Bernardo
Guimarães
A Escrava Isaura
Capítulo
I
Era nos primeiros
anos do reinado do Sr. D. Pedro II.
No fértil e opulento município de Campos de Goitacases,
à margem
do Paraíba, a pouca distância da vila de Campos, havia uma
linda
e magnífica fazenda.
Era um edifício de harmoniosas proporções, vasto
e luxuoso,
situado em aprazível vargedo ao sopé de elevadas colinas
cobertas
de mata em parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em
derredor a natureza ostentava-se ainda em toda a sua primitiva e selvática
rudeza; mas por perto, em torno da deliciosa vivenda, a mão do
homem tinha convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e
pomares deleitosos, em gramais e pingues pastagens, sombreadas aqui
e acolá por gameleiras gigantescas, perobas, cedros e copaíbas,
que
atestavam o vigor da antiga floresta. Quase não se via aí
muro, cerca,
nem valado; jardim, horta, pomar, pastagens, e plantios circunvizinhos
eram divididos por viçosas e verdejantes sebes de bambus, piteiras,
espinheiros e gravatás, que davam ao todo o aspecto do mais aprazível
e
delicioso vergel.
A casa apresentava a frente às colinas. Entrava-se nela por um
lindo alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se por
uma escada de cantaria de seis a sete degraus. Os fundos eram ocupados
por outros edifícios acessórios, senzalas, pátios,
currais e celeiros, por
trás dos quais se estendia o jardim, a horta, e um imenso pomar,
que ia
perder-se na barranca do grande rio.
Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O Sol não era
ainda posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma
de cores cambiantes orlados de fêveras de ouro. A viração
saturada de
balsâmicos eflúvios se espreguiçava ao longo das ribanceiras
acordando apenas frouxos rumores pela copa dos arvoredos, e fazendo
farfalhar de leve o tope dos coqueiros, que miravam-se garbosos nas
lúcidas e tranqüilas águas da ribeira.
Corria um belo tempo; a vegetação reanimada por moderadas
chuvas ostentava-se fresca, viçosa e luxuriante; a água
do rio ainda não
turvada pelas grandes enchentes, rolando com majestosa lentidão,
refletia
em toda a pureza os esplêndidos coloridos do horizonte, e o nítido
verdor das selvosas ribanceiras. As aves, dando repouso ás asas
fatigadas do contínuo voejar pelos pomares, prados e balsedos vizinhos,
começavam a preludiar seus cantos vespertinos.
O clarão do Sol poente por tal sorte abraseava as vidraças
do
edifício, que esse parecia estar sendo devorado pelas chamas de
um
incêndio interior. Entretanto, quer no interior, quer em derredor,
reinava
fundo silêncio, e perfeita tranqüilidade. Bois truculentos,
e médias novilhas
deitadas pelo gramal, ruminavam tranqüilamente à sombra de
altos troncos. As aves domésticas grazinavam em tomo da casa, balavam
as ovelhas, e mugiam algumas vacas, que vinham por si mesmas procurando
os currais; mas não se ouvia, nem se divisava voz nem figura
humana. Parecia que ali não se achava morador algum. Somente as
vidraças arregaçadas de um grande salão da frente
e os batentes da
porta da entrada, abertos de par em par, denunciavam que nem todos
os habitantes daquela suntuosa propriedade se achavam ausentes.
A favor desse quase silêncio harmonioso da natureza ouvia-se
distintamente o arpejo de um piano casando-se a uma voz de mulher, voz
melodiosa, suave, apaixonada, e do timbre o mais puro e fresco
que se pode imaginar.
Posto que um tanto abafado, o canto tinha uma vibração sonora,
ampla e volumosa, que revelava excelente e vigorosa organização
vocal.
O tom velado e melancólico da cantiga parecia gemido sufocado de
uma alma solitária e sofredora.
Era essa a única voz que quebrava o silêncio da vasta e tranqüila
vivenda. Por fora tudo parecia escutá-la em místico e profundo
recolhimento.
As coplas, que cantava, diziam assim:
Desd'o berço
respirando
Os ares da escravidão,
Como semente lançada
Em terra de maldição,
A vida passo chorando
Minha triste condição.
Os meus braços
estão presos,
A ninguém posso abraçar,
Nem meus lábios, nem meus olhos
Não podem de amor falar;
Deu-me Deus um coração
Somente para penar.
