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O Juiz de Paz da Roça
 


CENA XI


Inácio José, Francisco Antônio, Manuel André e Sampaio entregam seus requerimentos.

Juiz ( Sr. Escrivão, faça o favor de ler.
Escrivão, lendo ( Diz Inácio José, natural desta freguesia e casado com Josefa Joaquina, sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande a Gregório degradado para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar um ambigada em sua mulher, na encruzilhada do Pau-Grande, que quase a fez abortar, da qual embigada fez cair a dita sua mulher de pernar para o ar. Portanto pede a Vossa Senhoria mande o dito Gregório degradado para Angola. E.R.M.
Juiz ( É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora?
Gregório ( É mentira, Sr. juiz de paz, eu não dou embigadas em bruxas.
Josefa Joaquina ( Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.
Juiz ( Nada, nada, não é preciso; eu o creio.
Josefa Joaquina ( Sr. juiz, não é a primeira embigada que este homem me dá; eu é que não tenho querido contar a meu marido.
Juiz ( Está bom, senhora, sossegue. Sr. Inácio José, deixe-se destwas asneiras, dar embigadas não é crime classificado no Código. Sr. Gregório, faça o favor de não dar mais embigadas na senhora; quando não, arrumo-lhe com as leis às costas e meto-o na cadeia. Queiram-se retirar.
Inácio José, para Gregório ( Lá fora me pagarás.
Juiz (¨Estão conciliados. (Inácio José, Gregório e Josefa [Joaquina] saem.) Sr. escrivão, leia outro requerimento.
Escrivão, lendo ( "O abaixo-assinado vem dar os parabéns a V.S.ª por ter entrado com saúde no novo ano financeiro. Eu, Il." sr. juiz de paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio, aonde dá muito boas bananas e laranjas, e como vêm de encaixe, pelo a V.S.ª o favor de aceitar um cestinho das mesmas que eu mandarei hoje à tarde. Mas, como ia dizendo, o dito sítio foi comprado com o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras e outras cousas mais; e, vai senão quando, um meu vizinho, homem da raça do Judas, diz que metade do sítio é dele. E então, que lhe parece, sr. juiz, não é desaforo? Mas, como ia dizendo, peço a V.S.ª para vir assistir à marcação do sítio. Manuel André. E.R.M."
Juiz ( Não posso deferir por estar muito atravancado com um roçado; portanto, requeira ao suplente, que é o meu compadre Pantaleão.
Manuel André ( Mas, sr. juiz, ele também está ocupado com uma plantação.
Juiz ( Você replica? Olhe que o mando para a cadeia.
Manuel André ( Vossa Senhoria não pode prender-me à toa; a Constituição não manda.
Juiz ( A Constituição!... Está bem!... Eu, o juiz de paz, hei por bem derrogar a Constituição! Sr. escrivão, tome termo que a Constituição está derrogada, e mande-me prender este homem.
Manuel André ( Isto é uma injustiça!
Juiz ( Ainda fala? Suspendo-lhe as garantias...
Manuel André ( É desaforo...
Juiz, levantando-se ( Brejeiro!... (Manuel André corre; o juiz vai atrás.) Pega... Pega... Lá se foi... Que o leve o diabo. (Assenta-se.) Vamos às outras partes.
Escrivão, lendo ( Diz João de Sampaio que, sendo ele "senhor absoluto de um leitão que teve a porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cerca do Sr. Tomás pela parte de trás, e com a sem-cerimônia que tem todo o porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. Juiz, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa, porque nunca vi um porco pensar como um cão, que é outra qualidade de alimária e que pensa às vezes como um homem. Para V.S.ª não pensar que minto, lhe conto uma história: a minha cadela Tróia, aquela mesma que escapou de morder a V.S.ª naquela noite, depois que lhe dei uma tunda nunca mais comeu na cuia com os pequenos. Mas vou a respeito de dizer que o Sr. Tomás não tem razão em querer ficar com o leitão só porque comeu três ou quatro cabeças de nabo. Assim, peço a V.S.ª que mande entregar-me o leitão. E.R.M."
