O Homem que sabia Javanês e outros contos
Lima Barreto
Foi Buscar
Lã...
A SUA APARIÇÃO
nos lugares do Rio onde se faz reputação, boa ou má,
foi súbita.
Veio do Norte,
logo com a carta de bacharel, com solene pasta de couro da Rússia,
fecho e monograma de prata, chapéu-de-sol e bengala de castão
de ouro, enfim, com todos os apetrechos de um grande advogado e
de um sábio jurisconsulto. Não se podia dizer que
fosse mulato; mas também não se podia dizer que fosse
branco. Era indeciso. O que havia nele de notável era o seu
olhar vulpino, que pedia escuridão para brilhar com força;
mas que, à luz, era esquivo e de mirada erradia.
Aparecia sempre
em roda de advogados, mais ou menos célebres, cheio de morgue
tomando refrescos, chopes, mas pouco se demorando nos botequins
e confeitarias. Parecia escolher com grande escrúpulo as
suas relações. Nunca se o viu com qualquer tipo aboemiado
ou mal vestido. Todos os seus companheiros eram sempre gente limpa
e de vestuário tratado. Além do convívio das
notabilidades do bureau carioca, o doutor Felismino Praxedes Itapiru
da Silva apreciava também a companhia de repórteres
e redatores de jornais, mas desses sérios, que não
se metem em farras, nem em pândegas baratas.
Aos poucos,
começou a surgir seu nome, subscrevendo artigos nos jornais
diários; até, no Jornal do Comércio, foi publicado
um, com quatro colunas, tratando das "Indenizações
por prejuízos resultantes de acidentes na navegação
aérea"
As citações
de textos de leis, de praxistas, de. comentadores de toda a espécie,
eram múltiplas, ocupavam, em suma, dois terços do
artigo; mas o artigo era assinado por ele: doutor Felismino Praxedes
Itapiru da Silva.
Quando passava
solene, dançando a cabeça como cavalo de coupé
de casamento rico, sobraçando a rica pasta rabulesca, atirando
a bengala para adiante muito para adiante, sem olhar para os lados,
havia quem o invejasse, na Rua do Ouvidor ou na avenida, e dissesse:
- Este Praxedes
é um " águia" ! Chegou noutro dia do Norte
e já está ganhando rios de dinheiro na advocacia!
Esses nortistas...
Não havia
nenhuma verdade nisso. Apesar de ter carta de bacharel pela Bahia
ou por Pernambuco; apesar do ouro da bengala e da prata da pasta;
apesar de ter escritório na Rua do Rosário, a sua
advocacia ainda era muito "mambembe". Pouco fazia e todo
aquele espetáculo de fraques, hotéis caros, táxis,
cock-tails, etc., era custeado por algum dinheiro que trouxera do
Norte e pelo que obtivera aqui, por certos meios de que ele tinha
o segredo. Semeava, para colher mais tarde.
Chegara com
o firme propósito de conquistar o Rio de Janeiro, fosse como
fosse. Praxedes era teimoso e, até, tinha a cabeça
quadrada e a testa curta dos teimosos; mas não havia na sua
fisionomia mobilidade, variedade de expressões, uma certa
irradiação, enfim, tudo o que denuncia inteligência.
Muito pouco
se sabia dos seus antecedentes. Vagamente se dizia que Praxedes
fora sargento de um regimento policial de um Estado do Norte; e
cursara como sargento a faculdade de Direito respectiva, formando-se
afinal. Acabado o curso, deu um desfalque na caixa do batalhão
com a cumplicidade de alguns oficiais, entre os quais, alguns eram
esteios do situacionismo local. Por único castigo, tivera
baixa do serviço, enquanto os oficiais lá continuaram.
Escusado é dizer que os " dinheirosa" com que se
lançava no Rio, vinham em grande parte das " economias
lícitas do batalhão tal da força policial do
Estado *** ".
Eloqüente
a seu modo, com voz cantante, embora um tanto nasalada, senhor de
imagens suas e, sobretudo, de alheias, tendo armazenado uma porção
de pensamentos e opiniões de sábios e filósofos
de todas as classes, Praxedes conseguia mascarar a miséria
de sua inteligência e a sua falta de verdadeira cultura, conversando
como se discursasse, encadeando aforismas e foguetões de
retórica.
Só o
fazia, porém, entre os colegas e repórteres bem comportados.
Nada de boêmios, poetas e noctívagos, na sua roda!
Advogava unicamente
no cível e no comercial. Isto de "crime", dizia
ele com asco, "só para rábulas".
Pronunciava
- "rábulas" - quase cuspindo, porque devem ter
reparado que os mais vaidosos com os títulos escolares são
os burros e os de baixa extração que os possuem.
Para estes,
ter um pergaminho, como eles pretensiosamente chamam o diploma,
é ficar acima e diferente dos que o não têm,
ganhar uma natureza especial e superior aos demais, transformar-se
até de alma.
