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Helena
Machado de Assis
Capítulo XII
A festa correu animada, posto a reunião fosse restrita.
Alguns giros de valsa, duas ou três quadrilhas, jogo e
música, muita conversa e muito riso, tal foi o programa
da noite, que a encheu e fez mais curta.
Se as honras da casa foram feitas por Helena, a alma da
festa era Mendonça, cujo espírito havia já recebido
e
colhido o sufrágio universal. Eugênia dera-lhe, antes de
todos, o seu voto. Havia entre ambos tal ou qual
afinidade de índole, que naturalmente os aproximava.
Mendonça lisonjeava os caprichos de Eugênia, aplaudia-a,
compreendia-a, obedecia-lhe sem constrangimento nem
reparo. Quando Mendonça valsava com Eugênia, todos os
olhos se concentravam neles. Eram valsistas de primeira
ordem. As ondulações do corpo de Eugênia, e a serenidade
e segurança de seus passos adaptavam-se maravilhosamente
àquela espécie de dança. Era belo vê-los percorrer
o
vasto círculo deixado aos movimentos; vê-los enfim parar
com a mesma precisão e sem o menor sintoma de cansaço.
Eugênia punha toda a atenção no gesto de braço
com que,
logo que interrompia ou cessava de todo a valsa,
conchegava ao corpo a saia do vestido. O prazer com que
fazia esse gesto, e a graça com que o acompanhava de uma
leve inclinação do corpo mostravam que, mais ainda a
faceirice do que a necessidade, lhe movia o corpo e a
mão.
Esta sorte de triunfos enchia a alma de Eugênia; e,
porque ela não possuía nem a modéstia nem a arte de
a
simular, via-se-lhe no rosto o orgulho e a satisfação. A
dança não era para a filha de Camargo um gozo ou um
recreio somente; era também um adorno e uma arma. Daí
vinha que o valsista mais intrépido e constante era
também o principal parceiro do seu espírito; e ninguém
disputava esse papel ao filho do comerciante.
- Sua filha é a rainha da noite, murmurou o Dr. Matos ao
ouvido de Camargo, em um intervalo do voltarete.
- Não é verdade? acudiu o médico.
E a alma do pai voava enrolada nas pontas da fita que
apertava a cintura de Eugênia, não regressando ao
domicílio senão quando a moça parava. Então
volvia
Camargo um olhar em torno de si, como pedindo igual
admiração. Depois, ficava sombrio, e mais do que
usualmente, caía em longos e mortais silêncios. Três
ou
quatro vezes aproximara-se de Helena sem lograr detê-la,
nem achar em si mais que duas palavras triviais.
Insistia; não a perdia de vista, parecia ansioso de a
conversar sobre alguma coisa.
Helena repartia-se entre todas as pessoas, atenta aos mil
cuidados que a noite requeria. Cantou uma vez, dançou uma
quadrilha, e não valsou. Em vão Mendonça insistira
com
ela; a moça desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia
vertigens. Na opinião do filho do comerciante esta razão
encobria somente a ignorância de Helena. Estácio pensava
antes que era a castidade selvagem da irmã que lhe não
permitia o contato de um homem, idéia que lhe fez bem ao
coração.
Pela volta da meia-noite, terminada a ceia, começou
aquela hora de repouso que precede a total dispersão. As
senhoras trocavam impressões e comentários, os rapazes
fumavam, os jogadores decidiam as últimas remissas. A
noite não refrescara, e a agitação aumentara o calor.
Helena, tão cansada como D. Úrsula, retirara-se por
alguns instantes para a sala contígua à principal; ali
sentou-se num sofá, e derreou levemente o corpo, deixando
cair os cílios, não sei se pensativos, se pesados de
sono. O espírito não tivera tempo de encadear duas idéias
ou esboçar um sonho, quando uma voz a acordou:
- Já dormindo!
Era Camargo.
Helena abriu os olhos sobressaltada. A voz de Camargo
produzira-lhe a impressão de desagrado que lhe fazia
sempre. Sorriu a moça contrafeitamente, e, vendo que ele
se dispunha a sentar-se no sofá, não arredou o vestido,
como se quisesse deixar entre ambos larga distância.
Camargo sentou-se.
- Parece que se assustou? disse ele.
- Um pouco.
Camargo agitou entre as mãos os perendengues do relógio,
tão numerosos como eles se usavam naquele tempo; depois
pegou familiarmente no leque da moça, abriu-o, contou as
varetas, tornou a fechá-lo e restituiu-o com um elogio.
Helena respondeu-lhe com um sorriso. Ia levantar-se
quando ele a deteve com estas palavras:
- Estimei achá-la só, porque precisava pedir-lhe um
conselho.
A testa de Helena contraiu-se interrogativamente.
