Inocência
Visconde de Taunay
I-O SERTÃO E O SERTANEJO
Todos vos bem
sentis a ação secreta Da natureza em seu governo eterno,
E de íntimas camadas subterrâneas. Da vida o indicio
a superfície emerge.
(Goethe, Fausto,
2ª parte)
Então
com passo tranqülo metia-me eu por algum recanto da floresta,
algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem,
me denunciasse a servidão e o domínio; asilo em que
pudesse crer ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse
interpor-se entre mim e a natureza.
(J. J. Rousseau,
O Encanto da Solidão)
Corta extensa
e quase despovoada zona da parte sul-oriental da vastíssima
província de Mato Grosso a estrada que da Vila de Sant'Ana
do Paranaíba vai ter ao sitio abandonado de Camapuã.
Desde aquela povoação, assente próximo ao vértice
do ângulo em que confinam os territórios de São
Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso até ao Rio
Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é,
no desenvolvimento de muitas dezenas de léguas, anda-se comodamente,
de habitação em habitação, mais ou menos
chegadas umas às outras, rareiam, porem, depois as casas,
mais e mais, e caminham-se largas horas, dias inteiros sem se ver
morada nem gente até ao retiro de João Pereira, guarda
avançada daquelas solidões, homem chão e hospitaleiro,
que acolhe com carinho o viajante desses alongados paramos, oferece-lhe
momentâneo agasalho e o provê da matalotagem precisa
para alcançar os campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria
e Nioac, no Baixo Paraguai.
Ali começa
o sertão chamado bruto.
Pousos sucedem
a pousos, e nenhum teto habitado ou em ruínas, nenhuma palhoça
ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das
noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está
caindo. Por toda a parte, a calma da campina não arroteada;
por toda a parte, a vegetação virgem, como quando
aí surgiu pela vez primeira.
A estrada que
atravessa essas regiões incultas desenrola-se à maneira
de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante
na composição de todo aquele solo, fertilizado aliás
por um sem-número de límpidos e borbulhantes regatos,
ribeirões e rios, cujos contingentes são outros tantos
tributários do claro e fundo Paraná ou, na contravertente,
do correntoso Paraguai.
Essa areia solta,
e um tanto grossa, tem cor uniforme que reverbera com intensidade
os raios do Sol, quando nela batem de chapa. Em alguns pontos é
tão fofa e movediça que os animais das tropas viageiras
arquejam de cansaço, ao vencerem aquele terreno incerto,
que lhes foge de sob os cascos e onde se enterram até meia
canela.
Freqüentes
são também os desvios, que da estrada partem de um
e outro lado e proporcionam, na mata adjacente, trilha mais firme,
por ser menos pisada.
Se parece sempre
igual o aspecto do caminho, em compensação mui variadas
se mostram as paisagens em torno.
Ora e a perspectiva
dos cerrados, não desses cerrados de arbustos raquíticos,
enfezados e retorcidos de São Paulo e Minas Gerais, mas de
garbosas e elevadas árvores que, se bem não tomem,
todas, o corpo de que são capazes à beira das águas
correntes ou regadas pela linfa dos córregos, contudo ensombram
com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na
casca lisa a força da seiva que as alimenta; ora são
campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou
de viridente e mimosa grama, toda salpicada de silvestres flores;
ora sucessões de luxuriantes capões, tão regulares
e simétricos em sua disposição que surpreendem
e embelezam os olhos; ora, enfim, charnecas meio apauladas, meio
secas, onde nasce o altivo buriti e o gravata entrança o
seu tapume espinhoso.
Nesses campos,
tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e ressecado
pelo ardor do Sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando
lavra o incêndio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado,
ateia com uma faúlha do seu isqueiro.
Minando à
surda na touceira, queda a vivida centelha. Corra daí a instantes
qualquer aragem, por débil que seja, e levanta-se a língua
de fogo esguia e trêmula, como que a contemplar medrosa e
vacilante os espaços imensos que se alongam diante dela.
Soprem então as auras com mais força, e de mil pontos,
a um tempo, rebentam sôfregas labaredas que se enroscam umas
nas outras, de súbito se dividem, deslizam, lambem vastas
superfícies, despedem ao céu rolos de negrejante fumo
e voam, roncando pelos matagais de tabocas e taquaras, até
esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que não possam
transpor, caso não as tanja para além o vento, ajudando
com valente fôlego a larga obra de destruição.
Acalmado aquele
ímpeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de espessa
camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, ali, a consumir
com mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo
até se extinguir de todo, deixando como sinal da avassaladora
passagem o alvacento lençol, que lhe foi seguindo os velozes
passos
Através
da atmosfera enublada mal pode então coar a luz do Sol. A
incineração é completa, o calor intenso, e
nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros
e grânulos de carvão que redemoinham, sobem, descem
e se emaranham nos sorvedouros e adelgaçadas trombas, caprichosamente
formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro às
outras.
