IAIÁ GARCIA
Machado de Assis
Capítulo
XII
Quinze dias
depois, Procópio Dias apareceu em casa de Jorge com o luto
no vestuário e no rosto. De Buenos Aires chegara-lhe na véspera,
à tarde, a notícia da morte de um irmão, seu
último parente, notícia que o obrigava a embarcar
no dia seguinte e demorar-se no Rio da Prata cinco a seis semanas.
Não se pode dizer que ele estivesse triste; estava sério;
e a seriedade dá ao homem que ri habitualmente uma aparência
de melancolia. Estava sério e preocupado. A viagem a Buenos
Aires não tinha por fim o cadáver do irmão,
mas a herança, que posto não fosse grande, valia alguma
cousa.
Procópio Dias ofereceu seus serviços ao filho de Valéria,
que de sua parte prometeu-lhe algumas cartas de apresentação,
se precisasse. Procópio Dias aceitou uma. Jorge levou-lha
no dia seguinte. Ele recebeu-a com demonstração de
agradecido e quase terno. E depois de um momento de silêncio:
- Já agora entrego-lhe pessoalmente esta carta, que devia
ser levada amanhã por um portador.
Jorge quis abrir: - Não, acudiu o outro; prometa-me que só
a abrirá amanhã.
- Por que não hoje de noite?
- Podia ser hoje de noite; mas é bom que entre a impressão
da despedida e a leitura desse papel decorra o espaço da
noite e o sono. Talvez seu juízo seja diferente.
Jorge prometeu. Procópio Dias partiu. No dia seguinte abriu
a carta e leu estas poucas palavras: "Seja o meu anjo da guarda
durante a minha ausência."
- Por que não? disse ele consigo.
De tarde, saiu a cavalo, costeando o aqueduto, segundo costumava,
e ia pensando seriamente na conveniência de casar os dous.
Naquelas duas semanas tivera tempo de apreciar um pouco as qualidades
da moça, que lhe pareceram boas, conquanto lhe achasse também
alguma cousa original, misteriosa ou romanesca, muito acima da compreensão
ou do sentimento de Procópio Dias. Jorge não se iludia
acerca da paixão do pretendente; supunha-a sincera, mas não
lhe atribuía a virgindade das primeiras ou das segundas comoções:
era uma paixão da última hora, um ocaso ardente e
abraseado entre o dia que lá ia, e a noite que não
tardava a sombrear tudo. Ainda assim a aliança lhe parecia
conveniente. Iaiá possuía decerto a força necessária
para dominar desde logo o marido; e o titão encadeado teria
ao pé de si, em vez de um abutre a picar-lhe o fígado,
uma formosa rola destinada a prolongar-lhe as ilusões da
juventude.
Se eram boas as impressões que Iaiá lhe deixara nos
últimos dias, não eram ainda assim isentas de algum
enfado, aliás passageiro. Uma ou duas vezes, Iaiá
lhe pareceu singularmente áspera, e sem motivo nem duração.
Esses assomos porém, eram logo compensados por uma afabilidade,
que parecia mais viva, mais ruidosa, talvez um pouco importuna.
Ocasião houve em que Estela disse à enteada, com um
sorriso de repreensão: - Não amofines o Sr. doutor
Jorge. Não compreendeu Jorge por que motivo essa palavra
simples, dita em tom brando, deu ao rosto de Iaiá uma expressão
indignada; lembrava-se porém que a expressão foi passageira,
e que ela passou do singular amuo à habitual alegria: - Bem
vê, replicou Estela, bem vê que é uma criança.
Jorge ia assim a refletir, e já de volta, quando ouviu uma
voz que dizia o seu nome. Era Iaiá que descia da casa da
velha ama. Jorge parou o cavalo.
- Em que vai pensando? disse ela.
- Na senhora, respondeu o moço afoitamente, depois de verificar
que ninguém os podia ouvir.
Iaiá caminhou até à rua, acompanhada de um
homem velho, o irmão de Maria das Dores.
- Que anda fazendo aqui? continuou Jorge inclinando o busto sobre
o pescoço do cavalo.
- Vim visitar a Maria das Dores. Coitada! Está tão
abatida!
- Bem; eu logo lhe direi o que é; vá ver a doente.
- Já a vi; volto agora para casa. O Sr. João vai acompanhar-me.
Jorge apeou-se.
- Deixa-me acompanhá-la também? perguntou.
- Deixo; mas é só por ser curiosa. Quero saber o que
ia pensando a meu respeito. Vamos, Sr. João?
Jorge enfiou a rédea no braço e colocou-se ao lado
dela; Iaiá tomou-lhe afoitamente o outro braço.
- Vá, conte-me tudo.
- O Procópio Dias embarcou hoje.
Iaiá, que já havia dado os primeiros passos, estacou.
- Para onde? disse.
- Para o Rio da Prata; morreu-lhe um irmão em Buenos Aires.
- Mas sem se despedir de nós!
- Naturalmente, custava-lhe fazê-lo, e quis poupar-se à
dor da separação. Esteve porém comigo, e prometeu-me
que a demora seria curta. Viu-o muito aflito com a viagem, tão
aflito que não sei se lhe diga que era... era, decerto, era
maior a dor da viagem do que a da morte do irmão. Talvez
lhe faça injúria nisto, mas parecia.
- Por quê? perguntou a moça erguendo os olhos para
ele.
- Não sei se lhe deva dizer por que, acudiu Jorge. E daí,
não se tratando de nenhuma cousa do outro mundo... É
verdade que as moças bonitas, como a senhora, costumam ser
cruéis... Não sei... Há situações
um pouco...
- Ridículas, concluiu Iaiá.
- Como ridículas?
- Por exemplo, a sua.
Jorge enfiou um pouco; mas a um homem de sociedade, Iaiá
não parecia de força a fazer perder o equilíbrio.
Sorriu levemente, e retorquiu sem azedume:
- Não é ridículo ser afetuoso; eu cuidava responder
à linguagem de seu coração.
- Supunha que a ausência de Procópio Dias me deixava
saudades...
- Supunha.
- Que tem o senhor com isso?
A resposta de Jorge foi um simples gesto negativo. Contudo, não
pôde zangar-se, porque sentia tremer o braço da moça,
e olhando de esguelha para ela via-a pálida e com os olhos
no chão. Se a palidez e o tremor eram de cólera não
chegou a sabê-lo; mas provavelmente não era outra cousa,
porque ao cabo de três a quatro minutos, Iaiá ergueu
os olhos e estendeu-lhe a mão, dizendo:
- Façamos as pazes.
- Nunca estivemos em guerra, acho eu.
- Talvez em véspera de guerra.
- Não por culpa minha...
- Nem minha, acudiu a moça. E erguendo o chapelinho de sol
para o céu. - Talvez por culpa daquele, disse ela suspirando.
