FALENAS
Machado de Assis
LVII
Correm-se banhos,
tiram-se dispensas,
Vai-se buscar um padre ao povoado;
Prepara-se o enxoval e outras pertenças
Necessárias agora ao novo estado.
Notam-se até algumas diferenças
No modo de viver do velho honrado,
Que sacrificia à noiva e aos deuses lares
Um estudo dos clássicos jantares.
LVIII
"Onde*
vais tu? - À serra! Vou contigo".
--" Não, não venhas, meu anjo, é longa
a estrada.
Se cansares?" - "Sou leve, meu amigo;
Descerei nos teus ombros carregada."
--" Vou compor encostado ao cedro antigo
Canto de núpcias". - "Seguirei calada;
Junto de ti, ter-me-ás mais em lembrança;
Musa serei sem perturbar."-"Criança!"
LIX
Brandamente
repele Heitor a Elvira;
A moça fica; o poeta lentamente
Sobe a montanha. A noiva repetira
O primeiro pedido inutilmente.
Olha-o de longe, e tímida suspira.
Vinha a tarde caindo frouxamente,
Não triste, mas risonha e fresca e bela,
Como a vida da pálida donzela.
LX
Chegando, enfim,
à c'roa da colina,
Viram olhos de Heitor o mar ao largo,
E o sol, que despe a veste purpurina,
Para dormir no eterno leito amargo.
Surge das águas pálida e divina,
Essa que tem por deleitoso encargo
Velar amantes, proteger amores,
Lua, musa dos cândidos palores.
LXI
Respira Heitor;
é livre. O casamento?
Foi sonho que passou, fugaz idéia
Que não pôde durar mais que um momento.
Outra ambição a alma lhe incendeia.
Dissipada a ilusão, o pensamento
Novo quadro a seus olhos patenteia,
Não lhe basta aos desejos de sua alma
A enseada da vida estreita e calma.
LXII
Aspira ao largo;
pulsam-lhe no peito
Uns ímpetos de vida; outro horizonte,
Túmidas vagas, temporal desfeito,
Quer com eles lutar fronte por fronte.
Deixa o tranqüilo amor, casto e perfeito,
Pelos bródios de Vênus de Amatonte;
A existência entre flores esquecida
Pelos rumores de mais ampla vida.
LXIII
Nas mãos
da noite desmaiara a tarde;
Descem ao vale as sombras vergonhosas;
Noite que o céu, por mofa ou por alarde,
Torna propícia às almas venturosas.
O derradeiro olhar frio e covarde
E umas não sei quê estrofes lamentosas
Solta o poeta, enquanto a triste Elvira,
Viúva antes de noiva, em vão suspira!
LXIV
Transpõe
o mar Heitor, transpõe montanhas;
Tu, curiosidade, ingrato levas
A ir ver o sol das regiões estranhas.
A ir ver o amor das peregrinas Evas.
Vai, em troco de palmas e façanhas,
Viver na morte, bracejar nas trevas;
Fazer* do amor, que é livro aos homens dado,
Copioso almanaque namorado.
LXV
Inscreve nele
a moça de Sevilha,
Longas festas e noites espanholas,
A indiscreta e diabólica mantilha
Que a fronte cinge a amantes e a carolas.
Quantos encontra corações perfilha,
Faz da bolsa e do amor largas esmolas;
Esquece o antigo amor e a antiga musa
Entre os beijos da lépida Andaluza.
LXVI
Canta no seio
túrgido e macio
Da fogosa, indolente Italiana,
E dorme junto ao laranjal sombrio
Ao som de uma canção napolitana.
Dão-lhe para os serões do ardente estio,
Asti, os vinhos; mulheres, a Toscana.
Roma adora, embriaga-se em Veneza,
E ama a arte nos braços da beleza.
LXVII
Vê Londres,
vê Paris, terra das ceias,
Feira do amor a toda a bolsa aberta:
No mesmo laço, as belas como as feias,
Por capricho ou razão, iguais aperta;
A idade não pergunta às taças cheias,
Só pede o vinho que o prazer desperta;
Adora as outoniças, como as novas,
Torna-se herói de rua e herói de alcovas.
LXVIII
Versos quando
os compõe, celebram antes
O alegre vício que a virtude austera;
Canta os beijos e as noites delirantes,
O estéril gozo que a volúpia gera;
Troca a ilusão que o seduzia dantes
Por maior e tristíssima quimera;
Ave do céu, entre ósculos* criada,
Espalha as plumas brancas pela estrada.
