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Inocência
Visconde de Taunay

 


XVI-O EMPALAMADO

Ao homem não faltam importunações quanto à vossa capacidade, bem a conhecemos.

(Molière, O Médico A Força).

Conforme o prometido, trouxe Pereira a rede para a sala dos li hóspedes e, encetando um modo de vigilância muito especial ainda que perfeitamente inútil em relação à pessoa suspeitada, associou os sonoros roncos do valente peito à ruidosa respiração de Meyer.

Se, contudo, não tivessem seus olhos a venda da confiança ou, melhor, se o sono não os acometesse sempre com tamanha imposição,, decerto em breve houvera estranhado a cruel agitação em que vivia Cirino e que este não podia mais encobrir.

Na verdade, o modo por que o infeliz mancebo passava as noites era de fazer nascer suspeitas no espírito mais indiferente e desprevenido. Ou se revolvia na cama, dando mal abafados suspiros, ou então saia para o terreiro, onde se punha a passear e a fumar cigarros de palha uns após outros, até que os galos, alcandorados na cumeeira da casa e nas árvores mais próximas, anunciassem as primeiras barras do dia.

Desabrida paixão enchia o peito daquele malsinado; dessas paixões repentinas. explosivas. irresistíveis, que se apoderam de uma alma, a enleiam por toda a parte, prendem-na de mil modos e a sufocam como as serpentes de Netuno a Laocoonte. Conhecedor como era, dos hábitos do sertão, do jugo absoluto dos preconceitos, do respeito fatal à palavra dada, antevia tantas dificuldades, tamanhos obstáculos diante de si, que, se de um lado desanimava, do outro mais sentia revoltado o nascente e já tão violento afeto.

-Deus me ajudará, pensava consigo mesmo: o que só quero e a amizade de Inocência Há dias que não a vejo... se não puder mais vê-la... dou cabo da vida...

Sublevava-se o seu coração, girava-lhe o sangue com vertiginosa rapidez nas velas e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de rubro calor ao descorado rosto.

-Nossa Senhora da Abadia, implorava ele puxando os cabelos com desespero, valei-me neste apuro em que me acho! Dai-me pelo menos esperanças de que aquela menina poderá um dia querer-me bem.., Nada mais desejo... Possa o fogo que me consome abrasar também o seu peito...

Costumava a fervorosa prece dirigida à santa da especial devoção de toda a Província de Goiás acalmar um pouco o mancebo, que alquebrado de forças pegava no sono para, instantes depois, acordar sobressaltado e cada vez mais abatido.

Também estava sempre de pé quando Pereira costumava saltar da rede.

-Oh! observou ele da primeira vez, isto 6 que se chama madrugar.

-Pois é contra o meu costume, replicou Cirino, todas estas noites tenho passado mal...

-Na verdade vosmecê não está com boa cara...

-Creio que me entraram no corpo as maleitas.

-Essa é que é boa! Então o doutor foi emprestar(') da doente a moléstia?...

Olhe, é preciso por-se forte, porque hoje mesmo há de lhe chegar uma boa maquina de doentes...

-Melhor...

-Já está tudo espalhado por ai da sua chegada e a romaria não há de tardar.

-Cá a espero...

-Naturalmente virá primeiro o Coelho... t: boa ocasião de pagar a sua divida... Não tenha receio de puxar mais no preço...

-Daqui mesmo pretendo despachar um próprio para me ver livre dessa obrigação...

-Isso mostra que o Sr.é pessoa de brio... Não 6 como certa gente que conheço...

Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para Meyer a contemplá-lo atentamente.

Estava na verdade o alemão digno de exame, posto ainda de parte outro qualquer motivo que não o de simples curiosidade.

Dormia com as pernas e braços abertos e caldos para fora do estreito leito das canastras: tinha o queixo muito levantado pela posição incômoda da cabeça, deixando a boca meio aberta ver uma fieira de magníficos dentes.

-Está roncando, hem? murmurou o mineiro. Cavouqueiro... a mim você não engana..., mas é o mesmo!

Iam as prevenções de Pereira tomando proporções de idéia fixa, e Meyer, na simplicidade da ignorância, como que de propósito ministrava elementos para que elas mais e mais se fossem arraigando.

Assim, ao almoço, lembrou-se de perguntar entre duas enormes colheradas de feijão:

-Sua filha, Sr. Pereira? Como vai? É melhor?

-É melhor o quê, Mochu? exclamou o pai com modo esquivo.

-A saúde dela é melhor?

-Está melhor; está, está, respondeu Pereira muito secamente. Está boa... vai fazer uma viagem...

-Viagem, para onde?... Até a vila?

-Homem; Mochu, observou o mineiro um tanto desabrido, vosmecê está que nem mulher velha, tudo quer saber...

Meyer, nessa repreensão, que lhe causou vexame e alguma admiração, só enxergou censura justa a sua curiosidade, falta que confessou com toda a nobreza, embora agravando a situação.