Quando fui empregado
da Secretaria da Guerra, havia numa repartição militar,
que me ficava perto, um sargento amanuense com um defeito numa vista,
que não cessava de aborrecer-me com as suas sabenças
e literatices. Formou-se numa faculdade de Direito por aí
e, sem que nem porque, deixou de me cumprimentar.
São sempre
assim...
Praxedes Itapiru
da Silva, ex-praça de pré de uma polícia provinciana,
tinha em grande conta, como coisa inacessível, aquele banalíssimo
trambolho de uma vulgar carta de bacharel; e, por isso, dava-se
à importância de sumidade em qualquer departamento
do pensamento humano e desprezava soberbamente os rábulas
e, em geral, os não formados.
Mas, contava
eu, o impávido bacharel nortista tinha um grande desdém
pela advocacia criminal; à vista disso, certo dia, todos
os seus íntimos se surpreenderam quando ele lhes comunicou
que ia defender um dado criminoso, no júri.
Era um réu
de crime hediondo, cujo crime deve estar ainda na 1embrança
de todos. Lá, pelas bandas de Inhaúma, num lugar chamado
Timbó, vivia num "sítio" isolado, quase
só, um velho professor jubilado da Escola Militar, muito
conhecido pelo seu gênio estranhamente concentrado e sombrio.
Não se lhe conheciam parentes; e isto, há mais de
quarenta anos. Jubilara-se e metera-se naquele ermo recanto do nosso
município, deixando mesmo de freqüentar o seu divertimento
predileto, por deficiência de condução. Consistia
este no café-concerto, onde houvesse anafadas mulheres estrangeiras
e saracoteios de raparigas no palco. Era um esquisitão, o
doutor Campos Bandeira, como se chamava ele. Vestia-se como ninguém
se vestiu e se vestirá: calças brancas, em geral;
colete e sobrecasaca curta, ambos de alpaca; chapéu mole,
partido ao centro; botins inteiriços de pelica; e sempre
com chapéu-de-chuva de cabo de volta. Era amulatado, com
traços indiáticos e tinha um lábio inferior
muito fora do plano do superior. Pintava e, por sinal, muito mal,
os cabelos e a barba; e um pequeno pince-nez, sem aros, de vidros
azulados, acabava-lhe a fisionomia original.
Todos o sabiam
homem de preparo e de espírito; tudo estudava e tudo conhecia.
Dele contavam-se muitas anedotas saborosas. Sem amigos, sem parentes,
sem família, sem amantes, era, como examinador, de uma severidade
inexorável. Não cedia a empenhos de espécie
alguma, viessem donde viessem. Era o terror dos estudantes. Não
havia quem pudesse explicar o estranho modo de vida que levava,
não havia quem atinasse com a causa oculta que o determinava.
Que desgosto, que mágoa o fizera assim ? Ninguém sabia.
Econômico,
lecionando, e muito particularmente, devia possuir um pecúlio
razoável. Os rapazes calculavam em cento e tantos contos.
Se era tido
como estranho. ratão original, mais estranho, mais ratão,
mais original pareceu ele a todos, quando se foi estabelecer, depois
de jubilado. naquele cafundó do Rio de Janeiro:
- Que maluco!
- diziam.
Mas o doutor
Campos Bandeira (ele não o era, mas assim o tratavam), por
não os ter, não ouviu amigos e meteu-se no Timbó.
Hoje, há lá uma magnífica estrada de rodagem,
que a prefeitura em dias de lucidez construiu; mas, naquele tempo,
era um atoleiro. A maioria dos cariocas não conhece essa
obra útil da nossa municipalidade; pois olhem: se fosse em
São Paulo, já os jornais e revistas daqui teriam publicado
fotografias, com artigos estirados, falando da energia paulista,
dos bandeirantes, de José Bonifácio e da valorização
do café.
O doutor Campos
Bandeira, apesar da péssima estrada que lá havia,
por aquela época, e vinha trazê-lo ao ponto dos bondes
de Inhaúma, lá se estabeleceu, entregando-se de corpo
e alma aos seus trabalhos de química agrícola.
Tinha quatro
trabalhadores para a roça e tratamento de animais; e, para
o interior de casa, só tinha um serviçal. Era um pobre
diabo de bagaço humano, espremido pelo desânimo e pelo
álcool, que acudia, nas vendas dos arredores, pelo apelido
de "Casaca", por andar sempre com um fraque rabudo.
O velho professor
o tinha em casa mais por consideração do que por qualquer
outro motivo. Quase não fazia nada. Bastava-lhe possuir alguns
níqueis, para que não voltasse a casa a fim de procurar
serviço. Deixava-se ficar pelas bodegas. Pela manhã,
mal varria a casa, fazia o café e moscava-se. Só quando
a fome apertava aparecia.
Campos Bandeira,
que fora tido, durante quarenta anos, por frio, indiferente, indolor,
egoísta e, até, mau, tinha, entretanto, por aquele
náufrago da vida ternuras de mãe e perdões
de pai.
