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Histórias Sem Data
Machado de Assis



MANUSCRITO DE UM SACRISTÃO

I


....................... Ao dar com o padre Teófilo
falando a uma senhora, ambos sentadinhos no banco da
igreja, e a igreja deserta, confesso que fiquei espantado.
Note-se que conversavam em voz tão baixa e discreta, que
eu, por mais que afiasse o ouvido e me demorasse a apagar
as velas do altar, não podia apanhar nada, nada, nada. Não
tive remédio senão adivinhar alguma coisa. Que eu sou um
sacristão filósofo. Ninguém me julgue pela sobrepeliz rota
e amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Sou um
filósofo sacristão. Tive estudos eclesiásticos, que
interrompi por causa de uma doença e que inteiramente
deixei por outro motivo, uma paixão violenta, que me
trouxe à miséria. Como o seminário deixa sempre um certo
vinco, fiz-me sacristão aos trinta anos, para ganhar a
vida. Venhamos, porém, ao nosso padre e à nossa dama.


II

Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois
que eram primos, nascidos em Vassouras. Os pais dela
mudaram-se para a Corte, tendo Eulália (é o seu nome) sete
anos. Teófilo veio depois. Na família era uso antigo que
um dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na Bahia um tio
dele, cônego. Cabendo-lhe nesta geração envergar a batina,
veio para o seminário de São José, no ano de mil
oitocentos e cinqüenta e tantos, e foi aí que o conheci.
Compreende-se o sentimento de discrição que me leva a
deixar a data no ar.


III

No seminário, dizia-nos o lente de retórica:

- A teologia é a cabeça do gênero humano, o latim a perna
esquerda, e a retórica a perna direita.

Justamente da perna direita é que o Teófilo coxeava. Sabia
muito as outras coisas: teologia, filosofia, latim,
história sagrada; mas a retórica é que lhe não entrava no
cérebro. Ele, para desculpar-se, dizia que a palavra
divina não precisava de adornos. Tinha então vinte ou
vinte e dois anos de idade, e era lindo como São João.

Já nesse tempo era um místico; achava em todas as coisas
uma significação recôndita. A vida era uma eterna missa,
em que o mundo servia de altar, a alma de sacerdote e o
corpo de acólito; nada respondia à realidade exterior.
Vivia ansioso de tomar ordens para sair a pregar grandes
coisas, espertar as almas, chamar os corações à Igreja, e
renovar o gênero humano. Entre todos os apóstolos, amava
principalmente São Paulo.

Não sei se o leitor é da minha opinião; eu cuido que se
pode avaliar um homem pelas suas simpatias históricas; tu
serás mais ou menos da família dos personagens que amares
deveras. Aplico assim aquela lei de Helvetius: "O grau de
espírito que nos deleita dá a medida exata do grau de
espírito que possuímos." No nosso caso, ao menos, a regra
não falhou. Teófilo amava São Paulo, adorava-o, estudava-o
dia e noite, parecia viver daquele converso que ia de
cidade em cidade, à custa de um ofício mecânico,
espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha somente esse
modelo, tinha mais dois: Hildebrando e Loiola. Daqui
podeis concluir que nasceu com a fibra da peleja e do
apostolado. Era um faminto de ideal e criação, olhando
todas as coisas correntes por cima da cabeça do século. Na
opinião de um cônego, que lá ia ao seminário, o amor dos
dois modelos últimos temperava o que pudesse haver
perigoso em relação ao primeiro.

- Não vá o senhor cair no excesso e no exclusivo, disse-
lhe um dia com brandura; não pareça que, exaltando somente
a Paulo, intenta diminuir Pedro. A Igreja, que os comemora
ao lado um do outro, meteu-os ambos no Credo; mas
veneremos Paulo e obedeçamos a Pedro. Super hanc petram...

Os seminaristas gostavam do Teófilo, principalmente três,
um Vasconcelos, um Soares e um Veloso, todos excelentes
retóricos. Eram também bons rapazes, alegres por natureza,
graves por necessidade e ambiciosos. Vasconcelos jurava
que seria bispo; Soares contentava-se com algum grande
cargo; Veloso cobiçava as meias roxas de cônego e um
púlpito. Teófilo tentou repartir com eles o pão místico
dos seus sonhos, mas reconheceu depressa que era manjar
leve ou pesado demais, e passou a devorá-lo sozinho. Até
aqui o padre; vamos agora à dama.


