IAIÁ GARCIA
Machado de Assis
Capítulo XVI
Nem sempre a
morte é um desfecho; a de Luís Garcia foi uma complicação
mais.
Passados os primeiros dous meses, Jorge pensou em realizar o casamento,
sem aparato, como um simples ato de interesse doméstico,
aliás necessário pela situação em que
se achavam as duas mulheres. O Sr. Antunes fora morar com elas,
e era o chefe natural da família; mas Jorge não esquecera
que Luís Garcia nenhuma confiança tinha na pessoa
do sogro; demais, entregara diretamente a Jorge a chefia da casa.
Ora, cumpria legalizar e santificar a designação do
moribundo.
Mas, se isto lhe parecia claro e necessário, não se
atrevia ainda assim propô-lo à noiva; e por duas razões.
A primeira era o natural respeito à dor da filha, que ele
podia magoar ainda mais falando-lhe desde logo no casamento. Era
a segunda a frieza e o silêncio com que esta o tratava depois
da morte do pai. A diferença era positiva e inexplicável;
mas a boa fé explica tudo, e Jorge atribuiu essa nova feição
da moça ao profundo golpe que o desastre lhe desfechara.
Sabia da paixão filial de Iaiá; era testemunha dessa
adoração constante, que parecia contar com a eternidade
da vida.
A idéia de falar a Estela apenas lhe passou pela mente; rejeitou-a
sem esforço. Limitou-se a esperar, e ia ali com a assiduidade
que lhe permitia a condição de noivo. Ia às
noites, não todas; passava uma ou duas horas, a atar e desatar
uma conversação frouxa, muita vez sem interesse. Sobre
todos três, mas principalmente sobre as duas, pesava ainda
a lembrança do finado. O Sr. Antunes tomava parte nessas
conversações íntimas, e era ele quem forcejava
por lhes dar a perdida animação; temperava-a com algum
dito folgazão, ouvido com indiferença, quando não
com tédio. Posto que o casamento de Jorge com a enteada da
filha estivesse tratado, ele nutria a esperança de que alguma
cousa o viria desfazer, e nessa carta incerta jogava todo o futuro.
Um noite, Jorge propôs diretamente a Iaiá a necessidade
de apressar o casamento.
- Não sendo a cerimônia pública, disse ele,
não daremos que falar aos outros, se alguma cousa há
que falar...
- Quer a minha resposta hoje mesmo? interrompeu Iaiá.
- Podia ser hoje.
Estela, que estava presente, apoiou a reflexão de Jorge.
- Convém decidir quanto antes, disse ela; não vale
a pena deixar passar mais tempo sem utilidade.
- Sem utilidade, repetiu Iaiá olhando para o teto.
- Decerto...
Iaiá baixou os olhos aos dous; fitou-os a um e outro, longo
tempo, com severidade; depois, retorquiu em tom ríspido:
- Deixem-me ao menos o tempo de chorar meu pai!
Jorge proferiu algumas palavras de afeição; Estela
não protestou nem retorquiu; ergueu-se silenciosamente e
deixou-os. O silêncio foi longo. Jorge não tomara à
má parte a súplica da noiva; atribuiu-a ao sentimento
de piedade filial, que era nela mais forte que qualquer outro.
- Iaiá, disse ele, ninguém lhe nega o direito de chorar
seu pai; se insistimos é em benefício da família.
Seu pai recomendou-me que olhasse pelos seus, e eu quisera poder
fazê-lo, não como estranho, mas como parente; por isso
lembrei a conveniência de realizar o casamento quanto antes,
mas se lhe parece que pode ser adiado...
- Pode.
- Até quando?
- Até um dia.
- Que dia?
- Sábado de Aleluia, por exemplo.
- Falemos sério, disse Jorge.
- Sério? Dia de São Nunca.
Jorge franziu a testa.
- Que quer isso dizer? Retira a sua palavra? Em todo o caso, tenho
direito de saber o motivo, porque algum motivo há de haver...
Iaiá tinha-se levantado, pegou-lhe na mão e levou-o
até à janela. O transtorno das feições
era visível; os olhos luziam de impaciência, enquanto
a palavra parecia medrosa e recalcitrante. Pasmado do que via, e
curioso do que ela lhe iria dizer, Jorge não pensou sequer
em a aquietar; se lhe pegou nas mãos foi por um movimento
instintivo; mas quando as sentiu geladas e trêmulas, ficou
aterrado.
- Que tem, Iaiá? Você padece; vamos, fale, diga-me
tudo. Já me não ama?
- Se não o amo! disse vivamente a moça deitando os
olhos ao céu, como a tomá-lo por testemunha da sinceridade
de seu coração; mas logo depois arrependeu-se e continuou
de um modo compassado e frio. - Amei-o; não importa saber
se muito ou pouco, mas amei-o. O senhor foi a primeira pessoa que
me fez bater o coração de um modo diferente do que
ele batia; foi a primeira pessoa que me disse palavras novas, que
me fizeram bem...
Jorge lançou-lhe o braço à cintura e conchegou-a
ao coração. - Pois sim, disse ele; eu repetirei essas
palavras em todo o resto da nossa vida. Seja boa, e sobretudo seja
franca. Para que há de negar o que se está vendo?
Eu sei que ainda me ama...
- Eu? disse a moça deslaçando-se-lhe dos braços.
Eu tenho-lhe horror.
