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LENDAS DO SUL
João Simões Lopes Neto


A SALAMANCA DO JARAU

ERA UM DIA...

um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais, estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia andava campeando um boi barroso.

E no tranqüito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas, para o alto das coxilhas, ao comprido das canhadas; talvez deitado estivesse entre as carquejas - a carqueja é sinal de campo bom -, por isso o campeiro às vezes alçava-se nos estribos e, de mão em pala sobre os olhos, firmava mais a vista em torno; mas o boi barroso, crioulo daquela querência, não aparecia; e Blau ia campeando, campeando...

Campeando e cantando:

"Meu bonito boi barroso.

Que eu já contava perdido,

Deixando o rastro na areia

Foi logo reconhecido.

"Montei no cavalo escuro

E trabalhei logo de espora;

E gritei ─ aperta, gente.

Que o meu boi se vai embora!

"No cruzar uma picada,

Meu cavalo relinchou.

Dei de rédea para a esquerda,

E o meu boi me atropelou!

"Nos tentos levava um laço

De vinte e cinco rodilhas,

Pra laçar o boi barroso

Lá no alto das coxilhas!

"Mas no mato carrasqueiro

Onde o boi 'stava embretado,

Não quis usar o meu laço,

Pra não vê-lo retalhado.

"E mandei fazer um laço

Da casca do jacaré,

Pra laçar meu boi barroso

Num redomão pangaré.

"E mandei fazer um laço

Do couro da jacutinga,

Pra laçar meu boi barroso

Lá no passo da restinga.

"E mandei fazer um laço

Do couro da capivara

Pra laçar meu boi barroso

Nem que fosse a meia-cara;

"Este era um laço de sorte,

Pois quebrou do boi a balda "...

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No tranqüito ia, cantando, e pensando na sua pobreza, no atraso das suas cousas.

No atraso das suas cousas, desde o dia em que topou - cara a cara! - com o Caipora num campestre da serra grande, pra lá, muito longe, no Botucaraí...

A lua ia recém-saindo...; e foi à boquinha da noite...

Hora de agouro, pois então!...

Gaúcho valente que era dantes, ainda era valente, agora; mas, quando cruzava o facão com qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando e o do contrário o lanhava...

Domador destorcido e parador, que por só pabulagem gostava de paletear, ainda era domador, agora; mas, quando gineteava mais folheiro, às vezes, num redepente, era volteado...

De mão feliz para plantar, que lhe não chocava semente nem muda de raiz se perdia, ainda era plantador, agora; mas, quando a semeadura ia apontando da terra, dava a praga em toda, tanta, que benzedura não vencia...; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal floria, e quando dava fruta, era mixe e era azeda...

E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas o gaúcho pobre, Blau, de nome, ia, ao tranqüito, campeando, sem topar coo boi barroso.

De repente, na volta duma reboleira, bem na beirada dum boqueirão sofrenou o tostado...; ali em frente, quieto e manso, estava um vulto, de face tristonha e mui branca.

Aquele vulto de face branca... aquela face tristonha!...

Já ouvira falar dele, sim, não uma nem duas, mas muitas vezes...; e de homens que o procuravam, de todas as pintas, vindos de longe, num propósito, para endrôminas de encantamentos...,conversas que se falavam baixinho, como num mêdo; pro caso, os que podiam contar não contavam porque uns, desandavam apatetados e vagavam por aí, sem dizer cousa com cousa, e outros calavam-se muito bem calados, talvez por juramento dado...

Aquele vulto era o santão da salamanca do cerro.

Blau Nunes sofrenou o cavalo.

Correu-lhe um arrepio no corpo, mas era tarde para recuar: um homem é para outro homem !...

E como era ele

quem chegava, ele é que tinha de louvar; saudou:

- Laus'Sus-Cris'!...

- Para sempre, amém! disse o outro, e logo ajuntou: O boi barroso vai trepando cerro acima, vai trepando... Ele anda cumprindo o seu fadário...

Blau Nunes pasmou do adivinho; mas repostou:

- Vou no rastro!...

- Está enredado...

- Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo, até à boca preta da furna do cerro...

- Tu... tu, paisano, sabes a entrada da salamanca?...

- É lá?... Então, sei, sei! A salamanca do cerro do Jarau!... Desde a minha avó charrua, que ouvi falar!...

- O que contava a tua avó?

