IAIÁ GARCIA
Machado de Assis
Capítulo V
As primeiras
cartas de Jorge foram todas à mãe. Eram longas e derramadas,
entusiásticas, descuidosas e até pueris. Descontada
a escassa porção de realidade que podia haver nelas,
ficava um cálculo, que o coração de Valéria
compreendeu; era adoçar-lhe a ausência e dissipar-lhe
as apreensões.
Cedo se familiarizou Jorge com a vida militar. O exército,
acampado em Tuyuty, não iniciava operações
novas; tratava-se de reunir os elementos necessários para
prosseguir a campanha de modo seguro e decisivo. Não havendo
nenhuma ação grande, em que pudesse provar as forças
e amestrar-se, Jorge buscava as ocasiões de algum perigo,
as comissões arriscadas, cujo êxito dependesse de espírito
atrevido, sagacidade e paciência. Esse desejo captou-lhe a
simpatia dos chefes imediatos.
O coronel que o comandava atentou nele; sentiu-lhe a alma juvenil
através do olhar brando e repousado. Ao mesmo tempo observou
que, no meio dos gozos fáceis e múltiplos do acampamento,
convertido pela inação em povoado de recreio, Jorge
conservava um retraimento monacal, um casto horror de tudo o que
pudesse diverti-lo de curar das armas, ou somente de pensar nelas.
O coronel era homem de seu ofício; amava a guerra pela guerra;
morreu talvez de nostalgia no regaço da paz. Era bravo e
ríspido. O que lhe destoou a princípio na pessoa de
Jorge, foi o alinho e um resto de seus ademanes de sala. Jorge,
entretanto, sem perder desde logo o jeito da vida civil, foi criando
com o tempo a crosta de campanha. Seu desejo de trabalhar, de arriscar-se,
de temperar a alma ao fogo do perigo, trocou os sentimentos do coronel,
que entreviu nele um bom companheiro de armas, e ao fim de pouco
tempo procurou distingui-lo.
Posto que Jorge falasse do coronel nas cartas que escrevia à
mãe, não o dava como amigo seu, nem tinha amigos no
acampamento, ou se os tinha não os considerava tais. Ouvia
confidências de muitos, animava as esperanças de uns,
consolava as penas de outros, nunca abria porém a porta do
coração à curiosidade transeunte. Devia ser
entretanto interessante uma página somente da vida daquele
militar, jovem, bonito, abastado, que não ia ao teatro nem
aos saraus do acampamento, que ria poucas vezes e mal, que só
falava da guerra, quando falava de alguma cousa.
Um dia, um major do Ceará foi achá-lo sentado em um
resto de carreta inútil, lançado em sítio escuso,
ora a olhar para o horizonte, ora a traçar com a ponta da
espada uma estrela no chão.
- Capitão, disse o major, parece que você está
vendo estrelas ao meio-dia?
Jorge sorriu do gracejo, mas não deixou de continuar, nos
demais dias, a traçar estrelas no chão ou a procurá-las
nas campinas do céu. Os oficiais, arrastados pela simpatia,
não lhe ficavam presos pela convivência; Jorge era,
não só taciturno, mas desigual, ora dócil,
ora ríspido, muitas vezes distraído e absorto. Era
distraído, sobretudo, quando recebia cartas do Rio de Janeiro,
entre as quais rara vez acontecia que não viesse alguma do
Sr. Antunes. O pai de Estela regava com a água salobra de
seu estilo a esperança que não perdera. Suas cartas
eram epitalâmios disfarçados. Falava muito de si, e
muito mais da filha, cuja alma, dizia ele, andava singularmente
triste e acabrunhada. Jorge resistia ao desejo de falar também
de Estela: mais de uma vez o nome da moça lhe caía
dos bicos da pena; ele o riscava logo, assim como riscava qualquer
frase que pudesse parecer alusiva aos seus sentimentos; as que escrevia
ao pai da moça eram secas, sem especial interesse, polidas
e frias.
Um dia, porém, antes de meado o ano de 1867, seu coração
não pôde resistir à necessidade de segredar
o amor a alguém ou proclamá-lo aos quatro ventos do
céu. Ninguém havia ao pé dele que merecesse
a confidência; Jorge alargou os olhos e lembrou-se de Luís
Garcia, única pessoa estranha a quem confiara metade do segredo
que havia levado para a guerra. Os corações discretos
são raros; a maioria não é de gaviões
brancos, que, ainda feridos, voam calados, como diz a trova; a maioria
é das pegas, que contam tudo ou quase tudo.
Já nesse tempo o coração de Jorge padecera
grande transformação. Seu amor, sem minguar-lhe a
intensidade, mudara de natureza, convertendo-se em uma espécie
de adoração mística, sentimento profundo e
forte, que parecia respirar atmosfera mais alta que a do resto da
criação. Ele mesmo o disse na carta a Luís
Garcia, sem lhe denunciar o nome da pessoa, nem nenhuma circunstância
que pudesse pô-lo na pista da realidade; exigiu-lhe absoluto
silêncio e contou-lhe o que sentia:
"Não importa saber quem é, disse ele; - o essencial
é saber que amo a mais nobre criatura do mundo, e o triste
é que não somente não sou amado, mas até
estou certo de que sou aborrecido.