Após o suspiro, veio uma risadinha seca e forçada,
mas longa ainda assim como o som de um golpe no cristal. Tinham
andado poucos minutos, e esses poucos eram já de sobra para
espertar a curiosidade de Jorge, e para lhe dar direito a pedir
uma explicação. Jorge pediu-lha em termos afetuosos,
perguntando por que razão era o céu culpado em uma
guerra que devia romper entre ambos, e sobretudo qual seria o pretexto
dessa guerra. Iaiá refletiu um instante, e começou
a falar com os olhos baixos.
- O motivo é o senhor mesmo, disse ela.
- Eu?
- O senhor, que é meu inimigo, que me detesta. Não
me dirá que mal lhe fiz eu? continuou ela erguendo subitamente
os olhos. Escusa fazer esse gesto de espanto; sei que o senhor me
detesta, e por mais que pergunte a mim mesma, - não sei,
não me recordo... Diga, fale com franqueza.
- Tanto melhor! exclamou Jorge. Vejo que havia entre nós
um equívoco; e é chegada a ocasião de o desfazer.
Quer que lhe fale com franqueza? O inimigo não sou eu, é
a senhora; é a senhora, ou antes, era ou parecia ser. Agora
compreendo; retribuía-me a aversão que supunha haver
em mim. Tanto melhor! Façamos as pazes de uma vez.
Iaiá apertou a mão que ele lhe ofereceu e chegaram
alegremente a casa. Jorge quis retirar-se logo, mas a moça
ordenou a Raimundo que conduzisse o cavalo, e Jorge foi compelido
a entrar por alguns minutos. Luís Garcia não estava
em casa. Estava o Sr. Antunes. Iaiá mal deu tempo aos primeiros
cumprimentos. - Ande jogar comigo, disse ela.
- Em boa paz?
- Em boa paz.
Iaiá preparou o xadrez, no gabinete contíguo à
sala; Jorge sentou-se pacientemente diante da adversária,
retificou a posição de duas peças, excluiu
as que lhe dava de partido e adiantou o primeiro peão.
- Vá, disse; é a sua vez.
Iaiá não obedeceu ao convite. Olhava para ele, com
ar inquieto.
- Dá-me sua palavra de honra de que me não negará
o que lhe vou perguntar? disse ela ao cabo de alguns instantes de
silêncio.
Jorge hesitou um pouco.
- Conforme.
- Exijo.
- Que me pedirá ela que lhe não possa afirmar? pensou
Jorge. E em voz alta respondeu:
- Dou.
- Foi ele quem lhe encomendou...
- O sermão? interrompeu Jorge sorrindo. Serei franco; foi
ele mesmo.
Iaiá baixou os olhos ao tabuleiro, cavalgou a torre com o
bispo, como distraída, e em voz ainda mais baixa do que lhe
falara, perguntou:
- O senhor é homem de segredo?
- Sou, redargüiu afoitamente Jorge.
- Pois bem, continuou Iaiá, eu gosto dele, gosto muito, mas
não desejo que ele saiba.
- Deveras? não está gracejando?
- Não estou.
Jorge estendeu-lhe a mão: - Magnífico, disse ele alegre;
não é preciso mais. Uma vez que se amam, virão
naturalmente a...
Não pôde acabar, porque a moça, erguendo-se
de súbito, afastou-se da mesa, com um arremesso, e dirigiu-se
à janela, que dava para o jardim. Jorge ficou espantado.
Não entendia o que estava vendo. Inclinou-se sobre o tabuleiro
e começou a mover as peças, sozinho, sem plano, maquinalmente.
Assim jogando, ouvia o som do tacão de Iaiá que feria
o ladrilho do chão, com um movimento precipitado e nervoso.
Durou isto cinco minutos. Iaiá voltou-se para dentro, saiu
da janela e aproximou-se da mesa. Jorge ergueu então a cabeça
para ela e sorriu.
- Não me dirá que lhe fiz eu, para ficar tão
zangada comigo? perguntou com benevolência.
- Nada; eu é que fui estouvada e não sei se mais alguma
cousa.
Jorge protestou que não. - Foi ríspida somente, disse
ele; e se o foi sem querer, não foi sem motivo. Não
me dirá que motivo é esse? Parece-me que não
a tratei mal...
- Não.
- Nesse caso, o motivo está na senhora mesma; e se eu não
tivesse medo de que se zangasse outra vez comigo, atrevia-me a pedir-lhe
que me dissesse tudo -, ou pelo menos alguma cousa.
- Para quê? Vamos jogar.
- Está escurecendo.
- Mando vir luzes.
Vieram luzes; começaram a jogar. Entre eles o xadrez não
podia oferecer interesse; mas dado que o pudesse, não seria
naquela ocasião. Um e outro estavam distraídos e preocupados.
A primeira partida foi concluída, em pouco tempo, quase sem
cálculo.
- Outra? perguntou Iaiá.
- Vamos.
- Antes de começar, disse ela colocando as peças,
e sem olhar para Jorge, quero dizer que tem um meio seguro de nunca
brigar comigo.
- Qual é?
- É ser meu confidente.
- Senhor de seus segredos?
- Todos
- O meio é fácil; só eu ganho na troca.
- Nisso dou prova de grande coração.
Já não era a menina ríspida de alguns instantes;
dissera as últimas palavras com muita graça e placidez.
Ao mesmo tempo, continuava a arranjar metodicamente as peças.
Acabou e reclinou-se no dorso da cadeira.
- Não me declarou ainda se aceitava, disse ela.
Jorge hesitou um instante. Era gracejo ou proposta séria?
A um gracejo responde-se com outro, a uma proposta responde-se com
seriedade. Jorge hesitava em tomar sobre os ombros uma parte de
responsabilidade dos sentimentos da moça. Quais seriam eles?
que projetos despertariam naquele cérebro provavelmente indomável?
Não podiam ser outros senão os de seu casamento com
Procópio Dias, visto que ela confessava amá-lo. Essa
reflexão fê-lo declarar afoitamente que aceitava a
confidência.
- Sabe o que aceita? perguntou Iaiá.
- Farejo.
- Toque! disse ela estendendo-lhe a mão.
Jorge deu-lhe a sua.
- Não se trata em todo caso de nenhum assassinato? perguntou
rindo.
- Não.
A segunda partida foi mais animada, mas só por parte de Iaiá.
A moça ria às vezes, mas a maior parte do tempo fazia
convergir toda a sua atenção para o jogo. Quando falava,
era moderada e dócil. Essa alternativa e contraste de maneiras
interessava naquele momento o espírito de Jorge. Que espécie
de mulher fosse, imperiosa como uma matrona, travessa como uma criança,
incoerente e enigmática, era cousa que ele não podia
em tão pouco tempo descobrir; mas o enigma aguçava-lhe
a atenção. Enquanto ela tinha os olhos no tabuleiro,
Jorge buscava ler-lhe a alma na fronte lisa e cândida; mas
não via a alma, via só uns fiapos castanhos de cabelo,
que lhe caíam sobre a testa e esvoaçavam levemente
ao sopro da aragem que entrava pela janela, e lhe davam um ar de
puerícia. A boca fina e pensativa corrigia aquela expressão
da cabeça; era a primeira vez que ele lhe descobria um forte
indício de energia e tenacidade.
