O Homem que sabia Javanês e outros contos
Lima Barreto
O Único
Assassinato de Cazuza
HILDEGARDO BRANDÃO, conhecido familiarmente por Cazuza. tinha
chegado aos seus cinqüenta anos e poucos, desesperançado;
mas não desesperado. Depois de violentas crises de desespero,
rancor e despeito, diante das injustiças, que tinha sofrido
em todas as coisas nobres que tentara na vida, viera-lhe uma beatitude
de santo e uma calma grave de quem se prepara para a morte.
Tudo tentara
e em tudo mais ou menos falhara. Tentara formar-se, foi reprovado;
tentara o funcionalismo, foi sempre preterido por colegas inferiores
em tudo a ele, mesmo no burocracismo; fizera literatura e se, de
todo, não falhou, foi devido à audácia de que
se revestiu, audácia de quem " queimou os seus navios".
Assim mesmo, todas as picuinhas lhe eram feitas. As vezes, julgavam-no
inferior a certo outro, porque não tinha pasta de marroquim;
outras vezes tinham-no por inferior a determinado " antologista"
, porque semelhante autor havia, quando " encostado" ao
Consulado do Brasil, em Paris, recebido como presente do Sião,
uma bengala de legítimo junco da Índia. Por essas
do rei e outras ele se aborreceu e resolveu retirar-se da liça.
Com alguma renda, tendo uma pequena casa, num subúrbio afastado,
afundou-se nela, aos quarenta e cinco anos, para nunca mais ver
o mundo, como o herói de Jules Verne, no seu "Náutilus".
Comprou os seus últimos livros e nunca mais apareceu na Rua
do Ouvidor. Não se arrependeu nunca de sua independência
e da sua honestidade intelectual.
Ao cinqüenta
e três anos, não tinha mais um parente próximo
junto de si. Vivia, por assim dizer, só, tendo somente a
seu lado um casal de pretos velhos, aos quais ele sustentava e dava,
ainda por cima, algum dinheiro mensalmente.
A sua vida,
nos dias de semana, decorria assim: pela manhã, tomava café
e ia até a venda, que supria a sua casa, ler os jornais sem
deixar de servir-se, com moderação. de alguns cálices
de parati, de que infelizmente abusara na mocidade. Voltava para
a casa, almoçava e lia os seus livros, porque acumulara uma
pequena biblioteca de mais de mil volumes. Quando se cansava, dormia.
Jantava e, se fazia bom tempo, passeava a esmo pelos arredores,
tão alheio e soturno que não perturbava nem um namoro
que viesse a topar.
Aos domingos,
porém, esse seu viver se quebrava. Ele fazia uma visita,
uma única e sempre a mesma. Era também a um desalentado
amigo seu. Médico, de real capacidade, nunca o quiseram reconhecer
porque ele escrevia "propositalmente" e não "propositadamente",
"de súbito" e não - "às súbitas",
etc., etc.
Tinham sido
colegas de preparatórios e, muito íntimos, dispensavam-se
de usar confidências mútuas. Um entendia o outro, somente
pelo olhar.
Pelos domingos,
como já foi dito, era costume de Hildegardo ir, logo pela
manhã, após o café, à casa do amigo,
que ficava próximo, ler lá os jornais e tomar parte
no " ajantarado", da família.
Naquele domingo,
o Cazuza, para os íntimos, foi fazer a visita habitual a
seu amigo doutor Ponciano.
Este comprava
certos jornais; e Hildegardo, outros. O médico sentava-se
a uma cadeira de balanço; e o seu amigo numa dessas a que
chamam de bordo ou; de lona. De permeio, ficava-lhes a secretária.
A sala era vasta e clara e toda ela adornada de quadros anatômicos.
Liam e depois conversavam. Assim fizeram, naquele domingo.
Hildegardo disse,
ao fim da leitura dos quotidianos:
- Não
sei como se pode viver no interior do Brasil .
- Porque ?
