Error processing SSI file
|
 |
|
|
Helena
Machado de Assis
Capítulo V
Por esse tempo resolveu Estácio dar um passo decisivo.
Ligado por amor à filha de Camargo, desde antes da morte
do conselheiro, hesitara sempre em pedi-la ao pai,
diferindo a resolução para quando fosse propício
o
ensejo. A condição não era fácil, porque
o sentimento que
ele nutria em relação a Eugênia tinha alternativas
de
tibieza e fervor. A causa disso pode crer-se estava
também em seu coração; mas principalmente residia
nela.
Num dos primeiros dias de agosto, assentara Estácio de ir
solicitar de Eugênia autorização para fazer oficialmente
o pedido. Assim disposto, dirigiu-se à casa de Camargo.
Mal o avistou de longe, desceu Eugênia à porta do jardim.
O chapelinho de palha, de abas largas, que lhe protegia o
rosto dos raios do sol, - eram três horas da tarde, -
tornava mais bela a figura da moça. Eugênia era uma das
mais brilhantes estrelas entre as menores do céu
fluminense. Agora mesmo, se o leitor lhe descobrir o
perfil em camarote de teatro, ou se a vir entrar em
alguma sala de baile, compreenderá, - através de um
quarto de século, - que os contemporâneos de sua mocidade
lhe tivessem louvado, sem contraste, as graças que então
alvoreciam com o frescor e a pureza das primeiras horas.
Era de pequena estatura; tinha os cabelos de um castanho
escuro, e os olhos grandes e azuis, dois pedacinhos do
céu, abertos em rosto alvo e corado; o corpo, levemente
refeito, era naturalmente elegante; mas se a dona sabia
vestir-se com luxo, e até com arte, não possuía
o dom de
alcançar os máximos efeitos com os meios mais simples.
Estácio contemplou-a namorado sem ousar dizer palavra; a
primeira que lhe ia sair dos lábios, era justamente o
pedido que o levava ali. Mas Eugênia deteve-lha,
mostrando o anel que a madrinha, fazendeira de Cantagalo,
lhe mandara na véspera. Era uma opala magnífica, a tal
ponto que Eugênia dividia os olhos entre o namorado e
ela. Esta simultaneidade esfriou o mancebo. Entraram
ambos em casa, onde D. Tomásia os esperava. A mãe de
Eugênia sabia combinar o decoro com os desejos de seu
coração; não seria obstáculo aos dois
namorados;
infelizmente, a presença de duas visitas veio destruir o
cálculo dos três. Estácio espreitava uma ocasião
de pedir
a Eugênia a autorização que desejava; até
ao jantar não
se lhe deparou nenhuma.
Desceram todos ao jardim. D. Tomásia entreteve uma das
visitas; Camargo foi mostrar à outra a sua coleção
de
flores. Estácio e Eugênia afastaram-se cautelosamente
dos
dois grupos, a pretexto de não sei que flor aberta na
manhã daquele dia. A flor existia; Eugênia colheu-a e
deu
a Estácio.
- Não vá perdê-la; há de entregá-la
a Helena da minha
parte. Diga-lhe que estou com muitas saudades.
Estácio colocou a flor na botoeira.
- Vai cair! disse Eugênia. Quer que pregue um alfinete?
Estácio não teve tempo de responder, porque a filha
de
Camargo, tirando um alfinete do cinto, prendeu o pé da
flor, gastando muito mais tempo do que o exigia a
operação. A moça não era míope;
todavia aproximou de tal
modo a cabeça ao peito do mancebo, que este teve ímpetos
de lhe beijar os cabelos, e seria a primeira vez que seus
lábios lhe tocassem.
- Pronto! disse ela. Diga a Helena que é a flor mais
bonita do nosso jardim. Sabe que eu gosto muito de sua
irmã?
- Acredito.
- Suponho que é minha amiga; há de sê-lo com certeza.
Oh!
eu preciso muito de uma amiga verdadeira!