- Um conselho e um favor, continuou o médico. Não será,
creio eu, a primeira vez que a velhice consulte a
mocidade. Demais, trata-se de assunto em que a gente moça
lê de cadeira.
Helena olhou para ele desconfiada. Nunca vira o médico
tão afável, e essa mudança de maneiras e de tom é
que lhe
fazia medo. Verdade é que ele ia pedir-lhe alguma coisa.
Camargo não se deteve. Fez uma exposição rápida
de suas
relações com a família do conselheiro, da amizade que
o
ligava a ela.
- A perda do meu finado amigo, concluiu ele, não pôde ser
suprida por nenhuma coisa; mas, há alguma compensação
na
afeição que sobrevive e me faz considerar esta família
como minha própria. Estou certo de que seu irmão e D.
Úrsula sentem a meu respeito do mesmo modo. Quanto à
senhora, é recente na família, mas não tem menor direito
que ela. Via-a tão pequena!
- A mim? perguntou Helena.
Camargo fez um gesto afirmativo, enquanto a moça olhava
em volta da sala, receosa de que alguém tivesse entrado e
ouvido. Uma vez segura de que ninguém havia, recebeu
impressão contrária à primeira; envergonhou-se daquele
receio. A vergonha aumentou quando o médico acrescentou
em voz baixinha:
- Não falemos nisso...
- Pelo contrário! exclamou ela. Pode falar com franqueza;
diga tudo. Era minha mãe. Não sei o que foi para o mundo;
mas, se me perdoaram a irregularidade do nascimento, não
creio que me pedissem em troca a renúncia do meu amor de
filha; a lei que o pôs em meu coração é anterior
à lei
dos homens. Não repudio uma só das minhas recordações
de
outro tempo. Sei e sinto que a sociedade tem leis e
regras dignas de respeito; aceito-as tais quais; mas
deixem-me ao menos o direito de amar o que morreu. Minha
pobre mãe! Vi-a expirar em meus braços, recolhi o seu
último suspiro. Tinha apenas doze anos; contudo, não
consenti que outra pessoa velasse à cabeceira a última
noite que passou sobre a terra... Oh! não a esquecerei
nunca! nunca! nunca!
Helena proferiu estas palavras num estado de exaltação
que até ali se lhe não vira. Em vão Camargo procurou
duas
ou três vezes interrompê-la, receoso de que a ouvissem
fora, porque a moça tinha levantado a voz. Helena não
obedeceu; não viu sequer o gesto suplicante do médico. O
seio, castamente velado pelo corpinho, que subia até o
pescoço, estava ofegante e onduloso como a água do mar. A
última palavra saiu-lhe como um soluço. Camargo sentiu-se
surpreendido com aquela explosão de ternura. Era evidente
que ele esperava outra coisa. Seguiu-se um breve
silêncio, durante o qual Helena mordia a ponta do lenço,
como para conter a palavra que lhe tumultuava no coração.
O médico prosseguiu enfim:
- Ninguém lhe pede que a esqueça, disse ele, todos
respeitam esses sentimentos de piedade filial. O passado
morreu, e o menos que se deve aos mortos é o silêncio. A
senhora tem o direito de lhe dar o amor e a saudade. Mas
falemos dos vivos; e perdoe-me se lhe toquei, sem querer,
em tão dolorosa recordação.
- Não! não é dolorosa! disse ela, abanando a cabeça.
- Falemos dos vivos. Não está certa do amor de sua
família?
Helena fez um gesto afirmativo.
- Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D.
Úrsula é uma santa senhora; Estácio, um caráter
austero e
digno. Venhamos agora ao conselho. Há muito tempo ando
com idéia de ir à Europa; estou caminhando para a
velhice; não quero deixar de ir ver alguma coisa, além do
nosso Pão dAçúcar. Já desfiz o projeto
mais de uma vez.
Cuido que agora vou definitivamente realizá-lo. Dá-se,
porém, uma circunstância grave. Sabe que minha filha ama
seu irmão? Meus olhos descobriram desde muito tempo essa
inclinação de um e outro, porque também seu irmão
ama
minha filha. Merecem-se; e de algum modo continuam a
afeição dos pais; a natureza completa a natureza. Esta é
a situação. O que eu desejava, porém, é que
me dissesse
se devo partir já, levando-a; ou se é melhor esperar que
eles se casem.
Helena ouvira o médico sem olhar para ele; quando ele
acabou, fitou-o admirada e curiosa. A puerilidade da
pergunta era tão evidente que a moça procurou ler no
rosto do interlocutor o pensamento verdadeiro e oculto.
Camargo apressou-se a explicar-se.