"Minha mãe iludiu-se quando supôs que meu amor
achara eco em outro coração. Talvez desistisse de
me mandar ao Paraguai, se soubesse que esta paixão solitária
era o meu próprio castigo. Era; já o não é.
A paixão veio comigo, apesar do que lhe ouvi na véspera
de embarcar; e se não cresceu, é porque não
podia crescer. Mas transformou-se. De criança tonta, que
era, fez-se homem de juízo. Uma crise, algumas léguas
de permeio, poucos meses de intervalo, foram bastantes a operar
o milagre.
"Não sei se a verei mais, porque uma bala pode pôr
termo a meus dias, quando eu menos o esperar. Se a vir, ignoro os
sentimentos com que ela me receberá. Mas de um ou de outro
modo, este amor morrerá comigo, e o seu nome será
a última palavra que há de sair de meus lábios.
"Meu amor não sabe já o que seja impaciência
ou ciúme ou exclusivismo: é uma fé religiosa,
que pode viver inteira em muitos corações. Talvez
o senhor me não compreenda. Os homens graves ficam surdos
a estas sutilezas do coração. Os frívolos não
as entendem. Eu mesmo não sei explicar o que sinto, mas sinto
alguma cousa nova, uma saudade sem esperança, mas também
sem desespero: é o que me basta."
Jorge releu o escrito, e ora o achava claro demais, ora obscuro.
Hesitou ainda algum tempo; enfim, dobrou a carta, fechou-a e remeteu-a
para o Rio de Janeiro.
Quando a resposta lhe chegou às mãos, preparava-se
o exército para deixar Tuyuty. Jorge estava todo entregue
aos cuidados da guerra, a sonhar batalhas, a acutilar mentalmente
os soldados de Lopez. A resposta de Luís Garcia dizia pouco
ou nada do objeto da carta de Jorge; compunha-se quase toda de conselhos
e reflexões, dadas em linguagem sóbria e medida, reflexões
e conselhos relativos quase exclusivamente aos deveres de homem
e de soldado.
Jorge esperava aquilo mesmo; conhecia, ainda que pouco, o gênio
seco e gélido de Luís Garcia. Contudo, ficou momentaneamente
desapontado e triste. Seria certo que nenhum coração
simpatizava com seus secretos infortúnios ou suas venturas
solitárias? Ao cabo de largos meses de separação,
nem Estela pensaria nele, nem ele achava pessoa com quem partisse
o pão das saudades, último alimento de um amor sem
cônjuge. A consciência da solidão moral abateu-o
um instante; esvaiu-se-lhe toda a força acumulada durante
aqueles meses, e a alma caiu de bruços.
Poucos dias depois operou-se a marcha de Tuyuty a Tuyu-Cué,
a que se seguiu uma série de ações e movimentos,
em que houve muita página de Plutarco. Só então
pôde Jorge encarar o verdadeiro rosto à guerra, a cujo
princípio não assistira; figurou em mais de uma jornada
heróica, correu perigos, mostrou-se valoroso e paciente.
O coronel adorava-o; sentia-se tomado de admiração
diante daquele mancebo, que combatia durante a batalha e calava
depois da vitória, que comunicava o ardor aos soldados, não
recuava de nenhuma empresa, ainda a mais arriscada, e a quem uma
estrela parecia proteger com suas asas de luz.
Notou ele uma vez, em um dos combates mortíferos de dezembro
de 1868, ano e meio depois da carta de Luís Garcia, que a
temeridade do mancebo parecia ir além dos limites do costume,
e que em vez de um homem que combatia, era ele um homem que queria
morrer. A fortuna salvou-o. Findo o combate, recolhidos os feridos,
repousados os corpos, o coronel foi ter com ele na barraca, e achou-o
tristemente quieto, com os olhos inchados e parados. O coronel não
reparou nisso; entrou a felicitá-lo pelo comportamento que
tivera, ainda que um pouco excessivo. Jorge tinha-se respeitosamente
erguido e olhava para o coronel sem dizer palavra. Este encarou-o
e viu-lhe sinais de abatimento.
- Que diabo tem você, capitão?
- Nada, respondeu o moço.
- Recebeu ontem cartas do Rio de Janeiro?
- Uma: de minha mãe.
- Está boa?
- De perfeita saúde.
- Nesse caso...
O coronel parou e refletiu; depois continuou:
- Já sei o que é.
- O que é? exclamou Jorge procurando sorrir.
- Há de fazer-se, continuou o coronel; a cousa está
a caminho, há de fazer-se, não lhe digo mais nada.
E bateu-lhe no ombro, com um gesto que tanto podia dizer: "sossegue,
capitão", como: "parabéns, senhor major".
Jorge entendeu esse trocadilho gesticular, e apertou as mãos
do coronel, agradecendo-lhe, não o posto que lhe anunciava,
mas a afeição que lhe tinha. O coronel encarou-o paternalmente
alguns minutos.
- Subir! Não sonham com outra cousa, rosnava ele consigo.
E saiu.