- Mata-se à
toa por dá cá aquela palha. As paixões, mesquinhas
paixões políticas, exaltam os ânimos de tal
modo, que uma facção não teme eliminar o adversário
por meio do assassinato, às vezes o revestindo da forma mais
cruel. O predomínio, a chefia da política local é
o único fim visado nesses homicídios, quando não
são questões de família, de herança,
de terras e, às vezes, causas menores. Não leio os
jornais que não me apavore com tais notícias. Não
é aqui, nem ali; é em todo o Brasil, mesmo às
portas do Rio de Janeiro. É um horror! Além desses
assassinatos, praticados por capangas - que nome horrível!
- há os praticados pelos policiais e semelhantes nas pessoas
dos adversários dos governos locais, adversários ou
tidos como adversários. Basta um boquejo, para chegar uma
escolta, varejar fazendas, talar plantações, arrebanhar
gado, encarcerar ou surrar gente que, pelo seu trabalho, devia merecer
mais respeito. Penso, de mim para mim, ao ler tais notícias,
que a fortuna dessa gente que está na câmara, no senado,
nos ministérios, até na presidência da república
se alicerça no crime, no assassinato. Que acha você
?
- Aqui, a diferença
não é tão grande para o interior nesse ponto.
Já houve quem dissesse que, quem não mandou um mortal
deste para o outro mundo, não faz carreira na política
do Rio de Janeiro.
- É verdade;
mas, aqui, ao menos, as naturezas delicadas se podem abster de política;
mas, no interior, não. Vêm as relações,
os
pedidos e você se alista. A estreiteza do meio impõe
isso, esse obséquio a um camarada, favor que parece insignificante.
As coisas vão bem; mas, num belo dia, esse camarada, por
isso ou por aquilo, rompe com o seu antigo chefe. Você, por
lealdade, o segue; e eis você arriscado a levar uma estocada
em urna das virilhas ou a ser assassinado a pauladas como um cão
danado. E eu quis ir viver no interior !. De que me livrei, santo
Deus .
- Eu já
tinha dito a você que esse negócio de paz na vida da
roça é história. Quando cliniquei, no interior,
já havia observado esse prurido, essa ostentação
de valentia de que os caipiras gostam de fazer e que, as mais das
vezes, é causa de assassinatos estúpidos. Poderia
contar a você muitos casos dessa ostentação
de assassinato, que parte da gente da roça, mas não
vale a pena. É coisa sem valia e só pode interessar
a especialistas em estudos de criminologia.
- Penso - observou
Hildegardo - que esse êxodo da população dos
campos para as cidades, pode ser em parte atribuído à
falta de segurança que existe na roça. Um qualquer
cabo de destacamento é um César naquelas paragens
- que fará então um delegado ou subdelegado É
um horror!
Os dois calaram-se
e, silenciosos, se puseram a fumar. Ambos pensavam numa mesma coisa:
em encontrar remédio para um tão deplorável
estado de coisas. Mal acabavam de fumar, Ponciano disse desalentado:
- E não
há remédio.
Hildegardo secundou-o.
- Não
acho nenhum.
Continuaram
calados alguns instantes, Hildegardo leu ainda um jornal e, dirigindo-se
ao amigo, disse:
- Deus não
me castigue, mas eu temo mais matar do que morrer. Não posso
compreender como esses políticos, que andam por aí,
vivam satisfeitos, quando a estrada de sua ascensão é
marcada por cruzes. Se porventura matasse creia que eu, a que não
tem deixado passar pela cabeça sonhos de Raskólnikoff,
sentiria como ele: as minhas relações com a humanidade
seriam de todo outras, daí em diante. Não haveria
castigo que me tirasse semelhante remorso da consciência,
fosse de que modo fosse, perpetrado o assassinato. Que acha você?
- Eu também;
mas você sabe o que dizem esses políticos que sobem
às alturas com dezenas de assassinatos nas costas?
- Não.
- Que todos
nós matamos.
Hildegardo sorriu
e fez para o amigo com toda a serenidade:
- Estou de acordo.