-É verdade, Sr. Pereira, concordou ele. A boa educação não manda o que eu fiz .. mereço, porém, desculpa, mereço... Sua filha é tão interessante... que me lembro sempre dela... Tenho comigo uns presentezinhos...

-Guarde-os, rosnou Pereira abafando a reflexão num acesso de tosse.

E para evitar o prosseguimento de semelhante assunto, deu por finda a refeição, levantando-se da mesa.

- Aí vem o Coelho, doutor, exclamou ele olhando para fora. Xi! como esta amarelo!... Há tempos que o não via... já parece alma do outro mundo... É do tal em quem falamos... Aperte-o, porque é mofino como tudo...

E, interpelando a quem chegava gritou:
-Bons olhos o vejam!... Se não fosse, amigo Sr. Coelho, ter médico em casa, nunca havéra de vê-lo por cá; não é verdade?

-Ora, respondeu o outro com um gemido, ando sempre tão doente. Nem faz gosto viver assim... Mas qu'é dele, o homem?

-Está aqui...

-Já me disseram que faz milagres. Deixou nome para lá das Parnaíbas... Sabia?

- Lá que tivesse deixado nome, não: mas que 6 cirurgião de patente, tenho certeza, porque, num abrir e fechar de olhos, me pôs de pé uma pessoa cá de casa.

-Se ele me curar... não sei mesmo como lhe agradecer.

-É pagar-lhe, concluiu Pereira, tratando logo de advogar os interesses do hóspede.

-Sim, hei de... pagar-lhe, confirmou o outro com alguma hesitação.

-Em todo caso, desça do animal.

Pouco depois, entrava na sala e cumprimentava a Cirino e a Meyer a pessoa a quem o mineiro chamara Coelho. Era homem já de idade, muito mais quebrantado por enfermidades que pelos anos; tinha a testa enrugada, as bochechas meio inchadas e balofas, os lábios quase brancos e os olhos empapuçados.

-Qual dos senhores é o doutor? perguntou ele.

-Sou eu, respondeu Cirino, revestindo-se de convicto ar de importância, enquanto Meyer apontava para ele, cedendo direitos que talvez pudesse contestar.

Interveio Pereira com amabilidade:

-Sente-se, Sr. Coelho, sente-se. Não se ponha logo a falar de moléstias... Isto não vai de afogadilho... Descanse um pouco... Olhe, já almoçou?

-O pouco que como, retrucou o outro, já está comido.

-Pois bem, ponha-se primeiro a gosto: depois então, converse com o doutor... Diga-me: que há de novo pela vila?

-Que eu saiba, nada... Também há mais de ano que de lá nenhuma noticia tenho... já não se me dá do que vai pelo mundo... Quem não goza saúde, perde o gosto de tudo... E mesmo uma calamidade . . .

Enquanto Coelho, em toada monótona, desfiava outras queixas no mesmo sentido, tirara Cirino da canastra o seu Chernoviz e algumas ervas secas que depôs em cima da mesa.

-O senhor, declarou ele voltando-se para o doente, está empalamado..

-É verdade, Sr. doutor.

- Eu, que não sou físico, observou Pereira, diria logo isso...

-Xi, compadre! atalhou Coelho com impaciência e pedindo silêncio.

-O senhor, continuou Cirino com entono, teve maleitas muitos anos afios depois começou a sentir fastio e o estômago embrulhado; inchou todo e em seguida definhou... Aos poucos, foi perdendo a sustância e o talento.

-Tal qual! murmurou Coelho seguindo com cautelosa atenção a marcha do diagnóstico.

-Agora, o Sr. não pode comer que não sinta afrontação, não 6?

-Muita, Sr. doutor.

-Este homem, disse Pereira para Meyer, leu bastante nos livros . . . -Veio-lhe depois uma canseira, e, quando o Sr. anda, dão-lhe uns suores e tremuras por todo o corpo... O baço está ingurgitado e o fígado também... De noite fica o Sr. sem poder tomar respiração, mais sentado que deitado... As vezes tosse muito, uma tosse sem escarrar, como quem tem um pigarro seco...

-Tal qual! repetiu o enfermo com unção e quase entusiasmo.

-Pois bem, terminou Cirino, como já lhe disse, o Sr. está empalamado.

-E não há cura? perguntou Coelho meio duvidoso.

-Há, mas o remédio 6 forte

-Contanto que faça bem...

-Muita gente, replicou Cirino, tenho já curado em estado pior que o Sr.; mas, repito, o remédio 6 violento...

-Tomarei tudo, afirmou Coelho: há anos que faço um horror de mezinhas e de nenhuma delas tiro proveito. Vamos ver.

Cirino neste porto mudou o tom de voz e olhando para Pereira:

-O Sr. sabe, observou ele que o meu modo de vida 6 este...

Com um movimento de cabeça aplaudiu o mineiro aquela entrada em matéria.