Por toda a parte
melancolia; de todos os lados tétricas perspectivas.
É cair,
porém, daí a dias copiosa chuva, e parece que uma
varinha de fada andou por aqueles sombrios recantos a traçar
às pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo
num trabalho intimo de espantosa atividade. Transborda a vida. Não
há ponto em que não brote o capim, em que não
desabrochem rebentões com o olhar sôfrego de quem espreita
azada ocasião para buscar a liberdade, despedaçando
as prisões de penosa clausura.
Aquela instantânea
ressurreição nada, nada pode pôr peias.
Basta uma noite,
para que formosa alfombra verde, verde-claro, verde-gaio, acetinado,
cabra todas as tristezas de há pouco. Aprimoram-se depois
os esforços; rompem as flores do campo que desabotoam as
carícias da brisa as delicadas corolas e lhe entregam as
primícias dos seus cândidos perfumes.
Se falham essas
chuvas vivificadoras, então, por muitos e muitos meses, ai
ficam aquelas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente iluminadas
por avermelhados clarões sem uma sombra, um sorriso, uma
esperança de vida, com todas as suas opulências e verdejantes
pimpolhos ocultos, como que raladas de dor e mudo desespero por
não poderem ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso
seio.
Nessas aflitas
paragens, não mais se ouve o piar da esquiva perdiz, tão
freqüente antes do incêndio. Só de vez em quando
ecoa o arrastado guincho de algum gavião, que paira lá
em cima ou bordeja ao chegar-se à terra, a fim de agarrar
um ou outro réptil chamuscado do fogo que lavrou.
Rompe também
o silêncio o grasnido do caracará, que aos pulos procura
insetos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o vôo dos urubus,
cujos negrejantes bandos, guiados pelo fino olfato, buscam a carniça
putrefata.
É o caracará
comensal do urubu. De parceria se atira, quando urgido pela fome,
à rês morta e, intrometido como é, a custo de
alguma bicada do pouco amável conviva, belisca do seu lado
no imundo repasto.
Se passa o caracará
a vista do gavião, precipita-se este sobre ele com vôo
firme, dá-lhe com a ponta da asa, atordoa-o, atormenta-o
só pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade.
Nada, com efeito,
o mete em brios.
Pelo contrário,
mal levou dois ou três encontrões do miúdo,
mas audaz adversário, baixa prudente à terra e põe-se
ai desajeitadamente aos saltos. apresentando o adunco bico ao antagonista,
que com a extremidade das asas levanta pó e cinza, tão
de perto as arrasta ao chão.
Afinal, de cansado,
deixa o gavião o folguedo, segurando de um bote a serpesinha,
que em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse, mais a
salvo, pensar as fundas queimaduras.
* * *
Tais são os campos que as chuvas não vêm regar.
Com que gosto
demanda então o sertanejo os capões que lá
de bem longe se avistam nas encostas das colinas e baixuras, ao
redor de alguma nascente orlada de pindaíbas e buritis?!
Com que alegria
não saúda os formosos coqueirais, núncios da
linfa que lhe há de estancar a sede e banhar o afogueado
rosto?!
Enfileiram-se
às vezes as palmeiras com singular regularidade na altura
e conformação; mas não raro amontoam-se em
compactos maciços, dos quais se segregam algumas mais e mais,
a acompanhar com as raízes qualquer tênue fio d'água,
que coleia falto de forças e quase a sumir-se na ávida
areia.
Desde longe
dão na vista esses capões.
É a princípio
um ponto negro, depois uma cúpula de verdura, afinal, mais
de perto, uma ilha de luxuriante rama, oásis para os membros
lassos do viajante exausto de fadiga, para os seus olhos encandeados
e sua garganta abrasada.
Então,
com sofreguidão natural, acolhe-se ele ao sombreado retiro,
onde prestes desarreia a cavalgadura, à qual dá liberdade
para ir pastar, entregando-se sem demora ao sono reparador que lhe
trará novo alento para prosseguir na cansativa jornada.
Ao homem do
sertão afiguram-se tais momentos incomparáveis acima
de tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto
circulo de ambições.
Satisfeita a
sede que lhe secara as fauces, e comidas umas colheres de farinha
de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se
a fio comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso
o firmamento azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem
lustrosa e os troncos brancos das pindaíbas a copa dos ipês
e as palmas dos buritis a ciciar a modo de harpas eólias,
músicas sem conta com o perpassar da brisa.
