LIVRO DE UMA
SOGRA
Aluísio de Azevedo
CAPÍTULO XI
Mas o homem põe, e Deus dispõe; um ano decorreu sem
que eu descobrisse, para minha filha, um oficial de marinha que
lhe conviesse. Ela acabava de fazer dezenove anos e era um mimo
de graça e de inocência; amava-me extremamente, e jurava
que me faria todas as vontades - só para me ver feliz.
Coitada! - Ver-me feliz!... a mim! Como se no mundo houvesse para
mim, outra felicidade que não fosse a dela própria.
Durante todo esse ano dei festas em minha casa; comecei a receber,
às quartas-feiras, todas as semanas. Como sabiam por aí
que éramos ricas, não faltavam pretendentes à
mão de minha filha; e o bom acolhimento que dispensei logo
à farda de marinha encheu-me as salas de velhos e jovens
oficiais dessa milícia, com tamanha profusão, que
cheguei a recear ter inutilizado o gênero, barateando-o aos
olhos de Palmira.
Minha casa parecia já uma repartição de Marinha,
e no entretanto a rapariga não se decidia por nenhum dos
oficiais. Verdade é que bem raros se me afiguravam corresponder
aos requisitos exigidos. Só um Saturnino da Rocha, primeiro-tenente,
de vinte e cinco anos, me deu vivas esperanças. Um belo moço!
Mas o Dr. César disse que ele tinha a solitária. Pusemo-lo
à margem.
Com o que eu não contava foi o que sucedeu, como acontece
quase sempre. Entre os candidatos, colhidos pela rede que atirei
ao mar para pescar um noivo, veio, de mistura com os legítimos
representantes daquele poético elemento, um empregado público,
de Segunda ou terceira ordem, um amanuense de secretaria, amador
de música; um verdadeiro contrabando, impingido já
me não lembra por quem. Era ainda muito moço, bonito
e bem apessoado. Estudei-o de relance; não me pareceu mau
de gênio e revelou inteligência quase regular. Tocava
piano e bandolim com certa graça; falava inglês, francês
e espanhol. Era pobre.
- Quem sabe?... pensei eu. Talvez apesar da idade, cuja diferença
de Palmira me parecia pequena demais, estivesse naquele contrabando
um rapaz aproveitável para os fins que eu tinha em vista...
Mas, que pena! não era oficial de marinha!... De todos os
proponentes era, todavia, e sem termo de comparação,
o melhor como estampa.
Interpelei minha filha, a respeito dele, frouxamente, como por descargo
de consciência. E qual não foi o meu espanto quando
a vi reproduzir fielmente todos os gestos retraídos, que
eu própria fizera quando me consultaram, nas mesmas condições,
sobre o meu defunto esposo?
Ela abaixou os olhos, corou, sorriu quase imperceptivelmente, e
começou a percorrer com os dedos da mão direita os
botões do corpinho do seu vestido.
Tomei-lhe as mãos; estavam frias e ligeiramente trêmulas.
Interroguei-a de novo, e Palmira, em vez de responder, caiu-me nos
braços, soluçando.
Era a coisa, não havia dúvida! Comigo tinha sido tal
e qual!
Gostas dele... Não é verdade, minha filha?...
perguntei-lhe, beijando-a na testa.
Eu o amo, minha mãe... foi a sua única resposta.
- Tu o amas! - Sabes lá o que é isso! Queira Deus
que não estejas procurando iludir-te; iludir a ti e a mim!
Não te deixes levar por falsas impressões!...
Só com ele me casarei por meu gosto! Só com
ele serei feliz!...
- Isso é o que todas nós dizemos nas tuas condições,
minha filha... Mas não te mortifiques, que, se o rapaz te
ama deveras, e se estiver em condições de casar contigo,
não serei eu que a tal me oponha, porque bem sabes que só
procuro e quero a tua felicidade.
Ela, transportada, beijou-me repetidas vezes, agradecendo-me com
as suas carícias as minhas palavras.
Todavia, talvez que de nós duas fosse eu a mais comovida
nesse momento. Quando me separei de Palmira, encerrei-me no quarto
e chorei copiosamente. Por quê? Não sei dar a razão;
só afianço que um doloroso sobressalto se apossou
de mim, e uma dura e fria tristeza, tristeza de velho, encheu-me
o coração e escureceu-me a vida.
Procurei consolar-me, refugiando-me na idéia da felicidade
de minha filha. Ah! pobres corações de mãe!
pobres corações, que tanto sofreis para depois ainda
mais vos amesquinhardes, chorando sob o peso infamante e ridículo
desta terrível palavra - Sogra!
E apressei-me a procurar o meu amigo. Fui logo no dia seguinte à
casa dele. César, ao receber-me, percebeu a minha tristeza;
compreendeu-a talvez. Mas não me disse uma só palavra
a respeito dela; apenas tomou-me a mão e afagou-a entre as
suas, como de costume.
Para bem nos entendermos, os dois, bastava-nos o olhar!