Já matei também.
O médico
espantou-se e exclamou:
- Você,
Cazuza!
- Sim, eu! -
confirmou Cazuza.
- Como? Se você
ainda agora mesmo...
- Eu conto a
coisa a você. Tinha eu sete anos e minha mãe ainda
vivia. Você sabe que, a bem dizer, não conheci minha
mãe .
- Sei.
- Só
me lembro dela no caixão quando meu pai, chorando, me carregou
para aspergir água benta sobre o seu cadáver. Durante
toda a minha vida, fez-me muita falta. Talvez fosse menos rebelde,
menos sombrio e desconfiado, mais contente com a vida, se ela vivesse.
Deixando-me ainda na primeira infância, bem cedo firmou-se
o meu caráter; mas, em contrapeso, bem cedo, me vieram o
desgosto de viver, o retraimento, por desconfiar de todos, a capacidade
de ruminar mágoas sem comunicá-las a ninguém
- o que é um alívio sempre; enfim, muito antes do
que era natural, chegaram-me o tédio, o cansaço da
vida e uma certa misantropia.
Notando o amigo
que Cazuza dizia essas palavras com emoção muito forte
e os olhos úmidos, cortou-lhe a confissão dolorosa
com um apelo alegre:
- Vamos, Carleto;
conta o assassinato que você perpetrou.
Hildegardo ou
Cazuza conteve-se e começou a narrar.
- Eu tinha sete
anos e minha mãe ainda vivia. Morávamos em Paula Matos...
Nunca mais subi a esse morro, depois da morte de minha mãe...
- Conte a história,
homem ! - fez impaciente o doutor Ponciano.
- A casa, na
frente, não se erguia, em nada, da rua; mas, para o fundo,
devido à diferença de nível, elevava-se um
pouco, de modo que, para se ir ao quintal, a gente tinha que descer
uma escada de madeira de quase duas dezenas de degraus. Um dia,
descendo a escada, distraído, no momento em que punha o pé
no chão do quintal, o meu pé descalço apanhou
um pinto e eu o esmaguei. Subi espavorido a escada, chorando, soluçando
e gritando: "Mamãe, mamãe! Matei, matei..."
Os soluços me tomavam a fala e eu não podia acabar
a frase. Minha mãe acudiu, perguntando: "O que é,
meu filho !. Quem é que você matou?" Afinal, pude
dizer: "Matei um pinto, com o pé."
E contei como
o caso se havia passado. Minha mãe riu-se, deu-me um pouco
de água de flor e mandou-me sentar a um canto: "Cazuza,
senta-te ali, à espera da polícia." E eu fiquei
muito sossegado a Um canto, estremecendo ao menor ruído que
vinha da rua, pois esperava de fato a polícia. Foi esse o
único assassinato que cometi. Penso que não é
da natureza daqueles que nos erguem às altas posições
políticas, porque, até hoje, eu...
Dona Margarida,
mulher do doutor Ponciano, veio interromper-lhes a conversa, avisando-os
que o "ajantarado" estava na mesa.
Revista Sousa
Cruz. Rio, fevereiro, 1922.
Lima Barreto
O Número da Sepultura
QUE PODIA ela dizer, após três meses de casada, sobre
o casamento?
Era bom? Era
mau?
Não se
animava a afirmar nem uma cousa, nem outra. Em essência, "aquilo"
lhe parecia resumir-se em uma simples mudança de casa.
A que deixara
não tinha mais nem menos cômodos do que a que viera
habitar; não tinha mais "largueza"; mas a "
nova" possuía um jardinzito minúsculo e uma pia
na sala de jantar.
Era, no fim
de contas, a diminuta diferença que existia entre ambas.
Passando da
obediência dos pais, para a do marido, o que ela sentia, era
o que se sente quando se muda de habitação.
No começo,
há nos que se mudam, agitação, atividade; puxa-se
pela idéia, a fim de adaptar os móveis à casa
"nova" e, por conseguinte, eles, os seus recentes habitantes
também; isso, porém, dura poucos dias.
