LENDAS
DO SUL
João Simões Lopes Neto
O NEGRINHO DO PASTOREIO
NAQUELE TEMPO
os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas
nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e
os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...
Era uma vez
um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de
onças e meias-doblas e mais muita prataria; porém
era muito cauíla e muito mau, muito.
Não dava
pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante;
no inverno o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas
e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se
abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava
os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas
cacimbas.
Mas também
quando tinha serviço na estância, ninguém vinha
de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não
gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para
comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna
e nem um naco de fumo... e tudo, debaixo de tanta somiticaria e
choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele
estava lonqueando...
Só para
três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino
cargoso como uma mosca, para um baio cabos-negros, que era o seu
parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda,
muito bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam
somente o - Negrinho.
A este não
deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado
da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não
a tem.
Todas as madrugadas
o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios
do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino,
que o iudiava e se ria.
***
Um dia depois
de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu
vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro
que não, que não! que a parada devia ser do dono do
cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada,
mil onças de ouro.
No dia aprazado,
na cancha da carreira havia gente como em festa de santo grande.
Entre os dois
parelheiros, a gauchada não sabia se decidir, tão
perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era
fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe
nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não
lhe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que
quanto mais cancha, mais agüente e que desde a largada ele
ia ser como um laço que se arrebenta...
As parcerias
abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam
aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.
-Pelo baio!
Luz e doble!...
-Pelo mouro!
Doble e luz!...
Os corredores
fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas;
e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram.
E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros
meneando cascos, que parecia uma tormenta...
- Empate! Empate!
- gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a
parelha veloz, compassada como numa colhera.
- Valha-me a
Virgem madrinha, Nossa Senhora! - gemia o Negrinho. - Se o sete-léguas
perde, o meu senhor me mata! hip! hip! hip!...
E baixava o
rebenque, cobrindo a marca do baio.
- Se o corta-vento
ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor.
Hip! hip!
E cerrava as
esporas no mouro.
Mas os fletes
corriam, compassados como numa colhera, Quando foi na última
quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões...
mas sempre juntos, sempre emparelhados.
E a duas braças
da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão,
pôs-se em pé e fez uma caravolta, de modo que deu ao
mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta!
E o Negrinho, de em pêlo, agarrou-se como um ginetaço.
- Foi mau jogo!
- gritava o estancieiro.
- Mau jogo!
- secundavam os outros da sua parceria.
A gauchada estava
dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou
o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, mais de um
virou as esporas para o peito do pé... Mas o juiz, que era
um velho do tempo da guerra de Sepé-Tíaraju, era um
juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a
cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem:
- Foi na lei!
A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou
o cavalo mouro, Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem
as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!
Não havia
o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada,
à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre
o poncho do seu contrário, estendido no chão.
E foi um alegrão
por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros
e leiteiras, côvados de baeta e haguais e deu o resto, de
mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos
que havia.
***
O estancieiro
retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando calado, em
todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração
vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda...
O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.
E conforme apeou-se,
da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque
e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
Na madrugada
saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:
- Trinta quadras
tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficarás
aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros...
O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!
O Negrinho começou
a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.
Veio o sol,
veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de
fome e já sem força nas mãos, enleou a soga
num pulso e deitou-se encostado a um cupim.
Vieram então
as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no
com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou
e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas
asas.
O Negrinho tremia,
de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa
Senhora e sossegou e dormiu.
E dormiu. Era
já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu,
subiu e passou; passaram as Três-Marias: a estrela-d'alva
subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejaram
o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-se solto
rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando
no escuro e desguaritando-se nas canhadas.
O tropel acordou
o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio,
Os galos estavam
cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava:
era a cerração que tapava tudo.
E assim o Negrinho
perdeu o pastoreio. E chorou.
***
O menino maleva
foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam.
O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a
um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
E quando era
já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido.
Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha
Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de
vela acesa em frente da imagem e saiu para o campo.
Por coxilhas
e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas,
por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no
chão; e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram
tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não
escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam...
Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos
relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por
diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor lhe marcara.
E assim o Negrinho
achou o pastoreio. E se riu...
Gemendo, gemendo,
o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se
as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho
dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os
guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos maus,
ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os
cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retouçando
e desguaritando-se nas canhadas.
O tropel acordou
o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos
não estavam lá...
E assim o Negrinho
perdeu o pastoreio. E chorou...
***
O estancieiro
mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque
e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele
não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue
vivo escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha
e Senhora Nossa, deu uni suspiro triste, que chorou no ar como uma
música, e pareceu que morreu...
E como já
era noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o
estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro,
que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos...
E assanhou bem as formigas, e quando elas, raivosas, cobriam todo
o corpo do Negrinho e começaram a trincá-la é
que então ele se foi embora, sem olhar para trás.
Nessa noite
o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha
mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças
de ouro... e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro
pequeno...
Caiu a serenada
silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca
das frutas.
Passou a noite
de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias
houve cerração forte, e três noites o estancieiro
teve o mesmo sonho.
***
A peonada bateu
o campo, porém ninguém achou a tropilha e nem rastro.
Então
o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do
escravo.
Qual não
foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro
o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de
si as formigas que o cobriam ainda!... O Negrinho, de pé,
e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto a tropilha dos trinta tordilhos...
e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu
a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora,
tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no
céu... Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do
escravo.
E o Negrinho,
sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas;
no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.
E assim o Negrinho
pela última vez achou o pastoreio. E não. chorou,
e nem se riu.
***
Correu no vizindário
a nova do fadário e da triste morte do Negrinho, devorado
na panela do formigueiro.
Porém
logo, de. perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram
a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...
E era, que os
posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos
e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por
atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros,
todos davam notícia - da mesma hora - de ter visto passar,
como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por
um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!...
Então,
muitos acenderam velas e rezaram o Pai-nosso pela alma do judiado.
Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma
cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava,
mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele
levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora,
que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia,
sem ninguém ver.
***
Todos os anos,
durante três dias, o Negrinho, desaparece: está metido
em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas,
suas amigas; a sua tropilha esparrama-se, e um aqui, outro por.
lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias.
Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha. perto do
seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é
quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e
a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na
ponta, nem na culatra.
***
Desde então
e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho,
cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta
os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às
canhadas.
O Negrinho anda
sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito
a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de
vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha
dos que não a têm.
Quem perder
suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão
ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho
do pastoreio e vá lhe dizendo -Foi por aí que eu perdi...
Foi por aí que eu perdi... Foi por ai que eu perdi!...
Se ele não
achar... ninguém mais.
Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto
Fonte:
LOPES NETO, J. Simões. Contos gauchescos e lendas do sul.
3 ed. Porto Alegre : Globo, 1965.
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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