- Estácio, disse ele, pode amar Eugênia com idéias
matrimoniais; mas também pode não passar isto de um
capítulo de romance, como o que se lê em uma viagem da
Corte a Niterói. O caráter é sério; o coração
tem leis
especiais. Confesso que o procedimento de Estácio nada me
afirma a tal respeito. Há nele umas mudanças pouco
explicáveis. O tempo decorrido é mais que muito
suficiente para que... Está refletindo?
- Estou.
- E...
- Suponho que pede mais do que me disse. Quer que eu
indague a tal respeito as intenções de Estácio?
- Isso.
- Mas por que não se dirige a ele mesmo?
- Não havia inconveniente; estabeleceu-se, porém que um
pai não deve ser o primeiro a falar em tais coisas. É
preciso respeitar a dignidade paterna. Acresce que
Estácio é rico, e tal circunstância podia fazer supor
de
minha parte um sentimento de cobiça, que está longe de
meu coração. Podia falar a D. Úrsula; creio, porém,
que
ela não tem a sua habilidade, e... por que o não direi? a
sua influência no espírito de Estácio.
- Eu!
- Oh! influência incontestável! A senhora veio completar
a alma de seu irmão. É visível a afeição
e o respeito que
ele lhe tem. Demais, em tais assuntos uma irmã é natural
confidente e conselheira.
Helena deu três pancadinhas no joelho com a ponta do
leque, e enfiou os olhos pela porta de comunicação entre
aquela e a sala principal. Depois voltou-se para o
médico.
- Sei que eles se amam, disse ela, e já dei a minha
opinião a tal respeito. Eugênia parece ser minha amiga;
meu irmão é meu irmão; desejo-lhes todas as felicidades.
Há, porém, um limite à intervenção de
uma irmã; e não
desejo ir além. Demais, seu pedido é ocioso.
- Por quê?
- Anuncie a viagem, e Estácio se apressará a pedir-lhe
sua filha. Se o não fizer, é porque a não ama, conforme
ela merece, e em tal caso mais vale perder um casamento
do que o fazer mau.
- Sim? perguntou Camargo.
- Naturalmente.
- O conselho é excelente, disse o médico depois de um
instante, mas tem o defeito substancial de suprimir a sua
intervenção, que me é necessária. Vejamos o
meio de
combinar as coisas. Suponhamos que, anunciada a viagem,
Estácio não corresponde às minhas esperanças.
Que devo
fazer?
- Embarcar.
- Embarcar é arriscar o casamento. Ora, este casamento...
é um de meus sonhos. Desejo que os filhos continuem a
afeição dos pais. Se Estácio recuar, minhas esperanças
esvaem-se como fumo; o tempo cavará um abismo entre os
dois; Eugênia amará outro... Enfim, conto com a senhora.
- Comigo?
- A senhora tem uma força de resolução, uma fertilidade
de expedientes, um espírito capaz de empresas delicadas;
e, tratando-se da felicidade de um irmão, creio que
empenhará todas as forças para levar a cabo a mais pura
das ambições. Não lhe peço um absurdo, peço-lhe
a
felicidade de minha filha.
Helena não respondeu; olhou de revés para ele, e cravou
depois os olhos na águia branca tecida no tapete, sobre o
qual pousava o pé impaciente e colérico. Podia referir
mais detidamente qual o seu papel junto de Estácio, a
respeito de Eugênia, os pedidos que lhe fez, e a promessa
do irmão, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum
dos seguintes dias. Mas, nem quis dar esperanças que os
acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe
consentia mais larga confidência. Ambos eles viam que se
detestavam cordialmente; mas, se em Helena havia cólera
abafada, em Camargo havia tranqüilidade e observação.
Ele
contemplava a moça, com o olhar fixo e metálico dos
gatos; a mão esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com
os dedos magros e peludos. Nada dizia; todo ele era uma
interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o
médico.
- Dá-me o seu braço até à sala? perguntou.
Camargo sorriu.
- Só isso? Eu dizia comigo outra coisa.
- Que dizia então? perguntou Helena.
- Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma
moça, que acha meio de visitar às seis horas da manhã
uma
casa velha e pobre, não tão pobre que a não adorne
garridamente uma flâmula azul...
Helena fez-se lívida; apertou nervosamente o pulso de
Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o
terror, a cólera e a vergonha. Através dos dentes
cerrados Helena gemeu esta palavra única:
- Cale-se!
- Falo entre nós e Deus, disse Camargo.
Uma onda de sangue invadiu a face da moça, com a mesma
rapidez com que ela lhe empalidecera. Helena quis erguer-
se, mas sentiu-se exausta. Ninguém da sala pôde perceber
a impressão e o movimento; ninguém olhava para ali.
Camargo, entretanto, inclinou-se para Helena e proferiu
algumas palavras de animação, que ela interrompeu,
murmurando com amargura:
- O senhor é cruel!