Jorge ficou só, acendeu um cigarro, que não pôde
fumar até o fim. Depois sentou-se, desabotoou a farda, tirou
uma carta, abriu-a e releu algumas linhas do fim. A carta era de
Luís Garcia. Dava-lhe notícias de sua mãe,
que, por motivos de doença, fora tomar águas a Minas,
e rematava com estas palavras assombrosas:
"... Resta-me dizer-lhe, se em alguma cousa lhe pode interessar
minha vida, que sábado passado contraí segundas núpcias.
Minha mulher é a filha do Sr. Antunes. Sua mãe serviu-nos
de madrinha."
Com os olhos fitos nessas poucas linhas, Jorge parecia alheio a
tudo mais. O papel, recebido na véspera, estava amarrotado,
como se lhe passara pelas mãos durante um ano. Olhava, relia
e não podia entender; quando chegava a entender, não
podia acreditar. O casamento de Estela era a seu ver um absurdo;
mas após os intervalos de dúvida, a realidade apossava-se
dele. A razão mostrava-lhe que semelhante notícia
devia ser certa. No fim de dous dias, tinha ele compreendido alguma
cousa do silêncio de sua mãe: o motivo era, sem dúvida,
o mesmo que a impelira a mandá-lo ao Paraguai. Nunca lhe
falara de Estela, nem do casamento de Luís Garcia, silêncio
calculado para de todo extinguir em seu coração os
derradeiros murmúrios de um amor sem eco.
Jorge sentiu então um fenômeno próprio de tais
crises, - um movimento de ódio a todo o gênero humano,
desde sua mãe até o seu inimigo. Tornou-se descortês,
violento, deliberadamente mau: efeito transitório, ao qual
sucedeu um abatimento profundo. Ferido daí a dias em Lomas
Valentinas, retirou-se por alguns meses do exército, cujas
operações só continuaram depois de meado do
ano seguinte. Jorge teve parte nas jornadas de Pirebebuy e Campo
Grande, não já na qualidade de capitão, mas
na de major, cuja patente lhe foi concedida depois de Lomas Valentinas.
No fim do ano estava tenente-coronel, comandava um batalhão,
e recebia os abraços de seu antigo comandante, contente de
o ver sagrado herói.
Um acontecimento inesperado e desastroso veio ainda golpeá-lo
cruelmente, logo depois de março de 1870, quando, acabada
a guerra, estava ele em Assunção. Valéria falecera.
Luís Garcia lhe deu essa triste notícia, que ele antes
adivinhou do que leu, porque as últimas cartas já
lhe faziam pressentir o lúgubre desenlace. Jorge adorava
a mãe. Se só a contragosto viera para a guerra, não
é menos certo que esta o cobrira de louros, e que ele os
quisera depositar no regaço de Valéria. O destino
decidiu por outro modo, como se quisesse contrastar cada um de seus
favores fazendo-lhe sangrar o coração.
No fim de outubro volveu ao Rio de Janeiro. Tinham passado quatro
anos justos. Penetrando a barra e descortinando a cidade natal,
Jorge comparava os tempos, as angústias e as esperanças
da partida com a glória e o abatimento do regresso. Não
se sentia feliz nem infeliz, mas nesse estado médio, que
é a condição vulgar da vida humana. Comparava-se
ao mar daquela manhã, nem borrascoso nem quieto, mas levemente
empolado e crespo, tão prestes a adormecer de todo, como
a crescer e arremessar-se à praia. Que aragem sonolenta ou
que tufão destruidor, viria roçar por ele a asa invisível?
Jorge não o perscrutou. Trazia os olhos no passado e no presente,
deixou ao tempo os casos de futuro.
Capítulo
VI
Antes de irmos
direito ao centro da ação, vejamos por que evolução
do destino se operou o casamento de Estela.
Poucos poderiam supor, nos fins de 1866, que a campanha se protrairia
ainda cerca de quatro anos. O cálculo do general Mitre, relativo
aos três meses de Buenos Aires a Assunção, tinha
já caído, é certo, no abismo das ilusões
históricas. Proclamações são loterias;
a fortuna as faz sublimes ou vãs. A do general argentino,
que era já uma afirmação errada, exprimiu contudo,
no seu tempo, a convicção dos três povos. Do
primeiro embate com o inimigo, viu-se que a campanha seria rija
e longa; a ilusão desfez-se; ficou a realidade, que nem por
isso encaramos com rosto aflito. Não obstante, era difícil
presumir, em outubro de 1866, que a guerra chegasse até março
de 1870. Supunha-se que um esforço ingente bastaria a reparar
Curupaity, a derrubar Humaitá, a vencer o ditador, não
nos três meses do general Mitre, mas em muito menos tempo
do que viria a ser na realidade.
Isto posto, não admira que Valéria receasse a cada
instante a terminação da guerra e a pronta volta do
filho. Se tal cousa acontecesse, ela teria dado um golpe inútil,
e o fogo podia renascer das cinzas mal apagadas. Valéria
preferia as soluções radicais. Uma vez arredado o
filho, viu a necessidade de aniquilar as últimas esperanças,
e o mais seguro meio era casar Estela. Assim procedendo, satisfaria
também a afeição que tinha à moça,
afeição que nunca lhe diminuíra. Sabia que
entre Estela e o pai havia contrastes morais de difícil conciliação.
Cada um deles falava língua diferente, não podiam
entender-se nunca, sobretudo (dizia ela consigo), na escolha de
um consorte.
