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LIVRO DE UMA SOGRA
Aluísio de Azevedo
 


CAPÍTULO XI


Mas o homem põe, e Deus dispõe; um ano decorreu sem que eu descobrisse, para minha filha, um oficial de marinha que lhe conviesse. Ela acabava de fazer dezenove anos e era um mimo de graça e de inocência; amava-me extremamente, e jurava que me faria todas as vontades - só para me ver feliz.
Coitada! - Ver-me feliz!... a mim! Como se no mundo houvesse para mim, outra felicidade que não fosse a dela própria.
Durante todo esse ano dei festas em minha casa; comecei a receber, às quartas-feiras, todas as semanas. Como sabiam por aí que éramos ricas, não faltavam pretendentes à mão de minha filha; e o bom acolhimento que dispensei logo à farda de marinha encheu-me as salas de velhos e jovens oficiais dessa milícia, com tamanha profusão, que cheguei a recear ter inutilizado o gênero, barateando-o aos olhos de Palmira.
Minha casa parecia já uma repartição de Marinha, e no entretanto a rapariga não se decidia por nenhum dos oficiais. Verdade é que bem raros se me afiguravam corresponder aos requisitos exigidos. Só um Saturnino da Rocha, primeiro-tenente, de vinte e cinco anos, me deu vivas esperanças. Um belo moço! Mas o Dr. César disse que ele tinha a solitária. Pusemo-lo à margem.
Com o que eu não contava foi o que sucedeu, como acontece quase sempre. Entre os candidatos, colhidos pela rede que atirei ao mar para pescar um noivo, veio, de mistura com os legítimos representantes daquele poético elemento, um empregado público, de Segunda ou terceira ordem, um amanuense de secretaria, amador de música; um verdadeiro contrabando, impingido já me não lembra por quem. Era ainda muito moço, bonito e bem apessoado. Estudei-o de relance; não me pareceu mau de gênio e revelou inteligência quase regular. Tocava piano e bandolim com certa graça; falava inglês, francês e espanhol. Era pobre.
- Quem sabe?... pensei eu. Talvez apesar da idade, cuja diferença de Palmira me parecia pequena demais, estivesse naquele contrabando um rapaz aproveitável para os fins que eu tinha em vista... Mas, que pena! não era oficial de marinha!... De todos os proponentes era, todavia, e sem termo de comparação, o melhor como estampa.
Interpelei minha filha, a respeito dele, frouxamente, como por descargo de consciência. E qual não foi o meu espanto quando a vi reproduzir fielmente todos os gestos retraídos, que eu própria fizera quando me consultaram, nas mesmas condições, sobre o meu defunto esposo?
Ela abaixou os olhos, corou, sorriu quase imperceptivelmente, e começou a percorrer com os dedos da mão direita os botões do corpinho do seu vestido.
Tomei-lhe as mãos; estavam frias e ligeiramente trêmulas. Interroguei-a de novo, e Palmira, em vez de responder, caiu-me nos braços, soluçando.
Era a coisa, não havia dúvida! Comigo tinha sido tal e qual!
— Gostas dele... Não é verdade, minha filha?... perguntei-lhe, beijando-a na testa.
— Eu o amo, minha mãe... foi a sua única resposta.
- Tu o amas! - Sabes lá o que é isso! Queira Deus que não estejas procurando iludir-te; iludir a ti e a mim! Não te deixes levar por falsas impressões!...
— Só com ele me casarei por meu gosto! Só com ele serei feliz!...
- Isso é o que todas nós dizemos nas tuas condições, minha filha... Mas não te mortifiques, que, se o rapaz te ama deveras, e se estiver em condições de casar contigo, não serei eu que a tal me oponha, porque bem sabes que só procuro e quero a tua felicidade.
Ela, transportada, beijou-me repetidas vezes, agradecendo-me com as suas carícias as minhas palavras.
Todavia, talvez que de nós duas fosse eu a mais comovida nesse momento. Quando me separei de Palmira, encerrei-me no quarto e chorei copiosamente. Por quê? Não sei dar a razão; só afianço que um doloroso sobressalto se apossou de mim, e uma dura e fria tristeza, tristeza de velho, encheu-me o coração e escureceu-me a vida.
Procurei consolar-me, refugiando-me na idéia da felicidade de minha filha. Ah! pobres corações de mãe! pobres corações, que tanto sofreis para depois ainda mais vos amesquinhardes, chorando sob o peso infamante e ridículo desta terrível palavra - Sogra!
E apressei-me a procurar o meu amigo. Fui logo no dia seguinte à casa dele. César, ao receber-me, percebeu a minha tristeza; compreendeu-a talvez. Mas não me disse uma só palavra a respeito dela; apenas tomou-me a mão e afagou-a entre as suas, como de costume.
Para bem nos entendermos, os dois, bastava-nos o olhar!
Assentei-me junto à secretária, bem perto da sua cadeira e, em voz baixa e comovida, dei-lhe parte de tudo, e concluí, pedindo-lhe que viesse à minha casa na próxima reunião. - O pretendente lá estaria. César prometeu ir.
E não faltou com efeito.


