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História da Província de Santa Cruz
Pêro de Magalhães Gândavo


CAPÍTULO II
EM QUE SE DESCREVE O SITIO E QUALIDADES DESTA PROVINCIA

Esta provincia Santa Cruz està situada naquella grande America, uma das quatro partes do mundo. Dista o seu principio dous graos da equinocial para a banda do Sul, e dahi se vai estendendo para o mesmo sul atè quarenta e cinco graos. De maneira que parte della fica situada debaixo da Zona torrida e parte debaixo da temperada. Està formada esta Provincia á maneira de huma harpa, cuja costa pela banda do Norte corre do Oriente ao Ocidente e está olhando direitamente a Equinocial; e pela do Sul confina com outras Provincias da mesma America povoada e possuidas de povo gentilico, com que ainda nam temos communicaçam. E pela do Oriente confina com o mar Oceano Africo, e olha direitamente os Reinos de Congo e Angola até o Cabo de Boa Esperança, que he o seu opposito. E pela do Occidente confina com as altissimas serras dos Andes e fraldas do Perú, as quaes sam tam saberbas ensima da terra qui se diz terem as aves trabalho em as passar. E atè hoje hum só caminho lhe acharão os homens vindos do Perú a esta Provincia, e este tam agro que em o passar perecem algumas pessoas cahindo do estreito caminho que trazem, e vam parar os corpos mortos tam longe dos vivos que nunca os mais vem, nem podem ainda que queirão dar-lhe sepultura.
Destes e doutros extremos semelhantes carece esta Provincia Santa Cruz porque com ser tam grande nam tem Serras, ainda que muitas, nem desertos nem alagadiços que com facilidade se não possão atravessar. Além disto he esta Provincia sem contradição a melhor pera a vida dc homem que cada huma das outras de America, por ser commummente de bons ares e fertilissima, e em gram maneira deleitosa e aprazivel á vista humana. O ser ella tam salutifera e livre de enfermidades, procede dos ventos que geralmente cursão nella: os quaes são Nordestes e Sues, e algumas vezes Lestes e Lessuestes. E como todos estes procedão da parte do mar, vem tam puros e coados, que nam somente nam dânam; mas recream e acrescentam a vida do homem. A viracão destes ventos entra ao meio dia pouco mais ou menos e dura até de madrugada: entam cessa por causa dos vapores da terra que o apagão, e quando amanhece as mais das vezes està o Ceo todo coberto de nuvens, e assi as mais das manhãs chove nestas partes, e fica a terra toda coberta de nevoa por respeito de ter muitos arvoredos que chamão a si todos estes humores. E neste intervalo sopra hum vento brando que na terra se gera, até que o sol com seus raios o acalma, e entrando o vento do mar acostumado, torna o dia claro e sereno, e faz ficar a terra limpa e desempedida de todas estas exalações.
Esta Provincia he à vista mui deliciosa e fresca em gram maneira: toda està vestida de mui alto e espesso arvoredo, regada com as aguas de muitas e mui preciosas ribeiras de que abundantemente participa toda a terra, onde permanece sempre a verdura com aquella temperança da primavera que cà nos offerece Abril e Maio. E isto causa não haver là frios, nem ruinas de inverno que offendão as suas plantas, como cà offendem às nossas. Em fim que assi se houve a Natureza com todas as cousas desta Provincia, e de tal maneira se comedio na temperança dos ares, que nunca nella se sente frio nem quentura excessiva.
