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Helena
Machado de Assis
Capítulo XXIII
- És forte? perguntou o padre.
- Sou.
- Crês em Deus?
Estácio estremeceu e olhou para o ancião, sem responder.
Melchior insistiu:
- Crês?
- Essa pergunta...
- É menos ociosa do que parece. Não basta supor que se
crê; nem basta crer à ligeira, como na existência de
uma
região obscura da Ásia, onde nunca se pretende pôr os
pés. O Deus de que falo, não é só essa sublime
necessidade do espírito, que apenas contenta alguns
filósofos; falo-te do Deus criador e remunerador, do Deus
que lê no fundo de nossas consciências, que nos deu a
vida, que nos há de dar a morte e, além da morte, o
prêmio ou o castigo. Crês?
- Creio.
- Pois bem, tu transgrediste a lei divina, como a lei
humana, sem o saber. Teu coração é um grande
inconsciente; agita-se, murmura, rebela-se, vaga à feição
de um instinto mal-expresso e mal compreendido. O mal
persegue-te, tenta-te, envolve-te em seus liames dourados
e ocultos; tu não o sentes, não o vês; terás
horror de ti
mesmo, quando deres com ele de rosto. Deus que te lê,
sabe perfeitamente que entre o teu coração e tua
consciência há um véu espesso que os separa, que impede
esse acordo gerador do delito.
- Mas que é, padre-mestre?
Melchior inclinou-se e encarou o moço. Os olhos, fitos
nele, eram como um espelho polido e frio, destinado a
reproduzir a imagem do que lhe ia dizer.
- Estácio, disse Melchior pausadamente, tu amas tua irmã.
O gesto mesclado de horror, assombro e remorso com que
Estácio ouvira aquela palavra, mostrou ao padre, não só
que ele estava de posse da verdade, mas também que
acabava de a revelar ao mancebo. O que a consciência
deste ignorava, sabia-o o coração, e só lho disse naquela
hora solene. A consciência, depois de tatear nas trevas,
recuou apavorada, como afastando de si o clarão súbito
que acendera nela a palavra do sacerdote. Estácio não
respondeu nada; não podia responder nada. Com que
vocábulo e em que língua humana exprimiria ele a comoção
nova e terrível que lhe abalara a alma toda? que fio
pudera atar-lhe as idéias rotas e dispersas? Nem falou,
nem se atreveu a erguer os olhos; ficou como estúpido e
morto. Melchior contemplou-o alguns minutos, silencioso e
compassivo. Os olhos, que eram de águia para mistérios da
vida, eram de pomba para os grandes infortúnios. Abaixo
da cabeça máscula, havia um coração feminino.
A mudez de Estácio cessou enfim; o corpo agitou-se; o
lábio articulou algumas frases desconcertadas. Vago era o
sentido delas; podia concluir-se que ele não cria na
revelação de Melchior, que o suposto sentimento era tão
absurdo e desnatural que só a maus instintos devia ser
atribuído. Melchior ouviu-o, sorriu com satisfação.
Não
era aquilo mesmo um protesto de consciência honrada?
- Maus instintos, não, respondeu Melchior; num desvio da
lei social e religiosa, mas desvio inconsciente. Entra em
teu coração, Estácio; revolve-lhe os mais íntimos
recantos, e lá acharás esse germe funesto; lança-o
fora
de ti, que é o preceito do Eterno Mestre. Não o sentiste
nunca; a tentação usa essa tática serpentina e dolosa;
é
insinuante como a calúnia, e pertinaz como a suspeita.
Mas eu sou a verdade que afirma, e a caridade que
consola. Digo-te, não que pecaste, mas que ficaste à
beira do pecado, e estendo-te a mão para que recues do
abismo.
- Padre-mestre! murmurou Estácio, cujo coração recebia
a
influência da palavra de Melchior, a um tempo severa e
meiga.