- Sim?
- Muito! Tenho tantas que não prestam para nada, e só
me
dão desgostos, como Cecília... Se soubesse o que ela
me
fez!
- Que foi?
Eugênia desfiou uma historiazinha de toucador, que omito
em suas particularidades por não interessar ao nosso
caso, bastando saber que a razão capital da divergência
entre as duas amigas fora uma opinião de Cecília acerca
da escolha de um chapéu.
Estácio não escutou a história com a atenção
que a moça
desejara; limitou-se a ouvir a voz de Eugênia, que era na
verdade angélica. Alguma coisa porém lhe ficou; e quando
ela pôs termo às suas queixas:
- O que me parece, observou o sobrinho de D. Úrsula, é
que não valia a pena brigar por tão pouca coisa...
- Pouca coisa! exclamou Eugênia. Parece-lhe pouco chamar-
me caprichosa e de mau gosto?
- Fez mal, se o disse, em todo o caso...
Estácio fez uma pausa e continuou a andar. Eugênia
esperou que ele continuasse o que ia dizer; mas o
silêncio prolongou-se mais do que era natural.
- Em todo o caso? repetiu a moça erguendo para ele os
olhos límpidos e curiosos.
- Eugênia, disse Estácio, quer saber a verdadeira razão
do mau sucesso de suas afeições? É deixar-se
levar mais
pelas aparências que pela realidade; é porque dá
menos
apreço às qualidades sólidas do coração
do que às
frívolas exterioridades da vida. Suas amizades são das
que duram a roda de uma valsa, ou, quando muito, a moda
de um chapéu; podem satisfazer o capricho de um dia, mas
são estéreis para as necessidades do coração.
- Jesus! exclamou Eugênia, estacando o passo; um sermão
por tão pouca coisa! Se tivesse algum pedaço de latim,
era o mesmo que estar ouvindo o padre Melchior.
Estácio não respondeu; contentou-se com erguer os ombros,
e os dois continuaram a andar silenciosamente, acanhados
e descontentes um do outro. A diferença é que o enfado
de
Eugênia se manifestava por um movimento nervoso de
impaciência e despeito.
- Se o ofendi, perdoe-me, disse ela, com um leve tom de
ironia.
- Oh! exclamou ele apertando-lhe a mão, como quem só
esperava um pretexto para reatar a conversa interrompida.
- Talvez ofendesse, continuou a moça; eu sei dizer as
coisas como elas me vêm à boca, e parece que não
são as
mais acertadas...
- Não digo que o sejam sempre, replicou Estácio sorrindo.
Agora, pelo menos, foi um pouco precipitada em zombar do
que eu lhe dizia, que era justo e de boa intenção.
Francamente, é para lastimar uma amizade, ganha entre
duas quadrilhas e perdida por causa de um chapéu? Não
vale a pena esperdiçar afetos, Eugênia; sentirá
mais
tarde que essa moeda do coração não se deve nunca
reduzir
a trocos miúdos nem despender em quinquilharias.
Eugênia ouviu calada as palavras do moço; não
as entendeu
muito. Sabia-lhes a significação; não lhes viu
porém nexo
nem sentido; sobretudo, não lhes sentiu a aplicação.