Como são
belas aquelas palmeiras!
O estípite
liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias, sustenta
denso feixe de pecíolos longos e canulados, em que assentam
flabelas abertas como um leque, cujas pontas se acurvam flexíveis
e tremulantes.
Na base em torno
da coma, pendem, amparados por largas espatas, densos cachos de
cocos tão duros, que a casca luzidia, revestida de escamas
romboidais e de um amarelo alaranjado, desafia por algum tempo o
férreo bico das araras.
Também,
com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a
apetecida e saborosa amêndoa! Em grupos juntam-se elas, umas
vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores,
outras, pelo contrário, de todo azuis, de maior viso e que,
por parecerem negras em distancia, têm o nome de araraúnas.
Ali ficam alcandoradas, balouçando-se gravemente e atirando
de espaço a espaço, às imensidades das dilatadas
campinas notas estridentes, quando não seja um clamor sem
fim, ao quererem multas disputar o mesmo cacho. Quase sempre, porém,
estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem encostadinha
à outra.
Vê tudo
aquilo o sertanejo com olhar carregado de sono. Caem-lhe pesadas
as pálpebras; bem se lembra de que por ali podem rastejar
venenosas alimárias, mas é fatalista; confia no destino
e, sem mais preocupação, adormece com serenidade.
Correm as horas
vem o Sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o vento. Não
ciciam mais os buritis; gemem, e convulsamente agitam as flabeladas
palmas.
É a tarde
que chega.
Desperta então
o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os
braços; boceja; bebe um pouco d'água; fica uns instantes
sentado, a olhar de um lado para outro, e corre afinal a buscar
o animal, que de pronto encilha e cavalga.
Uma vez montado,
lá vai ele a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de
espírito, por aqueles caminhos além, em demanda de
qualquer pouso onde pernoite.
Quanta melancolia
baixa à terra com o cair da tarde!
Parece que a
solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora.
Enegrece o solo; formam os matagais sombrios, maciços, e
ao longe se desdobra tênue véu de um roxo uniforme
e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, ressaltam os
troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.
É a hora,
em que se aperta de inexplicável receio o coração.
Qualquer ruído nos causa sobressalto; ora o grito aflito
da zabelê nas matas, ora as plangentes notas do bacurau a
cruzar os ares. Freqüente é também amiudarem-se
os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro
extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite
a volta.
Quem viaja atento
às impressões intimas, estremece, mau grado seu, ao
ouvir nesse momento de saudades o tanger de um sino muito, muito
ao longe, ou o silvar distante de uma locomotiva impossível.
São insetos ocultos na macega que trazem essa ilusão,
por tal modo viva e perfeita que a imaginação, embora
desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes
mundos afora a doidejar e a criar mil fantasias,
* * *
Espalham-se,
por fim, as sombras da noite.
O sertanejo
que de nada cuidou, que não ouviu as harmonias da tarde,
nem reparou nos esplendores do céu, que não viu a
tristeza a pairar sobre a terra, que de nada se arreceia, consubstanciado
como está com a solidão, pára, relanceia os
olhos ao derredor de si e, se no lagar pressente alguma aguada,
por má que seja, apeia-se, desencilha o cavalo e reunindo
logo uns gravetos bem secos, tira fogo do isqueiro, mais por distração
do que por necessidade.
Sente-se deveras
feliz. Nada lhe perturba a paz do espírito ou o bem-estar
do corpo. Nem sequer monologa, como qualquer homem acostumado a
conversar.
Raros são
os seus pensamentos: ou rememora as léguas que andou, ou
computa as que tem que vencer para chegar ao término da viagem.
No dia seguinte,
quando aos clarões da aurora acorda toda aquela esplêndida
natureza, recomeça ele a caminhar, como na véspera,
como sempre.
Nada lhe parece
mudado no firmamento: as nuvens de si para si são as mesmas.
Dá-lhe o Sol, quando muito, os pontos cardeais, e a terra
só lhe prende a atenção, quando algum sinal
mais particular pode servir-lhe de marco miliário na estrada
que vai trilhando.
-Bom! exclama
em voz alta e alegre ao avistar algum madeiro agigantado ou uma
disposição especial de terras, lá está
a peúva grande... Cheguei ao Barranco Alto. Até ao
pouso de Jacaré há quatro léguas bem puxadas.
E, olhando para
o Sol, conclui:
-Daqui a três
horas estou batendo fogo.
Ocasiões
há em que o sertanejo dá para assobiar. Cantar, é
raro; ainda assim, à surdina; mais uma voz intima, um rumorejar
consigo, do que notas saídas do robusto peito. Responder
ao pio das perdizes ou ao chamado agoniado da esquiva jaó,
é o seu divertimento em dias de bom humor.