IV

Agora a dama. No momento em que os vi falar baixinho na
igreja, Eulália contava trinta e oito anos de idade. Juro-
lhes que era ainda bonita. Não era pobre; os pais
deixaram-lhe alguma coisa. Nem casada; recusou cinco ou
seis pretendentes.

Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma delas
era capaz de repelir um noivo. Creio até que não pediam
outra coisa, quando rezavam antes de entrar na cama, e ao
domingo, à missa, no momento de levantar a Deus. Por que é
que Eulália recusava-os todos? Vou dizer desde já o que
soube depois. Supuseram-lhe, a princípio, um simples
desdém, - nariz torcido, dizia uma delas; - mas, no fim da
terceira recusa, inclinaram-se a crer que havia namoro
encoberto, e esta explicação prevaleceu. A própria mãe de
Eulália não aceitou outra. Não lhe importaram as primeiras
recusas; mas, repetindo-se, ela começou a assustar-se. Um
dia, voltando de um casamento, perguntou à filha, no carro
em que vinham, se não se lembrava que tinha de ficar só.

- Ficar só?

- Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo são flores; cá
estou para governar a casa; e você é só ler, cismar, tocar
e brincar; mas eu tenho de morrer, Eulália, e você tem de
ficar só...

Eulália apertou-lhe muito a mão, sem poder dizer palavra.
Nunca pensara na morte da mãe; perdê-la era perder metade
de si mesma. Na expansão de momento, a mãe atreveu-se a
perguntar-lhe se amava alguém e não era correspondida;
Eulália respondeu que não. Não simpatizara com os
candidatos. A boa velha abanou a cabeça; falou dos vinte e
sete anos da filha, procurou aterrá-la com os trinta,
disse-lhe que, se nem todos os noivos a mereciam
igualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que
importava a falta de amor? O amor conjugal podia ser assim
mesmo; podia nascer depois, como um fruto da convivência.
Conhecera pessoas que se casaram por simples interesse de
família e acabaram amando-se muito. Esperar uma grande
paixão para casar era arriscar-se a morrer esperando.

- Pois sim, mamãe, deixe estar...

E, reclinando a cabeça, fechou um pouco os olhos para
espiar alguém, para ver o namorado encoberto, que não era
só encoberto, mas também e principalmente impalpável.
Concordo que isto agora é obscuro; não tenho dúvida em
dizer que entramos em pleno sonho.

Eulália era uma esquisita, para usarmos a linguagem da
mãe, ou romanesca, para empregarmos a definição das
antigas. Tinha, em verdade, uma singular organização. Saiu
ao pai. O pai nascera com o amor do enigmático, do
arriscado e do obscuro; morreu quando aparelhava uma
expedição para ir à Bahia descobrir a "cidade abandonada".
Eulália recebeu essa herança moral, modificada ou agravada
pela natureza feminil. Nela dominava principalmente a
contemplação. Era na cabeça que ela descobria as cidades
abandonadas. Tinha os olhos dispostos de maneira que não
podiam apanhar integralmente os contornos da vida. Começou
idealizando as coisas, e, se não acabou negando-as, é
certo que o sentimento da realidade esgarçou-se-lhe até
chegar à transparência fina em que o tecido parece
confundir-se com o ar.

Aos dezoito anos, recusou o primeiro casamento. A razão é
que esperava outro, um marido extraordinário, que ela viu
e conversou, em sonho ou alucinação, a mais radiosa figura
do universo, a mais sublime e rara, uma criatura em que
não havia falha ou quebra, verdadeira gramática sem
irregularidades, pura língua sem solecismos.

Perdão, interrompe-me uma senhora, esse noivo não é obra
exclusiva de Eulália, é o marido de todas as virgens de
dezessete anos. Perdão, digo-lhe eu, há uma diferença
entre Eulália e as outras, é que as outras trocam
finalmente o original esperado por uma cópia gravada,
antes ou depois da letra, e às vezes por uma simples
fotografia ou litografia, ao passo que Eulália continuou a
esperar o painel autêntico. Vinham as gravuras, vinham as
litografias, algumas muito bem acabadas, obra de artista e
grande artista, mas para ela traziam o defeito de ser
cópias. Tinha fome e sede de originalidade. A vida comum
parecia-lhe uma cópia eterna. As pessoas do seu
conhecimento caprichavam em repetir as idéias umas das
outras, com iguais palavras, e às vezes sem diferente
inflexão, à semelhança do vestuário que usavam, e que era
do mesmo gosto e feitio. Se ela visse alvejar na rua um
turbante mourisco ou flutuar um penacho, pode ser que
perdoasse o resto; mas nada, coisa nenhuma, uma constante
uniformidade de idéias e coletes. Não era outro o pecado
mortal das coisas. Mas, como tinha a faculdade de viver
tudo o que sonhava, continuou a esperar uma vida nova e um
marido único.

