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Histórias Sem Data
Machado de Assis



ADVERTÊNCIA DA 1ª EDIÇÃO

De todos os contos que aqui se acham há dois que
efetivamente não levam data expressa; os outros a têm, de
maneira que este título Histórias sem data parecerá a
alguns ininteligível, ou vago. Supondo, porém, que o meu
fim é definir estas páginas como tratando, em substância,
de coisas que não são especialmente do dia, ou de um certo
dia, penso que o título está explicado. E é o pior que lhe
pode acontecer, pois o melhor dos títulos é ainda aquele
que não precisa de explicação.

M. de A.


A IGREJA DO DIABO

Capítulo I

De uma idéia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo
dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus
lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com
o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização,
sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por
assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e
obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não
teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio
eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de
uma vez.

- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra
Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha
missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas,
novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo
será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma
tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se
combatem e se dividem, a minha igreja será única; não
acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos
modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os
braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida,
lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia,
e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos
de vingança, e disse consigo: - Vamos, é tempo. E rápido,
batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as
províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito
azul.


Capítulo II

Entre Deus e o Diabo

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os
serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se
logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no
Senhor.

- Que me queres tu? perguntou este.

- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo
rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

- Explica-te.

- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga:
recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar,
mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam
com os mais divinos coros...

- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos
cheios de doçura.

- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter
convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma
casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar
uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma
igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu
reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória
final e completa. E então vim dizer-vos isto, com
lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa
idéia, não vos parece?

- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta
de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso
seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal
exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha
pedra fundamental.

- Vai.

- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

- Não é preciso; basta que me digas desde já por que
motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora
pensaste em fundar uma igreja.

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha
alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no
alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve
instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio
Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns
séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande
número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo
rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a
puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha
igreja; atrás delas virão as de seda pura...

- Velho retórico! murmurou o Senhor.

- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés,
nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da
rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram
aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e
devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o
ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse
cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que
liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou
moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida...
Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não
falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de
irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o
vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e
sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de
súplica. Deus interrompeu o Diabo.

- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um
espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que
dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do
mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem
originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que
te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões
mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás.
Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele
fez?

- Já vos disse que não.

- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime.
Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu
um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já
com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na
eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde
achas aí a franja de algodão?

- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

- Negas esta morte?

- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade;
deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente
aborrecê-los...

- Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a
tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as
franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus
impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino,
encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo
sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas,
e, como um raio, caiu na terra.


Capítulo III

A boa nova aos homens

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se
pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa
fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e
extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do
século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as
delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais
íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para
retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as
histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites
sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas
o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a
que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos
homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro
pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu
desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei
tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...

Era assim que falava, a princípio, para excitar o
entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma,
as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que
vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina
era a que podia ser na boca de um espírito de negação.
Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era
umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser
substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas.
A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e
assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a
mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e
a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na
existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria
a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de
Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores
páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope;
virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas
de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o
fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de
ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor
intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito
melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em
grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do
jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha
do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo,
locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos
seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à
inveja, pregou friamente que era a virtude principal,
origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que
chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo
incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova
ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as
perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele
dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o
braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são
canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem
canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos,
outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem
nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi
a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar
que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o
Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os
direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu
sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão
jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti,
como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a
tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas,
porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo?
Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há
mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender
uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem
anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um
privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do
homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se
demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou
pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do
preconceito social, conviria dissimular o exercício de um
direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a
venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está
claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas
de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a
calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante
retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos
casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da
força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum
salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração.
Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como
elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal;
salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa
mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que
o interesse, convertendo o respeito em simples adulação,
era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria
cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor
do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele
mostrou que essa regra era uma simples invenção de
parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao
próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou
desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de
próximo era errada, e citava esta frase de um padre de
Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma
das marquesas do antigo regime: "Leve a breca o próximo!
Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar
ao próximo era quando se tratasse de amar as damas
alheias, porque essa espécie de amor tinha a
particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor
do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem
que uma tal explicação, por metafísica, escapava à
compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: -
Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações
comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos
seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este
apólogo foi incluído no livro da sabedoria.