É-lhe
indiferente o urro da onça. Só por demais repara nas
muitas pegadas, que em todos os sentidos ficam marcadas na areia
da estrada.
-Que bichão!
murmura ele contemplando um rasto mais fortemente impresso no solo;
com um bom onceiro não se me dava de acuar este diabo e meter-lhe
uma chumbada no focinho.
O legitimo sertanejo,
explorador dos desertos, não tem, em geral, família.
Enquanto moço, seu fim único é devassar terras,
pisar campos onde ninguém antes pusera pé, vadear
rios desconhecidos, despontar cabeceiras e furar matas, que descobridor
algum ate então haja varado.
Cresce-lhe o
orgulho na razão da extensão e importância das
viagens empreendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as
correntes caudais que transpôs, os ribeirões que batizou,
as serras que transmontou e os pantanais que afoitamente cortou,
quando não levou dias e dias a rodeá-los com rara
paciência.
Cada ano que
finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e acrescenta uma pedra
ao monumento da sua inocente vaidade.
-Ninguém
pode comigo, exclama ele enfaticamente. Nos campos da Vacaria, no
sertão do Mimoso e nos pantanos do Pequiri, sou rei.
E esta presunção
de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de gesticular majestático
em sua singela manifestação.
A certeza que
tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como
que o liberta da obsessão do desconhecido, o exalta e lhe
dá foros de infalibilidade.
Se estende o
braço, aponta com segurança no espaço e declara
peremptoriamente:
-Neste rumo
daqui a 20 léguas, fica o espigão mestre de uma serra
braba, depois um rio grosso; dali a cinco léguas outro mato
sujo que vai findar num brejal. Se vassuncê frechar direitinho
assim umas duas horas, topa com o pouso do Tatu, no caminho que
vai a Cuiabá.
O que faz numa
direção, com a mesma imperturbável serenidade
e firmeza indica em qualquer outra.
A única
interrupção que aos outros consente, quando conta
os inúmeros descobrimentos, é a da admiração.
À mínima suspeita de dúvida ou pouco caso,
incendem-se-lhe de cólera as faces e no gesto denuncia indignação.
- Vassuncê
não credita! protesta então com calor. Pois encilhe
o seu bicho e caminhe como eu lhe disser. Mas assunte bem, que no
terceiro dia de viagem ficará decidido quem é cavouqueiro
e embromador. Uma coisa é mapiar à toa, outra andar
com tento por estes mundos de Cristo.
Quando o sertanejo
vai ficando velho, quando sente os membros cansados e entorpecidos,
os olhos já enevoados pela idade, os braços frouxos
para manejar a machadinha que lhe da o substancial palmito ou o
saboroso mel de abelhas, procura então quem o queira para
esposo, alguma viúva ou parenta chegada, forma casa e escola,
e prepara os filhos e enteados para a vida aventureira e livre que
tantos gozos lhe dera outrora.
Esses discípulos
aguçada a curiosidade com as repetidas e animadas descrições
das grandes cenas da natureza, num belo dia desertam da casa paterna,
espalham-se por ai além, e uns nos confins do Paraná,
outros nas brenhas de São Paulo, nas planuras de Goiás
ou nas bocainas de Mato Grosso, por toda a, parte enfim, onde haja
deserto, vão pôr em ativa prática tudo quanto
souberam tão bem ouvir, relembrando as façanhas do
seu respeitado progenitor e mestre.
II - O VIAJANTE
Próprio
de espírito sorumbático, é andar sempre calado:
tagarelar é o encanto e a alma da vida.
La Chaussée.
Comigo, respondeu Sancho, meu primeiro movimento é logo tal
comichão de falar que não posso deixar de desembuchar
o que me vem A boca.
Cervantes, D.
Quixote.
O dia 15 de
julho de 1860 era dia claro, sereno e fresco, como costumam ser
os chamados de inverno no interior do Brasil.
Ia o Sol alto
em seu percurso, iluminando com seus raios, não muito ardentes
para regiões intertropicais, a estrada, cujo aspecto há
pouco tentamos descrever e que da Vila de Sant'Ana do Paranaíba
vai ter aos campos de Camapuã.
A essa hora,
um viajante, montado numa boa besta tordilho-queimada, gorda e marchadeira,
seguia aquela estrada. A sua fisionomia e maneiras de trajar denunciavam
de pronto que não era homem de lida fadigosa e comum ou algum
fazendeiro daquelas cercanias que voltasse para casa. Trazia na
cabeça um chapéu-do-chile de abas amplas e cingido
de larga fita preta, sobre os ombros um poncho-pala de variegadas
cores e calçava botas de couro da Rússia bem feitas
e em bom estado de conservação.