As fontes que ha na terra sam infinitas, cujas agoas fazem crescer a muitos e mui grandes rios que por esta costa, assi da banda do Norte, como do Oriente, entram no mar Oceano. Alguns delles nascem no interior do sertam, os quaes vem per longas e tortuosas vias a buscar o mesmo Oceano: onde suas correntes fazem afastar as marinhas agoas per força, e entram nelle com tanto impeto, que com muita difficuidade e perigo se pode por elles navegar. Hum dos mais famosos e principaes que ha nestas partes he o das Amazonas, o qual sae ao Norte meio grao da equinocial para o Sul e tem trinta legoas de boca pouco mais ou menos. Este rio tem na entrada muitas ilhas que o dividem em diversas partes e nasce de huma lagoa que està cem legoas do mar do Sul ao pè de humas serras do Quito, Provincia do Perú, donde partirão já algumas embarcações de Castelhanos, e navegando por elle abaixo vierão sair em o mar Oceano meio grao da Equinocial, que serà distancia de 600 legoas per linha direita, nam contando as mais que se acrecentão nas voltas que faz o mesmo rio. Outro mui grande cincoenta legoas deste pera Oriente sae tambem ao Norte, a que chamam rio do Maranhão. Tem dentro muitas llhas, e huma no meio da barra que està povoada de gentio, ao longo da qual podem surgir quaesquer embarcações. Terà este rio sete legoas de boca pela qual entra tanta abundancia de agoa salgada, que dahi cincoenta legoas pelo sertam dentro, he nem mais nem menos como um braço de mar atè onde se pode navegar per entre as IIhas sem nenhum impedimento. Aqui se metem dous rios nelle que vem do sertam, per hum dos quaes entràrão alguns Portuguezes quando foi do descobrimento que forão fazer no anno de 35, e navegarão por elle a cima duzentas e cincoenta legoas até que nam poderão ir mais por deante por causa da agoa ser pouca, e o rio se ir estreitando de maneira que nam podião jà por elle caber as embarcações. Do outro nam descobrirão cousa alguma e assi se não sabe atégora donde procedem ambos.
Outro mui notavel sae pela banda do Oriente ao mesmo Oceano a que chamão de Sam Francisco: cuja boca està em dez graos e um terço, e será mea legoa de largo. Este rio entra tam soberbo no mar, e com tanta furia que nam chega a marè à boca, somente faz algum tanto represar suas agoas e dahi tres legoas ao mar se acha agoa doce. Corre-se da boca, do Sul pera o Norte: dentro he muito fundo e limpo, e pode-se navegar por elle atè sessenta legoas como jà se navgou. E dahi por deante se não pode passar por respeito de huma cachoeira mui grande que ha neste passo onde cae o pezo da agoa de mui alto. E acima desta cachoeira se mete o mesmo rio debaixo da terra, e vem sahir huma legoa dahi, e quando ha cheias arrebenta por cima e arrasa toda a terra. Este rio procede de hum lago mui grande que está no intimo da terra, onde afirmão que ha muitas povoações, cujos moradores (segundo fama) possuem grandes haveres de ouro e pedraria. Outro rio mui grande, e hum dos mais espantosos do mundo, sae pela mesma banda do Oriente em trinta e cinco graos, a que chamão rio da Prata o qual entra no Oceano com quarenta legoas de boca: e he tanto o impeto de agoa doce que traz de todas as vertentes do Perú, que os navegantes prireiro no mar bebem suas agoas, que vejão a terra donde este bem lhes procede. Duzentas e setenta legoas por elle acima está edificada huma Cidade povoada de Castelhanos que se chama Assençam. Até aqui se navega por elle, e ainda dahi por deante muitas legoas. Neste rio pela terra dentro se vem meter outro a que chamão Paragoahi, que tambem procede do mesmo lago como o de Sam Francisco que atras fica. Além destes rios ha outros muitos que pela costa ficão, assi grandes como pequenos, e muitas enseadas, bahias, e braços de-mar, de que nam quiz fazer mençam, porque meu intento nam foi sinam escolher as cousas mais notaveis e principaes da terra, e trata-las aqui somente em particular, para que assi nam fosse notado de prolixo e satisfizesse a todos com brevidade.


CAPÍTUL O III
DAS CAPITANIAS E POVOAÇÕES DE PORTUGUEZES QUE HA NESTA PROVINCIA

Tem esta Provincia, assi como vai lançada na linha Equinocial para o Sul, oito Capitanias povoadas de Portuguezes, que contém cada huma em si pouco mais ou menos cincoenta legoas de costa, e demarcão-se humas das outras por huma linha lançada Leste oeste: e assi ficão limitadas per estes termos entre o mar Oceano e a linha da repatriçam geral dos Reis de Portugal e Castellaa. As quaes Capitanias ElRey Dom João, o terceiro desejoso de plantar nestas partes a Religiam Christaã, ordenou em seu tempo escolhendo para o governo de cada huma dellas vassallos seus de sangue e merecimento, em que cabia esta confiança, os quaes edificarão suas povoações ao longo da costa nos logares mais convenientes e accommodados que lhes pareceu pera a vivenda dos moradores. Todas estam já mui povoadas de gente, e nas partes mais importantes guarnecidas de muita e mui grossa artilharia que as defende e as segura dos inimigos assi da parte do mar como da terra. Junto dellas havia muitos Indios quando os Portuguezes começaram de as povoar: mas porque os mesmos lndios se levantavão contra elles e lhes fazião muitas treições os Governadores e Capitães da terra distruirão-nos pouco a pouco, e matarão muitos delles: outros fugirão pera o sertam e assi ficou a terra desocupada de gentio ao longo das Povoações. Algumas aldeas destes Indios ficarão todavia orredor dellas, que sam de paz, e amigos dos Portuguezes que habitão estas Capitanias. E pera que todas no presente capitulo faça mençam, nam farei por ora mais que referir de caminho os nomes dos primeiros Capitães que as conquistarão e tratar precisamente das povoações, sitios e portos onde residem os Portuguezes, nomeando cada huma dellas em especial assi como vão do Norte para o Sul, na maneira seguinte.
