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Helena
Machado de Assis
Capítulo I
O conselheiro Vale morreu às 7 horas da noite de 25 de
abril de 1859. Morreu de apoplexia fulminante, pouco
depois de cochilar a sesta, - segundo costumava dizer, -
e quando se preparava a ir jogar a usual partida de
voltarete em casa de um desembargador, seu amigo. O Dr.
Camargo, chamado à pressa, nem chegou a tempo de empregar
os recursos da ciência; o padre Melchior não pôde
dar-lhe
as consolações da religião: a morte fora instantânea.
No dia seguinte fez-se o enterro, que foi um dos mais
concorridos que ainda viram os moradores do Andaraí.
Cerca de duzentas pessoas acompanharam o finado até à
morada última, achando-se representadas entre elas as
primeiras classes da sociedade. O conselheiro, posto não
figurasse em nenhum grande cargo do Estado, ocupava
elevado lugar na sociedade, pelas relações adquiridas,
cabedais, educação e tradições de família.
Seu pai fora
magistrado no tempo colonial, e figura de certa
influência na corte do último vice-rei. Pelo lado materno
descendia de uma das mais distintas famílias paulistas.
Ele próprio exercera dois empregos, havendo-se com
habilidade e decoro, do que lhe adveio a carta de
conselho e a estima dos homens públicos. Sem embargo do
ardor político do tempo, não estava ligado a nenhum
dos
dois partidos, conservando em ambos preciosas amizades,
que ali se acharam na ocasião de o dar à sepultura.
Tinha, entretanto, tais ou quais idéias políticas,
colhidas nas fronteiras conservadoras e liberais,
justamente no ponto em que os dois domínios podem
confundir-se. Se nenhuma saudade partidária lhe deitou a
última pá de terra, matrona houve, e não só
uma, que viu
ir a enterrar com ele a melhor página da sua mocidade.
A família do conselheiro compunha-se de duas pessoas: um
filho, o Dr. Estácio, e uma irmã, D. Úrsula.
Contava esta
cinqüenta e poucos anos; era solteira; vivera sempre com
o irmão, cuja casa dirigia desde o falecimento da
cunhada. Estácio tinha vinte e sete anos, e era formado
em matemáticas. O conselheiro tentara encarreirá-lo
na
política, depois na diplomacia; mas nenhum desses
projetos teve começo de execução.
O Dr. Camargo, médico e velho amigo da casa, logo que
regressou do enterro, foi ter com Estácio, a quem
encontrou no gabinete particular do finado, em companhia
de D. Úrsula. Também a dor tem suas volúpias;
tia e
sobrinho queriam nutri-la com a presença dos objetos
pessoais do morto, no lugar de suas predileções
quotidianas. Duas tristes luzes alumiavam aquela pequena
sala. Alguns momentos correram de profundo silêncio entre
os três. O primeiro que o rompeu, foi o médico.
- Seu pai deixou testamento?
- Não sei, respondeu Estácio.
Camargo mordeu a ponta do bigode, duas ou três vezes,
gesto que lhe era habitual quando fazia alguma reflexão.
- É preciso procurá-lo, continuou ele. Quer que o ajude?
Estácio apertou-lhe afetuosamente a mão.
- A morte de meu pai, disse o moço, não alterou nada
as
nossas relações. Subsiste a confiança anterior,
do mesmo
modo que a amizade, já provada e antiga.
A secretária estava fechada; Estácio deu a chave ao
médico; este abriu o móvel sem nenhuma comoção
exterior.
Interiormente estava abalado. O que se lhe podia notar
nos olhos era uma viva curiosidade, expressão em que,
aliás, nenhum dos outros reparou. Logo que começou a
revolver os papéis, a mão do médico tornou-se
mais
febril. Quando achou o testamento, houve em seus olhos um
breve lampejo, a que sucedeu a serenidade habitual.
- É isso? perguntou Estácio.
Camargo não respondeu logo; olhou para o papel, como a
querer adivinhar o conteúdo. O silêncio foi muito
demorado para não fazer impressão no moço, que
aliás nada
disse, porque o atribuíra à comoção natural
do amigo em
tão dolorosas circunstâncias.
- Sabem o que estará aqui dentro? disse enfim Camargo.
Talvez uma lacuna ou um grande excesso.
Nem Estácio, nem D. Úrsula, pediram ao médico
a
explicação de semelhantes palavras. A curiosidade, porém,
era natural, e o médico pode lê-la nos olhos de ambos.
