da alma; e nisto estava a razão de ser e a grande força dos confessores primitivos. Mas o padre não era amigo sincero e nem foi leal e foi casto; daí a causa única por que ele não persistiu e não ficou para sempre nos casais junto à mulher e ao lado do marido.
César meditou um instante, e disse depois:
- Tens razão talvez... O que não impede que, apesar de nos amarmos sempre e apesar de termos nascido um para o outro, e apesar dos meus sessenta e cinco anos, e apesar de que sejas agora uma avó de cabelos brancos, não possamos viver juntos, como eu vivi até hoje com minha irmã, porque não somos casados... E, se aqui te detenho comigo, assim neste gabinete, se te cingi ao meu peito e te guardei um instante nos meus braços já trêmulos, é porque há aí a pequena distância de nós um cadáver que tudo justifica; ao contrário nem isso mesmo seria razoável!... Vê tu que escravidão a nossa!]
— É a convenção social, meu amigo...
- Oh! o código social! Sofram-se tudo; suportem-se todas as misérias, mas não se falte nunca aos seus preceitos! Mas, antes de aparecer esse mesquinho código arranjado pelo homem, já um outro existia, imposto pela natureza, muito mais sábio, mais justo e mais generoso; e esse mesmo homem que reclama sob pena dos maiores castigos, o bom cumprimento do seu código, calça aos pés, a cada momento, as leis do outro, sem receber por isso, dos seus semelhantes, a menor punição! De sorte que eu, tendo uma amiga a quem estremeço, com quem poderia arrastar menos tristemente o sudário da minha velhice, não hei de valer-me da companhia dela, nem usar livremente da sua casta amizade, porque o tal código social não me permite! É caso para lamentar não seres tu homem, ou não ser eu mulher!
- Não, César, nada aproveitaríamos com ser do mesmo sexo... Nunca houve equilíbrio perfeito de qualquer amor senão entre pessoas de sexo diferente. O amor que te tenho, apesar de ideal, nunca poderia eu senti-lo por outra mulher, fosse esta minha mãe, minha irmã ou minha filha...
— Mas, meu Deus, isso é a negação das tuas teorias sobre o casamento...
— Não... Por quê?...
- Segundo o que acabas de dizer, duas pessoas de sexo diferente podem então, sem incompatibilidade, viver eternamente juntas...
- Decerto, desde que se amem castamente como nós dois nos amamos, e não tenham entre si a menor aproximação carnal. O que incompatibiliza moralmente os cônjuges é o amor físico. Se dois amigos do sexo diferente pudessem, na plenitude da mocidade, realizar um consórcio naquelas condições, e vivessem juntos sem a menor preocupação dos sentidos, seriam eternamente felizes e cada vez mais se amariam, porque para eles a convivência constante, ao contrário do que sucede aos que se unem pelo sexo, longe de enfraquecer-lhes o amor, havia de ir cristalizando-o lentamente, até fazê-lo atingir o supremo estado de pureza, inquebrantável e límpido como um diamante. Seria esse o único casamento eterno!
— E os filhos?
- Que filhos? Acaso figuraste semelhante hipótese, quando há vinte anos te uniste eternamente a essa tua pobre irmã, que acaba de morrer, deixando-te a alma viúva do seu amor?...
- Eu a amava, justamente porque nos amos. E assim deve ser entre todos os homens e todas as mulheres que se amam.
- Oh! seria isso a extinção da espécie... a não ser que, em tal casamento, a cada um dos consortes assistisse o direito de ir buscar fora do casal, onde melhor o levassem os seus apetites carnais, a satisfação do instinto procriador!...
- E por que não? O instinto materialíssimo da procriação nada tem que ver com o amor, isto é, com o verdadeiro sentimento de humanidade elevado ao seu mais alto grau de comoção. A fêmea é para o macho - produzem; a mulher é para o homem - amam-se. Entre os que se ajuntam instintivamente, não pode existir o amor, só há sensualidade! É o caso de minha filha e meu genro; é o contrário do nosso caso!
— Então, para que fazer questão de sexo?...