O mesmo não pensou Coelho, que tartamudeou:

-Ah!... Estou pronto... Sou pobre, muito pobre...

Piscou Pereira um olho com malícia.

-Costumo, continuou Cirino, receber o pagamento em duas ametades. . .

Depois acrescentou, um tanto vexado:

-Se falo nisto agora com esta pressa, 6 porque também tenho precisão urgente de dinheiro. . Não acha, Sr. Meyer?

-Pois não, pois não, concordou o alemão: tem todo o direito.

-Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor não trabalha para o bispo; tem que ganhar honradamente a vida.

-Então, como lhe dizia, prosseguiu o outro dirigindo-se para Coelho, o senhor pagar-me-á no principio da aplicação e no fim. Assim, não há enganos... Serve-lhe?

-Que remédio! suspirou Coelho. Eu lhe darei... até trinta mil-réis... ou... quarenta...

-Qual! retorquiu Cirino. O meu preço 6 um só.

-E a quanto monta?

-A cem mil-réis.

-Cem mim réis! exclamou Coelho aterrado.

-Cinqüenta no principio, cinqüenta no fim.

Gemeu o doente lá consigo.

-Ora o que 6 isto para você, compadre? interveio Pereira. Um atilho de milho para quem tem tulhas cheias a valer!...

-Nem tanto, nem tanto assim, objetou Coelho.

-Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se vosmecê não tivesse bons patacos, eu diria logo ao nosso amigo:-Olhe que este 6 dos nossos, não tem onde cair morto - e ele havéra de curar de graça... não é?

-Decerto, decerto, declarou Cirino com muita prontidão.

-Mas com vosmecê o caso 6 defronte! Doutra maneira, por que razão havia um cirurgião de andar por estes socavões? Também quer bichar um pouco...

- É muito justo...

-Cinqüenta... mil... réis, balbuciava Coelho; assim de pancada. . .

-Se o médico o cura, disse Meyer intrometendo-se, 6 negócio da China.

Nada dizia Cirino por dignidade própria. Estava folheando o Chernoviz, cujas páginas mostravam continuo manusear, algumas até enriquecidas de notas e observações à margem.

Assim no artigo opilação ou hipoemia intertropical havia ele escrito ao lado: "E o que se chama no sertão moléstia de empalamado". E, no fim abrira grande chave para encerrar esta ousada e peremptória sentença: "Todos estes remédios de nada servem. Sei de um muito violento, mas seguro. Foi-me, há anos, ensinado por Matias Pedroso, curandeiro da Vila do Prata, no sertão da Farinha Podre, velho de muita prática e que conhecia todas as raízes e ervas do campo".

-Pois bem, disse Coelho depois de grande hesitação, está o negócio fechado. Mas, olhe que entrará no pagamento o preço das mezinhas, e as visitas hão de ser feitas em minha casa...

-Não há duvida, concordou Cirino; irei à sua fazenda todos os dias... Não é longe daqui?

-Nhor-não... duas léguas pequenas, pela estrada.

-Bem. O senhor, em voltando a casa, meta-se logo na cama.

Coelho fez sinal que sim.

-Amanhã, continuou o moço, deve tomar estes pós que lhe estou mostrando. Divida isto em duas porções; há de fazer-lhe muito efeito; depois descanse dois ou três dias, se acaso se sentir muito fraco; em seguida:

E parando de repente, encarou Coelho alguns instantes:

-O Sr. quer mesmo curar-se?

-Oh! se quero!

-E tem confiança em mim?

-Abaixo de Deus só mecê pode salvar-me.

-Então, tomará às cegas o que eu lhe receitar?

-Até carvão em brasa.

-Olhe bem o que diz . . Não gosto de começar a tratar para depois parar...

-Não tenha esse medo comigo...

Viver como vivo, antes morrer...

-Então, continuou Cirino com pausa, acabados os dias de sossego, há de o senhor engolir uma boa data de leite de jaracatiá.

- Jaracatiá?! exclamaram com assombro o doente e Pereira.

-Jarracatiá?! gaguejou por seu turno Meyer, arregalando os olhos, que 6 jarracatiá?

-Mas isso vai queimar as tripas do homem, observou o mineiro.

Cirino replicou um tanto ofendido:

-Não sou nenhum criançola, Sr. Pereira. Sei bem o que estou dizendo. Este remédio 6 segredo meu, muito forte, muito daninho; mas não é nem uma, nem duas vezes, que com ele tenho curado empalamados. A coisa está no modo de dar o leite e na quantidade: por isso, é que não faço mistério, avisando contudo que com uma porçãozinha mais do que o preciso, o doente está na cova...

-Salta! atalhou Pereira, tal mezinha não quero eu... antes ficar empalamado.

-Que é jarracatia? tornou a perguntar Meyer.

Coelho abaixou a cabeça e parecia estar refletindo na resolução que havia de abraçar.

Depois, com voz melancólica:

-O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmecê me der. Agora, quanto fizer está bem feito... Como é que devo tomar o jaracatiá??

