Error processing SSI file
 

 

Helena
Machado de Assis




Capítulo XV

Estácio levantou-se ao amanhecer. Uma vez pronto, quis
surpreender a tia e a irmã com uma lembrança sua, e
escreveu numa folha de papel estas simples palavras: "Até
à volta; 6 horas da manhã." Dobrou-a e foi pô-la sobre a
mesa de costura de D. Úrsula. Dali passou à sala de
jantar, depois à varanda. Aqui chegando, deu com os olhos
em Helena, que o esperava ao pé da escada.
- Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça
espantos, que pode acordar titia. Vim saber se você
precisa de alguma coisa.
- De nada, respondeu Estácio comovido. Mas que
imprudência foi essa de se levantar tão cedo?
- Cedo! O sol não tarda a cumprimentar-nos. Adeus! muitas
recomendações a Eugênia. Não lhe falta nada, não é assim?
- Nada.
Estácio recebeu a mão que Helena lhe estendera e ficou a
olhar para ela.
- Olhe que é tarde!
Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar
a sua; Estácio reteve-a.
- Se soubesses como me custa ir!
- São apenas alguns dias...
- Valem por meses, Helena! Adeus, não te esqueças de mim.
Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. Não faças
imprudências não saias a passeio enquanto eu estiver
ausente.
- Adeus!
- Adeus!
Estácio quis dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça,
menos ainda com a palavra que com o gesto, fê-lo recuar.
- Não, disse ela afastando-se; as despedidas mais longas
são as mais difíceis de suportar.
Recuou até à porta da sala de jantar, fez um gesto de
despedida e entrou. Estácio desceu a custo as escadas.
Helena viu-o descer e sair; depois subiu cautelosamente
ao seu aposento. Ali sentou-se alguns minutos, pensativa
e triste. Ergueu-se enfim, vestiu rapidamente as roupas
de montar; colocou o chapelinho preto sobre os cabelos
penteados à ligeira, e desceu. Na chácara esperava-a
Vicente, com a égua ajaezada e pronta. Helena montou sem
demora; o pajem cavalgou uma das duas mulas que havia na
cavalariça e os dois saíram a trote na direção da casa do
alpendre e da bandeira azul.
A casa estava ainda silenciosa; porta e janelas
conservavam-se hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e
bateu de mansinho; repetiu as pancadas progressivamente
mais fortes. Ninguém lhe respondeu. Helena impaciente
rodeou a casa; mas, parece que achou igualmente fechadas
as portas do fundo, porque volveu logo. Colou o ouvido à
porta e esperou. Quando lhe pareceu que era baldado o
esforço, tirou da algibeira um lápis e um pedacinho de
papel; colocou o pé no degrau de tijolo e sobre o joelho
escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e
introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns
minutos, caminhou para a égua, montou e regressou a casa.
Vinha triste e pensativa. A égua, a passo vagaroso, não
sentia o esforço da cavaleira, que a deixava ir, frouxa a
rédea, inútil o chicote. O pajem levava os olhos na moça
com um ar de adoração visível; mas, ao mesmo tempo, com a
liberdade que dá a confiança e a cumplicidade fumava um
grosso charuto havanês, tirado às caixas do senhor.
D. Úrsula não estava ainda levantada; Helena não lhe
ocultou o passeio. O dia correu triste e solitário, como
os seguintes, sem embargo da companhia que iam fazer às
duas senhoras as pessoas mais íntimas. Mendonça, a quem
Estácio as recomendara, era ali pontual; conseguia
disfarçar um pouco as saudades do moço ausente. O padre
Melchior prolongava visitas quotidianas. O mesmo
sentimento ligava a todas as pessoas.
O mesmo era, e não único, porque outro e mais egoísta e
pessoal veio ali viçar também. Mendonça sentiu que metade
de seu destino estava acabada, e que a outra metade ia
começar, mais circunspecta que a primeira. O relógio em
que ele viu bater essa hora fatídica, foram os olhos de
Helena. Mendonça começava a amar. Estouvado, e não
corrupto, atravessara o delírio dos primeiros anos sem
perder a flor dos castos afetos, sem sequer a haver
colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa adoração
silenciosa, sem parecer que a descobrira. Não animou o
mancebo nem o repeliu; redobrou de confiança, - dessa
confiança que só se dá aos simples familiares, e que
mostra claramente a um namorado a inanidade de suas
esperanças. Ao parecer de estranhos, a situação
afigurava-se de perfeita concórdia. O coronel-major
piscou um dia os olhos ao Dr. Matos; o Dr. Matos proferiu
um - latet anguis in herba - e ambos foram repartir o pão
das conjeturas com a esposa do advogado, senhora muito
perspicaz nos namoros de salão. A opinião dos três é que
o casamento era coisa provável, e talvez certa. Um só
obstáculo podia haver; eram os escrúpulos do pai de
Mendonça. Esse mesmo obstáculo não existia, porquanto,
além das qualidades estimáveis da moça, havia o
reconhecimento legal e social, público e doméstico;
acrescendo (observação do Dr. Matos) que duzentas e
tantas apólices mereciam um cumprimento de chapéu e não
davam lugar a cinco minutos de reflexão.