Dous meses depois do embarque de Jorge, Valéria mandou chamar
o Sr. Antunes a Santa Teresa, onde tinha uma casa de verão.
O recado foi escrito, circunstância que lhe deu certa solenidade.
Nunca até então a viúva lhe escrevera. O Sr.
Antunes leu e releu o bilhete, mostrou-o duas ou três vezes
à filha, esteve tentado de mostrá-lo ao vizinho fronteiro.
Enquanto se vestia, pô-lo sobre a mesa, lançando-lhe
a furto os olhos, pesando-lhe de cor as expressões corteses,
espremendo-as, dissecando-as. Vestido, guardou-o cuidadosamente
na algibeira. Na rua, separou-se de um importuno dizendo enfaticamente
aonde ia. Quanto ao motivo do recado, não atinava qual fosse,
nem teve muito tempo para isso. Cogitou, entretanto, e supôs
que se tratava de algum obséquio que ela lhe ia encomendar.
Era obséquio, e não lho pedia a viúva; prestava-o,
e não se demorou muito em dizê-lo. Ao cabo de dez palavras,
pediu-lhe licença para dotar Estela.
- Não quisera fazê-lo, sem o seu consentimento, concluiu
ela; por isso o mandei chamar.
Do mais ínfimo a que um homem haja baixado, a natureza pode
fazê-lo sublime, ainda que por um só minuto. Esse minuto
teve-o o pai de Estela. Imóvel e sem fala a princípio;
depois, ainda sem fala, mas não já imóvel,
o Sr. Antunes revelou em seu rosto, aliás vulgar, uma comoção
grave e digna. A dignidade, porém, expirou com o silêncio.
Quando ele abriu a boca para agradecer a prova de afeição
que a viúva lhe dava à filha, a alma readquiriu o
trejeito habitual. Valéria cortou-lhe o discurso com uma
arte tão superior, que o pai de Estela antes sentiu do que
compreendeu. A viúva tinha a verdadeira generosidade, que
consiste menos em prestar o obséquio do que em dissimulá-lo;
disse-lhe que, dotando Estela, cumpria um desejo do desembargador,
e sem esperar pelo necrológio que o Sr. Antunes provavelmente
ia recitar, fez um longo e afetuoso inventário das qualidades
da moça.
- É muito boa filha, concluiu a viúva; tem qualidade
digna de todo o apreço, e, além do mais, sou amiga
dela.
- Isso, minha senhora, é a maior fortuna que lhe podia caber.
Quanto a ser boa filha, não é por vaidade que o digo,
mas creio que a senhora tem razão. Saiu à mãe,
que era uma santa alma.
- Estela não o é menos. E bonita! Enfim pode vir amar
alguém, não lhe parece?
- Pode, pode, assentiu o Sr. Antunes. Que eu, verdadeiramente, não
sei se ela já não amará. É tão
calada! Ultimamente parece andar triste...
- Triste?
- Distraída... assim, como pessoa que não tem o pensamento
sossegado. Não sei se aquilo é paixão, ou doença.
Doença não creio que seja, porque ela é forte
e tem boa aparência. Coitadinha! Mas sempre alegre... isto
é, alegre não... quero dizer, não anda sempre
triste... ou por outra...
Valéria sorriu mentalmente daquela confusão que o
Sr. Antunes fazia, e que atribuiu ao alvoroço que naturalmente
a notícia do dote lhe causara; interrompendo-o dizendo que
fosse lá com a filha.
Estela ouviu daí a meia hora a notícia da generosidade
da viúva, que o pai se apressou a ir dar-lhe, e, contra a
expectação deste, ouviu-a calada e severa. Não
achando a explosão de alegria que esperava, o Sr. Antunes
abanou desanimado a cabeça.
- Não te entendo, filha! replicou ele. Hás de dizer
o que é que queres ser neste mundo. Não és
rica, nem menos que rica; não tens a menor esperança
no futuro. Eu não te posso deixar nada, porque nada tenho.
Há uma senhora, que te estima, que te faz um benefício,
e tu recebes isto como se fosse uma injúria.
A observação do pai chamou a filha à realidade
da situação.
- Papai sabe que não sou de muito riso, disse ela; pode ficar
certo de que me alegrou muito a notícia que me deu.
Não alegrou nada. Nunca lhe pesara tanto a fatalidade da
posição. Depois do episódio da Tijuca, parecia-lhe
aquele favor uma espécie de perdas e danos que a mãe
de Jorge liberalmente lhe pagava, uma água virtuosa que lhe
lavaria os lábios dos beijos que ela forcejava por extinguir,
como lady Macbeth a sua mancha de sangue. Out, damned spot! Este
era o seu conceito; esta era também a sua mágoa. A
altivez com que procedera desde aquela manhã de algum modo
lhe levantara o orgulho, que o ato inconsiderado de Jorge havia
por um instante humilhado. Mas a ação da viúva,
por mais espontânea que fosse, tinha aos olhos da moça
a conseqüência de fazer decorrer o benefício da
mesma origem da afronta. Estela não distinguia entre os bens
da mãe e do filho. Era tudo a mesma bolsa; e dali é
que lhe vinha o dote.