- Sou pai, respondeu o médico; pai extremoso e discreto,
mais discreto ainda que extremoso. Conto com a senhora.
Capítulo XIII
Dissolvida a reunião, Helena recolheu-se à pressa com o
pretexto de que estava a cair de sono, mas realmente para
dar à natureza o tributo de suas lágrimas. O desespero
comprimido tumultuava no coração, prestes a irromper.
Helena entrou no quarto, fechou a porta, soltou um grito
e lançou-se de golpe à cama, a chorar e a soluçar.
A beleza dolorida é dos mais patéticos espetáculos
que a
natureza e a fortuna podem oferecer à contemplação
do
homem. Helena torcia-se no leito como se todos os ventos
do infortúnio se houvessem desencadeado sobre ela. Em vão
tentava abafar os soluços, cravando os dentes no
travesseiro. Gemia, entrecortava o pranto com exclamações
soltas, enrolava no pescoço os cabelos deslaçados pela
violência da aflição, buscando na morte o mais pronto
dos
remédios. Colérica, rompeu com as mãos o corpinho do
vestido; e o jovem seio, livre de sua casta prisão, pôde
à larga desafogar-se dos suspiros que o enchiam. Chorou
muito; chorou todas as lágrimas poupadas durante aqueles
meses plácidos e felizes, leite da alma com que fez calar
a pouco e pouco os vagidos de sua dor.
Calar somente, não adormecê-la, porque ela aí lhe ficou,
companheira daquela noite cruel, para velarem ambas.
Quando os olhos cansaram, e foram mais intervalados os
soluços, Helena jazeu imóvel no leito, com o rosto sobre
o travesseiro, fugindo com a vista à realidade exterior.
Uma hora esteve assim, muda, prostrada, quase morta, uma
hora longa, longa, longa, como só as tem o relógio da
aflição e da esperança.
Quando a tormenta pareceu extinta, a moça sentou-se na
cama e olhou vagamente em torno de si. Depois ergueu-se;
dirigiu-se trôpega ao quarto de vestir; ali parou diante
do espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse encarar
consigo mesma. Uma das janelas estava aberta. Helena foi
ali aspirar um pouco do ar da noite. Esta era clara,
tranqüila e quente. As estrelas tinham uma cintilação
viva que as fazia parecer alegres. Helena enfiou um olhar
por entre elas como procurando o caminho da felicidade.
Esteve à janela cerca de meia hora; depois entrou,
sentou-se e escreveu uma carta.
A carta era longa, escrita a golfadas, sem nexo nem
ordem; continha muitas queixas e imprecações, ternura
expansiva de mistura com um desespero profundo; falava
daqueles que, tendo nascido sob a influência de má
estrela, só têm felicidades intermitentes e mutáveis;
dizia que para ela a própria felicidade era um germe de
morte e dissolução, - idéia que repetia três
vezes, como
se tal observação fosse o transunto de suas experiências
certas. A carta falava também de um homem, cujo egoísmo
de pai não conhecia limites, e que a todo o transe queria
que a filha desposasse uma grande riqueza e uma grande
posição, - "homem, dizia ela, que me viu a princípio
com
olhos avessos, pela diminuição que eu trazia à herança".
No fim dizia que havia naquelas linhas muito de obscuro e
incompleto, que oportunamente contaria tudo, mas que
desde já podia dar a triste notícia de que lhe era
forçoso abster-se de sair.
Helena releu o escrito e meditou longo tempo sobre ele;
acrescentou ainda algumas linhas; depois, rasgou o papel
em dois pedaços, chegou-os à vela, e os destruiu. Como
arrependida, voltou a escrever outra carta, mas não
chegou a acabar seis linhas; rasgou-a como fizera à
primeira, e só então recorreu ao remédio melhor de
uma
alma ulcerada e pia: rezou. A prece é a escada misteriosa
de Jacó: por ela sobem os pensamentos ao céu; por ela
descem as divinas consolações.
Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas
às mãos da madrugada. O sono fugira dos olhos de Helena;
mas era forçoso repousar. Assim mesmo vestida, atirou-se
sobre o leito. Não dormiu, não se pode dizer que
dormisse; ficou ali num estado que não era vigília nem
sono, até que a manhã rompeu inteiramente. Abrindo os
olhos, pareceu acordar de um sonho; a imaginação recompôs
as fases todas do acontecimento da véspera. Depois
suspirou, e ficou longo tempo a olhar para o chão, com a
fixidez trágica e solene da morte.
- Era justo! murmurava de quando em quando.
Levantou-se enfim; levantou-se abatida e cansada. Viu-se
ao espelho; a descor da face e a linha roxa que lhe
circulava as pálpebras dificilmente podiam deixar de
impressionar a família. Helena disfarçou como pôde esses
vestígios da tempestade; explicou-os do modo mais
verossímil: o cansaço da véspera e a insônia
de toda uma
noite. A explicação não achou obstáculo no ânimo
da tia e
do irmão. Somente o padre Melchior, presente a ela, fitou
na moça um olhar dubitativo, que a obrigou a baixar os
cílios.