Jorge sorriu. - Horror, por quê? disse ele. Mas o gesto da
moça veio apagar-lhe o sorriso começado. Iaiá
levara as mãos ao seio, como se quisera conter os ímpetos
do coração; os olhos luziam-lhe de extraordinário
fulgor. Ofegante, por alguns minutos, não pôde articular
uma só palavra; quando chegou a falar disse simplesmente:
- Que razão há agora para que nos casemos? E depois
de uma pausa: - Tenho ciúmes do passado, e o senhor amou
já uma vez. Assim como eu ia entregar-me ao senhor, com o
coração limpo de qualquer outro afeto, assim quisera
que o senhor nunca houvesse amado a ninguém. Que é
o seu coração para mim? Um sobejo de outra; talvez
nem isso; esse mesmo resto não me pertence, não é
meu; fiquemos neste ponto, e tome cada um de nós a sua liberdade.
Iaiá recusou outra explicação, aliás
desnecessária; a linguagem era transparente. Jorge saiu dali
com o espírito transtornado e confuso. O motivo da recusa,
para ser sincero, era pueril ou romanesco demais; nenhuma noiva
teve ciúmes de um amor anônimo e extinto; logo, a alusão
de Iaiá não era vaga e sem objeto, mas ia direito
à pessoa de Estela. Seria isso? Jorge não queria crer
e mal podia duvidar.
No dia seguinte, acabado o almoço, apareceu-lhe o pai de
Estela.
- Iaiá manda-lhe isto, disse ele sacando da algibeira uma
carta.
Jorge recebeu-a pressurosamente e abriu-a; leu estas palavras únicas:
- "Não posso ser sua mulher; esqueça-me e seja
feliz." Empalideceu; tornou a ler a carta, sem a entender,
posto que ela não fosse mais do que a fórmula escrita
e seca do que Iaiá lhe dissera na véspera. Mas entre
as queixas e efusões de uma hora de desânimo e aquela
intimação, havia um abismo; a carta trazia o cunho
da resolução definitiva, que ele não achara
ou não quisera achar nas declarações verbais
da moça.
- Iaiá deu-lhe isto agora mesmo?
- Antes do almoço, respondeu o Sr. Antunes, cujo olhar forcejava
por soletrar no rosto de Jorge algumas linhas do drama que supunha
haver lá dentro.
- Não lhe parece que Iaiá anda triste? perguntou Jorge
no fim de um minuto.
- A morte do pai prostrou-a muito.
Jorge foi dali ao gabinete; o Sr. Antunes acompanhou-o. A preocupação
do moço era uma chuva benéfica às esperanças
do pai de Estela, que todas pareciam reflorir. Como este falasse
da filha com a prolixidade astuta do pretendente, Jorge atentou
numa idéia, que a princípio lhe pareceu absurda, mas
com a qual se familiarizou a pouco e pouco; mordeu-lhe o coração
a suspeita de que o procedimento de Iaiá era uma desforra
de Estela, uma como vingança póstuma. O inexplicável
da carta podia justificar até certo ponto essa suspeita sem
fundamento nem verossimilhança, que afinal acabou por não
achar nenhuma repulsa na consciência dele. Que há então
perdurável no homem, se a paixão que o leva ao sacrifício
e à beira da morte, pode rastejar um dia na calúnia?
Duas horas depois Jorge escrevia estas poucas palavras à
viúva de Luís Garcia:
"Iaiá mandou-me há pouco o incluso bilhete. Peço-lhe
o favor de uma explicação."
A carta de Iaiá fora escrita naquela manhã, depois
de uma noite de agitação e luta. Nem foi a única.
Iaiá escrevera outra, menos lacônica, a Procópio
Dias. Morto o pai, esse homem fora ali três vezes, sem trocar
com a moça uma só palavra relativa à estranha
confidência que lhe fizera antes. Eram visitas de meia hora,
não mais; durante esse curto lapso de tempo, Procópio
Dias não discrepava um instante da gravidade um pouco triste
que adotara. Não era o folgazão primitivo, mas também
não era um poeta desesperado e pálido; ficava a igual
distância de um e outro modelo. Os acontecimentos pareciam
aconselhar-lhe uma discreta ausência; mas, além de
não ter melindres nem escrúpulos, floria-lhe no peito
a esperança, a esperança tenaz dos cobiçosos.
Não a sussurrava ao ouvido da moça, nem a ostentava
nos olhos, na compostura, nos meneios, todos eles impregnados da
submissão de uma alma desenganada e passiva. Iaiá
tratava-o com bondade, já agora mais constante; posto não
lhe passasse pela cabeça a idéia de vir a desposá-lo,
não lhe destoava o aspecto dessa paixão resignada
e muda.
Depois de soltar a palavra decisiva, Iaiá entendeu que lhe
devia dar a forma última, desligando-se da solene promessa.
Não o fez sem muita lágrima solitária. A pobre
criança amava o filho de Valéria com a singeleza de
um coração quase adolescente; e só então
mediu todo o império que ele adquirira sobre ela. Mas duas
circunstâncias a induziam ao desfecho; era a primeira a revelação
de Procópio Dias, confirmação de suas suspeitas;
a segunda foi o espetáculo que se lhe ofereceu aos olhos,
naquela noite, logo depois de se despedir do noivo. Sabendo que
a madrasta estava no gabinete do pai, ali foi ter e espreitou pela
fechadura; viu-a sentada com a cabeça inclinada no chão,
desfeito o penteado, mas desfeito violentamente, como se lhe metera
as mãos em um momento de desespero, e caindo-lhe o cabelo
em ondas amplas sobre a espádua, com a desordem da pecadora
evangélica. Iaiá não a viu sem que os olhos
se umedecessem, o ódio complicou-se de piedade.