As primeiras cartas de Estácio chegaram uma tarde em que
as duas senhoras e Mendonça se achavam na varanda,
acabado o jantar, bebendo as últimas gotas de café.
D. Úrsula, depois de por em atividade três mucamas para lhe
irem procurar os óculos, levantou-se e foi ela própria à
cata deles, com a sua carta na mão. Helena ficou com a
que lhe era dirigida; estava sentada junto a uma das
janelas, abriu-a e leu-a para si:
Quando esta carta te chegar às mãos, estarei morto,
morto de saudades de minha tia e de ti. Nasci para os
meus, para a minha casa, os meus livros, os meus hábitos
de todos os dias. Nunca o senti tanto como agora que
estou longe do que há mais caro neste mundo. Poucos dias
lá vão, e já me parecem meses. Que seria se a separação
não fosse tão limitada?
Na carta que escrevo a titia dou conta da nossa viagem e
da saúde de todos. D. Clara está, na verdade, à beira da
morte; mas pode durar ainda alguns dias, e o Dr. Camargo
resolveu esperar até dar-lhe os últimos adeuses. A
recepção que nos fez a família foi cordialíssima. Há aqui
uma cunhada da enferma, um primo, três sobrinhos, outros
parentes e vários afilhados. O primo é comendador e
tenente-coronel; ele e os outros são a gente mais afável
do mundo. Os homens da família são influências
eleitorais; quando souberam da minha candidatura,
ofereceram-me logo os seus serviços, com a cláusula única
de que haja prévia recomendação do Rio de Janeiro.
Agradeci o favor, com muita abundância d’alma, porque a
tal candidatura, que não me seduzia nem seduz, não há
remédio senão cuidar dela, de modo que o meu nome não
padeça a injúria da derrota. Que te parece esta
pontazinha de vaidade?
Mudemos de assunto, que este me aflige, e não quero
filosofar sem ti, que és a minha companheira nestas
vadiações de espírito. Aí não te lembrarás, talvez, das
nossas palestras; aqui lembra-me tudo. De manhã, dou o
meu passeio eqüestre, como lá; mas que diferença! Quem
vai a meu lado é o tenente-coronel, excelente homem,
coração de pomba, com o defeito único e enorme de se não
chamar D. Helena do Vale, a minha boa Helena, que lá está
na Corte, a divertir-se sem seu irmão. Ele fala de tudo e
muito: do café, do governo, das eleições, dos escravos,
dos impostos. Eu ouço, que é o menos que posso fazer, e
deixo-o ir sem interrupção. Às vezes, como que
desconfiado, recolhe-se ao silêncio; eu ato o fio da
conversa e ele encarrega-se de desenrolar o novelo. Tão
pouca coisa o faz feliz! Já cacei uma vez; confesso-te
que é o que me pode distrair um pouco. Pensava ter
perdido o costume; mas não perdi. A modéstia impede-me
dizer mais.
A fazenda é vasta e a casa excelente. Não te direi que
gosto da vida agrícola; não gosto, não me dou com ela.
Mas viver num recanto como este, a dois passos do mato, a
tantas léguas da rua do Ouvidor, isso creio que se dá com
a minha índole. Consultaremos titia. Eu não sei o que é
amar o tumulto exterior; acho que é dispersar a alma e
crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e
creio que também para déspota, porque estou a planear uma
vida ignorada e deserta, sem consultar tuas preferências.
Sou um Cromwell com tendências de frade; ou, por dizer
tudo numa só palavra: sou um Lutero... muito inferior.
Pobre Helena! Já lá vão quatro páginas só a falar de
mim. Vejamos o que tens feito. Andas muito triste?
passeias? lês? jogas? tocas? Conta-me a tua vida o mais
miudamente que puderes. Conta-me a vida de todos. Não me
escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro ou
tocar uma tecla do piano, pensares em mim, escreve isso
mesmo, marcando o dia e até a hora, se puder ser. E
depois dou-te o direito de perguntar onde ficou a minha
gravidade, e responderei que há uma puerilidade séria, e
que os extremos se tocam. Quando assim não seja, a culpa
é do céu, que me não deu uma irmã criança; agora é
preciso que comecemos pela primeira fase da vida.
Deixei muito recomendado ao Mendonça que fosse à nossa
casa com freqüência. Não sei se ele se terá lembrado e
cumprido a promessa que me fez. Se não tiver cumprido,
hás de mandar-lhe dizer que eu o detesto e abomino; que
ele é o maior traidor que o céu cobre; que tudo fica
acabado entre mim e ele; que a amizade é um culto, etc.
Dize o que te parecer e pelo modo que te é usual.
Lembro-me de ti a propósito de tudo. Hoje de tarde, por
exemplo, o terreiro oferecia um aspecto bonito e
característico. Se ela estivesse aqui, disse comigo,
faria um magnífico desenho. Peguei de um lápis que
trouxe, meia folha de papel, e quis reproduzir o
panorama. Escrevi um problema algébrico! Foi um conselho
que me deu o lápis: ninguém se meta a fazer aquilo que
ignora. Eu ignorava o que era estar ausente da família;
por que motivo me determinei a tentá-lo?
