O Juiz de Paz
da Roça
Comédia em 1 ato
PERSONAGENS
JUIZ DE PAZ
ESCRIVÃO DO JUIZ (DE PAZ)
MANUEL JOÃO, lavrador [guarda nacional]
MARIA ROSA, sua mulher
ANINHA, sua filha
JOSÉ [DA FONSECA], amante de Aninha
INÁCIO JOSÉ
JOSÉ DA SILVA
FRANCISCO ANTÕNIO
MANUEL ANDRÉ
SAMPAIO (lavradores)
TOMÁS
JOSEFA [JOAQUINA]
GREGÓRIO
[Negros]
[A cena
é na roça.]
Ato único
CENA I
Sala com uma
porta no fundo. No meio uma mesa, junto à qual estarão
cosendo Maria Rosa e Aninha.
Maria Rosa (
Teu pai tarda muito.
Aninha ( Ele disse que tinha hoje muito que fazer.
Maria Rosa ( Pobre homem! Mata-se com tanto trabalho! É quase
meio-dia e ainda não voltou. Desde as quatro horas da manhã
que saiu; está só com uma xícara de café.
Aninha ( Meu pai quando principia um trabalho não gosta de
o largar, e minha mãe sabe bem que ele tem só a Agostinho.
Maria Rosa ( É verdade. Os meias-caras agora estão
tão caros! Quando havia valongo eram mais baratos.
Aninha ( Meu pai disse que quando desmanchar o mandiocal grande
há-de comprar uma negrinha para mim.
Maria Rosa ( Também já me disse.
Aninha ( Minha mãe, já preparou a jacuba para meu
pai?
Maria Rosa ( É verdade! De que me ia esquecendo! Vai aí
fora e traz dous limões. (Aninha sai.) Se o Manuel João
viesse e não achasse a jacuba pronta, tínhamos campanha
velha. Do que me tinha esquecido! (Entra Aninha.)
Aninha ( Aqui estão os limões.
Maria Rosa ( Fica tomando conta aqui, enquanto eu vou lá
dentro. (Sai.)
Aninha, só ( Minha mãe já se ia demorando muito.
Pensava que já não poderia falar co senhor José,
que está esperando-me debaixo dos cafezeiros. Mas como minha
mãe está lá dentro, e meu pai não entra
nesta meia hora, posso fazê-lo entrar aqui. (Chega à
porta e acena com o lenço.) Ele aí vem.
CENA II
Entra José com calça e jaqueta branca.
José
( Adeus, minha Aninha! (Quer abraçá-la.)
Aninha ( Fique quieto. Não gosto destes brinquedos. Eu quero
casar-me com o senhor, mas não quero que me abrace antes
de nos casarmos. Esta gente quando vai à Corte, vem perdida.
Ora diga-me, concluiu a venda do bananal que seu pai lhe deixou?
José ( Concluí.
Aninha ( Se o senhor agora tem dinheiro, por que não me pede
a meu pai?
José ( Dinheiro? Nem vintém!
Aninha ( Nem vintém! Então o que fez do dinheiro?
É assim que me ama? (Chora.)
José ( Minha Aninha, não chores. Oh, se tu soubesses
como é bonita a Corte! Tenho um projeto que te quero dizer.
Aninha ( Qual é?
José ( Você sabe que eu agora estou pobre como Jó,
e então tenho pensado em uma cousa. Nós nos casaremos
na freguesia, sem que teu pai o saiba; depois partiremos para a
Corte e lá viveremos.
Aninha ( Mas como? Sem dinheiro?
José ( Não te dê isso cuidado: assentarei praça
nos Permanentes.
Aninha ( E minha mãe?
José ( Que fique raspando mandioca, que é ofício
leve. Vamos para a Corte, que você verá o que é
bom.
Aninha ( Mas então o que é que há lá
tão bonito?
José ( Eu te digo. Há três teatros, e um deles
maior que o engenho do capitão-mor.
Aninha ( Oh, como é grande!
José ( Representa-se todas as noites. Pois uma mágica...
