LENDAS
DO SUL
João Simões Lopes Neto
V
E quando, sem
mais esperança nos homens nem no socorro do céu, chorei
uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada,
dentro do meu sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu
cativo e soberano , como em rocha dura serpenteia às vezes
um fio de ouro alastrado e firme, como uma raiz que não quer
morrer!...
E aquela saudade
parece que saiu para fora do meu peito. subiu aos olhos feita em
lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra saudade
rastreada sem engano... ; parece, porque nesse momento um ventarrão
estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu, sacudida,
tanto, de as árvores desprenderem os seus frutos, de os animais
estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem de co'cras,
agüentando as armas, outros, de bruços tateando o chão...
E nas correntezas
sem corpo, da ventania, redemoinhavam em chusma vozes guaranis,
esbravejando se soltasse o padecente.
Para trás
do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e folhas secas
levantadas, continuava o sino dobrando a finados... dobrando a finados!...
Os santos padres,
pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha alma; em roda,
boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados
de couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra
amarela com dois leões vermelhos e a coroa d'el-rei brilhando
em canutilho de ouro...
A lágrima
do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o claro ver:
e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte da serra,
tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e sobrava para
os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava junto, empastalhado
e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que se encrespava
e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas balançantes
dos meus olhos de condenado sem perdão...
A menos de braça,
estava o carrasco atento no garrote!
Mas os olhos
do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses viam o corpo
bonito, lindo, belo, da princesa moura, e recreavam-se na luz cegante
da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os
olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em
mil vidas de homem outros se não viram!...
E por certo
por essa força que nos ligava sem ser vista, como naquele
dia em que o povo sesteava e também nada viu... por força
dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que
eu morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da
encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho
perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana...
O fogo dos borralhos
foi-se alteando em labaredas e saindo pela quincha dos ranchos,
sem queimá-los... ; as crianças de peito soltaram
palavras feitas, como gente grande...; e bandadas de urubus apareceram
e começaram a contradançar tão baixo, que se
lhes ouvia o esfregar das penas contra o vento..., a contradançar,
afiados para uma carniça que ainda não havia porém
que havia de haver.
Mas os santos
padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e borrifaram
de água benta o povo amedrontado; e seguiram, como num propósito,
encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão real
e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha
morte, por ter tido amores com uma mulher moura, falsa, sedutora
e feiticeira...
Rolou, então,
sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a saudade
destilara.
Deu logo a lagoa
um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e monstruoso...
e rasgou-se cerce em um sangão medonho, entre largo e fundo...
e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo,
em borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas,
lá, eu vi e todos viram a teiniaguá de cabeça
de pedra transparente, fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá
correr, estrombando os barrocais, até rasgar, romper, arruir
a boca do sangão na alta barranca do Uruguai, onde a correnteza
em marcha despencou-se, espadanando em espumarada escura, como caudal
de chuvas tormentosas!...
A gente levantou
pro céu um vozear de lástimas e choros e gemidos.
- Que a Missão
de S. Tomé ia perecer... e desabar a igreja... a terra expulsar
os mortos do cemitério... que as crianças inocentes
iam perder a graça do batismo... e as mães secar o
leite... e as roças o plantio, os homens a coragem...
Depois um grande
silêncio balançou-se no ar, como esperando...
Mas um milagre
se fez: o Santíssimo, de si próprio, perpassou a altura
das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz Bendita!...
O padre superior tremeu como em terçã e tartamudo
e trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram,
e o alcaide, os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou,
como em procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais
do que tremer, porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam,
fenecendo, dominados!...
Fiquei sozinho,
abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.
Fiquei sozinho,
ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas que iam
minguando, em retirada... mas também ouvindo com os ouvidos
do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos
do meu rosto viam a consolação da graça de
Maria Puríssima que se alonjava... mas os olhos do pensamento
viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá;
o nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo
e perfumando as santidades... mas o faro do pensamento sorvia a
essência das flores do mel fino de que a teiniaguá
tanto gostava; a língua da minha boca estava seca, de agonia,
dura de terror, amarga de doença... mas a língua do
pensamento saboreava os beijos da teiniaguá, doces e macios,
frescos e sumarentos como polpa de guabiju colhido ao nascer do
sol; o tato das minhas mãos tocava manilhas de ferro, que
me prendiam por braços e pernas... mas o tato do pensamento
roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e
rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de
jaguar no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel
em fúria...