Uma manhã,
"Casaca" despertou e, não vendo o seu amo de pé,
foi até os seus aposentos receber ordens. Topou-o na sala
principal, amarrado e amordaçado. As gavetas estavam revolvidas,
embora os móveis estivessem nos seus lugares. "Casaca"
chamou por socorro; vieram os vizinhos e desembaraçando o
professor da mordaça, verificaram que ele ainda não
estava morto. Fricções e todo o remédio que
lhes veio à mente empregaram, até tapas e socos. O
doutor Campos Bandeira salvou-se, mas estava louco e quase sem fala,
tal a impressão de terror que recebeu. A polícia pesquisou
e verificou que houvera roubo de dinheiro, e grosso, graças
a um caderno de notas do velho professor. Todos os indícios
eram contra o "Casaca" O pobre diabo negou. Bebera, naquela
tarde, até os botequins fecharem-se, por toda a parte, nas
proximidades. Recolhera-se completamente embriagado e não
se 1embrava se tinha fechado a porta da cozinha, que amanhecera
aberta. Dormira e, daí em diante, não se 1embrava
de ter ouvido ou visto qualquer coisa.
Mas... tamancos
do pobre diabo foram encontrados no local do crime; a corda, com
que atacaram a vítima, era dele; a camisa, com que fizeram
a mordaça, era dele. Ainda mais, ele dissera a "Seu"
Antônio " do botequim" que, em breve, havia de ficar
rico, para beber na casa dele, Antônio, uma pipa de cachaça,
já que ele recusava fiar-lhe um "calisto". Foi
pronunciado e compareceu a júri. Durante o tempo do processo,
o doutor Campos Bandeira ia melhorando. Recuperou a fala e, ao fim
de um ano, estava são. Tudo isto se passou no silêncio
tumular do manicômio.
Chegou o dia
do Júri. "Casaca" era o réu que o advogado
Praxedes ia defender, quebrando o seu juramento de não advogar
no " crime" A sala encheu-se para ouvi-lo.
O pobre "Casaca"
, sem pai, sem mãe, sem amigos, sem irmãos, sem parati,
olhava tudo aquilo com o olhar estúpido de animal doméstico
num salão de pinturas. De quando em quando, chorava. O promotor
falou.
O doutor Felismino
Praxedes Itapiru da Silva ia começar a sua estupenda defesa,
quando um dos circunstantes, dirigindo-se ao presidente do tribunal,
disse com voz firme:
- Senhor juiz,
quem me quis matar e me roubou, não foi este pobre homem
que aí está, no banco dos réus; foi o seu eloqüente
e elegante advogado.
Houve sussurro;
o juiz admoestou a assistência, o popular continuou:
- Eu sou o professor
Campos Bandeira. Esse tal advogado, logo que chegou do Norte, procurou-me,
dizendo-se meu sobrinho, filho de uma irmã, a quem não
vejo desde quarenta anos. Pediu-me proteção e eu lhe
pedi provas. Nunca mas deu, senão alusões a coisas
domésticas, cuja veracidade não posso verificar. Vão
já tantos anos que me separei dos meus... Sempre que ia receber
a minha jubilação, ele me escorava nas proximidades
do quartel-general e me pedia dinheiro. Certa vez, dei-lhe quinhentos
mil réis. Na noite do crime, à noitinha, apareceu-me,
em casa, disfarçado em trajes de trabalhador, ameaçou-me
com um punhal, amarrou-me, amordaçou-me. Queria que eu fizesse
testamento em favor dele. Não o fiz; mas escapou de matar-me.
O resto é sabido. O "Casaca" é inocente.
O final não
se fez esperar; e, por pouco, o "Casaca" toma a si a causa
do seu ex-patrono.
Quando este
saía, entre dois agentes, em direitura à chefatura
de polícia, um velho meirinho disse bem alto:
- E dizer-se
que este moço era um "poço de virtudes"
!
América
Brasileira, Rio, maio 1922.
Lima Barreto
O Falso Dom Henrique V
(Episódio da história de Bruzundanga)
NAS NOTAS da minha viagem à República da Bruzundanga,
que devem aparecer brevemente, eu me abstive, para não tornar
enfadonho o livro, de tratar da sua história. Não
que ela deixe, por isso ou aquilo, de ser interessante; mas por
ser trabalhosa a tarefa, à vista das muitas identificações
das datas de certos fatos, que exigiam uma paciente transposição
de sua cronologia para a nossa e também porque certas formas
de dizer e de pensar são muito expressivas na língua
de lá, mas que numa tradução instantânea
para a de cá ficariam sem sal, sem o sainete próprio,
a menos que não quisesse eu deter-me anos em tal afã.