Ao ar livre das campinas
Seu perfume exala a flor;
Canta a aura em liberdade
Do bosque o alado cantor;
Só para a pobre cativa
Não há canções, nem amor.
Cala-te, pobre cativa;
Teus queixumes crimes são;
E uma afronta esse canto,
Que exprime tua aflição.
A vida não te pertence,
Não é teu teu coração.
As notas sentidas
e maviosas daquele cantar escapando pelas
janelas abertas e ecoando ao longe em derredor, dão vontade de
conhecer
a sereia que tão lindamente canta. Se não é sereia,
somente um anjo
pode cantar assim.
Subamos os degraus, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado
de viçosos festões e lindas flores, que serve de vestíbulo
ao edifício.
Entremos sem cerimônia. Logo à direita do corredor encontramos
aberta uma larga porta, que dá entrada à sala de recepção,
vasta e
luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sozinha e sentada ao piano uma
bela e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenham-se
distintamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas
ainda
mais negras do que ele. São tão puras e suaves essas linhas,
que fascinam
os olhos, enlevam a mente, e paralisam toda análise. A tez é
como
o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por
uma
nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve
palidez ou cor-de-rosa
desmaiada. O colo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça
inefável o busto maravilhoso. Os cabelos soltos e fortemente ondulados
se despenham caracolando pelos ombros em espessos e luzidios rolos, e
como franjas negras escondiam quase completamente o dorso da
cadeira, a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como mármore
polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis
misteriosa
lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste
da inspiração.
Tinha a face voltada para as janelas, e o olhar vago pairavalhe pelo espaço.
Os encantos da gentil cantora eram ainda realçados pela singeleza,
e diremos quase pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinária
azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade o
porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda amplas
ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia
a cantora como Vênus nascendo da espuma do mar, ou como um
anjo surgindo dentre brumas vaporosas. Uma pequena cruz de azeviche
presa ao pescoço por uma fita preta constituía o seu único
ornamento.
Apenas terminado o canto, a moça ficou um momento a cismar
com os dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros ecos da
sua canção.
Entretanto abre-se sutilmente a cortina de cassa de uma das portas
interiores, e uma nova personagem penetra no salão. Era também
uma
formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem feita e elegante.
A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e senhoril,
certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos davam-lhe esse ar
pretensioso, que acompanha toda moça bonita e rica, ainda mesmo
quando está sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de grande
senhora
nem por isso sua grande beleza deixava de ficar algum tanto
eclipsada em presença das formas puras e corretas, da nobre singeleza,
e dos tão naturais e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina
era linda, encantadora mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e
alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos
azuis toda a
nativa bondade de seu coração.
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida para junto
da cantora, colocando-se por detrás dela esperou que terminasse
a
última copia.
- Isaura!... disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre
o ombro da cantora.
- Ah! é a senhora?! - respondeu Isaura voltando-se sobressaltada.
- Não sabia que estava aí me escutando.
- Pois que tem isso?.., continua a cantar... tens a voz tão bonita!...
mas eu antes quisera que cantasses outra coisa; por que é que você
gosta
tanto dessa cantiga tão triste, que você aprendeu não
sei onde?...
- Gosto dela, porque acho-a bonita e porque... ah! não devo falar...
- Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder,
e nada
recear de mim?...
- Porque me faz lembrar de minha mãe, que eu não conheci,
coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga, não
a cantarei mais.
- Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar
que és
maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores
bárbaros e
cruéis. Entretanto passas aqui uma vida que faria inveja a muita
gente
livre. Gozas da estima de teus senhores. Deram-te uma educação,
como
não tiveram muitas ricas e ilustres damas que eu conheço.
És formosa,
e tens uma cor linda, que ninguém dirá que gira em tuas
veias uma só
gota de sangue africano. Bem sabes quanto minha boa sogra antes de
expirar te recomendava a mim e a meu marido. Hei de respeitar sempre
as recomendações daquela santa mulher, e tu bem vês,
sou mais tua
amiga do que tua senhora. Oh! não; não cabe em tua boca
essa cantiga
lastimosa, que tanto gostas de cantar. - Não quero, - continuou
em
tom de branda repreensão, - não quero que a cantes mais,
ouviste,
Isaura?... se não, fecho-te o meu piano.