Interrompi esta carta para receber o Dr. Fróis, que é o
médico de D. Clara; veio ao meu quarto para me dizer que
o estado da doente é perdido, que a morte é certa; mas
que a vida pode prolongar-se ainda por muitos dias. Vê
que perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses
últimos dias da enferma pesam sobre mim como se fora o
punho fechado do destino. Se a morte é certa, por que
viver alguns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos
goles, sem consciência do que se perde nem do que se vai
ganhar?
Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um
mês. Será o que Deus quiser. Manda-me, entretanto, alguns
livros. No meu quarto só achei um Manual de medicina
prática. Manda-me alguma coisa que me faça lembrar o
Andaraí. Tira da estante oito ou dez volumes, à tua
escolha. Manda também algum trabalho de agulha teu; quero
mostrá-lo à cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os
teus talentos. Se puderes desenhar alguma coisa, à
pressa, o tanque, a varanda ou qualquer outro lugar,
faze-o, e manda com o resto. Escreve-me longamente;
conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de ti,
que é o meio de consolar minhas saudades, que são
imensas, imensas como este amor que tenho à minha família
toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa
Helena; adeus, minha vida, adeus, ó mais bela e doce de
todas as irmãs!
"P.S. Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a
respeito da vida da doente. Perdoa-me a ferocidade, e
leva-a em conta da solidão."

Capítulo XVI

Helena leu e releu a carta. Depois ficou silenciosa, a
olhar para as folhas da trepadeira, que do lado de fora
viera a subir pela muralha da varanda e a debruçar-se
enfim do parapeito para dentro. A carta ficara aberta
sobre os joelhos da moça. Mendonça, a poucos passos,
olhava para esta, sem ousar falar-lhe.
Goethe escreveu um dia que a linha vertical é a lei da
inteligência humana. Pode dizer-se, do mesmo modo, que a
linha curva é a lei da graça feminil. Mendonça o sentiu,
contemplando o busto de Helena e a casta ondulação da
espádua e do seio, cobertos pela cassa fina do vestido. A
moça estava um pouco inclinada. Do lugar em que ficava,
Mendonça via-lhe o perfil correto e pensativo, a curva
mole do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do
sapatinho raso que ela trazia. A atitude convinha à
beleza melancólica de Helena. O rapaz olhava para ela sem
movimento nem voz.
A tarde expirava; a cor verde do morro fronteiro ia
tomando o aspecto cinzento-escuro que precede a cor
fechada da noite. A própria noite desceu, e um escravo
entrou na varanda a acender as duas lâmpadas que pendiam
do teto. Esta circunstância acordou a moça, e bastou-lhe
voltar um pouco a cabeça para ver o amigo de Estácio a
alguns passos de distância.
- Estava aí? perguntou Helena, estremecendo.
- D. Úrsula não voltou, respondeu Mendonça com timidez;
não quis interromper a leitura que a senhora fazia.
- A leitura? A leitura acabou há muito tempo.
- Mas também se lê de cor.
Helena lançou-lhe um olhar suspeitoso.
- Não sei ler de cor, disse ela, erguendo-se e saindo da
varanda.
Mendonça ficou aturdido. Que lhe dissera ele tão grave
que a pudesse ofender? Repetiu as próprias palavras e não
lhes achou sentido mau. Certo, porém, de que a molestara,
ali ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe
explicar tudo, se alguma coisa houvesse explicável. Após
alguns instantes, resolveu entrar também. Entrou; Helena
não estava nem na sala de jantar, nem na do jogo, onde
achou D. Úrsula com o Dr. Matos e o coronel-major. Dali
passou à sala de visitas. Helena não o viu entrar; estava
mergulhada numa poltrona com a cabeça nas mãos. Comovido,
deteve-se alguns instantes a contemplá-la; depois
caminhou para ela e falou-lhe.
Helena ergueu a cabeça.
- Perdoe-me, disse ele, se alguma coisa lhe disse que a
magoou. Confesso que não sei o que poderia haver em
minhas palavras. Ficou triste por isso?
A moça cravou nele um olhar ainda suspeitoso, e não lhe
respondeu logo. Mendonça adotou o melhor dos alvitres
naquela ocasião; inclinou-se e recuou para sair. Helena
chamou-o; ele aproximou-se outra vez, com um ar de tão
doce resignação que lisonjearia o mais levantado orgulho.
Helena estendeu-lhe a mão; ele apertou-a e teve ímpetos
de a beijar uma e muitas vezes, triunfando naquele único
instante da hesitação de todos os dias; faltou-lhe
resolução. Helena mostrou-lhe o trecho da carta em que
Estácio se referia a ele; falaram dos ausentes e dos
presentes, de todos e de tudo, menos do assunto que
exclusivamente preocupava o moço. Ele saiu dali sem haver
dito nada de seu coração. Chegando à rua, achou-se
poltrão e ridículo, disse mil nomes feios a si próprio;
enfim, prometeu declarar tudo a Helena no dia seguinte.