Conquanto não
seja rigorosamente científico, como diria um antigo aluno
da École Nationale des Chartes, de Paris; conquanto não
seja assim, eu tomei a resolução heróica de
aproximar a grosso modo, nesta breve notícia, os mais peculiares
à Bruzundanga dos nossos nomes portugueses e nomes típicos
assim como, do nosso calendário usual, as datas da cronologia
nacional da República da Bruzundanga, que seria obrigado
a fazer referência.
É assim
que o nome do principal personagem desta narração
não é bem o germano-luso Henrique Costa; mas, no falar
da República de que trato, Henbe-en-Rhinque.
Avisados disso
os eruditos, estou certo de que não tomarão por inqualificável
ignorância da minha parte esse traduzir fantástico
às vezes, mesmo, só se baseando na simples homofonia
dos vocábulos.
A história
do falso Dom Henrique, que foi Imperador da Bruzundanga, é
muito semelhante à daquele falso Demétrio que imperou
na Rússia onze meses. Mérimée contou-lhe a
história em um livro estimável.
O imperador
Dom Sajon (Shah-Jehon) reinava desde muito e o seu reinado parecia
não querer tomar termo. Todos os seus filhos varões
tinham morrido e a sua herança passava para os seus netos
varões, os quais nos últimos anos do seu governo,
se haviam reduzido a um único.
Lá, convém
lembrar, havia uma espécie de lei sálica que não
permitia princesa no trono, embora, em falta do filho do príncipe
varão, pudessem os filhos delas governar e reinar.
O Imperador
Dom Sajon, conquanto fosse despótico, mesmo, em certas vezes,
cruel e sanguinário, era amado do povo, sobre o qual a sua
cólera quase nunca se fazia sentir.
Tinha no coração
que a sua gente pobre fosse o menos pobre possível; que no
seu império não houvesse fome; que os nobres e príncipes
não esmagassem nem espoliassem os camponeses. Espalhava escolas
e academias e, aos que se distinguiam, nas letras ou nas ciências,
dava as maiores funções do Estado, sem curar-lhes
da origem.
Os nobres fidalgos
e mesmo os burgueses enriquecidos do pé para a mão
murmuravam muito sobre a rotina do imperante e o seu viver modesto.
Onde é que se viu, diziam eles, um imperador que só
tem dois palácios? E que palácios imundos! Não
têm mármores, não têm "frescos",
não têm quadros, não têm estátuas...Ele,
continuavam, que é dado à botânica, não
tem um parque, como o menor do Rei da França, nem um castelo,
como o mais insignificante do Rei da Inglaterra. Qualquer príncipe
italiano, cujo principado é menos do que a sua capital, tem
residências dez vezes mais magníficas do que esse bocó
de Sanjon.
O imperador
ouvia isso da boca dos seus esculcas e espiões, mas não
dizia nada. Sabia o sangue e a dor que essas construções
opulentas custam aos povos. Sabia quantas vidas, quantas misérias,
quanto sofrimento custou à França Versalhes. Lembrava-se
bem da recomendação que Luiz XIV, arrependido, na
hora da morte, fez a seu bisneto e herdeiro, pedindo-lhe que não
abusasse das construções e das guerras, como ele o
fizera.
Serviu assim
o velho imperador o seu longo reinado sem dar ouvidos aos fidalgos
e grandes burgueses, desejosos todos eles de fazer parada das suas
riquezas, títulos e mulheres belas, em grandes palácios,
luxuosos teatros, vastos parques, construídos, porém,
com o suor do povo.
Vivia modestamente,
como já foi dito, sem fausto, ou antes com um fausto obsoleto,
tanto pelo seu cerimonial propriamente quanto pelos apetrechos de
que se servia. O carro de gala tinha sido do seu bisavô e,
ao que diziam, as librés dos palafreneiros ainda eram da
época do pai, vendo-se até em algumas os remendos
mal postos.
Perdeu todas
as filhas, por isso veio a ficar sendo, afinal, o único herdeiro
o seu neto Dom Carlos (Khárlithos). Era este um príncipe
bom como o avô, mas mais simples e mais triste do que Sanjon.
Vivia sempre
afastado, fora da corte e dos fidalgos, num castelo retirado, cercado
de alguns amigos, de livros, de flores e árvores. Dos prazeres
reais e feudais só guardava um: o cavalo. Era a sua paixão
e ele não só os tinha dos melhores, como também,
ensaiava cruzamentos, para selecionar as raças nacionais.
Enviuvara dois
anos após um casamento de conveniência e do seu enlace
houvera um único filho - o Príncipe Dom Henrique.
Apesar de viúvo
nada se dizia sobre os seus costumes que eram os mais puros e os
mais morais que se podem exigir de um homem. O seu único
vício era o cavalo e os passeios a cavalo pelos arredores
do seu castelo, às vezes com um amigo, às vezes com
um criado mas quase sempre só.
Os amigos íntimos
diziam que o seu sofrimento e a sua tristeza vinham de pensar em
ser um dia imperador. Ele não disse, mas bem se podia admitir
que raciocinasse com aquele príncipe do romance que confessa
ao primo: "Pois você não vê logo que eu
tenho vergonha, nesta época, de me fingir de Carlos Magno,
com o tal manto de arminho, abelhas, coroas, ceptro - você
não vê mesmo? Fique você com a coroa, se quiser!"