Tinha quando
muito vinte e cinco anos, presença agradável, olhos
negros e bem rasgados, barba e cabelos cortados quase à escovinha
e ar tão inteligente quanto decidido.
Na mão
empunhava uma comprida vara que havia pouco cortara, e com que ia
distraidamente fustigando o ar ou batendo nos ramos de árvores
que se dobravam ao alcance do braço.
Vinha só
e, no momento em que damos começo a esta singela história,
achava-se no bonito trecho de caminho que medeia entre a casa de
Albino Lata e a do Leal, a sete boas léguas da sezonática
e decadente Vila de Sant'Ana do Paranaíba
Nesta porção
de estrada, ensombrada pelas árvores de vistoso cerrado,
o leito, ainda que já bastante arenoso, é firme e
parece mais aléia de bem tratado jardim, do que caminho de
tropas e carreadores.
Ainda aumenta
os encantos daquele lance a inúmera quantidade de rolas caboclas
a brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo bater das asas
produz um arruído tão característico e singular.
O nosso viajante,
se caminhava distraído e meio pensativo, não parecia,
contudo, de gênio sombrio ou pouco divertido.
Muito ao contrário,
sacudia as vezes o torpor em que vinha e entrava a cantarolar, ou
assobiar, esporeando a valente cavalgadura, que na marcha que tomava
ia abanando alternadamente as orelhas com o movimento cadencial
da cabeça.
Numa dessas
reações contra alguma preocupação, disse
em voz alta, puxando por um relógio de prata, seguro em corrente
do mesmo metal:
-Às duas
horas, pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o meio-dia,
e tenho tempo diante de mim a botar fora.
Moderou, pois,
a andadura que levava o animal e mais ativamente recomeçou
a zurzir os galhos das árvores, bocejando de tédio.
Também
pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado
emparelhou outro viajante, escanchado num cavalinho feio e zambro,
mas muito forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava ter
vindo quase a galope.
Homem já
de alguma idade, o recém-chegado era gordo, de compleição
sangüínea, rosto expressivo e franco. Trajava à
mineira e parecia, como realmente era, morador daquela localidade.
-Olá,
patrício, exclamou ele conchegando a cavalgadura à
da pessoa a quem interpelava, então se vai botando para Camapuã?
Olhou o nosso
cavaleiro com desconfiança e sobranceria para quem o interrogava
tão sem-cerimônia e meio enviesado respondeu:
-Talvez sim...
talvez não... Mas a que vem a pergunta?
-Ah! desculpe-me,
replicou o outro rindo-se, nem sequer o saudei... Sou mesmo um estabanado...
Deus esteja convosco. Isto sempre me acontece... A minha língua
fica às vezes tão doida que se põe logo a bater-me
nos dentes... que é um Deus nos acuda e... não há
que avisar: água vai! Olhe, por vezes já me tem vindo
dano, mas que quer? É sestro antigo... Não que eu
sela malcriado, Deus de tal me defenda, abrenúncio; mas pega-me
tal comichão de falar que vou logo, sem tir-te, nem guar-te,
dando à taramela...
A volubilidade
com que foram ditas estas palavras causou certo espanto ao mancebo
e o levou a novamente encarar o inopinado companheiro, desta feita
com mais demora e ar menos altivo.
Notou então
a fisionomia alegre e bonachã do tagarela e, com ar de simpatia,
correspondeu ao comunicativo sorriso daquele que, à força,
queria travar conversação.
-Pelo que vejo,
disse ele, o Sr. gosta de prosear.
-Ora se! retrucou
o mineiro. Nestes sertões só sinto a falta de uma
coisa: é de um cristão com quem de vez em quando dê
uns dedos de pérola. Isto sim, por aqui é casqueiro.
Tudo anda tão calado!... uma verdadeira caipiragem!... Eu,
não. Sou das Gerais, gelaria como por cá se diz; nasci
no Paraibana, conheci no meu tempo pessoas de muita educação,
gente mesma de traz e fui criado na Mata do Rio como homem e não
como bicho do monte.
-Ah! o senhor
é de Minas?
-Gerais, se
me faz favor. Batizei-me em Vassouras, mas sou mineiro da gema.
Andei ceca e meca antes de vir deitar poita neste país. Isto
já faz muito tempo, pois também vou ficando velho.
Há mais de quarenta anos pelo menos que sai da casa dos meus
pais.
E interrompendo
o que dizia, perguntou:
-O senhor também
é de Minas?
-Nhor-não,
respondeu o outro. Sou caipira de São Paulo: nasci na Vila
de Casa Branca, mas fui criado em Ouro Preto.