Juiz ( É verdade, Sr. Tomás, o que o Sr. Sampaio diz?
Tomás ( É verdade que o leitão era dele, porém agora é meu.
Sampaio ( Mas se era meu, e o senhor nem mo comprou, nem eu lho dei, como pode ser seu?
Tomás ( É meu, tenho dito.
Sampaio ( Pois não é, não senhor. (Agarram ambos no leitão e puxam, cada um para sua banda.)
Juiz, levantando-se ( Larguem o pobre animal, não o matem!
Tomás ( Deixe-me, senhor!
Juiz ( Sr. Escrivão, chame o meirinho. (Os dous apartam-se.) Espere, Sr. Escrivão, não é preciso. (Assenta-se.) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores este leitão de presente a alguma pessoa. Não digo com isso que mo dêem.
Tomás ( Lembra Vossa Senhoria bem. Peço licença a Vossa Senhoria para lhe oferecer.
Juiz ( Muito obrigado. É o senhor um homem de bem, que não gosta de demandas. E que diz o Sr. Sampaio?
Sampaio ( Vou a respeito de dizer que se Vossa Senhoria aceitar, fico contente.
Juiz ( Muito obrigado, muito obrigado! Faça o favor de deixar ver. Ó homem, está gordo, tem toucinho de quatro dedos. Com efeito! Ora, Sr. Tomás, eu que gosto tanto de porco com ervilha!
Tomás ( Se Vossa Senhoria quer, posso mandar algumas.
Juiz ( Faz-me muito favor. Tome o leitão e bote no chiqueiro quando passar. Sabe aonde é?
Tomás, tomando o leitão ( Sim senhor.
Juiz ( Podem se retirar, estão conciliados.
Sampaio ( Tenho ainda um requerimento que fazer.
Juiz ( Então, qual é?
Sampaio ( Desejava que Vossa Senhoria mandasse citar a Assembléia Provincial.
Juiz ( Ó homem! Citar a Assembléia Provincial? E para quê?
Sampaio ( Pra mandar fazer cercado de espinhos em todas as hortas.
Juiz ( Isto é impossível! A Assembléia Provincial não pode ocupar-se com estas insignificâncias.
Tomás ( Insignificância, bem! Mas os votos que Vossa Senhoria pediu-me para aqueles sujeitos não era insignificância. Então me prometeu mundos e fundos.
Juiz ( Está bom, veremos o que poderei fazer. Queiram-se retirar. Estão conciliados; tenho mais que fazer (Saem os dous.) Sr. Escrivão, faça o favor de... (Levanta-se apressado e, chegando à porta, grita para fora:) Ó Sr. Tomás! Não se esqueça de deixar o leitão no chiqueiro!
Tomás, ao longe ( Sim senhor.
Juiz, assentando-se ( Era muito capaz de esquecer. Sr. Escrivão, leia o outro requerimento.
Escrivão, lendo ( Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. "Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V.S.ª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher."
Juiz ( É de verdade que o senhor tem o filho da égua preso?
José da Silva ( É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo.
Juiz ( Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor.
José da Silva ( Mas, Sr. Juiz...
Juiz ( Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia.
José da Silva ( Eu vou queixar-me ao Presidente.
Juiz ( Pois vá, que eu tomarei a apelação.
José da Silva ( E eu embargo.
Juiz ( Embargue ou não embargue, embargue com trezentos mil diabos, que eu não concederei revista no auto do processo!
José da Silva ( Eu lhe mostrarei, deixe estar.
Juiz ( Sr. Escrivão, não dê anistia a este rebelde, e mande-o agarrar para soldado.
José da Silva, com humildade ( Vossa Senhoria não se arrenegue! Eu entregarei o pequira.
Juiz ( Pois bem , retirem-se; estão conciliados. (Saem os dous.) Não há mais ninguém? Bom, está fechada a sessão. Hoje cansaram-me!
Manuel João, dentro ( Dá licença?
Juiz ( Quem é? Pode entrar.
Manuel João, entrando ( Um criado de Vossa Senhoria.
Juiz ( Oh, é o senhor? Queira ter a bondade de esperar um pouco, enquanto vou buscar o preso. (Abre uma porta do lado.) Queira sair para fora.