Não lhes disse nada; entregou o testamento a Estácio,
ergueu-se e deu alguns passos na sala, absorvido em suas
próprias reflexões, ora arranjando maquinalmente um
livro
da estante, ora metendo a ponta do bigode entre os
dentes, com a vista queda, alheio de todo ao lugar e às
pessoas.
Estácio rompeu o silêncio:
- Mas que lacuna ou que excesso é esse? perguntou ao
médico.
Camargo parou diante do moço.
- Não posso dizer nada, respondeu ele. Seria
inconveniente, antes de saber as últimas disposições
de
seu pai.
D. Úrsula foi menos discreta que o sobrinho; após longa
pausa, pediu ao médico a razão de suas palavras.
- Seu irmão, disse este, era boa alma; tive tempo de o
conhecer de perto e apreciar-lhe as qualidades, que as
tinha excelentes. Era seu amigo; sei que o era meu. Nada
alterou a longa amizade que nos unia, nem a confiança que
ambos depositávamos um no outro. Não quisera, pois,
que o
último ato de sua vida fosse um erro.
- Um erro! exclamou D. Úrsula.
- Talvez um erro! suspirou Camargo.
- Mas, doutor, insistiu D. Úrsula, por que motivo nos não
tranqüiliza o espírito? Estou certa de que não
se trata
de um ato que desdoure meu irmão; alude naturalmente a
algum erro no modo de entender... alguma coisa, que eu
ignoro o que seja. Por que não fala claramente?
O médico viu que D. Úrsula tinha razão; e que,
a não
dizer mais nada, melhor fora ter-se calado de todo.
Tentou dissipar a impressão de estranheza que deixara no
ânimo dos dois; mas da hesitação com que falava,
concluiu
Estácio que ele não podia ir além do que havia
dito.
- Não precisamos de explicação nenhuma, interveio
o filho
do conselheiro; amanhã saberemos tudo.
Nessa ocasião entrou o padre Melchior. O médico saiu
às
10 horas, ficando de voltar no dia seguinte, logo cedo.
Estácio, recolhendo-se ao quarto, murmurava consigo:
- Que erro será esse? E que necessidade tinha ele de vir
lançar-me este enigma no coração?
A resposta, se pudesse ouvi-la, era dada nessa mesma
ocasião pelo próprio Dr. Camargo, ao entrar no carro
que
o esperava à porta:
- Fiz bem em preparar-lhes o espírito, pensou ele; o
golpe, se o houver, há de ser mais fácil de sofrer.
O médico ia só; além disso, era noite, como sabemos.
Ninguém pôde ver-lhe a expressão do rosto, que
era
fechada e meditativa. Exumou o passado e devassou o
futuro; mas de tudo o que reviu e anteviu, nada foi
comunicado a ouvidos estranhos.
As relações do Dr. Camargo com a família do conselheiro
eram estreitas e antigas, como dissera Estácio. O médico
e o conselheiro tinham a mesma idade: cinqüenta e quatro
anos. Conheceram-se logo depois de tomado o grau, e nunca
mais afrouxara o laço que os prendera desde esse tempo.
Camargo era pouco simpático à primeira vista. Tinha
as
feições duras e frias, os olhos perscrutadores e sagazes,
de uma sagacidade incômoda para quem encarava com eles, o
que o não fazia atraente. Falava pouco e seco. Seus
sentimentos não vinham à flor do rosto. Tinha todos
os
visíveis sinais de um grande egoísta; contudo, posto
que
a morte do conselheiro não lhe arrancasse uma lágrima
ou
uma palavra de tristeza, é certo que a sentiu deveras.
Além disso, amava sobre todas as coisas e pessoas uma
criatura linda, - a linda Eugênia, como lhe chamava, -
sua filha única e a flor de seus olhos; mas amava-a de um
amor calado e recôndito. Era difícil saber se Camargo
professava algumas opiniões políticas ou nutria
sentimentos religiosos. Das primeiras, se as tinha, nunca
deu manifestação prática; e no meio das lutas
de que fora
cheio o decênio anterior, conservara-se indiferente e
neutral. Quanto aos sentimentos religiosos, a aferi-los
pelas ações, ninguém os possuía mais puros.
Era pontual
no cumprimento dos deveres de bom católico. Mas só
pontual; interiormente, era incrédulo.