A primeira e mais antiga se chama Tamaracá, a qual tomou este nome de huma Iha pequena, onde sua povoaçam está situada. Pero Lopes de Sousa foi o primeiro que a conquistou e livrou dos Francezes em cujo poder estava quando a foi povoar: esta llha em que os moradores habitão divide da terra firme hum braço de mar que a rodea, onde tambem se ajuntão alguns rios que vem do sertam. E assi ficão duas barras lançadas cada huma pera sua banda, e a ilha em meio: per huma das quaes entrão navios grossos e de toda a sorte, e vão ancorar junto da povoaçam que está dahi meia legoa, pouco mais ou menos. Tambem pela outra que fica da banda do Norte se servem algumas embarcações pequenas, a qual por causa de ser baixa nam sofre outras maiores. Desta ilha para o Norte tem esta Capitania terras mui iargas e viçosas, nas quaes hoje em dia estiverão feitas grossas fazendas, e os moradores forão em muito mais crescimento, e florescerão tanto em prosperidade como em cada huma das outras si o mesmo Capitão Pero Lopes residira nella mais alguns annos e nam a desemparára no tempo que a começou de povoar.
A segunda Capitania que adeante se segue, se chama Paranambuco: a qual conquistou Duarte Coelho, e edificou sua principal povoaçam em hum alto á vista do mar, que está cinco legoas desta ilha de Tamaracá em altura de oito graos: chama-se Olinda, he huma das mais nobres e populosas villas que ha nestas partes. Cinco legoas pela terra dentro está outra povoaçam chamada Igaroçú, que por outro nome se diz a Villa dos Cosmos. E além dos moradores que habitão estas Villas ha outros muitos que pelos engenhos e fazendas estam espalhados, assi nesta como nas outras Capitanias de que a terra comarcaã toda está povoada. Esta he huma das melhores terras, e que mais tem realçado os moradores que todas as outras Capitanias desta Provincia os quaes forão sempre mui favorecidos e ajudados dos Indios da terra, de que alcançarão muitos infinitos escravos com que grangeão suas fazendas. E a causa principal de ella hir sempre tanto avante no crecimento da gente foi por residir continuamente nella o mesmo Capitão que a conquistou, e ser mais frequentada de navios desde Reino por estar mais perto delle que cada huma das outras que adeante se seguem.
Huma legoa da povoaçam de Olinda para o Sul está hum arrecife ou baixo de pedras, que he o Porto onde entram as embarcações. Tem a serventia pela praia e tambem per hum rio pequeno que passa por junto da mesma povoaçam. A terceira Capitania que adeante se segue, he da Bahia de Todos os Santos, terra de ElRey nosso Senhor: na qual residem o Governador, e Bispo, e Ouvidor geral de toda a costa. O primeiro Capitão que a Consquistou, e que a começou de povoar, foi Francisco Pereira Coutinho: ao qual desbaratarão os Indios com a força de muita guerra que lhe fizerão a cujo impeto nam pode resistir, pela multidão dos inimigos que entam se conjurarão por todas aquelas partes contra os Portuguezes. Depois disto tornou a ser restituida, e outra vez povoada por Thomé de Sousa o primeiro governador geral que foi a estas partes. E daqui por deante forão sempre os moradores multiplicando com muito acrecentamento de suas fazendas.