E tanto como
o povo ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do
Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações
para alcançar a demência divina, ia eu começando
o meu fadário, todo dado à teiniaguá, que me
enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa moura, pelo
seu amor de mulher, que vale mais que destino de homem !...
Sem peso de
dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no corpo, sem peso
de remorsos na alma passei o rio para o lado do Nascente. A teiniaguá
fechou os tesouros da outra banda e juntos fizemos então
caminho para o Cerro do Jarau, que ficou sendo o paiol das riquezas
de todas as salamancas dos outros lugares.
Para memória
do dia tão espantoso lá ficou o sangão rasgado
na baixada da cidade de Santo Tomé, desde o tempo antigo
das Missões.
VI
Faz duzentos
anos que aqui estou; aprendi sabedorias árabes e tenho tornado
contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é
um peso entre o mandar e o ser mandado...
Nunca mais dormi;
nunca mais nem fome, nem sede, nem dor, nem riso...
Passeio no palácio
maravilhoso, dentro deste Cerro do Jarau, ando sem parar e sem cansaço;
piso com pés vagarosos, piso torrões de ouro em pó,
que se desfazem como terra fofa; o areão dos jardins, que
calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e amarelas
e escarlates, azuis, rosadas, violetas... e quando a encantada passa,
todas incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como
se cada uma fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza...;
há poços largos que estão atulhados de doblões
e de onças e peças de jóias e armaduras, tudo
ouro maciço do Peru e do México e das Minas Gerais,
tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de Portugal
e de Gastela e Aragão...
E eu olho para
tudo, enfarado de ter tanto e de não poder gozar nada entre
os homens, corno quando era como eles e como eles gemia necessidades
e cuspia invejas, tendo horas de bom coração por dias
de maldade e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando
o que não possuía...
O encantamento
que me aprisiona consente que eu acompanhe os homens de alma forte
e coração sereno que quiserem contratar a sorte nesta
salamanca que eu tornei famosa, do Jarau.
Muitos têm
vindo... e têm saído piorados, para lá longe
irem morrer do medo aqui pegado, ou andarem pelos povoados assustando
as gentes, loucos, ou pelos campos fazendo vida com os bichos brutos...
Poucos toparam
a parada... ah!... mas esses que toparam, tiveram o que pediram,
que a rosa dos tesouros, a moura encantada não desmente o
que eu prometo, nem retoma o que dá!
E todos os que
chegam deixam um resgate de si próprios para o nosso livramento
um dia...
Mas todos os
que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela ânsia
da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste
o único que veio sem pensar e o único que me saudou
como filho de Deus...
Foste o primeiro,
até agora; quando terceira saudação de cristão
bafejar estas alturas, o encantamento cessará, porque eu
estou arrependido... e como Pedro Apóstolo que três
vezes negou Cristo foi perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.
Está
escrito que a salvação há de vir assim; e por
bem de mim, quando cessar o meu cessará também o encantamento
da teiniaguá: e quando isso se der, a salamanca desaparecerá.
e todas as riquezas, todas as pedras finas, todas as peças
cunhadas, todos os sortilégios, todos os filtros para amar
por força... para matar... para vencer... tudo, tudo, tudo
se virará em fumaça que há de sair pelo cabeço
roto do cerro, espalhada na rosa-dos-ventos pela rosa dos tesouros...
Tu me saudaste
o primeiro, tu! - saudaste-me como cristão.
Pois bem:
alma forte e
coração sereno!... Quem isso tem, entra na salamanca,
toca o condão mágico e escolhe do quanto quer...
Alma forte e
coração sereno! A furna escura está lá:
entra! Entra! Lá dentro sopra um vento quente que apaga qualquer
torcida de candeia... e tramado nele corre outro vento frio, frio...
que corta como serrilha de geada.
Não há
ninguém lá dentro... mas bem que se escuta voz de
gente, vozes que falam.... falam, mas não se entende o que
dizem, porque são línguas atoradas que falam, são
os escravos da princesa moura, os espíritos da teiniaguá...