- Que se casem! Disse a moça resolutamente.
Desligando-se da promessa feita, Iaiá refletiu que ia ficar
só, e que precisava forçosamente de um amparo; foi
então que lhe lembrou Procópio Dias. Não encarou
a idéia sem repugnância; aceitável na palestra,
Procópio Dias era-lhe antipático para a convivência
conjugal. Não o podia amar, e, uma vez resoluta a aceitá-lo,
começou logo de o aborrecer. Que muito? Era um marido; não
exigia outro mérito. A carta que lhe escreveu não
saiu de um jato, foi trabalhada e repisada; o texto definitivo dizia
que fosse ali sem demora para lhe falar de objeto que interessava
à felicidade de ambos. Isto, e nada mais que uma lágrima,
que lhe resvalou dos cílios no papel como um protesto contra
o que ia nele escrito.
Raimundo, chamado para levar essa carta, recebeu-a depois de alguma
hesitação. Olhou para o papel e para a sinhá-moça.
Depois sacudiu a cabeça com um ar de dúvida. Iaiá
simulou não ver nada, mas o gesto do preto impressionou-a.
Ia afastar-se, Raimundo reteve-a dizendo:
- Iaiá me desculpe... esta carta... Raimundo não gosta
de falar àquele homem.
- Não lhe fales; basta deixar a carta em casa dele.
Raimundo não insistiu; acompanhou com os olhos a filha de
seu antigo senhor, abanando a cabeça com o mesmo ar de alguns
momentos antes. Depois olhou para a carta, como se quisesse adivinhar
o que ia dentro. Não era só pressentimento, mas também
dedução do que ele via naquelas últimas semanas.
Tinham-lhe dado notícia do casamento; falara-se nisso todos
os dias antes da morte de Luís Garcia. Morto este, cessou
toda a alusão ao projeto, que parecia dever executar-se dentro
de pouco tempo. O coração do preto dizia que aquela
carta era alguma cousa mais do que um recado sem conseqüência.
Quis levá-la a Estela; mas rejeitou o expediente, por lhe
parecer infidelidade. Dez minutos depois saiu em direção
à casa de Procópio Dias.
Entretanto, chegavam às mãos de Estela o bilhete de
Jorge e o de Iaiá. A viúva não podia crer o
que lera. A carta da enteada era um ato de insubordinação,
inexplicável na essência e na forma; e se essa carta
a fez pasmar, a de Jorge fê-la gemer. O noivo desenganado
recorria à intervenção de Estela. A primeira
amada desse homem era agora a sua confidente, a quem ele escrevia
sem saudade, sem remorso, talvez sem hesitação.
- Sogra! concluiu Estela com amargura; e erguendo os olhos do papel
para o espelho, que pendia da parede fronteira, contemplou caladamente
as suas graças ainda em flor. Iaiá entrou nessa ocasião.
A madrasta chamou-a ao pé de si; e mostrando-lhe o bilhete
que escrevera ao noivo, perguntou-lhe o que queria dizer aquilo.
A enteada ficou silenciosa durante alguns segundos; mas a resolução
deu-lhe força e tranqüilidade.
- Quer dizer o que aí está escrito, respondeu ela;
não posso casar com o Dr. Jorge.
- Por quê?
- Não posso.
- Por quê? repetiu Estela com autoridade.
- Amo a outra pessoa.
- Não creio; tem decerto outro motivo.
- Que motivo?
- Nenhum que seja sensato, acudiu a madrasta, mas algum há
de haver, que não seja esse. O passo que deu é grave;
não é próprio de uma moça obediente;
chega a ser contrário à cortesia. Não importa;
tudo se pode explicar; explique-me esta carta.
Iaiá não obedeceu à intimação
da madrasta; e para tirar à recusa qualquer aparência
ofensiva, conservou um ar de modéstia e resignação.
Estela não se deu por vencida; demonstrou-lhe que só
um motivo grave podia justificar semelhante procedimento, e que
era forçoso dizê-lo ao noivo; lembrou-lhe finalmente
a estima que sempre houve entre Jorge e o pai. Neste ponto Iaiá
estremeceu e fitou na madrasta uns olhos que não eram os
de pouco antes. Parecia-lhe sacrilégio evocar o nome do pai.
Não se pôde ter; deu um passo e interrompeu-a com sequidão:
- Não posso casar, porque a senhora o ama.
Estela, que já então estava sentada, ergueu-se de
golpe ao ouvir esta súbita e inesperada explicação.
Sua face pálida, que o traje de viúva ainda mais empalidecia,
tingiu-se de uns longes de vermelho. Podia ser confusão ou
indignação. Durante uma pausa relativamente longa,
Iaiá não tirou os olhos da madrasta. Essas duas lâmpadas
buscavam examinar-lhe, no momento supremo, todos os recantos da
consciência e todos os atalhos do passado. Não disse
nada, para melhor gozar do abalo que acabava de produzir em Estela;
era o juro do sacrifício. Mas Estela sentou-se daí
a pouco, e foi a primeira que rompeu o silêncio.
- Tu estás louca, disse ela tranqüilamente. Quem te
meteu semelhante idéia na cabeça?