LXIX
Um dia, enfim,
cansado e aborrecido,
Acorda Heitor; e olhando em roda e ao largo,
Vê um deserto, e do prazer perdido
Resta-lhe unicamente o gosto amargo;
Não achou o ideal apetecido
No longo e profundíssimo letargo;
A vida exausta em festas** e esplendores,
Se alguma tinha, eram já murchas flores.
LXX
Ora, uma noite,
costeando o Reno,
Ao luar melancólico, -- buscava
Aquele gozo simples, doce, ameno,
Que à vida toda outrora lhe bastava;
Voz remota, cortando o ar sereno,
Em derredor os ecos acordava;
Voz aldeã que o largo espaço enchia,
E uma canção de Schiller repetia.
LXXI
"A glória!
diz Heitor, a glória é vida!
Porque busquei nos gozos de outra sorte
Esta felicidade apetecida,
Esta ressurreição que anula a morte?
Ó ilusão fantástica e perdida!
Ó malgasto, ardentíssimo transporte!
Musa, restaura as apagadas tintas!
Revivei, revivei, chamas extintas!"
LXXII
A glória?
tarde vens, pobre exilado!
A glória pede as ilusões viçosas,
Estro em flor, coração eletrizado,
Mãos que possam colher etéreas rosas;
Mas tu, filho do ócio e do pecado,
Tu que perdeste as forças portentosas
Na agitação que os ânimos abate,
Queres colher a palma do combate?
LXXIII
Chamas em vão
as musas; deslembradas,
À tua voz os seus ouvidos cerram;
E nas páginas virgens, preparadas,
Pobre poeta, em vão teus olhos erram;
Nega-se a inspiração; nas despregadas
Cordas da velha lira, os sons que encerram
Inertes dormem; teus cansados dedos
Correm debalde; esquecem-lhe os segredos.
LXXIV
Ah! se a taça
do amor e dos prazeres
Já não guarda licor que te embriague;
Se nem musas nem lânguidas mulheres
Têm coração que o teu desejo apague;
Busca a ciência, estuda a lei dos seres,
Que a mão divina a tua dor esmague;
Entra em ti, vê o que és, observa em roda,
Escuta e palpa a natureza toda.
LXXV
Livros compra,
um filósofo procura;
Revolve a criação, prescruta a vida;
Vê se espancas a longa noite escura
Em que a estéril razão andou metida;
Talvez aches a palma da ventura
No campo das ciências escondida.
Que a tua mente as ilusões esqueça:
Se o coração morreu, vive a cabeça!
LXXVI
Ora, por não
brigar co'os meus leitores,
Dos quais, conforme a curta ou longa vista,
Uns pertencem aos grupos novadores,
Da fria comunhão materialista;
Outros, seguindo exemplos dos melhores,
Defendem a teoria idealista;
Outros, enfim, fugindo armas extremas,
Vão curando por ambos os sistemas.
LXXVII
Direi que o
nosso Heitor, após o estudo
Da natureza e suas harmonias,
(Opondo a consciência um forte escudo
Contra divagações e fantasias);
Depois de ter aprofundado tudo,
Planta, homem, estrelas, noites, dias;
Achou esta lição inesperada:
Veio a saber que não sabia nada.
LXXVIII
"Nada!
exclama um filósofo amarelo
Pelas longas vigílias, afastando
Um livro que há de ver um dia ao prelo
E em cujas folhas ia trabalhando.
Pois eu, doutor de borla e de capelo,
Eu que passo os meus dias estudando,
Hei de ler o que escreve pena ousada,
Que a ciência da vida acaba em nada?"
LXXIX
Aqui convinha
intercalar com jeito,
Sem pretensão, nem pompa nem barulho,
Uma arrancada apóstrofe do peito
Contra as vãs pretensões do nosso orgulho;
Conviria mostrar em todo o efeito
Essa que és do espírito entulho,
Ciência vã, de magnas leis tão rica,
Que ignora tudo, e tudo ao mundo explica.
LXXX
Mas, urgindo
acabar este romance,
Deixo em paz o filósofo, e procuro
Dizer do vate o doloroso trance
Quando se achou mais peco e mais escuro.
Valera bem naquele triste lance
Um sorriso do céu plácido e puro,
Raio do sol eterno da verdade,
Que a vida aquece e alenta a humanidade.
LXXXI
Quê! nem
ao menos na ciência havia
Fonte que a eterna sede lhe matasse?
Nem no amor, nem no seio da poesia
Podia nunca repousar a face?
Atrás desse fantasma correria
Sem que jamais as formas lhe palpasse?