Não há ninguém... não se vê ninguém:
mas há mãos que batem, como convidando, no ombro do
que entra firme, e que empurram, como ainda ameaçando, o
que recua com medo...
Alma forte e
coração sereno! Se entrares assim, se te portares
lá dentro assim, podes então querer e serás
servido!
Mas, governa
o pensamento e segura a língua: o pensamento dos homens é
que os levanta acima do mundo, e a sua língua é que
os amesquinha...
Alma forte,
coração sereno!... Vai!
Blau, o guasca,
apeou-se maneou
o flete e por de seguro ainda pelo cabresto prendeu-o a um galho
de cambuí que verga sem quebrar-se; rodou as esporas para
o peito do pé; aprumou de bom jeito o facão; santiguou-se,
e seguiu...
Calado fez;
calado entrou.
O sacristão
levantou-se e o seu corpo desfez-se em sombra na sombra da reboleira.
O silêncio
que então se desdobrou era como o vôo parado das corujas:
metia medo...
VII
Blau Nunes foi
andando.
Entrou na boca
da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa da enrediça
da ramaria que se cruzava nela; pra o fundo era tudo escuro...
Andou mais,
num corredor dumas braças; mais ainda; sete corredores nasciam
deste.
Blau Nunes foi
andando.
Enveredou por
um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu. Sempre escuro.
Sempre silêncio.
Mãos
de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.
Numa cruzada
de carreiros sentiu ruído de ferros que se chocavam, tinir
de muitas espadas, seu conhecido.
Por então
o escuro ia já num luzir de vaga-lume.
Grupos de sombras
com feitio de homens peleavam de morte; nem pragas nem fuzilar d'olhos
raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas iam talhando
umas nas outras, no silencio.
Blau teve um
relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto de face branca
e tristonha - Alma forte, coração sereno...
E meteu o peito
entre o espinheiro das espadas, sentiu o corte delas, o fino das
pontas, o redondo dos copos... mas passou, sem nem olhar aos lados,
num entono, escutando porém os choros e gemidos dos peleadores.
Mãos
mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.
Outro mais ruído
nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o rangido dos cabrestilhos
das suas esporas.
Blau Nunes foi
andando.
Andando numa
luz macia, que não dava sombra. Enredada como os caminhos
dum capim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos;
e ao desembocar do em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe
aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente,
patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando, numa fúria...
E ele meteu
o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras roçarem-lhe
o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros que pra
trás iam ficando e morrendo sem eco...
As mãos,
de braços que ele não via, em corpos que não
sentia, mas que, certo, o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre
afagando os ombros, sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante..,
adiante...
A luz ia na
mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela...
Blau Nunes foi
andando.
Agora era um
lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de ossamentas
de criaturas. Esqueletos, de pé encostados uns nos outros,
muitos, derreados, como numa preguiça; pelo chão caídas,
partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando,
tampos de cabeças, buracos de olhos, pernas e pés
em passo de dança, alcatras e costelas meneando-se num vagar
compassado, outras em saracoteio...
Aí o
seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o
sinal da cruz ;... porém - alma forte, coração
sereno! - meteu o peito e passou entre as ossadas, sentindo o bafio
que elas soltavam das suas juntas bolorentas.
As mãos,
aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra vez os ombros...
Blau Nunes foi
andando.
O chão
ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem aumentar a
respiração; e num desvão, a modo dum forno,
teve de passar por uma como porta dele, e ai dentro era um jogo
de línguas de fogo, vermelho e forte, como atiçado
com lenha de nhanduvai; e repuxos d'água, saídos das
paredes, batiam nele e referviam, chiando, fazendo vapor; um ventarão
rondava ali dentro, enovelando águas e fogos, que era uma
temeridade cortar aquele turbi1hão...
Outra vez ele
meteu o peito e passou, sentindo o mormaço das labaredas.
As mãos
do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer - muito bem!
-
Blau Nunes foi
andando.
Já tinha
perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no silêncio
como que um peso de arrobas; a claridade mortiça porém,
já se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em
sua frente e caminho, um corpo enroscado, sarapintado e grosso,
batendo no chão uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.
Era a boicininga,
guarda desta passagem, que levantava a cabeça flechosa, lanceando
o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no vivente
a escama dos olhos, luzindo, preto, como botões de veludo...