- Porque, repito, entre duas pessoas do mesmo sexo, a não ser no caso particular do amor materno, que é um desdobramento do amor-próprio, só pode haver ligeiras relações de estima e simpatia. Amor, verdadeiramente amor, só pode existir entre o homem e a mulher; só entre estes se fará inteira confiança de parte a parte, inteiro equilíbrio de espíritos e de corações. A sexualidade física refletindo-se no moral é tão poderosa que se estende até aos pais com relação aos próprios filhos, ou vice-versa. A filha ama sempre mais o pai do que a mãe, e o filho mais a mãe do que o pai. Pode-se afirmar que não é só o corpo que tem sexo, a alma também o tem, e só a alma de uma mulher pode compreender a alma de um homem e só por esta pode ser compreendida. Há muita coisa que um homem não confia ao espírito de outro homem, nem uma mulher ao de outra mulher. Eu, por exemplo, em caso nenhum teria jamais revelado a outra pessoa do meu sexo tudo o que até hoje te relatei da minha vida íntima e dos meus íntimos pensamentos; e tu, meu velho amigo, juro que também não serias capaz nunca de pôr a alma nua defronte de nenhum homem, como tantas e tantas vezes a exibiste defronte dos meus olhos. Por quê? porque sempre nos amamos sinceramente, e muito, tanto quanto é possível, sem nunca todavia depravarmos o nosso amor humano com a rasteira preocupação de nossos instintos bestiais! Se o tivéramos feito, não te poderia eu falar agora deste modo, nem tu me ouvirias a sério e de boa-fé, como me estás ouvindo: Rir-nos-íamos um do outro; achar-nos-íamos ridículos!... Os indivíduos, sujeitados e unidos pela sensualidade, quando se acham a sós os dois, só podem falar com empenho dos interesses do próprio instinto que os uniu, seja dos interesses do gozo sexual, ou seja dos interesses dos filhos; no mais, as poucas e frias palavras que trocam entre si são concernentes a coisas chatas, caseiras e materiais como o mesmo amor que os liga. E nós, desde o primeiro dia em que nos conhecemos até hoje, conservamos um para o outro a mesma poesia do amor?
Calei-me, e só então notamos que o dia acabava de invadir o gabinete por uma larga janela envidraçada.
César ergueu-se, e eu também. Ele, lívido com aquela noite de insônia e de lágrimas, parecia um espetro.
Adiantou-se lentamente para mim, estendendo-me as mãos trêmulas.
- Se assim é... disse-me comovido e suplicante; não nos separemos mais!... Vivamos juntos este resto de vida, unidos por este elevado amor de que me falas!... Posto nossas almas há muito se esposaram, casemo-nos, já que assim o quer a sociedade; e que eu te possa ter a meu lado, e que eu te fale e te veja todos os dias, a qualquer instante; e que eu possa contar contigo, minha amiga, perto do meu leito, quando este pobre corpo morrer de todo!
Abaixei a cabeça.
Depois de longa pausa, tartamudeei muito triste:
- Ninguém nos compreenderia... Seríamos cobertos de ridículo, por todos, por minha família, até por minha filha!
- Não! insistiu ele. Não acontecerá assim: Já todos se habituaram a ver em ti um espírito superior, emancipado de preconceitos mesquinhos. Casar-nos-emos para poder viver perto um do outro, mas separados de corpo, como dois irmãos. Lembras-te de que hoje tua família é o meu único herdeiro e eu preciso justificar publicamente esse fato. Não me abandones aqui com as minhas saudades, sem ter eu um coração onde aqueça esta velha alma tua amiga! Casando-me contigo, minha querida irmã, não é só uma companhia que trarei para meu lado; Palmira será também minha filha e Leandro será meu filho... E eu terei o direito de amá-los e de importuná-los um pouco com as minhas rabugices de velho... E terei, para se rir de mim, para puxar-me as barbas e trepar-me pelas pernas, o teu netinho, Olímpia! Ele, o diabrete, vendo-me todos os dias a teu lado e habituando-se a brincar comigo, acabará por amar-me, como se com efeito fosse neto de nós dois... E só a idéia de que lhe ouvirei ainda chamar-me "Vovô"! só com esta idéia... vês tu, minha filha?... correm-me já as lágrimas pelo rosto!
Aproximei-me dele, para cingi-lo nos meus braços.
- Descansa, respondi-lhe. Não ficarás abandonado, meu bom amigo! Mesmo nestes pesados dias de nojo serei desde já a tua companheira. Logo mais voltarei com Palmira, para passarmos três dias contigo. Leandro ficará lá em casa durante esse tempo.
César amparou-se em mim, soluçando. Entre as suas lágrimas só uma palavra compreendi das que me disse: "Obrigado! Obrigado!" Depois tomou-me a cabeça entre as mãos e beijou-me na testa. Eu lhe respondi com um beijo igual.
Foi o primeiro beijo que trocamos em toda a nossa longa vida de amor.