* * *

Tínhamos muita gente essa noite em casa. Havia concerto e depois dança. Os uniformes da marinha, rebrilhantes de galões dourados, cruzavam-se em todas as salas, ofuscando as casacas pretas e dando àquela minha modesta Quarta-feira, oficiais realces de uma festa de corte. As damas afidalgavam-se, pareciam até mais amáveis e mimosas ao reflexo das refulgentes dragonas.
Minha filha cantaria ao piano, acompanhada pelo seu preferido. Ela resplandecia de sedução, naqueles primeiros arrulhos de pomba amorosa, que procura fazer ninho; estava alegre, saltitante, ébria de ilusões e de esperanças.
E pensar eu que, daí a algum tempo, toda aquela gárrula confiança no amor, toda aquela louçania de inocência e toda aquela frescura de mocidade, poderiam emurchecer e transformar-se no que eu sofri pouco depois que me casei!... Ah! mas eu lá estaria ao lado dela para vigiar-lhe o leito de recém-casada, como lhe vigilara, outrora, o berço de recém-nascida. E o meu coração de mãe tremia tanto agora, ao vê-la assim sorrir de ventura às primeiras pulsações do amor, quanto tremera dantes, aos seus primeiros vagidos e às primeiras lágrimas que lhe vi nos olhos.
O concerto correu bem, Palmira foi feliz no que cantou acompanhada pelo namorado, creio até nunca lhe ter ouvido cantar com tamanha expressão. Mal deixaram o piano, apontei o rapaz ao meu velho amigo, que começou logo a observá-lo disfarçadamente.
Daí a pouco apresentei-os um ao outro, e não os perdi mais de vista.
César, insinuante como é, ganhou logo a simpatia, e suponho até que a confiança do pretendente de Palmira. Vi-os passear juntos durante longo tempo, sem deixarem nunca de conversar com o mesmo interesse. Depois tomaram uma das janelas da saleta de estudo, e continuaram na palestra, mais à vontade. Eu, do lugar em que estava, podia observá-los. O médico com certeza falava já de coisas concernentes à boa disposição física, porque notei que o outro sacudia com desembaraço as pernas e os braços, empinando soberbo a cabeça e o peito como para dar idéia da sua perfeita compleição muscular.
Não pude deixar de rir, principalmente quando César, lá do fundo de sua janela, me fez sinal com os olhos de que a coisa caminhava bem.
O rapaz parecia com efeito muito bem constituído. Era delgado e forte, rico de espádua; boa estatura, pernas e braços bem proporcionados; bom cabelo, olhos vivos, de azul forte; tez limpa, de um moreno pálido, sadio e fresco; barba vigorosa, bem preta, luzidia e fina; unhas másculas e rijas. E os dentes pareciam-me de primeira ordem.
Já morria de impaciência quando o meu bom César, arranchando-se comigo para tomar chá a um canto da sala de jantar, me veio dar conta da sua missão.
- Creio que temos o homem! - declarou logo, antes de assentar-se ao meu lado. E segredou-me depois: - Mas não dou por enquanto a minha opinião definitiva...
— Ah!...
- Ficamos amigos... acrescentou César. Ele, sabe? vai depois de amanhã à minha casa, e, como tem gosto pelos jogos e exercícios de força e faz grande vaidade da sua musculatura, creio que o convencerei de que deve por sistema tomar duchas no meu estabelecimento hidroterápico. Ah! então sim, poderei dar com segurança o meu veredicto!
— Aqueles dentes?... Reparou se são verdadeiros?
— São. Afianço!