O
que a irritou mais foi o tom pedagogo de Estácio;
estouvada e voluntariosa, não admitia que ninguém lhe
falasse sem submissão ou a repreendesse por atos seus,
que ela julgava legítimos e naturais. A insistência do
moço foi o ponto de partida a um desses arrufos, não
raros entre amantes, e comuns entre aqueles dois. Os de
Eugênia não eram simples silêncios; seu espírito
rebelde
e livre não adormecia nesses momentos de enfado; pelo
contrário, irritava-se e traduzia a irritação
por meio de
pirraças e acessos de mau humor. Estácio viu murmurar,
crescer e desabar a tempestade. A moça articulava algumas
frases soltas, batia no chão com o pezinho mimoso, que
por acaso esmagou uma pobre erva, alheia às divergências
morais daquelas duas criaturas. Ora parava e desandava o
caminho; mas logo se dirigia para o moço, com as
pálpebras trêmulas de cólera e um remoque nos
lábios;
comprazia-se em torcer a ponta da manga ou morder a ponta
do dedo. Estácio, afeito a essas explosões, não
lhes
sabia remédio próprio: tanto o silêncio como a
réplica
eram ali matérias inflamáveis. Contudo, o silêncio
era o
menor dos dois perigos. Estácio limitava-se a ouvir
calado, olhando à sorrelfa para a filha de Camargo, cujo
rosto parecia mais belo quando a raiva o coloria. Uma
terceira pessoa era a única esperança de pacificação;
Estácio alongou o olhar pelo jardim em busca desse deus
ex-machina. Apareceu ele enfim sob a forma de um Carlos
Barreto, - estudante de medicina, que cultivava
simultaneamente a patologia e a comédia, mas prometia ser
melhor Esculápio que Aristófanes. Mal os viu de longe,
apertou o passo para o grupo.
- Vem gente, Eugênia, disse Estácio; não demos
espetáculos e...perdoe-me.
Eugênia ergueu os ombros, procurou com os olhos o intruso
que daí a pouco lhes estendia a mão.
O céu não ficou logo claro; mas o vento amainou, e era
de
esperar que o sol se desfizesse enfim do seu capote de
nuvens. Carlos Barreto deu a Eugênia a agradável notícia
de que trouxera a seu pai um convite para o baile que
daria no sábado próximo uma de suas parentas. A
perspectiva do baile foi uma brisa salutar que dispersou
o resto das nuvens; Eugênia sorriu. Jai ri; me voilà
désarmée, como na comédia de Piron. Vinte minutos
depois,
não havia em Eugênia vestígio da cena do jardim.
Mas a
idéia do casamento estava adiada.
O efeito foi agro e doce para Estácio. Estimando ver
dissipada a cólera, doía-lhe que a causa fosse, não
a
própria virtude do amor, mas um motivo comparativamente
fútil. A resolução de a consultar sobre o pedido
de
casamento esvaiu-se-lhe como de outras vezes. Saiu dali à
noite, antes do chá, aborrecido e azedo. Esse estado não
durou muito; dez minutos depois de deixar a casa de
Camargo, sentiu alguma coisa semelhante à dentada de um
remorso. O amor de Estácio tinha a particularidade de
crescer e afirmar-se na ausência e diminuir logo que
estava ao pé da moça. De longe, via-a através
da névoa
luminosa da imaginação; ao pé era difícil
que Eugênia
conservasse os dotes que ele lhe emprestava. Daí, um
dissentimento provável e um remorso certo. Agora que a
deixava, ia ele irritado contra si mesmo; achava-se
ridículo e cruel; chegava a adorar toda a graciosa
futilidade de Eugênia; concedia alguma coisa à idade,
à
educação, aos costumes, à ignorância da
vida.
Nesse estado de espírito entrou em casa, onde o esperava
um incidente novo.
Capítulo VI
Chegando a casa, achou Estácio remédio ao mau humor.
Era
uma carta de Luís Mendonça, que dois anos antes partira
para a Europa, donde agora regressava. Escrevia-lhe de
Pernambuco, anunciando-lhe que dentro de poucas semanas
estaria no Rio de Janeiro. Mendonça fora o seu melhor
companheiro de aula. Havia entre eles certos contrastes
de gênio. O de Mendonça era mais folgazão e ativo.
Quando
este partiu para a Europa, quis que o antigo colega o
acompanhasse, e o próprio conselheiro opinara nesse
sentido. Estácio recusou pelo receio de que, sendo
diferente o espírito de um e outro, a viagem tivesse de
obrigar ao sacrifício de hábitos e preferências
de um
deles.