* * *

Ao sair do gabinete, dirigi-me logo para a sala em que estava o cadáver. Em volta dele pareceu-me tudo ainda mais triste com aquela deslavada luz do amanhecer. As raras pessoas que ficaram a guardar a morta dormiam nas suas cadeiras, com a cabeça pendida sobre o peito. As velas choravam sempre, e mais sinistras achei agora as suas lágrimas. O corpo, já completamente rijo, fazia mais frio o ambiente, e um ligeiro fedor úmido evolava-se dele.


CAPÍTULO XXIV

Quando, pela manhã, cheguei à casa, sentia-me muito mal disposta. Era sem dúvida a reação de todas aquelas canseiras acumuladas ultimamente. - Mas tudo isso passaria com algumas horas de absoluto repouso. - Recolhi-me ao quarto, quase sem forças para despir-me. Despedi a criada, recomendando-lhe que não me chamasse enquanto eu estivesse na cama.
Deitei-me, e comecei a pensar, à espera do sono; teria eu ânimo de realizar a boa ação que vinha de prometer ao meu amigo?... Teria a coragem de afrontar com o ridículo, que porventura iria despertar aquele casamento feito entre dois velhos?... Compreenderiam essa ligação moral; esse esposório de duas almas amigas, que se estremecem e se buscam, através de uma existência inteira; e afinal se abraçam, não para a satisfação do amor, mas para afugentar o medo que, separadas e sozinhas, sentiria cada uma no frio resto do seu caminho já ensombrado pela morte?...
Não, com certeza, ninguém compreenderia! Não obstante, esse casamento, singular embora, era perfeitamente lógico e era essencialmente humano! Em que e por que o amor e os reclamos da alma valem e merecem menos que as sensuais necessidades do corpo?... Acaso a solidariedade da carne, instinto de todo animal, é mais digna que a solidariedade do espírito, privilégio exclusivo do homem?... Pois tão facilmente aceitavam todos e compreendiam a conveniência de um companheiro para os nosso sentidos inconscientes, e não compreenderiam a razão de um companheiro para o nosso espírito, que é a parte racional do ser humano, o que o sobreleva dos brutos e o que o aproxima de Deus?...
Não, ninguém compreenderia!... Entretanto, aquele casamento seria de grande utilidade, nem só para o meu velho amigo, como para mim própria. Cansada já, precisava ter mais perto o meu auxiliar na obra da felicidade matrimonial de Palmira; precisava de um substituto imediato para as faltas, que eu seguro iria fazer agora no meu posto de vigia. De resto, e talvez principalmente, a expectativa de ter César a meu lado neste último quartel da vida, enchia-me o coração de uma inefável esperança de completa felicidade moral.
Mas, que diria meu genro?... que pensaria minha filha?...
Oh! para esses ficaria tudo, mais tarde, explicado neste manuscrito, que em tempo lhes chegaria às mãos! E, quanto ao mais - já muito fazia eu em dar-lhe a pública satisfação do casamento!
Sim! estava resolvido - César viria acabar seus dias a meu lado!
E comecei a pensar na disposição da casa para acomodá-lo convenientemente, e até em nosso futuro modo de viver.
Havia um aposento magnífico para ele, e o meu quarto de trabalho, que era vasto, passaria a ser comum entre nós dois. Seria o nosso ponto principal de convivência: Enquanto César aí estivesse ocupado lá com os seus trabalhos, estaria eu costurando, lendo ou escrevendo; e isso não impediria que minha filha continuasse a passar nessa mesma sala, as horas que costumava passar comigo.
E via já o meu velho camarada, ao almoço e ao jantar, assentado ao lado de meu neto, a rirem-se os dois um com o outro, a brincarem, como duas crianças. E via-o depois passeando conosco, nas belas manhãs de Petrópolis, levando-me pelo braço, feliz com aquela família toda inteira e completa, que eu lhe dava, como um presente de bodas, para consolação do resto da sua existência. E via-o à noite, na sala, de cabeça coberta e lenço ao pescoço, jogando comigo antes do chá, enquanto Palmira ao piano acompanhava o enamorado e choroso bandolim do marido. E via-o afinal estendido no seu leito extremo, já prestes a deixar a vida, guardando as minhas mãos nas suas, e entregando-me o último suspiro da sua alma irmã da minha, tão generosa, tão adorável e tão pura.
Mas o sono não vinha e a minha indisposição crescia vivamente. Dolorosos calefrios obrigavam-me a encolher-me toda debaixo dos cobertores. Sentia doer-me o lado da cintura, a boca seca, o estômago ansiado. Compreendi que não podia dormir. Tateei o tímpano, vibrei e pedi à criada uma chávena de chá bem quente. Ao tomar os primeiros goles, vomitei logo, e senti dores no estômago.
Quando minha filha, alvoroçada com a notícia do meu incômodo, me procurou aflita, eu ardia em febre e não podia conter os gemidos. Meu genro veio também pouco depois, todo de luto, já preparado para o enterro de D. Etelvina, que seria à tarde. Apesar do sofrimento, falei-lhes no abandono em que ia ficar o nosso Dr. César e no estado de desconsolo em que eu o deixara ao lado do cadáver da irmã, último parente que lhe fugia para debaixo da terra.
Leandro prometeu-me que lhe faria uma visita logo em seguida ao almoço e ficaria com ele até as horas do saimento. Pedi-lhe mais que depois do enterro, o não deixasse sozinho naquele casarão triste e solitário; que, em meu nome, o persuadisse de vir para junto de nós, ao menos por esses primeiros dias; e lhe dissesse que eu não podia ir lá com Palmira, como prometera e tencionava, mas que viesse ele; entregasse a casa aos serventes e trouxesse de companhia o seu velho criado Antônio. Era isso o bastante.


