Bernardo
Guimarães
A Escrava Isaura
Capítulo XXI
- Então, Leôncio,
- dizia Malvina a seu esposo no outro dia
pela manhã, - deste as providências necessárias para
arranjar-se esse
negócio hoje mesmo?
- Creio que é a centésima vez que me fazes essa pergunta,
Malvina, - respondeu Leôncio sorrindo-se. - Todavia pela centésima
vez
te responderei também, que as providências que estão
da minha parte,
já foram todas dadas. Ontem mesmo mandei um próprio a Campos,
e
não tardarão a chegar por aí o tabelião para
passar escritura
de liberdade a Isaura com toda a solenidade, e também o padre para
celebrar o casamento. Bem vês que de nada me esqueci. Tratem de
estar
todos prontos; e tu, Malvina, manda já preparar a capela para se
efetuar esse casamento, que pareces desejar com mais ardor, - acrescentou
sorrindo, - do que desejaste o teu próprio.
Malvina saiu do salão, deixando Leôncio em companhia de um
terceiro personagem, que também ali se achava, por nome Jorge,
a
quem o leitor ainda não conhece. Dizendo que era um parasita, ainda
não temos dito tudo.
Este gênero contém muitas variedades, e mesmo cada individuo
tem sua cor e feição particular. Era um homem bem apessoado,
espirituoso serviçal, cheio de cortesia e amabilidade, condições
indispensáveis a um bom parasita. Jorge não vivia da seiva
e da sombra de
uma só árvore; saltava de uma a outra, e assim peregrinava
por
longas distâncias, o que era da sua parte um excelente cálculo,
pois
proporcionava-lhe uma vida mais variada e recreativa, ao mesmo tempo que
tornava sua companhia menos incômoda e fatigante aos seus numerosos
amigos. Conhecia e entretinha relações de amizade com todos
os
fazendeiros das margens do Paraíba desde São João
da Barra até São
Fidélis. A crer no que dizia, andava sempre cheio de afazeres e
dando andamento a mil negócios importantes, mas estava sempre pronto
a
prescindir deles a convite de qualquer desses amigos para passar
uns oito ou quinze dias em sua companhia.
Na solidão em que Leôncio se achou depois de seu rompimento
com Malvina, Jorge foi para ele um excelente recurso quando se achava
na fazenda. Servia-lhe de companheiro não só à mesa,
como ao jogo e
à caça: entretinha-o a contar-lhe anedotas divertidas e
escandalosas,
aplaudia-lhe os desvarios e extravagâncias, e lisonjeava-lhe as
ruins
paixões, enquanto Leôncio, que o acreditava realmente um
amigo, fazia
dele o seu confidente, e comunicava-lhe os seus mais íntimos
pensamentos, os seus planos de perversidade, e os mais secretos
negócios de família.
Para melhor entrarmos no mistério dos planos atrozes e ignóbeis,
das satânicas maquinações de Leôncio, ouçamos
a conversação íntima,
que vão tratar estes dois entes dignos um do outro.
- Até que por fim, Jorge, achei um meio engenhoso e seguro de
aplanar todas as dificuldades. Desta maneira espero que tudo se vai
arranjar ás mil maravilhas.
- Seguramente, e já de antemão te dou os parabéns
pelos teus
triunfos, e aplaudo-te pela feliz combinação de teus planos.
- Mas escuta ainda para melhor poderes compreendê-los. Com
este casamento ficam satisfeitos os desejos de minha mulher, sem que
Isaura escape de todo ao meu poder. Como o pai dela está debaixo
de
minha restrita dependência, eu saberei reter junto de mim esse estúpido
jardineiro com quem caso-a, e depois... tu bem sabes, o tempo e a
perseverança amansam as feras mais bravias. Entretanto a atrevida
escrava receberá o castigo que merece sua inqualificável
rebeldia. Era-me
absolutamente necessário dar este passo, porque minha mulher
recusa-se obstinadamente a reconciliar-se comigo, enquanto eu conservar
Isaura cativa em meu poder, capricho de mulher, com que bem pouco
me importaria, se não fosse... - isto aqui entre nós, meu
amigo; confio
em tua discrição.