Quando era a vez de Jorge, Iaiá afastava o busto, reclinava-se
no espaldar da cadeira e ficava a olhar para ele, como ele havia
olhado para ela. Mas nesse olhar não cintilava curiosidade;
era uma luz velada e baça, como alheia ao mundo exterior.
Encontravam-se assim os olhos de um e de outro, e a partida continuava,
até chegar ao fim sem novo incidente.
Prestes a acabar, Estela entrou no gabinete, sem os interromper.
Sentou-se caladamente a um canto da janela. O jogo cessou no momento
em que entrou Luís Garcia. - Perdi duas partidas, papai,
disse a moça; mas por um triz não ganhei a segunda.
Jorge quis sair logo depois; foi obrigado a demorar-se, porque Iaiá
lembrou-se de ir tocar piano. Era a primeira vez que Jorge conseguia
ouvi-la. A moça escolheu uma página de Meyerbeer;
Jorge confessara uma vez que era esse o mestre de sua predileção.
Posto não fosse exímia pianista, Iaiá tinha
muito sentimento e gosto, e era o bastante para que a alma do grande
mestre viesse sobre ela suas asas robustas e imortais. Pelo menos,
Jorge sentiu-lhes a aragem vivificante.
No dia seguinte a impressão deste era um tanto complexa e
perplexa. Aquela mistura de franqueza e reticência, de agressão
e meiguice, dava à filha de Luís Garcia uma fisionomia
própria, fazia dela uma personalidade; mas a fisionomia era
ainda confusa e a personalidade vaga. Jorge sentia-se empuxado e
retido, ao mesmo tempo, por dous sentimentos contrários;
tinha curiosidade e repugnância de penetrar o caráter
da moça, e conhecer e distinguir os elementos que o compunham.
O que lhe parecia claro e definitivo era que as primeiras palavras
de Iaiá, tão duras e tão secas, não
passavam de uma expressão de despeito, por supor da parte
dele a aversão que não existia; e se as palavras em
si o magoavam, a explicação lisonjeava-lhe o amor-próprio.
O resto era inexplicável. Jorge resolveu, entretanto, não
lhe falar mais de Procópio Dias, apesar da confissão
que ela lhe fizera naquela tarde, confissão aliás
contrastada ou diminuída pelo gesto que se lhe seguiu.
Iaiá pareceu perder a disposição agressiva;
e à força de afabilidade apagou inteiramente os vestígios
da antiga rispidez. A alma não se lhe tornou mais transparente,
nem o caráter menos complexo; mas a esquisita urbanidade
dos modos fazia suportáveis os saltos mortais do espírito,
e aumentava o interesse do que havia nela obscuro ou irregular;
finalmente, era um corretivo à tenacidade com que a moça
confiscava literalmente o filho de Valéria. Jorge estimou,
sobre todas, esta circunstância, porque lhe tornou mais fácil
a freqüência da casa. Ele pertencia ao pai ou à
filha, - muitas vezes aos dous. Iaiá atirou-se ao xadrez
com um ardor incompreensível, e dizendo-lhe Jorge que era
preciso ler alguns tratados, ela pediu-lhe um, e porque ele só
os tivesse em inglês, Iaiá pediu que lhe ensinasse
inglês.
- Mas eu sou um mestre muito ríspido, observou ele.
- A discípula é muito pior.
Estela assistia algumas vezes às lições do
idioma e do jogo; - duas cousas que lhe pareciam incompatíveis
com o espírito da enteada. Verdade é que Iaiá
mudara tanto naquelas últimas semanas! Não lhe supusera
nunca tão longa paciência, nem tão repousada
atenção. Iaiá gastava uma a duas horas por
dia a decorar os verbos e os substantivos da nova língua,
como um colegial em véspera de exame; e essa paixão
recente tinha o condão singular de irritar a madrasta. Jorge,
pelo contrário, sentia em si os júbilos do pedagogo.
O professor é o pai intelectual do discípulo; Jorge
contemplava paternalmente aquela inteligência fina, paciente,
e tenaz, servida por dous olhos de pomba e duas mãos de arcanjo.
No meado de fevereiro tornaram a falar de Procópio Dias,
a propósito de uma carta que Luís Garcia recebera.
Veja lá, disse a moça; ele escreveu a papai e nem
uma palavra especial para mim. "Lembranças a D. Estela
e a Iaiá." Nada mais. Ele escreveu-lhe?
- Até agora não.
- Não há nada como a ausência para fazer esquecer
tudo, - isto é, esquecer os que ficam. Talvez já não
pense em casar comigo. Foi um capricho que passou, como todos os
caprichos; foi como a chuva de ontem, que deu apenas alguns salpicos
de nada. E contudo parecia que vinha abaixo o céu. Não
é? a paixão dele não é como a trovoada?
ameaçou no Rio de Janeiro e foi cair em Buenos Aires. Aposto
que vem de lá casado. Verá que não é
outra cousa. Que me diz a isso? Vamos; diga alguma cousa.
- Não posso, redargüiu Jorge. A senhora deu-me o cargo
de confidente e não de conselheiro; limito-me a ouvi-la.
Verdade é que o tal cargo até agora parece simples
sinecura.
- Que é sinecura?
Jorge sorriu e definiu-lhe a palavra.
- Não é sinecura, acudiu Iaiá; pelo contrário,
é um cargo muito espinhoso.
- Não creio. A confidência única até
hoje não me pareceu sincera. A senhora não ama o Procópio
Dias.
Iaiá franziu a testa.
- Por que me diz isso?
- Porque, se o amasse, falaria de outro modo, e sobretudo não
falaria tanto. O amor, nessa idade, vive de reticências, não
de frases e menos ainda de frases tão compostas.
- Cale-se! interrompeu ela batendo-lhe com a gramática na
ponta dos dedos. E depois de uma pausa. - Se ele lhe escrever, mostra-me
a carta?
Como Jorge lhe dissesse que sim, Iaiá fez um movimento para
rasgar o volume em dous pedaços. Jorge perguntou-lhe o que
tinha. - Nervoso! respondeu a moça sacudindo os ombros com
um calefrio. Depois, como a amparar-se, lançou-lhe a mão
a um dos pulsos. Jorge sentiu a pressão de uns dedos de ferro;
e parece que outros dedos invisíveis também comprimiam
as faces da moça, vermelhas como se vertessem sangue.
Capítulo
XIII
Jorge achou
em casa, nessa mesma noite, uma carta de Buenos Aires. Procópio
Dias narrava-lhe a viagem e os primeiros passos, e dizia ter toda
a esperança de se demorar pouco tempo. Tudo isso era a terça
parte da carta. As duas outras terças partes eram saudades,
protestos, expressões de sentimento, e um nome no fim, um
nome único, e que era a chave do escrito. Jorge leu atentamente
essas confidências, e na mesma noite esboçou uma resposta.