- Não examinemos agora quem foi ou o que foi que me fez adivinhar
a verdade, respondeu Iaiá; basta saber que decidi romper
o casamento, que o mandei dizer ao Dr. Jorge, e que talvez dentro
de poucos dias outra pessoa lhe pedirá minha mão.
Estas palavras transtornaram de todo a viúva, que atônita
e irritada deu alguns passos na sala, buscando conter a explosão
de seus sentimentos. Iaiá foi ter com ela, falou-lhe com
brandura e submissão.
- Não se zangue, mamãezinha, se lhe não disse
antes o que fiz agora mesmo; estava certa de que aprovaria, ou me
perdoaria, quando menos. O homem de que lhe falo ama-me; e a senhora
mesma não rejeitou a idéia de me ver casada com ele.
- Não tens culpa da imprudência que cometeste, disse
Estela; porque antes disso tinhas perdido a razão. Vem cá;
disseste-me aí uma palavra absurda, e é preciso que
me digas outra com que expliques a primeira. Por que eu o amo? Continuou
depois de alguns instantes. Que quer dizer com isso?
Iaiá curvou a cabeça.
- Fala!
- Não direi nada; essa palavra explica tudo. Se o ama, como
eu creio, é a sua felicidade que lhe trago, não digo
a troco da minha, porque seria lançar-lhe em rosto o sacrifício,
mas a troco de uma ilusão, e nada mais. Não pense
que lhe quero mal; não posso querer mal a quem me tem ou
teve alguma afeição e substituiu dignamente minha
mãe. Se lhe quisesse mal, é provável que não
fizesse o que fiz.
Enquanto falava a enteada, Estela tinha a fronte inclinada e pensativa;
atitude em que se conservou ainda durante algum tempo.
- Bem vê que o ama, disse Iaiá; seu silêncio
confirma a minha suposição.
- Eu! exclamou Estela estremecendo. E lançando-lhe um dos
olhares de gelo, que eram o reflexo do seu orgulho: - Tu não
entendes nada dos sentimentos, não conheces o coração.
Eu amá-lo? eu? Não! não é possível!
- Talvez não, mas o que está feito, está feito.
A madrasta quis retê-la, mas não pôde; Iaiá
saiu sem dizer nada. Estela ficou atordoada, confusa e até
medrosa; reboavam-lhe aos ouvidos as palavras de Iaiá, não
como um som exterior, mas como o brado da própria consciência.
Venceu o abatimento, reagiu depressa como lho pediam as circunstâncias
e a própria necessidade de sua natureza. Não teve
tempo de cogitar no modo por que a enteada chegara a suspeitar um
sentimento que ela recalcara no coração. Urgia reparar
o mal feito pela imprudência da moça. Estela dispôs-se
a responder desde logo à carta de Jorge, e não sabia
ainda claramente o que havia de dizer. Tratou primeiro de chamar
Raimundo, e vendo que ele não acudia foi ter com Iaiá.
- Raimundo foi levar uma carta minha ao Procópio Dias, respondeu
esta.
Estela caiu numa cadeira. Pela primeira vez, alumiou-lhe o espírito
uma idéia cruel: a idéia de que a suspeita de Iaiá
fosse mais do que uma simples e inocente conjectura, fosse um ultraje.
Os olhos que lançou à moça ardiam de indignação.
Cobriu-os depressa, não para chorar, mas para fugir aos da
outra. O olhar de Estela fez vacilar por um instante a convicção
da enteada; a cólera pareceu-lhe sincera e até excessiva;
mas o gesto que se lhe seguiu atenuou e desvaneceu a primeira impressão.
Iaiá supôs ver na atitude da madrasta uma confissão
involuntária, uma expressão de abatimento e desespero,
como de pessoa que entrevê a felicidade própria e julga
dever sacrificá-la à de outrem. Era generosa. Caminhou
para ela, dobrou as curvas, pousou-lhe no regaço os braços,
trêmulos de comoção; com as mãos desviou
as de Estela e fitou-lhe os olhos, que estavam sombrios.
- Fui estouvada, confesso, disse ela; devia tê-la consultado
antes de fazer o que fiz. Mas eu temia a sua oposição;
e não queria torná-la desgraçada. Sou mais
moça que a senhora; se tivesse de consolar-me, consolava-me
depressa. Mas não tenho; não amava; cedi a um capricho,
e não sinto a menor dor ao despedir-me dele. Ande, perdoe-me;
e esteja certa de que não a amarei menos do que até
agora.
Ergueu-se e procurou beijá-la. A madrasta recuou instintivamente
a cabeça; era um resto de repugnância, que a fisionomia
ingênua e pura de Iaiá para logo dissipou. Em tão
verdes anos, sem nenhum trato social, era lícito supor na
menina tamanha dissimulação? Estela concluiu que a
ação da enteada vinha, não de uma suposição
ultrajante, mas de um impulso desinteressado. Qualquer que fosse
o fundamento da suspeita, o procedimento da enteada trazia o cunho
da candura e da boa fé; assim pensando, Estela sentiu desoprimir-se-lhe
a alma. Não era generosa, - ou tinha somente a generosidade
fria e altiva, que nasce da soberba. Mas não era insensível;
e o desinteresse da menina tocou-lhe profundamente o coração.
Inclinou-se para ela, tomou-lhe a cabeça entre as mãos
e fitou-a, com um olhar severo e maternal ao mesmo tempo.