- Podes falar sem susto, que meu coração é como um
túmulo
para o segredo da amizade.
- Bem; dizia-te eu, que bem pouco me importaria com os arrufos
e caprichos de minha mulher, se não fosse o completo desarranjo
em
que desgraçadamente vão os meus negócios. Em conseqüência
de uma
infinidade de circunstâncias, que é escusado agora explicar-te,
a minha
fortuna está ameaçada de levar um baque horrendo, do qual
não sei se
me será possível levantá-la sem auxilio estranho.
Ora meu sogro é o
único que com o auxilio de seu dinheiro ou de seu crédito
pode ainda
escorar o edifício de minha fortuna prestes a desabar.
- Em verdade procedes com tino e prudência consumada. Oh!
teu sogro!... conheço-o muito; é uma fortuna sólida,
e uma das casas
mais fortes do Rio de Janeiro; teu sogro não te deixará
ficar mal. Quer
extremosamente à filha, e não quererá ver arruinado
o marido dela.
- Disso estou eu certo. Mas isto ainda não é tudo; escuta
ainda,
Jorge. O meu rival, esse tal senhor Álvaro, que tanto cobiçou
a minha
Isaura para sua amizade, que não teve pejo de seduzi-la, acoutá-la
e
protegê-la pública e escandalosamente no Recife, esse grotesco
campeão da liberdade das escravas alheias, que protestou me disputar
Isaura a todo o risco, ficará de uma vez para sempre desenganado
de
sua estulta pretensão. Vê pois, Jorge, quantos interesses
e vantagens se
conciliam no simples fato desse casamento.
- Plano admirável na verdade, Leôncio! - exclamou Jorge enfaticamente.
- Tens um tino superior, e uma inteligência sutil e fértil
em
recursos!., se te desses á política, asseguro-te que farias
um papel
eminente; serias um estadista consumado. Esse Dom Quixote de nova
espécie, amparo da liberdade das escravas alheias, quando são
bonitas,
não achará senão moinhos de vento a combater. Muito
havemos de
nos rir de seu desapontamento, se lhe der na cabeça continuar sua
burlesca aventura.
- Creio que nessa não cairá ele; mas se por cá aparecesse,
muito
tínhamos que debicá-lo.
- Meu senhor, - disse André entrando na sala, - aí estão
na
porta uns cavalheiros, que pedem licença para apear e entrar.
- Ah! já sei, - disse Leôncio, - são eles, são
as pessoas que
mandei chamar; o vigário, o tabelião e mais outros... bom!
já não nos
falta tudo. Vieram mais depressa do que eu esperava. Manda-os apear e
entrar, André.
André sai, Leôncio toca uma campainha, e aparece Rosa.
- Rosa, diz-lhe ele, - vai já chamar sinhá Malvina e Isaura,
e o
senhor Miguel e Belchior. Já devem estar prontos; precisa-se aqui
já da
presença de todos eles.
- Estou aflito por ver o fim a esta farsa, - disse Leôncio a seu
amigo, - mas quero que ela se represente com certo aparato e solenidade,
para inculcar que tenho grande prazer em satisfazer o capricho de
Malvina e melhor iludir a sua credulidade; mas - fique isto aqui entre
nós, - este casamento não passa de uma burla. Tenho toda
a certeza
de que Isaura despreza do fundo d'alma esse miserável idiota, que
só
em nome será seu marido. Entretanto ficarei me aguardando para
melhores tempos, e espero que o meu plano surtirá o desejado
efeito.
- Cá por mim não tenho a menor dúvida a respeito
do resultado
de um plano tão maravilhosamente combinado.