-Ah! na cidade
Imperial ?...
-Lá mesmo.
-Então
é quase de casa, replicou o mineiro rindo-se ruidosamente.
Ora, quem diria! Por isto me batia a passarinha, quando vi o seu
rasto fresco na areia. Ai vai, disse eu por vezes com os meus botões,
um sujeitinho que não tem pressa de pousar. Também
tocando o meu canivete, tratei de agarrá-lo para não
fazer a viagem a olhar para o céu e a bancar. Acha que obrei
mal?
-Não,
senhor, protestou o moço com afabilidade. Muito lhe agradeço
a intenção. Assim alcançarei sem cansaço
o Leal, onde pretendo dar hoje com os ossos.
-Oh! exclamou
o outro todo expansivo, a caminhada é a mesma. Pois, meu
rico senhor, eu moro a meia légua do Leal, torcendo a esquerda
e se vosmecê não tem compromissos lá com o homem,
far-me-á muito favor agasalhando-se em teto de quem é
pobre, mas amigo de servir. Minha tapera é pouco retirada
do caminho, e quem vem montado como o senhor, não tem que
andar contando bocadinhos de léguas.
Convite tão
espontâneo e amável não podia deixar de ser
bem aceito, sobretudo naquelas alturas, e trouxe logo entre os dois
caminhantes a familiaridade que tão depressa se estabelece
em viagem.
-Com toda a
satisfação irei parar em sua casa, retrucou o jovem.
Nunca vi o Leal, pois agora é a primeira vez que cruzo este
sertão, e ando de pouso em pouso, pedindo um cantinho de
paiol ou de rancho para passar a noite com os meus camaradas.
Traz então
tropa?
-Tropa, não;
apenas dois bagageiros que vêm com as minhas cargas e uma
besta à destra.
-Olá!
o amigo viaja à fidalga, observou o mineiro com gesto folgazão.
-Qual!... Bastantes
privações tenho já curtido.
-Decerto não
as sentirá em nossa casa todo o tempo que lá quiser
ficar. Não encontrará luxarias nem coisas da capital,
unicamente o que pode ter nestes mundos: quatro paredes de pau-a-pique
mal rebocadas, uma cama de vento, bom feijão a fartar, ervas
a mineira, arroz de papa, farinha de milho torradinha, café
com rapadura e talvez até um lombo fresco de porco.
-Olá!
exclamou o moço rindo-se com expansão, vou passar
vida de capitão-mor. Não queria tanto, bastava-me...
-O que sobretudo
desejo é que tenha comigo o coração na boca.
Se não gostar do passadio, vá logo desembacharido.
Na minha rancharia pousa pouca gente, porque fica para dentro da
estrada... assim, talvez lhe falte alguma coisa; em todo o caso
farei pelo melhor . . .
Depois de breve
pausa, continuou:
-Mas porém,
creio que já é ocasião, agora que nos conhecemos
como dois amigos do tempo do Rojão, saber com quem lidamos.
Eu, quanto a mim, me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha
história conto-lha em duas palhetadas... Sua graça,
ainda que mal pergunte ?
-Cirino Ferreira
de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para o servir.
- Obrigado,
agradeceu Pereira inclinando-se cortesmente e levando a mão
ao chapéu. Como lhe disse há pouco, minha historia
é história de entrar por uma porta e sair por outra.
Minha gente não é de má raça, pelo contrário;
meu pai, que Deus lhe dê a glória, possuía alguma
coisa de seu e deixou aos seus muitos filhos um nome limpo e respeitado.
Cada qual de nós-éramos sete-tomou o seu rumo. Quanto
a mim, casei muito mocinho e fui morar na Diamantina, onde abri
casa de negócio. Depois de alguns anos, uns bons, outros
caiporas, morreu minha dona e mudei-me, a principio, para Pinmi
e mais tarde para Uberaba. A vida começou a desandar-me de
todo, e fiz logo este cálculo: estar tão longe, antes
afundar-me no mato de uma boa feita. Vendi minha lojinha de ferragens
e internei-me até cá com três escravos. lá
doze anos que moro nestes socavões e, palavra de honra, até
ao presente não me tenho arrependido. Na minha situação
há fartura, e louvado seja! nunca passei necessidade... Não
posso por isto queixar-me sem ingratidão. Deus Nosso Senhor
Jesus Cristo tem olhado para mim, e me julgo bem amparado, sobretudo
quando me lembro do despotismo de misérias, que vai por estas
terras fora... Cruzes! nem falar nisto é bom... Diga-me porém
uma coisa: vosmecê para onde se atira?
-Homem, Sr.
Pereira, não tenho destino certo.
-Deveras? Então
esta caminhando à toa?
