O Homem que sabia Javanês e outros contos
Lima Barreto
O Homem
Que Sabia Javanês
EM UMA confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as
partidas que havia pregado às convicções e
às respeitabilidades, para poder viver.
Houve mesmo,
uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado
a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança
obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório
de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.
O meu amigo
ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido,
até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos,
observou a esmo:
- Tens levado
uma vida bem engraçada, Castelo !
- Só
assim se pode viver... Isto de uma ocupação única:
sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não
achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no
consulado !
- Cansa-se;
mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é
que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e
burocrático.
- Qual! Aqui
mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de
vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
- Quando? Aqui,
depois que voltaste do consulado?
- Não;
antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
- Conta lá
como foi. Bebes mais cerveja?
- Bebo.
Mandamos buscar
mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
- Eu tinha chegado
havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia
fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber
onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio
o anuncio seguinte:
"Precisa-se
de um professor de língua javanesa. Cartas, etc." Ora,
disse cá comigo, está ali uma colocação
que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse
quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei
pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando
dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis
com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à
Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir;
mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha
e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie,
letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua
javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos,
que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia
holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo
maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de
nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
A Encyclopédie
dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua
malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei
o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí.
Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça
dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava
as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na
areia para guardá-los bem na memória e habituar a
mão a escrevê-los.
À noite,
quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas
perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o
meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito
que, de manhã, o sabia perfeitamente.
Convenci-me
que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí;
mas não tão cedo que não me encontrasse com
o encarregado dos aluguéis dos cômodos:
- Senhor Castelo,
quando salda a sua conta?
Respondi-lhe
então eu, com a mais encantadora esperança:
- Breve... Espere
um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de
javanês, e...
Por aí
o homem interrompeu-me:
- Que diabo
vem a ser isso, Senhor Castelo?
Gostei da diversão
e ataquei o patriotismo do homem:
- É uma
língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe
onde é?
Oh! alma ingênua!
O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele
falar forte dos portugueses:
- Eu cá
por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas
terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe
isso, Senhor Castelo?
Animado com
esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar
o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me
ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei
pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à
biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não
fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o
alfabeto javanês o único saber necessário a
um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado
mais na bibliografia e história literária do idioma
que ia ensinar.
Ao cabo de dois
dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano
Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde
de Bonfim, não me recordo bem que numero. E preciso não
te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio,
isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei
sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder
"como está o senhor?" - e duas ou três regras
de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras
do léxico.
Não imaginas
as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos
réis da viagem! É mais fácil - podes ficar
certo - aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo;
e, Com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam
em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram
e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento
em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...
Era uma casa
enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não
sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo
e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que
não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado,
daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos
aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas.
Olhei um pouco
o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o
carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias.
Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem
de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim,
um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão
davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice,
doçura e sofrimento.
Na sala, havia
uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se
perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis
de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer
subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão;
mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais
antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão
de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza
da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele
seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha
sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto
dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...
Esperei um instante
o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço
de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte
de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade
de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo,
era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice
trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto,
de sagrado. Hesitei, mas fiquei.
- Eu sou, avancei,
o professor de javanês, que o senhor disse precisar.
- Sente-se,
respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio?
- Não,
sou de Canavieiras.
- Como? fez
ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, - Sou de Canavieiras, na
Bahia, insisti eu. - Onde fez os seus estudos?
- Em São
Salvador.
- Em onde aprendeu
o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.
Não contava
com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe
que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante,
viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras
como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.
- E ele acreditou?
E o físico? perguntou meu amigo, que até então
me ouvira calado.
- Não
sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes
meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané
podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu
sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios,
malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É
uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo
inteiro.
- Bem, fez o
meu amigo, continua.
- O velho, emendei
eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico,
pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com
doçura:
- Então
está disposto a ensinar-me javanês?
- A resposta
saiu-me sem querer: - Pois não.
- O senhor há
de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu,
nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...
- Não
tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito
fecundos... ? .
- O que eu quero,
meu caro senhor....
- Castelo, adiantei
eu.
- O que eu quero,
meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família.
Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz,
aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres,
trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha
grande estimação. Fora um hindu ou siamês que
lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço
prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu
pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em
javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças
e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo.
Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou
o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda,
para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai, continuou
o velho barão, não acreditou muito na história;
contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu
e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso
fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei
minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos
a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças
têm caído sobre a minha velhice que me 1embrei do talismã
da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não
quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha
posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso
entender o javanês. Eis aí.