* * *

Daí a dias, o meu zeloso ajudante-de-ordens procurava-me para dizer-me radiante:
- Completo sucesso! Auscultei e observei minuciosamente o rapaz. Creio até que o maganão adivinhou, ou compreendeu, qual era a razão particular que me dirigia, porque veio, por bem dizer, ao encontro do meu desejo e prestou-se ao exame, sorrindo, sem esconder a sua vaidade de homem forte, consciente da sua riqueza orgânica!
Estávamos a sós, na biblioteca, lá em casa. Aproximei-me mais do meu velho amigo, com interesse; e ele acrescentou, dando com ambas as mãos duas palmadas simultâneas nas próprias coxas.
- Um rapagão, Olímpia! O que se pode chamar um rapagão! Equilíbrio perfeito entre o sistema nervoso e o sistema muscular! Órgãos em belo estado de pureza! Uma autópsia seria a mais esplêndida vitória para as suas vísceras! Devia deixar-se dissecar, por orgulho!
— Então, César!... Fale a sério, meu amigo!
- Não lhe descobri o menor vício no organismo. Os pulmões são os de um ferreiro; o coração funciona como um Patek Philippe; o fígado não parece fígado nacional. Os rins fariam inveja aos de um atleta! Tórax soberbo; bíceps de gladiador! Em minha presença manejou, com a maior facilidade e destreza, halteres de trinta quilos cada um!
— Sim?...
- É o que lhe digo! E a conformação geral do corpo, esteticamente falando, é simplesmente maravilhosa! Quando o vi nu, pensei ter defronte dos olhos uma estátua grega. Marte e Apolo fundidos, formando um homem. Que belo conjunto de força e delicadeza anatômica! Nem sei como, com a degeneração da raça latina e com a crescente depravação de costumes, ainda possa haver - no Brasil! Um moço em semelhantes condições físicas! Verdade é que ele é de raça catalã!
— Que entusiasmo, meu amigo!
- Entusiasmou-me com efeito, o demônio do rapaz! Nunca vi, na minha clínica, um espécime tão puro! É verdadeiramente um belo animal!
- Acha-o então, César, quanto ao físico... no caso de preencher cabalmente o nosso ideal de... de marido de Palmira?
— Oh! Por esse lado não poderíamos desejar melhor!
— E, pelo outro! Que tal será ele? Diga-me, achou-o simpático!...
- Ora! Um homem naquelas condições é o orgulho de sua espécie e há de ser fatalmente simpático. O que mais é a simpatia senão o reflexo da bondade? e a bondade é um produto lógico da saúde perfeita e da força, como são a coragem e a alegria. Fiquei gostando dele infinitamente. Ah! se aquele ladrão fosse meu filho?
— Ainda bem, meu amigo...
- Oh! Pode estar amplamente satisfeita com ele, Olímpia, e dá-lo, quanto antes, para noivo da nossa formosa Palmira. Aquele, se não for vítima de algum acidente, ou não apanha algum diabólico micróbio que o estrague, morrerá de velho!
Agradeci penhoradíssima os bons serviços do meu querido amigo e pedi-lhe que me ajudasse a colher, logo desde o dia seguinte, informações sobre o passado e sobre o caráter do pretendente de minha filha.


* * *

Desde o dia seguinte, com efeito, pusemo-nos em campo. E foram quatro meses de ininterrompidas pesquisas, em que eu despendi um grande capital de dedicação, de atividade e de paciência, cujo segredo só mesmo um coração de mãe poderia achar. Mas não lamento tais canseiras, porque cheguei ao completo resultado do que eu queria.
Eis o que colhemos:
O rapaz chamava-se José Leandro de Oviedo. (Isso já eu sabia). Nasceu na província do Rio de Janeiro, numa fazenda de Teresópolis. Era filho de Manoel Oviedo, pinto espanhol, que o teve de uma tal Margarida Porto, senhora brasileira por ele tomada do marido, um rico fazendeiro de café, e com a qual viveu o pintor dez anos.
Leandro foi o primeiro filho de Oviedo, (Esta circunstância animou-me a seu favor) e o único que sobreviveu aos pais. Criou-se na fazenda, mas aos cinco anos fez com a família uma viagem à Europa, donde voltou com dez, já órfão de mãe. O pai destinava-o ao comércio e quis, ao tornar aqui, pô-lo de caixeiro em uma loja de ferragens, mas o padrinho, um tal Gonçalves, com quem o rapaz fora habitar de volta ao Brasil, remeteu-o, três anos depois, para um colégio na Inglaterra, donde Leandro voltou aos dezoito de idade, por morte do seu protetor. Não consegui saber se deste herdou então alguma coisa; soube, sim, que nesse tempo fez ele uma excursão pelas províncias do sul do Brasil, dando com pouco sucesso concertos de piano e bandolim. Dois anos depois morreu-lhe o pai, em completa miséria.
Alguns quadros, e outros objetos que deixou, foram vendidos para pagar o enterro e o último mês de tratamento em uma casa de saúde. Aos vinte anos entrou Leandro, como amanuense, para a secretaria, onde era segundo oficial quando pretendeu minha filha.
Não me souberam informar se foi bom filho, não descobri quem era ao certo o tal padrinho, que o mandou a educar em Londres, nem tampouco a razão por que este, homem rico naturalmente, o protegeu tanto em vida, sem dele se lembrar depois no testamento; afiançaram-me, porém, que Leandro era moço de bom caráter, regularmente estimado, e que havia rejeitado casamento com a filha de um negociante forte, mas rapariga feia e pretensiosa. Não me constou também que se desse ao jogo, tampouco ao álcool, nem fizesse loucuras por mulheres de má vida. Descobri que ultimamente morava ele, havia um ano, numa casa de família honesta, que lhe alugava um quarto; e soube que tinha um amigo íntimo, com quem era visto sempre aos domingos no clube ginástico a que ambos pertenciam, um Leão da Cunha, rapaz rico e viajado, sócio comanditário de uma casa de comissões no Rio de Janeiro.
E tudo isto descobrimos, César e eu; tudo desenterramos, por amor de minha filha; e foi obtido e foi tudo feito com a máxima reserva e discrição. Leandro, ao que suponho, não desconfiou de coisa nenhuma.
Estudando-o de mais perto reconheci que as suas maneiras eram, de fato, convenientes e não afetadas para nos engodar durante o namoro; pareceu-me até que, por debaixo daquela forte robustez física, havia um caráter tímido e paciente. Notei com satisfação que ele não abusava do fumo e detestava o cachimbo. Não me pareceu absolutamente ambicioso. Falava pouco do seu piano e do seu bandolim. No entanto, as suas cartas a Palmira, as quais esta me mostrava sempre, eram discretamente escritas, na forma como no fundo, e pareciam sinceras no que diziam de amor.
Convenci-me afinal de que a coisa única que me restava a fazer era casá-los, dando ainda graças a Deus por ter-me deparado tão bom partido.
Minha filha mostrava-se cada vez mais empenhada por ele, e Leandro cada vez mais disposto a obedecer-me e respeitar-me nos meus desígnios. Íamos bem.
Quanto a mim, tomava-lhe já a estima e habituava-me à idéia de ver nele um futuro filho. Tudo, não obstante, dependia da sua boa ou má disposição para aceitar as condições do casamento. Deliberei impor-lhe as provas preliminares. Entrei em campanha - principiei a contrariá-lo.
Comecei a ser sogra!