-Em tempo lhe direi, replicou Cirino. Fazem-se três cortes no pé da árvore e deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de recolher o que for bom. Tenha toda a confiança em que o senhor ficará são... Bem sabe, ninguém em negócio de doença, mais do que outro qualquer, pode nunca dizer: isto há de ser assim ou assado... Todos estamos nas mãos de Deus. Só Ele pode saber se a moléstia nos sairá do corpo ou nos há de atirar à sepultura. Todo o bom cristão conhece isto e deve conformar-se com a vontade divina... O que o médico faz 6 ajudar a natureza e dar a mão ao corpo quando ele pode ainda levantar-se...

-Justo, justo! apoiou Meyer, então todo empenhado em picar um formoso coleóptero.

-Assim também é que eu entendo, disse o mineiro.

-Mas, o que é jarracatiá, Sr. Pereira? insistiu o alemão.

Voltou-se o interpelado com impaciência:

-E uma árvore, Sr Meyer, árvore grande, de folhas cortadas, que dá umas espécies de mamõezinhos. Deitam leite muito grosso e queimam os beiços quando a gente não tem cuidado. E uma árvore, ouviu? Uma árvore!

-Ah! exclamou o alemão concertando a garganta.

Nesta ocasião sacou Cirino da canastra outros remédios e passou-os a Coelho, dando-lhe minuciosas informações sobre o modo por que havia de usar deles.

-Tem muito enjôo, quando come? perguntou o curandeiro.

-Muito, Sr. doutor.

-Assim é, mas deixe estar; depois do leite de jaracatiá, volta-lhe a apetência. Nos primeiros tempos, o senhor só há de beber claras de ovos bem batidas. Depois, ira a pouco e pouco tomando mais alimento.

-Deus o onça...

Levantou-se Pereira e, chegando-se à porta, anunciou:

-Ai vem gente... Estou ouvindo passos de animal montado... Sem dúvida e algum pobre engorovinhado de doença. Isto de moléstias, não faltam no mundo. Também há tanta maldade, que não pudera ser por menos.

Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de surpresa e aborrecimento.

-Hi meu Deus!... Nossa Senhora nos socorra... Sabem quem vem chegando?... É o Garcia; está com o mal! há mais de dois anos e não quer crer na desgraça... Pobre coitado, sem dúvida vem comprar o desengano... Tenho muita pena dessa gente... mas, deveras, não a quero ver em minha casa... Vamos, Sr. doutor, despache o Garcia depressa. Com lázaros não se brinca. A Senhora Sant'Ana de tal nos livre! Nem olhar 6 bom.

E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu apressadamente:

-Não deixe o homem desapear, doutor: ficava-me depois o desgosto de ter que lhe fazer alguma má-criação. Pelo amor de Deus vá lá fora... Veja o que ele quer... e dê-lhe boas tardes da nossa parte... Olhe, esta chamando... Sala, doutor, saia!

Ouvia-se, com efeito, uma voz perguntar se estava em casa o Sr. Pereira.

Este, vendo que Cirino não se apressava à medida dos seus desejos, ou temendo que o recém-chegado lhe entrasse na sala, sem demora apareceu à soleira da porta e, com manifesta sequidão, respondeu ao humilde cumprimento de chapéu e à meiga saudação que lhe era dirigida.


XVII-O MORFÉTICO


O leproso. - Interesse? Ah! nunca inspirei senão compaixão...

O militar - Quão feliz fora eu se pudesse dar-vos algum consolo!...

( Xavier de Maistre, O Leproso de Aosta).

Não devo ter sociedade senão comigo mesmo, nenhum amigo, senão Deus.

Generoso estrangeiro, adeus, se feliz. Adeus para sempre!

(Idem).

A pessoa que chegara, bem que tivesse descavalgado, não se adiantou ao encontro do dono da casa. Pelo contrário como que recuou, conservando-se depois imóvel, encostado a um burrinho, cujas rédeas segurava.

De seu lugar, perguntou-lhe Pereira com expressão não muito prazenteiro:

-Então, como vai, Sr. Garcia?

- Como hei de ir, respondeu o interpelado. Mal... ou melhor, como sempre.

-Pois esteja na certeza de que muito sinto.

-Está ai o cirurgião? indagou Garcia.

-Não tarda a vir vê-lo ai fora... Olhe, é um instantezinho.

Palavras tão cruéis não pareceram fazer mossa ao desgraçado.

- Esperá-lo-ei com toda a paciência, replicou melancólico.

-Já sei que volta hoje para casa, afirmou Pereira.

-Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.

-E verdade: lá há uma tapera. Mas o Sr. não tem medo de almas do outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal-assombrado.

-Eu? exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quisesse um defunto vir gracejar um pouco comigo, e de agradecido lhe beijava os dedos roídos dos bichos. Olhe, Sr. Pereira, continuou com voz um tanto alta e agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar em sua casa; não, no seu caso havia de fazer o mesmo.