Oh, isto é cousa grande!
Aninha ( O que é mágica?
José ( Mágica é uma peça de muito maquinismo.
Aninha ( Maquinismo?
José ( Sim, maquinismo. Eu te explico. Uma árvore
se vira em uma barraca; paus viram-se em cobras, em um homem vira-se
em amcaco.
Aninha ( Em macaco! Coitado do homem!
José ( Mas não é de verdade.
Aninha ( Ah, como deve ser bonito! E tem rabo?
José ( Tem rabo, tem.
Aninha ( Oh, homem!
José ( Pois o curro dos cavalinhos! Isto é que é
cousa grande! Há uns cavalos tão bem ensinados, que
dançam, fazem mesuras, saltam, falam, etc. Porém o
que mais me espantou foi ver um homem andar em pé em cima
do cavalo.
Aninha ( Em pé? E não cai?
José ( Não. Outros fingem-se bêbados, jogam
os socos, fazem exercício ( e tudo isto sem caírem.
E há um macaco chamado o macaco. Major, que é coisa
de espantar.
Aninha ( Há muitos macacos lá?
José ( Há, e macacas também.
Aninha ( Que vontade tenho eu de ver todas estas cousas!
José ( Além disto há outros muitos divertimentos.
Na Rua do Ouvidor há um cosmorama, na Rua de São Francisco
de Paula outro, e no Largo uma casa aonde se vêem muitos bichos
cheios, muitas conchas, cabritos com duas cabeças, porcos
com cinco pernas, etc.
Aninha ? Quando é que você pretende casar-se comigo?
José ( O vigário está pronto para qualquer
hora.
Aninha ( Então, amanhã de manhã.
José ( Pois sim. (Cantam dentro.)
Aninha ( Aí vem meu pai! Vai-te embora antes que ele te veja.
José ( Adeus, até amanhã de manhã.
Aninha ( Olhe lá, não falte! (Sai José.)
CENA III
Aninha, só ( Como é bonita a Corte! Lá é
que a gente se pode divertir, e não aqui, aonde não
se ouve senão os sapos e as entanhas cantarem. Teatros, mágicos,
cavalos que dançam, cabeças com dous cabritos, macaco
major... Quanta cousa! Quero ir para a Corte!
CENA IV
Entra Manuel João com uma enxada no ombro, vestido de calças
de ganga azul, com uma das pernas arregaçada, japona de baeta
azul e descalço. Acompanha-o um negro com um cesto na cabeça
e uma enxada no ombro, vestido de camisa e calça de algodão.
Aninha ( Abença,
meu pai.
Manuel João ( Adeus, rapariga. Aonde está tua mãe?
Aninha ( Está lá dentro preparando a jacuba.
Manuel João ( Vai dizer que traga, pois estou com muito calor.
(Aninha sai. M. João, para o negro:) Olá, Agostinho,
leva estas enxadas lá para dentro e vai botar este café
no sol. (O preto sai. Manuel João senta-se.) Estou que não
posso comigo; tenho trabalhado como um burro!
CENA V
Entra Maria Rosa com uma tigela na mão, e Aninha a acompanha.
Manuel João
( Adeus, senhora Maria Rosa.
Maria Rosa ( Adeus, meu amigo. Estás muito cansado?
Manuel João ( Muito. Dá-me cá isso?
Maria Rosa ( Pensando que você viria muito cansado, fiz a
tigela cheia.
Manuel João ( Obrigado. (Bebendo:) Hoje trabalhei como gente...
Limpei o mandiocal, que etava muito sujo... Fiz uma derrubada do
lado de Francisco Antônio... Limpei a vala de Maria do Rosário,
que estava muito suja e encharcada, e logo pretendo colher café.
Aninha?
Aninha ( Meu pai?
Manuel João ( Quando acabares de jantar, pega em um samborá
e vai colher o café que está à roda da casa.
Aninha ( Sim senhor.
Manuel João ( Senhora, a janta está pronta?
Maria Rosa ( Há muito tempo.
Manuel João ( Pois traga.