No dia seguinte, que era domingo, Helena dirigiu-se à
capela a ouvir a missa do padre Melchior. Acabada a
cerimônia, não seguiu para casa, com D. Úrsula, mas foi
ter à sacristia, onde o padre acabava de tirar os
paramentos. Melchior, logo que soubera da carta de
Estácio, nessa manhã, pedira a Helena que lha deixasse
ver.
- Falam sempre ao coração as letras dos amigos, dissera
ele.
Helena deu-lhe a carta, que o padre recebeu com uma
expressão antes de curiosidade que de afeto. Leu-a
vagarosamente, como escrutando o sentido e as palavras; e
sendo longa a epístola, longo foi o tempo que ele
despendeu em a interpretar. Durante esse tempo, Helena
admirava-lhe a figura austera, a serenidade religiosa. A
sacristia era pequena; duas altas janelas deixavam entrar
a luz, o ar e o aroma das folhas e das flores da chácara.
Entre a cimalha e o telhado algumas andorinhas haviam
fabricado os ninhos, donde saíam, como pensamentos de
juventude, a adejar ao sol da manhã. Ao pé daquele quadro
exterior de alegria e verdura, a sacristia tinha certo ar
melancólico e severo, que lançava n’alma o esquecimento
das vicissitudes humanas. Helena deixou-se cativar desse
sentimento de abstenção e elevação; se alguma dor ou
remorso a pungia, esqueceu-os, por um minuto ao menos,
entre aquelas paredes desataviadas, diante de um padre,
entre uma imagem de Jesus e as obras vivas do Criador.
Lida a carta, Melchior dobrou-a com ar pensativo; depois
entregou-a à moça.
- Já respondeu? perguntou ele.
- Já; trouxe-lhe a carta que vou mandar hoje mesmo.
Melchior abriu-a e leu; não gastou menos tempo, ainda que
era de menores dimensões. O estilo era afetuoso, mas
muito menos exuberante que o da carta de Estácio. Ela
contava-lhe, em suas feições gerais, a vida que ali
passavam, desde que ele partira, as ocupações de cada dia
e as distrações da noite.
"Vivemos, dizia a moça, como podem viver duas criaturas
que sabem a afeição que lhes tem um parente amigo,
ausente embora, mas não esquecido, - nem ingrato. O padre
Melchior, algum dos vizinhos, e o Dr. Mendonça são as
nossas visitas habituais. Você sabe o que vale o padre; é
a mais bela alma que Deus mandou ao mundo. Os vizinhos
são afáveis, como sempre. O Dr. Mendonça é
verdadeiramente digno da nossa afeição e confiança.
Disse-lhe o que você me escreveu; ele riu, como homem
seguro de escapar à punição.
Pena é que você tenha de se demorar aí tanto tempo; mas,
se alguma esperança pode haver de salvar a doente, damo-
nos por bem pagas da demora. É verdade que você não é
médico; mas há aí outra doente, para quem é, não só
médico, mas até toda a medicina. Por que razão me não
escreveu Eugênia? Eu não cuidei que essa amiga me
esquecesse na véspera de ser minha cunhada. Se
estivéssemos mais perto, ia puxar-lhe as orelhas. Diga-
lhe isto; e se tiver ocasião de emprestar-me os seus
dedos, aplique-lhe o castigo, declarando-lhe o delito
cometido e o juiz que a sentenciou.
O que você diz da vida solitária é muito justo, mas
impraticável. Os amigos não nos iriam ver; e poderíamos
nós dispensá-los? Tal é a opinião de titia e a minha. O
melhor de tudo é este meio-termo de Andaraí; nem estamos
fora do mundo nem no meio dele. O ruído externo pode ter
os efeitos de que você fala; mas ele é às vezes preciso
para aturdir e distrair o espírito. Também a solidão tem
suas dores, e fundas; também ela abala o coração. Nem um
extremo nem outro."
A carta continha alguns períodos mais, não muitos; três
ou quatro vezes falava em Eugênia, com tamanha
insistência que punha em relevo o silêncio a tal respeito
conservado por Estácio; falava-lhe da beleza da noiva, do
casamento próximo, do amor que os faria felizes, e da
ventura que ambos dariam a todos os seus.
Quando o padre acabou de ler a resposta, abriu os braços
a Helena; depois abrangeu com as mãos a cabeça da moça e
contemplou-a durante alguns segundos.
- Toda a sua alma está nesse escrito, disse ele; vejo aí
a reflexão e o afeto. Tanto melhor! Há contudo uma
lacuna: não transmite a seu irmão as minhas saudades; há
também uma excrescência: louva méritos que não possuo.
Embora! Mande-a...
- Escreverei duas linhas mais.
- Pois sim. Diga-lhe que se apresse, porque estou velho e
posso morrer antes.
- Oh! protestou Helena.
Melchior olhou para ela silenciosamente.