Oh! Sr. Garcia! quis protestar Pereira.

-Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha família sempre tivemos nojo de lázaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi muitos anos meio desconfiado... A ninguém contei o caso... De repente, arrebentou o mal fora. Já não era mais possível enganar nem a um cego... Ah! meu Deus, quanto tenho sofrido!...

-Permita Ele, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor tenha algum remédio... Bem vê... às vezes...

-Curar a morféia? replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo. Não há esse pintado... que em tal pense...

-Então para que quer ver o médico?

- Só para uma coisa... Saber pelos livros que ele tem lido e pelo conhecimento das moléstias, se isto pega... É só o que quero... Porque então fujo de minha casa. Desapareço desta terra... e vou-me arrastando até tombar nalgum canto por ai... Dizem uns que pega... outros que não... que 6 só do sangue... Eu não sei...

É, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco selim.

Depois, ergueu os olhos para os céus, e exclamou:

-Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus Cristo houver determinado!... Se o médico me desenganar, não quero que a minha gente fique toda... marcada... Irei para São Paulo...

Pereira cortou este doloroso diálogo:

-Está bem, patrício Garcia, disse, vou já mandar-lhe o homem. . . espere um pouco. . .

E, entrando, reiterou o pedido a Cirino, que se demorara a receitar a Coelho umas beberagens de velame e pés-de-perdiz, plantas muito abundantes naquelas paragens, de grandes virtudes diuréticas e que deveriam ser empregadas um mês depois da aplicação do leite de jaracatiá.

-Ande, doutor, instou Pereira, vá lá fora ver o coitado do outro e despache-o depressa. Estou todo enfernizado por vê-lo no meu terreiro.

Cirino saiu então e, caminhando com lentidão, parou a alguns passos do mal-aventurado Garcia, cujo rosto repentinamente se contraiu enquanto tirava o chapéu com submissão e receio.

Vinha então a tarde descendo, e a luz do crepúsculo irradiava por toda a parte, tão melancólica e suave que, sem saber por que, a alma de Cirino de repente se confrangeu.

Com assombro o encarava o lázaro. Diante dele se erguera quem lhe ia apontar o caminho da eterna proscrição. Dos seus lábios ia cair a sentença última, irremediável, fatal!
Quanta angústia no olhar daquele homem! Que pensamentos sinistros! Quanta dor!

Também ficara ali atônito, boquiaberto, à espera que a palavra de Cirino lhe quebrasse o horroroso enleio.

-Então, disse este depois de breve pausa, que me quer o senhor? -Doutor, balbuciou Garcia... primeiro que tudo quero... pagar-lhe;... trouxe algum... dinheiro... mas, talvez... seja... pouco.

Interrompeu-o Cirino:

-Não recebo dinheiro para tratar... da sua moléstia.

-Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento Garcia, que ela não tem cura... Eu bem sabia, mas. . é tão duro ouvir sempre isso!. . Olhe, o meu mal 6 de pouco . . . está em principio. Quem sabe... se o Sr. não conhecerá alguma erva?...

- Infelizmente, respondeu Cirino, nem eu, nem ninguém conhece essa planta...

-Enfim!

E Garcia, fechando os olhos como que para concentrar as forças, continuou:

-Ah! doutor, eu sou um pobre homem... velho já cansado... Por que não me velo a morte em lugar desta podridão que me esta comendo as carnes?... Muito tempo a senti dentro de mim... Disfarcei, até ao dia em que minha neta... a filha do meu coração.. a Jacinta. . . ela mesma, mostrou certo receio de me abraçar . . Ah! senhor, quanto se sofre nesta vida!

E Garcia parou ofegante, empalidecendo muito.

-Dê-me água, exclamou ele, água... pelo amor de Deus!... Pudesse agora... ser o meu dia... A minha garganta... está que nem fogo! . . .

E agarrou-se aos arreios para não cair no chão.

Cirino correu a buscar água.

-Onde há de ser? perguntou Pereira.

-Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja que aquele cristão está sofrendo...

-Ah! leve a caneca de louça... Depois a quebraremos...

Com sofreguidão tomou o lázaro o vaso, bebeu de um trago e pareceu melhorar.

-Foi um vagado, disse reassumindo aos poucos a calma. Mas, como lhe contava, certeza tinha eu do mal. Agora, só quero saber uma coisa e vou-me de partida. Esse mal... pega, doutor?

-Pega, afirmou Cirino com tristeza.

-E que me resta fazer?

-Pedir à Senhora Sant'Ana paciência e a Nosso Senhor Jesus Cristo. . Garcia abanava a cabeça acabrunhado.

...que o proteja na sua vida de desgraças.
-Meu Deus, balbuciou o morfético a meia voz, dai-me forças... coragem para que eu faça o que devo fazer.