A notícia da volta de Mendonça encheu de contentamento
o
sobrinho de D. Úrsula. D. Úrsula estava então
na sala de
costura, relendo algumas páginas do seu Saint-Clair,
encostada a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a
concluir uma obra de crochet.
- Titia, disse ele, dou-lhe uma novidade agradável para
mim.
- Que é?
- O Mendonça chegou a Pernambuco; está aqui dentro de
pouco tempo.
- O Mendonça?
- Luís Mendonça.
- O que foi para a Europa, sei. Há quanto tempo?
- Dois anos.
- Dois anos! Parece que foi ontem.
- Não lhe leio a carta que me escreveu por ser muito
longa. Diz-me que devo ir também à Europa, quanto antes.
Querem ir?
- Eu? disse D. Úrsula, marcando a página do livro com
os
óculos de prata que até então conservara sobre
o nariz.
Não são folias para gente velha. Daqui para a cova.
- A cova! exclamou Helena. Está ainda tão forte! Quem
sabe se não me há de enterrar primeiro?
- Menina! exclamou D. Úrsula em tom de repreensão.
Helena sorriu de alegria e agradecimento; era a primeira
palavra de verdadeira simpatia que ouvia a D. Úrsula. Bem
o compreendeu esta; e talvez a mortificou aquela
espontaneidade do coração. Mas era tarde. Não
podia
recolher a palavra, não podia sequer explicá-la.
- Que tal virá o teu amigo? perguntou ela ao sobrinho.
Era bom rapaz antes de ir; um pouco tonto, apenas.
- Há de vir o mesmo, respondeu Estácio; ou ainda melhor.
Melhor decerto, porque dois anos mais modificam o homem.
Estácio fez aqui um panegírico do amigo, intercalado
com
observações da tia, e ouvido silenciosamente pela irmã.
Vieram chamar para o chá. D. Úrsula largou
definitivamente o seu romance, e Helena guardou o crochet
na cestinha de costura.
- Pensa que gastei toda a tarde em fazer crochet?
perguntou ela ao irmão, caminhando para a sala de jantar.
- Não?
- Não, senhor; fiz um furto.
- Um furto!
- Fui procurar um livro na sua estante.
- E que livro foi?
- Um romance.
- Paulo e Virgínia?
- Manon Lescaut.
- Oh! exclamou Estácio. Esse livro...
- Esquisito, não é? Quando percebi que o era, fechei-o
e
lá o pus outra vez.
- Não é livro para moças solteiras...
- Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou
Helena rindo e sentando-se à mesa. Em todo o caso, li
apenas algumas páginas. Depois abri um livro de
geometria... e confesso que tive um desejo...
- Imagino! interrompeu D. Úrsula.
- O desejo de aprender a montar a cavalo, concluiu
Helena.
Estácio olhou espantado para a irmã. Aquela mistura
de
geometria e equitação não lhe pareceu suficientemente
clara e explicável. Helena soltou uma risadinha alegre de
menina que aplaude a sua própria travessura.
- Eu lhe explico, disse ela; abri o livro, todo alastrado
de riscos que não entendi. Ouvi porém um tropel de
cavalos e cheguei à janela. Eram três cavaleiros, dois
homens e uma senhora. Oh! com que garbo montava a
senhora! Imaginem uma moça de vinte e cinco anos, alta,
esbelta, um busto de fada, apertado no corpinho de
amazona, e a longa cauda do vestido caída a um lado. O
cavalo era fogoso; mas a mão e o chicotinho da cavaleira
quebravam-lhe os ímpetos. Tive pena, confesso, de não
saber montar a cavalo...
- Quer aprender comigo?
- Titia consente?
D. Úrsula levantou os ombros com o ar mais indiferente
que pôde achar no seu repertório. Helena não esperou
mais.
- Escolha você o dia.
- Amanhã?
- Amanhã.
Estácio costumava dar um passeio a cavalo quase todas as
manhãs. O do dia seguinte foi dispensado; começariam
as
lições de Helena. Antes disso, porém, escreveu
Estácio à
filha de Camargo uma carta rescendente a ternura e afeto.