Mal Jorge acabava de pronunciar estas palavras, apareceu à porta
do salão um belo e jovem cavalheiro, em elegantes trajos de viagem,
acompanhado de mais três ou quatro pessoas. Lêoncio, que já
ia
pressuroso recebê-los e cumprimentá-los, estacou de repente.
-Oh!... não são quem eu esperava!... murmurou consigo. -
Se
me não engano... é Álvaro!...
- Senhor Leôncio! - disse o cavalheiro cumprimentando-o.
- Senhor Álvaro, - respondeu Leôncio, - pois creio que é
a
esse senhor, que tenho a honra de receber em minha casa.
- É ele mesmo, senhor; um seu criado.
- Ah! muito estimo... não o esperava... queira sentar-se... quis
então vir dar um passeio cá pelas nossas províncias
do Sul?...
Estas e outras frases banais dizia Leôncio, procurando refazer-se
da
perturbação em que o lançara a súbita e inesperada
aparição de Álvaro
naquele momento crítico e solene.
No mesmo momento entravam no salão por uma porta interior
Malvina, Isaura, Miguel e Belchior. Vinham já preparados com os
competentes trajos para a cerimônia do casamento.
- Meu Deus!... o que estou vendo!... - murmurou Isaura, sacudindo
vivamente o braço de Miguel: - estarei enganada?... não...
é ele.
- É ele mesmo... Deus!... como é possível?
- Oh! - exclamou Isaura; e nesta simples interjeição, que
exalou
como um suspiro, expressava o desafogo de um pego de angústias,
que
lhe pesava sobre o coração. Quem de perto a olhasse com
atenção
veria um leve rubor naquele rosto, que a dor e os sofrimentos pareciam
ter condenado a uma eterna e marmórea palidez; era a aurora da
esperança, cujo primeiro e tímido arrebol assomava nas faces
daquela,
cuja existência naquele momento ia sepultar-se nas sombras de um
lúgubre ocaso.
- Não esperava pela honra de recebê-lo hoje nesta sua casa,
-
continuou Leôncio recobrando gradualmente o seu sangue-frio e seu
ar
arrogante. - Entretanto há de permitir que me felicite a mim e
ao
senhor por tão oportuna visita. A chegada de V. S.a. hoje nesta
casa
parece um acontecimento auspicioso, e até providencial.
- Sim?!... muito folgo com isso..,.mas não terá V. S.a.
a bondade
de dizer por quê?...
- Com muito gosto. Saiba que aquela sua protegida, aquela
escrava, por quem fez tantos extremos em Pernambuco, vai ser hoje
mesmo libertada e casada com um homem de bem. Chegou V. S.a.
mesmo a ponto de presenciar com os seus próprios olhos a realização
dos filantrópicos desejos, que tinha a respeito da dita escrava,
e eu da
minha parte muito folgarei se V. S.a. quiser assistir a esse ato, que
ainda
mais solene se tornará com a sua presença.
- E quem a liberta? - perguntou Álvaro sorrindo-se sardonicamente.
- Quem mais senão eu, que sou seu legitimo senhor? - respondeu
Leôncio com altiva seguridade.
- Pois declaro-lhe, que o não pode fazer, senhor: - disse Álvaro
com firmeza. - Essa escrava não lhe pertence mais.
- Não me pertence!... - bradou Leôncio levantando-se de um
salto, - o senhor delira ou está escarnecendo?...
- Nem uma, nem outra coisa, - respondeu Álvaro com toda a
calma: - repito-lhe; essa escrava não lhe pertence mais.
- E quem se atreve a esbulhar-me do direito que tenho sobre ela?
- Os seus credores, senhor, - replicou Álvaro, sempre com a
mesma firmeza e sangue-frio. - Esta fazenda com todos os escravos,
esta casa com seus ricos móveis, e sua baixela, nada disto lhe
pertence
mais; de hoje em diante o senhor não pode dispor aqui nem do mais
insignificante objeto. Veja, - continuou mostrando-lhe um maço
de
papéis, - aqui tenho em minhas mãos toda a sua fortuna.