- Crê que Estácio seja feliz? perguntou ele enfim.
- Creio.
- Também eu.
Outro silêncio. O primeiro que o rompeu foi o padre.
- Por que se não casa também? disse ele.
- Eu?
- Decerto. Pode ser que muito breve, talvez...
- Talvez nunca.
Melchior franziu a testa; a fisionomia, de ordinário
meiga, tornou-se severa, como a consciência dele. O padre
tinha uma das mãos de Helena entre as suas; deixou-a
insensivelmente cair. Entre os dois estabeleceu-se um
silêncio que os acabrunhava e que não ousavam romper;
como subjugados por um mistério, receava cada um deles
que o outro lho lesse na fronte; instintivamente
desviaram os olhos.
Melchior foi o primeiro que voltou a si. A reflexão
corrigiu a espontaneidade, e o padre reassumiu o gesto
usual, com essa dissimulação que é um dever, quando a
sinceridade é um perigo.
- Vamos lá, disse ele; ninguém pode decidir o que há de
fazer amanhã; Deus escreve as páginas do nosso destino;
nós não fazemos mais que transcrevê-las na terra.
- É verdade! confirmou ela com um gesto de cabeça, e sem
erguer os olhos.
- Amanhã, continuou o padre, o acaso, - isso a que os
incrédulos chamam acaso, e que é a deliberação da vontade
infinita, - lhe apontará um homem digno da senhora, e seu
coração lhe dirá: é este; e o suspiro desalentado de hoje
converter-se-á num olhar de graças ao céu. Ora, o que eu
lhe peço, o que eu desejo, é que se apresse tanto que eu
possa casá-los...
- Oh! mas não vai morrer amanhã, interrompeu Helena.
- Estou velho, minha filha; estes cabelos brancos são já
a neve desse mar polar para onde navegamos todos. Conto
sessenta anos. A morte pode colher-me um dia próximo...
- Vamos almoçar, disse Helena sorrindo.
Saíram da sacristia, atravessaram a capela, e penetraram
na chácara. Na ocasião em que iam transpor a porta da
capela, viram Mendonça entrar em casa. Melchior estacou e
olhou para Helena. Esta ia como acabrunhada e absorta. O
gesto do padre, quando ela lhe declarou que não se
casaria talvez nunca, ficara-lhe gravado na memória, como
um enigma, que talvez receava decifrar. Poucos minutos
eram passados; contudo, ela pôde refletir, e coligir os
elementos de uma resolução. Detendo-se, com o padre, à
porta da capela, viu também entrar Mendonça. Os olhos da
moça e do padre interrogaram-se de novo, mas desta vez
nenhum deles os desviou.
- Vê aquele homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria
bom marido?
- Excelente, decerto, disse vivamente Melchior; caráter,
educação, sentimentos...
- Tem ainda uma virtude particular: ama-me.
- Sei.
- Ele lho disse?
- Não, mas vê-se. É sabido de todos os que freqüentam
esta casa. A probabilidade do casamento é objeto de
comentários, e a opinião geral é que ele se fará dentro
de pouco tempo. Confessou-lhe alguma coisa?
- Nada; mas os olhos da mulher amada não são menos
sagazes que os dos padres amigos. Acha que devo confirmar
a opinião dos outros?
- Acho; consulte, porém, seu coração.
- Já consultei.
- Neste único instante?
- Nada menos.
- Deveras? disse Melchior, derramando um olhar de
paternal ternura no rosto sério de Helena.
- Não digo que o ame desde já; mas a afeição que ele me
tem, refletirá em meu coração, e eu virei a amá-lo. O que
importa saber é que é digno de mim. De todos os que me
pretendessem nenhum lhe seria superior.
- Ainda bem! Contudo, repare que vai contrair uma
obrigação perpétua, e que um contrato destes não pode ser
deliberado em poucos instantes.
- Oh! nesse ponto a minha ignorância sabe mais do que a
sua teologia. Que são minutos e que são meses? Paixões de
largos anos, chegando ao casamento, acabam muitas vezes
pela separação ou pelo ódio, quando menos pela
indiferença. O amor não é mais que um instrumento de
escolha; amar é eleger a criatura que há de ser
companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade
de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou corromper-
se. Que resta à maior parte dos casamentos, logo após os
anos de paixão? Uma afeição pacífica, a estima, a
intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar
mais do que isso.
- Não gosto de tanta reflexão em tão verde idade,
replicou benevolamente Melchior; todavia, encanta-me esse
raciocínio que, ao cabo de tudo, pode ser verdadeiro. Mas
não me desdigo; alguns minutos é pouco tempo; reflita
ainda vinte e quatro horas.
- Nem um instante mais, insistiu Helena. Minhas reflexões
são lentas ou súbitas: ou cinco minutos ou um ano;
escolha.
- Pois reflita cinco minutos, replicou o padre sorrindo.
- Já lá vão quatro; aproveitarei o último para lhe dizer
que em nada disto falaria, se não fossem as qualidades
notáveis desse moço; e para acrescentar que a ele me liga
certa simpatia de gênios... é talvez a semente do amor.