* * *

Recebidas estas disposições, Leandro saiu do quarto, e minha filha começou a tratar de mim, convencida, como eu, de que era passageiro o mal. Não valia a pena chamar médico; César viria à tarde ou à noite e daria as providências necessárias. A despeito da minha crescente indisposição, perguntei a Palmira que tal lhe parecia a idéia de convidarmos o meu velho amigo para ficar morando indefinidamente conosco. Ela não se abalou com o alvitre, como esperava eu.
- Ali, disse, todos queriam e estimavam tanto o Dr. César, que este era para a família menos um estranho que um parente.
Recomendei-lhe então falasse a esse respeito com Leandro e desse-me depois sincera conta da impressão que semelhante idéia produzisse no ânimo dele.
- Ora! respondeu minha filha. Leandro é deveras amigo do velho César. Mamãe bem sabe que ele o estima e respeita como a um pai! Há de sem dúvida ficar satisfeito com a notícia...
— Sim, mas fala-lhe, porque talvez não fiquem as coisas neste ponto.
O pior é que o meu padecimento aumentava, e do meio para o fim do dia, tão mal me achei e tão pouco acordo dei de mim, que não posso agora render cópia exata do que se passou. Caí em modorra de febre; creio que delirei. Sei apenas que César veio logo ao fechar da noite; que me receitou; deu-me a tomar os remédios e não me abandonou até o momento em que, já tarde, Palmira o constrangeu a recolher-se ao quarto que lhe destinávamos.
E eu, que o tinha chamado para aliviá-lo das suas penas, recebia agora dele os desvelos de amigo e os cuidados de médico, e de enfermeiro. O que supúnhamos febre passageira era nada menos que uma inflamação de fígado. A moléstia caracterizou-se nessa mesma noite com a alteração na glândula, e o Dr. César fez logo o seu diagnóstico: "Hepatite intersticial, proveniente de impaludismo."
E tive de guardar o leito no dia seguinte e nos outros imediatos, mostrando-se César ao meu lado de uma solicitude sem igual.