Das duas presas
recurvas, grandes como as aspas dum tourito de sobreano, pingava
uma goma escura, que era a peçonha sobrante por um muito
jejum de mortandade, lá fora...
A boicininga
- a cascavel amaldiçoada - toda se meneava, chocalhando os
guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua, como
por prova...
Uma serenada
de suor minou na testa do paisano... porém ele meteu o peito
e passou, vendo, sem olhar, a boicininga altear-se e descair, chata
e tremente.., e passou, ouvindo o chocalho da que não perdoa,
o sibildo da que não esquece...
E logo então,
que era este o quinto passo de valentia que vencera sem temer -
de alma forte e coração sereno - logo então
as mãos voantes anediaram-lhe o cabelo, palmearam-lhe mais
chegadas os ombros.
Blau Nunes foi
andando.
Desembocou num
campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce que ele não
conhecia; em toda a volta árvores em floradas e estadeando
frutos; passarinhada de penas vivas e cantoria alegre: veadinhos
mansos; capororocas e outro muito bicharedo, que recreava os olhos;
e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta de samambaias,
um olho-d'água, que saía em toalha e logo corria em
riachinho, pipocando o quanto-quanto sobre areão solto, palhetado
de malacachetas brancas, como uma farinha de prata...
E logo uma ronda
de moças - cada qual que mais cativa -uma ronda alegre saiu
dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele Blau, gaúcho
pobre, que só mulheres de anáguas resvalonas conhecia...
Vestiam-se umas
em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas, outras
na própria cabeleira solta... ; estas chegavam-lhe à
boca caramujos estrambóticos, cheios de bebida recendente
e fumegando entre vidros frios, como de geada; dançavam outras
num requebro marcado como por música... outras lá
acenavam-lhe para a lindeza dos seus corpos; atirando no chão
esteiras macias, num convite aberto e ardiloso.,.
Porém
ele meteu os peitos e passou, com as fontes golpeando, por motivo
do ar malicioso que o seu bofe respirava...
Blau Nunes foi
andando.
Entrou no arvoredo
e foi logo rodeado por uma tropa de anões, cambaios e cabeçudos,
cada qual melhor para galhofa, e todos em piruetas e mesuras, fandangueiros
e volantins, pulando como aranhões, armando lutas, fazendo
caretas impossíveis para rostos de gente...
Porém
o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar de
riso no canto dos olhos...
E com este,
que era o último, contou os sete passos das provas.
E logo então,
aqui, surdiu-lhe em frente o vulto de face tristonha e branca, que,
certo, lhe andara nas pisadas, de companheiro - sem corpo - e sem
nunca lhe valer nos apuros do caminho; e tomou-lhe a mão.
E Blau Nunes
foi seguindo.
Por detrás
de um cortinado como de escamas de peixe-dourado, havia um socavão
reluzente. E sentada numa banqueta transparente, fogueando cores
como as do arco-íris, estava uma velha, muito velha, carquincha
e curvada, e como tremendo de caduca.
E segurava nas
mãos uma varinha branca, que ela revirava e tangia, e atava
em nós que se desfaziam, laçadas que se deslaçavam
e torcidas que se destorciam, ficando sempre linheira.
- Cunhã,
disse o vulto, o paisano quer!
- Tu, vieste;
tu, chegaste; pede, tu, pois! respondeu a velha.
E moveu e ergueu
o corpo magro, dando estalos nas juntas e levantou a varinha para
o ar: logo o condão coriscou por sobre ela uma chuva de raios,
mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas cairia.
E disse:
- Por sete provas
que passaste, sete escolhas dar-te-ei... Paisano, escolhe! Para
ganhar a parada em qualquer jogo... de naipes, que as mãos
ajeitam, de dados, que a sorte revira, de cavalos, que se cotejam,
do osso, que se sopesa, da rifa... queres?
- Não!
- disse Blau, e todo o seu parecer foi se mudando num semblante
como de sonâmbulo, que vê o que os outros não
vêem... como os gatos, que acompanham com os olhos cousas
que passam no ar e ninguém vê...