Tinham chegado ao primeiro degrau da escada da varanda.
Subiram e penetraram na sala de jantar, onde acharam D.
Úrsula e Mendonça, este a percorrer com os olhos um
jornal do dia. O almoço serviu-se imediatamente.
- Padre-mestre, disse D. Úrsula, demorou-se tanto que
cuidei... tivesse idéia de me arrebatar Helena.
- Estive-a ouvindo de confissão, respondeu Melchior.
- E pôde absolvê-la?
- Decerto.
- Mas com grande penitência, não?
- A mais fácil de todas, acudiu Helena, olhando para o
padre.
- Oh! então é que os pecados são leves! concluiu D.
Úrsula. Não lhe parece?
Estas últimas palavras foram dirigidas a Mendonça, na
ocasião em que todos caminhavam para a mesa. Mendonça não
respondeu nada. Contra o costume, falava pouco, - menos
ainda que na véspera e nos dias anteriores. D. Úrsula via
a diferença mas não a compreendia.
- Não quero saber que pecados confessou, disse ela
sentando-se; estou certa de que o maior deles não levaria
ninguém ao purgatório.
- Veja o que é uma tia indulgente, observou Helena a
Mendonça, sentando-se ao seu lado.
Preocupado com a conversa que acabava de ter na sacristia
e na chácara, Melchior pouca atenção prestou a princípio
ao filho do comerciante. Analisava as circunstâncias do
momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir de
qualquer resolução que adotasse. Após um longo diálogo
com a consciência, o velho sacerdote inclinou os olhos ao
mancebo, que lhe ficava defronte, ao lado de Helena. Viu-
os conversar. Ela mostrava-se graciosa, solícita e
atenta, como uma esposa amante; ele parecia enamorado da
voz e das falas da donzela; como que um clarão interior
lhe desvendara à alma os horizontes infinitos da
esperança. Familiarizado com Helena, tratado por ela com
esquisita atenção, era contudo a primeira vez que ela lhe
falava, não como a um confidente amigo, mas como a um
homem que poderia vir a ser seu esposo. Alguma seriedade,
um olhar submisso, uma atenção continuada, fizeram essa
diferença, que antes foi sentida pelo coração do que
descoberta pelos olhos.
No fim do almoço, Melchior dirigiu-se para a sala de
visitas, com Helena. Mendonça acompanhou-os. A resolução
do padre estava assentada de raiz; ele aceitava aquele
casamento como um presente do céu. Apenas entrados na
sala, travou as mãos de um e outro e lhes disse, com voz
comovida:
- Prometem não zangar-se comigo?
- Por quê? interrogou Mendonça com os olhos.
Helena baixara os seus.
- Prometem?
- Padre-mestre... começou Mendonça sem poder concluir a
frase.
O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez
hesitava falar; talvez buscava o melhor meio de dizer o
que tinha no coração. Urgia romper o silêncio; fê-lo com
solenidade:
- Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o
Evangelho. Quando duas criaturas se merecem, é servir a
Deus emprestar a voz ao coração que não ousa falar. O
senhor ama esta menina; leio-lhe nos olhos o sentimento
que o arrasta para ela; são dignos um do outro. Se é a
timidez que lhe fecha os lábios, eu sou a voz da verdade
e do amor infinito; se outro motivo, serei juiz
complacente para escutá-lo.
Ouvindo estas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo.
Não só a fortuna lhe chegava às mãos, quando ele menos
esperava, mas até escolhera um caminho desusado e
estranho. A realidade confundia-se ali com o sonho. A
presença de um terceiro era suficiente motivo para
acanhar os mais resolutos; acrescia a veste sacra do
sacerdote, que dava àquilo um ar de solenidade e
consagração. Mendonça recobrou, enfim o uso dos sentidos;
a resposta única e eloqüente foi estender a mão a Helena,
gesto a que a moça correspondeu com simpleza e
naturalidade.
- Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e
pode dar-lhe a felicidade que lhe desejo a ela. Também
Helena o fará venturoso, não? perguntou ele, voltando-se
para a moça.
- Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.
- A vida não é outra coisa, retorquiu o capelão; velho
pensamento e velha verdade. Façamos por que o sonho seja
agradável e não árido ou triste. Prometem-me que se farão
felizes?
- Não ambiciono outra coisa, disse o rapaz; será o meu
cuidado e a minha glória.
- Seu amor, continuou Melchior, é mais forte que o de
Helena; eu consultei-a antes, e li em seu coração. Elege-
o com prazer, embora sem entusiasmo. Não é a paixão cega
que a faz falar; é um sentimento brando e singelo, por
isso mesmo duradouro. A reflexão de um corrigirá a
violência do outro e os dois sentimentos se completarão
pela virtude especial de cada um.
Esta explicação franca de Melchior teve o condão de ser
agradável aos dois. Helena estimou que ele nem
lisonjeasse as ilusões de Mendonça, nem a desse como
aceitando indiferente e estouvada o casamento proposto.