No fim de um
mês, os móveis já estão definitivamente
" ancorados", nos seus lugares, e os moradores se esquecem
de que residem ali desde poucos dias.
Demais, para
que ela não sentisse, profunda modificação,
no seu viver, advinda com o casamento, havia a quase igualdade de
gênios e hábitos de seu pai e seu marido.
Tanto um como
outro, eram corteses com ela; brandos no tratar, serenos, sem impropérios,
e ambos, também, meticulosos, exatos e metódicos.
Não houve, assim, abalo algum, na sua transplantação
de um lar para outro.
Contudo, esperava,
no casamento alguma cousa de inédito até ali, na sua
existência de mulher: uma exuberante e contínua satisfação
de viver.
Não sentiu,
porém, nada disso.
O que houve
de particular na sua mudança de estado, foi insuficiente
para Lhe dar uma sensação nunca sentida da vida e
do mundo. Não percebeu nenhuma novidade essencial...
Os céus
cambiantes, com o rosado e dourado de arrebóis, que o casamento
promete a todos, moços e moças; não os vira
ela. O sentimento de inteira liberdade, com passeios, festas, teatros,
visitas - tudo que se contém para as mulheres, na idéia
de casamento, durou somente a primeira semana de matrimônio.
Durante ela,
ao lado do marido, passeara, visitara, fora a festas, e a teatros;
mas assistira todas essas cousas, sem muito se interessar por elas,
sem receber grandes ou profundas emoções de surpresa,
e ter sonhos fora do trivial da nossa mesquinha vida terrestre.
Cansavam-na até!
No começo,
sentia alguma alegria e certo contentamento; por fim, porém,
veio o tédio por elas todas, a nostalgia da quietude de sua
casa suburbana, onde vivia à négligé e podia
sonhar, sem desconfiar que os outros Lhe pudessem descobrir os devaneios
crepusculares de sua pequenina alma de burguesia, saudosa e enfumaçada.
Não era
raro que também ocorresse saudades da casa paterna, provocadas
por aquelas chinfrinadas de teatros ou cinematográficas.
Acudia-lhe, com indefinível sentimento, a 1embrança
de velhos móveis e outros pertences familiares da sua casa
paterna, que a tinham visto desde menina. Era uma velha cadeira
de balanço de jacarandá; era uma leiteira de louça,
pintada de azul, muito antiga; era o relógio sem pêndula.
octogonal. velho também; e outras bugigangas domésticas
que, muito mais fortemente do que os móveis e utensílios
adquiridos recentemente, se haviam gravado na sua memória.
Seu marido era
um rapaz de excelentes qualidades matrimoniais, e não havia,
no nebuloso estado d'alma de Zilda, nenhum desgosto dele ou decepção
que ele lhe tivesse causado.
Morigerado,
cumpridor exato dos seus deveres, na secção de que
era chefe seu pai, tinha todas as qualidades médias, para
ser um bom chefe de família, cumprir o dever de continuar
a espécie e ser um bom diretor de secretaria ou repartição
outra, de banco ou de escritório comercial.
Em compensação,
não possuía nenhuma proeminência de inteligência
ou de ação. Era e seria sempre uma boa peça
de máquina, bem ajustada, bem polida e que, lubrificada convenientemente,
não diminuiria o rendimento daquela, mas que precisava sempre
do motor da iniciativa estranha, para se pôr em movimento.
Os pais de Zilda
tinham aproximado os dois; a avó, a quem a moça estimava
deveras, fizera as insinuações de praxe; e, vendo
ela que a coisa era do gosto de todos, por curiosidade mais do que
por amor ou outra cousa parecida, resolveu-se a casar com o escriturário
de seu pai. Casaram-se, viviam muito bem. Entre ambos, não
havia a menor rusga, a menor desinteligência que lhes toldasse
a vida matrimonial; mas não existia também como era
de esperar, uma profunda e constante penetração, de
um para o outro e vice-versa, de desejos, de sentimentos, de dores
e alegrias.