Dom Carlos não
falava assim, pois não era dado a blagues, nem a boutades;
mas, de quando em quando, ao sair dos rápidos accessos de
mutismo e melancolia a que era sujeito, no meio da conversação,
dizia como num suspiro:
- No dia em
que for imperador, o que farei, meu Deus !
Um belo dia,
um príncipe tão bom como este aparece assassinado
num caminho que atravessa uma floresta do seu domínio de
Cubahandê, nos arredores da capital.
A dor foi imensa
em todos os pontos do império e ninguém sabia explicar
porque pessoa tão boa, tão ativamente boa, seria trucidada
assim misteriosamente. Naquela manhã, saíra a cavalo,
na Hallumatu, a sua égua negra, de um ébano reluzente,
como carbúnculo; e ela voltara desbocada, sem o cavalheiro,
para as estrebarias. Procuraram-no e foram encontrá-lo cadáver
com uma punhalada no peito.
O povo perquiriu
os culpados e boquejou que o assassínio devia ter sido a
mandado de uns parentes longínquos da família imperial,
em nome da qual, há vários séculos, o seu chefe
e fundador tinha desistido das suas prerrogativas e privilégios
feudais, para traficar com escravos malaios. Enriquecidos, aos poucos,
entraram de novo na hierarquia de que se tinham degradado voluntariamente,
mas não obtiveram o título de príncipes imperiais.
Eram somente príncipes.
O assassinato
ficou esquecido e o velho Rei Sanjon teimava em viver. Fosse enfraquecimento
das faculdades, originado pela velhice, fosse o emprego de sortilégios
e feitiços, como querem os incrédulos cronistas de
Bruzundanga, o fato é que o velho imperador entregou-se de
corpo e alma ao mais evidente representante da família aparentada,
a dos Hjanlhianes, o tal que se havia degradado. Fazia este e desfazia
no império; e falou-se mesmo em permiti-los voltar às
dignidades imperiais, mediante um senatusconsultum. A isso, o povo
e sobretudo o exército se opuseram e começaram a murmurar.
O exército era republicano, queria uma república de
verdade, na sua ingenuidade e inexperiência política;
os Hjanlhianes logo perceberam que, por aí, podiam chegar
a altas dignidades e muitos deles se fizeram republicanos.
Entretanto,
o bisneto de Sanjon continuava seqüestrado no castelo de Cubahandê.
Devia ter sete ou oito anos.
Quando menos
se esperava, num dado momento em que se representava, no Teatro
Imperial da Bruzundanga, o Brutus de Voltaire, vinte generais, seis
coronéis, doze capitães e cerca de oitenta alferes
proclamaram a república e saíram para a rua, seguidos
de muitos paisanos que tinham ido buscar as armas de flandres, na
arrecadação do teatro, a gritar: Viva a república!
Abaixo o tirano! etc., etc.
O povo, propriamente,
vem assim, àquela hora, nas janelas para ver o que se passava;
e, no dia seguinte, quando se soube da verdade, um olhava para o
outro e ambos ficavam estupidamente mudos.
Tudo aderiu;
e o velho imperador e os seus parentes, exceto os Hjanlhianes, foram
exilados. Ficou também o pequeno príncipe Dom Henrique
como refém e sonhou que os imperiais parentes dele não
tentariam nenhum golpe de mão contra as instituições
populares, que acabavam de trazer a próxima felicidade da
Bruzundanga.
Foi escolhida
uma junta governativa, cujo chefe foi aquele Hjanlhianes, Tétrech,
que era favorito do Imperador Sanjon.
Começou
logo a construir palácios e teatros, a pôr casas abaixo,
para fazer avenidas suntuosas. O dinheiro da receita não
chegava, aumentou os impostos, e vexações, multas,
etc. Enquanto a constituinte não votava a nova Constituição,
decuplicou os direitos de entrada de produtos estrangeiros manufaturados.
Os espertos começaram a manter curiosas fábricas de
produtos nacionais da seguinte forma, por exemplo : adquiriam em
outros países solas, sapatos já recortados. Importavam
tudo isso, como matéria-prima, livre de impostos, montavam
as botas nas suas singulares fábricas e vendiam pelo triplo
do que custavam os estrangeiros.
Outra forma
de extorquir dinheiro ao povo e enriquecer mais ainda os ricos eram
as isenções de direitos alfandegários.
Tétrech
decretou isenções de direitos para maquinismos, etc.,
destinados a usinas modelos de açúcar, por exemplo,
e prêmios para a exportação dos mesmos produtos.