E, com súbita resolução:

-Cumpra-se a vontade do Altíssimo! exclamou, enfim. Doutor, obrigado! O pobre lázaro há de pedir ao Todo-Poderoso que neste mundo e no outro lhe pague as suas palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou para as terras de São Paulo... Talvez me junte à gente da minha espécie Adeus...

E, a custo montando a cavalo, voltou-se para as pessoas que tinham de longe vindo assistir à consulta.

- Adeus, disse ele acenando com o chapéu, gente e patrícios. Sr. Pereira, Sr. Coelho, mais senhores, adeus! Eu me boto de uma feita para lá das Parnaíbas. . . Este sertão não me vê mais nunca!,

Acolheu o silêncio essas palavras de eterna despedida.

Garcia então, esporeando com o calcanhar o ventre da cavalgadura, a passo tomou rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas do caminho, quando já vinha a noite estendendo o seu lúgubre manto.


XVIII-IDÍLIO

Mas, que luz e essa que ali aparece naquela janela? A janela é o Oriente e Julieta o Sol. Sobe, belo astro, sobe e mata de inveja a pálida lua.

(Shakespeare, Romeu e Julieta, Ato II).

Entretanto, desde algum tempo, sentia-se Virgínia agitada de mal desconhecido... Em sua fronte, não pousava mais a serenidade, nem o sorriso lhe pairava nos lábios... Pensa ela na noite, na solidão, e logo devorador a abrasa toda.

(B. de Saint-Pierre, Paulo e Virgínia).

Decorreram sem novidade dias e dias uns após outros; Cirino diagnosticando e curando ou melhor, receitando; Meyer aumentando cada vez mais a sua bela coleção entomológica, sempre feitorizado por Pereira, que cautelosamente tratava de mantê-lo no suspeito círculo da sua apertada vigilância.

Confidente de todos os infundados e mal empregados receios era Cirino.

-O alamão, dizia o mineiro, não me deixa pôr pé em ramo verde, mas também trago-o vigiado que é um gosto... Se desconfiasse, teria medo até da sua sombra... Estou em brasas... Não sei por que não chega o Manecão Doca... Quero arriar a carga no chão... Agora, mais do que nunca, devo casar Nocência... Estas mulheres botam sal na moleira de um homem. Salta! E ainda isto tudo não 6 nada.

-Então espera muito breve o Manecão? perguntou o outro com ansiedade.

-Não pode tardar... por estes dois ou três dias quando muito... Vem de Uberaba e sem dúvida por lá arranjou todos os papéis... Dei a certidão do meu casamento... a do batismo da pequena... e adiantei dinheiro para as despesas... bem que ele refugasse meio vexado.

- Então está tudo decidido? perguntou Cirino com vivacidade.

-Boa dúvida!... Já lhe tenho dito mais de uma vez. Hoje é coisa de pedra e cal... Se até trato o Manecão de filho... A honra desta casa 6 também honra dele.

-Mas sua filha?

- Que tem?

-Gosta dele?

-Ora se!. . Um homenzarrão... desempenado. E, quando não gostasse, é vontade minha, e está acabado. Para felicidade dela e, como boa filha que 6, não tem que piar... Estou, porém, certíssimo de que o noivo lhe faz bater o coração... tomara ver o cujo chegado!

Já nesse tempo, como dissemos, Inocência de todo se restabelecera, ainda que Cirino tivesse feito quanto possível render a enfermidade. Mas, quando o rubor da saúde voltou à acetinada cútis da sertaneja e 0 vigor ao esbelto corpo, não houve pretexto a que se apegar, e as entrevistas curtas e graves de médico foram cortadas, até mesmo para não desviar a atenção de Pereira da pessoa de Meyer.

Com o coração, pois, partido de dor, declarou que os e eus cuidados e presença se tornavam completamente desnecessários.

Seguiram-se então semanas inteiras, sem que pudesse por os ansiosos olhos na formosa namorada, e por tal modo se exacerbou a sua paixão que, para encobri-la c disfarçar a excitação nervosa, a falta de apetite e palidez extrema, teve que recorrer a desculpas de moléstia; caiu realmente doente.

A incerteza em que se via, sem, pelo menos, saber se o seu afeto era ou não correspondido, dava-lhe acessos de violenta angústia, que a desoras tocava às ratas da exasperação.

Uma noite, em que havia luar embaciado por ligeira bruma, tomou a sua aflição tal violência que ele decidiu fugir daquele local de sofrimentos e incertezas, logo na manhã seguinte.

Assente uma vez nesta resolução, ergueu-se do leito em que jazia prostrado pelo mais cruel desalento e, com algum custo, saiu para o terreiro, abrindo cautelosamente a porta da casa, a fim de não acordar os companheiros de quarto. Uma vez fora, sentou-se num tronco de madeiro e ali ao ar fresco e acariciador da madrugada, entrou com mais tranqüilidade a pensar no caso.

Seria uma hora depois de meia-noite.