* * *

Mas, ao fim da primeira semana, reconhecíamos já que a nossa posição era falsa. Desde que constou a minha enfermidade, começaram as visitas, algumas de mera cerimônia, outras de verdadeira estima; e o meu pobre amigo confessava-se constrangido ali, à vista dos estranhos. Além disso, era natural que ele, sem estar de todo transferido lá para casa, sentisse falta dos seus velhos hábitos; homem, como sempre foi, dado metodicamente a longos estudos e a trabalhos científicos. Não me animava contudo a propor-lhe a mudança absoluta, sem a justificativa do casamento. E a situação, dentro em pouco, complicou-se ainda mais, pela contingência em que me vi de ter, para segurança da cura, de aproveitar, ainda no primeiro período da moléstia, a estação das águas de Caxambu.
Foi assim que se resolveu em família, e logo se apressou, o nosso singular casamento.
Como ainda não podia eu sair à rua, tivemos de solicitar uma licença da Igreja para realizá-lo em casa. Não foi difícil, e a formalidade religiosa durou pouco tempo, sem grande escândalo na vizinhança.
As pessoas de nossa amizade receberam a comunicação do fato nos seguintes termos:

"Olímpia da Câmara e o Dr. César Veloso participam a V. Ex.a que contraíram o direito de passar junto a sua velhice, aparentando-se legalmente pelos vínculos conjugais."

Não sei se a novidade foi muito comentada lá fora, nos vários grupos das nossas relações; não mo disseram, nem eu tampouco a ninguém o perguntei. Quanto a lá por casa - Ah! isso foi diferente: O senhor meu genro não procurou sequer disfarçar o riso que o fato lhe provocava! O leviano, sem atingir o alcance do meu proceder, só nele via o ridículo casamento de dois velhos. Perdoei-lhe, não obstante, ainda essa descortesia, porque ela não era obra da maldade do seu coração, mas só da sua inferioridade moral.
Palmira, essa não riu logo, pelo menos em minha presença; ficou a cismar, sem ânimo de interpelar-me, e daí por diante evitava até de entrar em conversa comigo sobre este assunto. Mas, com César, já não foi tão generosa, porque um dia a surpreendi a faceciar contra o padrasto a respeito do caso. Ele, não sei o que tinha dito, que ela com aqueles seus modos de rapariga travessa, pois nunca os perdeu de todo, tomou-lhe as lunetas, armou-as no nariz e começou a arremedar os meus gestos e a minha voz, exclamando comicamente, com o dedo no ar e a cabecinha empertigada:
- Casaram-se?... Está muito bem! mas não consinto que fiquem juntos muitos dias seguidos... Não! não! a felicidade conjugal, meu caro Dr. César, é nisto que se baseia! E se duvida, vou já buscar-lhe a Bíblia!...
César pôs-se a rir, e eu não pude deixar de fazer o mesmo. Ela, ao dar comigo, que a espreitava, ficou desapontada e corrida; desprendeu as lunetas do nariz, entregou-as ao dono; e o diabrete veio correndo atirar-me ao pescoço e pedir-me com seus beijos o beijo do meu perdão.