Não era fácil combinar a discrição que
quisera conservar em suas relações com Procópio
Dias e a necessidade de lhe mandar algumas esperanças. Embora
com esforço, redigiu a resposta conveniente, contando-lhe
as boas impressões que tinha; só as boas, não
lhe disse as duvidosas; sobretudo não desceu a nenhuma realidade,
a nenhum nome próprio; nada mais que uma extensa série
de locuções igualmente animadoras e vagas.
No dia seguinte não foi à casa de Luís Garcia;
choveu torrencialmente. Mas no outro dia foi, logo depois do jantar.
Achou reunida a família.
- Good evening, my dear mestre! bradou Iaiá logo que o viu
entrar na sala.
- Faltava mais uma língua a esta tagarela, disse Luís
Garcia rindo; daqui a pouco tempo ninguém a poderá
aturar.
Jorge não esperava, decerto, encontrar na moça a mesma
expressão que lhe deixara na antevéspera, quando de
um gesto nervoso lhe comprimira o pulso. Tinham passado quarenta
e oito horas, e para que ela se restabelecesse bastariam apenas
quarenta e oito minutos. Contava com a mudança; não
obstante procurou ler-lha nos olhos, e achou-os tão alegres
como o tom em que ela o saudara. A lição isolou-os,
e foi também o pretexto mais favorável para lhe mostrar
a carta de Procópio Dias. Iaiá viu-a selada e compreendeu
tudo; arrebatou-a às mãos de Jorge.
- Ah! disse este, seu gesto vale um discurso.
- Posso ler?
- Pode.
Iaiá desdobrou a carta e leu-a para si. Enquanto lia, Jorge
fitava-a. Não lhe via nenhuma confusão, alvoroço
ou alegria; os olhos seguiam lentamente de uma linha a outra, e
a mão firme voltava a página. No fim, quando leu o
seu nome, teve um movimento de tédio, e inconscientemente
amarrotou o papel; mas emendou-se logo, alisou a carta com a mão
e restituiu-a silenciosamente. Durante alguns segundos ocupou-se
em traçar com um lápis alguns círculos na margem
da folha aberta da gramática; ergueu enfim os olhos e perguntou
sem rir:
- Acredita no que diz essa carta?
- Acredito; tudo o que está aí escrito, já
o ouvi de viva voz, e com a mesma sinceridade e calor. Quem sabe?
pode ser que seja o primeiro amor desse homem.
- O primeiro... o primeiro... repetiu ela entre dentes.
- Talvez o primeiro, insistiu Jorge; e para uma moça, acho
que deve ter algum encanto ser amada por um homem, considerado superior
às paixões. A vida de Procópio Dias teve sempre
outra ordem de interesses...
- Conhece-o há muitos anos?
- Há muitos, não; conheço-o desde o Paraguai.
- Acha que eu fazia bem em me casar com ele?
- Bem ou mal, conforme o amor que lhe tiver. Esse é o ponto
necessário, e em meu conceito, o ponto duvidoso. Receio que
a senhora o não ame deveras; já tive ocasião
de o dizer.
- Preciso de alguns esclarecimentos. O senhor amou decerto alguma
vez...
- Nunca.
- Nunca? Nunca teve um amor, um só que fosse? Não
creio. Um coronel! Nada; não creio; só se me jurasse;
era capaz de jurar?
- Juro.
- Em nome de sua mãe? concluiu ela fitando-lhe uns olhos
cuja expressão imperativa contrastava com o tom submisso
da palavra.
Jorge hesitou um instante. Tinha cepticismo bastante para proferir
uma fórmula vaga de juramento; mas recuou diante da fórmula
positiva. Hesitou e ladeou a pergunta.
- Esse nome resume justamente o meu único amor, disse ele;
amei a minha mãe.
Iaiá sorriu com ar de dúvida; depois olhou para ele
comovida. - Eu amo meu pai, redargüiu ela; nossos corações
podem entender-se.
A esta palavra não havia que replicar; pareceu-lhe a condenação
do pretendente. Apertou a mão que a moça lhe estendeu,
e sentiu-a fria. Após uma curta pausa, abanou a cabeça,
murmurando:
- Assim pois, nenhuma sombra de esperança...
- Faça o que entender, disse a moça no fim de outra
pausa. Em todo o caso desejo ler a resposta que lhe der.
Jorge abriu a carteira, e tirou de lá o rascunho da carta
que pretendia mandar a Procópio Dias.
- A resposta, disse ele, já está escrita. Não
querendo matá-lo, pus aqui algumas gotas de esperança;
não ousaria contudo mandar o remédio, sem ouvi-la.
Iaiá recebeu o papel dobrado, olhou um instante para ele,
outro para Jorge. - Leia, disse este. Iaiá não obedeceu:
pegou do lápis, e sobre a folha do papel dobrado começou
a lançar os traços de um desenho. Posto que a luz
batesse em cheio no papel, Jorge não pôde ver desde
logo o que era; mas esperava, em frente da moça, que ela
rematasse o capricho. Nessa ocasião, Estela foi ter com eles.
- Já acabou a lição? perguntou.
- Agora é uma lição de desenho, ao que parece,
disse Jorge.
Estela pôs a mão no ombro da enteada. - É o
Procópio Dias! disse ela olhando para o desenho. Era, mas
o desenho frisava com a caricatura; a fealdade de Procópio
Dias excedia as proporções verdadeiras, o nariz era
enormemente triangular, as rugas da testa grossas e infinitas: um
monstro cômico. Estela sorriu da travessura, mas repreendeu-a.
- Deixe ver, disse Jorge quando ela acabou.
- Para quê? retorquiu Iaiá com indiferença.
E levando o papel à chama, queimou-o. Jorge interrogou-a
com os olhos; ela encarou-o sem se perturbar. Depois folheou a gramática
lentamente.
- Continuemos a lição, disse ela. I love. Vá;
onde estávamos? Aqui, era aqui.
Estela assistiu à lição toda, com a paciência
da curiosidade. Tinha a fronte nublada, mas altiva, como um repto.
Não olhava nunca para o mestre, mais dividia a atenção
entre a discípula e o livro. A lição foi longa,
mais longa do que era necessário, porque o próprio
mestre não acompanhava pontualmente o texto e a leitura.
Iaiá tinha diante de si dous juízes, cada um dos quais
buscava decifrar-lhe na fronte a inscrição que lá
lhe teria posto o seu destino. Percebia-o, e não se enfadava.
Ia de um tempo a outro, e do indicativo ao imperativo, voltando
ao começo logo que chegava ao fim, fitando os dous inquisidores
com um olhar em que pareciam dormir todas as ignorâncias da
terra.
A tranqüilidade era aparente. Nessa noite, recolhida a seus
aposentos, a moça deu largas a dous sentimentos opostos.
Entrou ali prostrada. - Que estou eu fazendo? disse ela apertando
a cabeça entre os punhos. Abriu a veneziana da janela e interrogou
o céu. O céu não lhe respondeu nada; esse imenso
taciturno tem olhos para ver, mas não tem ouvidos para ouvir.