- Não fales, continuou o padre; negá-lo é mentir;
confessá-lo é ocioso. Como nasceu em teu coração
semelhante sentimento? Quis a fortuna que entre vocês
dois não houvesse a imagem da infância e a comunhão
dos
primeiros anos; que, em plena mocidade, passassem, do
total desconhecimento um do outro, para a intimidade de
todos os dias. Esta foi a raiz do mal. Helena apareceu-te
mulher, com todas as seduções próprias da mulher, e
mais
ainda com as do seu próprio espírito, porque a natureza e
a educação acordaram em a fazer original e superior. Não
sentiste a transformação lenta que se operou em ti, nem
podias compreendê-la. São Paulo o disse: para os corações
limpos, todas as coisas são limpas. Vias a afeição
legítima naquilo que era já afeição espúria;
daí vieram
os zelos, a suspicácia, um egoísmo exigente, cujo
resultado seria subtrair a alma de Helena a todas as
alegrias da terra, unicamente para o fim de a
contemplares sozinho, como um avaro.
Ouvindo a palavra do padre, Estácio soletrava o próprio
coração e lia claramente o que até então era
para ele
como um livro fechado. A situação tornava-se, entretanto,
por demais aflitiva, profunda a vergonha, intenso o
remorso. Estácio ergueu-se: erguendo-se, deu com os olhos
no retrato do conselheiro que, na penumbra em que ficava,
parecia olhar para o filho e interrogá-lo. Esta
circunstância desorientou o moço:
- Não, padre-mestre! exclamou ele deixando-se cair na
cadeira. É impossível! isto que me está dizendo é
um
sonho mau, é um funesto equívoco; é impossível;
juro-lhe
que é impossível. É certo que a amo... que a amava,
com
sentimentos de irmão; mas esquecer-me, aninhar em minha
alma tão odioso afeto... oh! era impossível!
Melchior erguera-se. Após meia dúzia de passos,
aproximou-se de Estácio, sobre cuja cabeça estendeu a mão
direita, enquanto com a outra lhe erguia a barba,
obrigando-o a olhar para ele.
- Digo-te que tens uma raiz de má erva no coração;
esta é
a cruel verdade. Há no homem uma ligação de sentimentos,
às vezes inexplicável. Produtos de climas opostos aí
se
alternam ou se confundem... Mas queres saber o resto?
- O resto?
- Ouve, continuou o padre, sentando-se. A planta ruim
bracejou um ramo para o coração virgem e casto de Helena,
e o mesmo sentimento os ligou em seus fios invisíveis.
Nem tu o vias, nem ela; mas eu vi, eu fui o triste
espectador dessa violenta e miserável situação. São
irmãos e amam-se. A poesia trágica pode fazer do assunto
uma ação teatral; mas o que a moral e a religião
reprovam, não deve achar guarida na alma de um homem
honesto e cristão.
- Impossível! impossível! exclamou Estácio. Mas, dado
que
assim fosse, por que acumular à dificuldade presente o
horror de semelhante revelação?
- Porque a revelação explica a dificuldade. Helena não
saberá que ama, mas ama. Ora, um amor clandestino, de
parceria com esse amor incestuoso, embora inconsciente,
provaria da parte de Helena uma perversão que ela não
pode ter, e que, em tal idade, faria dela um monstro.
Será Helena esse monstro? Se o fosse, eu desesperaria da
natureza humana. Não! essa casa, onde a viste entrar, é
com certeza asilo de miséria: o que ela aí vai levar é
a
esmola e a compaixão.
Um raio de esperança alumiou a fronte de Estácio. O
raciocínio do padre era exato, e por mais perigosa que
fosse a situação revelada por ele, já agora não
se podia
desejar outra coisa; a dignidade da família ficava
intacta. Estácio refletiu largo tempo no que acabava de
ouvir. Mas a esperança foi curta, embora a necessidade
dela fosse grande.
- Helena continua recolhida? perguntou o padre.
Estácio fez um leve sinal afirmativo.
- Falar-lhe-ei amanhã; por hoje convém não dizer palavra
nem deixar transpirar coisa nenhuma.