Se Helena padecia, o lugar de Estácio não era ao pé
dela?
Assim pensou o sobrinho de D. Úrsula, que em todo esse
dia resolveu não sair de casa. Cercou-a de cuidados,
buscou distraí-la, pediu-lhe que fosse repousar um
instante. Para justificar a explicação que dera, Helena
obedeceu às instruções do irmão. Este foi encerrar-se
no
gabinete, onde se ocupou em examinar e colecionar alguns
papéis. Era o dia marcado para solicitar de Eugênia o
consentimento matrimonial, e ele não cogitava em ir ao
Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava ele, ora
relendo as páginas de sua predileção, ora mandando
saber
se dormia sossegada, ora contemplando o desenho com que
ela o presenteara na véspera. Sentia-se tão feliz naquela
aurora do ano!
Pouco antes do jantar, ouviu no corredor um rumor de
saias, e não tardou que a irmã aparecesse à porta.
Vinha
como fora; mas a Estácio pareceu que efetivamente o
descanso e o sono lhe haviam restaurado as forças. A
razão era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto.
Helena parou e Estácio foi ter com ela, travou-lhe da
mão, fê-la entrar.
- Estás melhor? perguntou.
- Estou boa.
- Não dizia eu que era melhor desistir da idéia da
reunião? Essas festas prolongam-se, e fatigam, sobretudo
as pessoas franzinas...
Helena ergueu os ombros.
- Anda sentar-te um pouco.
- Primeiro há de responder-me a uma coisa.
- Que é?
- Que dia é hoje? perguntou ela.
- Ano bom.
- Lembra-se do que me prometeu?
- Perfeitamente. Vês estes papéis? disse ele mostrando
sobre a secretária uma porção de papéis classificados
e
postos por ordem. Ocupei-me até agora em liquidar o
passado; faltam-se umas últimas contas, que o procurador
há de trazer amanhã. Depois, irei...
Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.
- Não, disse ela; não há de ir depois, há de
ir hoje
mesmo. Que têm as contas com a autorização que deve
pedir
a Eugênia? Vá logo de noite. Sou supersticiosa; creio que
o pedido feito no dia de hoje é de excelente agouro. Dará
um ano feliz.
- Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias,
respondeu Estácio, depois de um silêncio; mas não tenho
dúvida em fazê-lo. Uma vez preenchida a formalidade...
- Pedi-la-á imediatamente ao pai.
- Não!
- Por quê?
- Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas,
pelo menos. Vinte e quatro horas não é muito para quem
tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar meu próprio
espírito, e...
- Mas tudo isso é uma extravagância! interrompeu Helena
sentando-se na borda da rede em que Estácio costumava
ler. Pretenderá você recuar depois de lhe falar, a ela?
- Oh! não! Mas, uma vez que caminho para solução tão
grave, não há inconveniente em ir pé ante pé.
Admiras-te?
perguntou ele, vendo que a irmã fazia um gesto de
impaciência.
- Zango-me.
- Mas...
- Você é insuportável. Falta ao que prometeu.
- Já disse que hei de cumprir.
- Não recuará?
- Não.
- Irá pedi-la hoje mesmo?
- A ela.
- A ela e ao pai.
- Ao pai escreverei uma carta.
- Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O
casamento será...
- Quando convier ao Dr. Camargo.
- Antes do fim do mês.
- Tão cedo!
- Dou-lhe mês e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por
vê-los casados, tanto por você como por ela, coitada! que
o ama tanto...
- Crês? perguntou vivamente Estácio.
- Se creio! Posso afirmá-lo. Não será amor como você
quisera que fosse, mas é o amor que ela lhe pode dar, e é
muito... Está dito! Palavra?
Estácio estendeu silenciosamente a mão, que Helena
apertou.
- Vou confiar todo o meu destino à cabeça mais leve do
universo, disse Estácio, com os olhos fitos no chão. Não
é de seu coração que me queixo; mas de seu espírito,
que
nunca deixou as roupas da infância. Demais, à medida que
me aproximo da hora solene, sinto que me repugna o estado
conjugal. É tão boa a minha vida de solteiro! tão cheios
os meus dias...
Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outra
fez-lhe um gesto para que se calasse. Depois, fugiu. Uma
vez só, Estácio refletiu longamente na situação
em que se
achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a pedir
Eugênia, desde que seus corações se tinham aberto um
para
o outro, celebrando um contrato, que ele só não podia
romper. A consciência rebelou-se contra as irresoluções
do coração, e a decisão foi curta.