A noite era clara e serena; os milhões de estrelas que cintilavam
pareciam rir dos milhões de angústias da terra. Duas
delas despegaram-se e mergulharam na escuridão, como os figos
verdes do Apocalipse. Iaiá teve a superstição
de crer que também ela mergulharia ali dentro e cedo. Então,
fechou os olhos ao grande mundo, e alçou o pensamento ao
grande misericordioso, ao céu que se não vê,
mas de que há uma parcela ou um raio no coração
dos símplices. Esse ouviu-a e confortou-a; ali achou ela
apoio e fortaleza. Uma voz parecia dizer-lhe: - Prossegue a tua
obra; sacrifica-te; salva a paz doméstica. Restaurada a alma,
ergueu-se do primeiro abatimento. Quando abriu de novo os olhos,
não foi para interrogar, mas para afirmar, - para dizer à
noite que naquele corpo franzino e tenro havia uma alma capaz de
encravar a roda do destino.
Tarde conciliou o sono. Já dia claro, sonhou que ia calcando
a beira de um abismo, e que uma figura de mulher lhe lançava
as mãos à cinta e a levantava ao ar como uma pluma.
Pálida, com o olhar desvairado, a boca irônica, essa
mulher sorria, de um sorriso triunfante e mau; murmurava algumas
frases truncadas que ela não entendia. Iaiá bradou-lhe
em alta voz: - Dize-me que não amas e eu te amarei como te
amava! Mas a mulher sacudindo a cabeça com um gesto trágico,
e colando-lhe os lábios nos lábios, soprou ali um
beijo convulso e frio como a morte. Iaiá sentiu-se desfalecer
e rolou ao abismo. Acordou agitada e deu com a madrasta, a contemplá-la,
ao pé da cama. No primeiro instante, fechou os olhos e recuou
até a parede; mas logo depois voltou a si.
- Tive um pesadelo horrível, disse ela respirando largamente;
rolei no fundo de um abismo, empurrada por duas mãos de ferro.
Ainda estou fria. Veja as minhas mãos. Tenho o peito oprimido.
Felizmente passou. Está aqui há muito tempo? Eu agitei-me
muito?
- Falaste em voz bem alta.
- Que foi?
- "Dize-me que não amas e eu te amarei como te amava."
Não sei que estas palavras se possam dizer no fundo de um
abismo. Tu confundes os sonhos...
- Talvez; não me lembra outra cousa. Só me lembro
do abismo, que felizmente não passou da minha imaginação.
É muito tarde, não é?
- Nove horas.
- Nove horas!
Estela foi à janela, e, abrindo a veneziana, mostrou-lhe
o sol. Depois encostou-se ali a olhar para fora. Entrara alguns
minutos antes, admirada do prolongado sono da enteada, e ia pousar-lhe
a mão no ombro, quando ouviu aquela palavra balbuciada no
meio de grande agitação; palavra misteriosa e vaga,
mas que se lhe embebeu no coração como um espinho.
De sua parte, Iaiá não estava menos inquieta. Receava
que houvesse dito alguma cousa mais, - um nome ou uma circunstância
precisa; - em todo caso, era bastante o que ouvira a madrasta, para
imaginar que o sonho lhe escancarara as portas da consciência.
Uma e outra espreitavam-se desconfiadas e medrosas. A madrasta deixou
a janela e foi sentar-se na beira da cama. Ambas sorriam com esforço
e nenhuma conseguia falar primeiro. Correram assim três longos
minutos de acanhamento e observação recíproca.
Estela foi a primeira que rompeu o silêncio.
- O teu pesadelo foi um castigo, disse ela; foi o castigo da caricatura
que ontem fizeste. Aquilo não é bonito. Todos sabem
que o Procópio Dias é bem recebido em nossa casa.
Que se há de pensar de nós, quando virem que se tratam
assim as pessoas ausentes?
Iaiá refletiu um instante. - Era preciso, disse ela; era
uma maneira de desenganar de uma vez as pretensões desse
senhor.
- Mas quem te falou nelas?
- O Dr. Jorge, que parece protegê-lo. Não é
possível que haja ninguém mais feliz do que aquele
homem. Bastou gostar de mim, para que todos se empenhem em aprová-lo
e aconselhar-me que não devo tomar outro marido. Parece-lhe
que eu...
- A que propósito te falou nisso o Dr. Jorge?
- A propósito de cousa nenhuma; falou porque é amigo
dele. Não lhe disse eu uma vez que um dia, se todos teimarem,
serei obrigada a casar com o Procópio Dias? Receio muito
que assim aconteça.
- Não, disse Estela vivamente; não há de acontecer
assim, primeiramente porque eu não o consentirei nunca; depois,
porque tu amas a outro...
- Eu?
- O teu amor de colégio, aos doze anos e meio...
- Ah! disse Iaiá. E depois de alguns instantes continuou,
com um gesto de grande vergonha: - Fiz mal em lhe dizer aquilo;
peço-lhe que não repita a ninguém.
Estela não ouviu estas últimas palavras. Erguera-se
outra vez para dissimular a comoção, que parecia crescer.
Entretanto, Iaiá enfiou um roupão e enterrou o pé
na chinelinha matinal. Quando, cinco minutos depois, encontrou os
olhos de Estela, achou-os sombrios, como os da figura do pesadelo,
e insensivelmente buscou ver se teria um abismo ao pé de
si.
- Iaiá, disse Estela em tom seco, tu amas, tu confessas que
amas a alguém; quero que me digas o nome desse homem, ouves?
Exijo sabê-lo para avaliar o que te convém. Sabes que
tenho autoridade de mãe.
Iaiá sentiu ferver-lhe o sangue nas veias.
- Minha mãe morreu, redargüiu com igual sequidão;
estou pronta a obedecer a meu pai.
Estela ouviu essa resposta como um ultraje; mas o rosto apenas denunciou
a sensação interior; após alguns instantes
de silêncio, saiu.
Longe da enteada, a madrasta deu inteira expansão aos sentimentos
que a combaliam. Fechou-se no gabinete do marido; depois evocou
o passado, como uma força contra o presente, porque era o
presente que ameaçava tragá-la. Um instante abalada
pela leitura da carta de 1867, buscou recobrar a antiga quietação,
mas a interferência de Iaiá perturbou essa obra de
sinceridade. O procedimento da enteada, a súbita conversão
às atenções de Jorge, toda aquela intimidade
visível e recente, acordara no coração de Estela
um sentimento, que nem aos orgulhosos poupa. Estímulo ou
ciúme, revolvera a cinza morna e achou lá dentro uma
brasa. Suspeitou a rivalidade da outra, e não foi preciso
mais para que o grito de rebelião fizesse estremecer aquela
alma solitária e virgem. O pensamento perdeu a habitual placidez.
O coração, que é o pulso da alma, começou
de bater com a celeridade e a violência das grandes febres.