- Perdôo-te, disse finalmente, porque não sabes o que
fizeste. A intenção é que te salva do meu ódio;
digo mal, do meu desprezo. Se queres medir bem a profundidade do
abismo que acabas de cavar, fica sabendo que me injuriaste, pensando
servir-me, e que o resultado do teu erro pode talvez arrancar-te
lágrimas amargas e inúteis. Teu castigo será
que só eu as enxugarei; - ouves bem? só eu.
Dizendo isto, soltou a cabeça da enteada com um gesto ríspido,
em que havia ainda um pouco de irritação. Iaiá
estava pálida. Sentiu na palavra seca e fria da madrasta
um alento de indignação sincera; e a alma caiu-lhe
prostrada, mais ainda do que o corpo, que não podendo suster-se,
procurou amparar-se no móvel que achou mais próximo.
A dúvida, que já antes atravessara o espírito
da moça, começou a invadi-lo. Iaiá fitou Estela
com o mais agudo de seus olhares, acompanhou-a de um lado para outro,
porque a madrasta, logo depois das palavras que lhe disse, entrara
a andar e refletir. Se a viúva era sincera, Iaiá acabava
de fazer gratuitamente a sua própria desgraça; foi
o que a moça pensou, e esse pensamento justificou-a como
um latejo. No atordoamento moral em que esta hipótese a lançou,
Iaiá achou-se entre dous desejos, mal definidos, mas inteiramente
opostos um ao outro. Quisera e não quisera ter-se enganado;
aspirava a conciliar o coração e a consciência.
Seu espírito evocou a hora inicial da suspeita, - aquela
funesta manhã, em que a carta de Jorge foi lida por Estela;
recordou o gesto da madrasta, o tremor, a lividez, os vivos sintomas
da consternação, do medo ou do remorso. Seria engano
aquilo? não era evidente que eles se haviam amado, que se
amavam ainda naquela ocasião; e, dada a afirmativa, era acaso
impossível que Estela, ao menos, o amasse ainda hoje?
Iaiá ateve-se a esta conclusão, embora confirmasse
a ruína de suas esperanças; a conclusão, porém,
contrastava com a impassibilidade da madrasta. Já então
perdera Estela o alvoroço do primeiro momento. Depois de
alguns minutos de reflexão, parara em frente da enteada.
Era difícil ver na atitude quieta, no aspecto de matrona
severa e digna, alguma cousa que se parecesse com as ânsias,
o triunfo ou o abatimento de uma rival. Iaiá deixou-se estar
diante dela, a fitá-la e a revolvê-la. A porção
da alma que transparecia do rosto da viúva era tão
fria, tão indiferente, que mal se podia combinar com o sentimento
que Iaiá lhe atribuía. Foi o que esta pensou ver com
seus olhos finamente sagazes; e no meio desse contraste entre o
aspecto presente e a revelação passada, Iaiá
acabou por não saber definitivamente onde ficava a verdade,
e esteve a ponto de lha pedir de joelhos.
Achavam-se então no gabinete de Luís Garcia, defronte
da secretária, onde o finado encontrara, com outros papéis,
a carta que dera lugar às conjecturas de Iaiá. Não
havia mudança nem no número nem na disposição
dos móveis. Só a luz era diferente, porque a daquele
dia era viva e clara, coada através de uma atmosfera serena,
como a vida anterior dessa família, ao passo que a de hoje
vinha turva e meio apagada pelas nuvens de um céu chuvoso
e triste. Na longa pausa que houve entre a madrasta e a enteada,
os únicos sons que se ouviam eram o rufar da chuva na folhagem
do jardim e o tic-tac de um relógio de parede.
- Vou fazer-te o maior mal que é possível receber
na tua idade, disse finalmente Estela. Mas assim o quer; e se alguma
razão tens para crer que amo esse homem, é necessário
mostrar-te a realidade das cousas.
Estela abriu duas ou três gavetinhas da secretária,
e depois de alguma busca entre os maços de cartas que aí
encontrou, tirou uma, abriu-a e deu-a à enteada. Iaiá
recebeu-a com as mãos trêmulas de curiosidade; leu-a
toda; devia ser a mesma que o pai mostrara à madrasta.
- Essa moça era a senhora? murmurou ela como se ainda esperasse
resposta negativa.
- Era eu.
Iaiá deixou-se cair numa cadeira rasa, a mesma em que Estela
estivera sentada, quando ouviu a confidência do marido.
- Vês? disse Estela; foi por mim que ele fez o sacrifício
de ir para a guerra, sem esperança de ser retribuído
nem de contar um dia com a minha gratidão. Foi para a guerra,
lutou, padeceu, fiel ao sentimento que o tinha levado, até
o ponto de o crer eterno. Eterno! Sabes quanto durou essa eternidade
de alguns anos. É duro de ouvir, minha filha, mas não
há nada eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas
paixões morrem com o tempo. Um homem sacrifica o repouso,
arrisca a vida, afronta a vontade de sua mãe, rebela-se,
e pede a morte; e essa paixão violenta e extraordinária
acaba às portas de um simples namoro, entre duas xícaras
de chá...
- A senhora não o amou nunca? interrompeu Iaiá, ao
sentir o tremor e o despeito com que a madrasta proferira as últimas
palavras.
- Havia entre nós um fosso largo, muito largo, disse Estela.
Eu era humilde e obscura, ele distinto e considerado; diferença
que podia desaparecer, se a natureza me houvesse dado outro coração.