Pedia-lhe desculpa do que se passara na véspera; jurava-
lhe amor eterno; coisas todas que lhe dissera mais de uma
vez, com o mesmo estilo, se não com as mesmas palavras. A
carta dissipou-lhe a última sombra de remorso. Antes que
ela chegasse ao seu destino, reconciliara-se ele consigo
mesmo. O portador saiu para o Rio Comprido, e ele desceu
ao terreiro que ficava nos fundos da casa, ao pé do qual
estava situada a cavalariça. Naquele lado da casa corria
a varanda antiga, onde a família costumava às vezes
tomar
café ou conversar nas noites de luar, que ali penetrava
pelas largas janelas. Do meio da varanda descia uma
escada de pedra que ia ter ao terreiro.
Já ali estava Helena. D. Úrsula emprestara-lhe um vestido
de amazona, com que algumas vezes montara, antes da morte
do irmão. O vestido ficava-lhe mal; era folgado demais
para o talhe delgado da moça. Mas a elegância natural
fazia esquecer o acessório das roupas.
- Pronta! exclamou Helena apenas viu o irmão assomar no
alto da escada.
- Oh! isso não vai assim! respondeu Estácio. Não
suponha
que há de montar já hoje como a moça que ontem
viu passar
na estrada. Vença primeiramente o medo...
- Não sei o que é medo, interrompeu ela com ingenuidade.
- Sim? Não a supunha valente. Pois eu sei o que ele é.
- O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um
preconceito desfaz-se; basta a simples reflexão. Em
pequena educaram-me com almas do outro mundo. Até a idade
de dez anos era incapaz de penetrar numa sala escura. Um
dia perguntei a mim mesma se era possível que uma pessoa
morta voltasse à terra. Fazer a pergunta e dar-lhe
resposta era a mesma coisa. Lavei o meu espírito de
semelhante tolice, e hoje era capaz de entrar, de noite,
num cemitério... E daí talvez não: os corpos
que ali
dormem têm direito de não ouvir mais um só rumor
de vida.
Estácio chegara ao último degrau da escada. As
derradeiras palavras ouviu-as ele com os olhos fitos na
irmã e encostado ao poial de pedra.
- Quem lhe ensinou essas idéias? perguntou ele.
- Não são idéias, são sentimentos. Não
se aprendem;
trazem-se no coração. Senhor geômetra, continuou
brandindo caprichosamente o chicote, - veja se transcreve
em algum compêndio estas figuras de minha invenção,
e
ande cavalgar comigo.
Com um movimento rápido travou da cauda do vestido, e
caminhou para diante. Estácio acompanhou-a, a passo
lento, como solicitado por dois sentimentos diferentes: a
afeição que o prendia à irmã, e a estranha
impressão que
ela lhe fazia sentir. Quando chegou à porta da
cavalariça, viu aparelhados dois animais, o cavalo de
seus passeios, e a égua que a tia cavalgava uma ou outra
vez.
- Que é isso? disse ele. Por ora vamos a algumas
indicações somente, aqui no terreiro.
- Justamente! respondeu a moça.
Um escravo, que ali estava, trouxe um tamborete. Estácio
aproximou-se de Helena, que afagava com a mão alva e fina
as crinas da égua.
- Como se chama? perguntou ela.
- Moema.
- Moema! Ora espere... é um nome indígena, não
é?
Estácio fez um sinal afirmativo. Helena tinha um pé
sobre
o tamborete; repetiu ainda o nome da égua, como quem
refletia sobre ele, sem que o irmão percebesse que não
era aquilo mais do que um disfarce. De repente, quando
ele menos esperava, Helena deu um salto, e sentou-se no
selim. A égua alteou o colo, como vaidosa do peso.
Estácio olhou para a irmã, admirado da agilidade e
correção do movimento, e sem saber ainda o que pensasse
daquilo. Helena inclinou-se para ele.