Estavam os espaços como que iluminados por essa luz serena e fixa que irradia de um globo despolido; luz fosca, branda, sem intermitências no brilho, sem cintilações, e difundida igualmente por toda a atmosfera.

Haviam j á os galos cantado uma vez, e, ao longe, muito ao longe, de vez em quando, se ouvia o clamor das anhumapocas.

Levantou-se de repente Cirino.

Depois de alguma vacilação, deu uma volta por toda a habitação, pulando os cercados, e tomou o ramo do frondoso laranjal, a cuja espessa sombra se abrigou por algum tempo. Achegou-se, em seguida, à cerca dos fundos da casa e parou no meio do pátio, olhando com assombro para uma janela aberta.

Um vulto ali estava!... Era o dela; Inocência.. Não havia duvidar.

A principio, nenhum movimento fez; mas, depois, lentamente se foi retirando e aos poucos fechou o postigo.

Cirino deu um só pulo e de leve, muito de leve, bateu apressadas pancadas na tábua da janela.

-Inocência!... Inocência!... chamou com voz sumida, mas ardente e cheia de súplica.

Ninguém lhe respondeu.

-Inocência, implorou o moço, olhe... abra, tenha pena de mim... Eu morro por sua causa...

Depois de breve tempo, que para Cirino pareceu um século, descerrou-se a medo a janela, e apareceu a moça toda assustada, sem saber por que razão ali estava nem explicar tudo aquilo.

Parecia-lhe um sonho.

Quis, entretanto, dar qualquer desculpa à situação e, fingindo-se admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:

-Que vem... mecê... fazer aqui?... já... estou boa.

Da parte de fora, agarrou-lhe Cirino nas mãos.

-Oh! disse ele com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou morrer... porque você me enfeitiçou, e não acho remédio para o meu mal.

-Eu... não, protestou Inocência.

-Sim... você que é uma mulher como nunca vi... Seus olhos me queimaram... Sinto fogo dentro de mim... Já não vivo... o que só quero 6 vê-la... 6 amá-la, não conheço mais o que seja sono e, nesta semana, fiquei mais velho do que em muitos anos havia de ficar... E tudo, por quê, Inocência?

-Eu não sei, não, respondeu a pobrezinha com ingenuidade. -Porque eu amo... amo-a, e sofro como um louco... como um perdido.

-Ué, exclamou ela, pois amor 6 sofrimento?

-Amor é sofrimento, quando a gente não sabe se a paixão é aceita, quando se não vê quem se adora; amor é céu, quando se está como eu agora estou,

-E quando a gente está longe, perguntou ela, que se sente?... -Sente-se uma dor, cá dentro, que parece que se vai morrer.. Tudo causa desgosto: só se pensa na pessoa a quem se quer, a todas as horas do dia e da noite no sono, na reza, quando se pede a Nossa Senhora, sempre ela, ela, ela!... o bem amado... e...

-Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, então eu amo... -Você? indagou Cirino sofregamente.

-Se é como... mecê diz...

-É é... eu lhe juro!...

-Então... eu amo, confirmou Inocência.

-E a quem?... Diga: a quem?
Houve uma pausa, e a custo retrucou ela ladeando a questão:
-A quem me ama.

-Ah! exclamou o jovem, então 6 a mim... é a mim, com certeza, porque ninguém neste mundo, ninguém, ouviu? é capaz de amá-la como eu... Nem seu pai... nem sua mãe, se viva fosse... Deixe falar seu coração... Se quer ver-me fora deste mundo... diga que não sou eu, diga!...

-E como ia mecê morrer? atalhou ela com receio.

-Não falta pau para me enforcar, nem água para me afogar.

-Deus nos livre! não fale nisso... Mas, por que 6 que mecê gosta tanto de mim? Mecê não é meu parente, nem primo, longe que seja, nem conhecido sequer... Eu lhe vi apenas pouco tempo... e tanto se agradou de mim?

-E com você... não sucede o mesmo? perguntou Cirino.

-Comigo?

-Sim, com você... Por que 6 que está acordada a estas horas? Por que é que não pode dormir?... que a cama lhe parece um braseiro, como a mim também parece?... Por que pensa em alguém a todo o instante? Entretanto, esse alguém não 6 primo seu, longe que seja, nem conhecido sequer?...

-É verdade, confessou Inocência com doce candura.

Depois quis emendar a mão:

-Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?

-Inocência, implorou o moço, não queira negar, vejo que sou amado . . .

-Sempre amar! observou ela, mais para si do que para quem a ouvia. No ano que já passou e por ocasião da Sra. Sant'Ana, aqui vieram umas parentas minhas e caçoaram comigo, porque eu não as entendia: tanto assim que uma delas, a Nhã Tuca, me disse: "Deveras, mecê ainda não gostou de nenhum moço? E eu respondi: Não assunto o que mecês estão a prosear". Aquilo era certo, e tão verdade como estar nosso Deus no paraíso... Hoje...

-E hoje?

-Hoje? repetiu a moça. Quem sabe se não era bem melhor não ter nunca gostado de ninguém?