- A mãe da minha mãe dizia assim:


II

- Na terra dos espanhóis, do outro lado do mar, havia uma cidade chamada - Salamanca - onde viveram os mouros, os mouros que eram mestres nas artes de magia; e era numa furna escura que eles guardavam o condão mágico, por causa da luz branca do sol, que diz que desmancha a força da bruxaria...

O condão estava no regaço duma fada velha, que era uma princesa moça, encantada, e bonita, bonita como só ela!...

Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos batizados, e logo perderam uma batalha muito pelejada; e vencidos foram obrigados a ajoelharem-se ao pé da Cruz Bendita... e a baterem nos peitos, pedindo perdão...

Então, depois, alguns, fingidos de cristãos, passaram o mar e vieram dar nestas terras sossegadas, procurando riquezas, ouro, prata, pedras finas, gomas cheirosas... riquezas para levantar de novo o seu poder e alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de Belém...

E para segurança das suas tranças trouxeram escondida a fada velha, que era a sua formosa princesa moça...

E devia ter mesmo muita força o condão, porque nem os navios se afundaram, nem os frades de bordo desconfiaram, nem os próprios santos que vinham, não sentiram...

Nem admira, porque o condão das mouras encantadas sempre aplastou a alma dos frades e não se importa com os santos do altar, porque esses são só imagens...

Assim bateram nas praias da gente pampiana os tais mouros e mais outros espanhóis renegados. E como eles eram, todos, de alma condenada, mal puseram pé em terra, logo na meia-noite da primeira sexta-feira foram visitados pelo mesmo Diabo deles, que neste lado do mundo era chamado de Anhangá-pitã e mui respeitado. Então, mouros e renegados disseram ao que vinham; e Anhangá-pitã folgou muito; folgou, porque a gente nativa daquelas campanhas e a destas serras era gente sem cobiça de riquezas, que só comia a caça, o peixe, a fruta e as raízes que Tupã despejava sem conta, para todos, das suas mãos sempre abertas e fazedoras...

Por isso Anhangá-pitã folgou, porque assim minava para o peito dos inocentes as maldades encobertas que aqueles chegados traziam...; e pois, escutando o que eles ambicionavam para vencer a Cruz com a força do Crescente, o maldoso pegou do condão mágico - que navegara em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos -, esfregou-o no suor do seu corpo e virou-o em pedra transparente; e lançando o bafo queimaste do seu peito sobre a fada moura, demudou-a em teiniaguá, sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da encantada a pedra, aquela, que era o condão, aquele.

E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do dia, do sol vermelho que ia querendo romper dos confins por sobre o mar, por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como brasa e tão brilhante que olhos de gente vivente não podiam parar nela, ficando encandeados, quase cegos!...

E desfez-se a companha até o dia da peleja da nova batalha. E chamaram - salamanca - à furna desse encontro; e o nome ficou pras furnas todas, em lembrança da cidade dos mestres mágicos.

Levantou-se um ventarrão de tormenta e Anhangá-pitã, trazendo num bocó a teiniaguá, montou nele, de salto, e veio correndo sobre a correnteza do Uruguai, por léguas e léguas, até as suas nascentes, entre serranias macotas.

Depois, desceu, sempre com ela; em sete noites de sexta-feira ensinou-lhe a vaqueanagem de todas as furnas recama­das de tesouros escondidos... escondidos pelos cauilas, perdidos para os medrosos e achadios de valentes... E a mais desses, muitos outros tesouros que a terra esconde e que só os olhos dos zaoris podem vispar...

Então Anhangá-pitã, cansado, pegou num cochilo pesado, esperando o cardume das desgraças novas, que deviam pegar pra sempre...

Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher...

Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrua contava à minha mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros, que, esses viram!...

E Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no cinto, aprumando o facão...; foi parando o gesto e ficou-se olhando, sem mira, para muito longe, para onde a vista não chegava, mas onde o sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda passava... ainda passava, porque o sonho não tem lindeiros nem tapumes...

Falou então

o vulto de face branca e tristonha; falou em voz macia. E disse assim:


III

É certo:

não tomou tenência que a teiniaguá era mulher... Ouve, paisano.

No costado da cidade onde eu vivia havia uma lagoa, larga e funda, com uma ilha de palmital, no meio. Havia uma lagoa...

A minha cabeça foi banhada na água benta da pia, mas nela entraram soberbos pensamentos maus... O meu peito foi ungido com os santos óleos, mas nele entrou a doçura que tanto amarga, do pecado...