Maria Rosa ( Aninha, vai buscar a janta de teu pai. (Aninha sai.)
Manuel João ( Senhora, sabe que mais? É preciso casarmos
esta rapariga.
Maria Rosa ( Eu já tenho pensado nisto; mas nós somos
pobres, e quem é pobre não casa.
Manuel João ( Sim senhora, mas uma pessoa já me deu
a entender que logo que puder abocar três ou quatro meias-caras
destes que se dão, me havia de falar nisso... Com mais vagar
trataremos deste negócio. (Entra Aninha com dous pratos e
os deixa em cima da mesa.)
Aninha ( Minha mãe, a carne-seca acabou-se.
Manuel João ( Já?!
Maria Rosa ( A última vez veio só meia arroba.
Manuel João ( Carne boa não faz conta, voa. Assentem-se
e jantem. (Assentam-se todos e comem com as mãos. O jantar
consta de carne-seca, feijão e laranjas.) Não há
carne-seca para o negro?
Aninha ( Não senhor.
Manuel João ( Pois comalaranja com farinha, que não
é melhor do que eu. Esta carne está dura como um couro.
Irra! Um dia destes eu... Diabo de carne!... hei-de fazer uma plantação...
Lá se vão os dentes!... Deviam ter botado esta carne
de molho no corgo... que diabo de laranjas tão azedas! (Batem
à porta.) Quem é? (Logo que Manuel João ouve
bater na porta, esconde os pratos na gaveta e lambe os dedos.)
Escrivão, dentro ( Dá licença, Senhor Manuel
João?
Manuel João ( Entre quem é.
Escrivão, entrando ( Deus esteja nesta casa.
Maria Rosa e Manuel João ( Amém.
Escrivão ( Um criado da Senhora Dona e da Senhora Doninha.
Maria Rosa e Aninha ( Uma sua criada. (Cumprimentam.)
Manuel João ( O senhor por aqui a estas horas é novidade.
Escrivão ( Venho da parte do senhor juiz de paz intimá-lo
para levar um recruta à cidade.
Manuel João ( Ó homem, não há mais ninguém
que sirva para isto?
Escrivão ( Todos se recusam do mesmo modo, e o serviço
no entando há-de se fazer.
Manuel João ( Sim, os pobres é que o pagam.
Escrivão ( Meu amigo, isto é falta de patriotismo.
Vós bem sabeis que é preciso mandar gente para o Rio
Grande; quando não, perdemos esta província.
Manuel João ( E que me importa eu com isso? Quem as armou
que as desarme.
Escrivão ( Mas, meu amigo, os rebeldes têm feito por
lá horrores!
Manuel João ( E que quer o senhor que se lhe faça?
Ora é boa!
Escrivão ( Não diga isto, Senhor Manuel João,
a rebelião...
Manuel João, gritando ( E que me importa eu com isso?...
E o senhor a dar-lhe...
Escrivão, zangado ( O senhor juiz manda dizer-lhe que se
não for, irá preso.
Manuel João ( Pois diga com todos os diabos ao senhor juiz
que lá irei.
Escrivão, à parte ( Em boa hora o digas. Apre! custou-me
achar um guarda... Às vossas ordens.
Manuel João ( Um seu criado.
Escrivão ( Sentido nos seus cães.
Manuel João ( Não mordem.
Escrivão ( Senhora Dona, passe muito bem. (Sai o Escrivão.)
Manuel João ( Mulher, arranja esta saia, enquanto me vou
fardar. (Sai M. João.)
CENA VI
Maria Rosa ( Pobre homem! Ir à cidade somente para levar
um preso! Perder assim um dia de trabalho...
Aninha ( Minha mãe, pra que é que mandam a gente presa
para a cidade?
Maria Rosa ( Pra irem à guerra.
Aninha ( Coitados!
Maria Rosa ( Não se dá maior injustiça! Manoel
João está todos os dias vestindo a farda. Ora pra
levar presos, ora pra dar nos quilombos... É um nunca acabar.
Aninha ( Mas meu pai pra que vai?