Viviam placidamente
numa tranqüilidade de lagoa, cercada de altas montanhas, por
entre as quais os ventos fortes não conseguiam penetrar,
para encrespar-lhe as águas imotas.
A beleza do
viver daquele novel casal, não era ter conseguido de duas
fazer uma única vontade; estava em que os dous continuassem
a ser cada um uma personalidade, sem que, entanto, encontrassem
nunca motivo de conflito, o mais ligeiro que fosse. Uma vez, porém..
Deixemos isso para mais tarde... O gênio e a educação
de ambos muito contribuíam para tal.
O marido, exato
burocrata, era cordato, de temperamento calmo, ponderado e seco
que nem uma crise ministerial. A mulher era quase passiva e tendo
sido educada na disciplina ultra-regrada e esmerilhadora de seu
pai, velho funcionário, obediente aos chefes, aos ministros,
aos secretários destes e mais bajuladores, às leis
e regulamentos, não tinha assomos nem caprichos, nem fortes
vontades. Refugiava-se no sonho e, desde que não fosse multado,
estava por tudo.
Os hábitos
do marido eram os mais regulares e executados, sem a mínima
discrepância. Erguia-se do leito muito cedo, quase ao alvorecer,
antes mesmo da criada, a Genoveva, levantar-se da cama. Pondo-se
de pé, ele mesmo coava o café e, logo que estava pronto,
tomava uma grande xícara.
Esperando o
jornal (só comprava um), ia para o pequeno jardim, varria-o,
amarrava as roseiras e craveiros, nos espeques, em seguida, dava
milho às galinhas e pintos e tratava dos passarinhos.
Chegando o jornal,
lia-o meticulosamente, organizando, para uso do dia, as suas opiniões
literárias, científicas, artísticas, sociais
e, também, sobre a política internacional e as guerras
que havia pelo mundo.
Quanto à
política interna, construía algumas, mas não
as manifestava a ninguém, porque quase sempre eram contra
o governo e ele precisava ser promovido.
Às nove
e meia, já almoçado e vestido, despedia-se da mulher,
com o clássico beijo, e lá ia tomar o trem. Assinava
o ponto, de acordo como regulamento, isto é, nunca depois
das dez e meia.
Na repartição,
cumpria religiosamente os seus sacratíssimos deveres de funcionário.
Sempre foi assim;
mas, após o casamento, aumentou de zelo, a fim de pôr
a secção do sogro que nem um brinco, em questão
de rapidez e presteza no andamento e informações de
papéis.
Andava pelas
bancas dos colegas, pelos protocolos, quando o serviço lhe
faltava e se, nessa correição, topava com expediente
em atraso, não hesitava: punha-se a "desunhar".
Acontecendo-lhe
isto, ao sentar-se à mesa, para jantar, já em trajes
caseiros, apressava-se em dizer a mulher
- Arre ! Trabalhei
hoje, Zilda, que nem o diabo !
- Porque ?
- Ora, porque?
Aqueles meus colegas são uma pinóia...
- Que houve
?
- Pois o Pantaleão
não está com o protocolo dele, o da Marinha, atrasado
de uma semana? Tive que o pôr em dia...
- Papai foi
quem te mandou?
- Não;
mas era meu dever, como genro dele, evitar que a secção
que ele dirige, fosse tachada de relaxada. Demais não posso
ver expediente atrasado...
- Então,
esse Pantaleão falta muito?
- Um horror
! Desculpa-se com estar estudando direito. Eu também estudei,
quase sem faltas.
Com semelhantes
notícias e outras de mexericos sobre a vida íntima,
defeitos morais e vícios dos colegas, que ele relatava à
mulher, Zilda ficou enfronhada no viver da diretoria em que funcionava
seu marido, tanto no aspecto puramente burocrático, como
nos da vida particular e famílias dos respectivos empregados.