E assi huma das Capitanias que agora está mais povoada de Portuguezes de quantas ha nesta Provincia, he esta da Bahia de Todos os Santos. Tem tres povoações mui nobres e de muitos vizinhos, as quaes estam distantes das de Paranambuco cem legoas, em altura de trese graos.
A principal onde residem os do governo da terra e a mais da gente nobre, he a cidade do Salvador. Outra está junto da barra, a qual chamão Villa Velha, que foi a primeira povoaçam que ouve nesta Capitania. Depois Thomé de Sousa sendo Governador edificou a Cidade do Salvador mais adeante meia legoa por ser logar mais decente e proveitoso para os moradores da terra. Quatro legoas pela terra dentro está outra que se chama Paripe que tambem tem jurisdiçam sobre si como cada uma das outras. Todas estas Povoações estam situadas ao longo de huma bahia mui grande e fermosa, onde podem entrar seguramente quaesquer náos por grandes que sejão: a qual he tres legoas de largo, e navega-se quinze por ella dentro. Tem dentro em si muitas ilhas de terras mui singulares. Divide-se em muitas partes, e tem muitos braços e enseadas por onde os moradores se servem em barcos para suas fazendas.
A quarta Capitania que he a dos Ilheos se deu a Jorge de Figueiredo Correa, Fidalgo da Casa de ElRey nosso Senhor: e por seu mandado a foy povoar hum João Dalmeida, o qual edificou sua povoaçam trinta legoas da Bahia de Todos os Santos em altura de quatorze graos e dous terços. Esta povoaçam he uma Villa mui fermosa, e de muitos vizinhos, a qual está em cima de uma ladeira á vista do mar, situada ao longo de hum rio onde entrão os navios. Este rio tambem se divide pela terra dentro em muitas partes, junto do qual tem os moradores da terra toda a grangeria de suas fazendas: pera as quaes se servem por elle em barcos e almadias como os da Bahia de Todos os Santos.
A quinta Capitania a que chamão Porto Seguro conquistou Pero do Campo Tourinho: tem duas povoações que estam distantes das dos llheos trinta legoas em altura de dezaseis graos e meio: entre as quaes se mete hum rio que faz hum arrecife na boca como enseada, onde os navios entrão. A principal povoaçam está situada em dous logares, convém a saber parte della em hum tezo soberbo que fica sobre o rolo do mar da banda do Norte, e parte em huma varzea que fica pegada com o rio. A outra povoaçam a que chamão Santo Amaro está huma legoa deste rio para o Sul. Duas legoas deste mesmo arrecife, pera o Norte está outra que he o porto, onde entrou a frota quando esta Provincia se descobrio. E porque entam lhe foi posto este nome de Porto Seguro, como atras deixo declarado, ficou dahi a Capitania com o mesmo nome: e por isso se diz Porto Seguro.
A sexta Capitania he a do Spirito Santo, a qual conquistou Vasco Fernandes Coitinho. Sua povoaçam está situada em huma Ilha pequena, que fica distante das povoações de Porto Seguro sessenta legoas em altura de vinte graos. Esta llha jàz dentro de hum rio mui grande, de cuja barra dista huma legoa pelo sertam dentro: no qual se mata infinito peixe e pelo conseguinte na terra infinita caça, de que os moradores continuamente sam mui abastados. E assi he esta a mais fertil Capitania e melhor provida de todos os mantimentos da terra que outra alguma que haja na costa .
A setima Capitania he a do Rio de Janeiro: a qual conquistou Men de Sà, e á força darmas, offerecido a mui perigosos combates a livrou dos Francezes que a occupavão, sendo Governador geral destas partes. Tem huma povoaçam, a que chamão Sam Sebastiam, Cidade mui nobre e povoada de muitos vizinhos, a qual está distante da do Spirito Santo setenta e cinco legoas em altura de vinte e tres graos. Esta povoaçam está junto da barra, edificada ao longo de hum braço de mar: o qual entra sete legoas pela terra dentro, e tem cinco de traveça na parte mais larga, e na boca onde he mais estreito haverá um terço de legoa. No meio desta barra está uma Lagoa que tem cincoenta e seis braças de comprido, e vinte e seis de largo: na qual se pode fazer huma fortaleza pera defensam da terra, se comprir. Esta he huma das mais seguras e melhores barras que ha nestas partes, pela qual podem quaesquer nàos entrar e sahir a todo o tempo sem temor de nenhum perigo. E assi as terras que ha nesta Capitania, tambem sam as melhores e mais aparelhadas para enriquecerem os moradores de todas quantas ha nesta Provincia: e os que la forem viver com esta esperança, nam creyo que se acharão enganados.