A minha boca provou do sal piedoso... e nela entrou a frescura que requeima, dos beijos da tentadora...

Mas assim era o fado..., tempo e homem virão para me libertar, quebrando o encantamento que me amarra, duzentos anos hão de findar; eu esperei no entanto vivendo na minha tristeza

seca, tristeza de arrependido que não chora.

Tudo o que volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão...

Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres da igreja de S. Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai. Sabia bem acender os círios, feitos com a cera virgem das abelheiras da serra; e bem balançar o turíbulo, fazendo ondear a fumaça cheirosa do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois degraus abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos dias de festa sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a finados... Eu era o sacristão.

Um dia na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras, sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem choro de crianças: tudo sesteava. O sol faiscava nos pedregulhos lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada, no ar parado, sem uma viração.

Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia, levando no corpo a frescura da sombra benta, levando na roupa o cheiro da fumaça piedosa. E saí sem pensar em nada, nem de bem nem de mal; fui andando, como levado...

Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando tal e qual como uma marmita no borralho. Por certo que lá em baixo, dentro da terra, é que estaria o braseiro que levantava aquela fervura que cozinhava os juncos e as traíras e pelava as pernas dos socós e espantava todos os mais bichos barulhentos daquelas águas...

Eu vi, vi o milagre de ferver toda uma lagoa..., ferver, sem fogo que se visse!

A mão direita, pelo costume, andou para fazer o "Pelo-Sinal"... e parou, pesada como chumbo; quis rezar um "Credo", e a lembrança dele recuou; e voltar, correr e mostrar o Santíssimo... e tanger o sino em dobre... e chamar o padre superior, tudo para esconjurar aquela obra do inferno... e nada fiz... nada fiz, sem força na vontade, nada fiz... nada fiz, sem governo no corpo!...

E fui andando, como levado, para de mais perto ver, e não perder de ver o espantoso...

Porém logo outra força acalmou tudo; apenas a água fumegante continuou retorcendo os lodos remexidos, onde boiava toda uma mortandade dos viventes que morrem sem gritar...

Era no fim de um lançante comprido, estrada batida e limpa, de todos os dias as mulheres irem para a lavagem; e quando eu estava na beira da água, vendo o que estava vendo, então rompeu dela um clarão, maior que o da luz a pino do dia, clarão vermelho, como dum sol morrente, e que luzia desde o fundão da lagoa e varava a água barrenta...

E veio crescendo para a barranca, e saiu e tomou terra, e sem medo e sem ameaça veio andando para mim a sempre es­capada maravilha..., maravilha que os que nunca viram juravam ser - verdade - e que eu, que estava vendo, ainda jurava ser - mentira! -

Era a teiniaguá, de cabeça

de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao padre superior a história contada dum encontradiço que quase chegou de teimar em agarrá-la.

Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando o perigo; mas a teiniaguá veio-se me chegando, deixando no chão duro um rastro d'água que escorria e logo secava, do seu corpinho verde de lagartixa engraçada e buliçosa...

Lembrei-me - como quem olha dentro duma cerração -, lembrei-me do que corria na voz da gente sobre o entangüimento que traspassa o nosso corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino num couro ressequido...

Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente, firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina, como curiosa, faiscando...

De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para dentro dela!

Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e a cabeça sonando como um sino de catedral...

Corri para o meu quarto, na Casa-Grande dos santos padres. Entrei pelo cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes, pisoteei ramos, calquei sepulturas!...

Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.

Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.

Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os Cavaleiros da Tábula...

Nos livros que eu lia, estes todos eram os mais ricos que se conhecia.

E eu, agora!...

E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como se fossem cousas que se pudesse tentear com as mãos...

E foram se escancarando portas de castelos e palácios, onde eu entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava às janelas, arredava reposteiros, deitava-me em camas grandes, de pés torneados, esbarrava-me em trastes que nunca tinha visto e servia-me em baixelas estranhas, que eu não sabia para o que prestavam...

E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde no azul das distâncias, e ainda lindando com outras estâncias que também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas...

.E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos como mato virgem...

E atulhava de planta colhida - milho, feijão, mandioca - os meus paióis.

E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata; dependuradas na galhação de cem cabeças de cervos, tinha bolsas de couro e de veludo, atochadas de diamantes, brancos como gotas d'água filtrada em pedra, que os meus escravos - saídos mil, chegados dez -, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma cachoeira grande, em meia-lua, chamada de Iguaçu, muito pra lá doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra...

Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal que respirava um descanso, de novamente, de nova­mente pegava a contar, a pesar, a medir...

Tudo isto eu podia ter - e tinha de meu, tinha! -, porque era o dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na canastra forrada de couro cru, tauxiada de cobre, dobradiças de bronze!...

Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde...

Pela primeira vez não fui eu que toquei; seria um dos padres, na minha falta.

Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava alimento,

Tranquei portas e janelas e sai para buscar um porongo de mel de lixiguana, por ser o mais fino.

E fui; melei; e voltei.

Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.

E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se arriscaram e o coração mermou no compassar o sangue!...

Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!...

Que disse:


IV

- Eu sou a princesa moura encantada, trazida de outras terras por sobre um mar que os meus nunca sulcaram... Vim, e Anhangá-pitã transformou-me em teiniaguá de cabeça luminosa, que outros chamam o - carbúnculo - e temem e desejam, porque eu sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo...

Muitos têm me procurado com o peito somente cheio de torpeza, e eu lhes hei escapado das mãos ambicioneiras e dos olhos cobiçosos, relampejando desdenhosa o lume vermelho da minha cabeça transparente...

Tu, não; tu não me procuraste ganoso... e eu subi ao teu encontro; e me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para o meu sustento.

Se quiseres, tu, todas as riquezas que eu sei, entrarei de novo na guampa e irás andando e me levarás onde eu te encaminhar, e serás senhor do muito, do mais, do tudo!...

A teiniaguá que sabe dos tesouros sou eu, mas sou também princesa moura...

Sou jovem... sou formosa..., o meu corpo é rijo e não tocado!...

E estava escrito que tu serias o meu par.

Serás o meu par... se a cruz do teu rosário me não es­conjurar... Senão, serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente, guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!...

Se a cruz do teu rosário não me esconjurar...

Sobre a cabeça da moura amarelejava nesse instante o crescente dos infiéis...

E foi se adelgaçando

no silêncio a cadência embalante da fala induzidora...

A cruz do meu rosário...

Fui passando as contas, apressado e atrevido, começando na primeira... e quando tenteei a última... e que entre as duas os meus dedos, formigando, deram com a Cruz do Salvador... fui levantando o Crucificado... bem em frente da bruxa, em salvatério... na altura do seu coração... na altura da sua garganta... da sua boca... na altura dos...

­E aí parou, porque os olhos de amor, tão soberanos e cativos, em mil vidas de homem outros se não viram!...

Parou... e a minha alma de cristão foi saindo de mim, como o sumo se aparta do bagaço, como o aroma sai da flor que vai apodrecendo...

Cada noite

era meu ninho o regaço da moura; mas, quando batia a alva, ela desaparecia ante a minha face cavada de olheiras...

E crivado de pecados mortais, no adjutório da missa trocava os amém, e todo me estortegava e doía quando o padre lançava a bênção sobre a gente ajoelhada, que rezava para alívio dos seus pobres pecados, que nem pecados eram, comparados com os meus...

Uma noite ela quis misturar o mel do seu sustento com o vinho do santo sacrifício; e eu fui, busquei no altar o copo de ouro consagrado, todo lavorado de palmas e resplendores; e trouxe-o, transbordante, transbordando...

De boca para boca, por lábios incendiados o passamos... E embebedados caímos abraçados.

Sol nado, despertei:

estava cercado pelos santos padres.

Eu descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório, desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras exóticas, onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela... E acharam na canastra a guampa e no porongo o mel... e até no ar farejaram cheiro mulherengo... Nem tanto era preciso para ser logo jungido em manilhas de ferro.

Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia fritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma, prometendo o inferno eterno e espremiam o meu arquejo, decifrando uma confissão...; mas a minha boca não falou..., não falou por senha firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela e que era linda...

E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se das riquezas, que eu queria só pra mim, se do seu amor, que eu não queria que fosse senão meu, inteiro e todo!

Mas por senha da vontade a boca não falou.

Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame; condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.

No adro e no largo da igreja, o povo ajoelhado batia nos peitos, clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.

O sino começou dobrando a finados. Trouxeram-me em braços, entre alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se, compassando a gente d'armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.

Dobrando a finados... dobrando a finados...

Era por mim.

A MBOITATÁ

A SALAMANCA DO JARAU
Parte I
Parte II

O NEGRINHO DO PASTOREIO