História da Província de Santa Cruz
Pêro de Magalhães Gândavo
APROVAÇAM
Li
a presente obra de Pero de Magalhães, por mandado dos Senhores
do Conselho geral da Inquiziçam, e nam tem cousa que seja
contra nossa Santa Fee catholica, nem os bons costumes, antes muitas,
muito pera ler, oje dez de Novembro de 1575.-- Francisco de Gouvea.
Vista a informaçam pode-se imprimir, e torne o proprio com
hum dos impressos a esta Mesa: e este despacho se imprimirá
no principio do Livro com a dita informaçam. Em Evora a dez
de Novembro.-- Manoel Antunes Secretario do Conselho geral do Santo
Officio da Inquisiçam o fez de 1575 anos.-- Lião Anriques.--
Manoel dos Coadros.
AO MUITO ILLUSTRE SENHOR DOM LIONIS PEREIRA
SOBRE O LIVRO QUE LHE OFFERECE PERO DE MAGALHÃES
TERCETOS DE LUIS DE CAMOES
Depois
que Magalhães teve tecida
A breve historia sua que illustrasse,
A Terra Santa Cruz pouco sabida;
Imaginando a quem a dedicasse,
Ou com cujo favor defenderia
Seu livro, de algum zoilo que ladrasse,
Tendo nisto occupada a phantasia,
Lhe sobreveio hum somno repousado,
Antes que o Sol abrisse claro dia.
Em sonhos lhe aparece todo armado
Marte, brandindo a lança furiosa,
Com que fez quem o vio todo enfiado,
Dizendo em voz pezada e temerosa:
Não he justo que a outrem se offereça
Nenhuma obra que possa ser famosa,
Senão a quem por armas resplandeça
No mundo todo com tal nome e fama,
Que louvor immortal sempre mereça,
Isto assi dito, Apollo que da flama
Celeste guia os carros, da outra parte
Se Ihe apresenta, e por seu nome o chama,
Dizendo: Magalhães, postoque Marte
Com seu terror t'espante, todavia
Comigo deves só aconselharte
Hum barão sapiente, em quem Talia
Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,
Defender tuas obras poderia.
He justo que a escriptura na prudencia
Ache sua defensam; porque a dureza
Das armas, he contraria da eloquencia.
Assi disse: e tocando com destreza
A cithara dourada começou
De mitigar de Marte a fortaleza:
Mas Mercurio, que sempre costumou
A despartir porfias duvidosas,
Co'o caducêo na mão que sempre usou,
Determina compôr as perigosas
Opiniões dos Deoses inimigos,
Com razões boas, justas e amorosas,
E disse, bem sabemos dos antigos
Heroes, e dos modernos que provárão
De Belona os gravissimos perigos,
Que tambem muitas vezes ajuntárão
As armas eloquencia; porque as Musas
Mil capitães na guerra acompanhárão.
Nunca Alexandro, ou Cesar, nas confusas
Guerras deixárão o estudo hum breve espaco.
Nem armas das sciencias são escusas.
N'huma mão livros, noutra ferro e aço:
A hua rege e ensina e outra fere
Mais c'o saber se vence que co'o braço.
Pois, logo barão grande se requere,
Que com teus dões Apollo illustre seja,
E de ti Marte palma e gloria espere.
Este vos darey, eu em que se veja,
Saber e esforço no sereno peito,
Que he Dom Lionis que faz ao mundo inveja.
Deste as irmãs em vendo o bom sogeito,
Todas nove nos braços o tomárão,
Criando-o com seu leite no seu leito.
As artes e sciencia lhe ensinárão,
Inclinação divina lhe influirão,
As virtudes moraes que o logo ornárão.
Daqui os exercicios o seguirão,
Das armas no Oriente, onde primeiro,
Hum soldado gentil instituirão.
Ali taes provas fez de Cavalleiro,
Que de Cristão magnanimo e seguro,
Assi mesmo venceo por derradeiro.
Despois jà Capitão forte e maduro
Governando toda Aurea Chersoneso,
Lhe defendeo c'o braço o debil muro.
Porque vindo a cercal-a todo o pezo
Do poder dos Achens, que se sustenta
Do sangue alheio, em furia todo aceso.