A ultima Capitania he a de Sam Vicente, a qual conquistou Martim Afonso de Sousa: tem quatro povoações. Duas dellas estam situadas em huma llha que divide hum braço de mar da terra firme à maneira de rio. Estam estas povoações distantes do Rio de Janeiro, quarenta e cinco legoas em altura de vinte quatro graos. Esse braço de mar que cerca esta llha tem duas barras cada huma pera sua parte. Huma dellas he baixa e nam muito grande, por onde nam podem entrar sinam embarcações pequenas, ao longo da qual está edificada a mais antiga povoaçam de todas a que chamão São Vicente. Uma legoa e meia de outra barra (que he a principal por onde entrão os navios grossos e embarcações de toda a maneira que vem a esta Capitania) está a outra povoaçam, chamada Santos, onde por respeito destas escallas, reside o Capitão ou o seu Logo tenente com os officiaes do Conselho e governo da terra. Cinco legoas pera o Sul ha outra povoaçam a que chamão Hitanhaèm. Outra está doze legoas pela terra dentro chamada Sam Paulo, que edificaram os Padres da Companhia, onde ha muitos vizinhos, e a maior parte delles são nascidos das Indias naturaes da terra, e filhos de Portuguezes. Tambem está outra llha a par desta da banda do Norte, a qual divide da terra firme outro braço de mar, que se vem ajuntar com este: em cuja barra estam feitas duas fortalezas, cada uma de sua banda que defendem esta Capitania dos Indios e Corsarios do mar com artilharia, de que estam mui bem apercebidas. Por esta barra se serviam antigamente, que he o logar por onde costumavam os inimigos de fazer muito damno aos moradores. Outras muitas povoações ha por todas estas Capitanias alem destas de que tratei, onde residem muitos Portuguezes, das quaes nam quiz fazer mençam por nam ser meu intento dar notícia sinam daquellas mais assinaladas que sam as que tem officiaes de justiça e jurisdiçam sobre si como qualquer Villa ou Cidade destes Reinos.


CAPÍTULO IV
DA GOVERNANÇA QUE OS MORADORES DESTAS CAPITANIAS TEM NESTAS PARTES E A MANEIRA DE COMO SE HÃO EM SEU MODO DE VIVER

Depois que esta Provincia Santa Cruz se começou de povoar de Portuguezes, sempre esteve instituida em huma governança na qual assistia Governador Geral por ElRey nosso Senhor com alçada sobre os outros Capitães que residem em cada Capitania. Mas porque de humas a outras ha muita distância e a gente vai em muito crescimento, repartio-se agora em duas governações, convem a saber da Capitania de Porto Seguro para o Norte fica huma, e da do Spirito Santo para o Sul fica outra: e em cada huma dellas assiste seu Governador com a mesma alçada. O da banda do Norte reside na Bahia de Todos os Santos, e o da banda do Sul no Rio de Janeiro. E assi fica cada hum em meio de suas jurisdições, para desta maneira poderem os moradores da terra ser melhor governados e á custa de menos trabalho.
E vindo ao que toca ao governo de vida e sustentaçam destes moradores, quanto ás casas em que vivem cada vez se vão fazendo mais custosas e de melhores edificios: porque em principio nam havia outras na terra sinam de taipa e terreas, cobertas somente com palma. E agora ha já muitas sobradadas e de pedra e cal, telhadas e forradas como as deste Reino, das quaes ha ruas mui compridas, e formosas nas mais das povoações de que fiz mençam. E assi antes de muito tempo (segundo a gente vai crecendo) se espera que haja outros muitos edificios e templos mui sumptuosos com que de todo se acabe nesta parte a terra de enobrecer.