Assentei-me junto à secretária, bem perto da sua cadeira
e, em voz baixa e comovida, dei-lhe parte de tudo, e concluí,
pedindo-lhe que viesse à minha casa na próxima reunião.
- O pretendente lá estaria. César prometeu ir.
E não faltou com efeito.
* * *
Tínhamos
muita gente essa noite em casa. Havia concerto e depois dança.
Os uniformes da marinha, rebrilhantes de galões dourados,
cruzavam-se em todas as salas, ofuscando as casacas pretas e dando
àquela minha modesta Quarta-feira, oficiais realces de uma
festa de corte. As damas afidalgavam-se, pareciam até mais
amáveis e mimosas ao reflexo das refulgentes dragonas.
Minha filha cantaria ao piano, acompanhada pelo seu preferido. Ela
resplandecia de sedução, naqueles primeiros arrulhos
de pomba amorosa, que procura fazer ninho; estava alegre, saltitante,
ébria de ilusões e de esperanças.
E pensar eu que, daí a algum tempo, toda aquela gárrula
confiança no amor, toda aquela louçania de inocência
e toda aquela frescura de mocidade, poderiam emurchecer e transformar-se
no que eu sofri pouco depois que me casei!... Ah! mas eu lá
estaria ao lado dela para vigiar-lhe o leito de recém-casada,
como lhe vigilara, outrora, o berço de recém-nascida.
E o meu coração de mãe tremia tanto agora,
ao vê-la assim sorrir de ventura às primeiras pulsações
do amor, quanto tremera dantes, aos seus primeiros vagidos e às
primeiras lágrimas que lhe vi nos olhos.
O concerto correu bem, Palmira foi feliz no que cantou acompanhada
pelo namorado, creio até nunca lhe ter ouvido cantar com
tamanha expressão. Mal deixaram o piano, apontei o rapaz
ao meu velho amigo, que começou logo a observá-lo
disfarçadamente.
Daí a pouco apresentei-os um ao outro, e não os perdi
mais de vista.
César, insinuante como é, ganhou logo a simpatia,
e suponho até que a confiança do pretendente de Palmira.
Vi-os passear juntos durante longo tempo, sem deixarem nunca de
conversar com o mesmo interesse. Depois tomaram uma das janelas
da saleta de estudo, e continuaram na palestra, mais à vontade.
Eu, do lugar em que estava, podia observá-los. O médico
com certeza falava já de coisas concernentes à boa
disposição física, porque notei que o outro
sacudia com desembaraço as pernas e os braços, empinando
soberbo a cabeça e o peito como para dar idéia da
sua perfeita compleição muscular.
Não pude deixar de rir, principalmente quando César,
lá do fundo de sua janela, me fez sinal com os olhos de que
a coisa caminhava bem.
O rapaz parecia com efeito muito bem constituído. Era delgado
e forte, rico de espádua; boa estatura, pernas e braços
bem proporcionados; bom cabelo, olhos vivos, de azul forte; tez
limpa, de um moreno pálido, sadio e fresco; barba vigorosa,
bem preta, luzidia e fina; unhas másculas e rijas. E os dentes
pareciam-me de primeira ordem.
Já morria de impaciência quando o meu bom César,
arranchando-se comigo para tomar chá a um canto da sala de
jantar, me veio dar conta da sua missão.
- Creio que temos o homem! - declarou logo, antes de assentar-se
ao meu lado. E segredou-me depois: - Mas não dou por enquanto
a minha opinião definitiva...
Ah!...
- Ficamos amigos... acrescentou César. Ele, sabe? vai depois
de amanhã à minha casa, e, como tem gosto pelos jogos
e exercícios de força e faz grande vaidade da sua
musculatura, creio que o convencerei de que deve por sistema tomar
duchas no meu estabelecimento hidroterápico. Ah! então
sim, poderei dar com segurança o meu veredicto!
Aqueles dentes?... Reparou se são verdadeiros?
São. Afianço!
* * *
Daí a
dias, o meu zeloso ajudante-de-ordens procurava-me para dizer-me
radiante:
- Completo sucesso! Auscultei e observei minuciosamente o rapaz.
Creio até que o maganão adivinhou, ou compreendeu,
qual era a razão particular que me dirigia, porque veio,
por bem dizer, ao encontro do meu desejo e prestou-se ao exame,
sorrindo, sem esconder a sua vaidade de homem forte, consciente
da sua riqueza orgânica!
Estávamos a sós, na biblioteca, lá em casa.
Aproximei-me mais do meu velho amigo, com interesse; e ele acrescentou,
dando com ambas as mãos duas palmadas simultâneas nas
próprias coxas.
- Um rapagão, Olímpia! O que se pode chamar um rapagão!
Equilíbrio perfeito entre o sistema nervoso e o sistema muscular!
Órgãos em belo estado de pureza! Uma autópsia
seria a mais esplêndida vitória para as suas vísceras!
Devia deixar-se dissecar, por orgulho!
Então, César!... Fale a sério, meu amigo!
- Não lhe descobri o menor vício no organismo. Os
pulmões são os de um ferreiro; o coração
funciona como um Patek Philippe; o fígado não parece
fígado nacional. Os rins fariam inveja aos de um atleta!