Seria acaso a sua ingrata sorte
A ventura encontrar nas mõas da morte?
LXXXII
A morte! Heitor
pensara alguns momentos
Nessa sombria porta aberta à vida;
Pálido arcanjo dos finais alentos
De alma que o céu deixou desiludida;
Mão que, fechando os olhos sonolentos,
Põe o termo fatal à humana lida;
Templo de glória ou região do medo
Morte, quem te arrancara o teu segredo?
LXXXIII
Vazio, inútil,
ermo de esperanças
Heitor buscava a noiva ignota e fria,
Que o envolvesse então nas longas tranças
E o conduzisse à câmara sombria,
Quando, em meio de pálidas lembranças,
Surgiu-lhe a idéia de um remoto dia,
Em que cingindo a cândida capela
Estava a pertencer-lhe uma donzela.
LXXXIV
Elvira! o casto
amor! a esposa amante!
Rosa de uma estação, deixada ao vento!
Riso dos céus! estrela rutilante
Esquecida no azul do firmamento!
Ideal, meteoro de um instante!
Glória da vida, luz do pensamento!
A gentil, a formosa realidade!
Única dita e única verdade!
LXXXV
Ah! porque não
ficou calmo e tranqüilo
Da ingênua moça nos divinos braços?
Porque fugira ao casto e alegre asilo?
Porque rompera os malformados laços?
Quem pudera jamais restituí-lo
Aos estreitos, fortíssimos abraços
Com que Elvira apertava enternecida
Esse que lhe era o amor, a alma e a vida?
LXXXVI
Será
tempo? Quem sabe? Heitor hesita;
Tardio pejo lhe enrubesce a face;
Punge o remorso; o coração palpita
Como se vida nova o reanimasse;
Tênue fogo, entre a cinza, arde e se agita...
Ah! se o passado ali ressuscitasse
Reviveriam ilusões viçosas,
E a gasta vida rebentara em rosas!
LXXXVII
Resolve Heitor
voltar ao vale amigo,
Onde ficara a noiva abandonada.
Transpõe o lar, afronta-lhe o perigo,
E chega enfim à terra desejada.
Sobe o monte, contempla o cedro antigo,
Sente abrir-se-lhe n'alma a flor murchada
Das ilusões que um dia concebera;
Rosa extinta da sua primavera!
LXXXVIII
Era a hora em
que os serros do oriente
Formar parecem luminosas urnas;
E abre o sol a pupila resplendente
Que às folhas sorve as lágrimas noturnas;
Frouxa brisa amorosa e diligente
Vai acordando as sombras taciturnas;
Surge nos braços dessa aurora estiva
A alegre natureza rediviva.
LXXXIX
Campa era o
mar; o vale estreito berço;
De um lado a morte, do outro lado a vida,
Canto do céu, resumo do universo,
Ninho para aquecer a ave abatida.
Inda nas sombras todo o vale imerso,
Não acordara à costumada lida;
Repousava no plácido abandono
Da paz tranqüila e do tranqüilo sono.
XC
Alto já
ia o sol, quando descera
Heitor a oposta face da montanha;
Nada do que deixou desparecera;*
O mesmo rio as mesmas ervas banha.
A casa, como então, garrida e austera,
Do sol nascente a viva luz apanha;
Iguais flores, nas plantas renascidas...
Tudo ali fala de perpétuas vidas!
XCI
Desce o poeta
cauteloso e lento.
Olha de longe; um vulto ao sol erguia
A veneranda fronte, monumento
De grave e celestial melancolia.
Como sulco de um fundo pensamento
Larga ruga na testa abrir se via,
Era a ruína talvez de um esperança...
Nos braços tinha uma gentil criança.
XCII
Ria a criança;
o velho contemplava
Aquela flor que às auras matutinas
O perfumoso cálix desbrochava
E entrava a abrir as pétalas divinas.
Triste sorriso o rosto lhe animava,
Como um raio de lua entre ruínas.
Alegria infantil, tristeza austera,
O inverno torvo, a alegre primavera!
XCIII
Desce o poeta , desce, e preso, e fito
Nos belos olhos do gentil infante,
Treme, comprime o peito... e após um grito
Corre alegre, exaltado e delirante,
Ah! se jamais as vozes do infinito
Podem sair de um coração amante,
Teve-as aquele... Lágrimas sentidas
Lhe inundaram as faces ressequidas!
XCIV
"Meu filho!"
exclama, e súbito parando
Ante o grupo ajoelha o libertino;
Geme, soluça, em lágrimas beijando
As mãos do velho e as tranças do menino.