- Para tocar
a viola e cantar... amarrando nas cordas dela o coração
das mulheres que te escutarem..., e que hão de sonhar contigo,
e ao teu chamado irão - obedientes, como aves varadas pelo
olhar das cobras -, deitar-se entregues ao dispor dos teus beijos,
ao apertar dos teus braços, ao resfolegar dos teus desejos...
queres?
- Não!
- respondeu a boca, por mandado só do ouvido...
- Para conhecer
as ervas, as raízes, os sucos das plantas e assim poderes
curar os males dos que tu estimares ou desfazer a saúde dos
que aborreceres;... e saber simpatias fortes para dar sonhos ou
loucura, para tirar a fome, relaxar o sangue, e gretar a pele e
espumar os ossos,.... ou para ligar apartados, achar cousas perdidas,
descobrir invejas... ; queres?
- Não!
- Para não
errar golpe - de tiro, lança ou faca - em teu inimigo, mesmo
no escuro ou na distância, parado ou correndo, destro ou prevenido,
mais forte que tu ou astucioso... ; queres?
- Não!
- Para seres
mandão no teu distrito e que todos te obedeçam sem
resmungos;... seres língua com os estrangeiros e que todos
te entendam;...: queres?
- Não!
- Para seres
ricaço de campo e gado e manadas de todo o pêlo;...
queres?
- Não
- Para fazeres
pinturas em tela, versos harmoniosos, novelas de sofrimentos, autos
de chocarrice, músicas de consolar, lavores no ouro, figuras
no mármor,... queres?
- Não!
- Pois que em
sete poderes te não fartas, nada te darei, porque do que
foi prometido nada quiseste. Vai-te
Blau nem se
moveu; e, carpindo dentro em si a própria rudeza, pensou
no que queria dizer e não podia e que era assim:
- Teiniaguá
encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És
tudo o que eu não sei o que é, porém que atino
que existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim. Eu te queria
a ti, teiniaguá encantada!...
Mas uma escuridão
fechada, como nem noite a mais escura dá parelha, caiu sobre
o silêncio que se fez, e uma fôrça torceu o paisano.
Blau Nunes arrastou
um passo e outro e terceiro; e desandou caminho; e quando ele andara
em voltas e contravoltas, em subidas e descidas, tanto em direitura
foi bater na boca da furna por onde havia entrado, sem engano.
E viu atado
e quieto o seu cavalo; em roda as mesmas restingas, ao longe os
mesmos descampados mosqueados das pontas de gado, a um lado o encordoado
das coxilhas, a outro, numa aberta entre matos um claro prateado,
que era água do arroio.
Memorou o que
tinha acabado de ver e de ouvir e de responder; dormindo, não
tinha, nem susto lhe tirara o entendimento.
E pensou que
tendo tido oferta de muito não lograra nada por querer tudo...
e num arranco de raiva cega decidiu outra investida.
Voltou-se para
entrar de novo... mas bateu coo peito na parede dura do cerro. Terra
maciça, mato cerrado, capins, limos... e nenhuma fresta,
nem brecha nem buraco, nem furna, caverna, toca, por onde escorresse
um corpinho de guri, quando mais passasse porte de homem!...
Desanimado e
penaroso, compôs o cavalo e montou; e ao dar de rédea
apareceu-lhe pelo lado de laçar o sacristão, o vulto
de face branca e tristonha, que tristemente estendeu-lhe a mão,
dizendo:
- Nada quiseste;
tiveste a alma forte e o coração sereno, tiveste,
mas não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua!...
Não te direi se bem fizeste ou mal. Mas como és pobre
e isso te aflige, aceita este meu presente, que te dou. É
uma onça de ouro que está furada pelo condão
mágico; ela te dará tantas outras quantas quiseres,
mas sempre de uma em uma e nunca mais que uma por vez; guarda-a
em lembrança de mim!
E o corpo do
sacristão encantado desfez-se em sombra na sombra da reboleira...
Blau Nunes,
meteu na guaiaca a onça furada, e deu de rédea.
O sol tinha
cambado e o Cerro do Jarau já fazia sombra comprida sobre
os bamburrais e restingas que lhe formavam assento.
VIII
Na troteada
para o posto em que morava, um ranchote de beira no chão
tendo por porta um couro -, Blau rumeou para uma venda grande que
sortia aquele vizindário, mesmo a troco de courama, cerda
ou algum tambeiro; e como vinha de garganta seca e a cabeça
atordoada mandou botar uma bebida.