CAPÍTULO XII

Meu Deus, como eu, que aliás ainda não tinha então descoberto a terrível lei da incompatibilidade do amor físico com o amor moral, me sentia já ansiosa e apreensiva, pensando no casamento de Palmira! Aquele rapaz, mesmo rigorosamente dirigido por mim, faria com efeito a felicidade de minha filha?... Amá-la-ia deveras? Seria ele com efeito um bom moço, ou teria conseguido enganar-nos, com os seus gestos de jovem atleta civilizado e com os seus claros sorrisos de mocidade olímpica? Oh! também só nisto punha eu todo o meu empenho - em que ele não nos iludisse; pois, quanto ao fato da sua pobreza e da sua modesta procedência, longe de fazer-lhe carga, dava-lhe até boas vantagens ao meu ver. Minha filha e eu éramos bastante ricas, para não precisarmos perturbar o plano da felicidade dela, e minha, com mais esses frios interesses de dinheiro.
Que era ele um belo exemplar de homem, isso é o que ninguém poria em dúvida, e isso valia bem pelo dote pecuniário de Palmira; pelo outro, ainda mais bonito que ela trazia em pureza, inocência e formosura, valeria a boa vontade com que o noivo aceitasse as estreitas e rigorosas condições, que eu lhe ia impor ao casamento. E nesta última parte estava o ponto mais delicado da questão; para realizá-la, sem futuros prejuízos dos meus planos de absoluto domínio sobre eles, dispunha-me a empregar todo o esforço e toda a astúcia de que eu fosse capaz; pois, em consciência, a verdade era que outro homem já não queria eu, nem já me convinha, para cavalheiro de minha filha ou para gerador de meus netos porque outro com certeza não descobriria eu em condições naturais tão boas e perfeitas como Leandro. Até a sua própria mediocridade de inteligência se me afigurava o belo complemento da sua perfeição de animal humano: - o talento elevado a certo grau é sempre, no amor, uma anormalidade perigosa. Achava-o cada vez melhor e mais próprio para bom marido; achava-o, além disso, muito simpático e atraente; achava graça naquele seu tipo moreno pálido, de olhos muito azuis e cabelos muito pretos; até mesmo o crespo sotaque inglês, que a princípio lhe estranhei e me fazia torcer o nariz, agora achava eu que lhe ia bem com o sonoro metal da sua voz masculina e forte.
Entretanto, não me convinha de modo algum que ele alcançasse com facilidade a certeza da posse de minha filha. Afastava-os intencionalmente; começava a representar, entre eles dois, o terrível papel de linha divisória, de linha sanitária, estabelecida em guerra contra os traiçoeiros inimigos das suas ilusões de amor. Ah! quanto me custava, e quanto me aprazia ao mesmo tempo, esse altruísta e odioso mister de delicada perseguição! Quanto eu me sentia ir ficando sogra! Mas estava disposta a não me arredar um passo do meu programa, ainda mesmo tendo mais tarde de entestar, como já esperava, com a cólera de meu genro e com as lágrimas de minha filha.
Seria muito preferível, em todo o caso, que ela chorasse dessas lágrimas de ilusão a ter mais tarde de amargar as lágrimas de desengano que chorei.