Ela sabia que
o Calçoene bebia cachaça; que o Zé Fagundes
vivia amancebado com uma crioula, tendo filhos com ela, um. dos
quais com concurso e ia ser em breve colega do marido; que o Feliciano
Brites das Novas jogava nos dados todo o dinheiro que conseguia
arranjar que a mulher do Nepomuceno era amante do General T., com
auxílio do qual ele preteria todos nas promoções,
etc., etc.
O marido não
conversava com Zilda senão essas coisas da repartição;
não tinha outro assunto para palestrar com a mulher.Com as
visitas e raros colegas com quem discutia, a matéria da conversação
eram coisas patrióticas: as forças de terra e mar,
as nossas riquezas naturais, etc.
Para tais argumentos
tinha predileção especial e um especial orgulho em
desenvolvê-los com entusiasmo. Tudo o que era brasileiro era
primeiro do mundo ou, no mínimo, da América do Sul.
E - ai! - de quem o contestasse; levava uma sarabanda que resumia
nesta frase clássica:
- É por
isso que o Brasil não vai para adiante. O brasileiro é
o maior inimigo de sua pátria.
Zilda, pequena
burguesa, de reduzida instrução e, como todas as mulheres,
de fraca curiosidade intelectual quando o ouvia discutir assim com
os amigos, enchia-se de enfado e sono; entretanto, gostava das suas
alcovitices sobre os lares dos colegas...
Assim ela ia
repassando a sua vida de casada, que já tinha mais de três
meses feitos, na qual, para quebrar-lhe a monotonia e a igualdade,
só houvera um acontecimento que a agitara, a torturara, mas,
em compensação, espantara por algumas horas o tédio
daquele morno e plácido viver. É preciso contá-lo.
Augusto - Augusto
Serpa de Castro - tal era o nome de seu marido - tinha um ar mofino
e enfezado; alguma cousa de índio nos cabelos muito negros,
corredios e brilhantes, e na tez acobreada. Seus olhos eram negros
e grandes, com muito pouca luz, mortiços e pobres de expressão,
sobretudo de alegria.
A mulher, mais
moça do que ele uns cinco ou seis anos, ainda não
havia completado os vinte. Era de uma grande vivacidade de fisionomia,
muito móbil e vária, embora o seu olhar castanho claro
tivesse, em geral, uma forte expressão de melancolia e sonho
interior. Miúda de feições, franzina, de boa
estatura e formas harmoniosas, tudo nela era a graça do caniço,
a sua esbelteza, que não teme os ventos, mas que se curva
à força deles com mais elegância ainda, para
ciciar os queixumes contra o triste fado de sua fragilidade, esquecendo-se,
porém, que é esta que o faz vitorioso.
Após
o casamento, vieram residir na Travessa das Saudades, na estação
de * * *
É uma
pitoresca rua, afastada alguma cousa das linhas da Central, cheia
de altos e baixos, dotada de uma caprichosa desigualdade de nível,
tanto no sentido longitudinal como no transversal.
Povoada de árvores
e bambus, de um lado e outro, correndo quase exatamente de norte
para sul, as habitações do lado do nascente, em grande
número, somem-se na grota que ela forma, com o seu desnivelamento;
e mais se ocultam debaixo dos arvoredos em que os Cipós se
tecem.
Do lado do poente,
porém, as casas se alteiam e, por cima das de defronte, olham
em primeira mão a Aurora, com os seus inexprimíveis
cambiantes de cores e matizes.
Como no fim
do mês anterior, naquele outro, o segundo término de
mês depois do seu casamento, o bacharel Augusto, logo que
recebeu os vencimentos e conferiu as contas dos fornecedores, entregou
o dinheiro necessário à mulher, para pagá-los,
e também a importância do aluguel da casa.
Zilda apressou-se
em fazê-lo ao carniceiro, ao padeiro e ao vendeiro; mas, o
procurador do proprietário da casa em que moravam, demorou-se
um pouco. Disso, avisou o marido, em certa manhã, quando
ele lhe dava uma pequena quantia para as despesas com o quitandeiro
e outras miudezas caseiras. Ele deixou o importe do aluguel com
ela.
