Faróis,
Cruz e Sousa
VISÃO
Noiva de Satanás,
Arte maldita,
Mago Fruto letal e proibido,
Sonâmbula do Além, do Indefinido
Das profundas paixões, Dor infinita.
Astro sombrio,
luz amarga e aflita,
Das Ilusões tantálico gemido,
Virgem da Noite, do luar dorido,
Com toda a tua Dor oh! sê bendita!
Seja bendito
esse clarão eterno
De sol, de sangue, de veneno e inferno,
De guerra e amor e ocasos de saudade...
Sejam benditas,
imortalizadas
As almas castamente amortalhadas
Na tua estranha e branca Majestade!
índice
PRESSAGO
Nas águas
daquele lago
Dormita a sombra de Iago...
Um véu
de luar funéreo
Cobre tudo de mistério...
Há um
lívido abandono
Do luar no estranho sono.
Transfiguração
enorme
Encobre o luar que dorme...
Dá meia-noite
na ermida,
Como o último ai de uma vida.
São
badaladas nevoentas,
Sonolentas, sonolentas...
Do céu
no estrelado luxo
Passa o fantasma de um bruxo.
No mar tenebroso
e tetro
Vaga de um naufrago o espectro.
Como fantásticos
signos,
Erram demônios malignos.
Na brancura
das ossadas
Gemem as almas penadas
Lobisomens,
feiticeiras
Gargalham no luar das eiras.
Os vultos dos
enforcados
Uivam nos ventos irados.
Os sinos das
torres frias
Soluçam hipocondrias.
Luxúrias
de virgens mortas
Das tumbas rasgam as portas.
Andam torvos
pesadelos
Arrepiando os cabelos.
Coalha nos
lodos abjetos
O sangue roxo dos fetos.
Há rios
maus, amarelos
De presságio de flagelos.
Das vesgas
concupiscências
Saem vis fosforescências.
Os remorsos
contorcidos
Mordem os ares pungidos.
A alma cobarde
de Judas
Recebe expressões comudas.
Negras aves
de rapina
Mostram a garra assassina.
Sob o céu
que nos oprime
Languescem formas de crime.
Com os mais
sinistros furores,
Saem gemidos das flores.
Caveiras! Que
horror medonho!
Parecem visões de um sonho!
A morte com
Sancho Panca,
Grotesca e trágica dança.
E como um símbolo
eterno,
Ritmos dos Ritmos do inferno.
No lago morto,
ondulando,
Dentre o luar noctivagando,
O corvo hediondo
crocita
Da sombra d'Iago maldita!
índice
RESSURREIÇÃO
Alma! Que tu
não chores e não gemas,
Teu amor voltou agora.
Ei-lo que chega das mansões extremas,
Lá onde a loucura mora!
Veio mesmo
mais belo e estranho, acaso,
Desses lívidos países,
Mágica flor a rebentar de um vaso
Com prodigiosas raízes.
Veio transfigurada
e mais formosa
Essa ingênua natureza,
Mais ágil, mais delgada, mais nervosa,
Das essências da Beleza.
Certo neblinamento
de saudade
Mórbida envolve-a de leve...
E essa diluente espiritualidade
Certos mistérios descreve.
O meu Amor
voltou de aéreas curvas,
Das paragens mais funestas...
Veio de percorrer torvas e turvas
E funambulescas festas.
As festas turvas
e funambulescas
Da exótica Fantasia,
Por plagas cabalísticas, dantescas,
De estranha selvageria.
Onde carrascos
de tremendo aspecto
Como astros monstros circulam
E as meigas almas de sonhar inquieto
Barbaramente estrangulam.
Ele andou pelas
plagas da loucura,
O meu Amor abençoado,
Banhado na poesia da Ternura,
No meu Afeto banhado.
Andou! Mas
afinal de tudo veio
Mais transfigurado e belo,
Repousar no meu seio o próprio seio
Que eu de lágrimas estréio.
De lágrimas
de encanto e ardentes beijos,
Para matar, triunfante,
A sede ideal de místico desejo
De quando ele andou errante.
E lágrimas,
que enfim, caem ainda
Com os mais acres dos sabores
E se transformam (maravilha infinda!)
Em maravilhas de flores!
Ah! que feliz
um coração que escuta
As origens de que é feito!
E que não é nenhuma pedra bruta
Mumificada no peito!
Ah! que feliz
um coração que sente
Ah! tudo vivendo intenso
No mais profundo borbulhar latente
Do seu fundo foco imenso!
Sim! eu agora
posso ter deveras
Ironias sacrossantas...