* * *

O namoro de Leandro ia se tornando tanto mais insistente, quanto mais era por mim contrariado. Só uma vez por semana lhe consentia viesse ver a desejada, nas noites de recepção comum, como todos os outros nossos freqüentadores; e isso bem percebia eu que o torturava cruelmente.
Vingava-se nas cartas; essas, consentia eu, fingindo ignorá-las. As cartas não podiam prejudicar, antes serviam, opostamente, para manter firme a intensidade do desejo.
E as coisas assim corriam bem. Ele perseguia e cercava Palmira por toda a parte e em todos os lugares, no passeio, nos teatros, nas compras à rua do Ouvidor; mas, quando me via, antes de ver minha filha, perturbava-se logo, sem ânimo de vir ter conosco e contentando-se apenas em cumprimentar-nos com o chapéu. Coitado! tinha-me medo!
Ah! se ele soubesse todavia quanto o meu coração é bom!
Pareceu-me chegada a ocasião de preparar o espírito de minha filha para a campanha já travada. Conversei largamente com ela. Falei-lhe muito do seu casamento, não em tom de mãe ralhadora, mas no de amiga confidente; falei-lhe como se fosse apenas uma sua irmã mais velha. Palmira, felizmente, compreendeu e compenetrou-se do louvável alcance da minha norma de proceder. Disse-lhe claramente que a sua felicidade dependia daqueles alicerces; e que ela me deixasse, a mim, parecer às vezes impertinente e dominada por espírito de contrariedade; que deixasse, confiante no futuro; não era natural que estivesse eu em erro, porque toda a complicada arquitetura do edifício daquela felicidade tinha a sua base na experiência dos fatos essenciais da vida doméstica e no profundo estudo da desgraça do amor conjugal. Ela, ameigando-me contente jurou que de corpo e alma se entregaria às minhas mãos, e que nem só me obedeceria sempre, mesmo depois de casada, como ainda havia de ajudar-me na execução dos meus desígnios.
Abraçamo-nos, satisfeitas e concertadas com aquela conferência.
- Olha! disse-lhe, em remate. Asseguro-te é que, até hoje, mãe nenhuma pensou na felicidade de sua filha com tamanha dedicação, nem fez por ela os sacrifícios que por ti afronto, minha Palmira. O menos que me pode acontecer é ser amaldiçoada por teu futuro marido, por quem aliás devia eu ter o direito de ser amada como verdadeira protetora. Ah! não me iludo neste ponto! Não procuro enganar-me - bem sei o que me espera!...
No dia seguinte a esta conversa, que sem dúvida ia ter uma grande influência moral no destino de minha filha, mandei preparar as malas e parti com ela para Petrópolis, combinando entre nós duas que de nada se daria parte ao pretendente. Manobra de guerra! Queria provocar o inimigo. A minha retirada brusca era simples negaça feita ao assaltante. Convinha que Leandro, desde logo, se fosse habituando ao meu sistema estratégico.
Produziu efeito. Ele, três dias depois, surgia-nos por lá, com um ar de hesitação solerte e um grande ramo de camélias frescas. Recebi por minha parte a visita um pouco friamente, e nenhuma de nós duas insistiu com ele para que se demorasse. O rapaz, logo à primeira despedida, foi-se, escabreado e vermelho de confusão.
Como no outro dia, encontrando-nos na rua, se embandasse conosco para um passeio à Renana e declarasse que passaria o resto do mês em Petrópolis, tocamos na manhã seguinte para a cidade, sem que ele desse pela nossa retirada. Palmira tentara interceder desta vez pelo namorado; arriscara mesmo a súplica de um dia mais de demora; eu, porém, cortei-lhe a palavra com um olhar, em que a pobre criança leu toda a inutilidade da sua pretensão.


* * *


Foi um mês depois disso que se deu o pedido de casamento.
Era domingo; tínhamos acabado de jantar e havíamos passado para o gabinete de trabalho que fora de meu marido, quando, depois de ouvir parar um carro à porta da rua, veio o criado anunciar-me que o Sr. Leandro, vestido de casaca, estava à espera na saleta do corredor e desejava falar-me.
Compreendi logo do que se tratava: César já me tinha preparado; mas nem por isso foi menos agudo o choque que senti no coração. Troquei um olhar com Palmira, que abaixou as pálpebras enrubescendo. Mandei que o criado conduzisse o visitante para o salão, e disse depois a minha filha, cujo crescente sobressalto lhe fazia arfarem os seios, que se não nos apresentasse sem ser chamada; passei-lhe com os olhos uma rápida revista da cabeça aos pés, fiz-lhe ligeiras correções no penteado, dei-lhe um beijo e saí do gabinete.
Ó meu Deus! ia travar-se o grande momento, que de antemão me fazia tremer de medo; medo de que o ridículo, num só instante, derribasse todos os meus castelos de mãe amorosa e sonhadora. O que iria passar-se naquela sala entre mim e o pretendente de minha filha?... Mas era preciso não hesitar no que estava por mim determinado, porque assim exigia a felicidade dela! Entrei um instante no quarto do oratório e, numa ligeira súplica, pedi coragem a Deus; segui depois até ao toucador, alisei melhor os cabelos sobre as fontes, corri os olhos rapidamente pela roupa, e fui ter com a visita.
Entrei na sala vagarosamente, afetando grande tranqüilidade; havia, porém, de estar ainda ofegante e pálida.
Leandro mostrava-se francamente comovido. Ao ver-me, precipitou-se ao meu encontro e balbuciou algumas palavras de cortesia, que lhe não passaram dos lábios.
Fi-lo assentar-se e assentei-me perto dele.
Com prazer notei que o belo moço, assim em alto trajo, mais belo ainda me parecia. Tinha aparado a barba, os dentes luziam-lhe como se fossem de um metal branco e polido, e os seus grandes olhos de safira pareciam jóias coruscantes. A casaca assentava-lhe muito bem, desenhando-lhe a cinta esbelta, fazendo sobressair o seu busto altivo, e deixando em desembaraço a rica musculatura das coxas. E a comoção enriquecia-lhe mais o rosto com uma austera palidez de mármore consagrado pelos séculos.