- Mas, senhora, apesar de tudo isso, que sou eu mais do que
uma simples escrava? Essa educação, que me deram, e essa
beleza, que
tanto me gabam, de que me servem?... são trastes de luxo colocados
na
senzala do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que é:
uma
senzala.
- Queixas-te da tua sorte, Isaura?...
- Eu não, senhora; não tenho motivo... o que quero dizer
com
isto é que, apesar de todos esses dotes e vantagens, que me atribuem,
sei conhecer o meu lugar.
- Anda lá; já sei o que te amofina; a tua cantiga bem o
diz. Bonita
como és, não podes deixar de ter algum namorado.
- Eu, senhora!... por quem é, não pense nisso.
- Tu mesma; pois que tem isso?... não te vexes; pois é alguma
coisa do outro mundo? Vamos já, confessa; tens um amante, e é
por
isso que lamentas não teres nascido livre para poder amar aquele
que te
agradou, e a quem caíste em graça, não é assim?...
- Perdoe-me, sinhá Malvina; - replicou a escrava com um cândido
sorriso. - Está muito enganada; estou tão longe de pensar
nisso!
- Qual longe!... não me enganas, minha rapariguinha!... tu amas,
e és mui linda e bem prendada para te inclinares a um escravo;
só se
fosse um escravo, como tu és, o que duvido que haja no mundo. Uma
menina como tu, bem pode conquistar o amor de algum guapo mocetão,
e eis aí a causa da choradeira de tua canção. Mas
não te aflijas,
minha Isaura; eu te protesto que amanhã mesmo terás a tua
liberdade;
deixa Leôncio chegar; é uma vergonha que uma rapariga como
tu se
veja ainda na condição de escrava.
- Deixe-se disso, senhora; eu não penso em amores e muito menos
em liberdade; às vezes fico triste à toa, sem motivo nenhum...
- Não importa. Sou eu quem quero que sejas livre, e hás
de sê-lo.
Neste ponto a conversação foi cortada por um tropel de cavaleiros,
que chegavam e apeavam-se á porta da fazenda.
Malvina e Isaura correram à janela a ver quem eram.
Capitulo
II
Os cavaleiros, que
acabavam de apear-se, eram dois belos e ele-
gantes mancebos, que chegavam da vila de Campos. Do modo familiar,
por que foram entrando, logo se depreendia que era gente de casa.
De feito um era Leôncio, marido de Malvina; e outro Henrique,
irmão da mesma.
Antes de irmos adiante forçoso nos é travar conhecimento
mais
íntimo com os dois jovens cavaleiros.
Leôncio era filho único do rico e magnífico comendador
Almeida,
proprietário da bela e suntuosa fazenda em que nos achamos. O comendador,
já bastante idoso e cheio de enfermidades depois do casamento de
seu filho,
que tivera lugar um ano antes da época em que começa esta
história,
havia-lhe abandonado a administração e usufruto da fazenda,
e vivia na
corte, onde procurava alivio ou distração aos achaques que
o atormentavam.
Leôncio achara desde a infância nas larguezas e facilidades
de seus
pais amplos meios de corromper o coração e extraviar a inteligência.
Mau aluno e criança incorrigível, turbulento e insubordinado,
andou de
colégio em colégio, e passou como gato por brasas por cima
de todos
os preparatórios, cujos exames todavia sempre salvara à
sombra do patronato.
Os mestres não se atreviam a dar ao nobre e munífico comendador
o desgosto
de ver seu filho reprovado. Matriculado na escola de medicina logo no
primeiro
ano enjoou-se daquela disciplina, e como seus pais não sabiam contrariá-lo,
foi-se para Olinda a fim de freqüentar o curso jurídico. Ali
depois de ter dissipado
não pequena porção da fortuna paterna na satisfação
de todos os seus vícios
e loucas fantasias, tomou tédio também aos estudos jurídicos,
e ficou
entendendo que só na Europa poderia desenvolver dignamente a sua
inteligência,
e saciar a sua sede de saber, em puros e abundantes mananciais. Assim
escreveu ao pai, que deu-lhe crédito e o enviou a Paris, donde
esperava
vê-lo voltar feito um novo Humboldt. Instalado naquele vasto pandemônio
do luxo e dos prazeres, Leóncio raras vezes, e só por desfastio,
ia ouvir
as eloqüentes preleções dos exímios professores
da época, e nem tampouco
era visto nos museus, institutos e bibliotecas. Em compensação
era assíduo frequentador do Jardim Mabile, assim como de todos
os
cafés e teatros mais em voga, e tomara-se um dos mais afamados
e
elegantes leões dos bulevares. No fim de alguns anos, ora de residência
em Paris, ora de giros recreativos pelas águas e pelas principais
capitais
da Europa, tinha ele tão copiosa e desapiedadamente sangrado a
bolsa
paterna, que o comendador a despeito de toda a sua condescendência
e ternura para com seu único e querido filho, viu-se na necessidade
de
revocá-lo à sombra dos pátrios lares a fim de evitar
uma completa ruína.