Naquela mesma noite, ouviu Eugênia a esperada palavra. A
alegria que se lhe derramou nos olhos, foi imensa e
característica. Um pouco mais de recato não era descabido
em tal ocasião. Não houve nenhum; o primeiro ato da
mulher foi uma meninice. Eugênia ignorava tudo, até a
dissimulação do sexo. Concedendo a mão a Estácio,
não era
uma castelã que entregava o prêmio, mas um cavaleiro que
o recebia com alvoroço e submissão.
Transposto o Rubicon, não havia mais que caminhar direito
à cidade eterna do matrimônio. Estácio escreveu no dia
seguinte uma carta ao Dr. Camargo, pedindo-lhe a mão de
Eugênia, carta seca e digna, como as circunstâncias a
pediam. Antes de a remeter, mostrou-a a Helena, que
recusou lê-la. Não a leu, nem lhe pegou. Ele teve-a
alguns instantes na mão, sem se atrever a dá-la ao
escravo que esperava por ela. Por fim, deitou-a sobre a
secretária.
- Amanhã, disse ele sorrindo para Helena.
Helena lançou mão da carta e deu-a ao escravo.
- Leva à casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moça. Não
tem
resposta.
Capítulo XIV
Camargo ia sentar-se à mesa quando lhe entregaram a carta
de Estácio; leu-a para si, mas a filha leu-a nos olhos
dele. Uma aura de bem-aventurança desrugou a fronte do
médico; seus lábios, - coisa pasmosa! - abriram-se num
sorriso franco, sorriso que chegou a desabrochar em
gargalhada, a primeira que D. Tomásia lhe ouviu. Acabado
o jantar, Camargo deu conta do pedido à mulher, e os dois
pais chamaram a filha à sala. Eugênia ouviu a notícia
sem
baixar os olhos nem corar. Interrogada, respondeu que era
muito do seu gosto o casamento.
- Sim? perguntou Camargo, simulando espanto.
Eugênia fez uma leve inclinação de cabeça, com
certo ar
de quem dizia não acreditar no espanto do pai. Este pegou
nas mãos da filha e puxou-a para si.
- Assim, pois, meu anjo, disse ele, casas-te por tua
livre vontade? Estácio é o eleito de teu coração?
Louvo a
escolha, que não podia ser mais digna. Serás herdeira das
virtudes de tua mãe, que te proponho como o melhor modelo
da terra.
- O mais consciencioso pelo menos, acudiu D. Tomásia,
satisfeita e vaidosa do louvor do marido. Há de ser boa
esposa, modesta, solícita e econômica.
- Econômica, sem avareza, emendou Camargo. A riqueza não
deve ser dissipada, mas é certo que impõe obrigações
imprescindíveis, e seria da maior inconveniência viver a
gente abaixo de seus meios. Não farás isso nem cairás
no
extremo oposto; procura um meio-termo, que é a posição
do
bom senso. Nem dissipada, nem miserável.
D. Tomásia concordou com esta explicação do marido,
enquanto Eugênia, olhando alternadamente para um e outro,
parecia não lhes dar a mínima atenção. O pensamento
estava em Andaraí; ela via já na imaginação
a cerimônia
do consórcio, as carruagens, o apuro do noivo, a sua
própria graça, a coroa de flores de laranjeira, que a
havia de adornar; enfim talhava já o vestido branco e
pregava as rendas de Malines com que havia de levar os
olhos a ambas as metades do gênero humano. Daquele sonho
foi despertada pelo pai, que lhe imprimiu na testa o seu
segundo beijo. O primeiro, como o leitor se há de
lembrar, foi dado na noite da morte do conselheiro. O
terceiro seria provavelmente no dia em que ela casasse.
- Sabes que te amo, Eugênia? disse Camargo olhando para
ela.
- Papai!
Camargo não pôde dizer mais nada. O amor, um instante
expansivo, volveu a aninhar-se no fundo do coração, onde
sempre estivera. A satisfação do médico precisava do
silêncio e do recolhimento para saborear-se. Foi então
que Eugênia passou às mãos de D. Tomásia. A mulher
do Dr.
Camargo via aquele casamento com olhos diferentes do
marido. O que ela sobretudo via, eram as vantagens morais
da filha. Sentou-a ao pé de si e recitou-lhe um catecismo
de deveres e costumes, que Eugênia interrompia de quando
em quando, com exclamações de obediência filial:
- Sim, mamãe!... Deixe estar!... Mamãe há de ver!...
D. Tomásia sentia-se feliz. O rosto, cuja expressão era
vulgar, tinha naquela ocasião alguma coisa que o tornava
sublime. Ela fez que a filha se lhe sentasse no regaço; e
esta sentindo que a molestava, deixou-se lentamente cair
de joelhos, ficando entre os dela, a olhar para ela.