Os ricos somente podiam mantê-los e trataram de fazê-lo
logo. Fabricaram açúcar à vontade, mas mandavam
para o exterior, pela metade do custo, a quase totalidade da produção,
pois os prêmios cobriam o prejuízo e o encarecimento
fatal de produto, nos mercados da Bruzundanga, também. Nunca
houve tempo, em que se inventassem com tanta perfeição
tantas ladroeiras legais.
A fortuna particular
de alguns, em menos de dez anos, quase que quintuplicou; mas o Estado,
os pequenos burgueses e o povo, pouco a pouco, foram caindo na miséria
mais atroz.
O povo do campo,
dos latifúndios (fazendas) e empresas deixou a agricultura
e correu para a cidade atraído pela alta dos salários;
era, porém, uma ilusão, pois a vida tornou-se caríssima.
Os que lá ficaram, roídos pelas doenças e pela
bebida, deixavam-se ficar vivendo num desânimo de agruras.
Os salários
eram baixíssimos e não lhes davam com o que se alimentassem
razoavelmente; andavam quase nus; as suas casas eram sujíssimas
e cheias de insetos parasitas, transmissores de moléstias
terríveis. A raça da Bruzundanga tinha por isso uma
caligem de tristeza que lhe emprestava tudo quanto ela continha:
as armas, o escachoar das cachoeiras, o canto doloroso dos pássaros,
o cicio da chuva nas cobertas de sapê da choça - tudo
nela era dor, choro e tristeza. Dir-se-ia que aquela terra tão
velha se sentia aos poucos sem viver...
Antes disso,
porém, houve um acontecimento que abalou profundamente o
povo. O Príncipe Dom Henrique e o seu preceptor, Dom Hobhathy,
foram encontrados numa tarde, afogados num lago do jardim do castelo
de Cubahandê. A nova correu célere por todo o país,
mas ninguém quis acreditar no fato, tanto mais que Tétrech
Hjanlhianes mandou executar todos os servidores do palácio.
Se ele os mandou matar, considerava a gente humilde, é porque
não queria que ninguém dissesse que o menino tinha
fugido. E não saiu daí. Os padres das aldeias e arraiais,
que se viam vexados e perseguidos - os das cidades sempre dispostos
a esmagar aqueles, para servir os potentados nas suas violências
e opressões contra os trabalhadores rurais - não cessavam
de manter veladamente essa crença da existência do
Príncipe Henrique. Estava oculto, havia de aparecer...
Sofrimentos
de toda a ordem caíram sobre o pobre povo da roça
e do sertão; privações de toda a natureza caíram
sobre ele; e colaram-lhe a fria sanguessuga, a ventosa dos impostos,
cujo produto era empregado diretamente, num fausto governamental
de opereta, e, indiretamente, numa ostentação ridícula
de ricos sem educação nem instrução.
Para beneficio geral, nada .
A Bruzundanga
era um sarcófago de mármore, ouro e pedrarias, em
cujo seio, porém, o cadáver mal embalsamado do povo
apodrecia e fermentava.
De norte a sul,
sucediam-se epidemias de loucuras, umas maiores, outras menores.
Para debelar uma, foi preciso um verdadeiro exército de vinte
mil homens. No interior era assim: nas cidades, os hospícios
e asilos de alienados regurgitavam. O sofrimento e a penúria
levavam ao álcool, "para esquecer"; e o álcool
levava ao manicômio.
Profetas regurgitavam,
cartomantes, práticos de feitiçaria, abusos de toda
a ordem. A prostituição, clara ou clandestina, era
quase geral, de alto a baixo; e os adultérios cresciam devido
ao mútuo engano dos nubentes em represália, um ao
outro, fortuna ou meios, de obtê-la. Na classe pobre, também,
por contágio. Apesar do luxo tosco, bárbaro e bronco,
dos palácios e "perspectivas" cenográficas,
a vida das cidades era triste, de provocar lágrimas. A indolência
dos ricos tinha abandonado as alturas dela, as suas colinas pitorescas,
e os pobres, os mais pobres, de mistura em toda espécie de
desgraçados criminosos e vagabundos, ocupavam as eminências
urbanas com casebres miseráveis, sujos, frios, feitos de
tábuas de caixões de sabão e cobertos com folhas
desdobradas de latas em que veio acondicionado o querosene.
Era a coroa,
o laurel daquela glacial transformação política...
As dores do
país tiveram eco num peito rústico e humilde. Surgiu
num domingo o profeta, que gemia por todo o país.
Rapidamente,
pela nação toda, foram conhecidas as profecias, em
verso, do professor Lopes. Quem era? Numa aldeia da província
de Aurilândia, um velho mestiço que tivera algumas
luzes de seminário e vivera muito tempo a ensinar as primeiras
letras, apareceu alistando profecias, umas claras, outras confusas.
Em instantes, espalharam-se pelo país e foram do ouvido do
povo crédulo ao entendimento do burguês com algumas
luzes.