Pela sua parte, Mendonça viu nas palavras do padre um
indício da sinceridade de Helena, e aceitou o pouco
oferecido, com a certeza de multiplicá-lo. O caráter de
Melchior e a veneração que mereciam suas virtudes, eram
fianças de veracidade e davam ao ato singelo que ali se
passava, um forte cunho de santidade e elevação. Não era
uma vulgar declaração de amor, sujeita às variações do
espírito ou do interesse, mas verdadeiros esponsais em
que a religião era inspiradora e testemunha.

Capítulo XVII

Aquele dia foi marcado no calendário de Mendonça com
letras de ouro e cetim; a noite desceu coroada de murta e
rosas. Ele viveu essas horas todas num estado de
sonambulismo e êxtase. Tencionava referir tudo à mãe,
logo que entrou em casa ao meio-dia; mas não se atreveu,
porque ele mesmo não estava certo se vivia a realidade ou
se voava nas asas de uma quimera. De noite voltou a
Andaraí; achou em Helena o mesmo modo afetuoso, a mesma
solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma
contemplação namorada; um meio-termo que o continha a ele
próprio, e não era menos aprazível ao coração. A nova
situação era, entretanto, sensível, porque os vigilantes
de fora trocaram entre si olhares cheios de graves
descobertas; um deles, o coronel-major, chegou a proferir
uma alusão, que os interessados fingiram não perceber.
Quando Mendonça chegou à casa nessa noite, ia mais que
nunca cheio de comoção e nadando em plena glória. A
cidade, apenas aí entrou, pareceu-lhe transformada por
uma vara mágica; viu-a povoada de seres fantásticos e
rutilantes, que iam e vinham do céu à terra e da terra ao
céu. A cor deste era única entre todas as da palheta do
divino cenógrafo. As estrelas, mais vivas que nunca,
pareciam saudá-lo de cima com ventarolas elétricas, ou
fazerem-lhe figas de inveja e despeito. Asas invisíveis
lhe roçavam os cabelos, e umas vozes sem boca lhe falavam
ao coração. Os pés como que não pousavam no solo; ia
extático e sem consciência de si. Era aquele o galhofeiro
de há pouco? O amor fizera esse milagre mais.
Um dos teatros estava aberto; comprou um bilhete e
entrou. Não era desejo de divertir-se ou interessar-se
pelo drama, que aliás expirava de parceria com o
protagonista; era necessidade de ver gente, de apalpar a
realidade das coisas, tão quimérico se lhe afigurava tudo
o que se passara desde manhã.
Um espectador, o filho do coronel-major, viu-o a alguma
distância e foi sentar-se ao pé dele.
- O senhor que tem melhor vista, disse o acadêmico,
desengane-me; aquela moça que ali está, naquele camarote,
não é a andorinha viajante?
- A andorinha viajante? repetiu Mendonça, olhando para
ele; que quer dizer esse nome?
- É a alcunha da irmã de Estácio. Será ela que está ali,
com uma senhora idosa?
- Mas por que lhe chamam assim?
- Eu sei! Naturalmente porque sai à rua todos os dias. Na
verdade, é um passear! Mal amanhece, lá vai trepada no
cavalinho, com o pajem atrás...
- Quem lhe pôs essa alcunha?
- As alcunhas são como as mofinas: não têm autor.
Caíra o pano; Mendonça despediu-se ali mesmo e saiu. Na
rua repetiu mentalmente as palavras do jovem acadêmico.
Ao cabo de alguns minutos, sorriu; compreendera que,
apenas suspeitada a sua felicidade, já a inveja lhe
deitava na taça uma gota de veneno. Ergueu os ombros,
resoluto a suportar tranqüilo essa lívida companheira do
êxito.
Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvera
a ocupá-lo exclusivamente. Só, na alcova de solteiro,
inventariou os acontecimentos daquele dia e achou-se
morgado da fortuna. Como precisava conversar com alguém,
escreveu uma longa carta a Estácio, narrando-lhe toda a
história do seu coração, as esperanças e a pronta
realização delas. A alma derramou-se no papel impetuosa e
exuberante. O estilo era irregular, a frase incorreta;
mas havia ali a eloqüência e a sinceridade da paixão.
Quando fechou a carta, anteviu o prazer que ia dar ao
amigo, logo que ela lhe chegasse às mãos, levando a
notícia de que os vínculos atados na aula iam apertar-se
na família. "Vem quanto antes, dizia ele ao terminar a
missiva; tenho ânsia de abraçar-te e ouvir de ti mesmo o
consentimento que me fará o mais feliz dos homens!"
Quando essa carta chegou a Cantagalo, Estácio voltava de
uma pequena excursão que fizera com o pai de Eugênia.
Conheceu a letra do sobrescrito; abriu negligentemente a
carta; leu-a com assombro. A impressão foi tão visível
que Camargo lhe perguntou de que se tratava.
- Recebo uma notícia que me obriga a partir amanhã, disse
ele.
- Negócio grave?
- Grave.
- Ainda assim, nesta ocasião...