Tórax soberbo; bíceps de gladiador! Em minha presença
manejou, com a maior facilidade e destreza, halteres de trinta quilos
cada um!
Sim?...
- É o que lhe digo! E a conformação geral do
corpo, esteticamente falando, é simplesmente maravilhosa!
Quando o vi nu, pensei ter defronte dos olhos uma estátua
grega. Marte e Apolo fundidos, formando um homem. Que belo conjunto
de força e delicadeza anatômica! Nem sei como, com
a degeneração da raça latina e com a crescente
depravação de costumes, ainda possa haver - no Brasil!
Um moço em semelhantes condições físicas!
Verdade é que ele é de raça catalã!
Que entusiasmo, meu amigo!
- Entusiasmou-me com efeito, o demônio do rapaz! Nunca vi,
na minha clínica, um espécime tão puro! É
verdadeiramente um belo animal!
- Acha-o então, César, quanto ao físico...
no caso de preencher cabalmente o nosso ideal de... de marido de
Palmira?
Oh! Por esse lado não poderíamos desejar melhor!
E, pelo outro! Que tal será ele? Diga-me, achou-o
simpático!...
- Ora! Um homem naquelas condições é o orgulho
de sua espécie e há de ser fatalmente simpático.
O que mais é a simpatia senão o reflexo da bondade?
e a bondade é um produto lógico da saúde perfeita
e da força, como são a coragem e a alegria. Fiquei
gostando dele infinitamente. Ah! se aquele ladrão fosse meu
filho?
Ainda bem, meu amigo...
- Oh! Pode estar amplamente satisfeita com ele, Olímpia,
e dá-lo, quanto antes, para noivo da nossa formosa Palmira.
Aquele, se não for vítima de algum acidente, ou não
apanha algum diabólico micróbio que o estrague, morrerá
de velho!
Agradeci penhoradíssima os bons serviços do meu querido
amigo e pedi-lhe que me ajudasse a colher, logo desde o dia seguinte,
informações sobre o passado e sobre o caráter
do pretendente de minha filha.
* * *
Desde o dia
seguinte, com efeito, pusemo-nos em campo. E foram quatro meses
de ininterrompidas pesquisas, em que eu despendi um grande capital
de dedicação, de atividade e de paciência, cujo
segredo só mesmo um coração de mãe poderia
achar. Mas não lamento tais canseiras, porque cheguei ao
completo resultado do que eu queria.
Eis o que colhemos:
O rapaz chamava-se José Leandro de Oviedo. (Isso já
eu sabia). Nasceu na província do Rio de Janeiro, numa fazenda
de Teresópolis. Era filho de Manoel Oviedo, pinto espanhol,
que o teve de uma tal Margarida Porto, senhora brasileira por ele
tomada do marido, um rico fazendeiro de café, e com a qual
viveu o pintor dez anos.
Leandro foi o primeiro filho de Oviedo, (Esta circunstância
animou-me a seu favor) e o único que sobreviveu aos pais.
Criou-se na fazenda, mas aos cinco anos fez com a família
uma viagem à Europa, donde voltou com dez, já órfão
de mãe. O pai destinava-o ao comércio e quis, ao tornar
aqui, pô-lo de caixeiro em uma loja de ferragens, mas o padrinho,
um tal Gonçalves, com quem o rapaz fora habitar de volta
ao Brasil, remeteu-o, três anos depois, para um colégio
na Inglaterra, donde Leandro voltou aos dezoito de idade, por morte
do seu protetor. Não consegui saber se deste herdou então
alguma coisa; soube, sim, que nesse tempo fez ele uma excursão
pelas províncias do sul do Brasil, dando com pouco sucesso
concertos de piano e bandolim. Dois anos depois morreu-lhe o pai,
em completa miséria.
Alguns quadros, e outros objetos que deixou, foram vendidos para
pagar o enterro e o último mês de tratamento em uma
casa de saúde. Aos vinte anos entrou Leandro, como amanuense,
para a secretaria, onde era segundo oficial quando pretendeu minha
filha.
Não me souberam informar se foi bom filho, não descobri
quem era ao certo o tal padrinho, que o mandou a educar em Londres,
nem tampouco a razão por que este, homem rico naturalmente,
o protegeu tanto em vida, sem dele se lembrar depois no testamento;
afiançaram-me, porém, que Leandro era moço
de bom caráter, regularmente estimado, e que havia rejeitado
casamento com a filha de um negociante forte, mas rapariga feia
e pretensiosa. Não me constou também que se desse
ao jogo, tampouco ao álcool, nem fizesse loucuras por mulheres
de má vida. Descobri que ultimamente morava ele, havia um
ano, numa casa de família honesta, que lhe alugava um quarto;
e soube que tinha um amigo íntimo, com quem era visto sempre
aos domingos no clube ginástico a que ambos pertenciam, um
Leão da Cunha, rapaz rico e viajado, sócio comanditário
de uma casa de comissões no Rio de Janeiro.