Dizendo isto, Melchior recolheu-se ao silêncio, como se
refletisse ainda alguma coisa. Estácio erguera-se e
entrara a passear lentamente. De quando em quando,
apertava a cabeça entre as mãos; tantas comoções
bastavam
para atordoar mais forte espírito. O mistério o cercava
de todos os lados. Ele ia até à janela, daí até
à porta,
intercalando as reflexões interiores com sacudimentos
nervosos do braço ou da cabeça. A intervalos, olhava a
furto e de través para o capelão, como o criminoso olha
para a consciência; não podia evitar o sentimento de
terror, e ao mesmo tempo de respeito, que lhe infundia
aquele investigador exato e profundo de seus sentimentos
mais recônditos e inacessíveis. Ruminava o que o padre
lhe dissera; cada minuto lhe ia tornando mais clara a
verdade revelada, e o que era obscuro fizera-se-lhe enfim
transparente. É assim que a luz de um astro, acesa desde
séculos, chega finalmente a ferir a retina de nossos
olhos mortais.
Uma vez, interrompendo os passos, ergueu os olhos para o
retrato do conselheiro. Não os retirou aterrado; cravou-
os com ar de reproche e de amargura, em que o padre
reparou, e que o fez sorrir tristemente. O olhar do filho
pedia contas ao pai.
- Paz aos mortos! observou Melchior. Os atos de seu pai
já não pertencem à jurisdição deste mundo.
Melchior proferiu estas palavras já de pé.
- O Dr. Camargo, disse ele mudando de tom, deve chegar um
dia destes, segundo anuncia. Há alguma razão para demorar
o casamento?
- Nenhuma.
- Convém realizá-lo imediatamente?
- Imediatamente.
Melchior caminhou para a porta. Ia dar volta à chave e
deteve-se.
- Antes de nos separarmos, disse ele, desejo a promessa
de que não falarás a Helena antes de amanhã.
- Prometo.
O padre refletiu um instante; Estácio pareceu adivinhá-
lo.
- Quer ainda outra promessa? perguntou ele. Quer que a
evite de todos os modos?
- Sim; que a considere como pessoa totalmente estranha.
- Poderia ser de outra maneira? observou melancolicamente
Estácio. Os sucessos destes dias são, por enquanto ao
menos, uma barreira entre ela e sua família. Demais, eu
seria destituído de todo o senso moral...
- Jura?
- Juro.
Melchior desabrochou a camisa, e aventou um crucifixo de
marfim, que lhe pendia de uma fita preta, ao pescoço.
- Esta, disse ele com voz singela, é a efígie do teu
Deus. Tão puro exemplo de castidade não viram os séculos
nem antes nem depois que ele desceu à terra. Jura o que
me prometes.
- Padre-mestre, retorquiu Estácio; minha palavra era
bastante. Mas, se é preciso afirmação mais solene,
eu a
darei tal qual me pede.
Estácio inclinou a cabeça sobre o crucifixo e beijou-o
respeitosamente; depois beijou a mão ao padre. Melchior
abençoou-o e saiu.
Saindo do gabinete de Estácio, dirigiu-se para a sala de
costura, onde achou D. Úrsula um pouco menos agitada.
- Falou a Helena? perguntou ela, dirigindo-se ao padre.
- Ainda não; sei que não quer sair do quarto; deixemos
passar a primeira comoção. Amanhã virei saber tudo.
Por
hoje é preciso que a senhora sossegue.
- Oh! estou sossegada! Não perdi a confiança.
D. Úrsula proferiu estas palavras com tamanha serenidade
e tão profunda convicção que fortaleceu o espírito
do
próprio Melchior, aliás não inclinado a crer no mal.
O
ancião deteve-se alguns instantes a contemplar o rosto
plácido de D. Úrsula, a admirar a força secreta que
a
tornava surda ao clamor da realidade, - pelo menos, da
realidade aparente. Contemplou-a silencioso, e desceu à
chácara.
Capítulo XXIV
A noite era escura. Calcando a terra e a areia das largas
calhes da chácara, Melchior, em sua imaginação, refloria
o passado, nem sempre feliz, mas geralmente quieto. Mais
de uma vez buscara dissipar a sombra pesarosa que alguns
erros do conselheiro acumularam na fronte da consorte.
Haveria naquela casa uma geração de dores, destinadas a
abater o orgulho da riqueza com o irremediável espetáculo
da debilidade humana?