* * *

Depois que o meu espírito atingiu o seu pleno desenvolvimento, sempre achei o homem mais belo que a mulher; ou por outra: achei que a beleza do homem era mais valiosa que a beleza feminina, como de resto se observa geralmente nas várias espécies de animais inferiores.
A mulher tem encantos, mas o homem tem real beleza. Nos encantos da mulher há todos os perturbadores mistérios da volúpia terrestre, mas na serena e máscula beleza do homem há sempre um quê de divino e sagrado. Nenhum homem será capaz de impressionar-se pelos encantos físicos de uma mulher, sem que nisso entre o concurso dos seus sentidos; ao passo que qualquer mulher pode admirar um homem belo, sem desejá-lo sensualmente. É assim que nós mulheres amamos Jesus Cristo; e se Maria, a formosa Virgem Santíssima, não tivesse, para resguardar a sua enamorada e frágil boniteza de mulher, a celestial e sacrossanta auréola de mãe de Deus, o que seria de ti, ó doce, poético e venerando prestígio do Catolicismo?...
Cristo atravessa os séculos, todo nu, de braços abertos para a humanidade, e a sua nudez de homem jamais trouxe rubor de pejo às faces da donzela, nem acordou desejos no peito das mulheres.
Mas se despissem Maria das castas vestimentas que lhe escondem o divino corpo, ela deixaria de ser a piedosa e cândida rainha dos céus, e seria Vênus, a deusa do amor e do pecado.
Estas considerações fi-las eu defronte do homem a quem minha filha chamava, de braços abertos e lábios postos em beijo, através das alvas e rendilhadas pétalas do seu leito virginal - grande lírio branco, embalsamado e puro, que franqueava a sua urna de amor ao resplandecente inseto fecundante.
Palmira tinha inteira razão em chamá-lo e desejá-lo com tamanho amor: um homem perfeito como aquele é a melhor obra de Deus. A mulher, essa lhe é tão inferior, em todos os sentidos, que não chega a ser o seu par, mas um simples complemento dele. A perfeição da mulher não é absoluta, como a do homem, é relativa. Se o homem tivesse sempre a compreensão justa do seu próprio valimento e da superioridade, havia de ser para a pobre mulher muito melhor do que é com efeito; seria verdadeiramente o seu protetor moral, o seu bom e paternal amigo, e não o seu egoísta e sensual adversário. E quando um homem se colocasse, como muita vez sucede, ao nível da fraqueza de uma mulher, para enganá-la de igual a igual, teria vergonha e remorsos de haver com isso cometido a mais degradante covardia que é possível no seu sexo. Se esse poderoso, belo e adorado animal, que tem forma de Deus, e que nos governa brutalmente, compreendesse a responsabilidade da sua força - quando um homem de trinta anos conseguisse iludir uma rapariga de quinze, ele, e não ela, é que ficaria desonrado.


* * *

- Minha senhora... balbuciou Leandro, afinal, vergando-se para falar-me de mais perto.
E eu interrompi meus pensamentos, para escutá-lo. E inclinei-me também, dizendo a meia voz:
— Estou às suas ordens, amável senhor. Pode dizer qual é o motivo da sua visita...