CENA XII


Entra José.

Juiz ( Aqui está o recruta; queira levar para a cidade. Deixe-o no quartel do Campo de Santana e vá levar esta parte ao general. (Dá-lhe um papel.)
Manuel João ( Sim senhor. Mas, Sr. Juiz, isto não podia ficar para amanhã? Hoje já é tarde, pode anoitecer no caminho e o sujeitinho fugir.
Juiz ( Mas aonde há-de ele ficar? Bem sabe que não temos cadeias.
Manuel João ( Isto é o diabo!
Juiz ( Só se o senhor quiser levá-lo para sua casa e prendê-lo até amanhã, ou num quarto, ou na casa da farinha.
Manuel João ( Pois bem, levarei.
Juiz ( Sentido que não fuja.
Manuel João ( Sim senhor. Rapaz, acompanha-me. (Saem Manuel João e José.)


CENA XIII


Juiz ( Agora vamos nós jantar. (Quando se dispõem para sair, batem à porta.) Mais um! Estas gentes pensam que um juiz é de ferro! Entre quem é!


CENA XIV


Entra Josefa [Joaquina] com três galinhas penduradas na mão e uma cuia com ovos.
Juiz ( Ordena alguma cousa?
Josefa [Joaquina] ( Trazia este presente para o Sr. Juiz. Queira perdoar não ser cousa capaz. Não trouxe mais porque a peste deu lá em casa, que só ficaram estas que trago, e a carijó que ficou chocando.
Juiz ( Está bom; muito obrigado pela sua lembrança. Quer jantar?
Josefa [Joaquina] ( Vossa Senhoria faça o seu gosto, que este é o meu que já fiz em casa.
Juiz ( Então, com sua licença.
Josefa [Joaquina] ( Uma sua criada. (Sai.)


CENA XV


Juiz, com as galinhas nas mãos ( Ao menos com esta visita lucrei. Sr. Escrivão, veja como estão gordas! Levam a mão abaixo. Então, que diz?
Escrivão ( Parecem uns perus.
Juiz ( Vamos jantar. Traga estes ovos. (Saem.)


CENA XVI


Casa de Manuel João. Entram Maria Rosa e Aninha com um samborá na mão.

Maria Rosa ( Estou moída! Já mexi dous alqueires de farinha.
Aninha ( Minha mãe, aqui está o café.
Maria Rosa ( Bota aí. Aonde estará aquele maldito negro?


CENA XVII


Entram Manuel João e José.

Manuel João ( Deus esteja esta casa.
Maria Rosa ( Manuel João!...
Aninha ( Meu pai!...
Manuel João, para José ( Faça o favor de entrar.
Aninha, à parte ( Meu Deus, é ele!
Maria Rosa ( O que é isto? Não foste para a cidade?
Manuel João ( Não, porque era tarde e não queria que este sujeito fugisse no caminho.
Maria Rosa ( Então quando vais?
Manuel João ( Amanhã de madrugada. Este amigo dormirá trancado naquele quarto. Donde está a chave?
Maria Rosa ( Na porta.
Manuel João ( Amigo, venha cá. (Chega à porta do quarto e diz:) Ficará aqui até amanhã. Lá dentro há uma cama; entre. (José entra.) Bom, está seguro. Senhora, vamos para dentro contar quantas dúzias temos de bananas para levar amanhã para a cidade. A chave fica em cima da mesa; lembrem-se, se me esquecer. (Saem Manuel João e Maria Rosa.)

CENA XVIII

Aninha, só ( Vou dar-lhe escapula... Mas como se deixou prender?... Ele me contará; vamos abrir. (Pega na chave que está sobre a mesa e abre a porta.) Saia para fora.
José, entrando ( Oh, minha Aninha, quanto te devo!
Aninha ( Deixemo-nos de cumprimentos. Diga-me, como se deixou prender?
José ( Assim que botei os pés fora desta porta, encontrei com o juiz, que me mandou agarrar.
Aninha ( Coitado!
José ( E se teu pai não fosse incumbido de me levar, estava perdido, havia ser soldado por força.
Aninha ( Se nós fugíssemos agora para nos casarmos?
José ( Lembras muito bem. O vigário a estas horas está na igreja, e pode fazer-se tudo com brevidade.
Aninha ( Pois vamos, antes que meu pai venha.
José ( Vamos. (Saem correndo.)