Calou-se e notei
que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente
os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe
que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e
explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe
restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida
a um filho, débil de corpo e de saúde frágil
e oscilante.
Veio o livro.
Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado
em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso.
Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data
da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio,
escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias
do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.
Logo informei
disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha
chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração
o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio,
à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie
de vasconço, até que afinal contratamos as condições
de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele
lesse o tal alfarrábio antes de um ano.
Dentro em pouco,
dava a minha primeira lição, mas o velho não
foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender
a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade
do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga
não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia
e desaprendia.
A filha e o
genro (penso que até aí nada sabiam da história
do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não
se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para
distraí-lo.
Mas com o que
tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração
que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa
Única! Ele não se cansava de repetir: "É
um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde
estava !"
O marido de
Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão),
era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não
se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração
pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo.
Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que
lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro
encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha
que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do
estudo e cumpria o encargo.
Sabes bem que
até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias
bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon.
Como ele ouvia aquelas bobagens !...
Ficava extático,
como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos
seus olhos !
Fez-me morar
em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava,
enfim, uma vida regalada.
Contribuiu muito
para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu
parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a
cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.
Fui perdendo
os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse
pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio.
E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou
com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar
na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha
fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. - "Qual!
retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!"
Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com
diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor chamou
os chefes de secção: "Vejam só, um homem
que sabe javanês - que portento!"
Os chefes de
secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve
um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou
admiração. E todos diziam: "Então sabe
javanês? É difícil? Não há quem
o saiba aqui!"
O tal amanuense,
que me olhou com ódio, acudiu então: "É
verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que
não e fui à presença do ministro.
A alta autoridade
levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou
o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?"
Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido,
contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem,
disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia;
o seu físico não se presta... O bom seria um consulado
na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas
vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante,
porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para
o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso
de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller,
e outros!"
Imagina tu que
eu até aí nada sabia de javanês, mas estava
empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.
O velho barão
veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar
ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no
testamento.
Pus-me com afã
no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não
havia meio!
Bem jantado,
bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária
para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei
livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique,
Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico
Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os
informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai
o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos
consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal
jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do
interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma
de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite
da redação, escrevi, no Jornal do Comércio
um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e
moderna...
- Como, se tu
nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente:
primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de
dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a
mais não poder.
- E nunca duvidaram?
perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca. Isto
é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um
sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua
esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém
o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que
a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui
afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção
do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com
meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês
- uf!
Chegou, enfim,
a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que
delícia! Assisti à inauguração e às
sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção
do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz
publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas
e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas
por me ter dado aquela secção; não conhecia
os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro,
me estava naturalmente indicada a secção do tupi-
guarani. Aceitei as explicações e até hoje
ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês,
para lhe mandar, conforme prometi.
Acabado o congresso,
fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em
Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram
um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira,
inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos,
quase toda a herança do crédulo e bom Barão
de Jacuecanga.
Não perdi
meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional
e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de
todas as classes sociais e o presidente da república, dias
depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.
Dentro de seis
meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos
e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos
das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.
- É fantástico,
observou Castro, agarrando o copo de cerveja.
- Olha: se não
fosse estar contente, sabes que ia ser ?
- Que?
- Bacteriologista
eminente. V amos?
- Vamos.
Gazeta da Tarde,
Rio.28-4-1911.
Lima Barreto
Três Gênios de Secretaria
O meu amigo Augusto Machado, de quem acabo de publicar uma pequena
brochura aliteratada - Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá
- mandou-me algumas notas herdadas por ele desse seu amigo, que,
como se sabe, foi oficial da Secretaria dos Cultos. Coordenadas
por mim, sem nada pôr de meu, eu as dou aqui, para a meditação
dos leitores:
"ESTAS
MINHAS memórias que há dias tento começar,
são deveras difíceis de executar, pois se imaginarem
que a minha secretaria é de pequeno pessoal e pouco nela
se passa de notável, bem avaliarão em que apuros me
encontro para dar volume às minhas recordações
de velho funcionário. Entretanto, sem recorrer a dificuldade,
mas ladeando-a, irei sem preocupar-me com datas nem tampouco me
incomodando com a ordem das cousas e fatos, narrando o que me acudir
de importante, à proporção de escrevê-las.
Ponho-me à obra.