E tudo isto descobrimos, César e eu; tudo desenterramos,
por amor de minha filha; e foi obtido e foi tudo feito com a máxima
reserva e discrição. Leandro, ao que suponho, não
desconfiou de coisa nenhuma.
Estudando-o de mais perto reconheci que as suas maneiras eram, de
fato, convenientes e não afetadas para nos engodar durante
o namoro; pareceu-me até que, por debaixo daquela forte robustez
física, havia um caráter tímido e paciente.
Notei com satisfação que ele não abusava do
fumo e detestava o cachimbo. Não me pareceu absolutamente
ambicioso. Falava pouco do seu piano e do seu bandolim. No entanto,
as suas cartas a Palmira, as quais esta me mostrava sempre, eram
discretamente escritas, na forma como no fundo, e pareciam sinceras
no que diziam de amor.
Convenci-me afinal de que a coisa única que me restava a
fazer era casá-los, dando ainda graças a Deus por
ter-me deparado tão bom partido.
Minha filha mostrava-se cada vez mais empenhada por ele, e Leandro
cada vez mais disposto a obedecer-me e respeitar-me nos meus desígnios.
Íamos bem.
Quanto a mim, tomava-lhe já a estima e habituava-me à
idéia de ver nele um futuro filho. Tudo, não obstante,
dependia da sua boa ou má disposição para aceitar
as condições do casamento. Deliberei impor-lhe as
provas preliminares. Entrei em campanha - principiei a contrariá-lo.
Comecei a ser sogra!
CAPÍTULO XII
Meu Deus, como
eu, que aliás ainda não tinha então descoberto
a terrível lei da incompatibilidade do amor físico
com o amor moral, me sentia já ansiosa e apreensiva, pensando
no casamento de Palmira! Aquele rapaz, mesmo rigorosamente dirigido
por mim, faria com efeito a felicidade de minha filha?... Amá-la-ia
deveras? Seria ele com efeito um bom moço, ou teria conseguido
enganar-nos, com os seus gestos de jovem atleta civilizado e com
os seus claros sorrisos de mocidade olímpica? Oh! também
só nisto punha eu todo o meu empenho - em que ele não
nos iludisse; pois, quanto ao fato da sua pobreza e da sua modesta
procedência, longe de fazer-lhe carga, dava-lhe até
boas vantagens ao meu ver. Minha filha e eu éramos bastante
ricas, para não precisarmos perturbar o plano da felicidade
dela, e minha, com mais esses frios interesses de dinheiro.
Que era ele um belo exemplar de homem, isso é o que ninguém
poria em dúvida, e isso valia bem pelo dote pecuniário
de Palmira; pelo outro, ainda mais bonito que ela trazia em pureza,
inocência e formosura, valeria a boa vontade com que o noivo
aceitasse as estreitas e rigorosas condições, que
eu lhe ia impor ao casamento. E nesta última parte estava
o ponto mais delicado da questão; para realizá-la,
sem futuros prejuízos dos meus planos de absoluto domínio
sobre eles, dispunha-me a empregar todo o esforço e toda
a astúcia de que eu fosse capaz; pois, em consciência,
a verdade era que outro homem já não queria eu, nem
já me convinha, para cavalheiro de minha filha ou para gerador
de meus netos porque outro com certeza não descobriria eu
em condições naturais tão boas e perfeitas
como Leandro. Até a sua própria mediocridade de inteligência
se me afigurava o belo complemento da sua perfeição
de animal humano: - o talento elevado a certo grau é sempre,
no amor, uma anormalidade perigosa. Achava-o cada vez melhor e mais
próprio para bom marido; achava-o, além disso, muito
simpático e atraente; achava graça naquele seu tipo
moreno pálido, de olhos muito azuis e cabelos muito pretos;
até mesmo o crespo sotaque inglês, que a princípio
lhe estranhei e me fazia torcer o nariz, agora achava eu que lhe
ia bem com o sonoro metal da sua voz masculina e forte.
Entretanto, não me convinha de modo algum que ele alcançasse
com facilidade a certeza da posse de minha filha. Afastava-os intencionalmente;
começava a representar, entre eles dois, o terrível
papel de linha divisória, de linha sanitária, estabelecida
em guerra contra os traiçoeiros inimigos das suas ilusões
de amor. Ah! quanto me custava, e quanto me aprazia ao mesmo tempo,
esse altruísta e odioso mister de delicada perseguição!
Quanto eu me sentia ir ficando sogra! Mas estava disposta a não
me arredar um passo do meu programa, ainda mesmo tendo mais tarde
de entestar, como já esperava, com a cólera de meu
genro e com as lágrimas de minha filha.
Seria muito preferível, em todo o caso, que ela chorasse
dessas lágrimas de ilusão a ter mais tarde de amargar
as lágrimas de desengano que chorei.
* * *
O namoro de
Leandro ia se tornando tanto mais insistente, quanto mais era por
mim contrariado. Só uma vez por semana lhe consentia viesse
ver a desejada, nas noites de recepção comum, como
todos os outros nossos freqüentadores; e isso bem percebia
eu que o torturava cruelmente.