Posso os braços te abrir, Luz das esferas,
Que das trevas te levantas.
Posso mesmo
já rir de tudo, tudo
Que me devora e me oprime.
Voltou-me o antigo sentimento mudo
Do teu olhar que redime.
Já não
te sinto morta na minh'alma
Como em câmara mortuária,
Naquela estranha e tenebrosa calma
De solidão funerária.
Já não
te sinto mais embalsamada
No meu carinho profundo,
Nas mortalhas da Graça amortalhada,
Como ave voando do mundo.
Não!
não te sinto mortalmente envolta
Na névoa que tudo encerra...
Doce espectro do pó, da poeira solta
Deflorada pela terra.
Não
sinto mais o teu sorrir macabro
De desdenhosa caveira.
Agora o coração e os olhos abro
Para a Natureza inteira!
Negros pavores
sepulcrais e frios
Além morreram com o vento...
Ah! como estou desafogado em rios
De rejuvenescimento!
Deus existe
no esplendor d'algum Sonho,
Lá em alguma estrela esquiva.
Só ele escuta o soluçar medonho
E torna a Dor menos viva.
Ah! foi com
Deus que tu chegaste, é certo,
Com a sua graça espontânea
Que emigraste das plagas do Deserto
Nu, sem sombra e sol, da Insânia!
No entanto
como que volúpias vagas
Desses horrores amargos,
Talvez recordação daquelas plagas
Dão-te esquisitos letargos...
Porém
tu, afinal, ressuscitaste
E tudo em mim ressuscita.
E o meu Amor, que repurificaste,
Canta na paz infinita!
índice
ENLEVO
Da doçura
da Noite, da doçura
De um tenro coração que vem sorrindo,
Seus segredos recônditos abrindo
Pela primeira vez, a luz mais pura.
Da doçura
celeste, da ternura
De um Bem consolador que vai fugindo
Pelos extremos do horizonte infindo,
Deixando-nos somente a Desventura.
Da doçura
inocente, imaculada
De uma carícia virginal da Infância,
Nessa de rosas fresca madrugada.
Era assim tua
cândida fragrância,
Arcanjo ideal de auréola delicada,
Visão consoladora da Distância...
índice
PIEDOSA
A Nestor Vitor
Não
sei por que, magoada Flor sem glória,
A tua voz de trêmula meiguice
Desperta em mim a mocidade flórea
De sentimentos que não tem velhice.
Guslas de um
céu remotamente mudo
Gemem plangentes nessa voz que voa
E através dela, abençoando tudo,
Um luar de perdões desabotoa.
Vejo-te então
sublimemente triste
E excelsa e doce, num anseio lento,
Vagando como um ser que não existe,
Transfigurada pelo Sofrimento.
Mas, não
sei como, vejo-te por brumas,
Além da de ouro constelada Porta,
Na ondulação das lívidas espumas,
Morta, já morta, muito morta, morta...
E sinto logo
esse supremo e sábio
Travo da dor, se morta te antevejo,
Essa macabra contração de lábio
Que morde e tantaliza o meu desejo.
Fico sempre
a cismar, se tu morresses
Que angustia fina me laceraria,
Que músicas de céus saudosos, desses
Céus infinitos sobre mim fluiria...
Que anjos brancos
soberbos, deslumbrantes,
Resplandecentes nos broqueis das vestes,
Claros e altos voariam flamejantes
Para buscar-te, dos Azuis Celestes.
Sim! Sim! Pois
então tanta e atroz fadiga,
Tanta e tamanha dor convulsa e cega
Há de ficar sem doce luz amiga,
Da lágrima dos céus, que tudo rega?!
As batalhas
cruéis do sacrifício,
As transfigurações dos teus calvários,
Essas virtudes, rolarão com o vício
Pelos mesmos abismos tumultuários?!
Toda a obscura
pureza dos teus feitos,
A tua alma mais simples do que a água,
Essa bondade, todos os eleitos
Sentimentos que tens de flor da Mágoa;
Nada se salvará
jamais, mais nada
Se salvará, no instante derradeiro?!
Ó interrogação desesperada,
Errante, errante pelo mundo inteiro!
Nada se salvará
da essência viva
Que tudo purifica e refloresce;
De tanta fé, de tanta luz altiva
De tanta abnegação, de tanta prece?!
Nada se salvará,
piedosa e pobre
Flor desdenhada pelo Mal ufano,
Só o meu coração e verso nobre
Hão de abrigar-te do desprezo humano.