* * *

Todavia, eu continuava doente. Realizou-se a mudança definitiva de César lá para casa, e daí a dois dias arribamos todos para Caxambu. Fui bem prostrada.
No fim de um mês de águas estava de pé, mas compreendi que me havia empolgado a moléstia que terá de matar-me. Alguma coisa se modificou no meu ser físico, alguma coisa em mim se quebrou para sempre. Reconheci que um novo marco divisório se firmara na minha existência, separando o último período vivido de um novo período que começava. Este deve ser naturalmente o último, porque em minha família nunca vamos além dos sessenta anos.
Agora, porém, que me importava a idéia de morrer, se estava tudo bem disposto para garantir a felicidade dos entres queridos que eu deixava no mundo?
Depois de três meses de Caxambu voltamos à casa de Laranjeiras, e de novo entrou definitivamente nos seus eixos a nossa vida doméstica, mais completa agora com a presença de César. Pouco a pouco, à vista da atitude que guardávamos, eu e meu esposo, Leandro foi compreendendo a nossa verdadeira situação. Deixou de rir; e, tanto ele como Palmira, começaram a envolver o meu venerável companheiro na mesma atmosfera de carinhoso respeito em que ela sempre me teve e em que aquele ultimamente me firmava.
A minha aliança com César era a de dois velhos irmãos amoráveis; e o exemplo do nosso mútuo respeito, da inalterável delicadeza de palavras e maneiras que mantínhamos um pelo outro, e principalmente a ação constante daquela nossa profunda amizade, casta, sagrada e puramente espiritual, não tardaram a dar de si os frutos que eu pressupunha, refletindo-se diretamente no ânimo de minha filha e de meu genro. Foi para eles tão eficaz e poderoso o efeito desse exemplo de amor impoluto, que no fim de alguns meses se tornava de todo desnecessária a minha intervenção para obrigá-los a cumprir o regime de vida que eu lhes impusera, sem haver, não obstante, desfalecimento de amor sensual por parte de nenhum dos dois. Ou porque tivessem afinal se habituado às periódicas separações de leito, ou porque compreendessem já o seu valor e eficácia; ou fosse enfim que o alto exemplo da nossa calma ternura lhes apurasse o espírito e lhes aperfeiçoasse o coração, o certo é que eles iam agora, sem esforço, naturalmente, vivendo como lhes ensinara eu a viver, e confessavam-se felizes; e, pela primeira vez, mostravam-se gratos ao meu maternal desvelo.
Com a convivência Leandro foi cada vez mais se fazendo filho de César; afinal, muitas vezes, nos seus regulares afastamentos do tálamo, meu genro dormia no mesmo quarto com o padrastro, e Palmira e meu neto dormiam comigo. E iam-se assim os dias passando, sem a mais ligeira nuvem de desarmonia, sem o menor atrito de caracteres, nem sombras de descontentamento, porque, ao contrário do que em geral sucede nas famílias ainda mesmo pouco numerosas, não formávamos pequenos grupos conspiradores; não havia segredos entre todos nós, nem por conseguinte podia haver ressentimento.
A liberdade moral e física de cada um era completa, sem despertar nos outros o vislumbre de uma ofensiva suspeita. Leandro entrava e saía de nossa casa livremente; ora dormia, ora não dormia perto da mulher, e deixava de aparecer-lhe nos dias que lhe convinha, sem que isso nela despertasse ciúmes ou enfados de despeito.
Sem o preclaro exemplo da minha comovida e amorosa castidade, não sei se poderia, apesar do empenho que pus em dirigir a felicidade de Palmira, ter evitado entre ela e o marido as ridículas contendas e as enervantes misérias do matrimônio. E com efeito - que bela lição de amor e que virtuoso exemplo de ventura não era esse casal de velhos, assim vivendo unidos só pelo coração e pelo espírito, sem jamais se fatigarem da presença um do outro, sem nunca precisar nenhum dos dois fingir nos seus sorrisos e nas suas palavras de ternura!... Ah! tínhamos sempre o que conversar, porque bem pouco falávamos de nós mesmos, o que equivale a falar dos nossos instintos ou dos nossos interesses materiais. Podíamos penetrar desassombradamente em todos os assuntos, discutir os pontos mais elevados da moral e da razão porque não nos tínhamos jamais incompatibilizado intelectualmente pelas grosseiras animalidades do corpo. Podíamos olhar-nos bem de face um para o outro, sem corar ou sem rir, porque éramos igualmente puros aos nossos olhos, porque nunca entre nós esvoaçou a asa do mais fugitivo menoscabo, e porque tínhamos sido sempre, na mocidade, e éramos e continuávamos a sê-lo na velhice, os mesmos amigos castos, os mesmos irmãos amorosos, cujas idéias e cujas revelações de gestos e palavras jamais foram postas entre nós ao serviço da luxúria e das vergonhosas e inconfessáveis imundícias da carne!
Oh! juro que eu era, como esposa, ainda mais feliz que minha filha, para cuja felicidade trabalhei eficazmente durante toda a minha vida de mulher.
Sim, fui e sou feliz, apesar da moléstia que me vai minando a existência. Sou agora, neste momento em que escrevo estas palavras, a mais venturosa das mães, a mais enternecida das avós e a mais bem-aventurada das esposas. Enquanto escrevo isto, sinto perto, bem perto de mim, o meu amigo amado, que aí está a dois passos, descansando numa poltrona, a fumar o seu charuto, enquanto lê um jornal. Ouço-lhe com volúpia o fraco e curto resfolegar de velho, afinado pela minha respiração de enferma e pela débil respiração do meu netinho. Sinto, pensando nisto, invadirem minha alma a paz e o amor que cercam os meus gemidos e os meus cabelos brancos... Sei que Palmira é feliz e sei que ela me ama; sei que meu genro me fará justiça e me amará um dia tanto quanto minha filha; sei que morrerei abençoada por eles e...