Camargo, entretanto, já não era daquele mundo. Passeava
de um para outro lado, com as mãos para trás, a morder a
ponta do bigode. De quando em quando parava e olhava para
o grupo das duas senhoras, mas era só maquinalmente; o
seu olhar baço indicava que ele ia mergulhado em
profundas cogitações.
Naquele homem céptico, moderado e taciturno, havia uma
paixão verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha.
Camargo adorava Eugênia: era a sua religião. Concentrara
esforços e pensamentos em fazê-la feliz, e para o
alcançar não duvidaria empregar, se necessário fosse,
a
violência, a perfídia e a dissimulação. Nem antes
nem
depois sentira igual sentimento; não amou a mulher; casou
porque o matrimônio é uma condição de gravidade.
O maior
amigo que teve foi o conselheiro Vale; mas essa mesma
amizade que o ligara ao pai de Estácio, nunca recebera a
contraprova do sacrifício; aliás apareceria em toda a
sinceridade a natureza do médico. Ele só conhecia os
afetos, por assim dizer, caseiros e inertes, os que não
sabem nem podem afrontar as intempéries da vida. Nas
relações morais dos homens possuía somente o troco
miúdo
da polidez; a moeda de ouro dos grandes afetos nunca lhe
entrara nas arcas do coração. Um só existia ali: o
amor
de Eugênia.
Mas esse mesmo amor, aliás violento, escravo e cego, era
uma maneira que o pai tinha de amar-se a si próprio.
Entrava naquilo uma soma larga de fatuidade. Menos
graciosa, Eugênia seria, talvez, menos amada. Ele
contemplava-a com o mesmo orgulho com que o joalheiro
admira o adereço que lhe saiu das mãos. Era a ternura do
egoísta; amava-se na própria obra. Caprichosa, rebelde,
superficial, Eugênia não teve a fortuna de ver emendados
os defeitos; antes foi a educação que lhos deu. Dos
lábios de Camargo nunca saiu a expressão corretiva;
nenhum de seus atos revelou esse procedimento vigilante e
diretor, que é a nobre atribuição da paternidade. Se
a
índole da filha fosse má, a cumplicidade do pai fá-la-ia
péssima.
Não era, felizmente; o coração conhecia as doçuras
da
bondade; a rebeldia era um hábito, não um vício nativo.
A
própria frivolidade foi-lhe desenvolvida pela educação,
nada podendo o zelo da mãe contra as complacências do
pai. Esta era a explicação também da fascinação
que
exercia nela o tumulto exterior da vida. Quase se pode
dizer que ela não conhecera o vestido curto; a modista a
desmamou; uma contradança foi a sua primeira comunhão.
Não era fácil dar a Eugênia a felicidade que o pai
ambicionava e a que mais lhe apetecia a ela. Posto não
fosse perdulário, eram poucos os haveres do médico, de
modo que a filha não podia caber pecúlio suficiente a
satisfazer todas as veleidades. Ele espreitou durante
longo tempo um noivo, armando com algum dispêndio a
gaiola em que o pássaro devia cair. No dia em que
percebeu a inclinação de Estácio, fez quanto pôde
para
prendê-lo de vez. Esperou muitos meses a iniciativa de
Estácio; e quando ela lhe entrou a fugir para a região
das coisas problemáticas, suspeitou a influência de
Helena. Já era muito que esta moça diminuísse a herança
do futuro genro; arrancar-lhe o genro era demais. Camargo
não hesitou um instante, foi direito ao fim. O resultado
confirmou-lhe a suspeita.
O casamento era muito, mas não bastava. Camargo cuidara
na carreira política de Estácio, como um meio de dar
certo relevo público ao da filha, e, por um efeito
retroativo, a ele próprio, cuja vida fora tanto ou quanto
obscura. Se o marido de Eugênia se confinasse no repouso
doméstico, entre a horta e a álgebra, a ambição
de
Camargo padeceria imenso. Vimo-lo apresentar a Estácio a
maçã política; recusada a princípio, foi-lhe
de novo
apresentada, e finalmente aceita com a noiva. Esta dupla
vitória foi o momento máximo da vida do médico. Ele
ouvia
já o rumor público; sentia-se maior, - antegostava as
delícias da notoriedade, - via-se como que sogro do
Estado e pai das instituições.
- Vou entrar na cova dos leões, sem a convicção de
Daniel, suspirou Estácio na ocasião em que cedeu às
instâncias de Camargo.
- Seu talento amansará os leões, acudiu este.
Assentou-se logo ali que o casamento seria celebrado na
primeira semana de março. Os dois meses de intervalo
foram destinados às formalidades eclesiásticas e ao
preparo do enxoval. Estácio aceitou tudo sem objeção.