Bebeu; e puxou
da guaiaca a onça e pagou; era tão mínima a
despesa e o câmbio que veio, tanto, que pasmou, olhando para
de, de tão desacostumado que andava de ver dinheiro tanto,
que chamasse seu...
E de dedos engatanhados
socou-o todo para dentro da guaiaca, sentindo-lhe o peso e o sonido
afogado.
CaIado, montou
de novo, retirando-se.
No caminho foi
pensando nas todas as cousas que carecia e que iria comprar. Entre
aperos e armas e roupas, um lenço grande e umas botas, outro
cavalo, umas esporas e embelecos que pretendia, andava tudo por
uma mão-cheia de cruzados e a si próprio perguntava
se aquela onça encantada, dada para indez, teria mesmo o
condão de entropilhar outras muitas, tantas como as que precisava,
e mais ainda, outras e outras que o seu desejo fosse despencando?!...
Chegou ao posto,
e como homem avisado, não falou do que fizera durante o dia,
apenas do boi barroso, que campeou e não achou; e no seguinte,
logo cedo saiu a empeçar a prova do prometido.
Naquele mesmo
negociante ajustou umas roupas tafulonas; e mais uma adaga de cabo
e bainha com anéis de prata; e mais as esporas e um rebenque
de argolão.
Toda a compra
passava de três onças.
E Blau, as fontes
latejando, a boca cerrada, num aperto que lhe fazia doer o carrinho,
piscando os olhos, a respiração atropelada, todo ele
numa desconfiança, Blau, por debaixo do seu balandrau remendado
começou a gargantear a guaiaca... e caiu-lhe na mão
uma onça... e outra... e outra!... As quatro, que por agora
eram tão de jeito!...
Mas não
caíram duas e duas ou três e uma, ou as quatro, juntas,
porém sim de uma a uma, as quatro, de cada vez só
uma...
Voltou ao rancho
com a maleta atochada, mas, como homem avisado, não falou
do acontecido,
No outro dia
seguiu a outro rumo, para outro negociante mais forte e de prateleiras
mais variadas. Já levava alinhavado o sortimento que ia fazer,
e muito em ordem foi encomendando o aparte das cousas, tendo cuidado
em não querer nada de cortar, só peças inteiras,
que era para, no caso de falhar a onça, recuar da compra,
fazendo um feio, é verdade, mas não 'sendo obrigado
a pagar estrago algum. Notou a conta, que andava por quinze onças,
uns cruzados pra menos.
E outra vez,
por debaixo do seu balandrau remendado, começou a gargantear
a guaiaca, e logo lhe foi caindo na mão uma onça...
e segunda... outra... e quarta, mais outra, e sexta... e assim de
uma em uma, as quinze necessárias!
O negociante
ia recebendo e alinhando sobre o balcão as moedas conforme
vinham elas minando da mão do pagador, e quando estavam todas
disse, entre risonho e desconfiado:
- Cuê-pucha!...
cada onça das suas parece que é um pinhão,
que é preciso descascar à unha !...
No terceiro
dia passou na estrada uma cavalhada; Blau fez parar a tropa e ajustou
uma quadrilha, apartada por ele, à sua vontade, e como facilitou
o preço, fechou-se o trato.
Ele e o capataz,
sós no meio da cavalhada, iam fazendo mover-se os animais;
no apinhado de todas, Blau marcava a cabeça que mais lhe
agradava pelo focinho, pelos olhos, pelas orelhas; com um sovéu
fino, de armada pequena, reboleava por dentro e ia, certo, laçar
o bagual escolhido; se ainda, sem ovas e bons cascos, aprazia-lhe,
tirava-o então, como seu, para o potreiro do piquete.
Olho de campeiro,
não errou vez alguma a escolha, e trinta cavalos, a flor,
foram apartados, custando quarenta e cinco onças.
E enquanto a
tropa verdejava e bebia, os tratistas foram para a sombra duma figueira
que havia na beira da estrada.
Blau por debaixo
do seu balandrau remendado, ainda desconfiando, começou a
gargantear a guaiaca... e foi logo aparando, onça por onça,
uma, três, seis, dez, dezoito, vinte e cinco, quarenta, quarenta
e cinco!...