Na transcendência
do teu ser, tão alta,
Vejo dos céus como que os dons, a esmola,
O indefinido que de ti ressalta
Me prende, me arrebata e me consola.
E sinto que
a tua alma desprendida
Do terrestre, do negro labirinto
Melhor há de adorar-me na outra
Vida Melhor sentindo tudo quanto eu sinto.
Porque não
é por sentimento vago,
Nem por simples e vã literatura,
Nem por caprichos de um estilo mago
Que sinto tanto a tua essência pura.
Não
é por transitória veleidade
E para que o mundo reconheça,
Que sinto a tua cândida Piedade,
As auréolas de Luz dessa cabeça.
Não
é para que o mundo te proclame
Maravilha das mártires, das santas
Que eu digo sempre ao meu Amor que te ame
Mesmo através de tantas ânsias, tantas.
Nem é
também para que o mundo creia
Na humilde limpidez da tua alma justa,
Que o mundo, vil e vão, desdenha e odeia
Toda a humildade, toda a crença augusta.
Mas sinto porque
te amo e te acompanho
Pelas montanhas de onde sóis saudosos
Clarões e sombras de um mistério estranho
Espalham, como adeuses carinhosos.
Sinto que te
acompanho, que te sigo
Tranqüilo, calmo desses vãos rumores
E que tu vais embalada comigo,
Na mesma rede de carinho e dores.
Sinto os segredos
do teu corpo amado,
Toda a graça floral, a graça breve,
Todo o composto lânguido, alquebrado
Do teu perfil de áureo crescente leve.
Sinto-te as
linhas imortais do flanco,
E as ondas vaporosas dos teus passos
E todo o sonho castamente branco
Da volúpia celeste desses braços.
Sinto a muda
expressão da tua boca
Feita num doce e doloroso corte
De beijo dado na veemência louca
Dos céus do gozo entre o estertor da morte.
Sinto-te as
nobres mãos afagadoras,
Riquezas raras de um valor secreto
E mãos cujas carícias redentoras
São as carícias do supremo Afeto.
Sinto os teus
olhos fluidos, de onde emerge
Uma graça, uma paz, tamanho encanto,
Tão brando e triste, que a minha alma asperge
Em suavíssimos bálsamos de pranto.
Uns olhos tão
etéreos, tão profundos,
De tanta e tão sutil delicadeza
Que parecem viver lá n'outros mundos,
Longe da contingente Natureza.
Olhos que sempre
no tremendo choque
Dos sofrimentos íntimos, latentes,
Tem esse toque amigo, o velho toque
Original das lágrimas ardentes.
Ah! sÓ
eu vejo e sinto esse desvelo
Que transfigura e faz o teu martírio,
O sentimento amargurado e belo
Que e já, talvez, quase mortal delírio...
Sinto que a
mesma chama nos abraça,
Que um perfume eternal, casto, esquisito,
Circula e vive com divina graça
Dentro do nosso trêmulo Infinito.
E tudo quanto
me sensibiliza,
Fere, magoa, dilacera, punge,
Tudo no teu olhar se cristaliza,
No teu olhar, no teu olhar que unge.
Sinto por ti
o mais febril e intenso
Carinho quase louco, doentio...
Carinho singular, curioso, imenso,
Que deixa na alma um resplendor sombrio.
E e de tal
forma esse carinho raro,
De tal encanto e tão sagrada essência,
De tal Piedade e tal Perdão preclaro,
Que canta na estrelada Refulgência.
Ah! nunca saberás
quanto exotismo
De sentimento me alanceia e pulsa,
Vibra violinos de sonambulismo
Nest'alma ora serena, ora convulsa!
Tens luz de
lua e tens gorjeios de ave
No mundo virginal dos meus sentidos,
E és sonho, sombra de Angelus suave
Nos nossos mútuos e comuns gemidos.
E sonho, sombra
de Angelus, tão brandos,
Imortalmente tão indefiníveis
Que todos os terrores execrandos
Cobrem-se para nós de íris sensíveis.
É assim
que eu te sinto, erma, sozinha,
Frágil, piedosa, nos singelos brilhos
Erguendo aos braços, nobremente minha,
Os dolentes troféus dos nossos filhos.
Erguendo-os
como cálices amargos
De um vinho ideal de já mortas quimeras,
Para além destes céus mudos e largos
Na ampla misericórdia das Esferas!
índice
AUSÊNCIA
MISTERIOSA
Uma hora só
que o teu perfil se afasta,
Um instante sequer, um só minuto
Desta casa que amo -- vago luto
Envolve logo esta morada casta.