Com essa idéia opressiva entrou ela em casa da viúva,
cuja recepção lhe desabafou o espírito do mais
espesso de suas preocupações. Valéria beijou-a,
com um gesto mais maternal que protetor. Nem lhe deixou concluir
a frase de agradecimento; cortou-a com uma carícia; depois
falou-lhe da beleza, das ocupações, de cem cousas
alheias ao objeto que as reunia, dissimulação generosa,
que Estela compreendeu, porque também possuía o segredo
dessas delicadezas morais.
Quinze ou vinte dias depois, Valéria interrogou diretamente
Estela, e a resposta que obteve foi contrária a suas esperanças.
- Não amo ninguém, disse a moça; e provavelmente
não amarei nunca.
- Por quê? replicou vivamente a viúva.
Estela sorriu.
- Podia dizer-lhe, respondeu ela, que não tenho coração...
- Seria mentir. Mas vais talvez dizer que um bom marido não
é cousa fácil de achar.
- Isso.
- Tens razão até certo ponto. De todas as aves raras
a mais rara é um bom marido; mas o que é raro não
é impossível. Meteu-se-me em cabeça que hei
de descobrir uma jóia. Se eu a encontrar, que farás
tu?
- Aceito, disse a moça depois de um instante.
- Assim, não; não quero que a aceites sem vontade;
hás-de aceitá-la com amor... porque eu não
creio que não tenhas coração; é faceirice
de moça bonita. Deixa ver, - continuou a viúva colocando-lhe
a mão no peito; - tens, oh! tens um coração
que parece querer despedaçar-te o peito. Estela, tu estás
doente!
- Que idéia! exclamou a moça rindo. Se eu vendo saúde!
Não estou doente, estou comovida. Tratemos do noivo. Não
me peça que o ame apaixonadamente, porque eu não nasci
para isso. Minha natureza é fria. Mas um pouco de estima,
certo interesse...
- Justo: a semente do amor. O tempo se encarregará de fazer
a árvore.
Durante três meses não falaram do assunto. No fim desse
tempo, - tendo Valéria descido de Santa Teresa, Estela foi
passar algumas semanas na Rua dos Inválidos. - Ainda nada?
perguntou a viúva logo que a viu. - Cousa nenhuma, foi a
resposta. Dada a situação de uma e outra, não
era fácil a Valéria encontrar-lhe o noivo desejado
a menos de o designar a própria noiva, e essa era a mais
improvável de todas as hipóteses.
Entretanto, a convivência fez renascer entre ambas alguns
dos hábitos antigos. Valéria tornou a sentir a necessidade
de a ter consigo, de a conversar, de depositar nela suas idéias
e enxaquecas. Estela oferecia todas as vantagens de uma velha amiga,
com a circunstância de ser moça, e ainda mais, a de
ser bonita, qualidade simpática à viúva, que
fora uma das belas mulheres de seu tempo. Nada lhes impedia restaurar
inteiramente a situação anterior, a não ser
a memória do passado recente. Era isso que ainda estabelecia
entre ambas tal ou qual cautela, tal ou qual separação,
que o Sr. Antunes chegava a suspeitar às vezes, sem poder
compreender nunca. Não falavam de Jorge, nem da guerra, nem
de cousa que pudesse reviver a lembrança do passado.
Começado o verão de 1867, Valéria transportou-se
a Santa Teresa, onde Estela foi algumas vezes. Numa dessas vezes
encontrou ali a filha de Luís Garcia, que caminhava para
os treze anos, e concluía os estudos de colégio. Houve
um instante de hesitação entre as duas; Iaiá,
que era ainda a mesma criatura travessa e lépida, sentiu-se
acanhada diante da gravidade de Estela, mas esse instante foi curto
e a afeição imediata. Acabado o verão, a viúva
resolveu não descer à Rua dos Inválidos; e,
com o pretexto ou motivo de que em Santa Teresa ficava mais só,
alcançou que Estela fosse lá estar algum tempo. Estela
subiu em março.
Já então Iaiá entrara na intimidade da casa,
menos ainda pelo que podia haver, e - havia, - simpático
e atraente em sua pessoa, do que pelo esforço próprio.
A sagacidade da menina era a sua qualidade mestra, e graças
aos dous olhos que Deus lhe deu, foi que ela viu depressa o que
era menos agradável, para evitá-lo, e o que era mais,
para cumpri-lo. Essa qualidade ensinava-lhe a sintaxe da vida, quando
outras ainda não passam do abecedário, onde morrem
muita vez. Obtida a chave do caráter de Valéria, Iaiá
abriu a porta sem grande esforço.
Ia lá quase todos os domingos, às tardes, e algumas
vezes de manhã, com tal ou qual repugnância do pai,
para quem os domingos eram os dias de ouro, e só o eram com
a condição de exclusivismo. Luís Garcia cedeu,
não por causa da viúva, mas para satisfazer a filha,
que parecia ter prazer em freqüentar a casa. - É ainda
criança, pensou ele; convém dar-lhe festas. Quando
Iaiá jantava em casa de Valéria, Luís Garcia,
ou também jantava, ou ia buscá-la à noite,
e trazia-a depois de uma hora de conversa. A presença de
Estela tornou ainda mais aprazíveis à mocinha aquelas
visitas, e dentro de pouco tempo, era a afeição de
Estela que mais lhe ocupava o coração. A lei dos contrastes
tinha ligado essas duas criaturas, porque tão petulante e
juvenil era a filha de Luís Garcia, como refletida e plácida
a filha do Sr. Antunes. Uma ia para o futuro, enquanto a outra vinha
já do passado; e se Estela tinha necessidade de temperar
a sua atmosfera moral com um raio da adolescência da outra,
Iaiá sentia instintivamente que havia em Estela alguma cousa
que sarar ou consolar.