- Não, dizia ele consigo mesmo. A verdade é que tudo se
encadeia e desenvolve logicamente. Jesus o disse: não se
colhem figos dos abrolhos. A vida sensual do marido
produziu o infortúnio calado e profundo daquela senhora,
que se foi em pleno meio-dia; o fruto há de ser tão
amargo como a árvore; tem o sabor travado de remorsos.
Neste ponto chegava ao portão. Aí deteve-se um instante.
O passo cauteloso e tímido de alguém fê-lo voltar a
cabeça. Um vulto, cujo rosto não via, tão escuro como
a
noite, ali estava e lhe tocava respeitosamente as abas da
sobrescasaca. Era o pajem de Helena.
- Seu padre, disse este, diga-me por favor o que
aconteceu em casa. Vejo todos tristes; nhanhã Helena não
aparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a confiança. O
que foi que aconteceu?
- Nada, respondeu Melchior.
- Oh! é impossível! Alguma coisa há por força.
Seu padre
não tem confiança em seu escravo. Nhanhã Helena está
doente?
- Sossega; não há nada.
- Hum! gemeu incredulamente o pajem. Há alguma coisa que
o escravo não pode saber; mas também o escravo pode saber
alguma coisa que os brancos tenham vontade de ouvir...
Melchior reprimiu uma exclamação. A noite não lhe
permitia examinar o rosto do escravo, mas a voz era
dolente e sincera. A idéia de interrogá-lo passou pela
mente do padre, mas não fez mais do que passar; ele a
rejeitou logo, como a rejeitara algumas horas antes.
Melchior preferia a linha reta; não quisera empregar um
meio tortuoso. Iria pedir a Helena a solução das
dificuldades. Entretanto, o pajem, como interpretasse de
modo afirmativo o silêncio do sacerdote, continuou:
- Nhanhã Helena é uma santa. Se alguém a acusa, acusa
o
bom procedimento dela. Eu lhe direi tudo...
Melchior ia recusar, mas um incidente interrompeu a
palavra do pajem, contra a vontade deste, e talvez contra
o desejo de Melchior. Ouviram-se passos; era um escravo
que vinha fechar o portão.
- Vem gente, disse Vicente; amanhã...
O pajem tateou nas trevas em procura da mão do padre;
achou-a, enfim, beijou-a e afastou-se. Melchior seguiu
para casa, abalado com a meia revelação que acabava de
ouvir. Outro qualquer podia duvidar um instante da
sinceridade do escravo; podia supor que o ato dele era
menos espontâneo do que parecia; enfim, que a própria
Helena sugerira aquele meio de transviar a expectação e
congraçar os sentimentos. A interpretação era verossímil;
mas o padre não cogitou de tal coisa. A ele era
principalmente aplicável a máxima apostólica: para
os
corações limpos, todas as coisas são limpas.
A seguinte aurora alumiou um céu puro de nuvens. Estácio
acordou com ela, depois de uma noite mal dormida. Nunca a
manhã lhe pareceu mais rumorosa e jovial; nunca o ar
apresentara tão fina transparência nem a folhagem tão
lustrosa cor. Da janela a que se encostara, via as flores
de todos os matizes, quebrando a monotonia da verdura, e
enviando-lhe, a ele, uma nuvem invisível de aromas;
aspecto de festa e ironia da natureza. Estácio achava-se
ali como um saimento em horas de carnaval.
Almoçou sozinho; D. Úrsula estava com Helena. Logo depois
do almoço, recebeu uma carta de Mendonça, que, tendo ido
na véspera a Andaraí recebera a resposta dada a todos, e
mandava saber se havia moléstia em casa. Estácio
respondeu afirmativamente, acrescentando que, posto não
se tratasse de coisa grave, só o esperava dois dias
depois. A resposta podia ser mais circunspecta; no estado
em que ele se achava, pareceu-lhe excelente.
Pela volta do meio-dia, chegou Melchior. Na sala de
visitas achou D. Úrsula, que o espreitava de uma das
janelas.
- Helena? perguntou ele ansioso.