Quando Camargo chegou a casa, no Rio Comprido, achou sua
mulher, - D. Tomásia, - meio adormecida numa cadeira de
balanço e Eugênia ao piano, executando um trecho de
Bellini. Eugênia tocava com habilidade; e Camargo gostava
de a ouvir. Naquela ocasião, porém, disse ele, parecia
pouco conveniente que a moça se entregasse a um gênero
de
recreio qualquer. Eugênia obedeceu, algum tanto de má
vontade. O pai, que se achava ao pé do piano, pegou-lhe
nas mãos, logo que ela se levantou, e fitou-lhe uns olhos
amorosos e profundos, como ela nunca lhe vira.
- Não fiquei triste pelo que me disse, papai, observou a
moça. Tocava por distrair-me. D. Úrsula como está?
Ficou
tão aflita! Mamãe queria demorar-se mais tempo; mas
eu
confesso que não podia ver a tristeza daquela casa.
- Mas a tristeza é necessária à vida, acudiu
D. Tomásia,
que abrira os olhos logo à entrada do marido. As dores
alheias fazem lembrar as próprias, e são um corretivo
da
alegria, cujo excesso pode engendrar o orgulho.
Camargo temperou esta filosofia, que lhe pareceu
demasiado austera, com algumas idéias mais acomodadas e
risonhas.
- Deixemos a cada idade a sua atmosfera própria, concluiu
ele, e não antecipemos a da reflexão, que é tornar
infelizes os que ainda não passaram do puro sentimento.
Eugênia não compreendeu o que os dois haviam dito. Voltou
os olhos para o piano, com uma expressão de saudade. Com
a mão esquerda, assim mesmo de pé, extraiu vagamente
três
ou quatro notas das teclas suas amigas. Camargo tornou a
fitá-la com desusada ternura; a fronte sombria pareceu
alumiar-se de uma irradiação interior. A moça
sentiu-se
enlaçada nos braços dele; deixou-se ir. Mas a expansão
era tão nova, que ela ficou assustada e perguntou com voz
trêmula:
- Aconteceu lá alguma coisa?
- Absolutamente nada, respondeu Camargo, dando-lhe um
beijo na testa.
Era o primeiro beijo, ao menos o primeiro de que a moça
tinha memória. A carícia encheu-a de orgulho filial;
mas
a própria novidade dela impressionou-a mais. Eugênia
não
creu no que lhe dissera o pai. Viu-o ir sentar-se ao pé
de D. Tomásia e conversarem em voz baixa. Aproximando-se,
não interrompeu a conversa, que eles continuaram no mesmo
tom, e versava sobre assuntos puramente domésticos.
Percebeu-o; contudo, não ficou tranqüila. Na manhã
seguinte escreveu um bilhete, que foi logo caminho de
Andaraí. A resposta, que lhe chegou às mãos no
momento em
que provava um vestido novo, teve a cortesia de esperar
que ela terminasse a operação. Lida finalmente, dissipou
todos os receios da véspera.
Capítulo II
No dia seguinte, foi aberto o testamento com todas as
formalidades legais. O conselheiro nomeava testamenteiros
Estácio, o Dr. Camargo e o padre Melchior. As disposições
gerais nada tinham que fosse notável: eram legados pios
ou beneficentes, lembranças a amigos, dotes a afilhados,
missas por sua alma e pela de seus parentes.
Uma disposição havia, porém, verdadeiramente
importante.
O conselheiro declarava reconhecer uma filha natural, de
nome Helena, havida com D. Ângela da Soledade. Esta
menina estava sendo educada em um colégio de Botafogo.
Era declarada herdeira da parte que lhe tocasse de seus
bens, e devia ir viver com a família, a quem o
conselheiro instantemente pedia que a tratasse com
desvelo e carinho, como se de seu matrimônio fosse.
A leitura desta disposição causou natural espanto à
irmã
e ao filho do finado. D. Úrsula nunca soubera de tal
filha. Quanto a Estácio, ignorava menos que a tia. Ouvira
uma vez falar em uma filha de seu pai; mas tão vagamente
que não podia esperar aquela disposição testamentária.
Ao espanto sucedeu em ambos outra e diferente impressão.