Um dia, Iaiá foi encontrar Estela ao pé de uma mesa,
com um álbum de retratos aberto diante de si. A moça
estava tão embebida, que só deu pela presença
de Iaiá, quando esta parou do outro lado da mesa, e inclinou
os olhos para o álbum. Estela teve um pequeno sobressalto,
mas dominou-se logo.
- Seu pai tem uma fisionomia de bom coração, disse
ela.
- Não é verdade? retorquiu a menina com entusiasmo.
Efetivamente, uma das páginas do álbum continha o
retrato de Luís Garcia; mas na outra página estava
o retrato de Jorge, um dos três ou quatro que a viúva
possuía na coleção. Iaiá, que adorava
o pai, achou que a observação de Estela era a mais
natural do mundo, e não olhou sequer para a outra fotografia.
Estela fechou depressa o álbum com a mão trêmula,
e mal pôde sorrir à insistência com que Iaiá
voltou àquele assunto. Tinha o seio ofegante e o olhar vago,
remoto, esvaído nas campanhas do Sul. O coração
batia-lhe violentamente. Mas essa comoção não
durou mais de três a quatro minutos.
- A senhora podia casar-se com papai, disse a menina depois de olhar
algum tempo para a outra.
Estela teve novo sobressalto, mas dessa vez era só espanto.
Como Iaiá a abraçasse pela cintura, ela inclinou o
rosto sobre o rosto da menina, e perguntou sorrindo:
- Tinhas muita vontade de ser minha enteada?
- Tinha.
Estela abanou a cabeça, com um gesto, não de negativa,
mas de incredulidade. Já conhecia alguma cousa do caráter
de Luís Garcia; rigorosamente era um esposo aceitável.
Via nele um homem de afeições plácidas, medíocres,
mas sinceras. Via-o respeitoso sem abatimento, polido sem afetação,
falando pouco, mas com alguma idéia, em todo o caso com muita
oportunidade, vivendo enfim para si e para a filha. De tudo o que
observara concluía que a sobriedade era a lei moral desse
homem, e que à taça da vida não pedia mais
do que alguns goles, poucos. Que importa? A vida conjugal é
tão-somente uma crônica; basta-lhe fidelidade e algum
estilo. Conquanto houvesse algumas semelhanças entre ambos,
havia também diferenças, mas Estela podia fiar do
tempo, que ajusta os contrastes. E, não obstante, se o marido
era aceitável, não lhe parecia que fosse possível.
A gravidade exterior como que o rodeava de uma atmosfera impenetrável.
Iaiá não insistiu; mas dous ou três domingos
depois, estando todos na chácara, interrompeu a conversa
geral para perguntar a Estela se deveras lhe tinha afeição.
- Já disse que sim, acudiu Estela.
- Mas gosta muito de mim?
- Muito, repetiu Estela prolongando a primeira sílaba.
- Por que não vem morar comigo?
Riram-se os outros; Estela beijou-a na testa. Ficando sós,
a viúva e Estela jogaram uma partida de cartas, mas jogaram
sem atenção; depois tomaram chá, mas sem apetite;
finalmente dormiram, mas sem sono. Talvez a mesma idéia as
preocupava. No dia seguinte, Estela perguntou sorrindo à
viúva:
- Se eu disser que já achei um projeto de marido?
- Quem?
- O Luís Garcia.
Valéria apertou-lhe as mãos.
- Excelente homem, disse ela; marido digno e capaz. Conheço-o
há muitos anos; nunca desmereceu da nossa estima. E... amam-se?
- Isso agora é mais complicado, replicou Estela; não
posso dizer que o amo; contudo, desejaria ser sua mulher. Talvez
ele não deseje ser meu marido, mas é por isso mesmo
que a consulto e lhe peço que me diga, uma vez que aprova
a escolha, se posso esperar reciprocidade e se devo...
- Não deves fazer nada; incumbo-me de tudo.
Valéria não ocultou seu contentamento. Não
lhe tinha ocorrido nunca a idéia de os casar; Iaiá
fê-la nascer, Estela abriu-a em flor; só faltava o
fruto, e era justamente a parte difícil, porque a índole
de Luís Garcia afigurava-se-lhe inteiramente avessa ao desejo
de contrair segundas núpcias. Mas Valéria não
desanimou. Não se pode dizer que ele seja o ideal de todas
as noivas, pensava ela; não tem a expansão nem o verdor
da primeira idade; mas deve ser um excelente marido. Luís
Garcia tinha agora melhor posição. Obtivera uma promoção
de emprego, e mediante isso, e alguns trabalhos extraordinários
que lhe eram confiados, pôde ficar inteiramente acoberto das
intempéries da vida. Estabelecera o futuro da filha e restaurara
as alfaias da casa, não por si, mas com a intenção
de ser mais agradável a Iaiá.