* * *

Mas não posso continuar a escrever: César acaba de levantar-se e vir ter comigo. Tomou-me a mão esquerda e disse-me com autoridade de médico:
- Bem! por hoje basta! Qualquer abuso de trabalho, minha amiga, pode prostrar-te de cama... Vamos antes dar um passeio pela chácara... A tarde está magnífica!


CAPÍTULO XXV

São passados nada menos de um ano e dois meses depois que escrevi as últimas palavras que aí ficam para trás; só agora pude voltar ao meu manuscrito e talvez, quem sabe? para me despedir dele, porque é já com bastante custo que ainda lanço no papel estas linhas, trêmulas e pálidas como a própria mão que as traça.
Como estou desfeita e abatida!
Depois das enganadoras melhoras granjeadas com os ares e águas de Caxambu, o mal acordou de novo, para seguir vitoriosamente o seu negro curso. O meu terrível fígado, apesar dos cuidados médicos, aumentou sempre durante o segundo período da moléstia; e agora, já no terceiro, sinto que me matará este depauperamento geral de forças e esta cruel ascite, que me dá o absurdo aspecto de uma tísica em último grau e grávida.
Todavia, durante esse tempo fizemos uma excursão pela Europa; já de volta ao Rio de Janeiro, operei a minha hidropsia abdominal, e só hoje consigo, ainda sem deixar a cama, tentar sobre a mesa de cabeceira esta página difícil... Ai! dói-me todo o lado direito; doem-me os pulmões e sinto falta de ar!
Mas é preciso arrastar-me até ao fim das minhas revelações. Vamos: Palmira está pejada de novo; o marido, sem que ninguém lhe falasse nisso, declarou já que iria aos Estados Unidos durante o resguardo puerperal. Recomendei-lhe que não deixasse de visitar Salt Lake City, capital do território de Utah e procurasse, como o Afonso Celso, conversar com os prosélitos e sectários de José Smith, patriarca dos mórmons. A convicção filosófica dessa tribo de homens fortes pode preparar-lhe o espírito para a metade da existência que lhe falta viver ainda com a mulher.
Meu esposo goza da melhor saúde que é dado gozar a um velho, e seria completamente feliz se não foram os meus padecimentos. Creio que só aos seus desvelos de amigo e de médico, tenho ainda conseguido viver; pelo menos...
Ai! senti agora mesmo nos pulmões uma dor aguda! Não posso continuar a escrever... Bem me dizia César que seria imprudência dar-me a este trabalho...