Enquanto esperava, as outras iam casando. Assim perdeu ela
as três principais amigas: Júlia Costinha, Josefa e
Mariana. Viu-as todas casadas, viu-as mães, a princípio de
um filho, depois de dois, de quatro e de cinco. Visitava-
as, assistia ao viver delas, sereno e alegre, medíocre,
vulgar, sem sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim
se passaram os anos; assim chegou aos trinta, aos trinta e
três, aos trinta e cinco, e finalmente aos trinta e oito
em que a vemos na igreja, conversando com o padre Teófilo.


V

Naquele dia mandara dizer uma missa por alma da mãe, que
morrera um ano antes. Não convidou ninguém: foi ouvi-la
sozinha. Ouviu-a, rezou, depois sentou-se no banco.

Eu, depois de ajudar à missa, voltei para a sacristia, e
vi ali o padre Teófilo, que viera da roça duas semanas
antes e andava à cata de alguma missa para comer. Parece
que ele ouviu do outro sacristão ou do mesmo padre
oficiante o nome da pessoa sufragada; viu que era o da tia
e correu à igreja, onde ainda achou a prima no banco.
Sentou-se ao pé dela, esquecido do lugar e das posições, e
falaram naturalmente de si mesmos. Não se viam desde
longos anos. Teófilo visitara-as logo depois de ordenado
padre; mas saiu para o interior e nunca mais soube delas,
nem elas dele.

Já disse que não pude ouvir nada. Estiveram assim perto de
meia hora. O coadjutor veio espiar, deu com eles e ficou
justamente escandalizado. A notícia do caso chegou, dois
dias depois, ao bispo. Teófilo recebeu uma advertência
amiga, subiu à Conceição e explicou tudo: era uma prima, a
quem não via desde muito. O padre coadjutor, quando soube
da explicação, exclamou com muito critério que o ser
parente não lhe trocava o sexo nem supria o escândalo.

Entretanto, como eu tinha sido companheiro do Teófilo no
seminário e gostava dele, defendi-o com muito calor e fiz
chegar o meu testemunho ao palácio da Conceição. Ele
ficou-me grato por isso, e daí veio a intimidade de nossas
relações. Como os dois primos podiam ver-se em casa,
Teófilo passou a visitá-la, e ela a recebê-lo com muito
prazer. No fim de oito dias, recebeu-me também; ao cabo de
duas semanas era eu um dos seus familiares.

Dois patrícios que se encontram em plaga estrangeira e
podem finalmente trocar as palavras mamadas na infância
não sentem maior alvoroço do que estes dois primos, que
eram mais que primos: moralmente eram gêmeos. Ele contou-
lhe a vida e, como os acontecimentos acarretassem os
sentimentos, ela olhou para dentro da alma do primo e
achou que era a sua mesma alma e que, em substância, a
vida de ambos era a mesma. A diferença é que uma esperou
quieta o que o outro andou buscando por montes e vales; no
mais, igual equívoco, igual conflito com a realidade,
idêntico diálogo de árabe e japonês.

- Tudo o que me cerca é trivial e chocho, dizia-lhe ele.

Com efeito, gastara o aço da mocidade em divulgar uma
concepção que ninguém lhe entendeu. Enquanto os três
amigos mais chegados do seminário passavam adiante,
trabalhando e servindo, afinados pela nota do século,
Veloso cônego e pregador, Soares com uma grande vigararia,
Vasconcelos a caminho de bispar, ele Teófilo era o mesmo
apóstolo e místico dos primeiros anos, em plena aurora
cristã e metafísica. Vivia miseravelmente, costeando a
fome, pão magro e batina surrada; tinha instantes e horas
de tristeza e de abatimento: confessou-os à prima...

- Também o senhor? perguntou ela.

E as suas mãos apertaram-se com energia: entendiam-se. Não
tendo achado um astro na loja de um relojoeiro, a culpa
era do relojoeiro; tal era a lógica de ambos. Olharam-se
com a simpatia de náufragos, - náufragos e não
desenganados, - porque não o eram. Crusoe, na ilha
deserta, inventa e trabalha; eles não; lançados à ilha,
estendiam os olhos para o mar ilimitado, esperando a águia
que viria buscá-los com as suas grandes asas abertas. Uma
era a eterna noiva sem noivo, outro o eterno profeta sem
Israel; ambos punidos e obstinados.

Já disse que Eulália era ainda bonita. Resta dizer que o
padre Teófilo, com quarenta e dois anos, tinha os cabelos
grisalhos e as feições cansadas; as mãos não possuíam nem
a maciez nem o aroma da sacristia, eram magras e calosas e
cheiravam ao mato. Os olhos é que conservavam o fogo
antigo, era por ali que a mocidade interior falava cá para
fora, e força é dizer que eles valiam só por si todo o
resto.

As visitas amiudaram-se. Afinal íamos passar ali as tardes
e as noites e jantar aos domingos. A convivência produziu
dois efeitos, e até três. O primeiro foi que os dois
primos, freqüentando-se, deram força e vida um ao outro;
relevem-me esta expressão familiar: - fizeram um pique-
nique de ilusões. O segundo é que Eulália, cansada de
esperar um noivo humano, volveu os olhos para o noivo
divino e, assim como ao primo viera a ambição de São
Paulo, veio-lhe a ela a de Santa Teresa. O terceiro efeito
é o que o leitor já adivinhou.

Já adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco, - um
caminho às avessas, porque a voz não baixou do céu, mas
subiu da terra; e não chamava a pregar Deus, mas a pregar
o homem. Sem metáfora, amavam-se. Outra diferença é que a
vocação aqui não foi súbita como em relação ao apóstolo
das gentes; foi vagarosa, muito vagarosa, cochichada,
insinuada, bafejada pelas asas da pomba mística.

Note-se que a fama precedeu ao amor. Sussurrava-se desde
muito que as visitas do padre eram menos de confessor que
de pecador. Era mentira; eu juro que era mentira. Via-os,
acompanhava-os, estudava esses dois temperamentos tão
espirituais, tão cheios de si mesmos, que nem sabiam da
fama, nem cogitavam no perigo da aparência. Um dia vi-lhes
os primeiros sinais do amor. Será o que quiserem, uma
paixão quarentona, rosa outoniça e pálida, mas era,
existia, crescia, ia tomá-los inteiramente. Pensei em
avisar o padre, não por mim, mas por ele mesmo; mas era
difícil, e talvez perigoso. Demais, eu era e sou
gastrônomo e psicólogo; avisá-lo era botar fora uma fina
matéria de estudo e perder os jantares dominicais. A
psicologia, ao menos, merecia um sacrifício: calei-me.

Calei-me à toa. O que eu não quis dizer, publicou-o o
coração de ambos. Se o leitor me leu de corrida, conclui
por si mesmo a anedota, conjugando os dois primos; mas, se
me leu devagar, adivinha o que sucedeu. Os dois místicos
recuaram; não tiveram horror um do outro nem de si mesmos,
porque essa sensação estava excluída de ambos, mas
recuaram, agitados de medo e de desejo.

- Volto para a roça, disse-me o padre.

- Mas por quê?

- Volto para a roça.

Voltou para a roça e nunca mais cá veio. Ela, é claro que
tinha achado o marido que esperava, mas saiu-lhe tão
impossível como a vida que sonhou. Eu, gastrônomo e
psicólogo, continuei a ir jantar com Eulália aos domingos.
Considero que alguma coisa deve subsistir debaixo do sol,
ou o amor ou o jantar, se é certo, como quer Schiller, que
o amor e a fome governam este mundo.




EX CATHEDRA

- Padrinho, vossemecê assim fica cego.

- O quê?

- Vossemecê fica cego; lê que é um desespero. Não, senhor,
dê cá o livro.

Caetaninha tirou-lhe o livro das mãos. O padrinho deu uma
volta, e foi meter-se no gabinete, onde lhe não faltavam
livros; fechou-se por dentro e continuou a ler. Era o seu
mal; lia com excesso, lia de manhã, de tarde e de noite,
ao almoço e ao jantar, antes de dormir, depois do banho,
lia andando, lia parado, lia em casa e na chácara, lia
antes de ler e depois de ler, lia toda a casta de livros,
mas especialmente direito (em que era graduado),
matemáticas e filosofia; ultimamente dava-se também às
ciências naturais.

Pior que cego, ficou aluado. Foi pelos fins de 1873, na
Tijuca, que ele começou a dar sinais de transtorno
cerebral; mas, como eram leves e poucos, só em março ou
abril de 1874 é que a afilhada lhe percebeu a alteração.
Um dia, almoçando, interrompeu ele a leitura para lhe
perguntar:

- Como é que eu me chamo?

- Como é que padrinho se chama? repetiu ela espantada.
Chama-se Fulgêncio.

- De hoje em diante, chamar-me-ás Fulgencius.

E, enterrando a cara no livro, prosseguiu na leitura.
Caetaninha referiu o caso às mucamas, que lhe declararam
desconfiar desde algum tempo, que ele não andava bom.
Imagine-se o medo da moça; mas o medo passou depressa para
só deixar a piedade que lhe aumentou a afeição. Também a
mania era restrita e mansa; não passava dos livros.
Fulgêncio vivia do escrito, do impresso, do doutrinal, do
abstrato, dos princípios e das fórmulas. Com o tempo
chegou, não já à superstição, mas à alucinação da teoria.
Uma de suas máximas era, que a liberdade não morre onde
restar uma folha de papel para decretá-la; e um dia,
acordando com a idéia de melhorar a condição dos turcos,
redigiu uma constituição, que mandou de presente ao
ministro inglês, em Petrópolis. De outra ocasião, meteu-se
a estudar nos livros a anatomia dos olhos, para verificar
se realmente eles podiam ver, e concluiu que sim.

Digam-me se, em tais condições, a vida de Caetaninha podia
ser alegre. Não lhe faltava nada, é verdade, porque o
padrinho era rico. Foi ele mesmo que a educou, desde os
sete anos, quando perdeu a mulher; ensinou-lhe a ler e
escrever, francês, um pouco de história e geografia, para
não dizer quase nada, e incumbiu uma das mucamas de lhe
ensinar crivo, renda e costura. Tudo isso é verdade. Mas
Caetaninha fizera quatorze anos; e, se nos primeiros
tempos bastavam os brinquedos e as escravas para diverti-
la, era chegada a idade em que os brinquedos perdem de
moda e as escravas de interesse, em que não há leituras
nem escrituras que façam de uma casa solitária na Tijuca
um paraíso. Descia algumas vezes, raras, e de corrida; não
ia a teatros nem bailes; não fazia nem recebia visitas.
Quando via passar na estrada uma cavalgada de homens e
senhoras, punha a alma na garupa dos animais, e deixava-a
ir com eles, ficando-lhe o corpo, ao pé do padrinho, que
continuava a ler.

Um dia, estando na chácara, viu parar ao portão um rapaz,
montado numa bestinha, e ouviu que lhe perguntava se era
ali a casa do doutor Fulgêncio.

- Sim, senhor, é aqui mesmo.

- Podia falar-lhe?

Caetaninha respondeu que ia ver; entrou em casa, e foi ao
gabinete, onde achou o padrinho remoendo, com a mais
voluptuária e beata das expressões, um capítulo de Hegel.
Mocinho? Que mocinho? Caetaninha disse-lhe que era um
mocinho vestido de luto. De luto? repetiu o velho doutor
fechando precipitadamente o livro; há de ser ele.
Esquecia-me dizer (mas há tempo para tudo) que, três meses
antes, falecera um irmão de Fulgêncio, no norte, deixando
um filho natural. Como o irmão, dias antes de morrer, lhe
escrevera recomendando o órfão que ia deixar, Fulgêncio
mandou que este viesse para o Rio de Janeiro. Ouvindo que
estava ali um mocinho de luto, concluiu que era o
sobrinho, e não concluiu mal. Era ele mesmo.

Parece que até aqui nada há que destoe de uma história
ingenuamente romanesca: temos um velho lunático, uma
mocinha solitária e suspirosa, e vemos despontar
inopinadamente um sobrinho. Para não descer da região
poética em que nos achamos, deixo de dizer que a mula em
que o Raimundo veio montado, foi reconduzida por um preto
ao alugador; passo também por alto as circunstâncias da
acomodação do rapaz, limitando-me a dizer que, como o tio,
à força de viver lendo, esquecera inteiramente que o
mandara buscar, nada havia em casa preparado para recebê-
lo. Mas a casa era grande e abastada; uma hora depois,
estava o rapaz aposentado num lindo quarto, donde podia
ver a chácara, a cisterna antiga, o lavadouro, basta folha
verde e vasto céu azul.

Creio que ainda não disse a idade do hóspede; tem quinze
anos e um ameaço de buço; é quase uma criança. Logo, se a
nossa Caetaninha ficou alvoroçada, e as mucamas andam de
um lado para outro espiando e falando do "sobrinho de
sinhô velho que chegou de fora", é porque a vida ali não
tem outros episódios, não porque ele seja homem feito.
Essa foi também a impressão do dono da casa; mas, aqui vai
a diferença. A afilhada não advertia que o ofício do buço
é virar bigode, ou, se pensou nisso, fê-lo tão vagamente,
que não vale a pena de o pôr aqui. Não assim o velho
Fulgêncio. Compreendeu este que havia ali a massa de um
marido, e resolveu casá-los; mas viu também que, a menos
de lhes pegar nas mãos e mandar que se amassem, o acaso
podia guiar as coisas por modo diferente.

Uma idéia traz outra. A idéia de os casar pegou por um
lado com uma de suas opiniões recentes. Era esta que as
calamidades ou os simples dissabores nas relações do
coração provinham de que o amor era praticado de um modo
empírico; faltava-lhe a base científica. Um homem e uma
mulher, desde que conhecessem as razões físicas e
metafísicas desse sentimento, estariam mais aptos a
recebê-lo e nutri-lo com eficácia, do que outro homem e
outra mulher que nada soubessem do fenômeno.

- Os meus pequenos estão verdes, dizia ele consigo: tenho
três a quatro anos diante de mim, e posso começar desde já
a prepará-los. Vamos com lógica; primeiro os alicerces,
depois as paredes, depois o teto... em vez de começar pelo
teto... Dia virá em que se aprenda a amar como se aprende
a ler... Nesse dia...

Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi às estantes,
desceu alguns tomos, astronomia, geologia, fisiologia,
anatomia, jurisprudência, política, lingüística, abriu-os,
folheou-os, comparou-os, extratou daqui e dali, até
formular um programa de ensino. Compunha-se este de vinte
capítulos, nos quais entravam as noções gerais do
universo, uma definição da vida, demonstração da
existência do homem e da mulher, organização das
sociedades, definição e análise das paixões, definição e
análise do amor, suas causas, necessidades e efeitos. Em
verdade, as matérias eram crespas; ele entendeu torná-las
dóceis, tratando-as em frase corriqueira e chã, dando-lhes
um tom puramente familiar, como a astronomia de
Fontenelle. E dizia com ênfase que o essencial da fruta
era o miolo, não a casca.

Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso.
Não os convidou a aprender. Uma noite, olhando para o céu,
disse que as estrelas estavam brilhando muito; e o que
eram as estrelas? acaso sabiam eles o que eram as
estrelas?

- Não, senhor.

Daqui a iniciar uma descrição do universo era um passo.
Fulgêncio deu o passo, com tal presteza e naturalidade,
que os deixou encantados e eles pediram a viagem toda.

- Não, disse o velho; não esgotemos tudo hoje, nem isto se
entende bem senão devagar; amanhã ou depois...

Foi assim, sorrateiramente, que ele começou a executar o
plano. Os dois alunos, assombrados com o mundo
astronômico, pediam-lhe todos os dias que continuasse, e,
posto que no fim dessa primeira parte Caetaninha ficasse
um tanto confusa, ainda assim quis ouvir as outras coisas
que o padrinho lhe prometeu.

Não digo nada da familiaridade entre os dois alunos, por
ser coisa óbvia. Entre quatorze e quinze anos a diferença
é tão pequena, que os portadores das duas idades não
tinham mais que dar a mão um ao outro. Foi o que
aconteceu.

No fim de três semanas pareciam ter sido criados juntos.
Só isto bastava a mudar a vida de Caetaninha; mas Raimundo
trouxe-lhe mais. Não há dez minutos, vimo-la olhar com
saudade as cavalgadas de homens e damas que passavam na
estrada, Raimundo matou-lhe a saudade, ensinando-lhe a
montaria, apesar da relutância do velho, que temia algum
desastre; mas este cedeu e alugou dois cavalos. Caetaninha
mandou fazer uma linda amazona, Raimundo veio à cidade
comprar-lhe as luvas e um chicotinho, com o dinheiro do
tio - já se sabe - que também lhe deu as botas e o demais
aparelho masculino. Daí a pouco era um gosto vê-los ambos,
galhardos e intrépidos, abaixo e acima da montanha.