O seu passivo
excede extraordinariamente a todos os seus haveres; sua ruína é
completa e irremediável, e a execução de todos os
seus bens vai lhe ser
imediatamente intimada.
A um aceno de Álvaro, o escrivão que o acompanhava apresentou
a Leôncio o mandado de seqüestro e execução de
seus bens. Leôncio,
arrebatando o papel com mão trêmula, passeou rapidamente
por ele os
olhos faiscantes de cólera.
- Pois quê! - exclamou ele, - é assim violenta e atropeladamente
que se fazem estas coisas! porventura não posso obter alguma
moratória, e salvar minha honra e meus bens por outro qualquer
meio?...
- Seus credores já usaram para com o senhor de todas as
condescendências e contemporizações possíveis.
Saiba ainda demais,
que hoje sou eu o principal, se não o único credor seu;
pertencem-me, e
estão em minhas mãos quase todos os seus títulos
de dívida, e eu não
estou de ânimo a admitir transações nem protelações
de natureza alguma.
Dar seus bens a inventário eis o que lhe cumpre fazer; toda e
qualquer evasiva que tentar será inútil.
- Maldição! - bradou Leôncio, batendo com o pé
no chão e
arrancando os cabelos.
- Meu Deus!... meu Deus!... que desgraça!... e que... vergonha!...
exclamou Malvina, soluçando.
Capítulo XXII
Deixemos por um momento suspensa a cena do capítulo antecedente,
e interrompido o diálogo entre os dois mancebos. Eles ai
ficam
em face um do outro, como o leão altivo e magnânimo
tendo subjugado
o tigre daninho e traiçoeiro, que rosna em vão debaixo
das possantes garras
de seu antagonista. É-nos preciso explicar por que série
de circunstâncias
Álvaro veio aparecer em casa do senhor de Isaura, a ponto
de vir burlar os
seus planos atrozes, mesmo no momento em que iam ter final execução.
Depois que Isaura lhe fora arrebatada, Álvaro caiu na mais
acerba
prostração de ânimo.
Ferido em seu orgulho, esbulhado do objeto de seu amor, escarnecido
e vilipendiado pela arrogância de um insolente escravocrata,
entregou-se ao
mais sombrio desespero. Mal soube o seu revés, o Dr. Geraldo
correu em socorro
daquela nobre alma tão cruelmente golpeada pelo destino.
Graças aos cuidados
e conselhos daquele tão solícito quão inteligente
amigo, a dor de Álvaro foi-se
tornando mais calma e resignada. Por suas exortações
Álvaro chegou mesmo a
convencer-se que o melhor partido que lhe ficava a tomar nas difíceis
conjunturas
em que se achava, era procurar esquecer-se de Isaura.
Todo o esforço que fizeres, - dizia-lhe o amigo, - em favor
da liberdade de Isaura, será rematada loucura, que não
terá outro resultado
senão envolver-te em novas dificuldades, cobrindo-te de ridículo
e
de humilhação. Já passaste por duas decepções
bem cruéis, a do baile,
e esta última ainda mais triste e humilhante. Quase te fizeste
réu de
polícia, querendo disputar uma escrava a seu legítimo
senhor. Pois bem;
as seguintes serão ainda piores, eu te asseguro, e te farão
ir rolando de
abismo em abismo até tua completa perdição.
Atendendo a estas e mil outras considerações de Geraldo,
Àlvaro
procurou firmar o espírito e a vontade no propósito
de renunciar ao seu
amor, e a todas as suas pretensões filantrópicas sobre
Isaura. Foi debalde.