Este só que a ti Marte representa
O castigou de sorte, que o vencido
De ter quem fique vivo se contenta.
Pois tanto que o gram Reino defendido
Deixou: Segunda vez com maior gloria
Pera o ir governar foi ellegido.
Mas não perdendo ainda da memoria
Os amigos o seu governo brando
Os immigos o dáno da victoria.
Huns com amor intrinseco esperando
Estão por elle, e os outros congelados
O vão com temor frio receando.
Pois vede se serão desbaratados
De todo por seu braço, se tornasse,
E dos mares da India degradados.
Porque he justo que nunca Ihe negasse
O conselho do Olimpo alto e subido
Favor e ajuda com que pelejasse
Pois aqui certo está bem dirigido,
De Magalhães o livro, este só deve
De ser de vós ó Deoses escolhido.
Isto Mercurio disse: e logo em breve
Se conformarão nisto, Apollo e Marte,
E voou juntamente o somno leve.
Acorda Magalhães, e já se parte
A vos offerecer Senhor famoso
Tudo o que nelle pôs, sciência e arte.
Tem claro estylo, ingenho curioso
Pera poder de vós ser recebido,
Com mão benigna de animo amoroso.
Porque só de não ser favorecido
Hum claro espirito, fica baixo e escuro
E seja elle convosco defendido
Como o foi de Malaca o fraco muro.
SONETO DO
MESMO AUTOR AO SENHOR DOM LIONIS, ACERCA DA VICTORIA QUE HOUVE CONTRA
EL-REI DO ACHEM E MALACA
Vós Nymphas da Gangelica espessura,
Cantai suavemente em voz sonóra
Hum grande Capitão, que a rôxa
Aurora Dos filhos defendeo da noite escura,
Ajuntou-se a caterva negra e dura,
Que na Aurea Chersoneso afouta mora,
Pera lançar do caro ninho fóra
Aquelles que mais podem que a ventura;
Mas hum forte Leão com pouca gente,
A multidão tão fera como necia,
Destruindo castiga, e torna fraca.
Pois ó Nymphas cantai, que claramente
Mais do que Lionidas fez em Grecia
O nobre Lionis fez em Malaca.
AO MUITO
ILLUSTRE SENHOR DOM LIONIS PEREIRA EPISTOLA DE PERO DE MAGALHÃES
Neste pequeno serviço, muito illustre Senhor, que offereço
a V. M. das primicias de meu fraco entendimento poderá nalguma
maneira conhecer os desejos que tenho de pagar com minha possibilidade
alguma parte do muito que se deve a inclita fama do vosso heroico
nome. E isto assi pelo merecimento do nobilissimo sangue e clara
progenie donde tras sua origem, como pelos trophéos das grandes
victorias e casos bem afortunados que lhe hão succedido nessas
partes do Oriente em que Deus o quiz favorecer com tão larga
mão, que nam cuido ser toda minha vida bastante pera satisfazer
à menor parte dos seus louvores. E como todas estas razões
me ponhão em tanta obrigaçam, e eu entenda que outra
nenhuma cousa deve ser mais aceita a pessoas de altos animos que
a lição das escrituras, per cujos meios se alcanção
os segredos de todas as sciencias, e os homens vém a illustrar
seus nomes, e perpetua-los na terra com fama imortal, determinei
escolher a V. M. entre os mais Senhores da terra, e dedicar-lhe
esta breve história. A qual espero que folgue de ver com
atenção, e receber-ma benignamente debaixo do seu
emparo: assi por ser cousa nova, e eu a escrever como testemunha
de vista: como por saber quam particular affeiçam V. M. tem
ás cousas do engenho, e que por esta causa lhe nam serà
menos aceito o exercicio das escrituras que o das armas. Por onde
com muita razam favorecido desta confiança possa seguramente
sair à luz com esta pequena empresa, e divulgada pela terra
sem nenhum receio, tendo por defensor della a V. M. Cuja muito illustre
pessoa nosso Senhor guarde e acrescente sua vida e estado por longos
e felices annos.