Estela, entretanto, impunha uma condição.
- Não desejo parecer que me ofereço, disse ela; seria
desairoso para um e para outro, e não seria a realidade.
- Que te ofereces, não; mas quem me pode impedir de ter adivinhado
que o amas? disse a viúva maliciosamente.
- Ou que o aprecio, emendou Estela. Para um bom casamento não
é preciso mais.
Luís Garcia não ficou pouco admirado quando Valéria
daí a dias lhe perguntou se não tinha vontade de passar
a segundas núpcias. Sorriu e ergueu os ombros; mas, insistindo
a viúva, respondeu que a idéia de casar era já
serôdia para ele.
- Não diga isso, tornou Valéria. Iaiá está
quase moça, vai deixar o colégio. O senhor vive só,
e tendo de dar companhia à sua filha, é melhor que
lhe dê uma madrasta.
Luís Garcia abanou resolutamente a cabeça.
- Não tenho vocação para o casamento, disse
ele depois de uma pausa; minha verdadeira vocação
é o celibato.
- Foi por isso que enviuvou?
- Casei-me uma vez, é verdade, mas não foi por amor;
além de que, era rapaz.
- Quando teimo em alguma cousa, é difícil que não
vença, disse a viúva depois de alguns instantes. Há
duas pessoas de quem gosto muito, ela e o senhor, ambas dignas uma
da outra; e eu entendi que as devia casar, e hei de casá-las.
Por que está a sorrir com esse ar incrédulo?
Como Luís Garcia não respondesse e continuasse a sorrir,
Valéria ergueu-se e foi até a varanda; donde se olhava
para a chácara; depois voltou-se para dentro:
- Ande ver sua noiva, disse ela.
Luís Garcia foi até a varanda; a viúva apontou-lhe
para o grupo de Estela e Iaiá.
Na chácara havia um canteiro circular, plantado de grama,
no centro do qual jorrava a água de um repuxo. A bacia deste
era orlada de plantas, cujas folhas largas, rajadas umas de escarlate,
outras de branco, interrompiam a monotonia da relva. Dessas folhas
colhera Estela algumas, entretecera os talos formando uma capela,
a pedido de Iaiá. Quando Luís Garcia chegou à
janela, a moça concluía o difícil trabalho.
Uma vez pronto, Iaiá que olhava para ela, infantilmente ansiosa,
inclinou a cabeça, e Estela cingiu-a com a grinalda rústica;
depois recuou alguns passos, aproximou-se outra vez, concertou-a
melhor. As folhas caíam-lhe sobre os ombros irregularmente,
ou erguiam-se sobre a cabeça, e o todo daria idéia
de uma náiade casquilha. Estela mirou-a alguns instantes;
inclinou-se para ela e beijou-a repetidas vezes. Iaiá quis
pagar-lhe o trabalho e a carícia devolvendo-lhe a grinalda,
e colocando-lha ela mesma na cabeça. Estela recusou, mas
como a menina insistisse, batendo impacientemente o pé, cedeu
ao desejo infantil. Inclinou-se; Iaiá, que trepara a um banco,
cingiu-lhe a cabeça, como a outra lhe fizera, e, satisfeito
o seu capricho, saltou do banco ao chão.
Nesse momento, como Valéria falava a Luís Garcia,
não viram estes dous que a menina, saltando precipitadamente
e mal, caíra na areia; só deram pelo desastre ouvindo
um pequeno grito angustioso de Estela. A moça correra à
menina para a fazer levantar. A queda fora pequena; Iaiá
procurava sorrir, mas um seixo que havia no chão, e sobre
o qual caíra o rosto, fizera-lhe uma leve escoriação
na face.
- Não foi nada, dizia ela.
- Nada! Você feriu-se... Ora, isto! Papai que há de
dizer... Anda cá.
Estela levou a menina pela mão até o repuxo; molhou
o lenço na água; lavou-lhe o sangue da face, inclinada
sobre ela, que sorria voluntariamente. Nesse momento, Luís
Garcia, que havia descido logo, chegou ao grupo das duas.
- Não foi nada, papai, disse Iaiá lendo no rosto do
pai o motivo que o trouxera; fui pular do banco e caí. Foi
bem feito; é para eu não ser travessa.
Luís Garcia estendera a mão direita sobre a cabeça
da filha e examinava-lhe a escoriação, que era pouco
mais de nada. Tranqüilizou-se e repreendeu-a levemente. Estela,
que interrompera a operação, concluiu-a dizendo que
o caso era de pouca monta, mas podia ter sido mais grave. Luís
Garcia agradeceu-lhe o cuidado e o obséquio.
- Demais, a culpada fui eu, disse Estela, e sem desculpa, porque
não sou criança. Vamos? continuou ela pegando na mão
da menina.
- Então? perguntou a viúva a Luís Garcia logo
que este voltou a ter com ela.
- Não falemos nisso, ou faça-me um milagre, disse
ele secamente.
Não obstante a comoção que lhe ficou do procedimento
afetuoso de Estela, em relação a Iaiá, Luís
Garcia riu no dia seguinte, ao lembrar-lhe a proposta de casamento.