Depois de um mês de luta consigo mesmo, de sempre frustradas
veleidades de revolta contra os impulsos do coração,
Álvaro sentiu-se
fraco, e compreendeu que semelhante tentativa era uma luta insensata
contra a força onipotente do destino. Embalde procurou, já
nas graves
ocupações do espírito, já nas distrações
frívolas da sociedade, um meio
de apagar da lembrança a imagem da gentil cativa. Ela lhe
estava sempre
presente em todos os sonhos d'alma, ora resplendente de beleza e
graça, donosa e sedutora como na noite do baile, ora pálida
e abatida,
vergada ao peso de seu infortúnio, com os pulsos algemados,
cravando
nele os olhos suplicantes como que a dizer-lhe:
- Vem, não me abandones; só tu podes quebrar estes
ferros que
me oprimem.
O espírito de Álvaro firmou-se por fim na íntima
e inabalável
convicção de que o céu, pondo em contato o
seu destino com o daquela
encantadora e infeliz escrava, tivera um desígnio providencial,
e o
escolhera para instrumento da nobre e generosa missão de
arrebatá-la à
escravidão, e dar-lhe na sociedade o elevado lugar que por
sua beleza,
virtudes e talentos, lhe competia.
Resolveu-se portanto, fosse qual fosse o resultado, a prosseguir
nessa generosa tentativa, com a cegueira do fanatismo, senão
com o
arrastamento de uma inspiração providencial.
Álvaro partiu para o Rio de Janeiro. Ia ao acaso, sem plano
nenhum formado, sem bem saber o que devia fazer para chegar aos
seus
fins; mas tinha como uma intuição vaga de que o céu
lhe depararia
ocasião e meios de levar a cabo a sua empresa. O que queria
em
primeiro lugar era colocar-se nas vizinhanças de Leôncio,
a fim de
poder colher informações e investigar se porventura
algum recurso haveria
para obrigar o senhor de Isaura a manumiti-la.
Desembarcou na corte com o fim de dirigir-se brevemente para
Campos. Antes porém de partir para seu destino, procurou
colher entre
as pessoas do comércio algumas informações
a respeito de Leôncio.
- Oh! conheço muito esse sujeito, - disse logo o primeiro
negociante, a quem Álvaro se dirigiu. - Esse moço
está falido, e em
completa ruína. Se V. S.ª também é credor
dele, pode pôr as suas barbas
de molho, porque as dos vizinhos estão a arder. Essa casa
bem liquida,
mal dará para um rateio, em que toque cinquenta por cento
a cada credor.
Esta revelação foi para Álvaro como um relâmpago
que se abre aos
olhos do viandante extraviado em noite tormentosa, mostrando-lhe
de
repente e bem ao perto o albergue hospitaleiro que demanda.
- E V. S.ª porventura é também credor desse fazendeiro?
- perguntou Álvaro.
- Infelizmente, e um dos principais...
- E a quanto montará a fortuna do tal Leôncio?
- A menos de nada, presentemente, pois como já lhe disse,
o seu
passivo excede talvez em mais do dobro a todos os seus bens.
- Mas esse passivo mesmo, em que soma é calculado pouco mais
ou menos?
- Calcula-se aproximadamente em quatrocentos e tantos a quinhentos
contos, enquanto que a fazenda de Campos, com escravos e todos os
mais
acessórios, não excederá talvez a duzentos.
Já temos tido com esse fazendeiro
todas as atenções possíveis, e lhe temos dado
mais moratórias do que a lei
concede; não somos obrigados a mais, e agora estamos resolvidos
a cair-lhe
em cima com a execução.
- E quais são os outros credores? V. S.ª quererá
indicar-mos?
- E por que não? - respondeu o negociante, e passou a indicar
a Álvaro os nomes e moradas dos demais credores.
De feito, a casa de Leôncio, já desde os últimos
anos da vida de
seu pai, ia em contínuo regresso e desmantelamento. O velho
comendador, entregando-se no último quartel da vida a excessos
e
devassidões, que nem na mocidade são desculpáveis,
vivendo quase sempre
na corte, e deixando quase em completo abandono a administração
da fazenda, havia já esbanjado não pequena porção
de sua fortuna.