As naturezas débeis inclinam-se ao erro; as voluptuárias
acham nele o próprio ar de seus pulmões; as frias
não chegam a distingui-lo, não têm ocasião
de lutar. Estela não pertencia a nenhuma daquelas classes;
tinha porém as energias latentes de um amor comprimido, mas
intenso, como uma cratera que acaso fechasse uma abóbada
de gelo; pior que tudo, tinha a fatalidade de um longo constrangimento,
a luta de duas forças igualmente pujantes, indomáveis
e cegas. O orgulho vencera uma vez; agora era o amor, que, durante
os anos de jugo e compressão, criara músculos e saía
a combater de novo. Seu triunfo seria uma catástrofe, porque
Estela não dispunha da arte de combinar a paixão espúria
com a tranqüilidade doméstica, não poderia nunca
misturar esta água com aquele lodo. Teria as lutas e as primeiras
dissimulações, que as acompanham; uma vez subjugada,
iria direito ao mal.
Ora, no meio desse duelo, já doloroso, embora ainda curto,
ouviu Estela a última palavra da enteada, comentário
da que lhe escapara na agitação do pesadelo. Saiu
dali aterrada, tateando as sombras, e desviando os olhos quando
algum clarão de realidade se lhe acendia ao longe. Não
podia crer na rivalidade consciente e declarada de Iaiá;
era inverossímil, seria a sua própria vergonha e condenação.
Mas as palavras retiniam-lhe ao ouvido, e o gesto frio e duro da
enteada parecia clarear o que havia obscuro nelas.
Não podia durar muitas horas a situação em
que a fatalidade das circunstâncias havia posto as duas mulheres.
Iaiá era a mais dúctil, e, outrossim, a mais interessada.
Logo que Estela a deixou só, caiu em si e compreendeu que,
além de ferir cruelmente a mulher que lhe servia de mãe,
levantara uma ponta do véu em que trazia envolto o pensamento;
ao demais, a injúria produzira a reação do
amor, - do amor que lhe tinha e não perdera de todo, apesar
dos acontecimentos últimos. Na seguinte manhã foi
ter com a madrasta.
- Confesso que fui excessiva e desobediente, disse ela; não
o devia ser, mas a senhora falou com um modo tão seco! tão
duro. Pareceu-me que duvidava de mim; fosse o que fosse, não
era o seu modo do costume. Sempre a respeitei como minha mãe;
não nego, não poderia negar nunca os seus direitos,
assim como não desconheço a sua amizade; mas a senhora
mesma tem um bocadinho de culpa; sempre me tratou antes como irmã
do que como filha. Daí veio alguma confiança, alguma
liberdade, e foi por isso que ontem cheguei a esquecer quem éramos,
para a tratar como não devia. Foi isso somente; foi um excesso,
uma leviandade, nada mais. Interrogue o seu próprio coração
e ele lhe responderá que não foi mais do que isso.
Vá; pergunte-lhe, ele me conhece.
Estela escutou-a silenciosamente, sem vergar a altivez da fronte,
mas também sem nenhuma expressão de despeito ou desafio.
Luzia-lhe nos olhos alguma cousa que espreitava a alma da outra
por baixo das pálpebras descidas. Iaiá falara de um
jato, mas não de um só tom; simplicidade, timidez,
faceirice, - havia de tudo na maneira por que se exprimiu durante
aqueles poucos segundos. A explicação era a um tempo
sincera e hábil, mas de tal modo se confundiam os dous caracteres,
que a própria habilidade não tinha consciência
de si: era antes um instinto do que um cálculo.
- Que me pedes tu? disse Estela no fim de alguns instantes. Que
te perdoe? Que esqueça a tua imprudência? Uma cousa
é mais fácil do que a outra. Estás absolvida;
faze agora com que eu esqueça.
- Por que não? eu consegui fazer com que me amasse, quando
a senhora não sabia ainda se eu era má ou boa.
- Era fácil. Tua mãe era tua mãe; mas não
te amou mais do que eu. Se alguma vez o reconheceste, não
foi ontem; ontem cedeste a um mau preconceito contra as madrastas,
e levantaste entre mim e ti um espectro, que se pudesse falar seria
para te condenar também. Não me queixo; nunca me queixei
de cousa nenhuma: quando estimo alguém, perdôo; quando
não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro,
mas não é impossível; está nas tuas
mãos.
Subjugada pelo tom com que a madrasta falara, simples, severo e
levemente repassado de tristeza, Iaiá cedeu a um nobre impulso
de submissão. Pegou-lhe as mãos e beijou-as. A madrasta
sentiu nelas uma lágrima. Não recusou esse testemunho
do coração, e tê-la-ia apertado ao seio se lho
permitisse a inflexibilidade do espírito. Limitou-se a contemplá-la
com os olhos amoráveis de outro tempo.
Quando se separaram daí a alguns minutos, alguma cousa dizia
à consciência de ambas que não vinham de fundar
a paz, mas simples tréguas. Essa persuasão cresceu
nos demais dias, porque uma e outra sentiam-se mutuamente observadas.
Como houvesse entre elas um acordo tácito para não
turbar a paz doméstica, Luís Garcia não percebeu
essa situação nova; Jorge ainda menos do que ele.
Iaiá não alterou os hábitos dos últimos
dias, conquanto usasse mais alguma cautela; as relações
dos dous eram, aliás, tão freqüentes e familiares
como dantes. Uma vez, como a ausência de Jorge se houvesse
prolongado além do costume, Iaiá mostrou-se-lhe um
pouco retraída; e, perguntando-lhe ele o que tinha, respondeu
afoitamente, que a ausência a magoara muito.
- Quatro dias apenas, observou ele.
Iaiá abanou a cabeça e redargüiu sorrindo: -
O senhor não é um mestre; é um verdugo.
No primeiro domingo de março, Jorge foi ali às onze
horas da manhã, e só achou Luís Garcia e Estela.
Iaiá tinha ido à casa de Maria das Dores. Quando a
moça voltou, Jorge e Estela estavam no jardim, ao pé
da porta da sala; entre ambos havia uma cadeira vaga, - a de Luís
Garcia, que fora dentro alguns minutos antes. Nenhum dos dous falava
nessa ocasião; Estela estalava as unhas, Jorge batia na testa
com o castão da bengala. Era constrangimento? Era dissimulação?
Iaiá não soube decidir; mas o aspecto dos dous deixou-a
sem pinga de sangue.
No dia seguinte voltou à casa de Maria das Dores; sabia do
passeio usual de Jorge; queria vê-lo, falar-lhe. A doente
não contava com a visita tão próxima da outra.
Iaiá esteve com ela apenas alguns minutos, e saiu fora, a
pretexto de que fazia calor e queria ver a tarde. A tarde era bela;
o céu tinha todos os tons, desde o escarlate até o
opala; ao nascente, algumas nuvens, raras e finas, manchavam de
branco o eterno azul.
A casa ficava numa pequena elevação; Iaiá sentou-se
numa pedra lisa, que servia de banco, e dali circulou um olhar pelo
horizonte; depois desceu os olhos à cidade e ao mar, e esse
espetáculo, tão saído deles, levou-a aos tempos,
não mui remotos, em que entre ela e o pai nenhum coração
viera interpor-se. No meio das reflexões, viu parar um homem,
ao longe; era Jorge; vinha a pé, em atitude de quem medita.