- Fui bem? perguntou sorrindo.
- Não podia ir melhor; mas o que me admira...
As patas de Moema interromperam a reflexão do moço.
A
cavaleira brandira o chicotinho, e o animal saíra a trote
largo pelo terreiro fora. Estácio, no primeiro momento,
deu um passo e estendeu a mão como para tomar a rédea
ao
animal; mas a segurança da moça logo lhe deixou ver
que
ela não fazia ali os primeiros ensaios. Ficou parado, de
longe, a admirar-lhe o garbo e a destreza. No fim de
vinte passos, Helena torceu a rédea e regressou ao ponto
donde saíra.
- Que tal? disse ela logo que estacou. Terei jeito para a
equitação?
- Criança!
- Que é isso? Já aprendeu? interveio D. Úrsula,
do alto
da varanda, onde acabava de chegar.
- Estava caçoando conosco, disse Estácio. Vê como
sabe
montar?
- Ela sabe tudo, murmurou D. Úrsula entre dentes.
Estácio montou no cavalo. Consultou o relógio; eram
sete
horas e meia.
- Permite que o acompanhe? perguntou Helena.
- Com uma condição, disse ele; é que há
de ter juízo. Não
quero temeridades; a égua é aparentemente mansa, convém
não brincar com ela. Já vejo que você é
capaz de muitas
coisas mais...
- Prometo ir pacificamente.
Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de
rédea ao animal e seguiu ao lado do irmão. Transposto
o
portão, seguiram os dois para o lado de cima, a passo
lento. O sol estava encoberto e a manhã fresca. Helena
cavalgava perfeitamente; de quando em quando a égua,
instigada por ela, adiantava-se alguns passos ao cavalo;
Estácio repreendia a irmã, a seu pesar, porque ao mesmo
tempo que temia alguma imprudência, gostava de lhe ver o
airoso do busto e a firme serenidade com que ela conduzia
o animal.
- Não me dirá você, perguntou ele, por que motivo,
sabendo montar, pedia-me ontem lições?
- A razão é clara, disse ela; foi uma simples travessura,
um capricho... ou antes um cálculo.
- Um cálculo?
- Profundo, hediondo, diabólico, continuou a moça
sorrindo. Eu queria passear algumas vezes a cavalo; não
era possível sair só, e nesse caso...
- Bastava pedir-me que a acompanhasse.
- Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto em
sair comigo; era fingir que não sabia montar. A idéia
momentânea de sua superioridade neste assunto era
bastante para lhe inspirar uma dedicação decidida...
Estácio sorriu do cálculo; logo depois ficou sério,
e
perguntou em tom seco:
- Já lhe negamos algum prazer que desejasse?
Helena estremeceu e ficou igualmente séria.
- Não! murmurou; minha dívida não tem limites.
Esta palavra saiu-lhe do coração. As pálpebras
caíram-lhe
e um véu de tristeza lhe apagou o rosto. Estácio
arrependeu-se do que dissera. Compreendeu a irmã; viu
que, por mais inocentes que suas palavras fossem, podiam
ser tomadas à má parte, e, em tal caso, o menos que
se
lhe podia argüir era a descortesia. Estácio timbrava em
ser o mais polido dos homens. Inclinou-se para ela e
rompeu o silêncio.
- Você ficou triste, disse Estácio; mas eu desculpo-a.
- Desculpa-me? perguntou a moça erguendo para o irmão
os
belos olhos úmidos.
- Desculpo a injúria que me fez, supondo-me grosseiro.
Apertaram-se as mãos, e o passeio continuou nas melhores
disposições do mundo. Helena deu livre curso à
imaginação
e ao pensamento; suas falas exprimiam, ora a
sensibilidade romanesca, ora a reflexão da experiência
prematura, e iam direitas à alma do irmão, que se
comprazia em ver nela a mulher como ele queria que fosse,
uma graça pensadora, uma sisudez amável. De quando em
quando faziam parar os animais para contemplar o caminho
percorrido, ou discretear acerca de um acidente do
terreno. Uma vez, aconteceu que iam falando das vantagens
da riqueza.
- Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio; eles dão
a maior felicidade da terra, que é a independência
absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino
que o pior que há nela não é a privação
de alguns
apetites ou desejos, de sua natureza transitórios, mas
sim essa escravidão moral que submete o homem aos outros
homens. A riqueza compra até o tempo, que é o mais
precioso e fugitivo bem que nos coube. Vê aquele preto
que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que nós, terá
de
gastar, a pé, mais uma hora ou quase.
O preto de quem Estácio falara, estava sentado no capim,
descascando uma laranja, enquanto a primeira das duas
mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. O
preto não atendia aos dois cavaleiros que se aproximavam.
Ia esburgando a fruta e deitando os pedaços de casca ao
focinho do animal, que fazia apenas um movimento de
cabeça, com o que parecia alegrá-lo infinitamente. Era
homem de cerca de quarenta anos; ao parecer, escravo. As
roupas eram rafadas; o chapéu que lhe cobria a cabeça,
tinha já uma cor inverossímil. No entanto, o rosto
exprimia a plenitude da satisfação; em todo o caso,
a
serenidade do espírito.
Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe
mostrara. Ao passarem por ele, o preto tirou
respeitosamente o chapéu e continuou na mesma posição
e
ocupação que dantes.
- Tem razão, disse Helena: aquele homem gastará muito
mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é
isto uma
simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre
do mesmo modo, quer o esperdicemos, quer o economizemos.
O essencial não é fazer muita coisa no menor prazo;
é
fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto
o
mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé,
que
lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro,
se é cativo. É uma hora de pura liberdade.
Estácio soltou uma risada.
- Você devia ter nascido...
- Homem?
- Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as
causas mais melindrosas. Nem estou longe de crer que o
próprio cativeiro lhe parecerá uma bem-aventurança,
se eu
disser que é o pior estado do homem.
- Sim? retorquiu Helena sorrindo; estou quase a fazer-lhe
a vontade. Não faço; prefiro admirar a cabeça
de Moema.
Veja, veja como se vai faceirando. Esta não maldiz o
cativeiro; pelo contrário, parece que lhe dá glória.
Pudera! Se não a tivéssemos cativa, receberia ela o
gosto
de me sustentar e conduzir? Mas não é só faceirice,
é
também impaciência.
- De quê?
- Impaciência de correr por essa estrada da Tijuca fora,
e beber o vento da manhã, espreguiçando os músculos,
e
sentindo-se alguma coisa senhora e livre. Mas que queres
tu, minha pobre égua? continuou a moça inclinando a
cabeça até às orelhas do animal; vai aqui ao
pé de nós um
homem muito mau e medroso, que é ao mesmo tempo meu irmão
e meu inimigo...
- Helena! interrompeu Estácio; você é muito capaz
de
disparar a correr.
- E se fosse?
- Eu deixava-a ir, e nunca a traria em meus passeios.
Você monta bem; mas não desejo que faça temeridades.
Nós
somos responsáveis, não só por sua felicidade,
mas também
por sua vida.
Helena refletiu um instante.
- Quer dizer, perguntou ela, que se eu fosse vítima de um
desastre, não faltaria quem o imputasse à minha família?
- Justo.
- Singular gente! Não há de ser tanto assim... Pois
se eu
me lembrasse - é uma suposição - se eu me lembrasse
de
deixar a vida por aborrecimento ou capricho, seria você
acusado de me haver propinado o veneno? Não há melhor
modo de me fazer evitar a morte.
- Deixemos conversas lúgubres, e voltemos para casa,
interrompeu Estácio.
- Já!
- Raras vezes passo daqui; e não pense você que é
perto.
- Parece-me que ainda agora saímos de casa. Vamos uns
cinco minutos adiante? Sim?
Estácio consultou o relógio.