Por efeito da má administração, não
só as safras começaram a escassear
consideravelmente, como também o número de escravos
foi-se reduzindo
pela morte e pelas freqüentes fugas, sem que tanto o comendador
como seu filho deixassem de substituí-los por outros novos,
que iam
comprando a prazo, tornando cada vez mais pesado o ônus das
dívidas.
Depois da morte do comendador, as coisas foram de mal a pior.
Leôncio, com a educação e a índole que
lhe conhecemos, era o homem menos
próprio possível para dirigir e explorar um grande
estabelecimento agrícola.
Seus desvarios e extravagâncias, e por último sua nefasta
e insensata
paixão por Isaura, fizeram-no perder de todo a cabeça,
arrojando-se em um plano
inclinado de despesas ruinosas, sem cálculo nem previsão
alguma. Com os
enormes dispêndios que teve de fazer em conseqüência
da fuga de Isaura,
mandando procurá-la por todos os cantos do império,
acabou de cavar o
abismo de sua ruína. Em pouco tempo o jovem fazendeiro estava
de todo
insolvável, sem um real em caixa, e com uma multidão
de letras protestadas
na carteira de seus credores. Quando estes acordaram e se lembraram
de lhe
abrir a falência e executar os seus bens, compreenderam que
mal poderiam
embolsar-se da metade do que lhes era devido, e, portanto, trataram
com
sofreguidão de promover os meios executivos, antes que o
mal fosse a mais.
Depois de conferenciar com os credores de Leôncio, propôs-lhes
a
compra de todos os seus créditos pela metade do seu valor.
Para evitar
qualquer odiosidade, que semelhante procedimento pudesse acarretar
sobre sua pessoa, declarou-lhes que nenhuma intenção
tinha de vexar
nem oprimir o infeliz fazendeiro, que pelo contrário era
seu intuito
protegê-lo e livrá-lo do vexame de uma rigorosa execução
judicial,
e deixá-lo ao abrigo da miséria. E realmente, a despeito
da aversão e
desprezo que Leôncio lhe merecia, Álvaro não
pretendia levar ao último
extremo os meios de vingança, que por um acaso as circunstâncias
tinham
posto em suas mãos. Era ele dez vezes mais rico do que o
seu adversário, e
de muito bom grado, se não houvesse outro recurso, por um
contrato
amigável daria uma soma igual a toda a fortuna deste, pela
liberdade de
Isaura.
Agora, que o destino vinha pôr em suas mãos toda a
fortuna desse
adversário caprichoso, arrogante e desalmado, Álvaro,
sempre generoso,
nem por isso desejava vê-lo reduzido à miséria.
Os credores não hesitaram um momento em aceitar a proposta.
Com razão preferiram saldar suas contas por um modo fácil
e expedito,
em dinheiro contado, recebendo a metade, do que sujeitando-se às
despesas, delongas e dificuldades de uma execução
em escravos e bens
de raiz, quando nenhuma probabilidade havia de que no rateio
pudessem obter mais de metade.
Senhor de todos os títulos de divida de Leôncio, isto
é, de
toda a sua fortuna, Álvaro partiu para Campos a fim de promover
por sua
conta a execução dos bens do mesmo, e munido de todos
os papéis e
documentos, acompanhado de um escrivão e dois oficiais de
justiça,
apresentou-se em pessoa em casa de Leôncio para intimar-lhe
em
pessoa a sentença de sua perdição.
- Oh! maldição! - exclamara Leôncio, arrancando
os cabelos em
desespero, depois que ouvira dos lábios de Álvaro
aquele arresto esmagador.
Atordoado e quase louco com a violência do golpe, ia sair
correndo pela porta
a fora.
- Espere ainda, senhor, - disse Álvaro detendo-o pelo braço.
-
Agora quanto à escrava de que há pouco se falava,
o que pretendia
fazer dela?
- Libertá-la, já lhe disse, - respondeu Leôncio
com rudeza.