O vendedor,
estranhando aquela novidade e demora, não se conteve e disse:
- Amigo! As
suas onças parecem talas de jerivá, que só
cai uma de cada vez!...
Depois desses
três dias de prova Blau acreditou na onça encantada.
Arrendou um
campo e comprou o gado, pra mais de dez mil cabeças, aquerenciado.
O negócio
era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.
Ai o coitado
perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a aparar onça
por onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!...
Cansou-lhe o
braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas
tinha de ser como martelada, que não se dá duas ao
mesmo tempo...
O vendedor,
à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou, sesteou;
e quando, sobre a tarde, voltou à ramada, lá estava
ele ainda aparando onça trás onça!...
Ao escurecer
estava completo o ajuste.
Começou
a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por ele,
gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de
seu as chilcas, afrontar os abonados, assim do pé para a
mão... E também era falado o seu esquisito modo de
pagar - que pagava sempre, valha a verdade - só de onça
por onça, uma depois de outra e nunca, nunca ao menos duas,
acolheradas!...
Aparecia gente
a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só
para ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério.
Mistério
para o próprio Blau... muito rico... muito rico... mas de
onça em onça, como tala de jerivá, que só
cai uma de cada vez... como pinhão da serra, que só
se descasca de um a um!...
Mistério
para Blau, muito rico... muito rico... Mas todo o dinheiro que ele
recebia, que entrava das vendas feitas, todo o dinheiro que lhe
pagavam a ele, todo desaparecia, guardado na arca de ferro, desaparecia
como desfeito em ar...
Muito rico...
muito rico das onças que precisasse, e nunca faltaram para
gastar no que lhe parecesse: bastava-lhe gargantear a guaiaca, e
elas começavam a pingar;... mas nenhuma das que recebia lhe
ficava, todas evaporavam-se como água em tijolo quente...
IX
Então
começou a correr um boquejo de ouvido para ouvido... e era
que ele tinha parte com o diabo, e que o dinheiro dele era maldito
porque todos com quem tratava e recebiam das suas onças,
todos entravam, ao depois, a fazer maus negócios e todos
perdiam em prejuízos exatamente a quantia igual à
de suas mãos recebida.
Ele comprava
e pagava a vista, é certo; o vendedor contava e recebia,
é certo... mas o negócio empreendido com esse valor
era de prejuízo garantido.
Ele vendia e
recebia, é certo; mas o valor recebido que ele guardava e
rondava, sumia-se como um vento, e não era roubado nem perdido;
era sumido, por si mesmo...
O boquejar foi
alastrando, e já diziam que aquilo, por certo, era mandinga
arrumada na salamanca do Jarau, onde ele foi visto mais de uma feita..,
e que lá é que se jogava a alma contra a sorte...
E os mais vivarachos
já faziam suas madrugadas sobre o Jarau; outros, mais sorros,
pra lá tocavam-se ao escurecer, outros, atrevidaços,
iam à meia-noite, outros ainda ao primeiro cantar dos galos...
E como nesse
carreiro de precatados cada um fazia por ir de mais escondido, sucedeu
que como sombras se pechavam entre as sombras das reboleiras, sem
atinar coa salamanca, ou sem topete para, na escuridão, quebrar
aquele silêncio, chamando o santão, num grito alto...
No entanto Blau
começou a ser tratado de longe, como um chimarrão
rabioso...
Já não
tinha com quem pautear; churrasqueava solito, e solito mateava,
rodeado dos cachorros, que uivavam, às vezes um, às
vezes todos...
A peonada foi
saindo e conchavando-se noutras partes; os negociantes nada compravam-lhe
e negaceavam para vender-lhe; os andantes cortavam campo para não
pararem nos seus galpões...
Blau deu em
cismar, e cisma foi que resolveu acabar com aquele cerco de isolamento,
que o ralava e esmorecia...
Montou a cavalo
e foi ao cerro. Na trepada sentiu aos dois lados barulho nos bamburrais
e nas restingas, mas pensou que seria alguma ponta de gado xucro
que disparava, e não fez caso; foi trepando. Mas não
era, não, gado xucro espantado, nem guaraxaim corrido, nem
tatu vadio; era gente, gente que se escondia uns dos outros e dele...