- Que tem? D. Clara pode ainda resistir à morte alguns
dias; e, posto que a minha ausência não prejudique nada
do fato a que aludo, contudo é mister que me informe e
providencie.
- Algum negócio relativo ao inventário? aventurou
Camargo, que nada conhecia mais grave que o dinheiro.
- Justamente, respondeu maquinalmente Estácio.
Camargo consolou a filha do desgosto que lhe causava a
partida do noivo; falou-lhe a linguagem da razão; disse
que havia assuntos práticos, a que os sentimentos tinham
de ceder o passo alguma vez. No dia seguinte de manhã,
partiu Estácio na direção da Corte, não sem prometer que
voltaria, se a moléstia ou qualquer outro motivo
obrigasse a família a demorar-se em Cantagalo.
Ninguém esperava por ele em Andaraí. Entrando na chácara,
- era de noite, - viu Estácio que a sala que ficava no
ângulo esquerdo da frente da casa, estava alumiada e
tinha gente. A sala ficava ao rés-do-chão e as janelas
estavam abertas. Parou a pouca distância, e pôde
distinguir o coronel-major e o Dr. Matos jogando o gamão;
a mulher do advogado falava a D. Úrsula e Melchior, em um
dos lados; do outro estava assentada Helena, tendo
Mendonça diante de si.
Estácio deu volta aos fundos da chácara, e entrou pela
varanda. Os escravos que o viram chegar, deram sinal da
novidade, com vozes de alegria, que, aliás, não chegaram
até às pessoas da sala. Estas só souberam do recém-
chegado quando ele assomou à porta. A satisfação de o ver
foi geral e sincera em todos. Estácio distribuiu abraços
e apertos de mão. Melchior, que se deixara ficar de lado,
foi o último com quem falou.
- O Dr. Camargo veio? perguntou D. Úrsula ao sobrinho,
logo depois que este cumprimentara a todos.
- Não, respondeu Estácio, a doente não pode escapar, mas
ainda a deixei com vida.
- Imagino a impaciência dos herdeiros.
Esta observação filosófica do coronel-major não teve
nenhum efeito. Melchior, que a reprovara interiormente,
fez mudar a conversa, informando-se da família de
Camargo. Estácio deu todas as notícias que podiam
interessar; depois, falou de alguns incidentes da viagem;
enfim, retirou-se por alguns minutos.
Mendonça acompanhou o amigo, alcançando-o ainda na
escada. Subiram juntos e juntos entraram no quarto.
- Agora que estamos sós, perguntou Mendonça, houve por lá
alguma coisa?
- Nada.
- Tanto melhor!
Um escravo entrou no quarto, a fim de servir a Estácio;
Mendonça, ansioso por lhe falar de Helena, contentou-se
com trocar algumas vagas indicações.
- Recebeste a minha carta? disse ele.
- Recebi.
- Não esperavas por ela, aposto...
- Não.
- Como eu não esperava escrevê-la. Estás aborrecido?
- Estou cansado.
- Naturalmente, assentiu Mendonça, abrindo um livro que
achou sobre a mesa e tornando-o a fechar.
O silêncio prolongou-se alguns minutos, durante os quais
Mendonça tornou a abrir o livro, examinou uma espingarda
de caça, preparou um cigarro e fumou. O escravo ajudava o
senhor a mudar de roupa. Estácio continuava mortalmente
calado; Mendonça falou algumas vezes, sobre coisas
indiferentes, e o tempo não correu, andou com a lentidão
que lhe é natural, quando trata com impacientes. Logo que
Estácio se deu por pronto, e o escravo saiu, Mendonça
voltou diretamente ao assunto que o preocupava.
- Estava ansioso por ver-te, disse ele. Não nos é
possível falar agora; não temos tempo. Mas quero dar-te
um abraço, ao menos, um abraço de agradecimento pela
felicidade...
- Parece que só esperavas a minha ausência?
- Creio que não. Já antes de seguires, começava a sentir
alguma coisa nova, que vim a descobrir ser paixão
violenta.
- Helena ama-te?
- Com igual amor, não creio; mas aceita-me; tem-me algum
afeto.
- Tratarei de consultá-la.
Mendonça não pôde continuar, porque Estácio descia a
escada ao dar-lhe a última resposta. Mendonça desceu
também. Na sala estavam ainda as mesmas pessoas. Perto de
uma janela conversava Helena com o padre. O chá foi logo
servido e a conversa tornou-se geral, ainda que sem
grande animação. Melchior falou menos que todos.
Nem por isso foi o primeiro que saiu; foi o último. Na
chácara, dirigindo-se ao portão, ergueu os olhos ao
firmamento, não para ver a lua e as estrelas, senão para
subir a região mais alta. O que disse ninguém o soube,
mas o anjo das rogativas humanas porventura colheu em seu
regaço os pensamentos do ancião, e os levou aos pés do eterno e casto amor.
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII e Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII à Capítulo XIV
Capítulo XV à Capítulo XVII
Capítulo XVIII à Capítulo XX
Capítulo XXI e Capítulo XXII
Capítulo XXIII e Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII e Capítulo XXVIII