Passaria ele sem a ver? Ergueu-se; viu-o aproximar-se, parar de
novo e olhar na direção da casa. Cortejou-o de longe
e fez-lhe sinal para que subisse. Jorge obedeceu sem dificuldade.
Maria das Dores, doente de uma paralisia ficou estupefacta quando
viu entrar um desconhecido pela mão de Iaiá, um homem
cujo traje e aspecto contrastavam com a nudez da casa. Interrogou
a moça com os olhos; e Iaiá, depois de um instante
de acanhado silêncio, respondeu com desgarre:
- É meu noivo, que vem vê-la. Quero que o conheça
e não diga a ninguém, ouviu?
Dizendo isto, aproximou-o mais da paralítica. A boa velha
contemplou-o alguns instantes, disse-lhe algumas palavras de conselho,
pediu-lhe que fizesse feliz a sua filha de criação,
e não obteve dele uma palavra ou um gesto de assentimento.
Supô-lo comovido; mas ele estava simplesmente atônito.
Saindo fora de casa, assentaram-se à porta, na mesma pedra,
assaz larga e extensa para dous.
- Foi preciso dizer-lhe aquilo, explicou Iaiá, porque eu
desejo conversar com o senhor, e os noivos conversam mais à
vontade. Demais, ela não é só paralítica;
tem a vista fraca; amanhã posso substituí-lo, sem
que ela dê pela mudança. Agora falemos de nós
e daquela carta... E antes da carta, diga-me, sabia que eu estava
aqui?
- Não; mas não vim até estes lados sem esperança
de a encontrar. Já que fala na carta, deixe-me dar-lhe uma
explicação; se a não dei até hoje, é
porque não quisera voltar a um assunto, aborrecido para a
senhora e para mim.
- Para o senhor?
- Para mim.
Iaiá apertou-lhe a mão com força. - Vá,
disse; também tenho de lhe dizer alguma coisa grave; mas
ouçamos primeiro a sua explicação.
- Oh! custa pouco, acudiu Jorge. Escrevi o esboço da carta
por me parecer que podia ser-lhe agradável. Lembra-se que
uma vez me havia falado naquele sentido? Duvidei mais tarde, e disse-lho.
Contudo, havia tanta incerteza e contradição entre
suas palavras e ações, que não era difícil
supor alguma cousa; há paixões que começam
assim caprichosamente. A carta era um meio de dizer ao pretendente
que seus suspiros podiam não ser inúteis. Era isso;
só isso. Confesso que adotei o papel mais passivo, desinteressado,
e não sei até se... creio que a senhora já
o qualificou de ridículo. A forma podia não ser grave,
mas a intenção era afetuosa, e se merecia um riso,
também merecia um aperto de mão. Esboçada a
carta, não a mandaria sem mostrá-la; foi o que fiz;
mas sua reprovação foi tão eloqüente,
que me fez cair em mim e reconhecer que a carta era de mais.
- Era de menos.
- Queria então que fosse eu próprio a Buenos Aires?
perguntou Jorge sorrindo.
- Queria, se ao chegar lhe dissesse: - Pense em outra cousa; Iaiá
não o ama.
- Para isso, basta que lhe não diga nada.
- Não o ama, repetiu a moça; não o ama, não
o ama.
- Desta vez é sério e definitivo?
- Que admira? replicou a moça com gravidade. Não lhe
parece a cousa mais natural do mundo que uma moça não
ame o Procópio Dias? Não sei o que são os outros
homens; poucos tenho visto; nossa vida é tão retirada!
Mas, enfim, não me parece que o Procópio Dias seja
homem de se ficar morrendo por ele. E contudo ele morre por mim.
Meu coração perdoa-lhe; é o mais que pode fazer.
Aceitá-lo seria impossível. Já reparou nos
olhos dele? Têm às vezes uma expressão esquisita,
que não vejo nos olhos de papai nem nos seus. Não
gosto dele; não poderia gostar nunca.
Desta vez foi Jorge que lhe apertou a mão.
- Tem razão, disse ele; se o não ama deveras está
tudo acabado. Não lhe digo que ele fosse um noivo perfeito;
não podia ser; mas aceitável era. Hoje percebo que
entre a senhora e ele há alguns contrastes; mas o que é
que não concilia o tempo? Esqueça o que lhe disse
a tal respeito; e assentemos não falar mais de semelhante
assunto. Provavelmente não escreverei nada; é duro
dizer a um homem que todas as suas esperanças são
vãs.
- A paz do meu espírito não valerá esse sacrifício?
- Vale mais; posso fazê-lo.
Iaiá refletiu.
- Não, não é preciso; não lhe diga nada;
ele há de entender tudo.
Como fizessem uma pausa longa, viram duas ou três pessoas,
que passavam embaixo, olharem para cima com certo ar curioso e indiscreto.
Jorge ergueu-se.
- Estamos dando na vista, disse ele; hão-de supor que somos
dous namorados.
- Sente-se, disse Iaiá em tom intimativo. E continuou: -
Que perde o senhor com isso? Dirão que não tem mau
gosto em amar uma moça bonita.
- Se dissessem que éramos dous namorados, erravam decerto,
porque eu sei... eu suspeito que a senhora ama a outro. Uso dos
meus direitos de confidente, exigindo que me diga a verdade.
- Toda, respondeu Iaiá, e era esse o ponto grave de que lhe
queria falar. Ainda uma vez, o senhor estima-me? tem-me amizade
sincera?
- Pois duvida?
- Eu duvido de tudo e de todos; até de mim. Mas enfim, preciso
de alguém que me ouça, a quem eu conte o que penso
e o que sinto, e até o que receio, porque também receio,
e há horas em que tremo sem saber de quê. É
verdade, há ocasiões em que me parece que uma grande
infelicidade vai cair sobre mim, e daí a nada penso justamente
o contrário; penso que vou receber a maior felicidade do
mundo, e fico alegre como um passarinho. Cousas de criança,
não é?
- Não, cousas de moça. É certo que ama? a quem?
Iaiá olhou para ele algum tempo, satisfeita da impaciência
que parecia ler-lhe na fronte.
- Respondo que sim e que não, disse ela. Se me pergunta a
quem amo, digo-lhe que não sei, não amo ninguém;
mas sinto alguma cousa misteriosa e esquisita, e não sei...
desconfio... não sei que seja. Por que é que as mesmas
cousas, que me eram indiferentes, agora me parecem interessantes,
e até chego a supor que me falam? Ainda há pouco,
antes de o ver, estava a olhar embebida para o céu, quase
sem pensar, mas ainda assim curiosa ou ansiosa; olhava para o céu
e para o mar; o coração apertou-se-me; depois alargou-se-me
como se quisesse devorar tudo. Há dias em que me levanto
alegre e viva, como uma criança; papai diz que são
os meus dias azuis. Há outros em que tenho vontade de quebrar
tudo, e não digo mais de duas palavras em cada hora; são
os meus dias negros. Ouço às vezes uma voz que fala;
penso que é alguém e reconheço que a voz é
a da minha própria imaginação. Tudo será
imaginação, creio; mas é tão novo e
tão bom! Em todo caso, parece-me extraordinário, e
se não é loucura... É verdade, às vezes
penso que vou ficar doida, e nessas ocasiões tenho medo.