Os mais dos moradores que por estas Capitanias estão espalhados, ou quasi todos, tem suas terras de sesmaria dadas e repartidas pelos Capitães e Governadores da terra. E a primeira cousa que pretendem acquirir, são escravos para nellas lhes fazerem suas fazendas e si huma pessoa chega na terra a alcançar dous pares, ou meia duzia delles (ainda que outra cousa nam tenha de seu) logo tem remedio para poder honradamente sustentar sua familia: porque hum lhe pesca e outro lhe caça, os outros lhe cultivão e grangeão suas roças e desta maneira nam fazem os homens despeza em mantimentos com seus escravos, nem com suas pessoas. Pois daqui se póde inferir quanto mais serão acrecentadas as fazendas daquelles que teverem duzentos, trezentos escravos, como ha muitos moradores na terra que nam tem menos desta contia, e dahi pera cima.
Estes moradores todos pela maior parte se tratão muito bem, e folgão de ajudar huns aos outros com seus escravos, e favorecem muito os pobres que começão a viver na terra. Isto geralmente se costuma nestas partes, e fazem outras muitas obras pias, por onde todos tem remedio de vida, e nenhum pobre anda pelas portas a mendigar como nestes Reinos.


CAPÍTULO V
DAS PLANTAS, MANTIMENTOS E FRUITAS QUE HA NESTA PROVINCIA

São tantas e tam diversas as plantas, fruitas, e hervas que ha nesta Provincia, de que se podiam notar muitas particularidades, que seria cousa infinita escreve-las aqui todas, e dar noticia dos effectos de cada huma meudamente. E por isso nem farei agora mençam sinam de algumas em particular, principalmente daquellas de cuja virtude e fruito Participão os Portuguezes.
Primeiramente tratarei da planta e raiz de que os moradores fazem seus mantimentos que la comem em logar de pão. A raiz se chama mandioca, e a planta de que se gera he de altura de hum homem pouco mais ou menos. Esta planta nam he muito grossa, e tem muitos nós: quando a querem plantar em alguma roça cortão-na e fazem-na em pedacos, os quaes metem debaixo da terra, depois de cultivada, como estacas, e dahi tornaõ arrebentar outras plantas de novo: e cada estaca destas cria tres ou quatro raizes e dahi pera cima (segundo a virtude da terra em que se planta) as quaes põem nove ou dez meses em se criar: salvo em Sam Vicente que põem tres annos por causa da terra ser mais fria.
Estas raizes a cabo deste tempo se fazem mui grandes á maneira de Inhames de S. Thomé, ainda que as mais dellas sam compridas e revoltas de feição de corno de boi. E depois de criadas desta maneira si logo as nam querem arrancar pera comer, cortam-lhe a planta pelo pé, e assi estão estas raizes cinco, seis meses debaixo da terra em sua perfeicão sem se danarem: e em Sam Vicente se conservam vinte, e trinta annos da mesma maneira. E tanto que as arrancão põem-na a curtir em agoa três quatro dias, e depois de curtidas, pizão-nas muito bem. Feito isto metem aquella massa em humas mangas compridas e estreitas que fazem de humas vergas delgadas, tecidas á maneira de cesto: e ali a espremem daquelle súmo da maneira que nam fique delle nenhuma cousa por esgotar: porque he tam peçonhento e em tanto extremo venenoso, que si huma pessoa ou qualquer outro animal o beber, logo naquelle instante morrerá. E depois de assi a terem curada desta maneira põem hum alguidar sobre o fogo em que a lanção, a qual está mexendo huma India até que o mesmo fogo lhe acabe de gastar aquella humidade e fique enxuta e disposta pera se poder comer que será por espaço de meia hora pouco mais ou menos.
Este he o mantimento a que chamão farinha de páo, com que os moradores e gentio desta Provincia se mantém. Ha todavia farinha de duas maneiras: huma se chama de guerra e outra fresca. A de guerra se faz desta mesma raiz, e depois de feita fica muito seca e torrada de maneira que dura mais de hum anno sem se danar. A fresca he mais mimosa e de melhor gosto: mas nam dura mais que dous ou tres dias, e como passa delles, logo se corrompe. Desta mesma mandioca, fazem outra maneira de mantimentos que se chamão beijús, os quaes sam de feição de obreas, mas mais grossos e alvos, e alguns delles estendidos da feição de filhós. Destes uzam muito os moradores da terra, principalmente os da Bahia de Todos os Santos, porque são mais saborosos e de melhor disistão que a farinha.