D. Úrsula e Helena aprovaram o plano. A primeira acrescentou
uma cláusula: - os noivos viriam morar com elas em
Andaraí.
O padre Melchior, consultado sobre o casamento, deu-lhe
inteira aprovação, e só lhe pareceu que o prazo era
longo
demais. A efusão com que abraçou Estácio, as palavras
de
aplauso que lhe disse, impressionaram vivamente o
mancebo.
- Desejava muito este casamento? perguntou ele.
- Muito! Seu pai há de aprová-lo no céu!
Até os mortos conspiravam contra ele; Estácio aceitou
resolutamente o destino. A alegria do padre,
ordinariamente contida e digna, transpôs os limites do
costume, para se mostrar quase infantil; D. Úrsula não
cabia em si de contente; Helena parecia colher naquele
casamento a sua própria felicidade. Era a bem-aventurança
universal que Estácio ia comprar a troco de um vínculo
eterno.
Surgiu, entretanto, um obstáculo temporário. A madrinha
de Eugênia, a fazendeira que lhe mandara um dia a opala,
que a moça admirou namorando ao mesmo tempo os olhos do
futuro noivo, a madrinha de Eugênia adoeceu gravemente,
menos ainda da moléstia que a acometeu que dos anos que
lhe pesavam nos ombros. Era senhora rica, viúva,
flanqueada por duas sobrinhas solteiras, uma cunhada, um
primo, dois filhos destes e uma vintena de afilhados. Já
daqui se pode inferir a estreiteza das esperanças de
Camargo. Posto que ele não tivesse nunca preterido os
deveres que lhe impunha o vínculo espiritual, dando à
fazendeira todas as provas possíveis de um grande afeto,
ainda assim era de recear que a última vontade da
moribunda não trouxesse o cunho da estrita justiça, ou,
quando menos, de razoável eqüidade. Nestas
circunstâncias, a viagem a Cantagalo era urgentíssima, e
cumpria realizá-la à custa dos maiores incômodos. Todo
o
incômodo é aprazível quando termina em legado. Camargo
não perdia a esperança desse desenlace igualmente
afetuoso e pecuniário. Resolveu ir com a família toda, e
avisou por carta ao futuro genro.
Estácio estimou o obstáculo, mas não contou com o que
ele
trazia no bojo. Chegando ao Rio Comprido achou aflitos o
médico e D. Tomásia; Eugênia recusava sair da Corte.
Em
vão lhe mostravam a conveniência de corresponder, em
ocasião tão grave, à afeição da madrinha;
debalde lhe
diziam que era ser ingrata não ir recolher o último
suspiro da venerável senhora, sua mãe espiritual. Eugênia
recusava a pés juntos.
Assistiu o noivo à última fase da luta entre os pais e a
filha. Esta trazia os olhos vermelhos de chorar; batia
com as mãos uma na outra, declarando que só iria à
força.
Estácio procurou chamá-la à razão, apoiando
as reflexões
do pai, sem alcançar mais do que ele. Enfim, Eugênia pôs
uma condição à sua aquiescência:
- Irei, se o Dr. Estácio for conosco.
Camargo aprovou a condição in petto; verbalmente, opôs-se
ao sacrifício. Estácio enfiara; posto entre a espada e a
parede, já a viagem de Eugênia lhe parecia supérflua.
- Acompanha-nos? insistiu a moça.
- Não é possível, acudiu o médico, tamanho incômodo
por
um simples capricho...
- Pois então não vou!
D. Tomásia ficou um tanto vexada com a teima de Eugênia.
Estácio mordia o lábio, olhando para a moça, cujo rosto
o
interrogava instantemente. Venceu-o o decoro;
considerando Eugênia sua mulher, quis cortar por uma cena
que lhe parecia ridícula.
- Acompanhá-los-ei, disse ele, sem entusiasmo.
A solução era favorável a todos; os três aceitaram
de boa
feição. Marcou-se a viagem para dois dias depois. D. Úrsula,
apesar dos bons olhos com que via o casamento,
achou desnecessária a ida do sobrinho, mas não empreendeu
dissuadi-lo. Helena aprovou tudo. Ele fez sentir às duas
parentas a extensão do sacrifício, e esteve a ponto de
retirar a palavra. Era tarde. A última noite passada em
Andaraí foi cruel para ele; as horas voaram ligeiras como
nunca. Como devia sair no dia seguinte, logo cedo, ali
mesmo se despediu da tia e da irmã, despedida de alguns
dias que lhe custou como se fora de anos. Prometeu,
entretanto, que o regresso seria breve.
O que ele não podia prometer era conjurar o drama que se
lhes preparava, drama que ia enfim desenvolver-se,
intenso, funesto e irremediável, - do qual não o
consolariam jamais nem as doçuras da paz doméstica, nem
as glórias da vida pública.
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