Ergue-se Antero, e frio e venerando,
Olhos no céu, exclama: "Que destino!
Murchar-lhe, viva, a rosa da ventura;
Morta, insultar-lhe a paz da sepultura!"
XCV
"Morta!"
- Sim! - "Ah! senhor! se arrependido
Posso alcançar perdão, se com meus prantos,
Posso apiedar-lhe o coração ferido
Por tanta mágoa e longos desencantos;
Se este infante, entre lágrimas nascido,
Pode influir-me os seus afetos santos...
É meu filho, não é? perdão lhe imploro!
Veja, senhor! eu sofro, eu creio, eu choro".
XCVI
Olha-o com frio
orgulho o velho honrado;
Depois, fugindo aquela cena estranha,
Entra em casa. O poeta, acabrunhado,
Sobe outra vez a encosta da montanha;
Ao cimo chega, e desce o oposto lado
Que a vaga azul entre soluços banha.
Como fria ironia a tantas mágoas,
Batia o sol de chapa sobre as águas.
XCVII
Pouco tempo
depois ouviu-se um grito,
Som de um corpo nas águas resvalado;
À flor das vagas veio um corpo aflito...
Depois... o sol tranqüilo e o mar calado.
Depois...Aqui termina o manuscrito,
Que me legou antigo deputado,
Homem de alma de ferro, e olhar sinistro,
Que morreu velho e nunca foi ministro.
NOTAS
* Manteve-se
a grafia do nome próprio usada pelo autor
* É possível um pontol de interrogação,
porém não consta do original
* Na errata consta Fuscas
* Na errata consta par.
* Manteve-se fidelidade ao texto original, por isso não se
usou o sinal gráfico espanhol.
* O autor não
fez menção na errata, mas provavelmente a forma correta
é Pudesse.
* Conforme o original, que se repete na forma correta como( verso
16) e não coma. Não consta na errata.
* Consta a forma as no original. Não há correção
na errata.
* Imprimiu-se e no original. Não consta na errata.
* No original consta em teus níveos braços...
* No original, o autor preferiu a forma Felices.
** Consta Orcade, no texto. Corrigido na errrata
*** A forma preferível seria Tantálica.
* No original consta o seguinte verso, corrigido na errata: Só
a poeira conserva teus divinos...
* Nesses e em outros poemas, manteve-se o porque escrito junto em
respeito à vontade autoral.
* Não consta o sinal de interrogação no original.
* No original consta Phrugia.Corrigido na errata.
* Manteve o nome próprio na forma original para evitar ambigüidade
com o substantivo comum ema.
* No original está dar-lhe. Na errata consta a correção
( provável) para dar.
* Manteve-se a forma sincopada em razão da métrica.
* No texto original consta passament.
* Provavelmente a forma correta é fronte. Não consta
correção na errata.
* No original está alampada, sem correção na
errata. Há possibilidade de significar vislumbrada.
"* Manteve-se a vírgula por entendermos que o autor
pretendeu pausa na pronúncia.
* No original consta tu vás. Na errata suprime-se o pronome.
* No original registra-se a forma tu fica, sem correção
na errata.
** No original consta Da mar, sem correção na errata.
*** Este termo não tem significado corrente no uso do português
moderno. Significa natural da Hemonia, região da Grécia.
* Este verso foi incluído por nós no texto original,
pois consta da errata.
* Inclui-se o me, conforme errata.
* No original consta ironia. Corrigido na errata.
* A vírgula foi mantida conforme original.
* O advérbio está inserido na errata.
* Mantido conforme original. A forma provável seria envelhecida
ou ( menos provável) envilecida. Não há qualquer
nota em errata.
** No original consta lua. Corrigido pela errata do autor.
* No original está cohreceste. Não há correção
na errata.
* Manteve-se a forma onde por respeito à vontade autoral.
* No original consta Faser. Sem correção na errata.
* No original consta os ósculos; suprimido na errata.
** No original consta feitos. Corrigido na errata.
*'É possível que o autor tenha preferido a síncope
em desaparecera para manter as sílabas do verso.
1 Conta um biógrafo do arquiduque Maximiliano que este infeliz
príncipe, quando estava em Miramar, costumava retratar fotograficamente
a arquiduquesa, escrevendo por baixo do retrato: La marchesa de
Miramar.
2 Os poetas
clássicos franceses usavam muito esta forma a que chamavam
triolet. Depois do longo desuso, alguns poetas deste século
ressuscitaram o triolet, não desmerecendo dos antigos modelos.