Capítulo IV

Franjas e franjas

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja
capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez
puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham
alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras,
e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a
doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que
não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma
raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos
dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas
virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas
algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos
glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro
vezes por ano, justamente em dias de preceito católico;
muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal
povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe
pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra
vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto
dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os
outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais
diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos
eram até incompreensíveis, como o de um droguista do
Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e,
com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas.
No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a
cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada
de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou,
dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano;
roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de
presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O
manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas
extraordinárias, entre elas esta, que desorientou
completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era
um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador
de documentos, que possuía uma bela casa na campanha
romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em
pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que
estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo,
como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado
a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se
com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe
desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se
duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal
pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o
caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de
refletir, comparar e concluir do espetáculo presente
alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu,
trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de
tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita
complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não
triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos
nele, e disse-lhe:

- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm
agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas
de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.




O LAPSO
E vieram todos os oficiais... e o resto
do povo, desde o pequeno até ao grande.
E disseram ao profeta Jeremias: Seja
aceita a nossa súplica na tua presença.
Jeremias, XLII, 1, 2.


Não me perguntem pela família do Dr. Jeremias Halma, nem o
que é que ele veio fazer ao Rio de Janeiro, naquele ano de
1768, governando o conde de Azambuja, que a princípio se
disse o mandara buscar; esta versão durou pouco. Veio,
ficou e morreu com o século. Posso afirmar que era médico
e holandês. Viajara muito, sabia toda a química do tempo,
e mais alguma; falava correntemente cinco ou seis línguas
vivas e duas mortas. Era tão universal e inventivo, que
dotou a poesia malaia com um novo metro, e engendrou uma
teoria da formação dos diamantes. Não conto os
melhoramentos terapêuticos e outras muitas coisas, que o
recomendam à nossa admiração. Tudo isso, sem ser casmurro,
nem orgulhoso. Ao contrário, a vida e a pessoa dele eram
como a casa que um patrício lhe arranjou na rua do Piolho,
casa singelíssima, onde ele morreu pelo natal de 1799.
Sim, o Dr. Jeremias era simples, lhano, modesto, tão
modesto que... Mas isto seria transtornar a ordem de um
conto. Vamos ao princípio.

No fim da rua do Ouvidor, que ainda não era a via dolorosa
dos maridos pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros,
morava por esse tempo um tal Tomé Gonçalves, homem
abastado, e, segundo algumas induções, vereador da câmara.
Vereador ou não, este Tomé Gonçalves não tinha só
dinheiro, tinha também dívidas, não poucas, nem todas
recentes. O descuido podia explicar os seus atrasos, a
velhacaria também; mas quem opinasse por uma ou outra
dessas interpretações, mostraria que não sabe ler uma
narração grave. Realmente, não valia a pena dar-se ninguém
à tarefa de escrever algumas laudas de papel para dizer
que houve, nos fins do século passado, um homem que, por
velhacaria ou desleixo, deixava de pagar aos credores. A
tradição afirma que este nosso concidadão era exato em
todas as coisas, pontual nas obrigações mais vulgares,
severo e até meticuloso. A verdade é que as ordens
terceiras e irmandades que tinham a fortuna de o possuir
(era irmão-remido de muitas, desde o tempo em que usava
pagar), não lhe regateavam provas de afeição e apreço; e,
se é certo que foi vereador, como tudo faz crer, pode-se
jurar que o foi a contento da cidade.