Mas, mesmo assim, para não magoá-lo colhendo-lhe súbita
e rudemente
as rédeas na carreira dos desvarios e dissipações,
assentou de
atraí-lo suavemente acenando-lhe com a perspectiva de um rico e
vantajosíssimo casamento.
Leôncio pegou na isca e voltou à pátria um perfeito
dândi, gentil e
elegante como ninguém, trazendo de suas viagens, em vez de conhecimentos
e experiência, enorme dose de fatuidade e petulância e um
tão
perfeito traquejo da alta sociedade, que o tomaríeis por um príncipe.
Mas o pior era que, se trazia o cérebro vazio, voltava com a alma
corrompida e o coração estragado por hábitos de devassidão
e libertinagem.
Alguns bons e generosos instintos, de que o dotara a natureza,
haviam-se apagado em seu coração ao roçar de péssimas
doutrinas
confirmadas por exemplos ainda piores.
De volta da Europa, Leóncio contava vinte e cinco anos. O pai
advertiu-lhe com palavras insinuantes e jeitosas, que já era tempo
de
empregar-se em alguma coisa, de abraçar alguma carreira; que já
se
tinha aproveitado da bolsa paterna mais do que era preciso para sua
educação, e que era mister ir aprendendo se não a
aumentar, ao menos
a conservar uma fortuna, à testa da qual teria de achar-se mais
tarde ou
mais cedo. Depois de muita hesitação, Leôncio optou
enfim pela
carreira do comércio que lhe pareceu ser a mais independente e
segura de
todas; mas as suas idéias largas e audaciosas a este respeito aterraram
o
bom do comendador. O comércio de importação e exportação
de
gêneros, mesmo em larga escala, o próprio tráfego
de africanos, lhe
pareciam especulações degradantes e impróprias de
sua alta posição
e esmerada educação. O negócio de balcão e
a retalho, esse inspirava-lhe asco
e compaixão. Só lhe convinham as altas especulações
cambiais,
as operações bancárias e transações
em que jogasse com avultados capitais.
Só assim poderia duplicar em pouco tempo a fortuna patema. Com
o
que tinha observado na Bolsa de Paris e em outras praças européias,
presumia-se com habilitação bastante para dirigir as operações
do mais
importante estabelecimento bancário, ou as mais grandiosas empresas
industriais.
O pai porém não se animou a confiar sua fortuna aos azares
especulativos daquele financeiro em botão, e que até ali
só tinha dado provas
de grande talento para consumir, em pouco tempo e em pura
perda, somas consideráveis. Resolveu portanto a não tocar-lhe
mais
naquele assunto, esperando que o mancebo criasse mais algum juízo.
Vendo que seu pai esquecia-se completamente dos planos de
criar-lhe um pecúlio próprio, Leôncio olhou para o
casamento como o meio
suave e natural de adquirir fortuna, como a única carreira que
se lhe
oferecia para ter dinheiro a esbanjar a seu bel-prazer.
Malvina, a formosa filha de um riquíssimo negociante da corte,
amigo do comendador, já estava destinada a Leôncio por comum
acordo e aquiescência dos pais de ambos. A família do comendador
foi
à corte; os moços viram-se, amaram-se e casaram; foi coisa
de poucos
dias. Pouco tempo depois de seu casamento Leôncio passou pelo
desgosto de perder sua mãe por um golpe inesperado. Esta boa e
respeitável senhora não tinha sido muito feliz nas relações
da vida íntima com
seu marido, que, como homem de coração árido e frio,
desconhecia as
santas e puras delícias da afeição conjugal, e com
suas libertinagens e
devassidões dilacerava cotidianamente o coração de
sua esposa. Para
cúmulo de males linha ela perdido ainda na infância todos
os seus filhos,
ficando-lhe só Leôncio. Lastimava-se principalmente por não
ter-lhe
deixado o céu ao menos uma filha, que lhe servisse de companhia
e
consolação em sua desolada velhice. Quis entretanto a sorte
deparar-lhe
em sua própria casa uma tal ou qual compensação a
seus infortúnios
em uma frágil criatura, que veio de alguma sorte encher o vácuo
que
sentia em seu bondoso e terno coração, e tornar menos triste
e solitário
o lar, em que passava os dias tão monótonos e enfadonhos.