Todos os que
tinham " a fé no coração" ouviram-nas;
e todos queriam o reaparecimento d'Ele, do pequeno Imperador Dom
Henrique, que não fora assassinado. A tensão espiritual
chegava ao auge; a miséria batia em todos os pontos, uma
epidemia desconhecida de tal forma foi violenta que, na capital
da Bruzundanga, foi preciso apelar para a caridade dos galés,
a fim de enterrar os mortos!...
Desaparecida
que ela foi, muito tempo, a cidade, os subúrbios, até
as estradas rurais cheiravam a defunto...
E quase todas
recitavam como oração, as profecias do professor Lopes:
.
Este país
da Bruzundanga
Parece de Deus deslembrado.
Nele, o povo anda na canga
Amarelo, pobre, esfaimado.
Houve fome,
seca e peste
Brigas e saques também
E agora a água investe
Sem cobrir a guerra que vem.
No ano que tem
dois sete
Ele por força voltará
E oito ninguém sofrerá.
Pois flagelos já são sete
E oito ninguém sofrerá.
Estes toscos
versos eram sabidos de cor por toda a gente e recitados em uma unção
mística. O governo tentou desmoralizá-los, por intermédio
dos seus jornais, mas não conseguiu. O povo acreditava. Tentou
prender Lopes mas recuou, diante da ameaça de uma sublevação
em massa da província de Aurilândia. As coisas pareciam
querer sossegar, quando se anunciou que, nesta penúria, aparecera
o Príncipe Dom Henrique. Em começo, ninguém
fez caso; mas o fato tomou vulto. Todos por lá recebiam-no
como tal, desde o mais rico até o mais pobre. Um velho servidor
do antigo imperador jurou reconhecer, naquele mancebo de trinta
anos, o bisneto do seu antigo imperial amo.
Os hjanlhianes,
com estes e aquele nome, continuavam a suceder-se no governo, espenicando
o saque e a vergonha do país em regra. Tinham, logo que esgotavam
as forças dos naturais, apelado para a imigração,
a fim de evitar velhaduras nos seus latifúndios. Vieram homens
mais robustos e mais cheios de ousadia, sem mesmo dependência
sentimental com os dominadores, pois não se deixavam explorar
facilmente, como os naturais. Revoltavam-se continuadamente; e os
hjanlhianes, esquecidos do mal que tinham dito dos seus patrícios
pobres, deram em animar estes e a tanger o chocalho da pátria
e do Patriotismo. Mas, era tarde ! Quando se soube que a Bruzundanga
tinha declarado guerra ao Império dos Oges para que muitos
hjanlhianes se metessem em grandes comissões e gorjetas,
que os banqueiros da Europa lhes davam, não foi mais a primazia
de Aurilândia que se conheceu naquele mancebo desconhecido,
o seu legítimo Imperador Dom Henrique V, bisneto do bom Dom
Sajon: foi todo país, operários, soldados, cansados
de curtir miséria também; estrangeiros, vagabundos,
criminosos, prostitutas, todos enfim, que sofriam.
O chefe dos
hjanlhianes morreu como um cão, envenenado por ele mesmo
ou por outros, no seu palácio, enquanto os seus criados e
fâmulos queimavam no pátio, em auto-de-fé, os
tapetes que tinham custado misérias e lágrimas de
um povo dócil e bom. A cidade se iluminou; não houve
pobre que não pusesse uma vela, um coto, na janela do seu
casebre...
Dom Henrique reinou durante muito tempo e, até hoje, os mais
conscienciosos sábios da Bruzundanga não afirmam com
segurança se ele era verdadeiro ou falso.
Como não
tivesse descendência, quando chegou aos sessenta anos, aquele
sábio príncipe proclamou por sua própria boca
a república, que é ainda a forma de governo da Bruzundanga
mas para a qual, ao que parece, o país não tem nenhuma
vocação. Ela espera ainda a sua forma de governo...
Lima Barreto
Eficiência Militar
(Historieta chinesa)
LI-HU ANG-PÔ, vice-rei de Cantão, Império da
China, Celeste Império, Império do Meio, nome que
lhe vai a calhar, notava que o seu exército provincial não
apresentava nem garbo marcial, nem tampouco, nas últimas
manobras, tinha demonstrado grandes aptidões guerreiras.
Como toda a
gente sabe, o vice-rei da província de Cantão, na
China, tem atribuições quase soberanas. Ele governa
a província como reino seu que houvesse herdado de seus pais,
tendo unicamente por lei a sua vontade.
Convém
não esquecer que isto se passou, durante o antigo regímen
chinês, na vigência do qual, esse vice-rei tinha todos
os poderes de monarca absoluto, obrigando-se unicamente a contribuir
com um avultado tributo anual, para o Erário do Filho do
Céu, que vivia refestelado em Pequim, na misteriosa cidade
imperial, invisível para o grosso do seu povo e cercado por
dezenas de mulheres e centenas de concubinas. Bem.