Não me consta que se haja tentado empregá-la em português,
nem talvez seja coisa que mereça trasladação.
A forma entretanto é graciosa e não encontra dificuldade
na nossa língua, creio eu.
3 A estes versos
respondeu o meu talentoso amigo Ernesto Cybrão com a seguinte
poesia; vale a pena escrever de meninas e moças, quando elas
produzem estas flores e frutos:
FLOR E FRUTO
A antítese
é mair (sic) do que pensaste, amigo.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . .
Está naquela idade em que se busca o abrigo
Do berço contra o sol, do mundo contra o lar;
Antemanhã da vida, hora crepuscular,
Que traz dormente a moça e desperta a menina:
Esta brinca no céu, encarnação divina,
Aquela sonha e crê...quantos sonhos de amor!
São uma e outra a mesma: o fruto sai da flor.
Era a flor perfumosa
e bela e delicada,
A sedução da brisa, o amor da madrugada;
Mas nasce o fruto amargo, e traz veneno em si.
Aqui morre a menina e nasce a moça; aqui
Cede a criança-luz o passo à mulher-fogo;
E vai-se o querubim, surge o demônio; e logo
Da terra faz escrava e quer pisá-la aos pés.
Insurjo-me: serei vassalo mau talvez,
Serei; e ao triste exílio o coração condeno.
Peço a menina-flor, dão-me a mulher-veneno;
Prefiro o meu deserto, a minha solidão:
Ela tem o futuro, e eu tenho o coração.
Bem sabes tu
que adoro as louras criancinhas,
E levo a adoração no êxtase. Adivinhas
Que encontro na criança um perfume dos céus
E nela admiro a um tempo a natureza e Deus.
Pois, quando cinjo ao colo uma menina, e penso
Que inda há de ser mulher, sinto desgosto imenso;
Porque pode ser boa, e vítima será,
E, para ser ditosa, há de talvez ser má...
De mim dirás
com pena: "Oh! coração vazio!
Cinza que foste luz! lama que foste rio!"
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . .
Olha, amigo, a mulher é um ídolo. Tens fé?
Ajoelha e sê feliz; eu contemplo-a de pé.
Cede a MENINA
E MOÇA à lei comum: divina
E bela e encantadora enquanto a vês menina;
Moça, transmuda a face e toma um ar cruel:
Desaparece o arcanjo e mostra-se Lusbel.
Amo-a quando é criança, adoro-a quando brinca;
Mas, quando pensativa o rubro lábio trinca,
E os olhos enlanguesce, e perde a rósea cor,
Temo que o fruto-fel surja daquela flor.
4 Não
sei alemão; traduzi estes versos pela tradução
em prosa francesa de um dos mais conceituados intérpretes
da língua de Schiller.
5 Perdoem-me estes versos em francês; e para que de todo em
todo não fique a página perdida aqui lhes dou a tradução
que fez dos meus versos o talentoso maranhense Joaquim Serra:
É um
velho país, de luz e sombras,
Onde o dia traz o pranto, e a noite a cisma;
Um país de orações e de blasfêmia,
Nele a crença na dúvida se abisma.
Aí mal
nasce(*) a flor o verme corta,
O mar é um escarcéu, e o sol sombrio;
Se a ventura num sonho transparece
A sufoca em seus braços o fastio.
Quando o amor,
qual esfinge indecifrável,
Aí vai a bramir, perdido o siso...
Às vezes ri alegre, e outras vezes
É um triste soluço esse sorriso...
Vive-se nesse
país (**) com a mágoa e o riso;
Quem dele se ausentou treme e maldiz;
Mas aí, eu nele passo a mocidade,
Pois é meu coração esse país!
(*) - No original está narce.
(**) - No original consta e país.
6 Os poetas imitados nesta coleção são todos
contemporâneos. Encontrei-os no livro publicado em 1868 pela
Senhora Judith Walter, distinta viajante que dizem conhecer profundamente
a língua chinesa, e que traduziu em simples e corrente prosa.
7 É do
Sr Antônio Feliciano de Castilho a tradução
desta odezinha, que deu lugar à composição
do meu quadro. Foi imediatamente à leitura da Lírica
de Anacreonte, do imortal autor dos Ciúmes do Bardo, que
eu tive a idéia de pôr em ação a ode
do poeta de Teos, tão portuguesmente saída das mãos
do Sr. Castilho que mais parece original que tradução.
A concha não vale a pérola; mas o delicado da pérola
disfarçará o grosseiro da concha.
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
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