Mas então...? Lá vou; nem é outra a matéria do escrito,
senão esse curioso fenômeno, cuja causa, se a conhecemos,
foi porque a descobriu o Dr. Jeremias. Em uma tarde de
procissão, Tomé Gonçalves, trajando com o hábito de uma
ordem terceira, ia segurando uma das varas do pálio, e
caminhando com a placidez de um homem que não faz mal a
ninguém. Nas janelas e ruas estavam muitos dos seus
credores; dois, entretanto, na esquina do beco das
Cancelas (a procissão descia a rua do Hospício), depois de
ajoelhados, rezados, persignados e levantados, perguntaram
um ao outro, se não era tempo de recorrer à justiça.

- Que é que me pode acontecer? dizia um deles. Se brigar
comigo, melhor; não me levará mais nada de graça. Não
brigando, não lhe posso negar o que me pedir, e na
esperança de receber os atrasados, vou fiando... Não,
senhor; não pode continuar assim.

- Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda não fiz nada,
é por causa da minha dona, que é medrosa, e entende que
não devo brigar com pessoa tão importante... Mas eu como
ou bebo da importância dos outros? E as minhas cabeleiras?

Este era um cabeleireiro da rua da Vala, defronte da Sé,
que vendera ao Tomé Gonçalves dez cabeleiras, em cinco
anos, sem lhe haver nunca um real. O outro era alfaiate, e
ainda maior credor que o primeiro. A procissão passara
inteiramente; eles ficaram na esquina, ajustando o plano
de mandar os meirinhos ao Tomé Gonçalves. O cabeleireiro
advertiu que outros muitos credores só esperavam um sinal
para cair em cima do devedor remisso; e o alfaiate lembrou
a conveniência de meter na conjuração o Mata sapateiro,
que vivia desesperado. Só a ele devia o Tomé Gonçalves
mais de oitenta mil-réis. Nisso estavam, quando por trás
deles ouviram uma voz, com sotaque estrangeiro,
perguntando por que motivo conspiravam contra um homem
doente. Voltaram-se, e, dando com o Dr. Jeremias,
desbarretaram-se os dois credores, tomados de profunda
veneração; em seguida disseram que tanto não era doente o
devedor, que lá ia andando na procissão, muito teso,
pegando uma das varas do pálio.

- Que tem isso? interrompeu o médico; ninguém lhes diz que
está doente dos braços, nem das pernas...

- Do coração? do estômago?

- Nem coração, nem estômago, respondeu o Dr. Jeremias. E
continuou, com muita doçura, que se tratava de negócios
altamente especulativos, que não podia dizer ali, na rua,
nem sabia mesmo se eles chegariam a entendê-lo. Se eu
tiver de pentear uma cabeleira ou talhar um calção, -
acrescentou para os não afligir, - é provável que não
alcance as regras dos seus ofícios tão úteis, tão
necessários ao Estado... Eh! eh! eh!

Rindo assim, amigavelmente, cortejou-os e foi andando. Os
dois credores ficaram embasbacados. O cabeleireiro foi o
primeiro que falou, dizendo que a notícia do Dr. Jeremias
não era tal que os devesse afrouxar no propósito de cobrar
as dívidas. Se até os mortos pagam, ou alguém por eles,
reflexionou o cabeleireiro, não é muito exigir aos doentes
igual obrigação. O alfaiate, invejoso da pilhéria, fê-la
sua cosendo-lhe este babado: - Pague e cure-se.

Não foi dessa opinião o Mata sapateiro, que entendeu haver
alguma razão secreta nas palavras do Dr. Jeremias, e
propôs que primeiro se examinasse bem o que era, e depois
se resolvesse o mais idôneo. Convidaram então outros
credores a um conciliábulo, no domingo próximo, em casa de
uma D. Aninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um
batizado. A precaução era discreta, para não fazer supor
ao intendente da polícia que se tratava de alguma
tenebrosa maquinação contra o Estado. Mal anoiteceu,
começaram a entrar os credores, embuçados em capotes, e,
como iluminação pública só veio a principiar com o vice-
reinado do conde de Resende, levava cada qual uma lanterna
na mão, ao uso do tempo, dando assim ao conciliábulo um
rasgo pinturesco e teatral. Eram trinta e tantos, perto de
quarenta - e não eram todos.