CAPÍTULO XIII

- Antes de falar, minha senhora, no delicado objeto que aqui me traz... principiou Leandro, com a voz um pouco alterada, preciso da prévia garantia do seu perdão, sem o que não teria ânimo de cometer semelhante atrevimento...
Autorizei-o a que falasse e prometi a minha indulgência.
- Imagine, minha generosa senhora, continuou ele, imagine como devo tremer em sua presença... Juro-lhe que, se o meu amor não me merecesse todos os sacrifícios e não me tivesse roubado a razão, não cometeria eu a loucura, a temeridade, o crime talvez, que estou agora perpetrando...
- Continue, acudi, sem modificar a minha fisionomia.
- Imagine, minha senhora: eu, que nada sou; um pobre diabo sem passado e sem futuro, filho de uma união irregular, atrevo-me a vir pedir-lhe me conceda tudo o que há de melhor no mundo; tudo o que há de mais puro, de mais belo, de mais ideal! Imagine que eu, um desgraçado, tenho o desvairamento de pedir-lhe a mão de...
Hesitou, abaixando os olhos. Compreendi que, a menor palavra de recusa, o pranto rebentaria deles com violência.
- O senhor está autorizado por minha filha a fazer-me semelhante pedido? perguntei-lhe depois de uma pausa, em que ouvia a larga respiração dele.
- Sim, minha senhora.
- E, no caso que obtenha o meu consentimento, estará o senhor disposto a fazê-la feliz, como eu o entendo?
- Juro! exclamou o rapaz.
- Não! não jure ainda, sem primeiro responder-me, se já sabe como é que tem de a fazer feliz...
- Minha senhora, volveu Leandro, reanimado por estas palavras e aproximando a sua cadeira para mais perto da minha, ainda há pouco não pude entrar em pormenores, nem disse quase nada do que trago a intenção de dizer... V. Ex.a compreenderá sem dúvida o meu estado de comoção...
- Sim. Fale.
- Minha senhora, eu adoro sua filha, e sei, e sinto, e afianço, que nunca mais amarei assim outra pessoa em toda a minha vida! Juro que...
- Não! - interrompi. - Não prometa coisa nenhuma! Fale só do presente; deixe lá o futuro que a Deus pertence! Quem pode nesta vida determinar com segurança alguma coisa futura?... Pois se pelo passado, que já está vivido, nem sempre podemos responder, porque ele às vezes nos foge da memória, como quer o senhor legislar sobre o porvir, ainda todo incerto? Fale-me do presente!
- Tem razão, minha senhora, e consinta que eu prossiga: Amo loucamente a senhora sua filha e só com ela posso compreender uma união eterna... Mas, V. Ex.as são ricas e eu sou pobre... ganho pouco; esse pouco, porém, chega com economia para duas pessoas resignadas... Entretanto, se ela própria me não tivesse jurado aceitar com satisfação o sacrifício de partilhar da minha pobreza, não faria a V. Ex.a, nem por pensamento, o temerário pedido que acabo de fazer. Desejo que V. Ex.a me conceda sua filha, sem outro dote além das virtudes que a enobrecem e além dos seus encantos pessoais...
Eu sorri. Não sei se era sincero o que ele dizia. Talvez fosse, porque a mocidade é quase sempre generosa e o primeiro amor é leal e adora o sacrifício. Mas a idéia, de consentir que minha filha partilhasse do magro ordenado de um amanuense de secretaria, pareceu-me infinitamente extravagante.
Já se vê que entrava no meu sorriso um pouco de vaidade; qual é, porém, o nosso ato social em que a vaidade não entre em grande ou pequena dose?
- Senhor José Leandro de Oviedo, declarei-lhe formalmente - o dote de minha filha pertence a minha filha. Dele partilhará a pessoa que se casar com ela; e se dela tiver filhos, herdará de mim, como a esposa, o que eu por minha vez herdei de meus pais, de meu sogro e de meu marido. Isso é questão assentada e nem é disso que convém tratar aqui. Entendo que tanto pode dignamente um moço pobre casar com uma moça rica, como um rico dar a mão de esposo a uma pobre, desde que essa união seja inspirada no interesse do amor e não no interesse do dinheiro. As idéias a isso contrárias são cópia de mal-entendido orgulho do homem. Entendem eles que uma mulher deve aceitar tudo das mãos do marido, e que este no entanto fica humilhado recebendo iguais benefícios da mão da consorte. Não é má essa moral! Que o homem faça do casamento um meio de enriquecer, acho indigno, como igualmente acho se o fizer a mulher; se o consórcio, porém, não for obra do dote e sim do amor, nada mais curial que os dois dividam amigavelmente entre si o que um deles possua, e que vivam felizes. Mas, graças a Deus, tanto minha filha como eu, somos bastante ricas para nos não preocuparmos em saber se o noivo dela traz ou não traz bens de fortuna; mesmo porque o casamento de Palmira não será um casamento vulgar, e coisas muito mais sérias que o dinheiro têm de ser discutidas nesta ocasião, aqui entre nós dois. Ponhamos pois de parte a questão pecuniária. Não se persuada, todavia, o senhor de que, por não trazer dote, esteja dispensado de dotá-la. A retribuição que exijo é de outra espécie, mas não é por isso menos valiosa que o dote dela...