Será isso?
- Não, acudiu Jorge, não é loucura, é
sabedoria, é a grande sabedoria da natureza. Isso que sente,
não será amor; mas é a necessidade de amar;
é o rebate que lhe dá o coração. Alguém
virá um dia, e a voz anônima que a senhora costuma
ouvir, lhe falará então pela boca do homem que o coração
lhe apontar.
Iaiá escutava-o como encantada, mas sem olhar para ele. Quando
Jorge acabou, fez-se entre ambos uma longa pausa. A moça
tinha os olhos no horizonte onde as cores da tarde desmaiavam rapidamente.
Jorge contemplava-a tomado de interesse e até de inveja;
compreendia os primeiros sobressaltos desse coração
em flor, e dizia a si mesmo que há sensações
que o tempo leva para não restituir mais.
Iaiá acordou de suas reflexões.
- Francamente, disse ela; o senhor não se ri de mim?
- Rir? A senhora não me conhece. Não há que
rir de sentimentos sinceros; e seria pagar muito mal a confiança
de que me dá prova. Não me julgue um espírito
vulgar...
- Papai faz-lhe muitos elogios.
- Há de saber, ou fica sabendo que minha natureza simpatiza
com o que está acima do comum. A senhora vale muito; posso
dizer que há dous meses eu ainda a não conhecia...
- Não tente a minha vaidade, interrompeu Iaiá; prefiro
que me dê um bom conselho.
- Dou-lhe um, disse Jorge depois de curta pausa; resista um pouco
a essas sensações, cujo excesso pode perturbar-lhe
a existência. Não é só o coração
que lhe fala, é também a imaginação,
e a imaginação, se é boa amiga, tem seus dias
de infidelidade. Dê um pouco de poesia à vida, mas
não caia no romanesco; o romanesco é pérfido.
Eu, que lhe falo, lastimo não ter já essa ordem de
sentimentos em flor, e contudo não sei se ganharia com eles.
- Quê! não seria capaz de amar?
- Meu coração não envelheceu ainda.
- Entendo; amaria hoje de outro modo...
- De outro modo, e tão sinceramente como dantes; um amor
de olhos abertos.
- Penso que o amor verdadeiro, ou ao menos o melhor, é o
que não vê nada em volta de si, e caminha direito,
resoluto e feliz aonde o leva o coração. Para que
servem os olhos abertos?
- A senhora quer saber muita coisa, disse Jorge sorrindo. Não
basta que o coração lhe diga: ame a este; é
preciso que os olhos aprovem a escolha do coração.
Admira-se? Ouça-me até o fim; eu desejo preservá-la
de alguma escolha má. Eleja um marido digno, um espírito
que a entenda, que a admire, um homem que a possa honrar; não
se deixe levar dos primeiros olhos que pareçam responder
aos seus...
Iaiá abaixou a cabeça.
- Não acharei nenhuns, disse ela; eu creio que este amor
morrerá comigo...
Como essa idéia parecesse entristecê-la, Jorge sentiu-se
tomado de compaixão, ao ver que persistia naquela aurora
pura uma sombra de superstição romanesca. Pegou-lhe
na mão, viu-a estremecer, recusar-lha e cruzar os braços.
- Tem medo de mim? disse ele ao cabo de um instante.
- Tenho.
Jorge calou-se. Com a bengala entrou a reproduzir no chão
umas reminiscências de geometria. Sentia-se atalhado, curioso;
e tanto desejava como lhe custava sair dali. Não chegava
a entendê-la claramente; a verdade, quando ia a tocá-la,
parecia inverossímil. Entretanto, Iaiá não
rompia o silêncio; tinha a fronte pendida e meditava. Talvez
meditava na palavra que acabava de proferir, fruto da situação
violenta em que ela própria ou os acontecimentos a haviam
colocado. Era a rebelião do pudor. De quando em quando, sacudia
a fronte como a expelir uma idéia enfadonha ou cruel. Numa
dessas vezes, Jorge disse com brandura:
- Para que negá-lo? a senhora padece; não sei se com
razão ou sem ela, mas parece padecer muito.
- Oh! muito!
E dessa vez a palavra era tão angustiosa, tão sincera,
tão vinda do coração, que ele cedeu antes a
um impulso de generosidade do que à conveniência de
não ser repelido segunda vez. Pegou-lhe nas mãos e
pediu-lhe que fosse até o fim da confiança, dizendo-lhe
a causa de seus males. Talvez ele pudesse removê-los.
Iaiá inclinou o rosto sobre as mãos de Jorge. Este
sentiu nelas algumas lágrimas, vertidas sem soluços.
Não passava ninguém; mas ele nem teve tempo de refletir
na possibilidade de um estranho. Inclinou-se também e perguntou-lhe
afetuosamente o que tinha. Iaiá ergueu a cabeça, e
enxugou os olhos, mas não respondeu nada.
- A senhora não tem confiança em mim, disse Jorge.
- Há cousas que se não fazem, outras que se não
dizem; algumas ficarão entre mim e Deus, retorquiu ela como
se fizesse uma reflexão para si. Depois fitou-o e pediu-lhe
a promessa de que não diria nada do que acabava de ver e
ouvir.
- Essa promessa não se faz; está feita por si. Quanto
ao seu segredo, não quero violentá-lo, mas tenho esperança
de que a senhora mesma o há de dizer um dia; eu saberei obter-lhe
esse resto de confiança que ainda me nega.
- Já! exclamou a moça vendo Jorge levantar-se.
- Repare que a noite vem caindo; não posso ficar nem mais
um minuto. Um confidente tem limites. Olhe; não peço
muita cousa, mas desejo alguma cousa mais. Confidente é pouco;
mestre é ainda menos. Dê-me outro título ou
cargo; deixe-me ser seu... seu quê? seu... seu irmão.
Sim?
- Não! disse ela energicamente.
Jorge empalideceu, como se acabasse de ver o fundo da alma da moça.
A negativa era alguma cousa mais do que um capricho. Não
retorquiu; estendeu-lhe a mão.
- Até quando? disse ela.
- Até amanhã.
Três minutos depois, Jorge estava na rua. A noite descia rapidamente.
Ele não olhou para trás; se olhasse veria a figura
de Iaiá envolta já na meia sombra do crepúsculo.
Veria mais; vê-la-ia refletir um pouco e espalmar a mão
no ar, como uma ameaça, na direção em que ele
ia.
Iaiá entrou na casa da doente.
- Seu noivo? disse esta.
- Já foi.
- Quando é o casamento?
- O dia não sei. E depois de uma pausa. - Mas que se há
de fazer é certo. Ou eu não sou quem sou.
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