A teoria de Ch. Lamb acerca da divisão do gênero humano em
duas grandes raças, é posterior ao conciliábulo do Rocio;
mas nenhum outro exemplo a demostraria melhor. Com efeito,
o ar abatido ou aflito daqueles homens, o desespero de
alguns, a preocupação de todos, estavam de antemão
provando que a teoria do fino ensaísta é verdadeira, e que
das duas grandes raças humanas, - a dos homens que
emprestam, e a dos que pedem emprestado, - a primeira
contrasta pela tristeza do gesto com as maneiras rasgadas
e francas da segunda, the open, trusting, generous manners
of the other. Assim que, naquela mesma hora, o Tomé
Gonçalves, tendo voltado da procissão, regalava alguns
amigos com os vinhos e galinhas que comprara fiado; ao
passo que os credores estudavam às escondidas, com um ar
desenganado e amarelo, algum meio de reaver o dinheiro
perdido.

Longo foi o debate; nenhuma opinião chegava a concertar os
espíritos. Uns inclinavam-se à demanda, outros à espera,
não poucos aceitavam o alvitre de consultar o Dr.
Jeremias. Cinco ou seis partidários deste parecer não o
defendiam senão com a intenção secreta e disfarçada de não
fazer coisa nenhuma; eram os servos do medo e da
esperança. O cabeleireiro opunha-se-lhe, e perguntava que
moléstia haveria que impedisse um homem de pagar o que
deve. Mas o Mata sapateiro: - "Sr. compadre, nós não
entendemos desses negócios; lembre-se que o doutor é
estrangeiro, e que nas terras estrangeiras sabem coisas
que nunca lembraram ao diabo. Em todo caso, só perdemos
algum tempo e nada mais." Venceu este parecer; deputaram o
sapateiro, o alfaiate e o cabeleireiro para entenderem-se
com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o conciliábulo
dissolveu-se na patuscada. Terpsícore bracejou e perneou
diante deles as suas graças jocundas, e tanto bastou para
que alguns esquecessem a úlcera secreta que os roía. Eheu!
fugaces... Nem mesmo a dor é constante.

No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os três credores,
entre sete e oito horas da manhã. "Entrem, entrem..." E
com o seu largo carão holandês, e o riso derramado pela
boca fora, como um vinho generoso de pipa que se rompeu, o
grande médico veio em pessoa abrir-lhes a porta. Estudava
nesse momento uma cobra, morta de véspera, no morro de
Santo Antônio; mas a humanidade, costumava ele dizer, é
anterior à ciência. Convidou os três a sentarem-se nas
três únicas cadeiras devolutas; a quarta era a dele; as
outras, umas cinco ou seis, estavam atulhadas de objetos
de toda a casta.

Foi o Mata sapateiro quem expôs a questão; era dos três o
que reunia maior cópia de talentos diplomáticos. Começou
dizendo que o engenho do "Sr. doutor" ia salvar da miséria
uma porção de famílias, e não seria a primeira nem a
última grande obra de um médico que, não desfazendo nos da
terra, era o mais sábio de quantos cá havia desde o
governo de Gomes Freire. Os credores de Tomé Gonçalves não
tinham outra esperança. Sabendo que o "Sr. doutor"
atribuía os atrasos daquele cidadão a uma doença, tinham
assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de
qualquer recurso à justiça. A justiça ficaria para o caso
de desespero. Era isto o que vinham dizer-lhe, em nome de
dezenas de credores; desejavam saber se era verdade que,
além de outros achaques humanos, havia o de não pagar as
dívidas, se era mal incurável, e, não o sendo, se as
lágrimas de tantas famílias...

- Há uma doença especial, interrompeu o Dr. Jeremias,
visivelmente comovido, um lapso da memória; o Tomé
Gonçalves perdeu inteiramente a noção de pagar. Não é por
descuido, nem de propósito que ele deixa de saldar as
contas; é porque esta idéia de pagar, de entregar o preço
de uma coisa, varreu-se lhe da cabeça. Conheci isto há
dois meses, estando em casa dele, quando ali foi o prior
do Carmo, dizendo que ia "pagar-lhe a fineza de uma
visita". Tomé Gonçalves, apenas o prior se despediu,
perguntou-me o que era pagar; acrescentou que, alguns dias
antes, um boticário lhe dissera a mesma palavra, sem
nenhum outro esclarecimento, parecendo-lhe até que já a
ouvira a outras pessoas; por ouvi-la da boca do prior,
supunha ser latim. Compreendi tudo; tinha estudado a
moléstia em várias partes do mundo, e compreendi que ele
estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia
a estes dois senhores que não demandassem um homem doente.