Medi toda a distância que nos separava e tratei simplesmente
de evitá-lo. Foi então que ele embarcou; interiormente
aprovei-o. Talvez lhe não neguei um pouco de compaixão
silenciosa, mas nada mais. Casamento entre nós, era impossível,
ainda que todos trabalhassem para ele; era impossível, sim,
porque o consideraria uma espécie de favor, e eu tenho em
grande respeito a minha própria condição. Meu
pai já me achava, em pequena, uns arremessos de orgulho.
Como querias tu que, com tal sentimento, pudesse desposar um homem,
socialmente superior a mim? Era preciso dar-me outra índole.
Todas as felicidades do casamento achei-as ao pé de teu pai.
Não nos casamos por amor; foi escolha da razão, e
por isso acertada. Não tínhamos ilusões; pudemos
ser felizes sem desencanto. Teu pai não tinha os mesmos sentimentos
que eu; era mais tímido que orgulhoso. Qualquer que fosse
a razão do seu desapego ao mundo, bastava que o tivesse,
para me fazer feliz; vivemos assim alguns anos de inteiro isolamento,
sem conhecer o amargor, que é o que fica no fundo da vida,
sem necessidade de dissimulação... Minto; tive necessidade
de fingir, desde que aquele homem aqui apareceu; era necessário.
Um dia teu pai mostrou-me essa carta e referiu-me a paixão
encoberta que aí se conta; podes imaginar se ouvi tranqüila.
Mas fora desse acontecimento, que outro podia perturbar minha alma?
Não vi nenhuma porta abrir-se-me por obséquio, nenhuma
mão apertou a minha por simples condescendência. Não
conheci a polidez humilhante, nem a afabilidade sem calor. Meu nome
não serviu de pasto à natural curiosidade dos amigos
de meu marido. Quem é ela? donde veio? Ninguém me
perguntou donde vinha, não é verdade? Perguntaste-me
quem era eu? Não; amaste-me como tinhas amado tua mãe,
e eu amei-te, como se foras minha filha. E para isso bastou-nos
estender os braços; não foi preciso descer nem subir.
- Não foi, bradou Iaiá comovida, apertando-lhe as
mãos.
- Já vês quem eu era e sou; uma espécie de animal
feroz, que prefere a charneca ao jardim. Não me senti lisonjeada
com a paixão que inspirei; rejeitei, talvez, um marido digno
das ambições de qualquer mulher. Era isto o que querias
saber? Pois aí tens a minha história, a história
dessa carta, que já agora podemos rasgar...
Estela pegou na carta e rasgou-a lentamente, em pedaços miúdos,
enquanto a enteada refletia nas revelações que acabava
de ouvir. A madrasta deitou os fragmentos do papel à cesta.
Talvez a mão lhe tremia um pouco; o rosto, porém,
era de granito.
- Resta concertar a imprudência e casar, disse Estela dando
à palavra um tom galhofeiro.
- Não sei! murmurou Iaiá. O que a senhora me disse
é grave; não há sentimentos eternos. Parece
que depois de tamanha paixão qualquer outro afeto não
terá longa vida.
- Por que não? Não hás de querer agora uma
paixão que o leve à guerra; seria um desastre. Mas
está nas tuas mãos fazer que ele te ame sempre e muito.
Iaiá refletiu um instante.
- Jure-me que o não ama!
Estela franziu o sobrolho; depois mostrou-lhe o bilhete que Jorge
lhe escrevera poucos antes, e cuja redação dissiparia
à moça qualquer dúvida em relação
ao noivo. Era uma evasiva para lhe não confessar nem mentir.
A primeira vez que lhe negara o amor, foi antes um grito do coração
que queria enganar-se a si próprio; agora preferia calar-se.
Iaiá caiu no laço. O coração humano
é tão egoísta! A certeza da isenção
de Jorge importava muito mais que a de Estela; a alma da moça
no primeiro instante, respirou à larga. O respeito que tinha
à madrasta, e um pouco de ciúme retrospectivo que
a mordia, ao pensar naquela paixão tão violenta e
tão desenganada, empeciam à moça qualquer outra
manifestação. Quando se achou a sós consigo,
levava o espírito arejado da suspeita que o oprimira durante
largos meses; mas o vento que o lavou das sombras, lá lhe
queimou algumas das flores desabotoadas ao calor do primeiro sol.
A felicidade tinha um travo de desgosto e humilhação;
o coração tremia de medo.
Quando mais absorta estava nesse contraste de sensações,
viu Raimundo transpor a porta do jardim.
Capítulo
XVII
Iaiá
foi ter com Raimundo.
- Entregaste?
- Não entreguei, disse o preto.
Iaiá ficou alguns instantes imóvel. Raimundo tirou
a carta do bolso, e esteve com ela nas mãos, sem atrever-se
a levantar os olhos; levantou-os enfim e disse resolutamente:
- Raimundo não achou bonito que Iaiá escrevesse àquele
homem, que não é seu pai nem seu noivo, e voltou para
falar a nhãnhã Estela.
- Dê cá, disse a moça secamente; não
é preciso.
Raimundo entregou-lhe a carta, e sacudiu a cabeça encanecida,
como se quisera repelir os anos que sobre ela pesavam, e retroceder
ao tempo em que Iaiá era uma simples criança, travessa
e nada mais. Tinha-lhe custado a resolução; três
vezes investira a porta de Procópio Dias para obedecer à
filha do seu antigo senhor, e três vezes recuara, até
que venceu nele o pressentimento, - uma cousa que lhe martelava
no coração, dizia ele daí a pouco a Estela,
quando lhe referiu tudo.