- V. Ex.a tenha a bondade de dizer o que exige de mim. Seja o que for, estou pronto a cumprir! E o que não faria eu para alcançar tão grande e sublime prêmio?
— Pois responda às perguntas que lhe vou fazer...
— Estou inteiramente às suas ordens, minha senhora.
— O senhor ama minha filha tanto quanto diz?
— Juro que a amo tanto quanto é possível!
— E será capaz de um grande sacrifício para obtê-la em casamento?
— Desde que não seja um sacrifício de honra... estou disposto a tudo!
- Não, não é um sacrifício de honra, e antes de prosseguir, declaro-lhe que minha filha é pura, perfeitamente pura!
- Posso então jurar que, seja qual for o sacrifício, eu o farei, minha senhora!
- E como me provará o senhor que é um homem de honra, para que sua palavra me sirva de garantia?
- Pode V. Ex.a indagar a meu respeito de todas as pessoas que me conhecem. Até hoje tenho sido um homem honrado: nunca faltei à minha palavra, nem cometi ação que pudesse desdourar o meu caráter...
- E como garantir a sua palavra?
- Posso assinar um documento, um título de honra. Aceito as condições que V. Ex.a exigir...
- Pois então o senhor assinará uma declaração, formal e precisa, dirigida à polícia, dizendo que a ninguém devem atribuir a autoria da sua morte, porque foi o senhor mesmo quem pôs termo aos seus dias. E empenhará comigo a sua palavra de honra em como a ninguém revelará a existência desse documento; documento que será reformado de três em três meses. Aceita?
— E é esse o sacrifício que V. Ex.a exige de mim?... perguntou Leandro, a sorrir.]
- Não, respondi eu, muito séria - isso é apenas a garantia da sua palavra e da minha impunidade, caso tenha eu algum dia de eliminá-lo para sempre de minha família. Esse documento só servirá na hipótese de que o senhor falte ao cumprimento de sua palavra, porque então, juro-lhe que o farei matar...
— Ah!
- Sem dúvida. E ainda está em tempo de voltar atrás. O senhor ainda se não comprometeu comigo a coisa alguma.
- Recuar? Acha V. Ex.a que eu possa recuar, desistir da única felicidade que ambiciono neste mundo?!
— Pense bem, antes de responder...
- Não há que pensar! Uma recusa em nada me adiantaria; V. Ex.a dispõe já de minha vida; tem-na fechada na mão! Tanto vale dar-me a morte, negando-me sua filha, como me fazendo assassinar.
— O senhor só será assassinado se não cumprir com a sua palavra.
— Tenha a bondade de dizer o que exige de mim.
- É pouco. O senhor, depois de casado com minha filha, não coabitará com ela; o senhor morará só, numa boa casa, bem servida e bem mobiliada, que porei às suas ordens; ao passo que Palmira continuará a residir em minha companhia e só estará com o marido o tempo e às vezes que eu consentir. Serve-lhe?
— Mas eu terei então de viver separado de minha esposa?
- Separado totalmente, não. O senhor poderá vê-la e estar com ela freqüentemente, não digo todos os dias, mas quase todos. Prometo mesmo que minha filha passará ao lado do marido um ou mais dias; levo até a condescendência a tolerar que fiquem juntos uma ou outra noite. Mas, desde que eu a reclame ou vá buscá-la, o senhor não poderá opor-se a que ela venha para a minha companhia...
- V. Ex.a está gracejando com certeza... ou suporá que a minha intenção é privá-la de ver a senhora sua filha todas as vezes que quiser? Mas, se assim for, valha-me Deus! não vejo razão para não morarmos juntos!...
- Não! não! Não estou gracejando, nem admitirei, nunca, que o senhor more conosco. Nunca! E só consinto no casamento, sob as condições expostas. Se elas lhe convêm, o senhor passará o documento, e minha filha será sua esposa...
— Mas, permita, minha senhora, que...
- É inútil, senhor, toda e qualquer reclamação. Repito que só consentirei no casamento de minha filha com o senhor, ou seja com quem for, nas condições apresentadas. Se quer algum tempo para refletir, pode retirar-se; dou-lhe quinze dias.
Leandro, que agora parecia ouvir minhas palavras como ouve um condenado a sentença de morte, apertava os lábios, franzia as sobrancelhas e cerrava os punhos, mal contendo a sua agonia. Afinal, disse com o ar submisso e a voz resignada:
- Para que refletir, minha senhora?... Estou disposto e estou pronto para tudo. Aceito o compromisso!
- Pois aí, na saleta ao lado, declarei, erguendo-me da cadeira - encontrará o senhor papel e tinta; passe o documento pela minuta que lhe vou dar. Já a tenho escrita. Com licença.
E saí da sala, para ir buscar a minuta à gaveta da minha secretária, e principalmente para respirar, no alívio daquela solução.
Ah! felizmente estava passado o grande escolho!
De volta fui ter com Palmira. À minha primeira palavra, ela declarou, enrubescendo e sorrindo, que ouvira toda a minha conversa com Leandro.
— Bisbilhoteira!... E o que tens tu a observar?... perguntei-lhe.
— Eu?... Mamãe bem sabe que sempre acho bem feito tudo o que a senhora fizer...
Dei-lhe um beijo na testa e voltei ao salão, depois de fazer-lhe sinal que podia vir também.

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