- Mas então, aventurou o Mata, pálido, o nosso dinheiro
está completamente perdido...

- A moléstia não é incurável, disse o médico.

- Ah!

- Não é; conheço e possuo a droga curativa, e já a
empreguei em dois grandes casos: - um barbeiro, que
perdera a noção do espaço, e, à noite estendia a mão para
arrancar as estrelas do céu, e uma senhora da Catalunha,
que perdera a noção do marido. O barbeiro arriscou muitas
vezes a vida, querendo sair pelas janelas mais altas das
casas, como se estivesse ao rés do chão...

- Santo Deus! exclamaram os três credores.

- É o que lhes digo, continuou placidamente o médico.
Quanto à dama catalã, a princípio confundia o marido com
um licenciado Matias, alto e fino, quando o marido era
grosso e baixo; depois com um capitão, D. Hermógenes, e,
no tempo em que comecei a tratá-la, com um clérigo. Em
três meses ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.

Realmente, era uma droga miraculosa. Os três credores
estavam radiantes de esperança; tudo fazia crer que o Tomé
Gonçalves padecia do lapso, e, uma vez que a droga
existia, e o médico a tinha em casa... Ah! mas aqui pegou
o carro. O Dr. Jeremias não era familiar da casa do
enfermo, embora entretivesse relações com ele; não podia
ir oferecer-lhe os seus préstimos. Tomé Gonçalves não
tinha parentes que tomassem a responsabilidade de convidar
o médico, nem os credores podiam tomá-la a si. Mudos,
perplexos, consultaram-se com os olhos. Os do alfaiate,
como os do cabeleireiro, exprimiram este alvitre
desesperado: cotizarem-se os credores, e, mediante uma
quantia grossa e apetitosa, convidarem o Dr. Jeremias à
cura; talvez o interesse... Mas o ilustre Mata viu o
perigo de um tal propósito, porque o doente podia não
ficar bom, e a perda seria dobrada. Grande era a angústia;
tudo parecia perdido. O médico rolava entre os dedos a
boceta de rapé, esperando que eles se fossem embora, não
impaciente, mas risonho. Foi então que o Mata, como um
capitão dos grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo;
advertiu que as suas primeiras palavras tinham comovido o
médico, e tornou às lágrimas das famílias, aos filhos sem
pão, porque eles não eram senão uns tristes oficiais de
ofício ou mercadores de pouca fazenda, ao passo que o Tomé
Gonçalves era rico. Sapatos, calções, capotes, xaropes,
cabeleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e
saúde... Saúde, sim, senhor; os calos de suas mãos
mostravam bem que o oficio era duro; e o alfaiate, seu
amigo, que ali estava presente, e que entisicava, às
noites, à luz de uma candeia, zás-que-darás, puxando a
agulha...

Magnânimo Jeremias! Não o deixou acabar; tinha os olhos
úmidos de lágrimas. O acanho de suas maneiras era
compensado pelas expansões de um coração pio e humano.
Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pôr a ciência ao
serviço de uma causa justa. Demais, a vantagem era também
e principalmente do próprio Tomé Gonçalves, cuja fama
andava abocanhada, por um motivo em que ele tinha tanta
culpa como o doido que pratica uma iniqüidade.
Naturalmente, a alegria dos deputados traduziu-se em
rapapés infindos e grandes louvores aos insignes
merecimentos do médico. Este cortou-lhes modestamente o
discurso, convidando-os a almoçar, obséquio que eles não
aceitaram, mas agradeceram com palavras cordialíssimas. E,
na rua, quando ele já os não podia ouvir, não se fartavam
de elogiar-lhe a ciência, a bondade, a generosidade, a
delicadeza, os modos tão simples! tão naturais!