- Já hoje desceu, respondeu D. Úrsula. Está mais
tranqüila. Não lhe perguntei nada, mas dizendo-lhe que o
senhor viria falar-lhe, mostrou-se ansiosa por vê-lo, e
pediu-me até que o mandasse chamar.
Seguiram os dois até à saleta que ficava ao pé da sala
de
jantar. Helena estava sentada, com a cabeça caída sobre
as costas da cadeira, e os olhos metade cerrados. Logo
que o padre entrou, Helena abriu os olhos e ergueu-se.
Vivo e passageiro rubor coloriu-lhe as faces pálidas da
vigília e da aflição. Ergueu-se e deu dois passos para
o
padre, que lhe apertou as mãos entre as suas.
- Imprudente! murmurou Melchior.
Helena sorriu, um sorriso pálido e tão passageiro como a
cor que lhe tingira o rosto. D. Úrsula dispôs-se a ir
chamar Estácio, que estava no andar de cima. Apenas a viu
sair, Helena segurou em uma das mãos do padre.
- Queria vê-lo! disse ela. Não tenho ânimo de falar a
ninguém mais, de dizer tudo...
- É inútil; tudo sei, interrompeu Melchior sorrindo. O
Vicente foi hoje de manhã à minha casa; foi de movimento
próprio; relatou-me quanto sabia; disse-me que esse homem
é seu irmão; que a senhora o ia ver, a ocultas, não
podendo ou não querendo apresentá-lo em casa de seus
parentes. O escrúpulo era excessivo, e o ato leviano. Por
que motivo dar aparência incorreta a um sentimento
natural? Teria poupado muita aflição e muita lágrima,
a
si e aos seus, se tomasse antes o caminho direito, que é
sempre o melhor.
Helena ouviu estas palavras do padre com a alma debruçada
dos olhos. Não parecia sequer respirar. Quando ele
acabou, perguntou sôfrega:
- Com que intento lhe falou ele?
- Com o mais puro de todos; desconfiou que a senhora
padecia e por isso veio contar-me tudo.
Helena cruzou os dedos e ergueu os olhos. Melchior não a
quis interromper nessa ascensão mental ao céu; limitou-se
a contemplá-la. A beleza de Helena nunca lhe parecera
mais tocante do que nessa atitude implorativa. A
contemplação não durou muito, porque a oração
foi breve.
- Orei a Deus, disse ela, descendo as mãos, porque
infundiu aí no corpo vil do escravo tão nobre espírito
de
dedicação. Delatou-me para restituir-me a estima da
família. Aquilo que ninguém lhe arrancaria do coração,
tirou-o ele mesmo no dia em que viu em perigo o meu nome
e a paz de meu espírito. Infelizmente, mentiu.
Melchior empalideceu.
- Mentiu sem o saber, continuou a moça. Disse o que
supunha ser verdade, o que eu lhe dei como tal. Não é meu
irmão esse homem.
Melchior inclinou-se para a moça e pegando-lhe nos
pulsos, disse imperiosamente:
- Então quem é? Seu silêncio é uma delação;
não tem já
direito de hesitar.
- Não hesito, replicou Helena; em tais situações, uma
criatura, como eu, caminha direito a um rochedo ou a um
abismo; despedaça-se ou some-se. Não há escolha. Este
papel, - continuou, tirando da algibeira uma carta, -
este papel lhe dirá tudo; leia e refira tudo a Estácio e
a D. Úrsula. Não tenho ânimo de os encarar nesta ocasião.
Melchior, atordoado, fez um leve sinal de cabeça.
- Lido esse papel, estão rotos os vínculos que me prendem
a esta casa. A culpa do que me acontece, não é minha, é
de outros; aceitarei contudo as conseqüências. Poderei
contar ao menos com a sua bênção?
A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte,
beijo de absolvição ou de clemência, que ela lhe pagou
com muitos na destra enrugada e trêmula de comoção.