Logo no primeiro
dia em que funcionei na secretaria, senti bem que todos nós
nascemos para empregado público. Foi a reflexão que
fiz, ao me Julgar tão em mim, quando, após a posse
e o compromisso ou juramento, sentei-me perfeitamente à vontade
na mesa que me determinaram. Nada houve que fosse surpresa, nem
tive o mínimo acanhamento. Eu tinha vinte e um para vinte
e dois anos; e nela me abanquei como se de há muito já
o fizesse. Tão depressa foi a minha adaptação
que me julguei nascido para ofício de auxiliar o Estado,
com a minha reduzida gramática e o meu péssimo cursivo,
na sua missão de regular a marcha e a atividade da nação.
Com familiaridade
e convicção, manuseava os livros - grandes montões
de papel espesso e capas de couro, que estavam destinados a durar
tanto quanto as pirâmides do Egito. Eu sentia muito menos
aquele registro de decretos e portarias e eles pareciam olhar-me
respeitosamente e pedir-me sempre a carícia das minhas mãos
e a doce violência da minha escrita.
Puseram-me também
a copiar ofícios e a minha letra tão má e o
meu desleixo tão meu, muito papel fizeram-me gastar, sem
que isso redundasse em grande perturbação no desenrolar
das cousas governamentais.
Mas, como dizia,
todos nós nascemos para funcionário publico. Aquela
placidez do ofício, sem atritos, nem desconjuntamentos violentos;
aquele deslizar macio durante cinco horas por dia; aquela mediania
de posição e fortuna, garantindo inabalavelmente uma
vida medíocre - tudo isso vai muito bem com as nossas vistas
e os nossos temperamentos. Os dias no emprego do Estado nada têm
de imprevisto, não pedem qualquer espécie de esforço
a mais, para viver o dia seguinte. Tudo corre calma e suavemente,
sem colisões, nem sobressaltos, escrevendo-se os mesmos papéis
e avisos, os mesmos decretos e portarias, da mesma maneira, durante
todo o ano, exceto os dias feriados, santificados e os de ponto
facultativo, invenção das melhores da nossa República.
De resto, tudo
nele é sossego e quietude. O corpo fica em cômodo jeito;
o espírito aquieta-se, não tem efervescência
nem angústias; as praxes estão fixas e as fórmulas
já sabidas. Pensei até em casar, não só
para ter uns bate-bocas com a mulher mas, também, para ficar
mais burro, ter preocupações de "pistolões",
para ser promovido. Não o fiz; e agora, já que não
digo a ente humano, mas ao discreto papel, posso confessar porque.
Casar-me no meu nível social, seria abusar-me com a mulher,
pela sua falta de instrução e cultura intelectual;
casar-me acima, seria fazer-me lacaio dos figurões, para
darem-me cargos, propinas, gratificações, que satisfizessem
às exigências da esposa. Não queria uma nem
outra cousa. Houve uma ocasião em que tentei solver a dificuldade,
casando-me. ou cousa que o valha, abaixo da minha situação.
É a tal história da criada... Aí foram a minha
dignidade pessoal e o meu cavalheirismo que me impediram.
Não podia,
nem devia ocultar a ninguém e de nenhuma forma, a mulher
com quem eu dormia e era mãe dos meus filhos. Eu ia citar
Santo Agostinho, mas deixo de fazê-lo para continuar a minha
narração...
Quando, de manhã,
novo ou velho no emprego, a gente se senta na sua mesa oficial,
não há novidade de espécie alguma e, já
da pena, escreve devagarinho: "Tenho a honra", etc., etc.;
ou, republicanamente, "Declaro-vos. para os fins convenientes",
etc.. etc. Se há mudança, é pequena e o começo
é já bem sabido: "Tenho em vistas"... -
ou "Na forma do disposto"...
Às vezes
o papel oficial fica semelhante a um estranho mosaico de fórmulas
e chapas; e são os mais difíceis, nos quais o doutor
Xisto Rodrigues brilhava como mestre inigualável.
O doutor Xisto
já é conhecido dos senhores, mas não é
dos outros gênios da Secretaria dos Cultos. Xisto é
estilo antigo. Entrou honestamente, fazendo um concurso decente
e sem padrinhos. Apesar da sua pulhice bacharelesca e a sua limitação
intelectual, merece respeito pela honestidade que põe em
todos os atos de sua vida, mesmo como funcionário. Sai à
hora regulamentar e entra à hora regulamentar. não
bajula. nem recebe gratificações.
Os dous outros,
porém, são mais modernizados. Um é "charadista",
o homem que o diretor. consulta, que dá as informações
confidenciais, para o presidente e o ministro promoverem os amanuenses.
Este ninguém sabe como entrou para a secretaria; mas logo
ganhou a confiança de todos, de todos se fez amigo e, em
pouco, subiu três passos na hierarquia e arranjou quatro gratificações
mensais ou extraordinárias. Não é má
pessoa, ninguém se pode aborrecer com ele: é uma criação
do ofício que só amofina os outros, assim mesmo sem
nada estes saberem ao certo, quando se trata de promoções.