Desde esse dia começou Tomé Gonçalves a notar a
assiduidade do médico, e, não desejando outra coisa,
porque lhe queria muito, fez tudo o que lhe lembrou por
atá-lo de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era
completo; tanto a idéia de pagar, como as idéias
correlatas de credor, dívida, saldo, e outras tinham-se-
lhe apagado da memória, constituindo-lhe assim um largo
furo no espírito. Temo que se me argua de comparações
extraordinárias, mas o abismo de Pascal é o que mais
prontamente vem ao bico da pena. Tomé Gonçalves tinha o
abismo de Pascal, não ao lado, mas dentro de si mesmo, e
tão profundo que cabiam nele mais de sessenta credores que
se debatiam lá em baixo com o ranger de dentes da
Escritura. Urgia extrair todos esses infelizes e entulhar
o buraco.

Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para
retemperá-lo, começou a aplicar-lhe a droga. Não bastava a
droga; era mister um tratamento subsidiário, porque a cura
operava-se de dois modos: - o modo geral e abstrato,
restauração da idéia de pagar, com todas as noções
correlatas - era a parte confiada à droga; e o modo
particular e concreto, insinuação ou designação de uma
certa dívida e de um certo credor - era a parte do médico.
Suponhamos que o credor escolhido era o sapateiro. O
médico levava o doente às lojas de sapatos, para assistir
à compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a
ação de pagar; falava de fabricação e venda dos sapatos no
resto do mundo, cotejava os preços do calçado naquele ano
de 1768 com o que tinha trinta ou quarenta anos antes;
fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes à casa de
Tomé Gonçalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem
outros estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabeleireiro,
o segeiro, o boticário, um a um, levando mais tempo os
primeiros, pela razão natural de estar a doença mais
arraigada, e lucrando os últimos com o trabalho anterior,
donde lhes vinha a compensação da demora.

Tudo foi pago. Não se descreve a alegria dos credores, não
se transcrevem as bênçãos com que eles encheram o nome do
Dr. Jeremias. Sim, senhor, é um grande homem, bradavam em
toda a parte. Parece coisa de feitiçaria, aventuravam as
mulheres. Quanto ao Tomé Gonçalves, pasmado de tantas
dívidas velhas, não se fartava de elogiar a longanimidade
dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela
acumulação.

- Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito
dias.

- Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam
generosamente os credores.

Restava, entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o
próprio Dr. Jeremias, pelos honorários naquele serviço
relevante. Mas, ai dele! a modéstia atou-lhe a língua. Tão
expansivo era de coração, como acanhado de maneiras; e
planeou três, cinco investidas, sem chegar a executar
nada. E aliás era fácil: bastava insinuar-lhe a dívida
pelo método usado em relação à dos outros; mas seria
bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc., etc. E
esperava, ia esperando. Para não parecer que se lhe metia
à cara, entrou a rarear as visitas; mas o Tomé Gonçalves
ia ao casebre da rua do Piolho, e trazia-o a jantar, a
cear, a falar de coisas estrangeiras, em que era muito
curioso. Nada de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os
credores... Mas os credores, ainda quando pudesse passar-
lhes pela cabeça a idéia de lembrar a dívida, não
chegariam a fazê-lo, porque a supunham paga antes de
todas. Era o que diziam uns aos outros, entre muitas
fórmulas da sabedoria popular: - Mateus, primeiro os teus
- A boa justiça começa por casa - Quem é tolo pede a Deus
que o mate, etc. Tudo falso; a verdade é que o Tomé
Gonçalves, no dia em que falecera, tinha um só credor no
mundo: - o Dr. Jeremias.

Este, nos fins do século, chegara à canonização. - "Adeus,
grande homem!" dizia-lhe o Mata, ex-sapateiro, em 1798, de
dentro da sege, que o levava à missa dos carmelitas. E o
outro, curvo de velhice, melancolicamente, olhando para os
bicos dos pés: - Grande homem, mas pobre diabo.
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