PROLOGO
AO LECTOR
A causa principal que me obrigou a lançar mão da presente
historia, e sair com ella a luz, foi por não haver atégora
pessoa quea emprendesse, havendo já setenta e tantos annos
que esta Provincia he descoberta. A qual historia creio que mais
esteve sepultada em tanto silencio, pelo pouco caso que os portuguezes
fizerão sempre da mesma provincia, que por faltarem na terra
pessoas de engenho, e curiosas que per melhor estillo, e mais copiosamente
que eu a escrevessem. Porêm já que os estrangeiros
a tem noutra estima, e sabem suas particularidades melhor e mais
de raiz que nós (aos quaes lançárão
já os portuguezes fóra della à força
darmas per muitas vezes) parece cousa decente e necessaria terem
tambem os nossos naturaes a mesma noticia, especialmente pera que
todos aquelles que nestes Reinos vivem em pobreza nam duvidem escolhe-la
para seu emparo: porque a mesma terra he tal, e tam favoravel aos
que a vão buscar, que a todos agazalha e onvida com remedio
por pobres e desemparados que sejão. E tambem ha nella cousas
dignas de grande admiraçam e tam notaveis que parecêra
descuido e pouca curiosidade nossa, nam fazer mençam dellas
em allgum discurso, e da-las à perpetua memoria, como costumavão
os antigos: aos quaes nam escapava cousa alguma que por extenso
nam reduzissem a história, e fizessem mençam em suas
escrituras de cousas menores que estas, as quaes hoje em dia vivem
entre nós como sabemos, e viverão eternamente. E se
os antigos portuguezes, e ainda os modernos nam foram tam pouco
affeiçoados à escritura como sam; nam se perdêrão
tantas antiguidades entre nós, de que agora carecemos, nem
houvera tam profundo esquecimento de muitas cousas, em cu jo estudo
têm muitos homens doutos cansado, e revolvido grande copia
de livros sem as poderem descobrir nem recuperar da maneira que
passárão. Daqui vinha aos Gregos e Romanos haverem
todas as outras nações por barbaras, e na verdade
com rezão lhes podião dar este nome, pois erão
tam pouco solicitos, e cubiçosos de honra que por sua mesma
culpa deixavão morrer aquellas cousas que lhes podião
dar nome, e faze-los immortaes. Como pois a escritura seja vida
da memoria, e a memoria huma semelhança da immortalidade
a que todos devemos aspirar, pela parte que della nos cabe, quiz
movido destas razões, fazer esta breve historia, pera cujo
ornamento nam busquei epitetos exquisitos, nem outra fermosura de
vocabulos de que os eloquentes Oradores costumão usar pera
com artificio de palavras engrandecerem suas obras. Somente procurei
escrever esta na verdade per hum estillo facil, e chão, como
meu fraco engenho me ajudou, desejoso de agradar a todos os que
della quizerem ter noticia. Pelo que devo ser desulpado das faltas
que aqui me pódem notar: digo dos discretos, que com sam
zelo o costumão fazer que dos idiotas e mal dizentes bem
sei que nam hei de escapar, pois está certo nam perdoarem
a ninguem.
CAPITULO I
DE COMO SE DESCOBRIO ESTA PROVINCIA, E A RAZAM POR QUE SE DEVE CHAMAR
SANTA CRUZ E NÃO BRASIL
Reinando aquelle mui Catholico e Serenissimo Principe El Rey Dom
Manuel, fez-se huma frota para a India, de que ia por Capitam mór
Pedralvarez Cabral, que foi a segunda navegaçam que fizerão
os Portuguezes para aquellas partes do Oriente. A qual partio da
Cidade de Lisboa a nove de Março no anno de 1500. E sendo
jà entre as IIhas do Cabo Verde, as quaes ião demandar
para fazer ahi agoada, deu-lhes hum temporal, que foi causa de as
nam poderem tomar, e de se apartarem alguns navios da companhia.