Há casos muito interessantes; mas deixo as proezas dessa
inferência burocrática, em que o seu amor primitivo
a charadas, ao logogrifo e aos enigmas pitorescos pôs-lhe
sempre na alma uma caligem de mistério e uma necessidade
de impor aos outros adivinhação sobre ele mesmo. Deixo-a,
dizia, para tratar do "auxiliar de gabinete". É
este a figura mais curiosa do funcionalismo moderno. É sempre
doutor em qualquer cousa; pode ser mesmo engenheiro hidráulico
ou eletricista. Veio de qualquer parte do Brasil, da Bahia ou de
Santa Catarina, estudou no Rio qualquer cousa; mas não veio
estudar, veio arranjar um emprego seguro que o levasse maciamente
para o fundo da terra. donde deveria ter saído em planta,
em animal e, se fosse possível, em mineral qualquer. É
inútil, vadio, mau e pedante, ou antes, pernóstico.
Instalado no Rio, com fumaças de estudante, sonhou logo arranjar
um casamento, não para conseguir uma mulher, mas, para arranjar
um sogro influente, que o empregasse em qualquer cousa, solidamente.
Quem como ele faz de sua vida, tão-somente caminho para o
cemitério, não quer muito: um lugar em uma secretaria
qualquer serve. Há os que vêem mais alto e se servem
do mesmo meio; mas são a quintessência da espécie.
Na Secretaria
dos Cultos, o seu típico e célebre " auxiliar
de gabinete", arranjou o sogro dos seus sonhos, num antigo
professor do seminário, pessoa muito relacionada com padres,
frades, sacristães, irmãs de caridade, doutores em
cânones, definidores, fabriqueiros, fornecedores e mais pessoal
eclesiástico.
O sogro ideal,
o antigo professor, ensinava no seminário uma física
muito própria aos fins do estabelecimento, mas que havia
de horripilar o mais medíocre aluno de qualquer estabelecimento
leigo.
Tinha ele uma
filha a casar e o "auxiliar de gabinete", logo viu no
seu casamento com ela, o mais fácil caminho para arranjar
uma barrigazinha estufadinha e uma bengala com castão de
ouro.
Houve exame
na Secretaria dos Cultos, e o "sogro", sem escrúpulo
algum, fez-se nomear examinador do concurso para o provimento do
lugar e meter nele "o noivo".
Que se havia
de fazer? O rapaz precisava.
O rapaz foi
posto em primeiro lugar, nomeado e o velho sogro (já o era
de fato) arranjou-lhe o lugar de "auxiliar de gabinete"
do ministro. Nunca mais saiu dele e, certa vez, quando foi, pro
for .. mula se despedir do novo ministro, chegou a levantar o reposteiro
para sair; mas, nisto, o ministro bateu na testa e gritou:
- Quem é
aí o doutor Mata-Borrão?
O homenzinho
voltou-se e respondeu, com algum tremor na voz e esperança
nos olhos:
- Sou eu, excelência.
- O senhor fica.
O seu "sogro" já me disse que o senhor precisa
muito.
É ele
assim, no gabinete, entre os poderosos; mas, quando fala a seus
iguais, é de uma prosápia de Napoleão, de quem
se não conhecesse a Josefina.
A todos em que
ele vê um concorrente, traiçoeiramente desacredita:
é bêbedo, joga, abandona a mulher, não sabe
escrever "comissão", etc. Adquiriu títulos
literários, publicando a Relação dos Padroeiros
das Principais Cidades do Brasil; e sua mulher quando fala nele,
não se esquece de dizer: " Como Rui Barbosa, o Chico..."
ou "Como Machado de Assis, meu marido só bebe água."
Gênio
doméstico e burocrático, Mata-Borrão, não
chegará, apesar da sua maledicência interesseira, a
entrar nem no inferno. A vida não é unicamente um
caminho para o cemitério; é mais alguma cousa e quem
a enche assim, nem Belzebu o aceita. Seria desmoralizar o seu império;
mas a burocracia quer desses amorfos, pois ela é das criações
sociais aquela que mais atrozmente tende a anular a alma, a inteligência,
e os influxos naturais e físicos ao indivíduo. É
um expressivo documento de seleção inversa que caracteriza
toda a nossa sociedade burguesa, permitindo no seu campo especial,
com a anulação dos melhores da inteligência,
de saber, de caráter e criação, o triunfo inexplicável
de um Mata-Borrão por aí".
Pela cópia,
conforme.
Brás
Cubas, Rio, 10-4-1919.
Lima Barreto
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