Assim chegou
à reboleira do mato, tão sua conhecida e recordada,
e como chegou, deu de cara com o vulto de face branca e tristonha,
o sacristão encantado, o santão.
Ainda desta
vez, como era ele que chegava, a ele competia louvar; saudou, como
da outra:
- Laus' Sus-Cris'
!...
- Para sempre,
amém! - respondeu o vulto.
Então
Blau, de a cavalo, atirou-lhe aos pés a onça de ouro,
dizendo:
- Devolvo! Prefiro
a minha pobreza dantes à riqueza desta onça, que não
se acaba, é verdade, mas que parece amaldiçoada, porque
nunca tem parelha e separa o dono dos outros donos de onças!...
Adeus! Fica-te com Deus, sacristão!
- Seja Deus
louvado! - disse o vulto e caiu de joelhos, de mãos postas,
como numa reza. - Pela terceira vez falaste no Nome Santo, tu, paisano,
e com ele quebraste o encantamento!... Graças! Graças!
Graças!...
E neste mesmo
instante, que era o da terceira vez que Blau saudava no Nome Santo,
neste mesmo momento ouviu-se um imenso estouro, que retumbou naquelas
vinte léguas em redor do Cerro do Jarau tremeu de alto a
baixo, até às suas raízes, nas profundas da
terra, e 1ogo, em cima, no chapéu do espigão, apareceu,
cresceu, subiu, aprumou-se, brilhou, apagou-se, uma língua
de fogo, alta como um pinheiro, apagou-se, e começou a sair
fumaça negra, em rolos grandes, que o vento ia tocando para
longe, por cima do encordoado das coxilhas, sem rumo feito, porque
a fumaceira inchava e desparramava-se no ar, dando voltas e contravoltas,
torcendo-se, enroscando-se, em altos e baixos, num desgoverno, como
uma tropa de gado alçado, que espirra e se desmancha como
água passada em regador...
Era a queima
dos tesouros da salamanca, como dissera o sacristão.
Sobre as caídas
do Cerro levantou-se um vozeio e tropel; eram os maulas que andavam
rastreando a furna encantada e que agora fugiam, desguaritados,
como filhotes de perdiz...
X
Para os olhos
de Blau o cerro ficou como de vidro transparente, e então
viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os
jaguares, os esqueletos, os anões, as lindas moças,
a boicininga, tudo, torcido e enovelado, amontoado, revolvido, corcoveava
dentro das labaredas vermelhas que subiam e apagavam-se dentro dos
corredores, cada vez mais carregados de fumaça... e urros,
gritos, tinidos, sibildos, gemidos, tudo se confundia no tronar
da voz maior que estrondeava no cabeço empenachado do cerro.
Ainda uma vez
a velha carquincha transformou-se na teiniaguá... e a teiniaguá
na princesa moura... a moura numa tapuia formosa;... e logo o vulto
de face branca e tristonha tornou a figura do sacristão de
S. Tomé, o sacristão, por sua vez, num guasca desempenado...
E assim, quebrado
o encantamento que suspendia fora da vida das outras aquelas criaturas
vindas do tempo antigo e de lugar distante, aquele par, juntado
e tangido pelo Destino, que é o senhor de todos nós,
aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu costas
ao seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até
a várzea limpa, plana e verde, serena e amornada de sol claro,
toda bordada de boninas amarelas, de bibis roxas, de malmequeres
'brancos, como uma cancha convidante para uma cruzada de ventura,
em viagem de alegria, a caminho do repouso!...
Blau Nunes também
não quis mais ver; traçou sobre o seu peito uma cruz
larga, de defesa, na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea
e d'espacito foi baixando a encosta do cerro, com o coração
aliviado e retinindo como se dentro dele cantasse o passarinho verde...
E agora, estava
certo de que era pobre como dantes, porém que comeria em
paz o seu churrasco...; e em paz o seu chimarrão, em paz
a sua sesta, em paz a sua vida!...
Assim acabou
a salamanca do Cerro do Jarau, que aí durou duzentos anos,
que tantos se contam desde o tempo das Sete Missões, em que
estas cousas principiaram.
Anhangá-pitã,
também, desde aí, não foi mais visto. Dizem
que, desgostoso, anda escondido, por não haver tomado bem
tendência que a teiniaguá era mulher...
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