-Isso não está na gente. . . É ordem lá de cima. . .

-Enfim, se for destino, que se cumpra.

Conservava-se Inocência ainda um pouco arredada da janela, de modo que Cirino, para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do lado de dentro. Segurava as mãos da namorada e puxava-a com doce violência, quando mostrava querer afastar-se.

Era o ardente colóquio dos dois cortado de freqüentes pausas, durante as quais se embebiam recíprocos os olhares carregados de paixão.

-Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cirino a Inocência Para mim, é muito mais belo que a Lua e tem mais brilho que o Sol.

E, apesar de alguma resistência, fraca embora, mas conscienciosa, que lhe foi oposta, conseguiu que a formosa rapariga se recostasse ao peitoril da janela.

-Amar, observou ela, deve ser coisa bem feia.

-Por quê?

-Porque estou aqui e sinto tanto fogo no rosto!... Cá dentro me diz um palpite que é pecado mortal que faço...

-Você tão pura! contestou Cirino.

- Se alguém viesse agora e nos visse, eu morria de vergonha. Sr. Cirino, deixe-me . . . vá-se embora! . . . o Sr. me atirou algum quebranto... aquela sua mezinha tinha alguma erva para mim tomar... e me virar o juízo...

- Não, atalhou o mancebo com força, eu lhe juro! Pela alma de rainha mãe... o remédio não tinha nada!

-Então por que fiquei... ansim, que me não conheço mais?... Se papai aparecesse... não tinha o direito de me matar?...

Foi-se-lhe a voz tornando cada vez mais baixa e sumiu-se num golfão de lágrimas.

Atirou-se Cirino de joelhos diante dela.

-Inocência, exclamou, pela salvação de minha alma lhe dou juramento, nada de mau fiz para prender o seu coração.. Se você me quer, e porque Deus assim mandou... Sou um rapaz de bons costumes . Ate hoje nunca tinha amado mulher alguma... mas não sei como deixar de amar uma moça como você... Perdoe-me; se você sofre... eu também padeço muito... perdoe-me...

Alçara o mancebo um pouco a voz.

De repente Inocência estremeceu.

-Não ouviu ruido? perguntou ela com terror.

-Não, respondeu Cirino.

-Alguém acordou lá dentro...

-Pois... então vá ver... o que é... e se não for nada, volte... Aqui a espero, escondido à sombra da parede...

Minutos depois, reapareceu a moça.

-Não vi nada, disse.

- Então foi abusão.

-É melhor que o Sr. se vá embora.

-Não, Inocência tenha pena de mim... Eu não poderei vê-la tão cedo e... preciso conversar... mesmo para arranjo da nossa vida. . O Manecão não tarda...

-Ah! exclamou ela com sobressalto, então mecê sabe...

-Sei; e desgraçadamente, breve está ele batendo aqui...

-Eu bem dizia que o Sr. me havéra de perder... Antes de o ter visto... casar com aquele homem, me agradava até... Era uma novidade... porque ele me disse que me levava para a vila... Mas agora esta idéia me mete horror! Por que 6 que mecê mexeu comigo? Sou uma pobre menina, que não tem mãe desde criancinha... Não há tanta moça nas cidades... nos povoados?... Por que veio tirar o sono... a vontade de viver a quem era .. tão alegre... que até hoje não pensou em maldade... e nunca fez dano a ninguém?

-E eu? replicou com energia Cirino, pensa então que sou feliz?... Olhe bem uma coisa Inocência: Digo-lhe isto diante de Deus: ou hei de casar com você... ou dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim... foi o meu caiporismo... Se eu tivesse passado aqui antes daquele homem, que odeio, que quisera matar... nada impediria que eu fosse hoje o ente mais feliz do mundo!... Mais feliz aqui neste sertão, do que o Imperador nos seus paços lá na corte do Rio de Janeiro! Eu já lhe disse... culpa não tive...

-Não há nada que nos possa salvar, atalhou a moça.

-Nada?... Talvez...
Soou nesse momento, e repentinamente, do lado do laranjal um assobio prolongado, agudíssimo, e uma pedra, arremessada por mão misteriosa e com muita força, sibilou nos ares e veio bater na parede com surda pancada, passando rente à cabeça de Cirino.

Deu Inocência abafado grito de terror e fechou rapidamente a janela, ao passo que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra, resoluto correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.

Não viu ninguém.

Por toda a parte, o ruído misterioso e peculiar a uma noite calma de verão.

Percorreu em todos os sentidos o pomar, e só ouviu a bulha dos seus passos.

Afinal, de cansado, deixou o sitio e cautelosamente se dirigiu para o terreiro da frente.

Quando lá chegou, parou atônito.

O mesmo assobio, prolongado e finíssimo, desta feita talvez mais estridente, feriu-lhe os ouvidos.

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Capítulo XVI à Capítulo XVIII
Capítulo XIX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Epílogo