Quando lá voltou, não ouviu falar mais em semelhante
assunto, nem Estela lhe deu a entender a menor pretensão.
Pareceu-lhe que Valéria consultara apenas o seu desejo particular.
Tratando a moça de perto, Luís Garcia havia já
observado duas cousas: primeiro, o resguardo com que ela procedia,
sem ostentar a intimidade de Valéria, nem cair nos ademanes
da servilidade; depois um ar de tristeza, que era a sua feição
habitual. Concluiu que Estela devia padecer ou ter padecido alguma
vez. Apreciou, além disso, algumas de suas qualidades morais.
Supô-las verdadeiras, mas supô-las também caducas,
como as graças do rosto ou como a flor do campo; com a diferença,
dizia ele, - que há um prazo fatal para que as graças
percam o primitivo frescor, e a flor expire o seu último
cheiro, - ao passo que a natureza social tem a decrepitude precoce,
e um princípio de corrupção, que destrói
em breve termo todas as florescências do primeiro sol.
Estela não desistira da idéia e cogitava um meio de
chegar à execução, não obstante a confiança
da viúva, que lhe dizia: - Descansa; a rede está lançada.
Era justamente essa idéia de rede, que repugnava ao espírito
direto e simples de Estela. Entretanto, cada dia que passava vinha
confirmar a eleição da moça.
O resto foi obra de Iaiá, obra dividida em duas partes, uma
voluntária, outra inconsciente. Voluntária, porque
também a menina, no silêncio laborioso de seu cérebro,
construíra o projeto de os unir, e o dissera mais de uma
vez a um e a outro. Inconsciente, porque o amor que a ligava a Estela,
foi a mais poderosa força que modificou o pai. Era uma afeição
intensa a dessas duas criaturas; ao passo que Iaiá dava a
Estela uma porção de ternura de filha, Estela achava
no amor da menina uma antecipação dos prazeres da
maternidade. Luís Garcia testemunhou esse movimento recíproco
e, por assim dizer, fatal. Se Iaiá devesse ter madrasta,
onde a acharia mais completa? Discreta, moderada, superior a seus
anos, Estela tinha as condições necessárias
para esse delicado papel. A primeira insinuação da
viúva foi a causa primordial; mas o tempo, a convivência,
a afeição das duas, a necessidade de dar segunda mãe
à menina, e antes legítima que mercenária,
finalmente, a certeza de que a Estela não repugnava a solução,
tais foram os primeiros elementos da decisão de Luís
Garcia.
Faltava só o milagre, e o milagre veio. Iaiá adoeceu
um dia em casa de Valéria, e a doença, posto que não
grave nem longa, deu ocasião a que Estela manifestasse de
modo inequívoco toda a ternura de seu coração.
Luís Garcia foi testemunha da dedicação silenciosa
e contínua com que Estela tratou da doente. Esse último
espetáculo desarmou-o de todo. Entre eles, o casamento não
era a mesma cousa que costuma ser para outros; nada tinha das alegrias
inefáveis ou das ilusões juvenis. Era um ato simples
e grave. E foi o que Estela lhe disse a ele, no dia em que trocaram
reciprocamente as primeiras promessas.
- Creio que nenhuma paixão nos cega, e se nos casamos é
por nos julgarmos friamente dignos um do outro.
- Uma paixão de sua parte, em relação à
minha pessoa, seria inverossímil, confessou Luís Garcia;
não lha atribuo. Pelo que me toca, era igualmente inverossímil
um sentimento dessa natureza, não porque a senhora o não
pudesse inspirar, mas porque eu já o não poderia ter.
- Tanto melhor, concluiu Estela; estamos na mesma situação
e vamos começar uma viagem com os olhos abertos e o coração
tranqüilo. Parece que em geral os casamentos começam
pelo amor e acabam pela estima; nós começamos pela
estima; é muito mais seguro.
O casamento foi aprovado pelo Sr. Antunes, com a mesma alma com
que um réu sancionaria a própria execução.
Não somente se lhe iam embora esperanças muito menos
modestas, como lhe repugnava o caráter do genro. Não
cedeu sem hesitação e luta; hesitação
perante a viúva, luta em relação à filha;
mas cedeu, porque ele nascera para não resistir. Hábil,
no entanto, em espremer algum lucro dos males inevitáveis,
uma vez perdida a confiança na eficácia da recusa,
aceitou o acordo, não somente com aparência cordial,
mas ainda entusiasta.
- O dote faz-lhe foscas, gemia ele filosoficamente.
A viúva serviu de madrinha a Estela. Sua alegria era sincera,
e tanto ou quanto desinteressada. Quase se não lembrava já
do perigo que, dous anos antes, lhe atordoara o espírito.
As cartas de Jorge eram tão livres de qualquer opressão,
tão exclusivamente militares! Além disso, a consciência
ficava satisfeita de um desenlace que, de certo modo, compensava
a perda, se alguma perda havia causado a Estela. Finalmente, a satisfação
com que a viu aceitar casamento, aliás sugerido por ela própria,
e a felicidade de que foi testemunha durante os primeiros tempos,
deram-lhe a convicção de que a moça estava
já inteiramente isenta, em relação ao filho.
Não obstante a paixão deste, tinha fé que o
tempo fizera a sua obra.
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