Havia nascido em casa uma escravinha, que desde o berço atraiu
por sua graça, gentileza e vivacidade toda a atenção
e solicitude da boa
velha.
Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a
mucama favorita e a criada fiel da esposa do comendador. Este, que
como homem libidinoso e sem escrúpulos olhava as escravas como
um
serralho à sua disposição, lançou olhos cobiçosos
e ardentes de lascívia
sobre a gentil mucama. Por muito tempo resistiu ela ás suas brutais
solicitações; mas por fim teve de ceder às ameaças
e violências. Tão
torpe e bárbaro procedimento não pôde por muito tempo
ficar oculto
aos olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concebeu mortal desgosto.
Acabrunhado por ela das mais violentas e amargas exprobrações,
o
comendador não ousou mais empregar a violência contra a pobre
escrava, e nem tampouco conseguiu jamais por outro qualquer meio
superar a invencível repugnância que lhe inspirava. Enfureceu-se
com
tanta resistência, e deliberou em seu coração perverso
vingar-se da
maneira a mais bárbara e ignóbil, acabrunhando-a de trabalhos
e castigos.
Exilou-a da sala, onde apenas desempenhava levianos e delicados
serviços, para a senzala e os fragueiros trabalhos da roça,
recomendando
bem ao feitor que não lhe poupasse serviço nem castigo.
O feitor,
porém, que era um bom português ainda no vigor dos anos,
e que não
tinha as entranhas tão empedernidas como o seu patrão, seduzido
pelos
encantos da mulata, em vez de trabalho e surras, só lhe dava carícias
e
presentes, de maneira que daí a algum tempo a mulata deu à
luz da
vida a gentil escravinha, de que falamos. Este fato veio exacerbar ainda
mais a sanha do comendador contra a mísera escrava. Expeliu com
impropérios e ameaças o bom e fiel feitor, e sujeitou a
mulata a tão
rudes trabalhos e tão cruel tratamento, que em breve a precipitou
no
túmulo, antes que pudesse acabar de criar sua tenra e mimosa filhinha.
Eis aí debaixo de que tristes auspícios nasceu a linda e
infeliz
Isaura. Todavia, como para indenizá-la de tamanha desventura, uma
santa
mulher, um anjo de bondade, curvou-se sobre o berço da pobre criança
e veio ampará-la à sombra de suas asas caridosas. A mulher
do comendador
considerou aquela tenra e formosa cria como um mimo, que o
céu lhe enviava para consolá-la das angústias e dissabores,
que
tragava em conseqüência dos torpes desmandos de seu devasso
marido.
Levantou ao céu os olhos banhados em lágrimas, e jurou pela
alma da
infeliz mulata encarregar-se do futuro de Isaura. criá-la e educá-la,
como se fosse uma filha.
Assim o cumpriu com o mais religioso escrúpulo. À medida
que a
menina foi crescendo e entrando em idade de aprender, foi-lhe ela
mesma ensinando a ler e escrever, a coser e a rezar. Mais tarde
procurou-lhe também mestres de música, de dança,
de italiano, de
francês, de desenho, comprou-lhe livros, e empenhou-se enfim em
dar à
menina a mais esmerada e fina educação, como o faria para
com uma filha
querida. Isaura, por sua parte, não só pelo desenvolvimento
de suas
graças e atrativos corporais, como pelos rápidos progressos
de sua viva
e robusta inteligência, foi muito além das mais exageradas
esperanças
da excelente velha, a qual em vista de tão felizes e brilhantes
resultados,
cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquela jóia, que
ela dizia
ser a pérola entrançada em seus cabelos brancos. - O céu
não quis
dar-me uma filha de minhas entranhas, - costumava ela dizer, - mas
em compensação deu-me uma filha de minha alma.
O que porém mais era de admirar na interessante menina, é
que
aquela predileção e extremosa solicitude de que era objeto,
não a tornava
impertinente, vaidosa ou arrogante nem mesmo para com seus
parceiros de cativeiro. O mimo, com que era tratada, em nada lhe alterava
a natural bondade e candura do coração. Era sempre alegre
e boa
com os escravos, dócil e submissa com os senhores.