Tua presença
delicada basta
Para tudo tornar claro e impoluto...
Na tua ausência, da Saudade escuto
O pranto que me prende e que me arrasta...
Secretas e
sutis melancolias
Recuadas na Noite dos meus dias
Vêm para mim, lentas, se aproximando.
E em toda casa,
nos objetos, erra
Um sentimento que não é da Terra
E que eu mudo e sozinho vou sonhando...
índice
MEU FILHO
Ah! quanto
sentimento! ah! quanto sentimento!
Sob a guarda piedosa e muda das Esferas
Dorme, calmo, embalado pela voz do vento,
Frágil e pequenino e tenro como as heras.
Ao mesmo tempo
suave e ao mesmo tempo estranho
O aspecto do meu fiIho assim meigo dormindo...
Vem dele tal frescura e tal sonho tamanho
Que eu nem mesmo já sei tudo que vou sentindo.
Minh'alma fica
presa e se debate ansiosa,
Em vão soluça e clama, eternamente presa
No segredo fatal dessa flor caprichosa,
Do meu filho, a dormir, na paz da Natureza.
Minh'alma se
debate e vai gemendo aflita
No fundo turbilhão de grandes ânsias mudas:
Que esse tão pobre ser, de ternura infinita,
Mais tarde irá tragar os venenos de Judas!
Dar-lhe eu
beijos, apenas, dar-lhe, apenas, beijos,
Carinhos dar-lhe sempre, efêmeros, aéreos,
O que vale tudo isso para outros desejos,
O que vale tudo isso para outros mistérios?!
De sua doce
mãe que em prantos o abençoa
Com o mais profundo amor, arcangelicamente,
De sua doce mãe, tão límpida, tão boa,
O que vale esse amor, todo esse amor veemente?!
O longo sacrifício
extremo que ela faça,
As vigílias sem nome, as orações sem termo,
Quando as garras cruéis e horríveis da Desgraça
De sadio que ele é, fazem-no fraco e enfermo?!
Tudo isso,
ah! Tudo isso, ah! quanto vale tudo isso
Se outras preocupações mais fundas me laceram,
Se a graça de seu riso e a graça do seu viço
São as flores mortais que meu tormento geram?!
Por que tantas
prisões, por que tantas cadeias
Quando a alma quer voar nos paramos liberta?
Ah! Céus! Quem me revela essas Origens cheias
De tanto desespero e tanta luz incerta!
Quem me revela,
pois, todo o tesouro imenso
Desse imenso Aspirar tio entranhado, extremo!
Quem descobre, afinal, as causas do que eu penso,
As causas do que eu sofro, as causas do que eu gemo!
Pois então
hei de ter um afeto profundo,
Um grande sentimento, um sentimento insano
E hei de vê-lo rolar, nos turbilhões do mundo,
Para a vala comum do eterno Desengano?!
Pois esse filho
meu que ali no berço dorme,
Ele mesmo tão casto e tão sereno e doce
Vem para ser na Vida o vão fantasma enorme
Das dilacerações que eu na minh'alma trouxe?!
Ah! Vida! Vida!
Vida! Incendiada tragédia,
Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,
Macabras contorções de lúgubre comédia
Que um cérebro de louco houvesse imaginado!
Meu filho que
eu adoro e cubro de carinhos,
Que do mundo vilão ternamente defendo,
Há de mais tarde errar por tremedais e espinhos
Sem que o possa acudir no suplicio tremendo.
Que eu vagarei
por fim nos mundos invisíveis,
Nas diluentes visões dos largos Infinitos,
Sem nunca mais ouvir os clamores horríveis,
A mágoa dos seus ais e os ecos dos seus gritos.
Vendo-o no
berço assim, sinto muda agonia,
Um misto de ansiedade, um misto de tortura.
Subo e pairo dos céus na estrelada harmonia
E desço e entro do Inferno a furna hórrida, escura.
E sinto sede
intensa e intensa febre, tanto,
Tanto Azul, tanto abismo atroz que me deslumbra.
Velha saudade ideal, monja de amargo Encanto,
Desce por sobre mim sua estranha penumbra.
Tu não
sabes, jamais, tu nada sabes, filho,
Do tormentoso Horror, tu nada sabes, nada...
O teu caminho e claro, é matinal de brilho,
Não conheces a sombra e os golpes da emboscada.
Nesse ambiente de amor onde dormes teu sono
Não sentes nem sequer o mais ligeiro espectro...
Mas, ah! eu vejo bem, sinistra, sobre o trono,
A Dor, a eterna Dor, agitando o seu cetro!
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