D. Úrsula reprovou de todo o ato do conselheiro. Parecia-
lhe que, a despeito dos impulsos naturais e licenças
jurídicas, o reconhecimento de Helena era um ato de
usurpação e um péssimo exemplo. A nova filha
era, no seu
entender, uma intrusa, sem nenhum direito ao amor dos
parentes; quando muito, concordaria em que se lhe devia
dar o quinhão da herança e deixá-la à
porta. Recebê-la,
porém, no seio da família e de seus castos afetos,
legitimá-la aos olhos da sociedade, como ela estava aos
da lei, não o entendia D. Úrsula, nem lhe parecia que
alguém pudesse entendê-lo. A aspereza destes sentimentos
tornou-se ainda maior quando lhe ocorreu a origem
possível de Helena. Nada constava da mãe, além
do nome;
mas essa mulher quem era? em que atalho sombrio da vida a
encontrara o conselheiro? Helena seria filha de um
encontro fortuito, ou nasceria de algum afeto irregular
embora, mas verdadeiro e único? A estas interrogações
não
podia responder D. Úrsula; bastava, porém, que lhe
surgissem no espírito, para lançar nele o tédio
e a
irritação.
D. Úrsula era eminentemente severa a respeito de
costumes. A vida do conselheiro, marchetada de aventuras
galantes, estava longe de ser uma página de catecismo;
mas o ato final bem podia ser a reparação de leviandades
amargas. Essa atenuante não a viu D. Úrsula. Para ela,
o
principal era a entrada de uma pessoa estranha na
família.
A impressão de Estácio foi muito outra. Ele percebera
a
má vontade com que a tia recebera a notícia do
reconhecimento de Helena, e não podia negar a si mesmo
que semelhante fato criava para a família uma nova
situação. Contudo, qualquer que ela fosse, uma vez que
seu pai assim o ordenava, levado por sentimentos de
eqüidade ou impulsos da natureza, ele a aceitava tal
qual, sem pesar nem reserva. A questão pecuniária pesou
menos que tudo no espírito do moço; não pesou
nada. A
ocasião era dolorosa demais para dar entrada a
considerações de ordem inferior, e a elevação
dos
sentimentos de Estácio não lhe permitia inspirar-se
delas. Quanto à camada social a que pertencia a mãe
de
Helena, não se preocupou muito com isso, certo de que
eles saberiam levantar a filha até à classe a que ela
ia
subir.
No meio das reflexões produzidas pela disposição
testamentária do conselheiro, ocorreu a Estácio a
conversa que tivera com o Dr. Camargo. Provavelmente era
aquele o ponto a que aludira o médico. Interrogado acerca
de suas palavras, Camargo hesitou um pouco; mas
insistindo o filho do conselheiro:
- Aconteceu o que eu previa, um erro, disse ele. Não
houve lacuna, mas excesso. O reconhecimento dessa filha é
um excesso de ternura, muito bonito, mas pouco prático.
Um legado era suficiente; nada mais. A estrita justiça...
- A estrita justiça é a vontade de meu pai, redargüiu
Estácio.
- Seu pai foi generoso, disse Camargo; resta saber se
podia sê-lo à custa de direitos alheios.
- Os meus? Não os alego.
- Se os alegasse seria pouco digno da memória dele. O que
está feito, está feito. Uma vez reconhecida, essa menina
deve achar nesta casa família e afetos de família.
Persuado-me de que ela saberá corresponder-lhes com
verdadeira dedicação...
- Conhece-a? inquiriu Estácio, cravando no médico uns
olhos impacientes de curiosidade.
- Vi-a três ou quatro vezes, disse este no fim de alguns
segundos; mas era então muito criança. Seu pai falava-me
dela como de pessoa extremamente afetuosa e digna de ser
amada e admirada. Talvez fossem olhos de pai.
Estácio desejara ainda saber alguma coisa acerca da mãe
de Helena, mas repugnou-lhe entrar em novas indagações,
e
tentou encarreirar a conversa para outro assunto.
Camargo, entretanto, insistiu:
- O conselheiro falou-me algumas vezes no projeto de
reconhecer Helena; procurei dissuadi-lo, mas sabe como
era teimoso, acrescendo neste caso o natural impulso de
amor paterno. O nosso ponto de vista era diferente. Não
me tenho por homem mau; contudo, entendo que a
sensibilidade não pode usurpar o que pertence à razão.
Camargo proferiu estas palavras no tom seco e sentencioso
que tão natural e sem esforço lhe saía. A velha
amizade
dele e do finado era sabida de todos; a intenção com
que
falava podia ser hostil à família? Estácio refletiu
algum
tempo no conceito que acabava de ouvir ao médico, curta
reflexão que por nenhum modo lhe abalou a opinião já
assentada e expressa. Seus olhos, grandes e serenos, como
o espírito que os animava, pousaram benevolamente no
interlocutor.