E depois de haver bonança junta outra vez a frota, empégarão-se
ao mar, assi por fugirem das calmarias de Guinè que lhes
podião estorvar sua viagem, como por lhes ficar largo poderem
dobrar o Cabo de Boa Esperança. E avendo jà hum mez
que ião naquella volta navegando com vento prospero, forão
dar na Costa desta Provincia: ao longo da qual cortárão
todo aquelle dia, parecendo a todos que era alguma grande llha que
ali estava sem haver piloto nem outra pessoa alguma que tivesse
noticia della nem que presumisse que podia estar terra firme para
aquella parte Occidental. E no logar que lhes pareceu della mais
accomodado, surgirão aquella tarde, onde logo tiverão
vista da gente da terra: de cuja semelhança nam ficarão
pouco admirados, porque era differente da de Guiné, e fóra
do comum parecer de toda outra que tinhão visto. Estando
assi surtos nesta parte que digo saltou aquella noite com elles
tanto tempo, que lhes foi forçado levarem as ancoras, e com
aquelle vento que lhes era largo por aquelle rumo, forão
correndo a costa atè chegarem a hum porto limpo, e de bom
surgidouro, onde entrarão: ao qual pozeram então este
nome que hoje em dia tem de Porto Seguro, por lhes dar colheita,
e os assegurar do perigo da tempestade que levavão Ao outro
dia seguinte sahio Pedralvarez em terra com a maior parte da gente
na qual se disse logo missa cantada, e houve prégaçam:
e os Indios da terra que ali se ajuntarão ouvirão
tudo com muita quietaçam, usando de todos os actos e cerimonias
que vião fazer aos nossos: e assi se punhão de giolhos
e batião nos peitos como se tivérão lume de
Fé, ou que por alguma via lhes fora revelado aquelle grande
e inefabil misterio do Santissimo Sacramento, no que se mostravão
claramente estarem dispostos para receberem a doctrina Christã
a todo o tempo que lhes fosse denunciada como gente que nam tinham
impedimento de idolos, nem professava outra Lei alguma que podesse
contradizer a esta nossa, como adiante se verà no capitulo
que trata de seus costumes. Então despedio logo Pedralvarez
hum navio com a nova a ElRey Dom Manuel, a qual foi delle recebida
com muito prazer e contentamento: e dahi por deante começou
logo de mandar alguns navios a estas partes e assi se foi a terra
descobrindo pouco a pouco, e conhecendo de cada vez mais, até
que depois se veio toda a repartir em Capitanias e a povoar da maneira
que agora está. E tornando-a Pedralvarez, seu descobridor,
passado alguns dias que ali esteve fazendo sua agoada e esperando
por tempo que lhe servisse, antes de se partir por deixar nome áquella
Provincia, por elle novamente descoberta, mandou alçar huma
cruz no mais alto lugar de uma arvore, onde foi arvorada com grande
solenidade e bençãos de Sacerdotes que levava em sua
companhia, dando á terra este nome de Santa Cruz: cuja festa
celebrava naquelle mesmo dia a Santa Madre Egreja,que era aos tres
de maio. O que nam parece carecer de Misterio, porque assi como
nestes Reinos de Portugal trazem a cruz no peito por insignia da
Ordem e Cavallaria de Christus, assi prouve a elle que esta terra
se descobrisse a tempo que o tal nome lhe podesse ser dado neste
Santo dia, pois havia de ser possuida de Portuguezes, e ficar por
herança de patrimonio ao Mestrado da mesma Ordem de Christus.
Por onde nam parece razam que lhe neguemos este nome, nem que nos
esqueçamos delle tam indevidamente por outro que lhe deu
o vulgo mal considerado, depois que o pao da tinta começou
de vir a estes Reinos; ao qual chamaram brasil por ser vermelho,
e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este
nome de Brasil. Mas para que nesta parte magoemos ao Demonio, que
tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memoria da Santa Cruz
e desterra-la dos corarões dos homens, medeante a qual somos
redimidos e livrados do poder de sua tirania, tornemos-lhe a restituir
seu nome e chamemos-lhe Provincia de Santa Cruz, como em principio
(que assi o amoesta tambem aquelle illustre e famoso escritor João
de Barros na sua primeira Década, tratando deste mesmo descobrimento)
porque na verdade mais he destimar, e melhor soa nos ouvidos da
gente Christã o nome de hum pao em que se obrou o misterio
de nossa redençam que o doutro que nam serve de mais que
de tingir pannos ou cousas semelhantes.
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