Tambem ha outra casta de mandioca que tem differente propriedade desta, a que por outro nome chamão aipim, da qual fazem huns bôlos em algumas Capitanias que parecem no sabor que excedem a pão fresco deste Reino. O sumo desta raiz nam he peçonhento como o que sae da outra, nem faz mal a nenhuma cousa ainda que se beba. Tambem se come a mesma raiz assada como batata ou inhame: porque de toda maneira se acha nella mu ito gosto. Além deste mantimento, ha na terra muito milho zaburro de que se faz pão muito alvo, e muito arroz, e muitas favas de differentes castas, e outros muitos legumes que abastão muito a terra.
Huma planta se da támbem nesta Provincia, que foi da ilha de Sam Thomé, com a fruita da qual se ajudam muitas pessoas a sustentar na terra. Esta planta he mui tenra e nam muito alta, nam tem ramos senam humas folhas que serão seis ou sete palmos de comprido. A fruita della se chama bananas. Parecem-se na feição com pepinos, e crião-se em cachos: alguns delles ha tam grandes que tem de cento e cincoenta bananas pera cima, e muitas vezes he tamanho o peso della que acontece quebrar a planta pelo meio. Como são de vez colhem estes cachos, e dali a alguns dias amadurecem. Depois de colhidos cortão esta planta porque nam frutifica mais que a primeira vez: mas tornam logo a nascer della huns filhos que brotam do mesmo pé, de se fazem outros semelhantes. Esta fruita he mui sabrosa, e das boas, que ha na terra: tem huma pelle como de figo (ainda que mais dura) a qual lhe lanção fora quando a querem comer: mas faz dano á saude e causa fevre a quem se desmanda nella. Humas arvores ha tambem nestas partes mui altas a que chamão Zabucáes: nas quaes se criam huns vasos tamanhos como grandes cocos, quasi da feição de jarras da India. Estes vasos são mui duros em gram maneira, e estão cheios de humas castanhas muito doces, e saborosas em extremo: e tem as bocas pera baixo cubertas com humas sapadoiras que parece realmente nam serem assi criadas da natureza, senam feitas por artificio de industria humana. E tanto que as taes castanhas são maduras caem estas sapadoiras e dali começam as mesmas castanhas tambem a cahir pouco a pouco, até nam ficar nenhuma dentro dos vasos.
Outra fruita ha nesta terra muito melhor, e mais prezada dos moradores de todas, que se cria em huma planta humilde junto do chão: a qual planta tem humas pencas como de herva babosa. A esta fruita chamão Ananazes, e nascem como alcachofres, os quaes parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho, e alguns maiores. Depois que são maduros, tem hum cheiro mui suave e comem-se aparados feitos em talhadas. São tam sabrosos, que a juizo de todos nam ha fruita neste Reino que no gosto lhes faça vantagem, e assi fazem os moradores por elles mais, e os tem em maior estima que outro nenhum pomo que haja na terra.
Ha outra fruita que nasce pelo mato em humas arvores tamanhas como pereiras, ou macieiras: a qual he de feição de peros repinaldos, e muito amarella. A esta fruita chamão cajús: tem muito sumo, e come-se pela calma pera refrescar, porque he ella de sua natureza muito fria, e de maravilha faz mal, ainda que se desmandem nella. Na ponta de cada pomo destes se cria hum caroço tamanho como castanha, da feição de fava: o qual nasce primeiro, e vem diante da mesma fruita como flôr; a casca delle he muito amargosa em extremo, e o meolo assado he muito quente de sua propriedade e mais gostoso que a amendoa.
Outras muitas fruitas ha nesta Provincia de diversas qualidades comuns a todos, e são tantas que já se acharão pela terra dentro algumas pessoas as quaes se sustentavão com ellas muitos dias sem outro mantimento algum. Estas que aqui escrevo, são as que os portuguezes têm entre si em mais estima, e as melhores da terra.
Algumas deste Reino se dão tambem nestas partes, convem a saber, muitos melões, pepinos, romãs e figos de muitas castas; muitas parreiras que dão uvas duas, tres vezes no anno, e de toda outra fruita da terra ha sempre a mesma abundancia por causa de não haver la (como digo) frios, que lhes fação nenhum prijuizo. De cidras, limões, e laranjas ha muita infinidade, porque se dão muito na terra estas arvores de espinho, e multiplicão mais que as outras.