Helena precipitou-se depois para o corredor, deixando o
padre só, com a carta nas mãos, sem ousar abri-la,
receoso dos males que iam dali sair, sem certeza ao menos
de que ficaria no fundo a esperança. Ia abri-la, e
hesitou se o devia fazer na ausência de Estácio e
D. Úrsula; venceu o escrúpulo e leu.
D. Úrsula, que entrou na ocasião em que ele fechava a
carta, recuou aterrada. Melchior estava pálido como um
defunto. Antes que nenhum deles falasse, entrou Estácio
na saleta. Melchior dirigiu-se a ele e entregou a carta.
Leu-a Estácio e dizia assim:
"Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma coisa aí há
que te aflige. Presumo adivinhar o que é. O Estácio
esteve comigo, logo depois que daqui saíste a última vez.
Entrou desconfiado, e deu como razão ou pretexto a
necessidade de curar algumas feridas feitas na mão.
Talvez ele próprio as fizesse para entrar aqui em casa.
Interrogou-me; respondi conforme pedia o caso. Supondo
que ele soubesse de tuas visitas, não lhe ocultei a minha
pobreza; era o meio de atribuí-las a um sentimento de
caridade. A virtude serviu assim de capa a impulsos da
natureza. Não é isso em grande parte o teor da vida
humana? Fiquei, entretanto, inquieto; talvez lhe não
arrancasse o espinho do coração. Pelo que me disse o
Vicente, receio que assim acontecesse. Conta-me o que há,
pobre filha do coração; não me escondas nada. Em todo
caso, procede com cautela. Não provoques nenhum
rompimento. Se for preciso, deixa de vir aqui algumas
semanas ou meses. Contentar-me-ia a idéia de saber que
vives em paz e feliz. Abençôo-te, Helena, com quanta
efusão pode haver no peito do mais venturoso dos pais, a
quem a fortuna, tirando tudo, não tirou o gosto de se
sentir amado por ti. Adeus. Escreve-me. - Salvador."
"P.S. Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, não faças
nada; não saias daí; seria um escândalo."
Estácio não compreendeu desde logo o que acabava de ler.
A verdade parecia inverossímil. O primeiro movimento foi
sair dali e ir ter com Helena. Melchior deteve-o a tempo.
- Não precipitemos nada, disse ele. Sossegue primeiro.
Estácio deixou-se cair numa cadeira. Melchior comunicou o
conteúdo da carta a D. Úrsula, cujo pasmo foi ainda mais
profundo que o do sobrinho, porque ela não soltou uma
palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente
para o papel. Houve então entre aqueles três personagens
dez minutos de mortal silêncio. D. Úrsula não pensava;
olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o
padre, como a esperar uma conclusão que seu próprio
espírito não podia deduzir dos acontecimentos. Estácio
ficara desorientado; em vão procurava um fio de dedução
entre as idéias; a revelação nova era uma complicação
mais. Se a carta era sincera, como explicar a declaração
testamentária de seu pai? Se o não era, como explicar a
audácia de semelhante invenção? Ele não podia
discernir o
que era favorável a Helena, nem ousava afirmar o que lhe
era adverso.
No meio daquela família, arriscada a dispersar-se,
Melchior considerava a superioridade da morte sobre
alguns lances terríveis da vida. Se o óbito de Helena
tomara o lugar da carta, a dor seria violenta, mas o
irremediável desfecho e o consolo da religião teriam
contribuído para sarar a alma dos que ficassem e
converter o desespero de alguns dias na saudade da vida
inteira. Em vez disto, estava ele, talvez, diante de um
destino aniquilado; via um abismo possível entre corações
que a vontade de um morto vinculara. Qualquer que fosse a
veracidade da carta, o resultado era talvez esse.
Melchior foi dali ter com Helena, para alcançar mais
detida explicação do que acabava de ler. Ela ergueu-se
quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o gesto
benévolo com que ele lhe falou. Um longo suspiro de
alívio rompeu-lhe o coração: os braços caíram
sobre os
ombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou
enfim, - um minuto - das dores que a afligiam.
- Perdoaram-me? disse ela.
- Hão de perdoar; conte-me tudo.
- Oh! não posso, não sei; sei que é meu pai.
O capelão não insistiu; voltou aos outros dois, a quem
achou na posição em que os deixara. Interrogaram-no com
os olhos.