O comendador não gostava nada do singular capricho de sua
esposa para com a mulatinha, capricho que qualificava de caduquice.
- Forte loucura! - costumava exclamar com acento de comiseração.
- Está ai se esmerando em criar uma formidável tafulona,
que lá
pelo tempo adiante há de lhe dar água pela barba. As velhas,
umas dão
para rezar, outras para ralhar desde a manhã até à
noite, outras para
lavar cachorrinhos ou para criar pintos; esta deu para criar mulatinhas
princesas. É um divertimento um pouco mais dispendioso na verdade;
mas.., que lhe faça bom proveito; ao menos enquanto se entretém
por
lá com o seu embeleco, poupa-me uma boa dúzia de impertinentes
e
rabugentos sermões... Lá se avenha!...
Poucos dias depois do casamento de Leôncio, o comendador, com
toda a família, inclusive os dois novos desposados, transportou-se
de
novo para a fazenda de Campos. Foi então que o comendador entregou
a seu filho toda a administração e usufruto daquela propriedade,
com toda a escravatura e mais acessórios nela existentes, declarando-lhe
que achando-se já bastante velho, enfermo e cansado, queria passar
tranqüilamente o resto de seus dias livre de afazeres e preocupações,
para o que bastavam-lhe com sobejidão as rendas que para si
reservava. Feita em vida esta magnífica dotação a
seu filho, retirou-se para a
corte. Sua esposa porém preferiu ficar em companhia do filho, o
que foi
muito do gosto e aprovação do marido.
Malvina, que apesar da sua vaidade aristocrática tinha alma cândida
e boa, e um coração bem formado, não pôde deixar
de conceber logo
desde o principio o mais vivo interesse e terna afeição
pela cativa Isaura.
Era esta com efeito de índole tão bondosa e fagueira, tão
dócil, modesta e submissa,
que apesar de sua grande beleza e incontestáveis dotes de espírito,
conquistava
logo ao primeiro encontro a benevolência de todos.
Isaura tornou-se imediatamente, não direi a mucama favorita, mas
a fiel companheira, a amiga de Malvina que, afeita aos prazeres
e passatempos da corte, muito folgou de encontrar tão boa e amável
companhia na solidão que ia habitar.
- Por que razão não libertam esta menina? - dizia ela um
dia à
sua sogra. - Uma tão boa e interessante criatura não nasceu
para ser escrava.
- Tem razão, minha filha, - respondeu bondosamente a velha;
- mas que quer você?... não tenho ânimo de soltar este
passarinho
que o céu me deu para me consolar e tornar mais suportáveis
as
pesadas e compridas horas da velhice.
E também libertá-la para quê? Ela aqui é livre,
mais livre do
que eu mesma, coitada de mim, que já não tenho gostos na
vida nem
forças para gozar da liberdade. Quer que eu solte a minha patativa?
e
se ela transviar-se por aí, e nunca mais acertar com a porta da
gaiola?... Não,
não, minha filha; enquanto eu for viva, quero tê-la sempre
bem
pertinho de mim, quero que seja minha, e minha só. Você há
de estar
dizendo lá consigo - forte egoísmo de velha! - mas também
eu já
poucos dias terei de vida; o sacrifício não será
grande. Por minha morte
ficará livre, e eu terei o cuidado de deixar-lhe um bom legado.
De feito, a boa velha tentou por diversas vezes escrever seu
testamento a fim de garantir o futuro de sua escravinha, de sua querida
pupila; mas o comendador, auxiliado por seu filho com delongas
e fúteis pretextos, conseguia ir sempre adiando a satisfação
do louvável e
santo desejo de sua esposa, até o dia em que, fulminada por um
ataque
de paralisia geral, ela sucumbiu em poucas horas sem ter tido um só
momento de lucidez e reanimação para expressar sua última
vontade.
Malvina jurou sobre o cadáver de sua sogra continuar para com a
infeliz escrava a mesma proteção e solicitude que a defunta
lhe havia
prodigalizado. Isaura pranteou por muito tempo a morte daquela que
havia sido para ela mãe desvelada e carinhosa; e continuou a ser
escrava
não já de uma boa e virtuosa senhora, mas de senhores caprichosos,
devassos e cruéis.
|