Além das plantas que produzem de si estas fruitas, e mantimentos que na terra se comem, ha outras de que os moradores fazem suas fazendas, convém a saber, muitas canas de açucar, e algodoaes, que he a principal fazenda que ha nestas partes, de que todos se ajudão e fazem muito proveito em cada huma destas Capitanias, especialmente na de Pernambuco que são feitos perto de trinta engenhos, e na Bahia do Salvador quasi outros tantos, donde se tira cada hum anno grande quantidade de açucares, e se dá infinito algodam, e mais sem comparaçam que em nenhumas das outras. Tambem ha muito páo brasil nestas Capitanias de que os mesmos moradores alcanção grande proveito: o qual páo se mostra claro ser produzido da quentura do Sol, e criado com a influencia de seus raios, porque nam se acha sinam debaixo da torrida Zona, e assi quando mais perto está da linha Equinocial, tanto he mais fino e de melhor tinta; e esta he a causa porque o nam ha na Capitania de Sam Vicente nem dahi pera o Sul.
Hum certo genero de arvores ha tambem pelo mato dentro na Capitania de Pernambuco a que chamam Copahibas de que se tira balsamo mui salutifero e proveitoso em extremo, para enfermidades de muitas maneiras, principalmente as que procedem da frialdade: causa grandes effeitos, e tira todas as dores por graves que sejam em muito breve espaço. Pera feridas ou quaesquer outras chagas, tem a mesma virtude, as quaes tanto que com elle lhe acodem, sáram mui depressa, e tira os signaes de maneira, que de maravilha se enxerga onde estiverão e nisto faz vantagem a todas as outras medicinas. Este oleo nam se acha todo o anno perfeitamente nestas arvores, nem procuram ir busca-lo senam no estio que he o tempo em que asinaladamente o criam. E quando querem tira-lo dão certos golpes ou furos no tronco dellas pelos quaes pouco a pouco estão estilando do amago este licor precioso. Porém nam se acha em todas estas arvores sinam em algumas a que por este respeito dão o nome de femea, e as outras que carecem delle chamão machos, e nisto sómente se conhece a differença destes dous generos, que na proporçam e semelhança nam differe nada humas das outras. As mais dellas se achão roçadas dos animaes, que por instinto natural quando se sentem feridos ou mordidos de alguma fera as vão buscar pera remedio de suas enfermidades.
Outras arvores differentes destas ha na Capitania dos llhéos, e na do Spirito Santo a que chamão Caborahibas, de que tambem se tira outro balsamo: o qual sae da casca da mesma arvore, e cheira suavissimamente. Tambem aproveita para as mesmas enfermidades, e aquelles que o alcanção tem-no em grande estima e vendem-no por muito preço, porque além de as taes arvores serem poucas correm muito risco as pessoas que o vão buscar, por causa dos inimigos que andão sempre naquella parte emboscados pelo mato e não perdoão a quantos achão.
Tambem ha huma certa arvore na Capitania de Sam Vicente, que se diz pela lingoa dos lndios "Obirá paramaçaci", que quer dizer páo para enfermidades: com o leite da qual sómente com tres gotas, purga huma pessoa por baixo e por cima grandemente. E si tomar quantidade de huma casca de noz, morrerá sem nenhuma remissam. De outras plantas e hervas que nam dão fruito nem se sabe o pera que prestam, se podia escrever, de que aqui nam faço mençam, porque meu intento nam foy sinam dar noticia (como já disse) destas de cujo fruito se aproveitão os moradores da terra. Somente tratarei de huma mui notavel, cuja qualidade sabida creio que em toda parte causará grande espanto. Chama-se herva viva, e tem alguma semelhança de silvam macho. Quando alguem lhe toca com as mãos, ou com qualquer outra cousa que seja, naquelle momento se encolhe e murcha de maneira que parece criatura sensitiva que se anoja, e recebe escandalo com aquelle tocamento. E depois que assossega, como cousa já esquecida deste agravo, torna logo pouco a pouco a estender-se até ficar outra vez tam robusta e verde como dantes. Esta planta deve ter alguma virtude mui grande, a nós enconberta, cujo effeto nam será pela ventura de menos admiraçam. Porque sabemos de todas as hervas que Deos criou, ter cada huma particular virtude com que fizessem diversas operações naquellas cousas pera cuja utilidade foram criadas e quanto mais esta a que a natureza nisto tanto quiz assinalar dando-lhe hum tam estranho ser e differente de todas as outras.

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Capítulo VI à Capítulo IX
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