Vingava-se nas cartas; essas, consentia eu, fingindo ignorá-las.
As cartas não podiam prejudicar, antes serviam, opostamente,
para manter firme a intensidade do desejo.
E as coisas assim corriam bem. Ele perseguia e cercava Palmira por
toda a parte e em todos os lugares, no passeio, nos teatros, nas
compras à rua do Ouvidor; mas, quando me via, antes de ver
minha filha, perturbava-se logo, sem ânimo de vir ter conosco
e contentando-se apenas em cumprimentar-nos com o chapéu.
Coitado! tinha-me medo!
Ah! se ele soubesse todavia quanto o meu coração é
bom!
Pareceu-me chegada a ocasião de preparar o espírito
de minha filha para a campanha já travada. Conversei largamente
com ela. Falei-lhe muito do seu casamento, não em tom de
mãe ralhadora, mas no de amiga confidente; falei-lhe como
se fosse apenas uma sua irmã mais velha. Palmira, felizmente,
compreendeu e compenetrou-se do louvável alcance da minha
norma de proceder. Disse-lhe claramente que a sua felicidade dependia
daqueles alicerces; e que ela me deixasse, a mim, parecer às
vezes impertinente e dominada por espírito de contrariedade;
que deixasse, confiante no futuro; não era natural que estivesse
eu em erro, porque toda a complicada arquitetura do edifício
daquela felicidade tinha a sua base na experiência dos fatos
essenciais da vida doméstica e no profundo estudo da desgraça
do amor conjugal. Ela, ameigando-me contente jurou que de corpo
e alma se entregaria às minhas mãos, e que nem só
me obedeceria sempre, mesmo depois de casada, como ainda havia de
ajudar-me na execução dos meus desígnios.
Abraçamo-nos, satisfeitas e concertadas com aquela conferência.
- Olha! disse-lhe, em remate. Asseguro-te é que, até
hoje, mãe nenhuma pensou na felicidade de sua filha com tamanha
dedicação, nem fez por ela os sacrifícios que
por ti afronto, minha Palmira. O menos que me pode acontecer é
ser amaldiçoada por teu futuro marido, por quem aliás
devia eu ter o direito de ser amada como verdadeira protetora. Ah!
não me iludo neste ponto! Não procuro enganar-me -
bem sei o que me espera!...
No dia seguinte a esta conversa, que sem dúvida ia ter uma
grande influência moral no destino de minha filha, mandei
preparar as malas e parti com ela para Petrópolis, combinando
entre nós duas que de nada se daria parte ao pretendente.
Manobra de guerra! Queria provocar o inimigo. A minha retirada brusca
era simples negaça feita ao assaltante. Convinha que Leandro,
desde logo, se fosse habituando ao meu sistema estratégico.
Produziu efeito. Ele, três dias depois, surgia-nos por lá,
com um ar de hesitação solerte e um grande ramo de
camélias frescas. Recebi por minha parte a visita um pouco
friamente, e nenhuma de nós duas insistiu com ele para que
se demorasse. O rapaz, logo à primeira despedida, foi-se,
escabreado e vermelho de confusão.
Como no outro dia, encontrando-nos na rua, se embandasse conosco
para um passeio à Renana e declarasse que passaria o resto
do mês em Petrópolis, tocamos na manhã seguinte
para a cidade, sem que ele desse pela nossa retirada. Palmira tentara
interceder desta vez pelo namorado; arriscara mesmo a súplica
de um dia mais de demora; eu, porém, cortei-lhe a palavra
com um olhar, em que a pobre criança leu toda a inutilidade
da sua pretensão.
* * *
Foi um mês depois disso que se deu o pedido de casamento.
Era domingo; tínhamos acabado de jantar e havíamos
passado para o gabinete de trabalho que fora de meu marido, quando,
depois de ouvir parar um carro à porta da rua, veio o criado
anunciar-me que o Sr. Leandro, vestido de casaca, estava à
espera na saleta do corredor e desejava falar-me.
Compreendi logo do que se tratava: César já me tinha
preparado; mas nem por isso foi menos agudo o choque que senti no
coração. Troquei um olhar com Palmira, que abaixou
as pálpebras enrubescendo. Mandei que o criado conduzisse
o visitante para o salão, e disse depois a minha filha, cujo
crescente sobressalto lhe fazia arfarem os seios, que se não
nos apresentasse sem ser chamada; passei-lhe com os olhos uma rápida
revista da cabeça aos pés, fiz-lhe ligeiras correções
no penteado, dei-lhe um beijo e saí do gabinete.
Ó meu Deus! ia travar-se o grande momento, que de antemão
me fazia tremer de medo; medo de que o ridículo, num só
instante, derribasse todos os meus castelos de mãe amorosa
e sonhadora. O que iria passar-se naquela sala entre mim e o pretendente
de minha filha?... Mas era preciso não hesitar no que estava
por mim determinado, porque assim exigia a felicidade dela! Entrei
um instante no quarto do oratório e, numa ligeira súplica,
pedi coragem a Deus; segui depois até ao toucador, alisei
melhor os cabelos sobre as fontes, corri os olhos rapidamente pela
roupa, e fui ter com a visita.