Estela não se deteve mais. Na carta, que escreveu a Jorge,
disse que a enteada era apenas uma menina romanesca, desconfiada
e curiosa; queria desfazer o casamento, porque supunha não
ser amada com igual ardor ao seu. - "Iaiá adora-o, concluía
Estela, e não se sente adorada. Venha prostrar-se ao pé
do altar, e terá em mim a mais piedosa sacristã."
Iaiá teve notícia da carta, e já tarde para
opor qualquer objeção. O primeiro impulso foi agradecer
a pia fraude da madrasta; mas a alma, picada por um resto de ciúme,
depressa conteve o impulso, e a única resposta da moça
foi um gesto de acanhamento e um silêncio largo. Ouviu-a depois
sem azedume nem impaciência, atenta à menor hesitação
que lhe truncasse a palavra, ou à mínima sombra de
desgosto que lhe velasse os olhos. A verdade é que a ternura
da madrasta e a jovialidade recente de seus modos traziam certa
nota desusada e violenta, e esse excesso fazia refletir a enteada.
Entretanto, a carta de Estela chegou às mãos de Jorge,
que a leu duas vezes para conseguir entender-lhe o sentido. A explicação
tinha o defeito de ser um pouco sutil: mas a alma de Jorge conservava
sempre uma porta aberta aos sentimentos extraordinários.
Demais, qualquer explicação favorável era um
benefício, e aquela tinha a vantagem de afagar o amor-próprio,
além de vir ajustada com o espírito inquieto e súbito
da noiva. Leu a carta sem cotejar o texto com a assinatura, sem
atentar naquela sacristã em cujos ombros quisera outrora
atar a veste sacerdotal.
Nessa mesma noite foi à casa da noiva, que o recebeu sem
contentamento nem mortificação, um pouco lacônica
e meditativa. Nem um nem outro aludiu aos sucessos últimos;
fê-lo Estela com muita pertinência e tato. Não
obstante, como a explicação da viúva não
correspondia exatamente à realidade das cousas, a situação
ficou ainda obscura e vaga, e porventura exagerou o acanhamento
recíproco. A persuasão de que Iaiá exigia da
parte dele maior intensidade de sentimento, não inclinara
o espírito de Jorge a nenhuma ostentação teatral,
- mas acabou por lhe infundir deveras maior ternura, e aumentou
a vitalidade de um sentimento, que é a forma desinteressada
do egoísmo, - a felicidade de fazer outrem feliz.
- Marquemos o casamento para esta semana, disse Estela na noite
de um domingo.
- Ainda não, respondeu a enteada.
Posto visse dissipada a tempestade que lhe negrejara sobre a cabeça,
Iaiá enxergava ainda para o lado do poente um espectro, e
para o lado do nascente uma possibilidade. Esses dous pontos negros
vinham conspurcar a beleza azul do céu e torná-lo
pesado e melancólico. O mistério do futuro unia-se
ao mistério do passado; um e outro podiam devorar o presente,
e ela receava ser esmagada entre ambos. A convivência da família
aterrava-a. Que seria para ela o casamento, se tivesse de penetrar
nele com a perpétua ameaça diante dos olhos, uma antiga
semente de amor, que a primeira brisa da primavera podia fazer brotar
e crescer de novo? Acreditava na isenção presente
da madrasta, e na inteira cura do marido, mas o futuro? A beleza
de Estela estava ainda longe do declínio, e a moléstia
de Iaiá fazia-a persuadir de que, ainda no declínio,
seria superior à sua.
Uma noite, entrou o Sr. Antunes e deu uma carta à filha,
que a leu silenciosamente.
- Olha, disse ela apresentando a carta à enteada.
Iaiá leu-a; eram duas páginas escritas de alto a baixo,
e por letra desconhecida. Uma antiga condiscípula de Estela,
residente no norte de São Paulo, aceitava a proposta que
esta lhe fizera, de ir dirigir-lhe o estabelecimento de educação
que ali fundara desde alguns meses.
- Bem vês que é necessário casar-te quanto antes,
disse Estela logo que a enteada acabou a leitura.
Iaiá sentiu os olhos úmidos e atirou-se aos braços
da madrasta. A efusão era sincera; havia ali afeto, reconhecimento
e admiração. Mas, por isso mesmo que era sincera,
deveria molestar a madrasta, se alguma cousa pudesse já molestar
a uma alma estóica. Estela sorriu, - um sorriso que queria
dizer: - Bem sei que sou demais. A língua, porém,
não proferiu uma palavra única.
- Que quer dizer isso? perguntou o pai de Estela, que nada sabia
da carta, e conseqüentemente nada entendia daquela expansão
da moça.
Estela mostrou-lhe a carta. O pai não pôde acabar de
ler: a primeira página fizera-lhe compreender tudo. Seus
olhos iam do papel à filha e da filha ao papel, sem que a
boca se atrevesse a formular nenhuma queixa ou censura.
- Não digo que me obedeças, murmurou ele; mas parece
que podias consultar-me...
- Eu estava certa da sua aprovação, respondeu Estela.
Ou parece-lhe que fiz mal?
- Nunca fizeste bem em cousa nenhuma, disse tristemente o pai. E
pegando-lhe nas mãos: - Tão moça! tão
bonita!