- Não quero saber, disse ele, se há excesso na disposição
testamentária de meu pai. Se o há, é legítimo,
justificável pelo menos; ele sabia ser pai; seu amor
dividia-se inteiro. Receberei essa irmã, como se fora
criada comigo. Minha mãe faria com certeza a mesma coisa.
Camargo não insistiu. Sobre ser esforço baldado dissuadir
o moço daqueles sentimentos, que aproveitava já agora
discutir e condenar teoricamente a resolução do
conselheiro? Melhor era executá-la lealmente, sem
hesitação nem pesar. Isso mesmo declarou ele a Estácio,
que o abraçou cordialmente. O médico recebeu o abraço
sem
constrangimento, mas sem fervor.
Estácio ficara satisfeito consigo mesmo. Seu caráter
vinha mais diretamente da mãe que do pai. O conselheiro,
se lhe descontarmos a única paixão forte que realmente
teve, a das mulheres, não lhe acharemos nenhuma outra
saliente feição. A fidelidade aos amigos era antes
resultado do costume que da consistência dos afetos. A
vida correu-lhe sem crises nem contrastes; nunca achou
ocasião de experimentar a própria têmpera. Se
a achasse,
mostraria que a tinha mediana.
A mãe de Estácio era diferente; possuíra em alto
grau a
paixão, a ternura, a vontade, uma grande elevação
de
sentimentos, com seus toques de orgulho, daquele orgulho
que é apenas irradiação da consciência.
Vinculada a um
homem que, sem embargo do afeto que lhe tinha, despendia
o coração em amores adventícios e passageiros,
teve a
força de vontade necessária para dominar a paixão
e
encerrar em si mesma todo o ressentimento. As mulheres
que são apenas mulheres, choram, arrufam-se ou resignam-
se; as que têm alguma coisa mais do que a debilidade
feminina, lutam ou recolhem-se à dignidade do silêncio.
Aquela padecia, é certo, mas a elevação de sua
alma não
lhe permitia outra coisa mais do que um procedimento
altivo e calado. Ao mesmo tempo, como a ternura era
elemento essencial de sua organização, concentrou-a
toda
naquele único filho, em quem parecia adivinhar o herdeiro
de suas robustas qualidades.
Estácio recebera efetivamente de sua mãe uma boa parte
destas. Não sendo grande talento, deveu à vontade e
à
paixão do saber a figura notável que fez entre seus
companheiros de estudos. Entregara-se à ciência com ardor
e afinco. Aborrecia a política; era indiferente ao ruído
exterior. Educado à maneira antiga e com severidade e
recato, passou da adolescência à juventude sem conhecer
as corrupções de espírito nem as influências
deletérias
da ociosidade; viveu a vida de família, na idade em que
outros, seus companheiros, viviam a das ruas e perdiam em
coisas ínfimas a virgindade das primeiras sensações.
Daí
veio que, aos dezoito anos, conservava ele tal ou qual
timidez infantil, que só tarde perdeu de todo. Mas, se
perdeu a timidez, ficara-lhe certa gravidade não
incompatível com os verdes anos e muito própria de
organizações como a dele. Na política seria talvez
meio
caminho andado para subir aos cargos públicos; na
sociedade, fazia que lhe tivessem respeito, o que o
levantava a seus próprios olhos. Convém dizer que não
era
essa gravidade aquela coisa enfadonha, pesada e chata,
que os moralistas asseveram ser quase sempre um sintoma
de espírito chocho; era uma gravidade jovial e familiar,
igualmente distante da frivolidade e do tédio, uma
compostura do corpo e do espírito, temperada pelo viço
dos sentimentos e pela graça das maneiras, como um tronco
rijo e reto adornado de folhagens e flores. Juntava às
outras qualidades morais uma sensibilidade, não feminil e
doentia, mas sóbria e forte; áspero consigo, sabia ser
terno e mavioso com os outros.
Tal era o filho do conselheiro; e se alguma coisa há
ainda que acrescentar, é que ele não cedia nem esquecia
nenhum dos direitos e deveres que lhe davam a idade e a
classe em que nascera. Elegante e polido, obedecia à lei
do decoro pessoal, ainda nas menores partes dela. Ninguém
entrava mais corretamente numa sala; ninguém saía mais
oportunamente. Ignorava a ciência das nugas, mas conhecia
o segredo de tecer um cumprimento.