-Eu ponho-lhe
já tudo em pratos limpos. Ando por estes fundões curando
maleitas e feridas bradas.
-Ah! exclamou
Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é doutor,
não é? Físico, como chamavam os nossos do tempo
de dantes.
-É fato,
confirmou Cirino com alguma satisfação.
-Ora, pois multo
bem, cai-me a sopa no mel; sim, senhor, vem mesmo ao pintar... a
talhe de foice.
-Por quê?
-Daqui a pouco
saberá... Mas, diga-me ainda... Onde é que vosmecê
leu nos livros, aprendeu suas historias e bruxarias? Na corte do
Império?
-Não,
respondeu Cirino, primeiro no Colégio do Caraça; depois
fui para Ouro Preto, onde tirei carta de farmácia.
E acrescentou
com enfatuação:
-Desde então
tenho batido todo o poente de Minas e feito curas que é um
milagre.
-Ah! a sabença
é coisa boa. . . eu também tinha jeito para saber
mais do que ler e escrever, isto mesmo mulmente; mas quem nasceu
para carreiro, vira, mexe, larga e pega, sempre acaba junto ao carro.
Com o que, entonces, vosmecê entende de curar?...
-Entendo, afirmou
Cirino sem o menor constrangimento.
-Pois caiu-me
muito ao jeito na mão; sim, senhor. Estou com uma menina
doente de maleitas, minha filha, e por essa causa tinha ido a Sant'Ana
buscar quina do comércio; mas lá não havia
da maldita e voltava bem agoniado. Ora...
-Trago, interrompeu
o outro, muito remédio nas minhas malas. Para sezões,
tenho uma composição infalível...
- Já
se sabe; entra composição de quina. Deveras é
santa mezinha. A pequena tomou a do campo; mas essa pouco talento
tem, de maneira que a sezão não lhe deixou o corpo.
-Há quantos
dias apareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado doutor.
-Faz hoje, salvo
engano, dez dias.
Até agora
era uma rapariga forçada, sadia e rosada como um lambo; nem
sei ate como lhe entrou a maleita no corpo. Ninguém pode
fiar-se na tal Vila de Sant'Ana; é uma peste de febres. Eu
bem a não Queria levar até lá: mas ela pediu
tanto age consenti! Demais como era para ver a madrinha, uma boa
senhora, de muita circunstância, a mulher do Major Melo Toques.
.. Não conhece?
-Pois não.
-E dá-se
com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo à garrulice.
-Quando pousei
na vila, estive com ele.
-E não
gostou? Aquilo sim é homem às direitas. Também
é pau para toda a obra na Senhora Sant'ana, é o tutu
de lá. Em querendo taramelar um pouco mais a meu gosto, busco
o compadre. Isto arma logo uma conversa que me dá um fartão...
E depois pessoa de muitas letras... Escreve ao governo; é
juiz de paz, major reformado, serve de juiz municipal, já
fez a campanha dos Farrapos lá no Rio Grande do Sul para
as bandas dos Castelhanos e merece muita estimação.
Mora numa casa de andar e tem loja muito sortida, por sinal que
bem baratinha para a distancia. E as histórias que conta?
f: um nunca acabar. O homem parece que sabe o Império de
cor e salteado! Nem o vigário! Olhe, Sr. Cirino, vou dizer-lhe
uma coisa, que talvez lhe pareça embromação:
às vezes dou um pulo até a vila só para bater
língua com o major, porque com esta gente daqui não
se tira partido: escorraçada e arisca que é um Deus
nos acuda! Então, como lhe ia contando, galopeio até
lá, e pego numa mapiagem que me enche as medidas. Não
há...
-Gabo-lhe a
pachorra, atalhou Cirino. Mas, diga-me, Sr. Pereira; farei por aqui
algum negócio?
-Homem, conforme.
Gente doente é mato; mas também mofina como ela só.
Meio arredado da minha casa, fica o Coelho que está morre
não morre há muitos anos, e é homem de boas
patacas. Este, se vosmecê o curar, talvez caia com os cobres.
Tudo o mais é uma récula de gente mais ou menos.
-Vosmecê
traz bastante quina do comércio? perguntou em seguida.
-Trago, respondeu
Cirino, mas é cara.
-Que é
cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui
tudo são serões.
Começou
então o bom do Sr. Pereira a desenrolar as diversas moléstias
que o haviam salteado no correr da vida, raras na verdade, mas todas
perigosas; e com este tema às ordens achou meios e modos
de falar até quase perder o fôlego.