Havia já
quatro dias que ele se havia vencido; entretanto, o preposto do
proprietário não aparecia.
Na manhã
desse quarto dia, ela amanheceu alegre e, ao mesmo tempo apreensiva.
Tinha sonhado;
e que sonho !
Sonhou com a
avó, a quem amava profundamente e que desejara muito o seu
casamento com Augusto. Morrera ela poucos meses antes de realizar-se
o seu enlace com ele; mas ambos já eram noivos.
Sonhara a moça
com o número da sepultura da avó - 1724; e ouvira
a voz dela, da sua vovó, que lhe dizia: "Filha, joga
neste número ! "
O sonho impressionou-a
muito; nada, porém, disse ao marido. Saído que ele
foi para a repartição, determinou à criada
o que tinha a fazer e procurou afastar da memória tão
estranho sonho.
Não havia,
entretanto, meios para conseguir isso. A recordação
dele estava sempre presente ao seu pensamento, apesar de todos os
seus esforços em contrário.
A pressão
que lhe fazia no cérebro a 1embrança do sonho, pedia
uma saída, uma válvula de descarga, pois já
excedia a sua força de contenção. Tinha que
falar, que contar, que comunicá-lo a alguém...
Fez confidência
do sucedido à Genoveva. A cozinheira pensou um pouco e disse:
- Nhanhã:
eu se fosse a senhora arriscava alguma cousa no "bicho".
- Que "bicho"
é ?
- 24 é
cabra; mas não deve jogar só por um lado. Deve cercar
por todos e fazer fé na dezena, na centena, até no
milhar. Um sonho destes não é por aí cousa
à toa.
- Você
sabe fazer a lista?
- Não,
senhora. Quando jogo é o Seu Manuel do botequim quem faz
" ela". mas a vizinha, Dona Iracema, sabe bem e pode ajudar
a senhora.
- Chame "
ela" e diga que quero lhe falar.
Em breve chegava
a vizinha e Zilda contou-lhe o acontecido.
Dona Iracema
refletiu um pouco e aconselhou:
- Um sonho desses,
menina, não se deve desprezar. Eu, se fosse a vizinha, jogava
forte.
- Mas, Dona
Iracema, eu só tenho os oitenta mil-réis para pagar
a casa. Como há de ser?
A vizinha cautelosamente
respondeu:
- Não
lhe dou a tal respeito nenhum conselho. Faça o que disser
o seu coração; mas um sonho desses...
Zilda que era
muito mais moça que Iracema, teve respeito pela sua experiência
e sagacidade. Percebeu logo que ela era favorável a que ela
jogasse. Isto estava a quarentona da vizinha, a tal Dona Iracema,
a dizer-lhe pelos olhos.
Refletiu ainda
alguns minutos e, por fim, disse de um só hausto:
- Jogo tudo.
E acrescentou:
- Vamos fazer
a lista - não é Dona Iracema?
- Como é
que a senhora quer?
- Não
sei bem. A Genoveva é quem sabe.
E gritou, para
o interior da casa:
- O Genoveva!
Genoveva! Venha cá, depressa!
Não tardou
que a cozinheira viesse. Logo que a patroa lhe comunicou o embaraço,
a humilde preta apressou-se em explicar:
- Eu disse a
nhanhã que cercasse por todos os lados o grupo, jogasse na
dezena, na centena e no milhar.
Zilda perguntou
à Dona Iracema:
- A senhora
entende dessas cousas?
- Ora! Sei muito
bem. Quanto quer jogar?
- Tudo ! Oitenta
mil-réis !
- É muito,
minha filha. Por aqui não há quem aceite. Só
se for no Engenho de Dentro, na casa do Halavanca, que é
forte. Mas quem há de levar o jogo? A senhora tem alguém?
- A Genoveva.
A cozinheira,
que ainda estava na sala, de pé, assistindo os preparativos
de tão grande ousadia doméstica, acudiu com pressa:
- Não
posso ir, nhanhã. Eles me embrulham e, se a senhora ganhar,
a mim eles não pagam. É preciso pessoa de mais respeito.