Maria Rosa ( Porque o juiz de paz o obriga.
Aninha ( Ora, ele podia ficar em casa; e se o juiz de paz cá
viesse buscá-lo, não tinha mais que iscar a Jibóia
e a Boca-Negra.
Maria Rosa ( És uma tolinha! E a cadeia ao depois?
Aninha ( Ah, eu não sabia.
CENA VII
Entra Manuel João com a mesma calça e jaqueta de chita,
tamancos, barretina da Guarda Nacional, cinturão com baioneta
e um grande pau na mão.
Manuel João,
entrando ( Estou fardado. Adeus, senhora, até amanhã.
(Dá um abraço.)
Aninha ( Abença, meu pai.
Manuel João ( Adeus, menina.
Aninha ( Como meu pai vai à cidade, não se esqueça
dos sapatos franceses que me prometeu.
Manuel João ( Pois sim.
Maria Rosa ( De caminho compre carne.
Manuel João ( Sim. Adeus, minha gente, adeus.
Maria Rosa e Aninha ( Adeus! (Acompanham-no até a porta.)
Manuel João, à porta ( Não se esqueça
de mexer a farinha e de dar que comer às galinhas.
Maria Rosa ( Não. Adeus! (Sai Manuel João.)
CENA VIII
Maria Rosa ( Menina, ajuda-me a levar estes pratos para dentro.
São horas de tu ires colher o café e de eu ir mexer
a farinha... Vamos.
Aninha ( Vamos, minha mãe. (Andando:) Tomara que meu pai
não se esqueça dos meus sapatos... (Saem.)
CENA IX
Sala em casa do juiz de paz. Mesa no meio com papéis; cadeiras.
Entra o juiz de paz vestido de calça branca, rodaque de riscado,
chinelas verdes e sem gravata.
Juiz ( Vamo-nos
preparando para dar audiência. (Arranja os papéis.)
O escrivão já tarda; sem dúvida está
na venda do Manuel do Coqueiro... O último recruta que se
fez já vai-me fazendo peso. Nada, não gosto de presos
em casa. Podem fugir, e depois dizem que o juiz recebeu algum presente.
(Batem à porta.) Quem é? Pode entrar. (Entra um preto
com um cacho de bananas e uma carta, que entrega ao juiz. Juiz,
lendo a carta:) "Il.mo Sr. ( Muito me alegro de dizer a V.
S.ª que a minha ao fazer desta é boa, e que a mesma
desejo para V.S.ª pelos circunclóquios com que lhe venero".
(Deixando de ler:) Circunlóquios... Que nome em breve! O
que quererá ele dizwer? Continuemos. (Lendo:) "Tomo
a liberdade de mandar a V.S.ª um cacho de bananas-maçãs
para V.S.ª comer com a sua boca e dar também a comer
à Sr.ª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V.S.ª
há-de reparar na insignificância do presente; porém,
Il.mo Sr., as reformas da Constituição permitem a
cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando
assim as ditas reformas, V.S.ª fará o favor de aceitar
as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas. No
mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra
de ser ( Manuel André de Sapiruruca." ( Bom, tenho bananas
para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e
entrega à senhora. Toma lá um vintém para teu
tabaco. (Sai o negro.) O certo é que é bem bom ser
juiz de paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos
presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc. (Batem à
porta.) Quem é?
Escrivão, dentro ( Sou eu.
Juiz ( Ah, é o escrivão. Pode entrar.
CENA X
Escrivão ( Já intimei Manuel João para levar
o preso à cidade.
Juiz ( Bom. Agora vamos nós preparar a audiência. (Assentam-se
ambos à mesa e o juiz toca a campainha.) Os senhores que
estão lá fora no terreiro podem entrar. (Entram todos
os lavradores vestidos como roceiros; uns de jaqueta de chita, chapéu
de palha, calças brancas de ganga, de tamancos, descalços;
outros calçam os sapatos e meias quando entram, etc. Tomás
traz um leitão debaixo do braço.) Está aberta
a audiência. Os seus requerimentos?
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