Recolheu-se
o outro ao silencio e ouviu talvez preocupado, ou em todo caso,
muito distraidamente, o que lhe contava o seu novo amigo, saindo,
de vez em quando, da apática atenção para instigar
com a voz e o calcanhar a cavalgadura, quando esta parecia querer
por si tomar descanso ou buscava comer os rebentões mais
apetitosos do capim a grelar.
Afinal notou
Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro. -Vosmecê
a modo que está triste? disse ele. Deixou alguma coisa de
seu lá por trás?
-Homem, para
ser franco, respondeu Cirino dando um suspiro, deixei; e essa coisa
é uma dívida... dívida de jogo.
-Isto é
mau, retrucou o mineiro, fechando um tanto a cara. Por causa desse
vicio e das mulheres, é que as cruzes nascem à beira
das estradas. Mas é coco grosso?
-Trezentos mil-réis.
-Já é
gimbo graúdo. E com quem jogou?
-Com o Totó
Siqueira, de Sant'Ana. Por isto pretendeu atrasar-me a viagem; mas
prometi mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e passei-lhe
um papel. No que estou pensando, e se acharei até lá
meios de cumprir a palavra.
-Se lhe pagarem
como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um pouco com os doentes.
-Não
imagina, replicou Cirino com verdadeiro sentimento, quanto me tem
amofinado essa maldita dívida. Não pelo dinheiro,
que dele faço pouco caso; mas por ter pegado em cartas, coisa
que nunca tinha feito na minha vida; isto sim...
-Pois meu rico
senhor, prosseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição
e tome tento com a gente do sertão, não com esses
que moram -nas suas casas, sossegados e amigos de servir, mas com
viajantes, homens de tropas e carreiros. Isso sim, é uma
súcia de jogadores, que andam armados de baralhas e vísporas
e, por dá cá aquela palha, empurram uma faca na barriga
de um cristão ou descarregam uma garrucha na cabeça
de um companheiro, como se fosse em melancia podre. Depois, o demônio
do jogo, quando entra no corpo de um desgraçado, faz logo
ninho e de lá pincha fora a vergonha. Da má vida com
raparigas airadas, fadistas e mulheres à toa, ainda a gente
endireita; mas com cartas e sortes, só na caldeira de Pedro
Botelho é que se cuida em mudar de rumo. Quem lhe fala, teve
um tio morador nas Trairás, para cá de Camapuã
cinco léguas, que trabalhava todo o ano na terra para vir
jogar até perder o último cobre nas rancharias do
Sucuriú.
Pereira, de
posse de tão largo assunto, contou mil historias, umas lúgubres,
outras jocosas, verídicas, inventadas na ocasião ou
reproduzidas.
Haviam, no entretanto,
os dois caminhado bastante. Inclinara-se no horizonte o Sol, e a
brisa da tarde já vinha soprando do lado do poente, viva,
perfumosa.
-Nós,
observou o mineiro, com a nossa conversa deixamos os nossos animais
vir cochilando. Também já está aqui a minha
estradinha. Meta-se nela, Sr. Cirino; em frente ia parar no Leal:
minha fazendola começa neste ponto à beira do caminho
e vai por ai afora ate bem longe, um mundo de alqueires de terra
que nem tem conta.
Ao dizer estas
palavras, tomou ele a dianteira e dando a direita à estrada
geral, enveredou por uma aberta larga e muito sombreado que levava
com voltas e tortuosidades à margem rasa de copioso e límpido
ribeirão, de álveo areento, todo ele. Que sítio
risonho, encantador, esse, ensombrado por majestosa e elegante ingazeira,
toda pontuada das mimosas e balsâmicas florezinhas!
Os animais,
ao perceberem o bater da água, apertaram o passo e, entrando
na fresca corrente quase até aos peitos, estiraram o pescoço
e puseram-se a beber ruidosamente, avançando aos poucos de
encontro ao fio caudal, para buscarem o que houvesse mais puro em
linfa.
-Não
deixe a sua besta se empanainar observou Pereira. Upa! continuou
ele puxando pela rédea do cavalo e batendo-lhe amigavelmente
na pá do pescoço, upa, Canivete! Vamos matar a fome
no milho!
Transposto o
ribeirão, alargava-se a vereda e, depois de cortar copada
mata, abria-se numa verdadeira estrada, que os dois cavaleiros tomaram
a meio galope.
Transmontava
afinal o Sol, quando, atem de ralo matagal, surgiu a ponta de um
mastro de São João, que o mineiro saudou com mostras
de grande alegria, como sinal precursor da querida vivenda.
Antes, porem,
de nela penetrarmos, digamos quem era aquele mancebo que viajava
ornado do pomposo titulo de doutor, e, que mais é, revestido
de autoridade para ir, a seu talante aplicando remédios e
preconizando curas milagrosas.
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