Verificado esse
estado miserável do seu exército, o vice-rei Li-Huang-Pô
começou a meditar nos remédios que devia aplicar para
levantar-lhe o moral e tirar de sua força armada maior rendimento
militar. Mandou dobrar a ração de arroz e carne de
cachorro, que os soldados venciam. Isto, entretanto, aumentou em
muito a despesa feita com a força militar do vice-reinado;
e, no intuito de fazer face a esse aumento, ele se 1embrou, ou alguém
lhe 1embrou, o simples alvitre de duplicar os impostos que pagavam
os pescadores, os fabricantes de porcelana e os carregadores de
adubo humano - tipo dos mais característicos daquela babilônica
cidade de Cantão.
Ao fim de alguns
meses, ele tratou de verificar os resultados do remédio que
havia aplicado nos seus fiéis soldados, a fim de dar-lhes
garbo, entusiasmo e vigor marcial.
Determinou que
se realizassem manobras gerais, na próxima primavera, por
ocasião de florirem as cerejeiras, e elas tivessem lugar
na planície de Chu-Wei-Hu - o que quer dizer na nossa língua
: "planície dos dias felizes". As suas ordens foram
obedecidas e cerca de cinqüenta mil chineses, soldados das
três armas, acamparam em Chu-Wei-Hu, debaixo de barracas de
seda. Na China, seda é como metim aqui.
Comandava em
chefe esse portentoso exército, o general Fu-Shi-Tô
que tinha começado a sua carreira militar como puxador de
tílburi em Hong-Kong. Fizera-se tão destro nesse mister
que o governador inglês o tomara para o seu serviço
exclusivo.
Este fato deu-lhe
um excepcional prestígio entre os seus patrícios,
porque, embora os chineses detestem os estrangeiros, em geral, sobretudo
os ingleses, não deixam, entretanto, de ter um respeito temeroso
por eles, de sentir o prestígio sobre-humano dos " diabos
vermelhos" , como os chinas chamam os europeus e os de raça
européia.
Deixando a famulagem
do governador britânico de Hong-Kong, Fu-Shi-Tô não
podia ter outro cargo, na sua própria pátria, senão
o de general no exército do vice-rei de Cantão. E
assim foi ele feito, mostrando-se desde logo um inovador, introduzindo
melhoramentos na tropa e no material bélico, merecendo por
isso ser condecorado, com o dragão imperial de ouro maciço.
Foi ele quem substituiu, na força armada cantonesa, os canhões
de papelão, pelos do Krupp; e, com isto, ganhou de comissão
alguns bilhões de taels, que repartiu com o vice-rei. Os
franceses do Canet queriam lhe dar um pouco menos, por isso ele
julgou mais perfeitos os canhões do Krupp, em comparação
com os do Canet. Entendia, a fundo, de artilharia, o ex-fâmulo
do governador de Hong-Kong.
O exército
de Li-Huang-Pô estava acampado havia um mês, nas "planícies
dos dias felizes", quando ele se resolveu a ir assistir-lhe
as manobras, antes de passar-lhe a revista final.
O vice-rei,
acompanhado do seu séquito, do qual fazia parte o seu exímio
cabeleireiro Pi-Nu, lá foi para a linda planície,
esperando assistir a manobras de um verdadeiro exército germânico.
Antegozava isso como uma vítima sua e, também, como
constituindo o penhor de sua eternidade no lugar rendoso de quase
rei da rica província de Cantão. Com um forte exército
à mão, ninguém se atreveria a demiti-lo dele.
Foi.
Assistiu as
evoluções com curiosidade e atenção.
A seu lado, Fu-Shi-Pô explicava os temas e os detalhes do
respectivo desenvolvimento, com a abundância e o saber de
quem havia estudado Arte da Guerra entre os varais de um cabriolet.
O vice-rei,
porém, não parecia satisfeito. Notava hesitações,
falta de élan na tropa, rapidez e exatidão nas evoluções
e pouca obediência ao comando em chefe e aos comandados particulares;
enfim, pouca eficiência militar naquele exército que
devia ser uma ameaça à China inteira, caso quisessem
retirá-lo do cômodo e rendoso lugar de vice-rei de
Cantão. Comunicou isto ao general que lhe respondeu :
- É verdade
o que Vossa Excelência Reverendíssima, Poderosíssima,
Graciosíssima, Altíssima e Celestial diz; mas os defeitos
são fáceis de remediar.
- Como? perguntou
o vice-rei.
- É simples.
O uniforme atual muito se parece com o alemão: mudemo-lo
para uma imitação do francês e tudo estará
sanado.
Li-Huang-Pô
pôs-se a pensar, recordando a sua estadia em Berlim, as festas
que os grandes dignatários da corte de Potsdam lhe fizeram,
o acolhimento do Kaiser e, sobretudo, os taels que recebeu de sociedade
com o seu general Fu-Shi-Pô... Seria uma ingratidão;
mas... Pensou ainda um pouco; e, por fim, num repente, disse peremptoriamente:
- Mudemos o
uniforme; e já!
Careta, Rio,
9-9-1922.
Lima Barreto
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