Entrei na sala vagarosamente, afetando grande tranqüilidade;
havia, porém, de estar ainda ofegante e pálida.
Leandro mostrava-se francamente comovido. Ao ver-me, precipitou-se
ao meu encontro e balbuciou algumas palavras de cortesia, que lhe
não passaram dos lábios.
Fi-lo assentar-se e assentei-me perto dele.
Com prazer notei que o belo moço, assim em alto trajo, mais
belo ainda me parecia. Tinha aparado a barba, os dentes luziam-lhe
como se fossem de um metal branco e polido, e os seus grandes olhos
de safira pareciam jóias coruscantes. A casaca assentava-lhe
muito bem, desenhando-lhe a cinta esbelta, fazendo sobressair o
seu busto altivo, e deixando em desembaraço a rica musculatura
das coxas. E a comoção enriquecia-lhe mais o rosto
com uma austera palidez de mármore consagrado pelos séculos.
* * *
Depois que o
meu espírito atingiu o seu pleno desenvolvimento, sempre
achei o homem mais belo que a mulher; ou por outra: achei que a
beleza do homem era mais valiosa que a beleza feminina, como de
resto se observa geralmente nas várias espécies de
animais inferiores.
A mulher tem encantos, mas o homem tem real beleza. Nos encantos
da mulher há todos os perturbadores mistérios da volúpia
terrestre, mas na serena e máscula beleza do homem há
sempre um quê de divino e sagrado. Nenhum homem será
capaz de impressionar-se pelos encantos físicos de uma mulher,
sem que nisso entre o concurso dos seus sentidos; ao passo que qualquer
mulher pode admirar um homem belo, sem desejá-lo sensualmente.
É assim que nós mulheres amamos Jesus Cristo; e se
Maria, a formosa Virgem Santíssima, não tivesse, para
resguardar a sua enamorada e frágil boniteza de mulher, a
celestial e sacrossanta auréola de mãe de Deus, o
que seria de ti, ó doce, poético e venerando prestígio
do Catolicismo?...
Cristo atravessa os séculos, todo nu, de braços abertos
para a humanidade, e a sua nudez de homem jamais trouxe rubor de
pejo às faces da donzela, nem acordou desejos no peito das
mulheres.
Mas se despissem Maria das castas vestimentas que lhe escondem o
divino corpo, ela deixaria de ser a piedosa e cândida rainha
dos céus, e seria Vênus, a deusa do amor e do pecado.
Estas considerações fi-las eu defronte do homem a
quem minha filha chamava, de braços abertos e lábios
postos em beijo, através das alvas e rendilhadas pétalas
do seu leito virginal - grande lírio branco, embalsamado
e puro, que franqueava a sua urna de amor ao resplandecente inseto
fecundante.
Palmira tinha inteira razão em chamá-lo e desejá-lo
com tamanho amor: um homem perfeito como aquele é a melhor
obra de Deus. A mulher, essa lhe é tão inferior, em
todos os sentidos, que não chega a ser o seu par, mas um
simples complemento dele. A perfeição da mulher não
é absoluta, como a do homem, é relativa. Se o homem
tivesse sempre a compreensão justa do seu próprio
valimento e da superioridade, havia de ser para a pobre mulher muito
melhor do que é com efeito; seria verdadeiramente o seu protetor
moral, o seu bom e paternal amigo, e não o seu egoísta
e sensual adversário. E quando um homem se colocasse, como
muita vez sucede, ao nível da fraqueza de uma mulher, para
enganá-la de igual a igual, teria vergonha e remorsos de
haver com isso cometido a mais degradante covardia que é
possível no seu sexo. Se esse poderoso, belo e adorado animal,
que tem forma de Deus, e que nos governa brutalmente, compreendesse
a responsabilidade da sua força - quando um homem de trinta
anos conseguisse iludir uma rapariga de quinze, ele, e não
ela, é que ficaria desonrado.
* * *
- Minha senhora...
balbuciou Leandro, afinal, vergando-se para falar-me de mais perto.
E eu interrompi meus pensamentos, para escutá-lo. E inclinei-me
também, dizendo a meia voz:
Estou às suas ordens, amável senhor. Pode dizer
qual é o motivo da sua visita...
CAPÍTULO XIII
- Antes de
falar, minha senhora, no delicado objeto que aqui me traz... principiou
Leandro, com a voz um pouco alterada, preciso da prévia garantia
do seu perdão, sem o que não teria ânimo de
cometer semelhante atrevimento...
Autorizei-o a que falasse e prometi a minha indulgência.
- Imagine, minha generosa senhora, continuou ele, imagine como devo
tremer em sua presença... Juro-lhe que, se o meu amor não
me merecesse todos os sacrifícios e não me tivesse
roubado a razão, não cometeria eu a loucura, a temeridade,
o crime talvez, que estou agora perpetrando...
- Continue, acudi, sem modificar a minha fisionomia.