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E terminava aqui o curioso manuscrito que Leandro me deu para ler na sua pitoresca vivenda da Tijuca. As últimas páginas não pareciam escritas pelo mesmo punho que traçara as primeiras com letra tão firme e corrente. As frases finais eram quase ininteligíveis.
Devorei-o em duas secções: uma à noite, antes de dormir, até às duas horas da madrugada seguinte, e a outra entre o almoço e o jantar desse mesmo dia. Mal o terminei, corri ao meu amigo para pedir-lhe os pormenores da morte dessa inteligente e singular senhora, a quem tão mal julgara eu até aí e por quem, depois daquela leitura, sentia a mais profunda admiração e o mais enternecido respeito; e eis em substância o que me narrou Leandro:
D. Olímpia, depois que interrompeu com um gemido aquela sua página interminada, nunca mais levantou a cabeça dos travesseiros, vindo a falecer da moléstia que a prostrava.
Durou muitos dias a sua agonia mortal. Durante esse tempo, César fez todos os milagres da dedicação e do amor para salvá-la. Jamais amante nenhum foi tão extremoso e digno desse nome; nem jamais noivo de vinte anos chorou com tamanha paixão o desviver da noiva virginal e formosa.
A casta companheira da sua velhice morreu-lhe nos braços e recebeu o seu beijo derradeiro entre as lágrimas dos filhos. Poucos momentos antes de expirar, chamou estes dois para bem junto dela e, tomando uma das mãos de Leandro, e tomando uma das mãos de Palmira, falou-lhes com a flébil sombra de voz que ainda lhe restava:
- Logo que eu feche os olhos, disse-lhes compassadamente, abram aquela gaveta da minha secretária, cuja chave está debaixo deste travesseiro, e tirem de lá o manuscrito que fui escrevendo depois que Palmira se casou. Encontrarão aí a justificação plena de todos os meus atos e de todas as minhas palavras. Foi por amor de ti, minha filha, que concebi aquelas idéias, e foi para ti, meu genro, que as escrevi. Leiam-no ambos com atenção e procurem seguir à risca os preceitos que lá se acham estabelecidos, porque essa é a minha derradeira e única vontade, ao deixar este mundo. Se o fizerem, hão de ser eternamente felizes como animais humanos: terão a felicidade material em que se funda a vida orgânica da nossa espécie; mas, se quiserem desfrutar a outra felicidade, a melhor, a mais alta e mais perfeita; essa, que nenhum dos dois conhece ainda; essa, que gozei longe e ao lado deste meu atual esposo; essa, em que se baseia e garante a vida moral - tenha cada um de vocês dois o seu amigo, o amado do seu espírito, o eleito da sua inteligência, porque todo o homem, como toda a mulher, precisa tanto de um companheiro para a sua carne, como de um companheiro para a sua alma! A vida é o amor, e o amor não é só a procriação. Cristo não deixou filhos, mas a semente de seu amor vive e frutifica até hoje no coração dos homens... É possível que a ideal melancolia do seu beijo maculado, chorando eternamente através dos séculos, secasse muitos ventres, esterilizasse muitos homens, mas fecundou de imorredoura ternura muitos e muitos corações!... A carne é egoísta - temam o despotismo da carne! A carne é irmã degenerada - é o Caim da alma! Afastem um do outro esses dois irmãos irreconciliáveis, para que o ideal não caia assassinado pela besta! Vá cada um de vocês dois, meus filhos, buscar o esposo da sua alma, fora e bem longe do leito matrimonial, com os olhos bem limpos de luxúria, com a boca despreocupada de beijos terrenos, com o sangue tranqüilo e o corpo deslodado das lubrificações carnais! Minha filha - toma um amante - para teu espírito! Meu filho - elege uma amiga - para o teu coração de homem!
E calou-se.
Foram estas as suas últimas palavras. Depois de balbuciá-las, deixou pender a cabeça sobre o colo do esposo, e morreu sem um gemido.

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Livro de uma Sogra, de Aluísio de Azevedo

Fonte:
AZEVEDO, Aluísio de. Livro de uma Sogra. Rio de Janeiro : Ediouro. (Coleção Prestígio)

Texto proveniente de:
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A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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Capítulo XI à Capítulo XIII
Capítulo XIV à Capítulo XVII
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Capítulo XX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV