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Histórias
Sem Data
Machado de Assis
ÚLTIMO CAPÍTULO
Há entre os suicidas um excelente costume, que é não
deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que
os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é
por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo,
ou
não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar,
é um ato de cortesia, não sendo este mundo um baile,
de
onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em
segundo lugar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes
póstumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, às vezes
uma semana mais.
Pois apesar da excelência do costume, era meu propósito
sair calado. A razão é que, tendo sido caipora em minha
vida toda, temia que qualquer palavra última pudesse
levar-me alguma complicação à eternidade. Mas
um incidente
de há pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não
só um escrito, mas dois. O primeiro é o meu testamento,
que acabo de compor e fechar, e está aqui em cima da mesa,
ao pé da pistola carregada. O segundo é este resumo
de
autobiografia. E note-se que não dou o segundo escrito
senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que
pareceria absurdo ou ininteligível, sem algum comentário.
Disponho ali que, vendidos os meus poucos livros, roupa de
uso e um casebre que possuo em Catumbi, alugado a um
carpinteiro, seja o produto empregado em sapatos e botas
novas, que se distribuirão por um modo indicado, e
confesso que extraordinário. Não explicada a razão
de um
tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a razão
do legado brotou do incidente de há pouco, e o incidente
liga-se à minha vida inteira.
Chamo-me Matias Deodato de Castro e Melo, filho do
sargento-mor Salvador Deodato de Castro e Melo e de D.
Maria da Soledade Pereira, ambos falecidos. Sou natural de
Corumbá, Mato Grosso; nasci em 3 de março de 1820; tenho,
portanto, cinqüenta e um anos, hoje, 3 de março de 1871.
Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os
homens. Há uma locução proverbial, que eu literalmente
realizei. Era em Corumbá; tinha sete para oito anos,
embalava-me na rede, à hora da sesta, em um quartinho de
telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por
impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se
de uma das paredes, e deu comigo no chão. Caí de costas;
mas, assim mesmo de costas, quebrei o nariz, porque um
pedaço de telha, mal seguro, que só esperava ocasião
de
vir abaixo, aproveitou a comoção e caiu também.
O
ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu pai
caçoou muito comigo. O cônego Brito, de tarde, ao ir
tomar
guaraná conosco, soube do episódio e citou o rifão,
dizendo que era eu o primeiro que cumpria exatamente este
absurdo de cair de costas e quebrar o nariz. Nem um nem
outro imaginava que o caso era um simples início de coisas
futuras.
Não me demoro em outros reveses da infância e da
juventude. Quero morrer ao meio-dia, e passa de onze
horas. Além disso, mandei fora o rapaz que me serve, e ele
pode vir mais cedo, e interromper-me a execução do projeto
mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miúdo alguns
episódios doloridos, entre eles, o de umas cacetadas que
apanhei por engano. Tratava-se do rival de um amigo meu,
rival de amores e naturalmente rival derrubado. O meu
amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando
souberam da aleivosia do outro; mas aplaudiram
secretamente a ilusão. Também não falo de alguns
achaques
que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido
pobre toda a vida, morreu pobríssimo, e minha mãe não
lhe
sobreviveu dois meses. O cônego Brito, que acabava de sair
eleito deputado, propôs então trazer-me ao Rio de Janeiro,
e veio comigo, com a idéia de fazer-me padre; mas cinco
dias depois de chegar morreu. Vão vendo a ação
constante
do caiporismo.
Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezesseis anos de
idade. Um cônego da Capela Imperial lembrou-se de fazer-me
entrar ali de sacristão; mas, posto que tivesse ajudado
muita missa em Mato Grosso, e possuísse algumas letras
latinas, não fui admitido, por falta de vaga. Outras
pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso
que aceitei com resolução. Tive até alguns auxílios,
a
princípio; faltando-me eles depois, lutei por mim mesmo;
enfim alcancei a carta de bacharel. Não me digam que isto
foi uma exceção na minha vida caipora, porque o diploma
acadêmico levou-me justamente a coisas mui graves; mas,
como o destino tinha de flagelar-me, qualquer que fosse a
minha profissão, não atribuo nenhum influxo especial
ao
grau jurídico. Obtive-o com muito prazer, isso é verdade;
a idade moça, e uma certa superstição de melhora,
faziam-
me do pergaminho uma chave de diamante que iria abrir
todas as portas da fortuna.
E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu
sozinha as algibeiras. Não, senhor; tinha ao lado dela
umas outras, dez ou quinze, fruto de um namoro travado no
Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma viúva
mais velha do que eu sete ou oito anos, mas ardente,
lépida e abastada. Morava com um irmão cego, na rua
do
Conde; não posso dar outras indicações. Nenhum
dos meus
amigos ignorava este namoro; dois deles até liam as
cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o
estilo elegante da viúva, mas realmente para que vissem as
finas coisas que ela me dizia. Na opinião de todos, o
nosso casamento era certo, mais que certo; a viúva não
esperava senão que eu concluísse os estudos. Um desses
amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parabéns,
acentuando a sua convicção com esta frase definitiva:
- O teu casamento é um dogma.
E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia
arranjar-lhe cinqüenta mil-réis; era para uma urgente
precisão. Não tinha comigo os cinqüenta mil-réis;
mas o
dogma repercutia ainda tão docemente no meu coração,
que
não descansei em todo esse dia, até arranjar-lhos; fui
levá-los eu mesmo, entusiasmado; ele recebeu-os cheio de
gratidão. Seis meses depois foi ele quem casou com a
viúva.
Não digo tudo o que então padeci; digo só que
o meu
primeiro impulso foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente,
cheguei a fazê-lo; cheguei a vê-los, moribundos,
arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hipotética;
na
realidade, não fiz nada. Eles casaram-se, e foram ver do
alto da Tijuca a ascensão da lua de mel. Eu fiquei relendo
as cartas da viúva. "Deus, que me ouve (dizia uma delas),
sabe que o meu amor é eterno, e que eu sou tua,
eternamente tua..." E, no meu atordoamento, blasfemava
comigo: - Deus é um grande invejoso; não quer outra
eternidade ao pé dele, e por isso desmentiu a viúva;
- nem
outro dogma além do católico, e por isso desmentiu o
meu
amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e
dos cinqüenta mil-réis.
Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco
tempo. O caiporismo foi comigo, na garupa do burro, e onde
eu me apeei, apeou-se ele também. Vi-lhe o dedo em tudo,
nas demandas que não vinham, nas que vinham e valiam pouco
ou nada, e nas que, valendo alguma coisa, eram
invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes
vencedores são em geral mais gratos que os outros, a
sucessão de derrotas foi arredando de mim os demandistas.
No fim de algum tempo, ano e meio, voltei à Corte, e
estabeleci-me com um antigo companheiro de ano: o
Gonçalves.
Este Gonçalves era o espírito menos jurídico,
menos apto
para entestar com as questões de direito. Verdadeiramente
era um pulha. Comparemos a vida mental a uma casa
elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a conversa
do salão, esgueirava-se, descia à copa e ia palestrar
com
os criados. Mas compensava essa qualidade inferior com
certa lucidez, com a presteza de compreensão nos assuntos
menos árduos ou menos complexos, com a facilidade de
expor, e, o que não era pouco para um pobre diabo batido
da fortuna, com uma alegria quase sem intermitências. Nos
primeiros tempos, como as demandas não vinham, matávamos
as horas com excelente palestra, animada e viva, em que a
melhor parte era dele, ou falássemos de política, ou
de
mulheres, assunto que lhe era muito particular.
Mas as demandas vieram vindo; entre elas uma questão de
hipoteca. Tratava-se da casa de um empregado da alfândega,
Temístocles de Sá Botelho, que não tinha outros
bens, e
queria salvar a propriedade. Tomei conta do negócio. O
Temístocles ficou encantado comigo: e, duas semanas
depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-
me rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me
outras coisas e convidou-me a jantar no domingo próximo.
Fui; namorei-me da filha dele, D. Rufina, moça de dezenove
anos, bem bonita, embora um pouco acanhada e meio morta.
Talvez seja a educação, pensei eu. Casamo-nos poucos
meses
depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na igreja,
entre as barbas rapadas e as suíças lustrosas, pareceu-me
ver o carão sardônico e o olhar oblíquo do meu
cruel
adversário. Foi por isso que, no ato mesmo de proferir a
fórmula sagrada e definitiva do casamento, estremeci,
hesitei, e, enfim, balbuciei a medo o que o padre me
ditava...
Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas
qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo,
e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as
qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida
obscura bastava-me; e contanto que ela ma enchesse, tudo
iria bem. Mas esse era justamente o agro da empresa.
Rufina (permitam-me esta figuração cromática)
não tinha a
alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleópatra,
nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta
e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por
apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição.
Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço
em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a
ela nenhuma glória, nem o menor desdouro no segundo. Era a
passividade do sonâmbulo. Não tinha vaidades. O pai armou-
me o casamento para ter um genro doutor; ela, não;
aceitou-me como aceitaria um sacristão, um magistrado, um
general, um empregado público, um alferes, e não por
impaciência de casar, mas por obediência à família,
e, até
certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos;
ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à
minha
própria natureza; mas estava casado.
Felizmente - ah! um felizmente neste último capítulo
de um
caipora, é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo,
e
verão que o advérbio pertence ao estilo, não
à vida; é um
modo de transição e nada mais. O que vou dizer não
altera
o que está dito. Vou dizer que as qualidades domésticas
de
Rufina davam-lhe muito mérito. Era modesta; não amava
bailes, nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. Não
mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo,
trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha "das
francesas", como então se dizia, em vez de modistas.
Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas
e horas, bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra
de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com
todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha
parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a
diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo,
não lhe pedi
outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo!
disse comigo. Nem conto estas coisas, senão para mostrar a
lógica e a constância do meu destino.
Outro felizmente; e este não é só uma transição
de frase.
No fim de ano e meio, abotoou no horizonte uma esperança,
e, a calcular pela comoção que me deu a notícia,
uma
esperança suprema e única. Era o desejado que chegava.
Que
desejado? um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me
sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento
régio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante;
era de ébano e marfim, obra acabada; depois, pouco a
pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais
finas cambraias, as mais quentes flanelas, uma linda touca
de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei,
pronto a bailar diante dele, como Davi diante da arca...
Ai, caipora! a arca entrou vazia em Jerusalém; o pequeno
nasceu morto.
Quem me consolou no malogro foi o Gonçalves, que devia ser
padrinho do pequeno, e era amigo, comensal e confidente
nosso. Tem paciência, disse-me; serei padrinho do que
vier. E confortava-me, falava-me de outras coisas, com
ternura de amigo. O tempo fez o resto. O próprio Gonçalves
advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora,
como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.
- E pensas que não? redargüi.
Gonçalves sorriu; ele não acreditava no meu caiporismo.
Verdade é que não tinha tempo de acreditar em nada;
todo
era pouco para ser alegre. Afinal, começara a converter-se
à advocacia, já arrazoava autos, já minutava
petições, já
ia às audiências, tudo porque era preciso viver, dizia
ele. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça,
ria longamente dos ditos dele, e das anedotas, que às
vezes eram picantes demais. Eu, a princípio, repreendia-o
em particular, mas acostumei-me a elas. E depois, quem é
que não perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo
jovial? Devo dizer que ele mesmo se foi refreando, e dali
a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás
namorado, disse-lhe um dia; e ele, empalidecendo,
respondeu que sim, e acrescentou sorrindo, embora
frouxamente, que era indispensável casar também. Eu,
à
mesa, falei do assunto.
- Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?
- É caçoada dele, interrompeu vivamente o Gonçalves.
Dei ao diabo a minha indiscrição, e não falei
mais nisso;
nem ele. Cinco meses depois... A transição é
rápida; mas
não há meio de a fazer longa. Cinco meses depois, adoeceu
Rufina, gravemente, e não resistiu oito dias; morreu de
uma febre perniciosa.
Coisa singular: - em vida, a nossa divergência moral
trazia a frouxidão dos vínculos, que se sustinham
principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o
seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina apareceu-
me como a esposa que desce do Líbano, e a divergência
foi
substituída pela total fusão dos seres. Peguei da imagem,
que enchia a minha alma, e enchi com ela a vida, onde
outrora ocupara tão pouco espaço e por tão pouco
tempo.
Era um desafio à má estrela; era levantar o edifício
da
fortuna em pura rocha indestrutível. Compreendam-me bem;
tudo o que até então dependia do mundo exterior, era
naturalmente precário: as telhas caíam com o abalo das
redes, as sobrepelizes recusavam-se aos sacristães, os
juramentos das viúvas fugiam com os dogmas dos amigos, as
demandas vinham trôpegas ou iam-se de mergulho; enfim, as
crianças nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era
imortal. Com ela podia desafiar o olhar oblíquo do mau
destino. A felicidade estava nas minhas mãos, presa,
vibrando no ar as grandes asas de condor, ao passo que o
caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na
direção da noite e do silêncio...
Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na
cabeça inventariar uns objetos da finada e comecei por uma
caixinha, que não fora aberta, desde que ela morreu, cinco
meses antes. Achei uma multidão de coisas minúsculas,
agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma
oração de São Cipriano, um rol de roupa, outras
quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita
azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do
Gonçalves... Meio-dia! Urge acabar; o moleque pode vir, e
adeus. Ninguém imagina como o tempo corre nas
circunstâncias em que estou; os minutos voam como se
fossem impérios, e, o que é importante nesta ocasião,
as
folhas de papel vão com eles.
Não conto os bilhetes brancos, os negócios abortados,
as
relações interrompidas; menos ainda outros acintes ínfimos
da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia
achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei
que ela não existia na terra, e preparei-me desde ontem
para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei
um charuto, e debrucei-me à janela. No fim de dez minutos,
vi passar um homem bem trajado, fitando a miúdo os pés.
Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes reveses,
mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os
sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados,
e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos
para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos
sapatos, como por uma lei de atração, interior e superior
à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão
da
bem-aventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não
tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém
no
bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.
A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão
esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da
fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação deste século,
nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da
geração que começa, nem as tristezas da que termina,
miséria ou guerra de classes; crises da arte e da
política, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-
as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas
o chão de um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das
atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de
tranqüilidade olímpica... Sim, a felicidade é um
par de
botas.
Não é outra a explicação do meu testamento.
Os
superficiais dirão que estou doido, que o delírio do
suicida define a cláusula do testador; mas eu falo para os
sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objeção
de que
era melhor gastar comigo as botas, que lego aos outros;
não, porque seria único. Distribuindo-as, faço
um certo
número de venturosos. Eia, caiporas! que a minha última
vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!
CANTIGA DE ESPONSAIS
Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo,
ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o
recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é
uma
missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa
cantada daqueles anos remotos. Não lhe chamo a atenção
para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem
para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos
nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os
calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos,
nada. Não falo sequer da orquestra, que é excelente;
limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça
desse
velho que rege a orquestra, com alma e devoção.
Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não
menos,
nasceu no Valongo, ou por esses lados. É bom músico
e bom
homem; todos os músicos gostam dele. Mestre Romão é
o nome
familiar; e dizer familiar e público era a mesma coisa em
tal matéria e naquele tempo. "Quem rege a missa é
mestre
Romão" - equivalia a esta outra forma de anúncio,
anos
depois: "Entra em cena o ator João Caetano"; - ou
então:
"O ator Martinho cantará uma de suas melhores árias."
Era
o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre
Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão,
com o
seu ar circunspecto, olhos no chão, riso triste, e passo
demorado? Tudo isso desaparecia à frente da orquestra;
então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os
gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se:
era outro. Não que a missa fosse dele; esta, por exemplo,
que ele rege agora no Carmo é de José Maurício;
mas ele
rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse
sua.
Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso,
e
deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinária. Ei-lo
que desce do coro, apoiado na bengala; vai à sacristia
beijar a mão aos padres e aceita um lugar à mesa do
jantar. Tudo isso indiferente e calado. Jantou, saiu,
caminhou para a rua da Mãe dos Homens, onde reside, com um
preto velho, pai José, que é a sua verdadeira mãe,
e que
neste momento conversa com uma vizinha.
- Mestre Romão lá vem, pai José, disse a vizinha.
- Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.
Pai José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor,
que daí a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa
não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor
vestígio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que
cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa
sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre
Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira,
ao pé, alguns papéis de música; nenhuma dele...
Ah! se mestre Romão pudesse seria um grande compositor.
Parece que há duas sortes de vocação, as que
têm língua e
as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas
representam uma luta constante e estéril entre o impulso
interior e a ausência de um modo de comunicação
com os
homens. Romão era destas. Tinha a vocação íntima
da
música; trazia dentro de si muitas óperas e missas,
um
mundo de harmonias novas e originais, que não alcançava
exprimir e pôr no papel. Esta era a causa única da
tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava
com ela; uns diziam isto, outros aquilo: doença, falta de
dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta: - a
causa da melancolia de mestre Romão era não poder compor,
não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é
que não
rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante
horas; mas tudo lhe saía informe, sem idéia nem harmonia.
Nos últimos tempos tinha até vergonha da vizinhança,
e não
tentava mais nada.
E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa
peça, um canto esponsalício, começado três
dias depois de
casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um
anos, e morreu com vinte e três, não era muito bonita,
nem
pouco, mas extremamente simpática, e amava-o tanto como
ele a ela. Três dias depois de casado, mestre Romão sentiu
em si alguma coisa parecida com inspiração. Ideou então
o
canto esponsalício, e quis compô-lo; mas a inspiração
não
pôde sair. Como um pássaro que acaba de ser preso, e
forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima,
impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso
músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma
porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; ele
escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou
no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o
tempo de casado. Quando a mulher morreu, ele releu essas
primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste, por
não ter podido fixar no papel a sensação de felicidade
extinta.
- Pai José, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado.
- Sinhô comeu alguma coisa que fez mal...
- Não; já de manhã não estava bom. Vai
à botica...
O boticário mandou alguma coisa, que ele tomou à noite;
no
dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É
preciso
dizer que ele padecia do coração: - moléstia
grave e
crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o
incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso,
e quis
chamar o médico.
- Para quê? disse o mestre. Isto passa.
O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não
assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A
vizinhança, apenas soube do incômodo, não quis
outro
motivo de palestra; os que entretinham relações com
o
mestre foram visitá-lo. E diziam-lhe que não era nada,
que
eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que
era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava
no gamão, - outro que eram amores. Mestre Romão sorria,
mas consigo mesmo dizia que era o final.
- Está acabado, pensava ele.
Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o
realmente mal; e foi isso o que ele lhe viu na fisionomia
por trás das palavras enganadoras: - Isto não é
nada; é
preciso não pensar em músicas...
Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao
mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo,
abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto
esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas
a
custo e não concluídas. E então teve uma idéia
singular: -
rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer coisa
servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.
- Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que
um mestre Romão...
O princípio do canto rematava em um certo lá; este lá,
que
lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita.
Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala
do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar.
Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dois
casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por
cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu
com tristeza.
- Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos
este canto que eles poderão tocar...
Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá....
- Lá, lá, lá...
Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música
como gente.
- Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó,
ré... ré... ré...
Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia
uma peça
profundamente original, mas enfim alguma coisa, que não
fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado.
Voltava ao princípio, repetia as notas, buscava reaver um
retalho da sensação extinta, lembrava-se da mulher,
dos
primeiros tempos. Para completar a ilusão, deitava os
olhos pela janela para o lado dos casadinhos. Estes
continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados
nos ombros um do outro; a diferença é que se miravam
agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, ofegante
da moléstia e de impaciência, tornava ao cravo; mas a
vista do casal não lhe suprira a inspiração,
e as notas
seguintes não soavam.
- Lá... lá... lá...
Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e
rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do
marido, começou a cantarolar à toa, inconscientemente,
uma
coisa nunca antes cantada nem sabida, na qual coisa um
certo lá trazia após si uma linda frase musical,
justamente a que mestre Romão procurara durante anos sem
achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a
cabeça, e à noite expirou.
SINGULAR OCORRÊNCIA
- Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela
dama
que vai entrando na igreja da Cruz? Parou agora no adro
para dar uma esmola.
- De preto?
- Justamente; lá vai entrando; entrou.
- Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que
a
dama é uma sua recordação de outro tempo, e não
há de ser
de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.
- Deve ter quarenta e seis anos.
- Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão,
e
conte-me tudo. Está viúva, naturalmente?
- Não.
- Bem; o marido ainda vive. É velho?
- Não é casada.
- Solteira?
- Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em
1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era
costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá
excluindo as profissões e lá chegará. Morava
na rua do
Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais
linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua,
com o vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava
a muitos, ainda assim.
- Por exemplo, ao senhor.
- Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis anos,
meio advogado, meio político, nascido nas Alagoas, e
casado na Bahia, donde viera em 1859. Era bonita a mulher
dele, afetuosa, meiga e resignada; quando os conheci,
tinham uma filhinha de dois anos.
- Apesar disso, a Marocas...?
- É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa, conto-lhe
uma coisa interessante.
- Diga.
- A primeira vez que ele a encontrou, foi à porta da loja
Paula Brito, no Rocio. Estava ali, viu a distância uma
mulher bonita, e esperou, já alvoroçado, porque ele
tinha
em alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha andando,
parando e olhando como quem procura alguma casa. Defronte
da loja deteve-se um instante; depois, envergonhada e a
medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e
perguntou-lhe onde ficava o número ali escrito. Andrade
disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a
altura provável da casa. Ela cortejou com muita graça;
ele
ficou sem saber o que pensasse da pergunta.
- Como eu estou.
- Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Ele não
chegou
a suspeitá-lo. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não
tinha estátua nem jardim, e ir à casa que buscava, ainda
assim perguntando em outras. De noite foi ao Ginásio;
dava-se a Dama das Camélias; Marocas estava lá, e, no
último ato, chorou como uma criança. Não lhe
digo nada; no
fim de quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu
todos os seus namorados, e creio que não perdeu pouco;
tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sozinha,
vivendo para o Andrade, não querendo outra afeição,
não
cogitando de nenhum outro interesse.
- Como a dama das Camélias.
- Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola,
disse-me ele um dia; e foi então que me contou a anedota
do Rocio. Marocas aprendeu depressa. Compreende-se; o
vexame de não saber, o desejo de conhecer os romances em
que ele lhe falava, e finalmente o gosto de obedecer a um
desejo dele, de lhe ser agradável... Não me encobriu
nada;
contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o
senhor não imagina. Eu tinha a confiança de ambos.
Jantávamos às vezes os três juntos; e... não
sei por que
negá-lo, - algumas vezes os quatro. Não cuide que eram
jantares de gente pândega; alegres, mas honestos. Marocas
gostava da linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a
pouco estabeleceu-se intimidade entre nós; ela
interrogava-me acerca da vida do Andrade, da mulher, da
filha, dos hábitos dele, se gostava deveras dela, ou se
era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a
esquecer, uma chuva de perguntas, e um receio de o perder,
que mostravam a força e a sinceridade da afeição...
Um
dia, uma festa de São João, o Andrade acompanhou a família
à Gávea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dois
dias de ausência. Eu fui com eles. Marocas, ao despedir-
se, recordou a comédia que ouvira algumas semanas antes no
Ginásio - Janto com minha mãe - e disse-me que, não
tendo
família para passar a festa de São João, ia fazer
como a
Sofia Arnoult da comédia, ia jantar com um retrato; mas
não seria o da mãe, porque não tinha, e sim do
Andrade.
Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a
inclinar-se; ela, porém, vendo que eu estava ali, afastou-
o delicadamente com a mão.
- Gosto desse gesto.
- Ele não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambas
as
mãos, e, paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa.
Seguimos para a Gávea. De caminho disse-me a respeito da
Marocas as maiores finezas, contou-me as últimas
frioleiras de ambos, falou-me do projeto a que tinha de
comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse
dispor de dinheiro; e, de passagem, elogiou a modéstia da
moça, que não queria receber dele mais do que o
estritamente necessário. Há mais do que isso, disse-lhe
eu; e contei-lhe uma coisa que sabia, isto é, que cerca de
três semanas antes, a Marocas empenhara algumas jóias
para
pagar uma conta da costureira. Esta notícia abalou-o
muito; não juro, mas creio que ficou com os olhos
molhados. Em todo o caso, depois de cogitar algum tempo,
disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e
pô-la ao abrigo da miséria. Na Gávea ainda falamos
da
Marocas, até que as festas acabaram, e nós voltamos.
O
Andrade deixou a família em casa, na Lapa, e foi ao
escritório aviar alguns papéis urgentes. Pouco depois
do
meio-dia apareceu-lhe um tal Leandro, ex-agente de certo
advogado a pedir-lhe, como de costume, dois ou três mil-
réis. Era um sujeito reles e vadio. Vivia a explorar os
amigos do antigo patrão. Andrade deu-lhe três mil-réis,
e,
como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe se
tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e
lambeu os beiços: o Andrade, que dava o cavaco por
anedotas eróticas, perguntou-lhe se eram amores. Ele
mastigou um pouco, e confessou que sim.
- Olhe; lá vem ela saindo: não é ela?
- Ela mesma; afastemo-nos da esquina.
- Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de
duquesa.
- Não olhou para cá; não olha nunca para os lados.
Vai
subir pela rua do Ouvidor...
- Sim, senhor. Compreendo o Andrade.
- Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na véspera
uma fortuna rara, ou antes única, uma coisa que ele nunca
esperara achar, nem merecia mesmo, porque se conhecia e
não passava de um pobre diabo. Mas enfim, os pobres também
são filhos de Deus. Foi o caso que, na véspera, perto
das
dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida
com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada num
xale grande. A dama vinha atrás dele, e mais depressa; ao
passar rentezinha com ele, fitou-lhe muito os olhos, e foi
andando devagar, como quem espera. O pobre diabo imaginou
que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que, apesar
da roupa simples, viu logo que não era coisa para os seus
beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez,
mas com tal instância, que ele chegou atrever-se um pouco;
ela atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que casa, que
sala rica! Coisa papafina. E depois o desinteresse...
"Olhe, acrescentou ele, para Vossa Senhoria é que era
um
bom arranjo." Andrade abanou a cabeça; não lhe
cheirava o
comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento,
número tantos...
- Não me diga isso!
- Imagine como não ficou o Andrade. Ele mesmo não soube
o
que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem
o que pensou nem o que sentiu. Afinal teve força para
perguntar se era verdade o que estava contando; mas o
outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de
inventar semelhante coisa; vendo, porém, o alvoroço
do
Andrade, pediu-lhe segredo, dizendo que ele, pela sua
parte, era discreto. Parece que ia sair; Andrade deteve-o
e propôs-lhe um negócio; propôs-lhe ganhar vinte
mil-réis.
- "Pronto!" - "Dou-lhe vinte mil-réis, se você
for comigo
à casa dessa moça e disser em presença dela que
é ela
mesma."
- Oh!
- Não defendo o Andrade; a coisa não era bonita; mas
a
paixão, nesse caso, cega os melhores homens. Andrade era
digno, generoso, sincero; mas o golpe fora tão profundo, e
ele amava-a tanto que não recuou diante de uma tal
vingança.
- O outro aceitou?
- Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade;
mas vinte mil-réis... Pôs uma condição:
não metê-lo em
barulhos... Marocas estava na sala, quando o Andrade
entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o abraçar;
mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguém.
Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas
empalideceu. - "É esta senhora?" perguntou ele. -
"Sim,
senhor", murmurou o Leandro com voz sumida, porque há
ações ainda mais ignóbeis do que o próprio
homem que as
comete. Andrade abriu a carteira com grande afetação,
tirou uma nota de vinte mil-réis e deu-lha; e, com a mesma
afetação, ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro saiu.
A
cena que se seguiu, foi breve, mas dramática. Não a
soube
inteiramente, porque o próprio Andrade é que me contou
tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que muita
coisa lhe escapou. Ela não confessou nada; mas estava fora
de si, e, quando ele, depois de lhe dizer as coisas mais
duras do mundo, atirou-se para a porta, ela rojou-se-lhe
aos pés, agarrou-lhe as mãos, lacrimosa, desesperada,
ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no patamar
da
escada; ele desceu vertiginosamente e saiu.
- Na verdade, um sujeito reles, apanhado na rua;
provavelmente eram hábitos dela?
- Não.
- Não?
- Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veio
à minha casa, e esperou por mim. Já me tinha procurado
três vezes. Fiquei estupefato; mas como duvidar, se ele
tivera a precaução de levar a prova até à
evidência? Não
lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as
exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estilo
e todo
o repertório dessas crises. Meu conselho foi que a
deixasse; que, afinal, vivesse para a mulher e a filha, a
mulher tão boa, tão meiga... Ele concordava, mas tornava
ao furor. Do furor passou à dúvida; chegou a imaginar
que
a Marocas, com o fim de o experimentar, inventara o
artifício e pagara ao Leandro para vir dizer-lhe aquilo; e
a prova é que o Leandro, não querendo ele saber quem
era,
teimou e lhe disse a casa e o número. E agarrado a esta
inverossimilhança, tentava fugir à realidade; mas a
realidade vinha - a palidez de Marocas, a alegria sincera
do Leandro, tudo o que lhe dizia que a aventura era certa.
Creio até que ele arrependia-se de ter ido tão longe.
Quanto a mim, cogitava na aventura, sem atinar com a
explicação. Tão modesta! maneiras tão
acanhadas!
- Há uma frase de teatro que pode explicar a aventura, uma
frase de Augier, creio eu: "a nostalgia da lama".
- Acho que não; mas vá ouvindo. Às dez horas
apareceu-nos
em casa uma criada de Marocas, uma preta forra, muito
amiga da ama. Andava aflita em procura do Andrade, porque
a Marocas, depois de chorar muito, trancada no quarto,
saiu de casa sem jantar, e não voltara mais. Contive o
Andrade, cujo primeiro gesto foi para sair logo. A preta
pedia-nos por tudo que fôssemos descobrir a ama. "Não
é
costume dela sair?" perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas
a preta disse que não era costume. "Está ouvindo?"
bradou
ele para mim. Era a esperança que de novo empolgara o
coração do pobre diabo. "E ontem?..." disse
eu. A preta
respondeu que na véspera sim; mas não lhe perguntei
mais
nada, tive compaixão do Andrade, cuja aflição
crescia, e
cujo pundonor ia cedendo diante do perigo. Saímos em busca
da Marocas; fomos a todas as casas em que era possível
encontrá-la; fomos à polícia; mas a noite passou-se
sem
outro resultado. De manhã voltamos à polícia.
O chefe ou
um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que
lhe contou da aventura a parte conveniente; aliás a
ligação do Andrade e da Marocas era conhecida de todos
os
seus amigos. Pesquisou-se tudo; nenhum desastre se dera
durante a noite; as barcas da praia Grande não viram cair
ao mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam
nenhuma; as boticas nenhum veneno. A polícia pôs em campo
todos os seus recursos, e nada. Não lhe digo o estado de
aflição em que o pobre Andrade viveu durante essas longas
horas, porque todo o dia se passou em pesquisas inúteis.
Não era só a dor de a perder; era também o remorso,
a
dúvida, ao menos, da consciência, em presença
de um
possível desastre, que parecia justificar a moça. Ele
perguntava-me, a cada passo, se não era natural fazer o
que fez, no delírio da indignação, se eu não
faria a mesma
coisa. Mas depois tornava a afirmar a aventura, e provava-
me que era verdadeira, com o mesmo ardor com que na
véspera tentara provar que era falsa; o que ele queria era
acomodar a realidade ao sentimento da ocasião.
- Mas, enfim, descobriram a Marocas?
- Estávamos comendo alguma coisa, em um hotel, eram perto
de oito horas, quando recebemos notícia de um vestígio:
-
um cocheiro que levara na véspera uma senhora para o
Jardim Botânico, onde ela entrou em uma hospedaria, e
ficou. Nem acabamos o jantar; fomos no mesmo carro ao
Jardim Botânico. O dono da hospedaria confirmou a versão;
acrescentando que a pessoa se recolhera a um quarto, não
comera nada desde que chegou na véspera; apenas pediu uma
xícara de café; parecia profundamente abatida.
Encaminhamo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu
à porta; ela respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade
nem me deu tempo de preparar nada; empurrou-me, e caíram
nos braços um do outro. Marocas chorou muito e perdeu os
sentidos.
- Tudo se explicou?
- Coisa nenhuma. Nenhum deles tornou ao assunto; livres de
um naufrágio, não quiseram saber nada da tempestade
que os
meteu a pique. A reconciliação fez-se depressa. O Andrade
comprou-lhe, meses depois, uma casinha em Catumbi; a
Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois anos. Quando
ele seguiu para o norte, em comissão do governo, a afeição
era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não
tivessem já a mesma intensidade. Não obstante, ela quis
ir
também; fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade contava
tornar ao fim de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu
na província. A Marocas sentiu profundamente a morte, pôs
luto, e considerou-se viúva; sei que nos três primeiros
anos, ouvia sempre uma missa no dia do aniversário. Há
dez
anos perdi-a de vista. Que lhe parece tudo isto?
- Realmente, há ocorrências bem singulares, se o senhor
não abusou da minha ingenuidade de rapaz para imaginar um
romance...
- Não inventei nada; é a realidade pura.
- Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão
ardente, tão sincera... Eu ainda estou na minha; acho que
foi a nostalgia da lama.
- Não: nunca a Marocas descera até aos Leandros.
- Então por que desceria naquela noite?
- Era um homem que ela supunha separado, por um abismo, de
todas as suas relações pessoais; daí a confiança.
Mas o
acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo tempo... Enfim,
coisas!
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