- Imagine, minha senhora: eu, que nada sou; um pobre diabo sem passado
e sem futuro, filho de uma união irregular, atrevo-me a vir
pedir-lhe me conceda tudo o que há de melhor no mundo; tudo
o que há de mais puro, de mais belo, de mais ideal! Imagine
que eu, um desgraçado, tenho o desvairamento de pedir-lhe
a mão de...
Hesitou, abaixando os olhos. Compreendi que, a menor palavra de
recusa, o pranto rebentaria deles com violência.
- O senhor está autorizado por minha filha a fazer-me semelhante
pedido? perguntei-lhe depois de uma pausa, em que ouvia a larga
respiração dele.
- Sim, minha senhora.
- E, no caso que obtenha o meu consentimento, estará o senhor
disposto a fazê-la feliz, como eu o entendo?
- Juro! exclamou o rapaz.
- Não! não jure ainda, sem primeiro responder-me,
se já sabe como é que tem de a fazer feliz...
- Minha senhora, volveu Leandro, reanimado por estas palavras e
aproximando a sua cadeira para mais perto da minha, ainda há
pouco não pude entrar em pormenores, nem disse quase nada
do que trago a intenção de dizer... V. Ex.a compreenderá
sem dúvida o meu estado de comoção...
- Sim. Fale.
- Minha senhora, eu adoro sua filha, e sei, e sinto, e afianço,
que nunca mais amarei assim outra pessoa em toda a minha vida! Juro
que...
- Não! - interrompi. - Não prometa coisa nenhuma!
Fale só do presente; deixe lá o futuro que a Deus
pertence! Quem pode nesta vida determinar com segurança alguma
coisa futura?... Pois se pelo passado, que já está
vivido, nem sempre podemos responder, porque ele às vezes
nos foge da memória, como quer o senhor legislar sobre o
porvir, ainda todo incerto? Fale-me do presente!
- Tem razão, minha senhora, e consinta que eu prossiga: Amo
loucamente a senhora sua filha e só com ela posso compreender
uma união eterna... Mas, V. Ex.as são ricas e eu sou
pobre... ganho pouco; esse pouco, porém, chega com economia
para duas pessoas resignadas... Entretanto, se ela própria
me não tivesse jurado aceitar com satisfação
o sacrifício de partilhar da minha pobreza, não faria
a V. Ex.a, nem por pensamento, o temerário pedido que acabo
de fazer. Desejo que V. Ex.a me conceda sua filha, sem outro dote
além das virtudes que a enobrecem e além dos seus
encantos pessoais...
Eu sorri. Não sei se era sincero o que ele dizia. Talvez
fosse, porque a mocidade é quase sempre generosa e o primeiro
amor é leal e adora o sacrifício. Mas a idéia,
de consentir que minha filha partilhasse do magro ordenado de um
amanuense de secretaria, pareceu-me infinitamente extravagante.
Já se vê que entrava no meu sorriso um pouco de vaidade;
qual é, porém, o nosso ato social em que a vaidade
não entre em grande ou pequena dose?
- Senhor José Leandro de Oviedo, declarei-lhe formalmente
- o dote de minha filha pertence a minha filha. Dele partilhará
a pessoa que se casar com ela; e se dela tiver filhos, herdará
de mim, como a esposa, o que eu por minha vez herdei de meus pais,
de meu sogro e de meu marido. Isso é questão assentada
e nem é disso que convém tratar aqui. Entendo que
tanto pode dignamente um moço pobre casar com uma moça
rica, como um rico dar a mão de esposo a uma pobre, desde
que essa união seja inspirada no interesse do amor e não
no interesse do dinheiro. As idéias a isso contrárias
são cópia de mal-entendido orgulho do homem. Entendem
eles que uma mulher deve aceitar tudo das mãos do marido,
e que este no entanto fica humilhado recebendo iguais benefícios
da mão da consorte. Não é má essa moral!
Que o homem faça do casamento um meio de enriquecer, acho
indigno, como igualmente acho se o fizer a mulher; se o consórcio,
porém, não for obra do dote e sim do amor, nada mais
curial que os dois dividam amigavelmente entre si o que um deles
possua, e que vivam felizes. Mas, graças a Deus, tanto minha
filha como eu, somos bastante ricas para nos não preocuparmos
em saber se o noivo dela traz ou não traz bens de fortuna;
mesmo porque o casamento de Palmira não será um casamento
vulgar, e coisas muito mais sérias que o dinheiro têm
de ser discutidas nesta ocasião, aqui entre nós dois.
Ponhamos pois de parte a questão pecuniária. Não
se persuada, todavia, o senhor de que, por não trazer dote,
esteja dispensado de dotá-la. A retribuição
que exijo é de outra espécie, mas não é
por isso menos valiosa que o dote dela...
- V. Ex.a tenha a bondade de dizer o que exige de mim. Seja o que
for, estou pronto a cumprir! E o que não faria eu para alcançar
tão grande e sublime prêmio?
Pois responda às perguntas que lhe vou fazer...
Estou inteiramente às suas ordens, minha senhora.
O senhor ama minha filha tanto quanto diz?
Juro que a amo tanto quanto é possível!