Dona Iracema,
por aí, 1embrou :
- É possível
que o Carlito tenha vindo já de Cascadura, onde foi ver a
avó... Vai ver, Genoveva!
A rapariga foi
e voltou em companhia do Carlito, filho de Dona Iracema. Era um
rapagão dos seus dezoito anos, espadaúdo e saudável.
A lista foi
feita convenientemente; e o rapaz levou-a ao "banqueiro".
Passava de uma
hora da tarde, mas ainda faltava muito para as duas. Zilda 1embrou-se
então do cobrador da casa. Não havia perigo. Se não
tinha vindo até ali, não viria mais.
Dona Iracema
foi para a sua casa; Genoveva foi para a cozinha e Zilda foi repousar
daqueles embates morais e alternativas cruciantes, provocados pelo
passo arriscado que dera. Deitou-se já arrependida do que
fizera.
Se perdesse,
como havia de ser? O marido... sua cólera... as repreensões...
Era uma tonta, uma doida... Quis cochilar um pouco; mas logo que
cerrou os olhos, lá viu o número - 1724. Tomava-se
então de esperança e sossegava um pouco da sua ânsia
angustiosa.
Passando, assim,
da esperança ao desânimo, prelibando a satisfação
de ganhar e antevendo os desgostos que sofreria, caso perdesse -
Zilda, chegou até à hora do resultado, suportando
os mais desencontrados estados de espírito e os mais hostis
ao seu sossego. Chegando o tempo de saber "o que dera"
, foi até à janela. De onde em onde, naquela rua esquecida
e morta, passava uma pessoa qualquer. Ela tinha desejo de perguntar
ao transeunte o "resultado"., mas ficava possuída
de vergonha e continha-se.
Nesse ínterim,
surge o Carlito a gritar:
- Dona Zilda!
Dona Zilda! A senhora ganhou, menos no milhar e na centena.
Não deu
um "ai" e ficou desmaiada no sofá da sua modesta
sala de visitas.
Voltou em breve
a si, graças às esfregações de vinagre
de Dona Iracema e de Genoveva. Carlito foi buscar o dinheiro que
subia a mais de dous contos de réis. Recebeu-o e gratificou
generosamente o rapaz, a mãe dele e a sua cozinheira, a Genoveva.
Quando Augusto chegou, já estava inteiramente calma. Esperou
que ele mudasse de roupa e viesse à sala de jantar, a fim
de dizer-lhe:
- Augusto: se
eu tivesse jogado o aluguel da casa no "bicho".
você ficava zangado?
- Por certo!
Ficaria muito e havia de censurar você com muita veemência,
pois que uma dona de casa não...
- Pois, joguei.
- Você
fez isto, Zilda?
- Fiz.
- Mas quem virou
a cabeça de você para fazer semelhante tolice? Você
não sabe que ainda estamos pagando despesas do nosso casamento?
- Acabaremos
de pagar agora mesmo.
- Como? Você
ganhou?
- Ganhei. Está
aqui o dinheiro.
Tirou do seio
o pacote de notas e deu-o ao marido, que se tornara mudo de surpresa.
Contou as pelejas muito bem, levantou-se e disse com muita sinceridade.
abraçando e beijando a mulher..
- Você
tem muita sorte. É o meu anjo bom.
E todo o resto
da tarde, naquela casa, tudo foi alegria.
Vieram Dona
Iracema, o marido, o Carlito, as filhas e outros vizinhos.
Houve doces
e cervejas. Todos estavam sorridentes, palradores; e o contentamento
geral só não desandou em baile, porque os recém-casados
não tinham piano. Augusto deitou patriotismo com o marido
de Iracema.
Entretanto,
por causa das dúvidas, no mês seguinte, quem fez os
pagamentos domésticos foi ele próprio, Augusto em
pessoa.
Revista Sousa
Cruz, Rio, maio 1921.
Lima Barreto
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