Em casa, brincavam à larga, jogavam damas e cartas,
cuidavam de aves e plantas. Brigavam muita vez; mas,
segundo as mucamas, eram brigas de mentira, só para
fazerem as pazes depois. Era o pico do arrufo. Raimundo
vinha às vezes à cidade, a mandado do tio. Caetaninha ia
esperá-lo ao portão, espiando ansiosa. Quando ele chegava,
brigavam, porque ela queria tirar-lhe os maiores
embrulhos, a pretexto de que ele vinha cansado, e ele
queria dar-lhe os mais leves, alegando que ela era
fraquinha.

No fim de quatro meses, a vida era totalmente outra. Pode-
se até dizer que só então é que Caetaninha começou a usar
rosas no cabelo. Antes disso vinha muita vez despenteada
para a mesa do almoço. Agora, não só se penteava logo
cedo, mas até, como digo, trazia rosas, uma ou duas; estas
eram, ou colhidas na véspera, por ela mesma, e guardadas
em água, ou na própria manhã, por ele, que ia levar-lhas à
janela. A janela era alta; mas Raimundo, pondo-se na ponta
dos pés, e levantando o braço, conseguia dar-lhe as rosas
em mão. Foi por esse tempo que ele adquiriu o sestro de
mortificar o buço, puxando-o muito de um e outro lado.
Caetaninha chegava a bater-lhe nos dedos, para lhe tirar
tão mau costume.

Entretanto, as lições continuavam regularmente. Já tinham
uma idéia geral do universo, e uma definição da vida, que
nenhum deles entendeu. Assim chegaram ao quinto mês. No
sexto, começou a demonstração da existência do homem.
Caetaninha não pôde suster o riso, quando o padrinho,
expondo a matéria, perguntou-lhes se eles sabiam que
existiam e por quê; mas ficou logo séria, e respondeu que
não.

- Nem você?

- Nem eu, não, senhor, concordou o sobrinho.

Fulgêncio iniciou uma demonstração em regra, profundamente
cartesiana. A seguinte lição foi na chácara. Chovera muito
nos dias anteriores; mas o sol agora alagava tudo de luz,
e a chácara parecia uma linda viúva, que troca o véu do
luto pelo do noivado. Raimundo, como se quisesse copiar o
sol (copiam-se naturalmente os grandes), despedia das
pupilas um olhar vasto e longo, que Caetaninha recebia,
palpitando, como a chácara. Fusão, transfusão, difusão,
confusão e profusão de seres e de coisas.

Enquanto o velho falava, reto, lógico, vagaroso, curtido
de fórmulas, com os olhos fixos em parte nenhuma, os dois
alunos faziam trinta mil esforços para escutá-lo, mas
vinham trinta mil incidentes distraí-los. Foi a princípio
um casal de borboletas que brincavam no ar. Façam-me o
favor de dizer o que é que pode haver extraordinário num
casal de borboletas? Concordo que eram amarelas, mas esta
circunstância não basta a explicar a distração. O fato de
voarem uma atrás da outra, ora à direita, ora à esquerda,
ora abaixo, ora acima, também não dá a razão do desvio,
visto que nunca as borboletas voaram em linha reta, como
simples militares.

- O entendimento, dizia o velho, o entendimento, segundo
eu já expliquei...

Raimundo olhou para Caetaninha, e achou-a olhando para
ele. Um e outro pareciam confusos e acanhados. Ela foi a
primeira que baixou os olhos ao regaço. Depois, levantou-
os, a fim de os levar a outra parte, mais remota, o muro
da chácara; na passagem, como os de Raimundo ali
estivessem, ela encarou-os o mais rapidamente que pôde.
Felizmente, o muro apresentava um espetáculo que a encheu
de admiração: um casal de andorinhas (era o dia dos
casais) saltitava nele, com a graça peculiar às pessoas
aladas. Saltitavam piando, dizendo coisas uma à outra, o
que quer que fosse, talvez isto - que era bem bom não
haver filosofia nos muros das chácaras. Senão quando, uma
delas voou, provavelmente a dama, e a outra, naturalmente
o garção, não se deixou ficar atrás: esticou as asas e
seguiu o mesmo caminho. Caetaninha desceu os olhos à grama
do chão.

Quando a lição acabou, daí a alguns minutos, ela pediu ao
padrinho que continuasse, e, recusando este, tomou-lhe o
braço e convidou-o a dar um giro na chácara.

- Está muito sol, contestou o velho.

- Vamos pela sombra.

- Faz muito calor.

Caetaninha propôs irem continuar na varanda; mas o
padrinho disse-lhe misteriosamente que Roma não se fez num
dia, e acabou declarando que só dois dias depois
continuaria a lição. Caetaninha recolheu-se ao quarto,
esteve ali três quartos de hora fechada, sentada, à
janela, de um lado para outro, procurando as coisas que
tinha na mão, e chegando ao cúmulo de ver-se a si mesma,
cavalgando, estrada acima, ao lado de Raimundo. De uma vez
aconteceu-lhe ver o rapaz no muro da chácara; mas atentou
bem, reconheceu que era um par de besouros que zumbiam no
ar. E dizia um deles ao outro:

- Tu és a flor da nossa raça, a flor do ar, a flor das
flores, o sol e a lua da minha vida.

Ao que respondia o outro:

- Ninguém te vence na beleza e na graça; o teu zumbir é um
eco das falas divinas; mas, deixa-me... deixa-me...

- Por que deixar-te, alma destes bosques?

- Já te disse, rei dos ares puros, deixa-me.

- Não me fales assim, feitiço e gala das matas. Tudo por
cima e em volta de nós está dizendo que me deves falar de
outra maneira. Conheces a cantiga dos mistérios azuis?

- Vamos ouvi-la nas folhas verdes da laranjeira.

- As da mangueira são mais bonitas.

- Tu és mais linda que umas e outras.

- E tu, sol da minha vida?

- Lua do meu ser, eu sou o que tu quiseres...

Era assim que os dois besouros falavam. Ela ouviu-os
cismando. Como eles desaparecessem, ela entrou, viu as
horas e saiu do quarto. Raimundo estava fora; ela foi
esperá-lo ao portão, dez, vinte, trinta, quarenta,
cinqüenta minutos. Na volta disseram pouco; uniram-se e
separaram-se duas ou três vezes. Da última vez foi ela que
o trouxe à varanda, para mostrar-lhe um enfeite que
julgava perdido e acabava de achar. Façam-lhe a justiça de
crer que era pura mentira. Entretanto, Fulgêncio antecipou
a lição; deu-a no dia seguinte, entre o almoço e o jantar.
Nunca a palavra lhe saiu tão límpida e singela. E assim
devia ser; tratava-se da existência do homem, capítulo
profundamente metafísico, em que era preciso considerar
tudo e por todos os lados.

- Estão entendendo? perguntava ele.

- Perfeitamente.

E a lição seguiu até o fim. No fim, deu-se a mesma coisa
da véspera; Caetaninha, como se tivesse medo de ficar só,
pediu-lhe para continuar ou passear; ele recusou uma e
outra coisa, bateu-lhe paternalmente na cara, e foi
encerrar-se no gabinete.

- Para a semana, pensava o velho doutor, dando volta à
chave, para a semana entro na organização das sociedades;
todo o mês que vem e o outro é para a definição e
classificação das paixões; em maio, passaremos ao amor...
já será tempo...

Enquanto ele dizia isto, e fechava a porta, alguma coisa
ressoava do lado da varanda - um trovão de beijos, segundo
disseram as lagartas da chácara; mas, para as lagartas
qualquer pequeno rumor vale um trovão. Quanto aos autores
do ruído nada positivo se sabe. Parece que um maribondo,
vendo Caetaninha e Raimundo unidos nessa ocasião, concluiu
da coincidência para a conseqüência, e entendeu que eram
eles; mas um velho gafanhoto demonstrou a inanidade do
fundamento, alegando que ouvira muitos beijos, outrora, em
lugares onde nem Raimundo nem Caetaninha pusera os pés.
Convenhamos que este outro argumento não prestava para
nada; mas, tal é o prestígio de um bom caráter, que o
gafanhoto foi aclamado como tendo ainda uma vez defendido
a verdade e a razão. E daí pode ser que fosse assim mesmo.
Mas um trovão de beijos? Suponhamos dois; suponhamos três
ou quatro.
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