E será capaz de um grande sacrifício para obtê-la
em casamento?
Desde que não seja um sacrifício de honra...
estou disposto a tudo!
- Não, não é um sacrifício de honra,
e antes de prosseguir, declaro-lhe que minha filha é pura,
perfeitamente pura!
- Posso então jurar que, seja qual for o sacrifício,
eu o farei, minha senhora!
- E como me provará o senhor que é um homem de honra,
para que sua palavra me sirva de garantia?
- Pode V. Ex.a indagar a meu respeito de todas as pessoas que me
conhecem. Até hoje tenho sido um homem honrado: nunca faltei
à minha palavra, nem cometi ação que pudesse
desdourar o meu caráter...
- E como garantir a sua palavra?
- Posso assinar um documento, um título de honra. Aceito
as condições que V. Ex.a exigir...
- Pois então o senhor assinará uma declaração,
formal e precisa, dirigida à polícia, dizendo que
a ninguém devem atribuir a autoria da sua morte, porque foi
o senhor mesmo quem pôs termo aos seus dias. E empenhará
comigo a sua palavra de honra em como a ninguém revelará
a existência desse documento; documento que será reformado
de três em três meses. Aceita?
E é esse o sacrifício que V. Ex.a exige de
mim?... perguntou Leandro, a sorrir.]
- Não, respondi eu, muito séria - isso é apenas
a garantia da sua palavra e da minha impunidade, caso tenha eu algum
dia de eliminá-lo para sempre de minha família. Esse
documento só servirá na hipótese de que o senhor
falte ao cumprimento de sua palavra, porque então, juro-lhe
que o farei matar...
Ah!
- Sem dúvida. E ainda está em tempo de voltar atrás.
O senhor ainda se não comprometeu comigo a coisa alguma.
- Recuar? Acha V. Ex.a que eu possa recuar, desistir da única
felicidade que ambiciono neste mundo?!
Pense bem, antes de responder...
- Não há que pensar! Uma recusa em nada me adiantaria;
V. Ex.a dispõe já de minha vida; tem-na fechada na
mão! Tanto vale dar-me a morte, negando-me sua filha, como
me fazendo assassinar.
O senhor só será assassinado se não
cumprir com a sua palavra.
Tenha a bondade de dizer o que exige de mim.
- É pouco. O senhor, depois de casado com minha filha, não
coabitará com ela; o senhor morará só, numa
boa casa, bem servida e bem mobiliada, que porei às suas
ordens; ao passo que Palmira continuará a residir em minha
companhia e só estará com o marido o tempo e às
vezes que eu consentir. Serve-lhe?
Mas eu terei então de viver separado de minha esposa?
- Separado totalmente, não. O senhor poderá vê-la
e estar com ela freqüentemente, não digo todos os dias,
mas quase todos. Prometo mesmo que minha filha passará ao
lado do marido um ou mais dias; levo até a condescendência
a tolerar que fiquem juntos uma ou outra noite. Mas, desde que eu
a reclame ou vá buscá-la, o senhor não poderá
opor-se a que ela venha para a minha companhia...
- V. Ex.a está gracejando com certeza... ou suporá
que a minha intenção é privá-la de ver
a senhora sua filha todas as vezes que quiser? Mas, se assim for,
valha-me Deus! não vejo razão para não morarmos
juntos!...
- Não! não! Não estou gracejando, nem admitirei,
nunca, que o senhor more conosco. Nunca! E só consinto no
casamento, sob as condições expostas. Se elas lhe
convêm, o senhor passará o documento, e minha filha
será sua esposa...
Mas, permita, minha senhora, que...
- É inútil, senhor, toda e qualquer reclamação.
Repito que só consentirei no casamento de minha filha com
o senhor, ou seja com quem for, nas condições apresentadas.
Se quer algum tempo para refletir, pode retirar-se; dou-lhe quinze
dias.
Leandro, que agora parecia ouvir minhas palavras como ouve um condenado
a sentença de morte, apertava os lábios, franzia as
sobrancelhas e cerrava os punhos, mal contendo a sua agonia. Afinal,
disse com o ar submisso e a voz resignada:
- Para que refletir, minha senhora?... Estou disposto e estou pronto
para tudo. Aceito o compromisso!
- Pois aí, na saleta ao lado, declarei, erguendo-me da cadeira
- encontrará o senhor papel e tinta; passe o documento pela
minuta que lhe vou dar. Já a tenho escrita. Com licença.
E saí da sala, para ir buscar a minuta à gaveta da
minha secretária, e principalmente para respirar, no alívio
daquela solução.
Ah! felizmente estava passado o grande escolho!
De volta fui ter com Palmira. À minha primeira palavra, ela
declarou, enrubescendo e sorrindo, que ouvira toda a minha conversa
com Leandro.
Bisbilhoteira!... E o que tens tu a observar?... perguntei-lhe.
Eu?... Mamãe bem sabe que sempre acho bem feito tudo
o que a senhora fizer...
Dei-lhe um beijo na testa e voltei ao salão, depois de fazer-lhe
sinal que podia vir também.
|