CENA XIX


Maria Rosa, entrando ( Ó Aninha! Aninha" Aonde está esta maldita? Aninha! Mas o que é isto? Esta porta aberta? Ah! Sr. Manuel João! Sr. Manuel João!
Manuel João, dentro ( O que é lá?
Maria Rosa ( Venha cá depressa. (Entra Manuel João em mangas de camisa.)
Manuel João ( Então, o que é?
Maria Rosa ( O soldado fugiu!
Manuel João ( O que dizes, mulher?!
Maria Rosa, apontando para a porta ( Olhe!
Manuel João ( O diabo! (Chega-se para o quarto.) É verdade, fugiu! Tanto melhor, não terei o trabalho de o levar à cidade.
Maria Rosa ( Mas ele não fugiu só...
Manuel João ( Hem?!
Maria Rosa ( Aninha fugiu com ele.
Manuel João ( Aninha?!
Maria Rosa ( Sim.
Manuel João ( Minha filha fugir com um vadio daqueles! Eis aqui o que fazem as guerras do Rio Grande!
Maria Rosa ( Ingrata! Filha ingrata!
Manuel João ( Dê-me lá minha jaqueta e meu chapéu, que quero ir à casa do juiz de paz fazer queixa do que nos sucede. Hei-de mostrar àquele melquitrefe quem é Manuel João... Vá, senhora, não esteja a choramingar.


CENA XX

Entram José e Aninha e ajoelham-se aos pés de Manuel João.

Ambos ( Senhor!
Manuel João ( O que é lá isso?
Aninha ( Meu pai, aqui está o meu marido.
Manuel João ( Teu marido?!
José ( Sim senhor, seu marido. Há muito tempo que nos amamos, e sabendo que não daríeis o vosso consentimento, fugimos e casamos na freguesia.
Manuel João ( E então? Agora peguem com um trapo quente. Está bom, levantem-se; já agora não há remédio. (Aninha e José levantam-se. Aninha vai abraçar a mãe.)
Aninha ( E minha mãe, me perdoa?
Maria Rosa ( E quando é que eu não hei-de perdoar-te? Não sou tua mãe? (Abraçam-se.)
Manuel João ( É preciso agora irmos dar parte ao juiz de paz que você já não pode ser soldado, pois está casado. Senhora, vá buscar minha jaqueta. (Sai Maria Rosa.) Então o senhor conta viver à minha custa, e com o meu trabalho?
José ( Não senhor, também tenho braços para ajudar; e se o senhor não quer que eu aqui viva, irei para a Corte.
Manuel João ( E que vai ser lá?
José ( Quando não possa ser outra cousa, serei ganhador da Guarda Nacional. Cada ronda rende mil-réis e cada guarda três mil-réis.
Manuel João ( Ora, vá-se com os diabos, não seja tolo. (Entra Maria Rosa com a jaqueta e chapéu, e de xale.)
Maria Rosa ( Aqui está.
Manuel João, depois de vestir a jaqueta ( Vamos pra casa do juiz.
Todos ( Vamos. (Saem.)


CENA XXI

Casa do Juiz. Enrta o Juiz de Paz e [o] Escrivão.

Juiz ( Agora que estamos com a pança cheia, vamos trabalhar um pouco. (Assentam-se à mesa.)
Escrivão ( Vossa Senhoria vai amanhã à cidade?
Juiz ( Vou, sim. Quero-me aconselhar com um letrado para saber como hei-de despachar alguns requerimentos que cá tenho.
Escrivão ( Pois Vossa Senhoria não sabe despachar?
Juiz ( Eu? Ora essa é boa! Eu entendo cá disso? Ainda quando é algum caso de embigada, passe; mas casos sérios, é outra cousa. Eu lhe conto o que me ia acontecendo um dia. Um meu amigo me aconselhou que, todas as vezes que eu não soubesse dar um despacho, que desse o seguinte: "Não tem lugar." Um dia apresentaram-me um requerimento de certo sujeito, queixando-se que sua mulher não queria viver com ele, etc. Eu, não sabendo que despacho dar, dei o seguinte: "Não tem lugar." Isto mesmo é que queria a mulher; porém [o marido] fez uma bulha de todos os diabos; foi à cidade, queixou-se ao Presidente, e eu estive quase não quase suspenso. Nada, não me acontece outra.
Escrivão ( Vossa Senhoria não se envergonha, sendo um juiz de paz?
Juiz ( Envergonhar-me de quê? O senhor ainda está muito de cor. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, quantos juízes de direito há por estas comarcas que não sabem aonde têm sua mão direita, quanto mais juízes de paz... E além disso, cada um faz o que sabe. (Batem.) Quem é?
Manuel João, dentro ( Um criado de Vossa Senhoria.
Juiz ( Pode entrar.


CENA XXII

Entram Manuel João, Maria Rosa, Aninha e José.