- E mais alguma coisa; creio que também me disse que ia casá-la;
e, desculpe-me a pergunta, haveria para isso consentimento da parte
dela?
- Oh! não! não!... eu era arrastada, senhor! - exclamou
Isaura
resolutamente.
- É verdade, senhor Álvaro, - atalhou Miguel, ela
ia casar-se,
por assim dizer, forçada. O senhor Leôncio, como condição
da
liberdade dela obrigava-a a casar-se com aquele pobre homem que
V. S.ª
ali vê.
- Com aquele homem?! - exclamou Álvaro cheio de pasmo e
indignação, olhando para o homúnculo que Miguel
lhe indicava com o
dedo.
- Sim, senhor, - continuou Miguel, - e se ela não se sujeitasse
a esse casamento, teria de passar o resto da vida presa em um quarto
escuro, incomunicável, com o pé enfiado em uma grossa
corrente,
como tem vivido desde que veio do Recife até o dia de hoje...
- Verdugo! - bradou Álvaro, não podendo mais sopear
sua
indignação. - A mão da justiça divina
pesa enfim sobre ti para punir tuas
monstruosas atrocidades!
- O que vergonha!.., que opróbrio, meu Deus! - exclamou Malvina,
debruçando-se a uma mesa, e escondendo o rosto entre as mãos.
- Pobre Isaura! - disse Álvaro com voz comovida, estendendo
os braços à cativa. - Chega-te a mim... Eu protestei
no fundo de minha
alma e por minha honra desafrontar-te do jugo opressor e aviltante,
que te esmagava, porque via em ti a pureza de um anjo, e a nobre
e
altiva resignação da mártir. Foi uma missão
santa, que julgo ter recebido
do céu, e que hoje vejo coroada do mais feliz e completo
resultado.
Deus enfim, por minhas mãos vinga a inocência e a virtude
oprimida, e
esmaga o algoz.
- Deixe-se de blasonar, senhor! - gritou Leôncio agitando-se
em
gesticulações de furor: - isto não passa de
uma infâmia, uma traição, e
ladroeira...
- Isaura! - continuou Álvaro com voz sempre firme e grave:
-
se esse algoz ainda há pouco tinha em suas mãos a
tua liberdade e a
tua vida, e não tas cedia senão com a condição
de desposares um ente
disforme e desprezível, agora tens nas tuas a sua propriedade;
sim, que
as tenho nas minhas, e as passo para as tuas. Isaura, tu és
hoje a
senhora, e ele o escravo; se não quiser mendigar o pão,
há de recorrer à
nossa generosidade.
- Senhor! - exclamou Isaura correndo a lançar-se aos pés
de
Álvaro; - oh! quanto sois bom e generoso para com esta infeliz
escrava!... mas em nome dessa mesma generosidade, de joelhos eu
vos
peço, perdão! perdão para eles...
- Levanta-te, mulher generosa e sublime! - disse Álvaro estendo-lhe
as mãos para levantar-se. - Levanta-te, Isaura; não
é a meus pés, mas sim em
meus braços, aqui bem perto do meu coração,
que te deves lançar, pois a
despeito de todos os preconceitos do mundo, eu me julgo o mais feliz
dos
mortais em poder oferecer-te a mão de esposo!...
- Senhor, - bradou Leôncio com os lábios espumantes
e os
olhos desvairados, - aí tendes tudo quanto possuo; pode saciar
sua
vingança, mas eu lhe juro, nunca há de ter o prazer
de ver-me implorar
a sua generosidade.
E dizendo isto entrou arrebatadamente em uma alcova contígua
à
sala.
- Leôncio! Leôncio!... onde vais! - exclamou Malvina
precipitando-se
para ele; mal, porém, havia ela chegado à porta, ouviu-se
a explosão atroadora
de um tiro.
- Ai!... - gritou Malvina, e caiu redondamente em terra.
Leôncio tinha-se rebentado o crânio com um tiro de pistola.
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