- Nada, disse ele. O coração dela não possui nesta
ocasião a necessária força para responder a quanto
se lhe
devia perguntar; demais, não saberá tudo. Temos a
primeira confissão da verdade...
- Da verdade? interrompeu melancolicamente Estácio. Quem
sabe se é verdade o que lemos nesse papel?
- É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da
asseveração; mas eu incumbo-me de ir buscá-los.
- Iremos ambos.
D. Úrsula quis dissuadir o sobrinho de ir à casa do
homem, causa dos desastres da família, não tanto porque
lhe parecia que entre Estácio e ele nenhuma relação
convinha estabelecer, mas sobretudo porque ela precisava
de alguém que a acompanhasse em tão graves
circunstâncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D.Úrsula.
- Irei eu só, disse ele; depois conduzi-lo-ei até cá,
se
for preciso.
- Não posso esperar, insistiu Estácio; preciso falar a
esse homem, ouvi-lo, ler-lhe a verdade ou o embuste nas
linhas do rosto. Talvez o decoro da família exigisse
outra coisa; mas, padre-mestre, meu coração goteja
sangue...
Era impossível dissuadi-lo: Melchior tratou somente de o
moderar. De resto, a crise era violenta; cumpria resolvê-
la sem demora nem hesitação. O padre animou D. Úrsula,
e
saiu acompanhado de Estácio, cujo coração, convalescido
do primeiro abalo, deixava as regiões da dúvida para
entrar na atmosfera da verdade, - pelo menos da
esperança. Quaisquer que fossem as conseqüências da nova
revelação, vinha esta como um bálsamo, após
tão dolorosas
comoções; era um rasgão azul no céu tempestuoso
daqueles
dias. Ia ele pensando assim, - ou antes sentindo; -
porque o pensamento não ousava regê-lo, desde que a vi
inteira de moço se lhe concentrara no coração.
Chegando à frente da casa, Estácio desviou os olhos;
custava-lhe encará-la, mas venceu-se. Houve demora em
abrir a porta; abriu-se esta enfim, e a figura do dono da
casa apareceu aos dois. Vendo-os, empalideceu um pouco,
mas um sorriso procurou disfarçar a impressão. Estácio
foi direito ao fim.
- Suponho que se lembra de mim? disse ele.
- Perfeitamente.
- Sabe que motivo nos traz à sua casa?
- Não, senhor.
- Confessa a autoria desta carta?
Salvador estremeceu; depois respondeu com um gesto
afirmativo.
- Pretende que Helena é sua filha, disse o moço depois de
um instante. Confirma verbalmente o que escreveu?
- Helena é minha filha.
Melchior interveio:
- Há um ano, falecendo, o meu velho amigo conselheiro
Vale reconheceu Helena, por uma cláusula testamentária;
recomendava à família que a tratasse com afeto e carinho
e designava o colégio em que ela estava sendo educada. O
fato do reconhecimento e as circunstâncias que apontou,
dão toda a veracidade à palavra do morto. Que prova
apresenta o senhor em contrário a ela?
- Nenhuma, disse Salvador; não tenho prova de nenhuma
natureza.
- Na falta de provas, prosseguiu o capelão, poderia
dizer-nos como supor da parte do conselheiro uma
falsificação, tratando-se de disposição tão
grave como
essa de introduzir uma pessoa estranha na família?
Salvador sorriu amargamente.
- Suponha, disse ele, que eu havia iludido a confiança do
conselheiro, e que ele acreditava ser pai de Helena.
- Era isso?
- Não era. Na posição em que nos achamos, já
não há lugar
para meias palavras. Força é referir tudo. Dez minutos
apenas.
Os três sentaram-se. Melchior olhava para o dono da casa
com a persistência e a curiosidade naturais da ocasião.
Salvador esteve alguns instantes calado; enfim, voltou-se
para o capelão.
- Estimo, disse ele, que o Sr. padre viesse; sua caridade
temperará a legítima indignação deste moço;
e eu farei as
declarações indispensáveis na presença das duas
pessoas a
quem mais amo, abaixo de Helena.
- Queira falar, disse secamente Estácio.
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