Na situação criada pela cláusula testamentária
do
conselheiro, Estácio aceitou a causa da irmã, a quem
já
via, sem a conhecer, com olhos diferentes dos de Camargo
e D. Úrsula. Esta comunicou ao sobrinho todas as
impressões que lhe deixara o ato do irmão. Estácio
procurou dissipar-lhas; repetiu as reflexões opostas ao
médico; mostrou que, ao cabo de tudo, tratava-se de
cumprir a derradeira vontade de um morto.
- Bem sei que não há já agora outro remédio
mais que
aceitar essa menina e obedecer às determinações
solenes
de meu irmão, disse D. Úrsula, quando Estácio
acabou de
falar. Mas só isso; dividir com ela os meus afetos não
sei que possa nem deva fazer.
- Contudo, ela é do nosso mesmo sangue.
D. Úrsula ergueu os ombros como repelindo semelhante
consangüinidade. Estácio insistiu em trazê-la a
mais
benévolos sentimentos. Invocou, além da vontade, a
retidão do espírito de seu pai, que não havia
dispor uma
coisa contrária à boa fama da família.
- Além disso, essa menina nenhuma culpa tem de sua
origem, e visto que meu pai a legitimou, convém que não
se ache aqui como enjeitada. Que aproveitaríamos com
isso? Nada mais do que perturbar a placidez da nossa vida
interior. Vivamos na mesma comunhão de afetos; e vejamos
em Helena uma parte da alma de meu pai, que nos fica para
não desfalcar de todo o patrimônio comum.
Nada respondeu a irmã do conselheiro. Estácio percebeu
que não vencera os sentimentos da tia, nem era possível
consegui-lo por meio de palavras. Confiou ao tempo essa
tarefa. D. Úrsula ficou triste e só. Aparecendo Camargo
daí a pouco, ela confiou-lhe todo o seu modo de sentir,
que o médico interiormente aprovava.
- Conheceu a mãe dela? perguntou a irmã do conselheiro.
- Conheci.
- Que espécie de mulher era?
- Fascinante.
- Não é isso; pergunto-lhe se era mulher de ordem
inferior, ou...
- Não sei; no tempo em que a vi, não tinha classe e
podia
pertencer a todas; demais, não a tratei de perto.
- Doutor, disse D. Úrsula, depois de hesitar algum tempo;
que me aconselha que faça?
- Que a ame, se ela o merecer, e se puder.
- Oh! confesso-lhe que me há de custar muito! E merecê-
lo-á? Alguma coisa me diz ao coração que essa
menina vem
complicar a nossa vida; além disso, não posso esquecer
que meu sobrinho, herdeiro...
- Seu sobrinho aceita as coisas filosoficamente e até com
satisfação. Não compreendo a satisfação,
mas concordo que
nada mais há do que cumprir textualmente a vontade do
conselheiro. Não se deliberam sentimentos; ama-se ou
aborrece-se, conforme o coração quer. O que lhe digo
é
que a trate com benevolência; e caso sinta em si algum
afeto, não o sufoque; deixe-se ir com ele. Já agora
não
se pode voltar atrás. Infelizmente!
Helena estava a concluir os estudos; semanas depois
determinou a família que ela viesse para a casa.
D.Úrsula recusou a princípio ir buscá-la; convenceu-a
disso
o sobrinho, e a boa senhora aceitou a incumbência depois
de alguma hesitação. Em casa foram-lhe preparados os
aposentos; e marcou-se uma tarde de segunda-feira para
ser a moça trasladada a Andaraí. D. Úrsula meteu-se
na
carruagem, logo depois de jantar. Estácio foi nesse dia
jantar com o Dr. Camargo, no Rio Comprido. Voltou tarde.
Ao penetrar na chácara, deu com os olhos nas janelas do
quarto destinado a Helena; estavam abertas; havia alguém
dentro. Pela primeira vez sentiu Estácio a estranheza da
situação criada pela presença daquela meia-irmã
e
perguntou a si próprio se não era a tia quem tinha razão.
Repeliu pouco depois esse sentimento; a memória do pai
restituiu-lhe a benevolência anterior. Ao mesmo tempo, a
idéia de ter uma irmã sorria-lhe ao coração
como promessa
de venturas novas e desconhecidas. Entre sua mãe e as
demais mulheres, faltava-lhe essa criatura intermediária,
que ele já amava sem conhecer, e que seria a natural
confidente de seus desalentos e esperanças. Estácio
contemplou longo tempo as janelas; nem o vulto de Helena
apareceu ali, nem ele viu passar a sombra da habitante
nova.
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