O dia do casamento foi definitivamente marcado naquela noite. Como
Estela declarasse que ela própria serviria de madrinha, Iaiá
procurou dissuadi-la cautelosamente; também ao noivo repugnou
a intervenção espiritual da viúva. Mas Estela
não se deu por entendida. O papel de acólita, que
a si mesma distribuíra, tinha-o desempenhado com lealdade
e dignidade. Quis ir até o fim. Era o melhor modo de se mostrar
isenta e superior. Jorge sentia-se vexado e transportado ao mesmo
tempo, ao observar a simplicidade e o desvelo que a viúva
punha naquele ato. Iaiá sentia só admiração
e gratidão. Tinha já certeza de que o passado era
pouca cousa, e de que o futuro seria cousa nenhuma. O casamento
ia separá-las, reconciliando-as.
Casados os dous, Estela preparou-se para seguir viagem, não
obstante a resistência do pai, que foi tenaz e hábil.
O pai ficaria. Estava já tão cansado para viagens
longas! A diferença do clima, a falta de relações,
a necessidade de não abrir mão do emprego, eram motivos
de grave peso para não arriscar-se a deixar a Corte.
- Ao menos, prometes vir ver-me de quando em quando? disse o Sr.
Antunes sentindo tremer-lhe nos olhos uma lágrima sincera.
Estela respondeu que sim; depois pediu-lhe que aceitasse uma mesada.
O pai recusou comovido. - Tu vales muito, exclamou ele. O tom com
que proferiu estas palavras deu uma esperança à filha.
- O senhor pode valer ainda mais do que eu, disse ela.
Depois contou-lhe a paixão de Jorge e todo o episódio
da Tijuca, causa originária dos acontecimentos narrados neste
livro; mostrou-lhe com calor, com eloqüência, que, recusando
ceder à paixão de Jorge, sacrificara algumas vantagens
ao seu próprio decoro; sacrifício tanto mais digno
de respeito, quanto que ela amava naquele tempo o filho de Valéria.
Que pedia agora ao pai? Pouca e muita cousa; pedia que a acompanhasse,
que cessasse a vida de dependência e servilidade em que vivera
até ali; era um modo de a respeitar e respeitar-se. O pai
escutava-a atônito.
- Tu chegaste a amá-lo! exclamou ele. Não o aborrecias?
Amaram-se? E só agora sei... Bem digo eu; tu és uma
fera. Não tens, nunca tiveste pena de minha velhice... Ele
é tão bom! tão digno! E se morresse por tua
causa? não terias remorsos? não te havia doer o coração
quando soubesses que um moço tão bem-nascido, que
gostava de ti... Sim, ele gostava muito de ti; e tu também...
e só hoje!
Estela fechou os olhos para não ver o pai. Nem esse amparo
lhe ficava na solidão. Compreendeu que devia contar só
consigo, e encarou serenamente o futuro. Partiu; o pai despediu-se
dela com o desespero no coração, - e desta vez a dor
era desinteressada e pura. Jorge consolou-o depressa. Não
houve interrupção na convivência, e o Sr. Antunes
continuou a achar ali a mesma proteção e cordialidade.
Se o casamento fora um atentado, ele os absolveu disso, e repartiu
com ambos sua infinita solicitude. Outra vez comensal assíduo,
tornou a ser o homem de confiança. Fora dali, as horas de
lazer que lhe deixava o pouco trabalho, eram empregadas nas sessões
do júri, nas galerias da câmara dos deputados ou nos
bancos do Carceller. Não tendo já a aspiração
de uma aliança vantajosa, adotou a devoção
da loteria, outra fórmula de esperança, que igualmente
lhe quadrava à índole. Era ele quem dava, secretamente,
notícias de Estela a Iaiá.
Esta achou no casamento a felicidade sem contraste. A sociedade
não lhe negou carinhos e respeitos. Se antes de casar, Iaiá
possuía o abecedário da elegância, depressa
aprendeu a prosódia e a sintaxe; afez-se a todos os requintes
da urbanidade, com a presteza de um espírito sagaz e penetrante.
Nenhuma nuvem do passado veio sombrear a fronte de um ou de outro;
ninguém se interpunha entre eles. Iaiá escrevia algumas
vezes a Estela, que lhe respondia regularmente, e no mais puro estilo
de família. De longe em longe a enteada presenteava a madrasta,
que lhe retribuía logo na primeira ocasião. Quanto
a encontrarem-se, era difícil; Estela aplicava todos os seus
cuidados à nova ocupação.
Procópio Dias viu a morte de todas as esperanças últimas,
com uma filosofia que não supunha ter em si. Naturalmente
padeceu alguns dias de despeito; mas o despeito acabou com o amor.
Verdade é que o ambiciado casamento abriu nele o desejo de
não morrer solteiro; e, perdida uma oportunidade, tratou
de haver outras à mão. Ultimamente voltou à
religião do celibato. Duas ou três vezes encontrou
Iaiá e o marido. A última foi num sarau. Jogou o voltarete
com Jorge e acompanhou a mulher até à carruagem, não
sem lançar um olhar furtivo ao estribo, onde Iaiá
pousou o pé, cansado de valsar.
No primeiro aniversário da morte de Luís Garcia, Iaiá
foi com o marido ao cemitério, a fim de depositar na sepultura
do pai uma coroa de saudades. Outra coroa havia sido ali posta,
com uma fita em que se liam estas palavras: - A meu marido. Iaiá
beijou com ardor a singela dedicatória, como beijaria a madrasta
se ela lhe aparecesse naquele instante. Era sincera a piedade da
viúva. Alguma cousa escapa ao naufrágio das ilusões.
MINISTÉRIO
DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
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