- Cinco minutos justos, disse ele.
- Até àquela casa que ali está com uma bandeira
azul.
Havia, efetivamente, cerca de quatro minutos adiante, à
esquerda da estrada, uma casa de insignificante
aparência, sobro cujo telhado flutuava uma bandeira azul
presa a uma vara. Estácio conhecia a casa, mas era a
primeira vez que via a bandeira. Helena pediu-lhe a
explicação daquele apêndice.
- Vá lá saber, disse o irmão rindo.
Helena deu de rédea à égua e adiantou-se alguns
passos.
Estácio apertou o animal e alcançou-a.
- Não vá fazer tolices! disse ele em tom de branda
repreensão. Aquilo é fantasia do morador, ou algum sinal
de pássaros, ou qualquer outra coisa que não vale a
pena
de uma travessura. Contemplemos antes a manhã, que está
deliciosa.
Helena não atendeu à proposta do irmão e foi
andando, a
passo lento, na direção da casa. A casa era velha,
abrindo por uma porta para o alpendre antigo que lhe
corria na frente. As colunas deste estavam já lascadas em
muitas partes, aparecendo, aqui e ali, a ossada de
tijolo. A porta estava meio aberta. Havia absoluta
solidão, aparente ao menos. Quando eles lhe passaram pela
frente, a porta abriu-se, mas se alguém espreitava por
ela, ficou sumido na sombra, porque ninguém de fora o
viu.
Cerca de cinco braças adiante, Estácio resolveu
definitivamente regressar, e Helena não pôs objeção
nenhuma. Torceram a rédea aos animais e desceram.
- Não poderei falar à bandeira? perguntou a moça.
Deixe-
me ao menos dizer-lhe adeus.
Tinha já tirado da algibeira o seu fino lenço de
cambraia; agitou-o na direção da casa. Quis o acaso
que a
bandeira, até então quieta, se movesse ao sopro de uma
aragem que passou.
- Vê como ela me respondeu? Não se pode ser mais cortês!
exclamou Helena, rindo.
Estácio riu também da lembrança da irmã,
e, ambos
desceram, a passo lento, como haviam subido. Helena vinha
taciturna e pensativa. Os olhos, cravados nas orelhas de
Moema, não pareciam ver sequer o caminho que o animal
seguia. Estácio, para arrancá-la ao silêncio,
fez-lhe uma
observação acerca de um incidente do caminho. Helena
respondeu distraidamente.
- Que tem você? perguntou ele.
- Nada, disse ela; ia... ia embebida naquela toada. Não
ouve?
Ouvia-se, efetivamente, a algumas braças adiante, uma
cantiga da roça, meio alegre, meio plangente. O cantor
apareceu, logo que os cavaleiros dobraram a curva que a
estrada fazia naquele lugar. Era o preto, que pouco antes
tinham visto sentado no chão.
- Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estácio. Ali
vai o
infeliz de há pouco. Uma laranja chupada no capim e três
ou quatro quadras, é o bastante para lhe encurtar o
caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o
tempo. Nós poderíamos dizer o mesmo?
- Por que não?
A moça recolheu-se ao silêncio.
- Helena, isso que você acaba de dizer... Vamos, estamos
sós; confesse alguma tristeza que tenha.
- Nenhuma, respondeu a moça. Peço-lhe, entretanto, uma
coisa.
- Diga.
- Peço-lhe que me comunique todas as más impressões
que
tiver a meu respeito. Explicarei umas, procurarei
desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peço-lhe
que escreva em seu espírito esta verdade: é que sou
uma
pobre alma lançada num turbilhão.
Estácio ia pedir explicação mais desenvolvida
daquelas
últimas palavras; mas Helena, como se esperasse a
pergunta, brandira o chicote, e deitou a égua a correr.
Estácio fez o mesmo ao cavalo; daí a alguns minutos
entravam na chácara, ele aturdido e curioso, ela com a
face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração.
|
|
 |
 |
|
|
|