Juiz, levantando-se ( Então, o que é isto? Pensava que já estava longe daqui!
Manuel João ( Não senhor, ainda não fui.
Juiz ( Isso vejo eu.
Manuel João ( Este rapaz não pode ser soldado.
Juiz ( Oh, uma rebelião? Sr. Escrivão, mande convocar a Guarda Nacional e oficie ao Governo.
Manuel João ( Vossa Senhoria não se aflija, este homem está casado.
Juiz ( Casado?!
Manuel João ( Sim senhor, e com minha filha.
Juiz ( Ah, então não é rebelião... Mas vossa filha casada com um biltre destes?
Manuel João ( Tinha-o preso no meu quarto para levá-lo amanhã para a cidade; porém a menina, que foi mais esperta, furtou a chave e fugiu com ele.
Aninha ( Sim senhor, Sr. Juiz. Há muito tempo que o amo, e como achei ocasião, aproveitei.
Juiz ( A menina não perde ocasião! Agora, o que está feito está feito. O senhor não irá mais para a cidade, pois já está casado. Assim, não falemos mais nisso. Já que estão aqui, hão-de fazer o favor de tomar uma xícara de café comigo, e dançarmos antes disto uma tirana. Vou mandar chamar mais algumas pessoas para fazerem a roda maior. (Chega à porta.) Ó Antônio! Vai à venda do Sr. Manuel do Coqueiro e dize aos senhores que há pouco saíram daqui que façam o favor de chegarem até cá. (Para José:) O senhor queira perdoar se o chamei de biltre; já aqui não está quem falou.
José ( Eu não me escandalizo; Vossa Senhoria tinha de algum modo razão, porém eu me emendarei.
Manuel João ( E se não se emendar, tenho um reio.
Juiz ( Senhora Dona, queira perdoar se ainda a não cortejei. (Cumprimenta.)
Maria Rosa, cumprimentando ( Uma criada de Sua Excelência.
Juiz ( Obrigado, minha senhora... Aí chegam os amigos.


CENA ÚLTIMA

Os mesmos e os que estiveram em cena.

Juiz ( Sejam bem-vindos, meus senhores. (Cumprimentam-se.) Eu os mandei chamar para tomarem uma xícara de café comigo e dançarmos um fado em obséquio ao Sr. Manuel João, que casou sua filha hoje.
Todos ( Obrigado a Vossa Senhoria.
Inácio José, para Manuel João ( Estimarei que sua filha seja feliz.
Os outros ( Da mesma sorte.
Manuel João ( Obrigado.
Juiz ( Sr. Escrivão, faça o favor de ir buscar a viola. (Sai o Escrivão.) Não façam cerimônia; suponham que estão em suas casas... Haja liberdade. Esta casa não é agora do juiz de paz ( é de João Rodrigues. Sr. Tomás, faz-me o favor? (Tomás chega-se para o juiz e este o leva para um canto.) O leitão ficou no chiqueiro?
Tomás ( Ficou, sim senhor.
Juiz (/ Bom. (Para os outros:) Vamos arranjar a roda. A noiva dançará comigo, e o noivo com sua sogra. Ó Sr. Manuel João, arranje outra roda... Vamos, vamos! (Arranjam as rodas; o escrivão entra com uma viola.) Os outros senhores abanquem-se. Sr. Escrivão, ou toque, ou dê a viola a algum dos senhores. Um fado bem rasgadinho... bem choradinho...
Manuel João ( Agora sou eu gente!
Juiz ( Bravo, minha gente! Toque, toque! (Um dos atores toca a tirana na viola; os outros batem palmas e caquinhos, e os mais dançam.

Tocador,

cantando ( Ganinha, minha senhora,
Da maior veneração;
Passarinho foi-se embora.
Me deixou penas na mão.
Todos ( Se me dás que comê,
Se me dás que bebê,
Se me pagas as casas,
Vou morar com você. (Dançam.)

Juiz ( Assim, meu povo! Esquenta, esquenta!...
Manuel João ( Aferventa!

Tocador,
cantando ( Em cima daquele morro
Há um pé de ananás;
Não há homem neste mundo
Como o nosso juiz de paz.

Todos ( Se me dás que comê,
Se me dás que bebê,
Se me pagas as casas,
Vou morar com você.

Juiz ( Aferventa, aferventa!...

Cena I à Cena X
Cena XI à Cena Última